Resumo
A proposta deste nosso artigo é analisar dois romances gráficos brasileiros de temática biográfica idealizados por Clarice Hoffmann. O primeiro, O obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019), tem roteiro de Hoffmann e Abel Alencar, e artes de Greg Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro e Clara Moreira; o segundo, Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), também tem roteiro de Hoffmann, com desenhos de Greg Vieira. A abordagem de Hoffmann em seus trabalhos em quadrinhos passa por não apresentar biografias lineares e conteudistas, mas em trazer obras que pincelem momentos dos biografados, dando a conhecer um pouco do ambiente e da vivência daquelas pessoas. Nossa análise desses livros parte de um pequeno histórico dos quadrinhos biográficos no Brasil, para, em seguida, contextualizar os dois livros mencionados.
Palavras-chave:
história em quadrinhos; biografia; Clarice Lispector; Clarice Hoffmann
Abstract
The aim of this article is to analyze two Brazilian graphic novels with biographical themes, both conceived by Clarice Hoffmann. The first, O obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019), features a script by Hoffmann and Abel Alencar, with artwork by Greg Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro, and Clara Moreira. The second, Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), also scripted by Hoffmann, includes illustrations by Greg Vieira. Hoffmann’s approach to her comic book works avoids linear, content-driven biographies; instead, she crafts narratives that highlight select moments in the lives of her subjects, offering glimpses into their environments and personal experiences. Our analysis of these books begins with a brief history of biographical comics in Brazil, followed by a contextualization of the two works.
Keywords:
comics; biography; Clarice Lispector; Clarice Hoffmann
Resumen
El objetivo de este artículo es analizar dos novelas gráficas brasileñas de temática biográfica concebidas por Clarice Hoffmann. La primera, O obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019), cuenta con un guión de Hoffmann y Abel Alencar, y arte de Greg Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro y Clara Moreira. La segunda, Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), también con guión de Hoffmann, incluye ilustraciones de Greg Vieira. El enfoque de Hoffmann en sus obras evita biografías lineales y centradas en datos; en cambio, construye narrativas que destacan momentos selectos de la vida de sus sujetos, ofreciendo una visión de sus entornos y experiencias personales. Nuestro análisis de estos libros comienza con una breve historia del cómic biográfico en Brasil, seguida de una contextualización de las dos obras.
Palabras-clave:
comics; biografía; Clarice Lispector; Clarice Hoffmann
Introdução
As histórias de vida não são algo estranho aos quadrinhos: Maus, Persépolis, Fun home são algumas das narrativas cujas vidas de seus autores foram matéria para a costura ficcional, e se tornaram romances gráficos bastante representativos. Porém, enquanto as autobiografias tornaram-se um gênero importante nos quadrinhos, as biografias ainda parecem direcionadas, em sua maioria, a uma abordagem mais didática, para a ilustração de grandes vultos da História. Nossa proposta, neste artigo, é verificar de que forma dois quadrinhos contemporâneos biográficos aproximam-se de documentos, fotografias e cartografias para desenvolver projetos poéticos de descrever o outro. Para isso, vamos apresentar um pouco da relação entre quadrinhos e biografias em nosso país e, em seguida, dedicarmo-nos à análise de duas obras biográficas produzidas pela mesma roteirista, Clarice Hoffmann. Mais especificamente, vamos nos debruçar sobre seus livros O obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019) e Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023).
O obscuro fichário dos artistas mundanos é parte de um projeto maior, em que se resgatou fichas do dops de Pernambuco com informações biográficas de artistas que passaram por Recife nos anos de 1934 a 1958. O quadrinho selecionou alguns dos “fichados” e apresentou suas histórias.
Já em Pedra d’água, uma personagem ficcional, Esther, visita cada uma das casas em que a escritora Clarice Lispector habitou quando viveu em Recife. A partir disso, a obra reconstruiu biograficamente alguns momentos da vida da autora.
Ao se observar de forma mais ampla a cena brasileira de histórias em quadrinhos, encontra-se, historicamente, um grande volume de produção de narrativas biográficas em um recorte temporal específico, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960. Hoje, as traduções de biografias quadrinizadas continuam uma prática no mercado editorial contemporâneo, mas há pouca criação de biografias por artistas brasileiros. A título de exemplo, em 2025, chegaram ao público brasileiro a biografia do músico David Bowie, Starman - David Bowie: A era Ziggy Stardust, por Reinhold Kleist (2025), a do artista Eadward Muybridge, Por uma fração de segundo, por Guy Deslile (2025), e do quadrinista Will Eisner, Will Eisner: Uma biografia em quadrinhos, por Stephen Weiner e Dan Mazur (2025). Entre as poucas obras que se dedicam a abordar figuras nacionais, há o relançamento da biografia de Mauricio de Sousa, Mauricio de Sousa: biografia em quadrinhos (MSP, 2025), como parte das celebrações dos 90 anos de idade do artista, com créditos de autoria para o próprio estúdio da MSP, a Mauricio de Sousa Produções.
