RESUMO
Objetivo: Refletir sobre como o uso excessivo das redes sociais pode afetar negativamente a cognição humana, especialmente nos processos de atenção, memória e emoção, considerando seu impacto na dinâmica da sociedade moderna.
Método: Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa, utilizando materiais acadêmicos, fontes de informação e dados estatísticos. Foram analisados estudos nacionais e internacionais que relacionam o uso de redes sociais a alterações cognitivas.
Resultados: Os achados indicam que o uso excessivo das redes sociais está associado a prejuízos na atenção, à sobrecarga e redução da capacidade de memória e a alterações emocionais, como ansiedade e baixa tolerância à frustração. Tais efeitos repercutem na produtividade, na qualidade das interações sociais e no bem-estar geral.
Conclusões: O estudo oferece subsídios para compreender os impactos cognitivos do uso intensivo das redes sociais e para fundamentar estratégias que minimizem efeitos negativos, incentivando práticas digitais mais equilibradas.
PALAVRAS-CHAVE:
Cognição; Redes sociais; Atenção; Memória; Emoção
ABSTRACT
Objective: To reflect on how excessive use of social media can negatively affect human cognition, especially in the processes of attention, memory, and emotion, considering its impact on the dynamics of modern society.
Method: An integrative literature review was conducted, with a qualitative approach, using academic materials, information sources, and statistical data. National and international studies relating the use of social media to cognitive changes were analyzed.
Results: Findings indicate that excessive use of social media is associated with impairments in attention, overload and reduction of memory capacity, and emotional changes, such as anxiety and low tolerance to frustration. These effects impact productivity, the quality of social interactions, and overall well-being.
Conclusions: The study provides insights into understanding the cognitive impacts of intensive social media use and supports the development of strategies to minimize negative effects, promoting more balanced digital practices.
KEYWORDS:
Cognition; Social Media; Attention; Memory; Emotion
1 INTRODUÇÃO
As transformações nas práticas sociais contemporâneas têm sido profundas, impulsionadas pela evolução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e pela disseminação dos dispositivos eletrônicos, como celulares, tablets e outros aparelhos móveis, que facilitam o acesso à Internet e às redes sociais. Essas mudanças resultam em alterações significativas nos hábitos sociais, abrangendo desde os comportamentais no ambiente laboral e doméstico, até os relacionados aos relacionamentos interpessoais.
Silva, Teodoro e Couto (2024) afirmam que as redes sociais são plataformas virtuais que viabilizam a criação de perfis individuais com certa visibilidade pública. São espaços privilegiados para a interação e expressão pessoal, que, embora sejam recentes em comparação com a longa trajetória da história humana, já suscitam questões significativas que exigem reflexão, especialmente no que se refere à subjetividade individual e ao desenvolvimento antropológico, cultural e social. Esse fenômeno se deve à profundidade e ao tempo considerável que as pessoas têm dedicado ao uso dessas tecnologias.
O uso das redes sociais tem se consolidado como uma ferramenta versátil, sendo utilizada para diversas atividades, permitindo às pessoas conectarem-se, expressar-se, adquirir conhecimento, entreter-se, sentirem-se pertencentes a determinados grupos e desenvolver-se profissionalmente. No entanto, é importante reconhecer que esse uso também pode acarretar efeitos indesejados, tais como comparações sociais, aumento da ansiedade e comportamentos compulsivos (Fortuna, 2022; Pereira, 2024; Recuero, 2007).
Assim, observa-se que o uso constante das redes sociais impacta profundamente a cognição humana, prejudicando processos como a memória e a concentração devido à exposição a estímulos rápidos e à sobrecarga de informações. Além disso, essas plataformas influenciam as emoções, gerando ansiedade e solidão, ao mesmo tempo em que distorcem a percepção da realidade e dificultam a gestão emocional no mundo real.
