Open-access As teorias dos biógrafos*

Biographers’ theories

Teorías de los biógrafos

Resumo

Este artigo visa realizar um estudo comparativo entre sete biógrafos profissionais que escreveram livros teóricos sobre suas práticas em relação ao tema da biografia. Escolhemos para a análise sete livros que abordaram as questões epistemológicas, metodológica e estéticas do fazer biográfico para tentar entender como eles apresentaram tais questões. Os sete biógrafos estudados foram: André Maurois, Leon Edel, François Dosse, Manuel Alberca, Anna Caballé, Ruy Castro e Lira Neto. Nossa metodologia de análise foi comparativa, buscando identificar proximidades e diferenças ou divergências e convergências. Nossas conclusões nos levam a entender a biografia como um campo transdisciplinar e abordagem compreensiva do outro e um meio crítico para transmitir conhecimento a respeito de um indivíduo em sua esfera pública e privada.

Palavras-chave:
biografia; teoria; metodologia; estética; literatura

Abstract

This article aims to conduct a comparative study among seven professional biographers who wrote theoretical books about their practices in relation to the theme of biography. We chose for analysis seven books that addressed the epistemological, methodological and aesthetic issues of biographical writing in order to try to understand how they presented such issues. The seven biographers studied were: André Maurois, Leon Edel, François Dosse, Manuel Alberca, Anna Caballé, Ruy Castro and Lira Neto. Our analysis methodology was comparative, seeking to identify similarities and differences or divergences and convergences. Our conclusions lead us to understand biography as a transdisciplinary field and a comprehensive approach to the other and a critical means of transmitting knowledge about an individual in their public and private sphere.

Keywords:
biography; theory; methodology; aesthetics; literature

Resumen

Este artículo tiene como objetivo realizar un estudio comparativo entre siete biógrafos profesionales que escribieron libros teóricos sobre sus prácticas en relación con el tema de la biografía. Se seleccionaron para el análisis siete libros que abordaron las cuestiones epistemológicas, metodológicas y estéticas de la escritura biográfica para comprender cómo las presentaron. Los siete biógrafos estudiados fueron: André Maurois, Leon Edel, François Dosse, Manuel Alberca, Anna Caballé, Ruy Castro y Lira Neto. Nuestra metodología de análisis fue comparativa, buscando identificar similitudes y diferencias, o divergencias y convergencias. Nuestras conclusiones nos llevan a entender la biografía como un campo transdisciplinario, una aproximación integral al otro y un medio crítico para transmitir el conocimiento sobre un individuo en su esfera pública y privada.

Palabras-clave:
biografía; teoría; metodología; estética; literatura

moi, qui aime les viés vécus plus que toute invention.

R. M. Rilke.

Um biógrafo que tenha pendores reflexivos aprende por experiência própria que o fazer biográfico é capaz de propiciar uma aprendizagem teórica, metodológica e estética sobre sua atividade. Não por acaso, muitos biógrafos produziram livros reflexivos sobre suas práticas. Desde André Maurois, no início do século XX na França, passando por Leon Edel, em meados do século passado, nos Estados Unidos, até Manuel Alberca e Anna Caballé, na Espanha, Ruy Castro e Lira Neto, no Brasil, muitos foram e são os biógrafos que produziram obras reflexivas capazes de esclarecer sobre o savoir faire biográfico. Nesse sentido, podemos nos perguntar sobre as questões epistemológicas que neles aparecem e que subsidiam suas reflexões, ou seja, a qual teoria estão vinculados e qual metodologia e estética adotam.

Este artigo tem o objetivo de fazer uma reflexão sobre a teoria da prática biográfica extraída da particular visão de sete biógrafos profissionais. Cada biógrafo sabe que não existe um modelo de biografia único, dominante, nem um contrato biográfico padrão. O biógrafo também sabe que cada trajetória existencial, ao colocar novas questões, merece uma sensibilidade e um grau particular de empatia. Ou seja: o próprio fazer biográfico informa sobre a teoria e suas questões epistemológicas, metodológicas e estéticas.

É preciso diferenciar o biógrafo do ensaísta, o biógrafo do arquivista, o biográfico do autobiográfico para buscar o biógrafo teórico ou o pensador da biografia. Para isso, escolhemos ler e analisar sete livros: Aspectos da biografia (no prelo), de André Maurois; Vidas ajenas - Principia Biographica (1990), de Leon Edel; O Desafio Biográfico (2009), de François Dosse; Maestras de Vida - Biografías y Bioficciones (2021), de Manuel Alberca; El Saber Biográfico - Reflexiones de Taller (2021), de Anna Caballé; A Vida por Escrito - Ciência e Arte da Biografia (2022), de Ruy Castro e A Arte da Biografia - Como Escrever Histórias de Vida (2022), de Lira Neto.

Trabalhamos o artigo em quatro partes: primeiro um pequeno perfil dos biógrafos escolhidos no sentido de compreender suas trajetórias editoriais e, depois, detalhamos a análise em três partes, como cada autor representou em suas obras teóricas as questões epistemológicas, metodológicas e estéticas. Ao final, apontamos divergências e convergências entre os sete autores e concluímos que, com diferentes possibilidades de ancoragem, a biografia é um caminho para compreensão do outro e para transmitir conhecimento a respeito de um indivíduo em sua esfera pública e privada. Estamos diante de um gênero com limitações e aporias, que se mostra complexo, híbrido, interdisciplinar e transdisciplinar, sem unidade e sem linearidade, mas também sem teoria e metodologia definitiva, o que lhe imprime um grau de liberdade estética próximo ao da arte literária e um grau de empatia, cuidado ético e rigor científico comparável ao Jornalismo e a História.