Enquanto há pouco material nacional voltado para esse gênero, há larga produção quadrinística em um espaço algo próximo da biografia: as autobiografias e as autoficções, disponíveis à exaustão na cena quadrinística, seja como tradução de obra estrangeira, seja como obra original, sendo produzida tanto por artistas ligados a casas editoriais (de pequenas a grandes editoras) quanto em autopublicações. Como exemplo, Filosofia do mamilo, de Kael Vitorelo (2024), Eu não sou Orlando, de Helena Cunha (2024), e Na prisão, de Kazuichi Hanawa (2025).
As biografias escritas por Clarice Hoffmann, sobre as quais nos deteremos aqui, por outro lado, não são apenas obras com informações pessoais e o percurso de vida das pessoas, mas romances gráficos que lidam de modo bastante significativo com a forma de história em quadrinhos, a partir de alguns pontos biográficos. A autora parte dos documentos históricos para trazer parcelas de biografias, nunca preocupada em ter a totalidade da vida de seus biografados. Há também um desenho da relação entre o espaço e as pessoas que o ocuparam como uma marca do trabalho de Hoffmann. No caso dessas obras, especificamente, o Recife.
Em um primeiro momento, apresentaremos um breve percurso das biografias em quadrinhos no Brasil, com uma apresentação das principais linhas contemporâneas do gênero, para, em seguida, deter-nos nos livros de Hoffman.
As biografias em quadrinhos no Brasil
A relação das histórias em quadrinhos com as biografias é bastante antiga. Embora não seja a preocupação deste texto partir em busca do seu marco de início, parece-nos importante apresentar rapidamente parte dessa história editorial. Um dos pontos altos do percurso de publicação desse gênero em quadrinhos foi o período que se estende do final da década de cinquenta até o fim da década seguinte.
A Editora Brasil-América Limitada (Ebal) era a principal casa publicadora de histórias em quadrinhos do Brasil naquele período, responsável por colocar nas bancas, sobretudo, histórias traduzidas de super-heróis e dos personagens da Disney. Segundo o jornalista Gonçalo Junior, em seu livro Guerra dos gibis (2023), em uma política agressiva encabeçada pelos concorrentes da Ebal, uma campanha de difamação dos quadrinhos é iniciada, em que se afirmava, entre outras coisas, que a leitura dos quadrinhos não ajudaria as crianças em seu desenvolvimento intelectual e ético (Gonçalo Junior, 2023, p. 208). Adolfo Aizen, editor da Ebal, reage de duas maneiras: rebate os artigos acusadores por meio da imprensa; e com a publicação de materiais dirigidos à infância (Gonçalo Junior, 2023, p. 394). Assim, ele lança tanto adaptações literárias em quadrinhos (que, para defensores dos quadrinhos do período, seriam facilitadores de leitura e, portanto, porta de entrada para leituras mais complexas) quanto biografias de figuras ilustres da cena nacional e internacional (que proveriam bom exemplo de caráter e moral para as crianças - além, claro, de bajular figuras no poder).
Assim nasce a coleção Edição maravilhosa, dedicada às adaptações de obras literárias estrangeiras e, em um segundo momento, de obras nacionais (o que acabou fomentando um sistema quadrinístico de remuneração pelo trabalho com a produção de histórias em quadrinhos). Além dela, também veio a público a série Biografia em quadrinhos, que durou doze números, com a história de vida de personalidades como Abraham Lincoln e Américo Vespúcio; e a Grandes figuras em quadrinhos, com narrativas dedicadas ao Marechal Cândido Rondon e Pedro Américo, por exemplo.1 Essa segunda iniciativa, que durou de 1957 a 1961, era uma parceria com o Ministério de Educação e Cultura (mec) brasileiro, e foi uma das ferramentas mais bem sucedidas que Aizen lançou mão para não perder seu império editorial baseado nas histórias em quadrinhos infantis.