Nesse viés, o termo “infodemia” passou a caracterizar esse novo ambiente, na qual se refere ao excesso de informações, muitas vezes não confiáveis, chamada de “desinformação”, durante um surto epidêmico. Com o crescimento das redes sociais, tanto a informação quanto a desinformação podem se disseminar rapidamente e a dificuldade em validar a confiabilidade das fontes pode levar a comportamentos prejudiciais à saúde.
Observando a relevância do uso das redes sociais na sociedade e seus impactos, tanto no comportamento social quanto na saúde física e mental dos usuários, especialmente diante do uso excessivo e do tempo prolongado de exposição, evidencia-se a necessidade de desenvolver uma análise teórica fundamentada nos conceitos da Cognição Humana e de Redes Sociais.
Busca-se compreender, portanto, de que forma os seres humanos utilizam processos cognitivos, como a atenção, a memória e as emoções, para a elaboração de percepções, juízos e tomadas de decisão nas interações virtuais, e quais são os reflexos desse uso na dinâmica da sociedade moderna.
2 COGNIÇÃO HUMANA
As ciências cognitivas são frequentemente descritas como uma área temática transdisciplinar, na qual integram diversas disciplinas, como a Psicologia, a Neurociência, a Linguística, a Filosofia, a Gestão (quando se trata de tomada de decisão), e, mais recentemente, envolvendo a Robótica e a Inteligência Artificial (Eysenck; Keane, 2017; Matlin, 2004; Sternberg, 2008).
Gazzola (2021) propõe um novo conceito de cognição, entendido como um conjunto de perspectivas teóricas distintas, mas que enfatizam o papel do corpo na cognição e suas aplicações a outros temas e disciplinas.
Essa abordagem interdisciplinar visa entender como os seres humanos (Homo sapiens sapiens) pensam e como a cognição, como sinônimo da construção do conhecimento, atua no processamento de informações e na tomada de decisões. Sternberg (2008) afirma que pesquisadores da cognição utilizam conceitos e métodos para estudar como os seres humanos obtêm e usam os conhecimentos ao longo da vida, adquiridos pela aprendizagem e pela experiência, por meio do acúmulo de informações, e que são utilizados na resolução de problemas. Assim, as pesquisas desenvolvidas sobre a cognição humana têm buscado apreender o modo como as pessoas pensam, interpretam e percebem o mundo.
Os estudos sobre o desenvolvimento cognitivo humano se concentram em quatro principais teorias: Piaget, os neopiagetianos (entre os quais estão Robbie Case, Kurt Fischer e Dierdre Kramer), Vygotsky e a abordagem do processamento da informação (Neves, 2006).
Nesse conjunto de contribuições, Piaget (1983) destaca-se ao propor que a cognição é uma forma de adaptação biológica, na qual o conhecimento é construído gradualmente por meio do desenvolvimento de estruturas cognitivas organizadas em estágios. Esse processo ocorre por meio da assimilação e da acomodação, mecanismos fundamentais que se modificam conforme a idade e permitem ao indivíduo ajustar-se às demandas do ambiente (Sternberg, 2008).
Os neopiagetianos ampliam a teoria de Piaget, destacando habilidades cognitivas, como a coordenação de informações e a definição de estratégias para alcançar metas. Também valorizam a mediação e a interação social na resolução de problemas (Neves, 2006).
Já Vygotsky, Luria e Leontiev (1998) entendem que o conhecimento se constrói nas interações sociais. A aprendizagem ocorre quando há cooperação entre indivíduos, especialmente entre adultos (“incentivadores cognitivos”) e crianças (“participação orientada”), promovendo a mediação e a reorganização do pensamento.
Por fim, a teoria do processamento da informação (Hunt, 1980) investiga os processos mentais envolvidos na resolução de problemas e na compreensão de textos. Essa abordagem entende a mente como um sistema que trata informações e vem se integrando aos estudos da neurociência cognitiva. A cognição, entendida como a competência individual de processar informações e convertê-las em conhecimento, envolve diversas funções cerebrais e mentais, que vão desde a percepção até a memória.
