Open-access CONSTRUÇÃO DE UM DISPOSITIVO DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO EM SAÚDE: O ALMANAQUE DCZ (DENGUE, CHIKUNGUNYA, ZIKA)

Building a health information and communication device: the DCZ Almanac (Dengue, Chikungunya, Zika)

RESUMO

Objetivo:  Apresentar as diferentes fases de produção do Almanaque DCZ (Dengue, Chikungunya, Zika), tendo como eixo norteador a problematização dos condicionantes biológicos, sanitários, sociais, ambientais relacionados aos surtos de arboviroses em territórios vulnerabilizados e o emprego do formato do almanaque como um dispositivo infocomunicacional em saúde, inspirado nos tradicionais almanaques de farmácia, por seu caráter histórico mediador entre saberes populares e discursos técnico-científicos.

Método:  Baseou-se numa triangulação interdisciplinar entre os campos da informação, comunicação e saúde, articulando: 1) referenciais teórico-conceituais sobre mediação de saberes e dispositivos infocomunicacionais; 2) abordagem qualitativa composta por: pesquisa de campo com Agentes comunitários de saúde (ACS) e Agentes de combate às endemias (ACE), mediadores entre os saberes técnico-científicos e os saberes comunitários; pesquisa histórico-documental sobre almanaques de farmácia; pesquisa experimental para a elaboração do Almanaque DCZ, a partir da análise dos dados primários e secundários obtidos.

Resultado:  Organizou-se um amplo banco de dados que integrou as diferentes fontes analisadas, permitindo a construção de uma abordagem plural sobre as arboviroses representada no dispositivo, por meio de elementos textuais, imagéticos e simbólicos acionados a partir das vivências de agentes de saúde. O produto final - O Almanaque DCZ - propõe uma leitura crítica das informações e dos saberes no contexto da prevenção, promoção e cuidados na Estratégia de Saúde da Família (ESF) em territórios vulnerabilizados.

Conclusões:  A perspectiva interdisciplinar adotada na pesquisa permite concluir a propósito de três pontos principais no processo de produção do Almanaque DCZ. Primeiro, a necessária revisão crítica em relação aos mecanismos informacionais unidirecionais e impositivos vigentes na saúde. Segundo, o foco na vida social dos dispositivos infocomunicacionais em suas diferentes temporalidades.Terceiro, a conjugação interdisciplinar entre informação, comunicação e saúde na perspectiva das mediações entre diferentes formas de saberes, de forma a promover múltiplas leituras e apropriações do dispositivo infocomunicacional.

PALAVRAS-CHAVE:
Dispositivo de informação e comunicação em saúde; Mediação de saberes; Almanaque; Dengue; Febre de Chikungunya; Zika virus

ABSTRACT

Objective:  To present the fundamentals and different stages of production of the DCZ (Dengue, Chikungunya, Zika) Almanac, focusing on the biological, health, social and environmental factors related to outbreaks of these arboviruses in vulnerable areas and the use of the almanac format as an infocommunication device in health, inspired by traditional pharmacy almanacs, due to their historical role as mediators between popular knowledge and technical-scientific discourse.

Method:  Based on an interdisciplinary triangulation between the fields of information, communication and health, articulating: 1) theoretical-conceptual references on knowledge mediation and information and communication devices; 2) a qualitative approach consisting of: field research with Community Health Agents (ACS) and Endemic Disease Control Agents (ACE), mediators between technical-scientific knowledge and community knowledge; historical-documentary research on pharmacy almanacs; experimental research for the development of the DCZ Almanac, based on the analysis of primary and secondary data obtained.

Result:  A comprehensive database was organised, integrating the different sources analysed, allowing for the construction of a pluralistic approach to arboviruses represented in the device, through textual, imagery and symbolic elements drawn from the experiences of health agents. The final product - the DCZ Almanac - proposes a critical reading of information and knowledge in the context of prevention, promotion and care in the Family Health Strategy (ESF) in vulnerable territories.