Antes disso, Aizen, que era judeu, publicava biografias em quadrinhos de santos católicos. O material era de origem italiana e, traduzido, se tornou a Série Sagrada, com 88 edições entre os anos 1953 e 1961. Os esforços do editor da Ebal para aliviar as críticas passavam muito pela publicação de quadrinhos que pudessem ser relacionados a outros materiais considerados sérios ou mesmo “de respeito”; a forma que Aizen encontrou para que isso acontecesse foi por meio da publicação de adaptações literárias e biografias em quadrinhos.
Entre outros esforços da mesma editora está a publicação de biografias quadrinizadas no jornal carioca Última Hora (Gonçalo Junior, 2023, p 390). A série Homens do Brasil teve apenas dois números, com a biografia de Jânio Quadros na estreia, e a de marechal Lott na segunda e última edição, ambas em 1960. Ainda de acordo com o jornalista Gonçalo Junior, o fim de todas essas publicações passa pelo mesmo evento: um decreto do então presidente Quadros, momentos antes de deixar a presidência.
Antes de sair, porém, o presidente tomou uma medida que seria capaz de balançar a estrutura das editoras de jornais e revistas, com reflexos diretos nas que publicavam histórias em quadrinhos. Por meio de um decreto, cortou os subsídios do governo ao papel de imprensa, o que provocou imediato e considerável aumento nos custos do produto.
A medida obrigou a Ebal a reavaliar a viabilidade de parte dos seus títulos, que não alcançavam grandes tiragens e tinham um custo elevado de mão de obra, mas que, com o subsídio, compensavam (Gonçalo Junior, 2023, p 432).
Desse modo, com o aumento de custo de impressão, as editoras tiverem que cortar séries de menores vendagens, ocasionando o fim da intensa publicação de biografias quadrinizadas em nosso país.
Além dos lançamentos da Ebal, vale mencionar a Revista Ilustrada, da editora Legislação Federal, que, de 1956 a 1957, publicou algumas biografias em quadrinhos em meio a histórias de ficção, e a Série biografias e Clássicos ilustrados (Série ilustrada), da editora Hemus, que na década de setenta (1974-1977), lançou 36 edições, que alternavam adaptações literárias como Os três mosqueteiros e biografias de “grandes nomes”, como Walt Disney e Harry Houdini. Desde então, algumas biografias em quadrinhos sempre apareceram na cena, mas de forma menos metódica do que nessas coleções. Silvio Santos: Vida, luta e glória, de 1969, conta em quadrinhos a vida do apresentador de televisão, e foi escrita por Rubens Francisco Lucchetti, desenhada por Sérgio M. Lima (Lucchetti; Lima, 2017). Luiz Inácio Lula da Silva teve duas vezes sua vida colocada nas páginas quadrinizadas: em 2010, Luiz Inácio Brasileiro da Silva, com roteiro de Toni Rodrigues e arte de Rodolfo Zalla (Rodrigues; Zalla, 2010); e em 2018, Lula: da perseguição à esperança renovada (Rodrigues; Teixeira, 2018), em edição patrocinada pelo Partido dos Trabalhadores e disponível para baixar no site do partido, com produção de Rôney Rodrigues e Vitor Teixeira.
Neste século, parece haver uma tímida retomada na apresentação de heróis nacionais: a editora Ultimato do Bacon vem publicando uma coleção sobre esportistas renomados, ou seja, biografias pelo viés da glória esportiva, como Oscar e o Pan de 87 (Azevedo; Sagara, 2022), Garrincha (Santos; Bono, 2023), Zico (Soares; Bono, 2024) e Daniel Dias (Tazzo; Fernandez, 2024).
Um nome que se destaca entre os quadrinistas responsáveis por biografar em quadrinhos na atualidade é o de Spacca, que, entre outras, já colocou nas páginas a vida de Santos Dumont, Santô e os pais da aviação (Spacca, 2005), Jean-Baptiste Debret, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil (Spacca, 2006), Santo de Pietrelcina, Padre Pio: A história do Santo de Pietrelcina (Spacca, 2023). E em parceria com a historiadora Lilia M. Schwarcz, produziu obras sobre Dom João vi, D. João carioca (Schwarcz; Spacca, 2008) e Dom Pedro ii, As barbas do imperador (Spacca; Schwarcz, 2014). No trabalho de Spacca já se percebe algo mais interessado em uma narrativa quadrinística do que apenas retratar uma vida ou um momento pessoal de alguma figura relevante da história de nosso país.