Diante desse cenário, destaca-se a necessidade de compreender o conceito de racionalidade limitada, proposto por Simon (1990). Diferentemente de máquinas de lógica perfeita, os seres humanos tomam decisões utilizando atalhos mentais fundamentados em experiências anteriores, pois sua capacidade de processar informações é limitada.
Em outras palavras, Simon define a mudança de comportamento como uma forma de racionalidade limitada, uma vez que os agentes não dispõem de todas as informações necessárias para realizar a escolha ideal. Suas decisões são condicionadas tanto pelo contexto específico que estão inseridos, quanto pelas limitações cognitivas inerentes aos próprios tomadores de decisão.
Trata-se de algo que surge da própria estrutura do ser humano e de sua experiência como observador, processo que se inicia no nascimento, quando o bebê já percebe tudo ao seu redor. Essa condição fundamental impõe limites que moldam inclusive a forma como produzimos conhecimento científico. Nos processos cognitivos mais básicos, destacam-se conceitos como atenção e memória (Sternberg, 2008), que funcionam tanto como gatilhos quanto como limitações, já que não é possível processar todas as informações que recebemos simultaneamente.
2.1 Atenção
Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, “atenção” pode ser definida como a “concentração da atividade mental em determinada pessoa ou coisa” (Atenção, c2025). Ampliando um pouco mais esse conceito, a atenção atua como um filtro dos diversos estímulos percebidos pelos sentidos, memórias e de outros processos cognitivos, de forma a processar uma quantidade restrita de informação avaliada como mais relevante (Duncan, 1999; Sternberg, 2008).
Para Sternberg (2008), como o ser humano possui recursos mentais limitados, assim como um limite de concentração relacionado à quantidade de informações e processos cognitivos, é pela utilização da atenção que se torna possível focar naquilo que interessa em determinada ocasião, de forma que a resposta a esses estímulos seja mais rápida e precisa, contribuindo também para a memória.
William James, pioneiro no estudo da atenção, segundo Mark (2024, p. 17), em sua obra “Princípios de Psicologia” (1890), definiu o termo através de uma perspectiva psicológica: “[A atenção] é a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um entre o que parecem ser vários objetos ou linhas de pensamento simultâneos possíveis”; ou seja, algo que é influenciado/determinado pela vontade/escolha/decisão do indivíduo, um processo volitivo, mas que pode variar e ser influenciado de acordo com o grau do estímulo, externo ou interno, seja ambiental, social ou técnico, principalmente no contexto do mundo digital atual (Mark, 2024).
Seguindo essa lógica da influência, Cosenza e Guerra (2011, p. 41) citam que, “através do fenômeno da atenção somos capazes de focalizar em cada momento determinados aspectos do ambiente, deixando de lado o que for dispensável” e, assim, apreender a informação. Para os autores, “podemos, conscientemente, dirigir a atenção a determinados estímulos enquanto ignoramos outro” (Cosenza; Guerra, 2011, p. 42).
Um dos distúrbios causados pelo excesso de uso de mídias sociais, de acordo com Rosen, Cheever e Carrier (2012) é a economia de atenção, que é um recurso finito e, conforme a quantidade de informação aumenta, conseguimos prestar menos atenção em tudo. Assim, quanto maior a riqueza da informação, maior a pobreza da atenção (Transtorno do Déficit de Atenção).
A dificuldade de manter o foco é um problema amplamente reconhecido em ambientes hiperconectados. Estudos indicam que o uso contínuo de dispositivos digitais e a constante alternância entre diferentes tarefas e fontes de informação têm impacto negativo na capacidade de concentração e de aprendizado profundo (Carr, 2010).
2.2 Memória
Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, “memória” pode ser definida como a “faculdade de lembrar e conservar ideias, imagens, impressões, conhecimentos e experiências adquiridos no passado e habilidade de acessar essas informações na mente”. Para a psicologia, é a “função psíquica de um indivíduo de reproduzir um estado de consciência passado e reconhecê-lo como tal”, bem como um “termo geral para denominar a função do sistema nervoso com a capacidade de reconhecer, evocar, reter e fixar as experiências passadas” (Memória, c2025).