Sete biógrafos que pensaram a biografia

Apresentamos nesta seção um resumo da trajetória editorial dos sete biógrafos que escolhemos abordar. Esta breve apresentação, visa apenas situar o leitor nos diferentes trabalhos e nas diferentes questões relativas à abordagem biográfica de cada um. Nosso intuito neste momento não é o de relacionar suas histórias de vidas e suas obras, mas apenas mostrar os personagens que pesquisaram e as respectivas obras teóricas que escreveram.

De todos, André Maurois (1885-1967) foi o primeiro biógrafo no século XX a elaborar uma obra teórica problematizando o gênero. Inspirado em Edward Morgan Forster (1879-1970), que proferiu conferências em 1927 sobre os “Aspectos do romance” (1974), Maurois escolheu “Aspectos da biografia” para suas aulas em 1928 e, no ano seguinte, publicou o volume Aspectos da biografia (Aspect de la biographie), obra ainda não traduzida para o português, que se tornou uma referência conceitual para as primeiras abordagens teóricas do gênero. Em sua época, o escritor francês publicou romances e biografias de sucesso, obras sobre as vidas Shelley (1923), Lord Byron (1930), Eduardo VII (1933), Marcel Proust (1949), Victor Hugo (1954), Alexandre Dumas (1957), Alexander Fleming (1959) e Honoré Balzac (1965).

Outro teórico de bastante repercussão nos estudos biográficos foi Leon Edel (1907-1997). Crítico literário e biógrafo, o autor norte-americano se notabilizou como o principal especialista na obra de Henry James (1843-1916). Publicou uma biografia do autor britânico em cinco volumes, concluídas em 1972 - o segundo e o terceiro volumes, lançados em 1962, renderam-lhe um Pulitzer e um National Book Award. Edel levou mais de cinquenta anos estudando a biografia de James e ainda editou dele peças, ensaios e cartas. Ele também escreveu as biografias críticas de Willa Cather, completando pesquisa de Edward Brown (1953), e Henry David Thoreau (1970). O crítico reuniu suas reflexões nos livros Literary Biography (1973) e Writing Lives: Principia Biographica (1984), este último traduzido para o espanhol como Vidas ajenas (1990).

Talvez nenhum outro biógrafo tenha problematizado mais o campo biográfico do que François Dosse (1950). Herdeiro intelectual de Paul Ricouer, o francês é biógrafo e estudioso da epistemologia, com dois livros sobre a História do Estruturalismo (1991; 1992) e biografias intelectuais de pensadores como Paul Ricoeur (1997), Michel de Certeau (2002), Gilles Deleuze e Félix Guattari (2007) e Pierre Nora (2011). Também publicou em dois volumes as prosopografias A saga dos intelectuais franceses 1944-1989 (2018) e, em 2019, recebeu o Prêmio Eugène-Colas, da Academia Francesa. Dosse pensou o gênero e reuniu suas reflexões em um importante volume para os estudos do campo: Le Pari biographique. Écrire une vie (2005), traduzido no Brasil como O Desafio Biográfico (2015).

O ambiente intelectual espanhol se caracterizou por uma tradição de estudiosos, que remonta a Miguel de Unamuno (1864-1936), Eugenio d’Ors (1881-1954), Gregorio Marañón (1887-1960), Ramón Gómez de la Serna (1888-1963) e Manuel Azaña (1880-1940). O século XX e XXI espanhol conheceu ainda Manuel Alberca (1951) e Anna Caballé (1954), que escreveram obras de destaque para os estudos biográficos. Professor, crítico literário e biógrafo, Alberca se dedicou ao longo da carreira a estudos sobre biografias, autobiografias e autoficção, com destaque para Maestras de Vida. Biografías y Bioficciones (2021), ainda sem tradução em português. Também lançou El pacto ambiguo. De la novela autobiográfica a la autoficción (2007) e La máscara o la vida. De la autoficción a la antificción (2017). Alberca pesquisou a vida do escritor espanhol Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), trabalho que resultou nos livros Valle-Inclán, la fiebre del estilo (2002) e La espada y la palabra. Vida de Valle-Inclán (2015), com o qual conquistou o prêmio Comillas.

Anna Caballé (1954), por sua vez, é crítica, biógrafa e docente. Ela se tornou especialista no campo biográfico com estudos teóricos e a publicação de biografias dos autores Paulino Masip (1987), Francisco Umbral (2004), Carlos Castilla del Pino (2005), Concepción Arenal (2018), Víctor Català (2019) e Rosa Chacel (2025). Caballé também fez estudos sobre a história do feminismo e vidas de mulheres, lançando Breve historia de la misoginia (2006). A escritora foi responsável pela criação da Unidade de Estudos Biográficos da Universidade de Barcelona (UB) e publicou, em 2021, El Saber Biográfico. Reflexiones de Taller, obra na qual apresentou suas reflexões sobre o gênero.