Há outro passo adiante nas coletâneas organizadas pela editora Draco, em que diversas histórias curtas compõem momentos emblemáticos da vida das personalidades escolhidas. É assim em Marighella #livre (Faria; Sousa; Costa, 2020), Paulo Freire #presente (Faria; Sousa; Costa; Nolasco, 2022) e Júlio Lancellotti #acolhe (Faria; Laudo; Cruz; Dias; Balduino, 2024). Cada história é autocontida e produzida por artistas diferentes; a impressão de leitura é de uma narrativa aos fragmentos, menos linear que a grande parte dos materiais biográficos produzidos no Brasil até então.
O trabalho de João Pinheiro, por sua vez, tenta se relacionar com a obra do biografado na forma como os quadrinhos são produzidos, sendo o caso mais exemplar Burroughs (Pinheiro, 2017). Nesse livro, a noção da montagem aleatória e do cut-up que caracteriza parte da produção literária do escritor estadunidense é o ponto de partida para a criação da obra. Seus trabalhos anteriores são Kerouac (Pinheiro, 2011) e Carolina (Pinheiro; Barbosa, 2016), em parceria com Sirlene Barbosa, sobre a escritora Carolina Maria de Jesus. Com abordagens mais naturalistas e realistas, esses livros se baseiam tanto em imagens de referência desses autores como em suas formas narrativas, como a fragmentação da prosa de Jesus.
Talvez o pouco apreço contemporâneo às biografias se deva por certo ranço da noção utilitarista das biografias quadrinizadas da época da Ebal, ou do esquema narrativo preso demais a figuras históricas que já habitam de alguma maneira o inconsciente popular. Mas o panorama demonstra que ainda há um ensejo em produzir-se obras que valorizem os “vultos históricos”, e poucas narrativas fogem ao caráter didático (e moral) de biografias, dirigidas, sobretudo, a público jovem. As produções de João Pinheiro e, de certa maneira, as de Spacca são algumas dessas exceções.
As obras que analisaremos mais detidamente, O obscuro fichário dos artistas mundanos e Pedra d’água, podem ser enquadradas dentro do gênero biografia, mas flertam com outras construções formais que as colocam, em uma passada de olhos, em uma posição muito diferente dos materiais altamente laudatórios publicados pela editora Ebal, por exemplo. Nessas obras, as escolhas formais para elaboração da biografia propõem um olhar poético sobre a vida das personagens retratadas; a escolha de biografar artistas que transitaram pela cidade de Recife também vai ser mostrada graficamente nesses livros, em passeios afetivos construídos pela roteirista e pesquisadora.
O obscuro fichário dos artistas mundanos
Clarice Hoffmann começou o trabalho que iria dar origem ao obscuro fichário dos artistas mundanos quase 20 anos antes do lançamento do quadrinho, quando, em uma pesquisa iconográfica para o livro Mulheres negras do Brasil (Schumaher; Brazil, 2006), ela acabou por encontrar o prontuário (no sentido de uma ficha de antecedentes) de uma deputada, que tinha sido elaborado a mando do Departamento de Ordem Política e Social de Pernambuco (dops-pe). Isso lembrou a pesquisadora de uma história familiar: a sua avó havia sido fichada ao chegar ao Recife, vinda da Ucrânia, por ser atriz. A partir disso, foi atrás do fichário do departamento que, com a extinção do dops-pe em 1990, está armazenado no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje):
Era 2003, quase uma década antes da entrada em vigor da Lei 12.527/11, “que regulamenta o direito constitucional às informações públicas”. A Lei de Acesso à Informação passou a ser oficial em 16 de maio de 2012. Impressionada com a descoberta do documento sobre a deputada, Hoffman, uma carioca há muito radicada em Pernambuco, ouviu da historiadora Marcília Gama, então vinculada ao Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, que havia mais. “Ela trouxe duas gavetas que estavam guardadas no setor. Quando abri, não acreditei no que via: fotos 3x4 de pessoas como Dalva de Oliveira, Grande Otelo e outros artistas”, recorda Hoffmann (Veras, 2015).
Desse grupo de documentos, Hoffmann conseguiu apurar 404 fichários identificados com a palavra “artista”. Entretanto, a compilação disso tudo só foi possível a partir da Lei de Acesso à Informação, de 2012, quando Hoffmann pôde efetivamente se dedicar à análise dessas fichas. O período da produção desses cadastros de artistas é entre os anos de 1934 e 1958, época da ditadura de Getúlio Vargas.