De acordo com Baddeley, Anderson e Eysenck (2011), a memória é considerada um sistema complexo e múltiplo, combinado por arranjos de codificações ou subsistemas que permitem a armazenagem e a recuperação de informações no cérebro.
Uma das desordens causadas diretamente ligadas à utilização intensa das tecnologias digitais, como descreve o Dr. Larry D. Rosen (2013), é o “Efeito Google” - a tendência do cérebro humano de reter menos informação porque ele sabe que as respostas estão ao alcance de alguns cliques. Nesse caso, resulta em uma dinâmica de parceria (ou dependência) entre usuário e sistema, caracterizada por uma cumplicidade que se estabelece, pois se cria a impressão de que “a internet se tornou parte de seu próprio conjunto de ferramentas cognitivas” (Wegner; Ward, 2015, p. 66). O indivíduo passa a não diferenciar mais o que é a sua memória individual e pessoal das informações disponibilizadas virtualmente, sobretudo porque “a informação buscada na internet chega às vezes mais rápido do que se estivéssemos vasculhando o fato em nossa memória” (Wegner; Ward, 2015, p. 66).
Embora seja plausível pensar sobre a capacidade de acumulação dos meios e a possível facilitação de acesso, que influem diretamente na retenção dos conteúdos, como demonstra o “Efeito Google”, essas condições podem também ser refletidas como uma resposta à incapacidade de lidar com o excesso de conteúdos continuamente produzidos e disponibilizados (Baitello Junior, 2005).
2.3 Emoção
Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, “emoção” define-se como a “ação de sensibilizar(-se)”, “perturbação dos sentimentos; turbação”. Para a psicologia, “reação afetiva de grande intensidade que envolve modificação da respiração, circulação e secreções, bem como repercussões mentais de excitação ou depressão” (Emoção, c2025).
Para Damásio (1996), as emoções envolvem aspectos externos e internos ao ser humano, sendo os primeiros responsáveis pela formação e os segundos pelos efeitos das emoções. Consistem em um conjunto de alterações no estado do corpo associadas a certas imagens mentais. Para ser emoção, o estado do corpo deve apresentar alterações provenientes de um estado mental a partir das representações das/nas interações sociais.
Segundo Alvarenga (2012), as emoções desempenham um papel significativo nas decisões, especialmente na forma como o humor afeta a percepção de risco. Pessoas com emoções mais positivas tendem a evitar grandes riscos, enquanto aquelas em estados emocionais negativos podem acabar se arriscando mais. Em alguns casos, esse comportamento pode parecer inesperado, conforme confirmado por estudos.
Ao analisar as emoções e a sua relação com o uso das redes sociais, Souza e Cunha (2018) identificam a necessidade crescente da população contemporânea de estar constantemente conectada, condição chamada de nomofobia.
Esse fenômeno é visto como uma forma de representação de sentimentos e pensamentos causados pela relação exagerada do homem com a tecnologia. Assim, entende-se que prováveis alterações emocionais podem ocorrer na vida desses usuários, pelo medo de ficar desconectados ou incomunicáveis.
3 REDES SOCIAIS
As redes sociais se configuram como uma das estratégias usadas pela sociedade para o compartilhamento de informação e conhecimento (Silva; Dellagnelo, 2004). Marteleto et al. (2010) as conceitua como um conjunto de participantes autônomos, unidos por ideias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados, em uma estrutura sem fronteiras, que se comunicam de forma não linear, descentralizada, flexível, dinâmica, auto-organizável, estabelecida por relações horizontais (não hierárquicas) de cooperação.
De acordo com estudos atuais, o uso de Redes Sociais vem aumentando anualmente. Pesquisas apresentadas por Meltwater e We Are Social (2024) e Elad (2025), na Figura 1, revelam que o número de identidades ativas em redes sociais já ultrapassou 5 bilhões, representando aproximadamente 62 % da população mundial. Isso representa um crescimento anual de 5,42 % (266 milhões de novos usuários nos últimos 12 meses da data da pesquisa).