Como se sabe, o jornalismo no Brasil possui uma longa relação com as biografias. Na história dessa relação encontramos, entre outros, Mário de Alencar (1872-1925), filho de José de Alencar, que atuou como biógrafo de figuras do Império e intelectuais da República; José Veríssimo (1857-1916), da Academia Brasileira de Letras, que escreveu sobre Gonçalves Dias, José de Alencar e Machado de Assis; Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), que escreveu A vida de Lima Barreto (1952), baseada em anos de pesquisa em arquivos e jornais; João do Rio (Paulo Barreto, 1881-1921), um dos maiores nomes da crônica urbana carioca e que, embora não tenha escrito biografias completas, elaborou formas proto-biográficas, como retratos e crônicas de perfil, como A Alma Encantadora das Ruas - onde registrou vidas anônimas e célebres da cidade; Medeiros e Albuquerque (1867-1934), que publicou perfis de figuras políticas e literárias; Viriato Correia (1884-1967), que escreveu sobre Dom Pedro II, Duque de Caxias e José Bonifácio, e Álvaro Moreyra (1888-1964), com perfis e relatos de vida que, embora literários, tinham fundo biográfico e documental.

Juntam-se a estes dois jornalistas-biógrafos: Ruy Castro (1948), autor premiado, ex-repórter do Correio da Manhã, trabalhou nos principais veículos do Rio de Janeiro e São Paulo, como Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Manchete, Playboy e Veja. Tornou-se biógrafo com obras sobre Nelson Rodrigues (1992), Garrincha (1995) e Carmen Miranda (2005), além de reconstituições históricas da Bossa Nova (1990), do Samba Canção (2015), do bairro de Ipanema (1999), do Flamengo (2001) e do Rio de Janeiro nos anos 1920 (2019). Em 2022, compilou no livro A vida por escrito: Ciência e arte da biografia suas reflexões e métodos para escrever biografias. Desde 2023 é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Outro importante biógrafo brasileiro é Lira Neto (1963-), que trabalhou como repórter nos jornais cearenses Diário do Nordeste e O Povo antes de se dedicar à carreira de escritor, na qual acumula prêmios. Biografou Humberto Castelo Branco (2004), José de Alencar (2006), Maysa (2007), padre Cícero (2009) e Oswald de Andrade (2025). Sua biografia de maior sucesso foi a de Getúlio Vargas, dividida em três volumes (2012, 2013 e 2014). Recuperou a história do samba (2017) e de judeus sefarditas que deixaram o Península Ibérica (2021). Em 2022, publicou A Arte da Biografia: Como Escrever Histórias de Vida, obra na qual cita seus métodos e suas impressões da biografia como forma de escrita da história.

Após esta breve apresentação, pretendemos entender agora como os sete autores abordaram e circunscreveram os temas epistemológico, a metodológico e estético a partir de suas práticas. Essas três questões-problemas nos permitem ter um pequeno panorama e visualizar uma imagem aproximada de tais questões nos estudos biográficos.

A questão epistemológica

A definição da biografia como gênero híbrido, impuro, intermediário se reflete no entendimento epistemológico dos teóricos do campo. Texto de não ficção no qual conhecemos uma pessoa por meio do relato verbal feito por outra pessoa, a biografia é pensada pelos autores associada a abordagens histórica, literária, psicológica, fenomenológica. A compreensão, contudo, não é feita com posições compartimentadas, pois a complexidade de uma vida exige a religação de saberes para apurar, interpretar e redigir essas narrativas.

Maurois (no prelo) afirma que a biografia moderna surgiu na segunda metade dos anos 1910 e passa, entre outros aspectos, pela compreensão psicológica do outro, pela complexidade das pessoas e pela qualidade da narrativa. O trabalho busca uma verdade possível e seleciona múltiplas informações reunidas. O francês compara a labuta do biógrafo à do pintor, que isola o essencial para retratar uma imagem sem empobrecê-la.

Influenciado por Alain (Émile-Auguste Chartier), o escritor francês reconhece as mudanças que um indivíduo sofre da infância à velhice e orienta o biógrafo a ficar atento às contradições, às mudanças de ritmo de um sujeito. Ele valoriza o lado psicológico do personagem e cita que, em uma biografia de Napoleão, os feitos militares e políticos servem de pano de fundo para compreensão sentimental e espiritual do imperador. Maurois (no prelo) questiona se é um possível encontrar uma verdade científica sobre um ser ou uma época, mas incentiva o pesquisador a buscá-la no trabalho biográfico. Para ele, do ponto de vista epistemológico, a biografia é uma forma de conhecimento psicológico e moral. A função da biografia é a de interpretar a vida de um personagem buscando uma lógica compreensiva interna.

Nesta mesma linha compreensiva, Edel entende a biografia como uma narrativa com aspectos históricos, psicológicos e literários. Influenciado pela psicanálise freudiana, ele aborda a biografia como um processo capaz de poder revelar o “centro secreto” da personalidade. O seu interesse por tais questões advém dos estudos de seu irmão Abraham Edel (1908-2007), que esteve entre os primeiros acadêmicos norte-americanos a estudar e aplicar o pensamento de Sigmund Freud no contexto da filosofia moral e das ciências humanas. Neste sentido, para Leon Edel, as narrativas de vida são uma “província” da história e devem ser feitas sem perder de vista que não se vive fora da sociedade e da história, logo, o biógrafo retrata um sujeito em seu tempo, dentro de um entorno e de um contexto social (Edel, 1990, p. 9). O biógrafo precisa, além de dominar a arte da narração, ter a habilidade para montar um mosaico de peças dispersas, encaixando as partes pessoais às históricas. Ele deve também trabalhar com informações verificadas e jamais inventadas, elas são os alicerces de uma obra desafiada a desvendar íntimo, anseios e motivações do biografado. A biografia, para Edel (1990, p. 23), relata em palavras uma existência inconstante e complexa, como é o espírito humano, e visa sanar a curiosidade da humanidade da vida alheia.