Esse achado de Hoffmann levou ao desenvolvimento do projeto “O obscuro fichário dos artistas mundanos”, que teve como objetivo catalogar esse material, produzir textos para discutir o tema, elaborar uma cartografia dos lugares vigiados pelo dops na Recife da época (Figura 1) e desdobrar a conversa para divulgar a descoberta. Em 2016, entrou no ar um site oficial com todo o material disponível (atualmente, inativo). Houve apoio do projeto Rumos, da Itaú Cultural, e do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) para a pesquisa e produção desses trabalhos. Além deles, há esse último ramo da investigação, que é a quadrinização da vida de quatro desses artistas fichados no Recife.
O livro compilando essas narrativas gráficas foi lançado em 2019 (Hoffmann et al., 2019) e conta com roteiro da própria Clarice Hoffmann, junto de Abel Alencar, e com artes de Greg Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro e Clara Moreira. O resultado é um álbum colorido, de formato 21 x 27 cm, com 128 páginas.
Não vamos nos deter em analisar a obra como um todo, mas pinçar um de seus capítulos e, a partir dele, apresentar as estratégias tipicamente gráficas, oriundas da linguagem das histórias em quadrinhos, que foram postas em marcha pelos autores para a apresentação biográfica. Desse modo, o capítulo selecionado é o quarto, “Os cossacos e o tabu”, com roteiro de Clarice Hoffmann e Abel Alencar e arte de Greg Vieira.
Como em outros momentos do livro, há a colagem de fotos dos documentos oficiais do dops-pe com os desenhos de Greg. As narrativas são sucedidas por textos explicitando elementos factuais que ajudaram a compô-las, indicações bibliográficas e referências aos documentos. Nas histórias, há o redesenho dos documentos que serão apresentados aos leitores, como pode ser visto na Figura 2.
A página com documentos do dops-pe, desenhos e artes criadas a partir dos originais encontrados na pesquisa
Esse capítulo conta a história de um imigrante russo, Ivan Rozensky, que foi fichado ao chegar ao Brasil, como era praxe na época. Em meio ao carnaval, em uma discussão com outro homem (caracterizado como um pato), Rozensky é preso por comparar o então presidente Getúlio Vargas a um cachorro. Todos as pessoas oriundas da Rússia estavam sob constante observação devido ao “risco de serem comunistas”. Assim, o empreendimento comercial de Ivan, o Bar Restaurante Tabu, vivia sob vigilância permanente do dops-pe, como aponta a representação do documento na parte superior da página 88 (ver Figura 2).
Essa página, especificamente, quebra um pouco a expectativa do leitor em relação a uma página que poderíamos chamar de “padrão” de história em quadrinhos. Em vez do branco de fundo, há textura de papel; em vez do espaço fora do quadro, há texto verbal; em meio a essa montagem de elementos, há cinco quadros desenhados por Greg Vieira, que, aí sim, estão mais próximos da expectativa de um “quadrinho padrão”. Ao analisarmos esses elementos de forma mais detida, observamos que a textura do fundo da página, aliada ao texto verbal entrequadros em tipografia que remete a texto de máquina de escrever, tem a intenção de indicar que se trata de excertos de documentos.
Tal uso do texto, por um lado, aponta-nos para aquilo que defende Anne-Marie Christin (2012), de que o texto é imagem, e que uma situação como a Figura 2 apenas ressalta esse caráter imagético da própria letra. A página de quadrinhos apresenta, portanto, elementos heterogêneos que podem ser entrelaçados pelo grafismo de quem opera o desenho, e esse caráter mais imagético da dimensão escrita na página amplifica seus sentidos; quer dizer, além da leitura do significado primeiro daquele texto, sua visualidade permite novos sentidos a esse mesmo texto, desde localização no tempo quanto, no caso dos documentos redesenhados em Obscuro fichário, a especificidade do gênero textual mostrado (o prontuário), sua relação com a censura e a ditadura daquele período, sua estética que amedronta diante do autoritarismo que rodeia tais documentos e, ainda, traz à luz uma reminiscência desses arquivos obscurecidos propositalmente pelos poderes vigentes.
Em suma, o trabalho de Vieira, aqui, com o uso das texturas e a opção pela tipografia, torna o texto uma imagem de documento, que traz conteúdo pela sua própria forma, além daquilo que o texto verbal informa. Por outro lado, a presença de algo que se torna reconhecível como documento empresta um valor de verdade e de verificação à narrativa, e ancora esse trecho biográfico na história factual.