Conclusions:  The interdisciplinary perspective adopted in the research allows us to conclude three main points in the process of producing the DCZ Almanac. First, the necessary critical review of the unidirectional and impositive informational mechanisms in force in health. Second, the focus on the social life of infocommunicational devices in their different temporalities. Third, the interdisciplinary combination of information, communication and health from the perspective of mediations between different forms of knowledge, in order to promote multiple readings and appropriations of the infocommunication device.

KEYWORDS:
Health information and communication device; Knowledge mediation; Almanac; Dengue fever; Chikungunya fever; Zika virus

1 INTRODUÇÃO

Para muitos de nós, a realidade concreta de uma certa área se reduz a um conjunto de dados materiais ou de fatos cuja existência ou não, de nosso ponto de vista, devemos constatar. Para mim, a realidade concreta é algo mais que fatos ou dados tomados mais ou menos em si mesmos. Ela é todos esses fatos e todos esses dados e mais a percepção que deles esteja tendo a população envolvida. Assim, a realidade concreta se dá a mim na relação dialética entre objetividade e subjetividade (Paulo Freire, 1990, p. 44).

O objetivo geral da pesquisa, cujo recorte se apresenta neste artigo, foi investigar, a partir das vivências e dos saberes dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE), tanto os condicionantes biológicos e sanitários que influenciam os surtos endêmicos da dengue, febre de Chikungunya e Zika vírus, quanto as condições sociais e de meio ambiente em que ocorrem. A finalidade prática foi construir um dispositivo de informação e comunicação em saúde: o Almanaque DCZ - Dengue, Chikungunya, Zika (2020).

A pesquisa coletou dados de diversas fontes, primárias e secundárias, como relatos dos agentes de saúde, discursos de organismos oficiais e de especialistas e conteúdos de diversas mídias. O intento foi construir uma compreensão mais ampla e crítica sobre os surtos de arboviroses e outras doenças que afetam a população residente em territórios marginalizados, considerando as diferentes perspectivas e saberes envolvidos.

O recorte que aqui se apresenta, embora priorize o processo de produção do Almanaque DCZ como um dispositivo de informação e comunicação em saúde, imbricado nos planos simbólico e material da vivência social, não pode deixar de demonstrar o eixo comum que orientou a pesquisa como um todo. Trata-se de aprofundar as análises dos processos de produção, mediação e apropriação de formas populares de informação e comunicação em saúde.

O enfoque social-empírico concentra-se na mediação de saberes e informações relacionados às arboviroses e outras doenças em territórios marginalizados, a partir das narrativas de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate às Endemias (ACE) atuantes em unidades da Atenção Primária à Saúde (APS) em duas grandes metrópoles brasileiras: Rio de Janeiro (RJ) e Fortaleza (CE). O enfoque histórico-documental incide sobre os almanaques de farmácia, tradicionalmente destinados a orientar o público leitor sobre cuidados com a saúde, bem-estar, estética, literatura, avanços científicos e aspectos lúdicos da vida cotidiana, no contexto da modernização do país nas primeiras décadas do século XX. Por fim, o enfoque experimental refere-se ao processo de produção colaborativa do Almanaque DCZ - Dengue, Chikungunya, Zika, objeto central de abordagem neste artigo.

O pressuposto geral da pesquisa, já testado na produção de dispositivos de informação e comunicação em saúde em estudos anteriores (Marteleto; Guimarães; Nóbrega, 2008; David; Marteleto, 2012; Marteleto; David, 2014), é a de que o formato do almanaque favorece a conversação entre diferentes formas de saberes, práticas e experiências destacando os elos, as disputas e as dissonâncias entre discursos científicos, oficiais, das mídias e os saberes construídos no enfrentamento das doenças e das condições de vida em territórios locais.

Por outra via, a permanência cultural e informativa dos almanaques demonstraria seu papel fundamental na expressão das questões mais profundas da humanidade, transcendendo as fronteiras do tempo e refletindo o imaginário social nos diferentes contextos de sua produção.