Discípulo de Paul Ricoeur, a quem biografou, Dosse (2009) segue uma linha fenomenológica e histórica para enfrentar o que chamou de “desafio biográfico”. O autor reconhece na biografia a capacidade de fazer registros históricos, ciente da aporia dessa tarefa. Dosse (2009, p. 55) considera a biografia um gênero híbrido, marcado pela “tensão constante entre a vontade de reproduzir um vivido real passado, segundo as regras da mimesis, e o polo imaginativo do biógrafo, que deve refazer um universo perdido segundo sua intuição e talento criador”. Essa tensão também se verifica no ofício do historiador.

A biografia para ele é um instrumento de reconstrução histórica e relacional. O seu foco deve estar na interdependência entre o sujeito e os discursos da época. Dosse avalia que o sucesso do gênero junto ao público passa pela necessidade de atender o desejo de autenticidade que o leitor apresenta. O autor, que se dedicou a estudos sobre vidas e obras de intelectuais, identificou na biografia as marcas das identidades fragmentadas e a não linearidade do tempo. Para ele, o biógrafo precisa ser capaz de captar o contexto anterior ao nascimento, ao longo da vida e posterior à morte do protagonista, a fim de entender influências e possíveis legados.

Alberca dá um olhar mais “culinário” à biografia ao comparar o biógrafo a um cozinheiro e a biografia a uma “cozinha” em que se mesclam múltiplos elementos, saberes e sabores. Sua abordagem valoriza o campo literário em que conjuga a tensão do improvável equilíbrio entre veracidade e arte, o que faz do texto “um relato da vida de um indivíduo real, construído com aspirações de obra de arte” (Alberca, 2021, p. 41). Esse relato deve produzir no leitor um efeito de vivido.

A biografia é uma construção textual subjetiva, em que o biógrafo interpreta tanto quanto informa. Para Alberca, o estudo biográfico, assim como para Leon Edel, tem viés psicológico, em que o principal obstáculo epistemológico da biografia moderna é o acesso e compreensão da intimidade do biografado, a partir de fatos públicos e relatos privados. Por considerar a biografia um registro histórico-literário, Alberca afirma que a prática passa pela documentação de fatos e opiniões e a elaboração de hipóteses, que devem ser verificadas em um trabalho no qual é inevitável a influência da subjetividade do biógrafo e a objetividade é impossível de ser alcançada. No caso de biografias de intelectuais, o gênero permite melhor compreender uma obra de um ponto de vista diferente, ao revisitar escritos de um outro ângulo. Da mesma forma, tem o desafio de abordar sua vida pública e o íntimo do personagem, as experiências que influenciaram seus trabalhos, a partir de um ângulo privado.

Na avaliação de Caballé (2021, p. 21), a biografia vai além de uma escrita “histórico-literária”, mas é uma prática que incentiva a refletir sobre a vida dos outros, logo, ela pode ser uma “boa escola de vida”. A biografia é um meio de visibilizar sujeitos esquecidos, especialmente mulheres e minorias, neste sentido, enfatiza o papel político da memória. As imagens do passado são hologramas que insuflam a busca por um conhecimento inacabado e falho. Há o risco constante do surgimento de novos dados e leituras sobre o personagem retratado. Mesmo assim, o fascínio das histórias alheias leva os autores a recuperar os dados dessas vidas, e os leitores, por sua vez, a consumir tais relatos. A escritora espanhola privilegia o aspecto filosófico da biografia e reconhece a dificuldade para reunir e interpretar uma massa de informações. O gênero lida com a permanente suspeita, com dúvidas sobre a precisão da trajetória reconstruída. A biografia ajuda a manter a memória de pessoas e grupos, combate o esquecimento de quem fomos e analisa as falhas de comportamento.

Biógrafos que trabalharam como jornalistas em redações antes de se tornarem escritores de sucesso, Ruy Castro e Lira Neto empregam um olhar jornalístico, histórico e pragmático à biografia, com inspiração no modelo norte-americano. Castro (2022, p. 19) afirma que a “função básica” da biografia é a “descrição do outro”, enquanto Lira Neto (2022, p. 154) registra que “biografar é tentar compreender o outro, o diferente de mim”. Enquanto para Castro a biografia deve ser rigorosa, mas prazerosa, em que a verdade dos fatos importa tanto quanto o envolvimento do leitor, para Neto a biografia é uma ferramenta para entender indivíduos dentro de processos históricos complexos.

Os dois autores enxergam no gênero a conexão entre história e literatura. Lira Neto (2022, p. 72) acredita que a biografia pode ser uma ferramenta de registro da história, “tentativa de representação e interpretação da realidade”. Castro, que pratica a crônica histórica, destaca que a biografia vai além do “avesso do personagem” porque precisa avançar no tempo e espaço de uma vida, bem como nos coadjuvantes desta trajetória: “pela história pessoal de um indivíduo, podemos chegar ao seu entorno histórico, o que inclui a política, a economia e a psicologia de uma época” (Castro, 2022, p. 15).