Ao olharmos para os quadrinhos com personagens, o texto é entregue à leitura com outro formato, por meio do balão de fala, artifício muito associado às histórias em quadrinhos. Nos dois primeiros quadros, há a confirmação do que tratam os documentos apresentados antes e depois dessa dupla de quadros, mas dado com o sabor da ficção pelos personagens. O terceiro quadro reproduz um documento de salvo-conduto para Vladmir Pavlov (obrigatório para estrangeiros poderem transitar pelo País naquela época) que é o objeto da conversa dos personagens nos quadros anteriores. Os últimos dois quadros, com ponto de vista lateral fechado em meio rosto de Rozensky e Krasnov, traz uma fala sobre o momento mais ficcional dessa narrativa biográfica.
A montagem de elementos documentais e de desenho produz um efeito de realidade, que entrega ao leitor momentos biográficos de uma pessoa histórica, nesse caso, Ivan Rozensky. Não se despreze, claro, a importância dos paratextos, como os da quarta capa e da introdução e dos posfácios, que apresentam o entorno de toda a produção da obra. Tais paratextos são também os responsáveis, ao nosso entender, por fazer com que o leitor, ao se deparar com imagens que se assemelhem a documentos, reconheça-as como partes de documentos verídicos, que podem ser periciados no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano.
O quadrinho dramatiza passagens disponíveis na ficha de Rozensky, incluindo não apenas anotações sobre ele, mas também ofícios como aquele de verificação da existência de uma imagem de Getúlio Vargas na casa em que Ivan morava com sua esposa, Zita (Figura 2). Há uma subtrama em que Ivan pede algo ao pé de ouvido de Zita enquanto está sendo preso. Descobre-se, depois, que ele pedia à companheira que expusesse a imagem do então presidente em sua casa, como uma espécie de prova de que estariam alinhados ao Estado Novo. Percebe-se, assim, que os autores optam por algumas liberdades ficcionais em nome das possibilidades narrativas, já que não há comprovação de que esse plano de Rozensky tenha sido realmente elaborado e executado.
A página 89, apresentada na Figura 3, está ao lado daquela que discutimos anteriormente, e começa com a apresentação de um documento, que ocupa metade da página; a outra metade tem um fundo branco, com quatro quadros com personagem empilhados. Para a parte documental, há o ofício que registra que o representante da polícia encontrou efetivamente a foto de Getúlio Vargas na casa do acusado de desrespeitar o presidente. Essa imagem segue o mesmo padrão da que vimos na página anterior: o fundo com textura de papel e tipografia que remete à máquina de escrever.
a página com documentos do dops-pe, desenhos e artes criados a partir dos originais encontrados na pesquisa
Dessa vez, os quadrinhos desenhados por Greg Vieira são circundados por um espaço branco (e pela figura do documento em um dos lados). O primeiro quadro, o mais estreito do conjunto, destaca os olhos de Zita. Observe-se que a página anterior havia fechado com destaque para as bocas dos personagens. Abaixo desse quadrinho, há um quadro de visão lateral em que a personagem ajeita uma foto de Vargas na parede; um terceiro quadro, em imagem frontal de contra-plongée, com Zita a manipular um porta-retrato sobre uma mesa; e a página se fecha com a apresentação do que está disposto nessa mesa, quando o leitor vê que um dos porta-retratos tem uma foto do presidente Vargas.
A ação de Zita se passa antes daquilo que o documento comprova ter encontrado, e antes da conversa de Rozensky e Krasnov. É como se a área branca ao redor das imagens indicasse que se trata de uma analepse. Novamente, a presença do documento factual serve de indicador do processo histórico que é a base da construção ficcional de Hoffmann, Alencar e Vieira - de que Ivan havia pedido a sua companheira Zita que dispusesse fotos do maior mandatário da República de então pela casa para corroborar sua história de que era um admirador de Vargas e incapaz de detratá-lo em público.
Da mesma forma que na pesquisa comandada por Hoffmann para os demais desdobramentos do projeto “O obscuro fichário de artistas mundanos”, o romance gráfico aqui brevemente analisado parte de base documental para então desdobrar-se. No caso das histórias em quadrinhos, a opção deu-se pelo caminho ficcional a partir de verificações biográficas, completando as lacunas com narrativas que não se sabe se de fato aconteceram. Mas não se trata apenas de um processo de ficcionalização nas brechas da verificação factual, procedimento algo comum em narrativas biográficas, mas também de trazer esse pensamento de partir do documental para a quadrinização.