Em 2025, as redes sociais continuaram a desempenhar um papel central na vida digital das pessoas. De acordo com a GWI (2025), conforme Tabela 1, embora o Facebook mantenha a liderança em número de usuários ativos mensais (3,07 bilhões), seguido pelo YouTube (2,53 bilhões) e Instagram/WhatsApp (2 bilhões cada), a métrica de engajamento revela outra perspectiva.
Quando analisado o tempo médio gasto por usuário, o destaque vai para o TikTok, com mais de 34 horas mensais (superando 1 hora por dia), seguido pelo YouTube, com cerca de 28 horas por mês. Essas plataformas dominam o tempo de atenção do usuário, mesmo não sendo as mais acessadas em termos absolutos.
Já no aspecto da plataforma preferida entre usuários de 16 a 64 anos, os dados mais recentes indicam que o Instagram ocupa o primeiro lugar (16,5 %), ligeiramente à frente do WhatsApp (16,1 %) e do Facebook (13,4 %), conforme levantamentos do GWI1.
Esses dados evidenciam que popularidade, engajamento e preferência são métricas distintas que, juntas, revelam a complexidade do comportamento digital contemporâneo.
Os principais motivos que estimulam as pessoas a usarem redes sociais são: Sociais (conexão, apoio, pertencimento); Cognitivas (informação, curiosidade); Afetivos e Emocionais (entretenimento, alívio emocional); e Expressão pessoal e status (validação, construção de identidade) (Silva; Teodoro; Couto, 2024; Recuero, 2007).
4. IMPACTOS COGNITIVOS NO USO EXCESSIVO DAS REDES SOCIAIS
O impacto das redes sociais na cognição humana vai além da simples mudança de comportamentos sociais: ele afeta diretamente processos mentais essenciais, como a memória e a regulação emocional. Como aponta Greenfield (2008), o uso frequente de dispositivos digitais estimula processos cognitivos rápidos e superficiais, em detrimento de uma reflexão mais lenta e profunda. Esse padrão de processamento pode, eventualmente, prejudicar a capacidade de fazer conexões complexas e de resolver problemas de maneira analítica.
A Organização Mundial de Saúde (World Health Organization, c2025) traz o conceito de “infodemia” como o excesso de informação, seja em ambientes digitais e/ou físicos, durante um surto de doença, incluindo informações enganosas ou falsas, causando confusão e comportamentos de risco com possível prejuízo à saúde. Esse cenário contribui também para a perda de confiança nas autoridades de saúde, comprometendo e prejudicando assim a eficácia de resposta da saúde pública, podendo até intensificar ou prolongar surtos, pois as pessoas não têm certeza sobre o que é necessário ser feito para proteger sua saúde e a das pessoas ao seu redor.
Com a crescente expansão das mídias sociais e do uso da internet, a informação pode se espalhar mais rapidamente, ajudando a preencher lacunas de informação de forma mais célere, mas também pode aumentar a divulgação de informações falsas ou erradas e até prejudiciais à saúde.
De acordo com Garcia e Duarte (2020), durante a pandemia da COVID-19, o fenômeno da infodemia se intensificou. Esse volume de informações contraditórias dificultou a identificação do que era realmente útil, afetando a tomada de decisões por profissionais da saúde. O bombardeio constante por diferentes meios e mídias acabou sobrecarregando as pessoas, gerando ansiedade, exaustão e comprometendo sua capacidade de enfrentar os desafios diários. Nessa mesma linha, Pereira e Coutinho (2022), em sua pesquisa, fazem uma reflexão sobre o período da pandemia do coronavírus e o uso do WhatsApp como meio de propagação de notícias falsas (“fake news”), criando um ambiente social de infodemia e desinformação.