A questão metodológica

A experiência como biógrafos e as reflexões sobre o fazer biográfico dos sete autores indicam visões diferentes a respeito do modo de construir uma obra. Em um trabalho que envolve ações de documentação, seleção, interpretação e escrita, os métodos de cada um têm nuances que denunciam neles a trajetória profissional, ora dando maior peso às ideias do protagonista, ora a seu legado intelectual, ora buscando uma mescla entre pensamento e episódios do cotidiano.

Em um texto de 1929, anterior aos debates sobre pós-modernidade, Maurois cita o desafio de descobrir a verdade sobre alguém. Já atento à complexidade do ser e à não linearidade da vida e das identidades, ele entende que, para retratar uma vida, o biógrafo deve reunir documentos, registros autobiográficos e memórias dos contemporâneos do personagem. Nos imaginários e nas lembranças é possível garimpar “pequenas imagens infinitamente preciosas que nos mostram o que o nosso herói foi para aqueles que realmente o encontraram”, dados a serem cruzados com a autoimagem do sujeito (Maurois, no prelo, p. 43). A pesquisa documental cuidadosa, deve ser exercida com liberdade suficiente para dar espaço a imaginação. A imaginação, por sua vez, serve para especular e completar lacunas documentais, mas deve ser utilizada com controle e parcimônia. Ele não afasta nem opõe totalmente a biografia do romance, a ponto de entende-la às vezes como “romance verdadeiro”.

Da mesma forma, Maurois entende que o biógrafo deve blindar suas pesquisas de julgamentos preconcebidos e de sentimentos de admiração ou repúdio em relação ao protagonista. O crítico francês sugere checar com zelo as observações do pesquisador para permitir a seleção do material que entrará na narrativa apresentada em ordem cronológica. Ele também pede atenção aos detalhes. “Tudo aquilo que pode dar uma ideia do aspecto de um homem como realmente era, o tom de sua voz, a forma de conversar, é essencial”, observa Maurois (no prelo, p. 33), que valoriza o lado psicológico sem relegar o papel do corpo na descrição e compreensão do indivíduo.

Edel, ao contrário, não vê a biografia como um espaço para invenção, defende um método baseado em extensa documentação, com foco na análise psicológica profunda, especialmente no caso de autores literários. Edel avalia que, para narrar vidas, o escritor não dispõe da liberdade de forma e estrutura que goza o romancista, tampouco conta com uma metodologia estabelecida. O autor aponta quatro princípios no fazer biográfico: aprender como o personagem sonha, pensa e compreende; não se apaixonar pelo protagonista, buscar, mesmo que seja difícil, ser um observador participante; procurar as chaves que conduzam às verdades íntimas, à “mitologia privada do indivíduo” (Edel, 1990, p. 23), para encontrar a melhor forma de estruturar o texto que mira a arte e que não precisa seguir uma ordem cronológica.

O crítico usa a metáfora do mosaico para abordar a construção de uma biografia. Segundo Edel, o biógrafo modela o personagem a partir de documentos e palavras, reúne partículas em um mosaico, “um acumulado de pequenos pedaços da realidade, ordenados para formar uma imagem” (Edel, 1990, p. 11). Os documentos e testemunhos são reunidos, avaliados e, posteriormente, aproveitados ou descartados na narrativa que tem compromisso com a não ficção. É possível refletir sobre hábitos e condições do personagem, porém é vetado inventar declarações ou pensamentos.

Dosse preza pela biografia intelectual, preocupa-se mais com a ideias do biografado que conformam sua personalidade, do que com fatos do cotidiano, mexericos e fatos pitorescos. O gênero se funde com a obra de um pensador, porém é preciso atenção para que o relato não seja mera reprodução dos textos assinados pelo indivíduo. O biógrafo procura dar movimento ao personagem e suas ideias, deve “captar os mínimos detalhes a fim de integrá-los a uma visão coerente da psicologia da personagem, àquilo que a motiva em sua obra, à sua vocação e inspiração literária” (Dosse, 2009, p. 84). Ele articula fontes primárias com teoria da história, filosofia e análise de discurso, e rejeita o culto à individualidade.

Dosse situa a biografia na era hermenêutica, da reflexividade, portanto, ele segue esse método para narrar uma vida e captar seu sentido. A biografia deve ir além de um acervo de informações sobre um sujeito, precisa observar vínculos internos, associações e especulações que produzem significados. O autor (Dosse, 2009, p. 55) considera “inevitável” o recurso à ficção na narrativa biográfica, já “que não se pode restituir a riqueza e a complexidade da vida real”. O pesquisador defende que o autor da biografia apareça de maneira discreta, ao confessar como lidou com as lacunas de documentação e os lapsos temporais de uma vida marcada por esquecimentos e memórias.

Na visão de Alberca, o trabalho biográfico exige manejo cuidadoso das informações, a fim de transmitir dados corretos e de não comprometer a fluidez do texto, que tem pretensão artística. A biografia não deve entregar calhamaços de dados brutos. Cabe ao biógrafo selecionar as informações que revelam a profundidade do personagem, pois, tão importante quanto documentar, é saber criticar, ajuizar e interpretar o material e o protagonista. O crítico, que valoriza o lado intelectual e íntimo do biografado sem ignorar causos que tornam o texto agradável, considera que a biografia serve de método crítico-literário para compreender um autor e sua obra em profundidade.