Desse modo, há a justaposição da reprodução de documentos e cartas com as ações desenhadas dos personagens que são alvo da biografia. Tais elementos são incorporados na narrativa de quadrinhos, por meio de ferramentas típicas dessa linguagem, como a justaposição, montagem, o uso do espaço da página, o texto verbal usado também em seu formato gráfico, e a distribuição dos quadros.
Pedra d’Água
O livro de história em quadrinhos seguinte de Clarice Hoffmann trata de uma encomenda feita pela CEPE, a mesma editora que havia lançado O obscuro fichário dos artistas mundanos. Dessa forma, Pedra d’água surge com a intenção de apresentar a cidade de infância da escritora Clarice Lispector: Recife. A proposta de Hoffmann, então, é fazer um ensaio em quadrinhos ao mapear as diversas casas onde Lispector morou quando era criança na capital de Pernambuco.
Assim, acompanha-se o cotidiano da pesquisa de Esther (personagem da obra que investiga o passado de Lispector), que visita os lugares que foram as casas da escritora, bem como apresenta recortes de crônicas da autora em que ela comenta da sua vivência pernambucana. Boa parte das páginas são caminhadas contemplativas da personagem por Recife, com a justaposição de frases alusivas a obras de Lispector. Nem todas as passagens são narrativas clássicas, muitas delas evocam momentos oníricos, com passagem de um espaço a outro, de um tempo a outro, sem muitas justificativas ou explicações, como se se tratasse mesmo de um sonho. Algumas citações, como do conto “O ovo e a galinha”, de Clarice Lispector, dão-se por imagens, quando Esther se encontra com uma galinha e ovos (ver Figura 4).
Nessa obra, Hoffmann trabalha sozinha no roteiro e Greg Vieira é o único desenhista. A opção do artista é por arte digital a partir de rotoscopia de fotos, tanto dos ambientes e cenários, quanto da pessoa que interpreta a protagonista da obra (Hoffmann; Vieira, 2023) para o álbum colorido, de formato 21 x 27 cm, com 108 páginas.
Narrar a obra pela mediação de uma pesquisadora ficcional, Esther, para dar conta de aspectos biográficos de Clarice Lispector, faz às vezes de uma narrativa em moldura, em que os dois autores da obra se projetam no trabalho por meio do artifício da ficção. Isso é particularmente visível no capítulo final, “Explosão”, em que o leitor passa a ter acesso às anotações, mapas, imagens e demais fontes de pesquisa da personagem, que, por terem sido usadas por Hoffmann e Greg na construção do romance gráfico Pedra d’água, materializam-se como a pesquisa tornada visível pela história em quadrinhos, como se fosse material de consulta de Esther.
Então, em vez de termos acesso aos personagens em ação (mesmo que sejam momentos mais líricos e oníricos, ainda são ações narrativas), encontramo-nos com diversas fontes que, ao serem colocadas lado a lado, constroem uma espécie de pensamento gráfico sobre esse momento da vida de Clarice Lispector.
Em “Explosão”, as páginas iniciais colocam o leitor em posição de primeira pessoa que dirige o olhar a uma porta encostada. Ao ser aberta, dá entrada ao quarto de Esther. Lá serão vistos murais, recortes de jornal, anotações, livros anotados, cadernos de notas, mapas, fotografias, bilhetes, entre diversos outros itens. Percebemos, aqui, um processo de justaposição, que ajuda a contar a história. Comentamos o termo aqui no sentido que o cineasta e teórico soviético Sergei Eisenstein propõe ao termo:
dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocados juntos, inevitavelmente criam um novo conceito, uma nova qualidade, que surge da justaposição. Esta não é, de modo algum, uma característica peculiar do cinema, mas um fenômeno encontrado sempre que lidamos com a justaposição de dois fatos, dois fenômenos, dois objetos (Eisenstein, 2002, p. 14, grifo do autor).
Desse modo, todos os elementos juntos na página não são apenas representações de anotações, mapas ou de fotografias, mas um conjunto cujo sentido é apresentado justamente por estarem em relação no espaço específico da página.
Também podemos estabelecer uma relação com as técnicas situacionistas. No caso desta obra, especificamente, há a deriva da personagem em torno desses pontos biográficos de Lispector, e a colagem de documentos monta um mapa psicogeográfico da cidade de acolhimento de ambas as Clarices (Jacques, 2003). A deriva aqui é pensada de acordo com a proposta situacionista de uma prática de sujeitos em meio à cidade, um exercício prático de apreender o espaço urbano a partir de seus afetos, um caminhar de apropriação da cidade pelos sujeitos. A psicogeografia, por sua vez, método que engloba a deriva como uma de suas práticas.
A deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar sem rumo. A psicogeografia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos, através das derivas e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa ação básica do caminhar na cidade (Jacques, 2003, p. 22).
Assim, Esther caminha à esmo pelo Recife, identificando os endereços de sua escritora favorita, na cidade que é delas. Pelo mapa de Lispector, Esther passeia por uma cidade que lhe pertence, e da qual ela se apropria de uma forma nova. Os documentos comprovando seus endereços servem à roteirista e ao desenhista para recomporem a biografia da escritora ucraniana. São como se fossem pistas apresentadas aos leitores, que devem, pelas pegadas da escritora, encontrar seus vestígios pelo Recife. Percebem-se essas informações visuais no último quadrinho da Figura 5, em que cada grupo de imagens deste painel de cortiça será apresentado com mais destaque, em página dupla, na sequência do livro. Como é o caso do exposto na Figura 6.
São redesenhados bilhetes, post-its, recortes de jornal, fotos e trechos de textos de Lispector sobre as casas onde esteve. Os anúncios indicam as residências disponíveis para venda e para locação, com sua localização indicada em pequenos papéis coloridos, o que dá a entender que são as anotações de Esther, que vão marcando também os períodos em que Lispector viveu naqueles endereços.
Localiza-se a casa pelo mapa, pela fotografia ou pelo endereço do anúncio de jornal, ao mesmo tempo em que a construção da relação pessoal da escritora com cada ambiente e com a própria cidade que abriga essas casas é apresentado por meio dos excertos de texto da própria Lispector. De acordo com a proposta situacionista de redescobrir a cidade, aqui, não se trata de Esther redescobrindo a sua cidade, mas a de Lispector, o local que ajudou a moldar a personalidade e que gerou algumas das experiências determinantes de uma das mais renomadas autoras brasileiras.
Não se trata de documentar de forma organizada e linear a vida da autora, nem de alimentar a pretensão de trazer a totalidade das informações da trajetória de Clarice Lispector, desde seu nascimento até sua morte, passando pelas mudanças e pelo lançamento das obras que a consagraram. A perspectiva aqui é apenas alinhavar a cidade do Recife, pontualmente, na biografia da escritora, fazendo uso de documentos e excertos da obra de Lispector. É um ensaio de passeio ficcional pela cidade factual onde ela passou seus primeiros anos.
Conclusão
Mesmo em uma cena com baixa publicação de histórias em quadrinhos biográficas, existe uma produção que se destaca. Diferentemente daquilo que foi feito no passado, sobretudo pela editora Ebal, com grande quantidade de títulos, porém de empenho mais pedagógico e instrumental, o trabalho com a biografia preocupa-se menos em ser um discurso elogioso e mais em trazer fragmentos da pessoa em questão e, desse modo, explorar sutilezas dessa história de vida.
Tal procedimento pode ser observado nas duas obras que foram analisadas neste artigo, O obscuro fichário dos artistas mundanos e em Pedra d’água, nas quais os autores e as autoras trabalham nas frestas da documentação biográfica disponível, para, sim, trazer os relatos de vida, mas já cercados de trabalho com a linguagem específica dos quadrinhos. São obras que recorrem ao documento como elemento estético, apresentadas visualmente sobre a página, mas também com forte efeito ético de se pensar o espaço e as relações afetivas, políticas, sociais exercidas por esses artistas retratados.
Em Obscuro fichário, os fragmentos de vida de artistas são expostos pelos registros policiais, e em Pedra d’água, temos as relações comerciais (troca de endereço, trabalho do pai de Clarice Lispector) que vão ajudar a recompor a trajetória da escrita.
Nos trabalhos analisados, as biografias, recortadas e parciais, dão a ver um pouco da cidade em que elas aconteceram e ajudam a também contar a história desse lugar.
Em ambos os trabalhos, as biografias elaboradas também documentam a Recife da própria Clarice Hoffmann, quem encabeça os dois trabalhos. A autora, desse modo, trouxe um mapeamento afetivo da cidade a partir de seus artistas. São escritas de vida que vão também dizer sobre o espaço que essas pessoas atravessaram, e, assim, o espaço traz sentido para as biografias em que, a partir do método psicogeográfico, as escritas de vida também dão sentido a esses lugares. Por fim, ao registrar o espaço e os afetos que compõem a vida desses artistas, permite-nos aprender sobre seus percursos a partir de um arranjo estético experimental que se constrói poeticamente: uma escolha deliberada de tentar corresponder com arte a vida de quem viveu pela arte.
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