A metodologia envolveu uma abordagem qualitativa de triangulação de teorias e métodos com fundamento interdisciplinar, combinando: a) pesquisa de campo com ACS e ACE, por meio de entrevistas narrativas, grupos focais e oficinas de leitura e apropriação do Almanaque da Dengue (2004)1; b) pesquisa histórico-documental para observar a trajetória dos almanaques de farmácia e compreender o significado desses dispositivos da cultura popular escrita em seus contextos de produção; c) pesquisa experimental para a co-construção do Almanaque DCZ com os participantes da pesquisa.

A construção compartilhada do Almanaque DCZ como um dispositivo de informação e comunicação em saúde envolveu diversas etapas, num processo dinâmico e colaborativo, valorizando a troca de saberes e experiências, as coautorias e a diversidade disciplinar.

Depois de concluídas as análises dos dados da pesquisa de campo e da pesquisa histórico-documental, construiu-se um amplo banco de dados disponível no formato digital a todos os membros da pesquisa. Este foi composto tanto pelos dados primários coletados na pesquisa junto aos agentes de saúde, quanto foi alimentado com dados secundários da pesquisa sobre os almanaques de farmácia, além de outros obtidos em diferentes fontes, por exemplo, os conteúdos extraídos dos portais dos órgãos oficiais de saúde, além de mídias digitais.

A estrutura do Almanaque DCZ foi planejada segundo uma lógica remissiva e hipertextual, preservando a certificação e a devida referência das fontes utilizadas. As falas dos ACS e dos ACE são destacadas em cada temática abordada, ativando conteúdos relacionados à saúde e às arboviroses no contexto das condições de vida.

Elementos textuais e lúdicos da cultura popular têm destaque com a finalidade de estabelecer mediações entre os discursos institucionalmente autorizados e as narrativas dos agentes, incluindo também recursos poéticos e literários para uma leitura crítica das informações e dos saberes no contexto da prevenção, promoção e cuidados da saúde em territórios vulnerabilizados.

2 OS AGENTES E AS ARBOVIROSES

Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e os Agentes de Combate às Endemias (ACE) são profissionais que atuam na Atenção Primária à Saúde (APS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Desempenham um papel essencial na promoção da saúde, na prevenção de doenças e no monitoramento epidemiológico das comunidades. Atuando diretamente junto à população, esses profissionais são fundamentais para fortalecer a atenção primária, reduzir desigualdades no acesso à saúde e combater surtos de doenças infecciosas, especialmente em territórios vulneráveis.

De acordo com as normas do Ministério da Saúde (MS), esses agentes devem residir nas comunidades onde exercem suas atividades, sendo recrutados dentre os moradores e possuem como base de ação uma Unidade de Saúde da Atenção Primária e sua equipe. Embora tenham responsabilidades específicas na Atenção Primária à Saúde nestas unidades inseridas nos territórios, essa dualidade de papéis como profissional de saúde e residente local os torna mediadores entre o conhecimento científico-técnico e os saberes adquiridos por meio das práticas vivenciadas junto às equipes de saúde e à população.

Em 2020 somavam 324 mil profissionais, entre 265 mil ACS com atuação na Estratégia Saúde da Família, prevenindo doenças e atuando na promoção da saúde, e 61 mil profissionais de combate às endemias focados na vigilância epidemiológica e ambiental, prevenindo e controlando doenças, além de atuar na promoção da saúde (Brasil, 2024b).

As arboviroses são um grupo de doenças virais transmitidas principalmente por artrópodes, como mosquitos e carrapatos, atualmente consideradas como um problema de saúde pública global. São categorizadas segundo seu ciclo - predominantemente urbano (dengue, Zika, Chikungunya) ou predominantemente silvestre (febre amarela, febre de Oropouche, febre de Mayaro). No Brasil, a arbovirose de maior incidência é a dengue, e o cenário das arboviroses apresenta um comportamento endêmico, com surtos epidêmicos a cada três ou cinco anos.