Alberca define que o biógrafo deve perseguir a verdade, mesmo que não seja possível alcançá-la de forma total. A verdade é um “afã” que guia o trabalho cujo objetivo é “transmitir aos leitores o sentido verdadeiro da vida de seu personagem, mediante um relato legível e coerente” (Alberca, 2021, p. 157). Cumprir tal tarefa é um desafio do gênero, que mescla pesquisa histórica para levantar informações e técnica literária no momento de redigir o relato, que deve, também, procurar desnudar mitos e identificar imposturas do protagonista. Ele propõe cruzar arquivos com reflexão metabiográfica. Ou seja, consciente da contaminação entre biografia, ficção e autobiografia, chega mesmo a propor o termo “bioficção”, como alternativa metodológica para o campo.

Caballé (2021, p. 81) assinala que a “condição narrativa é estrutural” na biografia, por se tratar de uma história de vida. Seu método contempla aspectos históricos e literários, mas ela dá valor à fenomenologia para estudar perspectivas subjetivas, um caminho que, apoiado na filosofia, “aspira definir os mundos objetivos e subjetivos que estão em uma vida humana real” (Caballé, 2021, p. 51) a fim de analisar “como se estrutura em nossa consciência tudo aquilo que experimenta e recebe do exterior” (Caballé, 2021, p. 51).

Diante do desejo de reconstituir uma trajetória, o biógrafo faz um corte epistemológico e metodológico, dentre os muitos possíveis, para identificar as relações entre as diferentes dimensões de um sujeito: “psíquica, biológica, histórica, social, familiar, étnica, intelectual, temporal” (Caballé, 2021, p. 61). Parte das dimensões são essenciais para o sucesso do trabalho, que se debruça sobre as diferentes fases de uma vida na narrativa que não permite invenções para suprir lacunas da pesquisa, sob o risco de transformar a biografia em bioficção.

É possível dizer que a metodologia de Ruy Castro parte de uma pesquisa jornalística extensa (entrevistas, arquivos, imprensa), com foco na reconstrução detalhada e dramática dos contextos, às vezes com o uso de diálogos. Em muitas entrevistas, ele enfatiza a ética na relação com o biografado e destaca a importância das checagens para ajustar informações distorcidas e consideradas verídicas que circulam sobre o biografado e para garantir a precisão de um relato cuja base é a informação verificada colhida em fontes escritas, orais e digitais. Não cabe ao biógrafo inventar passagens ou especular pensamentos de um sujeito. Castro, assim como Lira Neto, segue método jornalístico, elabora a biografia como uma grande reportagem, porém focada na vida do protagonista, condutor da narrativa.

O método dos dois jornalistas não esmiuça detalhes acadêmicos e técnicos ou filosóficos do trabalho do biografado, mas utiliza causos e episódios pitorescos para dar sabor ao texto e revelar traços da personalidade e da autoimagem do personagem. Para eles, análises da qualidade literária de um escrito biografado, por exemplo, devem ser feitas por acadêmicos. Lira Neto valoriza a pesquisa historiográfica minuciosa e rigorosa, com cruzamento de fontes múltiplas e entrevistas. O fato de dar especial atenção ao tempo histórico e suas tensões, também caracteriza o seu trabalho com teor dramático.

Castro e Neto seguem linha cronológica de narrativa e só biografam pessoas mortas. Neto utiliza um prólogo, abrindo em momento importante da trajetória, para introduzir a obra e, depois, avançar nos capítulos da infância à velhice. Tanto ele quanto Castro empregam técnicas literárias para descrever passagens da vida do biografado, a exemplo do estilo de folhetins, formato utilizado na imprensa nos séculos 19 e 20 para publicar histórias ficcionais.

A questão estética

O entendimento teórico e a prática metodológica influenciam na questão estética. O formato e o estilo do texto seguem o entendimento do que o biógrafo considera adequado para transformar uma trajetória de vida em uma narrativa verbal. André Maurois foi um autor bestseller em sua época, conhecido sobretudo por sua narrativa elegante, fluida, em que praticava uma construção literária clássica com estilo acessível ao grande público, embora refinado, com foco na beleza formal e harmônica da narrativa.

Maurois (no prelo, p. 79) afirma que a biografia “sempre será um gênero difícil”, no qual são exigidos “os escrúpulos da ciência e os encantamentos da arte, a verdade sensível do romance e as mentiras eruditas da história”, combinação que cobra do pesquisador “muita prudência e tato”. Segundo o teórico, a biografia, como toda obra de arte, desperta emoções e desejos de ação, portanto trata da moral em estágio acima da literatura porque faz o leitor crer na narrativa sobre pessoas reais. Maurois afirma que a biografia pode ter valor poético, um ritmo no texto que encanta e transforma a natureza; explica que o ritmo da poesia se verifica com as rimas, enquanto o ritmo de um livro se dá por meio do retorno aos temas essenciais da obra, em intervalos maiores ou menores, uma batida que também se repete ao narrar uma vida. Cabe ao biógrafo encontrar esse ritmo em um relato cronológico. Maurois (no prelo, p. 30) prefere seguir a cronologia para redigir biografias: “o que dá a uma vida seu interesse romanesco é justamente a expectativa do futuro”.