O uso contínuo dessas plataformas, muitas vezes caracterizado pela exposição constante a estímulos rápidos e informações fragmentadas, tem sido associado a uma redução na capacidade de concentração e retenção de informações, o que prejudica a memória de longo prazo (Shanmugasundaram; Tamilarasu, 2023). Esse estudo traz o conceito de “demência digital”, caracterizando a menor capacidade de memória e atenção devido ao uso excessivo de tecnologia, incluindo mídias sociais.
Rangel e Miranda (2016) apresentaram em sua pesquisa que a simples presença do celular com uso de redes sociais reduz o desempenho da memória em sala de aula. Chiossi et al. (2023) mostraram que vídeos curtos (como TikTok) interferem na memória prospectiva ao causar constante troca de contexto.
Por fim, o estudo de Cain et al. (2016), apontou que a quantidade de informações das mídias está associada ao menor funcionamento da memória. O estudo registrou o impacto negativo na memória dos usuários do Instagram e do TikTok no que tange à utilização da memória no cotidiano: frequente esquecimento de levar itens que planejavam ao sair, levar algo que se encontrava à sua frente, esquecer de fazer algo que instantes antes planejava fazer.
Ademais, a interação em ambientes digitais influencia profundamente as emoções, muitas vezes ampliando reações de ansiedade e solidão, ao mesmo tempo em que cria uma falsa sensação de conexão.
Síndromes da era digital relacionadas a transtornos de ansiedade, segundo Mussio (2017), são derivadas de vícios em tecnologia, sobretudo em relação às redes sociais, conhecidas como: FOMO (Fear of Missing Out) - o medo de perder alguma coisa; FOBO (Fear of Being Offline) - o medo de ficar offline; e FODA (Fear of Doing Anything) - o medo de fazer qualquer coisa. FOMO é quando a pessoa sente uma necessidade crônica de conferir suas redes sociais e de saber o que os outros estão fazendo e sentir-se parte disso. FOBO é quando a pessoa se sente realmente mal por estar desconectada da web e sente uma necessidade quase obsessiva de atualizar a sua linha do tempo nas redes sociais. FODA é uma junção das duas anteriores e surge quando a pessoa sente que tem que saber de tudo, participar de tudo e estar hiperconectada o tempo inteiro.
Estudos confirmaram forte correlação entre ansiedade social e uso problemático de redes, resultando em pior saúde mental (O’Day; Heimberg, 2021; Wu; Huang; Yang, 2024).
De acordo com Lin et al. (2016), a constante exposição a conteúdos e os efeitos de recompensa instantânea (curtidas e comentários) podem contribuir para o aumento do indício de crises de ansiedade e sintomas depressivos na sociedade.
O constante feedback visual e emocional das redes sociais pode alterar a percepção da realidade, provocando desequilíbrios nas respostas emocionais. Em outras palavras, a necessidade por “likes” e comentários influenciam positiva ou negativamente a autoestima, a percepção da realidade e dificulta a regulação emocional dos usuários na vida real.
Voggenreiter et al. (2024) mostrou que pouca reação on-line reduz a autoestima e aumenta o isolamento; já as reações positivas elevam o senso de conexão. Portanto, crianças e adolescentes que navegam intensamente nas redes virtuais revelam grandes possibilidades de apresentarem alterações socioemocionais (Kelly, 2019).
5. METODOLOGIA
Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura. Conforme Whittemore e Knafl (2005), este tipo de revisão tem como objetivo resumir a literatura teórica ou empírica acerca de um determinado fenômeno. Além disso, revisões integrativas contribuem para o desenvolvimento de teorias e para a aplicabilidade prática da ciência.
Esta revisão integrativa foi conduzida pela seguinte pergunta de pesquisa: Qual é a influência do excesso de uso das redes sociais nos processos cognitivos e quais são os reflexos desse uso na sociedade moderna?