Edel (1990, p. 15), por sua vez, considera a biografia uma arte “tão nobre quanto a produção de retratos pintados, poemas e estátuas”. O biógrafo tem a capacidade - com sua apuração, interpretação e técnica de escrita - de modelar um indivíduo por meio do texto, colocando no relato o essencial para retratar o protagonista da obra. Ele adota um estilo sério, introspectivo, concentrado na coesão narrativa. Utilizava para isso de uma prosa densa, mas clara, voltada à consistência interpretativa. O teórico sustenta que a biografia deve buscar na literatura técnicas para narrar, um diferencial que marca o gênero. Uma narrativa “monótona” e extensa pode ter sucesso caso o personagem tenha uma mentalidade que chame atenção, mas corre o risco de perder intensidade durante o processo de redação. O biógrafo terá êxito se encontrar uma forma literária própria para contar uma determinada vida, acredita Edel (1990, p. 11).

Dosse (2009, p. 410) cita o efeito do real de Barthes ao afirmar que o gênero biográfico tem a “ambição” de criar na narrativa um “efeito do vivido” para o leitor. Para o pensador francês, a biografia em sua fase hermenêutica deve ter a preocupação com o modo de narração escolhida para reconstituir a trajetória do protagonista. O formato da obra, sem a ilusão de que apresentará uma versão definitiva de determinada saga, impacta na percepção do público, interessado na autenticidade do relato. Ele advoga um equilíbrio entre ciência e narração, pelo uso de um estilo sóbrio, com inserções reflexivas. Preza também pela complexidade contextual e a crítica ideológica. Neste sentido, o teórico produz um texto em que a descrição cronológica cede em muitos momentos para reflexões e preocupações éticas e estéticas. A biografia das últimas décadas rompe com a visão unitária, aflora a pluralidade das identidades e dos sentidos da vida, matizes que devem constar e guiar a obra. O fazer biográfico, segundo Dosse, também se abriu para experimentar narrativas fora da tradicional linha cronológica do nascimento à morte, uma “heterocronia complexa, que desloca as linhas da biografia linear clássica” (Dosse, 2009, p. 359).

Assim como Dosse, Alberca valoriza a crítica, a reflexão e a autorreflexão, muitas vezes aproximando-a do ensaio. Valoriza o hibridismo e as formas limítrofes da narrativa de vida com a ficção. Alberca (2021) adota abordagem literária ao tratar da estética de uma biografia. O autor considera elitista e rasa a visão que coloca gêneros de ficção em patamar acima dos gêneros de não-ficção. Ele entende que os dois modelos conseguem criar textos de qualidade artística e capazes de atender a demanda por prazer do leitor. Considerada um registro histórico-literário, a biografia deve ter preocupação com a qualidade do texto. Para Alberca, é recomendado ao biógrafo evitar descrições longas e enfadonhas. O uso de técnica típicas das novelas, romances e crônicas favorece um formato que mescle veracidade e arte para revelar o público e o íntimo do personagem.

Caballé se preocupa com a pretensão artística da narrativa biográfica, que precisa agradar o leitor. A crítica avalia que é possível combinar o texto de viés histórico-literário com reflexões filosóficas e psicológicas a respeito do indivíduo retratado e de sua época de vida. A biografia deve ser atraída pela filosofia e pela ética em um o texto biográfico com escrita atento ao comercial, mas que pode e deve ser um “exercício reflexivo e necessário” (Caballé, 2021, p. 297). Caballé diverge de biógrafos mais preocupados em comprovar a pesquisa exaustiva, em dissecar documentos em um relato burocrático ou em destacar documentos inéditos que não revelam informações surpreendentes e que auxiliam a entender o sujeito retratado. O cuidado com o acabamento, fluência e encanto provocado pelo texto são cruciais em um relato de difícil equilíbrio, cuja poética está no exercício de resgate, que, ao mesmo tempo, encontra informação em excesso e padece com a falta de dados. Sua abordagem é clara, envolvente e sempre respeitosa. Ela utiliza recursos narrativos discretos, mantendo o compromisso com a transparência e justiça histórica.

Lira Neto e Ruy Castro também têm preocupação com a fluidez e o prazer da leitura, inspirados pelo modelo de grande reportagem, influenciados, como jornalistas, pelo New Journalism surgido nos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1970 adotando recursos da literatura na narrativa jornalística. Os dois biógrafos brasileiros demonstram preocupação com a checagem das informações e a qualidade do relato, bem como da disposição gráfica do texto, evitando parágrafos longos e buscando um ritmo equilibrado. Castro utilizava às vezes a ironia e o humor, na busca de um texto ágil, informal e, às vezes, dramatizado. Para isso, recorre a diálogos ou a recriação de cenas. Influenciado pelo new journalism e a crônica brasileira, Castro não admite o uso da imaginação pelo biógrafo. A dimensão estética em Lira Neto destaca-se pela narrativa fluida, objetiva e envolvente. Ele busca equilíbrio entre informação densa, histórica e legibilidade estilística, para isso evita dramatizações exageradas.