A coleta de dados ocorreu em 15/06/2025 nas bases de dados Web Of Science e Scopus e no portal de periódicos da Capes. Para a busca nas bases de dados, respeitou-se a especificidade de cada portal, de modo que ao final foram utilizados os descritores: “mental health” AND “social midia” AND NOT “psychological disorder”. Assim como foram usados também: “redes sociais, cognição humana e saúde mental”. Para selecionar as referências nas bases de dados, respeitou-se a especificidade de cada portal na busca avançada, para conter pelo menos um dos termos no título, com acesso aberto, texto na íntegra, em português ou inglês e somente artigos empíricos.
Foram considerados como critérios de inclusão: a) artigo completo; b) disponibilizado em língua portuguesa; c) conter no conteúdo dos artigos dependência ou uso excessivo de redes sociais como tema central; d) ter sido publicado entre 2015 e 2025. Como critérios de exclusão têm-se: a) texto disponibilizado de forma parcial; b) texto disponível em outro idioma que não o português e inglês; c) Teses e dissertações, livros e capítulos de livros; d) não apresentar o vício, dependência ou uso excessivo de redes sociais como tema central. Para evitar a duplicação dos dados, estes foram cruzados.
Os estudos selecionados abrangem vários países, tendo sido realizados em locais como Canadá, Brasil e Estados Unidos, o que contribui para a diversidade da literatura explorada neste estudo. A maioria dos artigos analisados revelou uma relação significativa entre o uso excessivo de redes sociais e o surgimento de problemas de saúde mental.
6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Apesar de as redes sociais (e a internet) terem a capacidade de proporcionar várias experiências positivas, como a interação entre as pessoas, as pesquisas demonstraram o perigo que o seu uso descontrolado e contínuo (hiperconexão) pode trazer para a cognição humana.
Os adolescentes canadenses relataram uso excessivo das mídias sociais como Instagram, Snapchat e Facebook, aplicativos e programas que possibilitam a conectividade constante nos relacionamentos, especialmente as adolescentes, que relatam dificuldade na interação com a família, resultando em sentimentos de solidão e impactos nas habilidades de comunicação social (Adorjan; Ricciardelli, 2021; Favotto et al., 2019).
De acordo com Coyne et al. (2019), as horas gastas em redes sociais não são necessariamente indicativas de problemas de saúde mental. Portanto, os pesquisadores devem examinar o contexto e o conteúdo associados a esse uso da tecnologia, bem como muitos outros fatores que podem explicar o aumento dos problemas de saúde mental na adolescência e na idade adulta jovem. Em outro contexto, os estudos publicados por Nunes et al. (2021), Yang et al. (2022) e Vieira et al. (2022) concluíram que a maioria dos adolescentes apresenta sinais de dependência da Internet porque usam excessivamente a mídia digital.
Assim, alguns pontos puderam ser levantados:
- O estímulo a processos mentais rápidos, superficiais e baseados em informações fragmentadas prejudica a tomada de decisão, além de reduzir a capacidade de concentração, a atenção e a memória de longo prazo (“demência digital”), comprometendo, consequentemente, o aprendizado profundo (Carr, 2010; Greenfield, 2008; Shanmugasundaram; Tamilarasu, 2023);
- A crescente geração de distúrbios, como a chamada economia da atenção, indica que quanto maior a quantidade de informação disponível, menor é a capacidade de manter o foco. Assim, como possível resposta à dificuldade de processamento e uso desse excesso de conteúdo e informação disponibilizados todos os dias, pode-se criar uma dependência entre usuário e sistema - “Efeito Google” (Baitello Junior, 2005; Rosen; Cheever; Carrier, 2012; Rosen, 2013);
- A simples presença do aparelho celular com acesso às redes sociais, a frequente troca de contexto dos vídeos curtos e a grande quantidade de informações nas mídias interferem negativamente nos mais variados tipos de memória, seja em sala de aula ou não, como a memória prospectiva, que é a capacidade de lembrar-se de fazer algo previamente planejado, ou a memória do cotidiano, como por exemplo, não se lembrar de fazer algo que planejava realizar momentos antes (Cain et al., 2016; Chiossi et al., 2023; Rangel; Miranda, 2016);
- O prejuízo emocional, por exemplo, na autoestima, com consequente piora na saúde mental por meio do crescimento de indícios de ansiedade, isolamento e até sintomas depressivos, é ocasionado, entre outros fatores, pelo medo de ficar desconectado ou incomunicável (nomofobia), pela frequente exposição a conteúdos e aos efeitos de recompensa instantânea, bem como pelo baixo senso de conexão on-line ou pela falsa sensação de conexão, principalmente em crianças e adolescentes (Kelly, 2019; Lin et al., 2016; O’Day; Heimberg, 2021; Souza; Cunha, 2018; Voggenreiter et al., 2024; Wu; Huang; Yang, 2024).
Com isso, foi possível perceber como as redes sociais podem influenciar profundamente a cognição humana, caso o seu uso seja inadequado e problemático, afetando não somente os comportamentos sociais, juntamente com o advento dos dispositivos móveis e da internet, mas também processos mentais fundamentais, como a atenção, a memória e o controle das emoções.
Além disso, a aprendizagem também é afetada, devido à superficialidade das informações e a sobrecarga mental. Por isso a importância das pesquisas nessa área, uma vez que o descaso com o assunto pode levar a prejuízos permanentes, principalmente nas novas e futuras gerações.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As redes sociais não só remodelam as formas de interação social, mas também moldam a maneira como o cérebro processa e armazena experiências.
Brooks (2019) argumenta que interrupções frequentes, como notificações, criam uma sobrecarga mental que dificulta a capacidade de concentração em tarefas e prejudica a retenção de informações a longo prazo. Esse efeito é agravado pela fragmentação da atenção, uma vez que o uso das redes sociais favorece um estilo de aprendizado mais superficial e transitório.
Dessa forma, o uso excessivo e desregulado das redes sociais não é uma questão trivial, mas uma preocupação crescente para a saúde mental e social, como no caso da infodemia. A constante exposição a estímulos efêmeros e a pressão por validação social podem ser gatilhos para o desenvolvimento de síndromes relacionadas à ansiedade, incluindo ansiedade social e transtorno de ansiedade generalizada.
Além disso, a dependência dessas plataformas pode manifestar-se em problemas cognitivos como déficits de memória, tanto para informações recentes quanto para a consolidação de eventos passados, e uma acentuada falta de foco e atenção, impactando negativamente o desempenho acadêmico, profissional e as interações interpessoais. A capacidade de reflexão e aprofundamento do pensamento também podem ser mitigadas, uma vez que a mente se torna cada vez mais reativa a estímulos externos e menos propensa à introspecção e à concentração sustentada.
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ORIGEM DA PESQUISA
Este artigo é fruto de uma pesquisa desenvolvida durante o primeiro semestre de 2025, no âmbito da disciplina “A Cognição e o Pensamento Humano”, do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná, sob orientação do Professor Doutor Marcos Antonio Tedeschi.
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GWI (Global Web Index) é uma empresa global de pesquisa de mercado digital que coleta e analisa dados sobre comportamentos, hábitos, preferências e perfis de usuários da internet em mais de 45 países, sendo uma das principais fontes de estatísticas sobre o uso de redes sociais, dispositivos, plataformas de mídia e consumo digital.
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PREPRINTS
(X) O manuscrito não é um preprint.
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USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Não se aplica.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS
(x) A pesquisa não possui dados. O artigo não contém dados coletados ou obtidos por meio de análises a partir de fontes primárias.
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ANUÊNCIA DE AVALIAÇÃO ABERTA
(x) Deseja interagir diretamente com o avaliador caso este também concorde, durante o processo de avaliação do manuscrito?
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LICENÇA DE USO
As autorias cedem à Revista Encontros Bibli os direitos exclusivos de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Essa licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, atribuindo o devido crédito de autoria e publicação inicial neste periódico. As autorias têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada neste periódico (ex.: publicar em repositório institucional, em site pessoal, publicar uma tradução, ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial neste periódico.
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PUBLISHER
Universidade Federal de Santa Catarina. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
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