Por fim, apresentamos três quadros comparativos do estudo realizado. O primeiro elabora um esquema descritivo dos autores em relação às questões epistemológicas, metodológicas e estéticas; o segundo, a visão das tradições literária, historiográfica e jornalística apresentadas e o terceiro um quadro comparativo das vertentes literário-romanesca, psicológica-interpretativa, histórico-discursiva e crítica-híbrida. Estes quadros podem ser organizados com os seguintes resumos:

Quadro 1:
Comparativo epistemológico, metodológico e estético
Quadro 2:
Comparativo das tradições literária, historiográfica e jornalística
Quadro 3:
Comparativo das vertentes

Conclusões

Biógrafos de gerações e países distintos, os sete autores abordados neste artigo publicaram biografias e se propuseram a refletir sobre o fazer biográfico, ofertando orientações para quem deseja narrar vidas alheias. André Maurois, Leon Edel, François Dosse, Manuel Alberca, Anna Caballé, Ruy Castro e Lira Neto relataram suas experiências, suas ideias e comentaram obras e autores que se destacaram da antiguidade até a atualidade.

O septeto biografou, em sua maioria, intelectuais, escritores de ficção e não ficção, pensadores que se destacaram em suas épocas e se tornaram nomes reconhecidos dentro e fora de seus países. As exceções são Ruy Castro e Lira Neto, dois jornalistas que biografaram personagens de outras áreas, como esporte, música, política e religião. A experiência dos brasileiros reflete nas visões sobre teoria e método biográfico.

A principal divergência entre os autores está na cronologia. Maurois, Castro e Lira preferem seguir a ordem do calendário para narrar uma vida, enquanto os demais admitem experiências distintas, que devem ser avaliadas pelo biógrafo ao estruturar seu texto. É possível organizar a narrativa, por exemplo, conforme papeis que o protagonista exerceu.

As visões dos teóricos convergem, com respectivas nuances, em aspectos característicos da biografia, a exemplo da definição como gênero híbrido, impuro, um meio de caminho entre história e literatura. Os autores chamam atenção para relevância de usar técnicas da literatura a fim de entregar ao leitor um texto fluído e atraente, uma obra com aspirações de arte, mesmo que o conteúdo seja não ficcional.

Os teóricos admitem que a proximidade com a literatura e o relato em forma de narrativa faz com que seja inevitável o recurso à ficção ou especulação em momentos pontuais do texto, em especial diante de lacunas na apuração. No entanto, são enfáticos ao pontuarem que o biógrafo peca caso invente cenas, diálogos e acontecimentos. O biógrafo lida com essa dificuldade comum aos historiadores e com a aporia de buscar verdades ao reconstruir o passado com os fragmentos disponíveis.

Os autores também frisam que a biografia deve tratar do íntimo do sujeito, apresentar não somente a relação dos feitos públicos de uma pessoa. O aspecto psicológico das biografias e a compreensão de que os seres humanos são complexos e mudam ao longo da vida são pontos que ganharam relevância para alcançar o efeito de vivido, a autenticidade do relato que chama atenção do leitor atraído pela exemplaridade, importância e/ou extraordinariedade de determinadas vidas.

Neste contexto, os autores destacam a dificuldade de entregar uma biografia de qualidade, documentada, coerente e de leitura agradável diante da dimensão da pesquisa; da tarefa de analisar e selecionar múltiplas partículas de uma vida; do desafio de desvendar as imposturas e apontar imperfeições do biografado; da importância de contextualizar a trajetória de vida no tempo e sociedade; da tarefa de compreender o íntimo, as motivações e receios do personagem; e da necessidade de manter certa distância regulamentar do indivíduo, driblando admiração ou ojeriza excessivas.

As reflexões dos sete autores mostram que não há um modelo ou uma metodologia única de apuração, seleção das fontes de diferentes origens, análise do material e redação do relato para narrar uma vida. As ancoragens das biografias variam de autor para autor, influenciadas por formação e preferências, com biógrafos mais afeitos à inclinação histórica, literária, filosófica, psicológica, fenomenológica e jornalística. A inclinação define a principal característica de determinada obra que apresenta, também, características de outras abordagens, o que reforça o caráter híbrido, impuro, intermediário e interdisciplinar da biografia.

O gênero tem limitações e aporias, lida com os questionamentos a respeito da coerência e da capacidade de narrar de forma fidedigna uma vida e suas realizações e fracassos. Da mesma forma, o gênero parece regido pela não-linearidade, é possível perceber que não existe uma unidade teórica e metodológica, o que lhe imprime um grau de complexidade e de liberdade estética próxima a da arte literária, assim como um grau de empatia, cuidado ético e rigor científico comparável ao da História e do Jornalismo.

Na visão dos sete biógrafos-teóricos aqui tratados, a biografia é um caminho para transmitir conhecimento a respeito de um sujeito e sua época, exige a compreensão do outro e sana a curiosidade do leitor sobre vidas alheias, em especial as de figuras de destaque, em um texto de qualidade estética e que tem entre os pilares de sua credibilidade o efeito de vivido. Os apontamentos dos biógrafos a respeito do fazer biográfico mostram como biografias são pensadas e executadas. Essa discussão teórica e metodológica ajuda a compreender um dos gêneros mais populares entre os leitores de diferentes gerações.

Declaração de Disponibilidade de Dados

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    Este artigo foi apoiado pelo Edital FAC-PPGCom 12/2025 (Proap).
  • Editor:
    Antonio Marcos Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2025
  • Aceito
    20 Out 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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