Essas enfermidades podem causar uma variedade de sintomas, desde febre leve até complicações mais sérias, sendo algumas delas potencialmente fatais, ou geradoras de sequelas neurológicas (Arboviroses, 2024). São doenças cíclicas e sazonais com ocorrências no Brasil desde o século XIX, porém a primeira epidemia reportada de dengue é do ano de 1982. Em 2014 ocorreram os primeiros casos de febre Chikungunya e, em 2015, de Zika vírus. A incidência dessas arboviroses está associada à rápida reprodução do vetor - o mosquito Aedes aegypti - favorecida pelo início do período de chuvas, as altas temperaturas e as más condições de habitação e saneamento, sobretudo em áreas precarizadas com alta densidade populacional.

Apesar de possuírem atribuições específicas nas áreas de promoção da saúde e prevenção de doenças, os Agentes Comunitários de Saúde e os Agentes de Combate às Endemias compartilham responsabilidades no enfrentamento das arboviroses. Entre suas atividades comuns destacam-se o diagnóstico demográfico, social, cultural, ambiental, epidemiológico e sanitário dos territórios de atuação, subsidiando o processo de territorialização e mapeamento para o controle das arboviroses.

Esses profissionais também atuam na identificação de parceiros e recursos comunitários que possam fortalecer ações intersetoriais voltadas à prevenção dessas enfermidades. Realizam visitas domiciliares conforme o planejamento das equipes, priorizando indivíduos com agravos e condições de saúde que demandam maior acompanhamento. Com frequência, os ACS e ACE são os primeiros profissionais a identificar casos de doenças transmissíveis nos territórios, daí decorrendo seu papel fundamental como educadores populares e mediadores entre as unidades de saúde e a população (Marteleto; David, 2014).

Além disso, inspecionam imóveis não residenciais, acompanhados dos responsáveis, com o objetivo de localizar e eliminar possíveis criadouros do vetor. Também promovem a mobilização comunitária e a educação em saúde para adoção de práticas de manejo ambiental, bem como participam ativamente de campanhas e mutirões voltados à redução da transmissão da dengue, chikungunya e zika vírus especialmente em períodos de aumento da incidência de casos (Brasil, 2009, 2017, 2024a).

A pesquisa se interessou em investigar as mediações de saberes em redes sociais que se configuram entre os agentes e outros profissionais atuantes nas unidades de saúde e entre os agentes e a população residente nos territórios onde exercem suas funções.

3 ALMANAQUES DE FARMÁCIA COMO DISPOSITIVOS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO

Desde sua formulação por Foucault como elemento de uma rede heterogênea de saber-poder, composta por diferentes componentes “que inclui discursos, instituições, formas arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais e filantrópicas - em resumo, tanto o dito quanto o não dito” (Foucault, 1977, p. 62), o termo dispositivo passou a adquirir um significado amplo e abrangente, adaptando-se a diversos contextos e campos do conhecimento.

Nos estudos da informação e da comunicação, o dispositivo é uma noção-chave intimamente ligada à análise dos processos de mediação, análise que permite, em especial, associar o estudo dos suportes midiáticos e tecnológicos ao dos desafios e dos atores em situações sociais específicas (Appel; Boulanger; Massou, 2010). A análise de dispositivos abre novas perspectivas na compreensão das lógicas de poder e autoridade, da construção dos regimes de saberes e da circulação desses saberes em diferentes espaços sociais.

O dispositivo infocomunicacional é, portanto, estudado como objeto material mediador. Ele designa o conjunto de substratos materiais da comunicação (Jeanneret, 2005). E constitui o espaço no qual humanos, objetos informacionais, materiais e seus elos se organizam para colocar em prática as interações documentárias ao mesmo tempo reais e simbólicas que instituem práticas, modalidades e lógicas de uso (Sognos; Canizares; Gardiès, 2024).

Nessa perspectiva, a mediação pode ser compreendida a partir de diferentes figuras: uma figura procedimental, que descreve os dispositivos em sua lógica de funcionamento; uma figura social, que se refere à operacionalidade simbólica dos dispositivos; e uma figura reflexiva, que amplia o olhar sobre a forma como os saberes circulam, são elaborados e se transformam (Jeanneret, 2009).

Para analisar os almanaques de farmácia como dispositivos infocomunicacionais de mediação de saberes foram ressaltados os seguintes elementos principais de sua composição, segundo Foucault (1977): a) a heterogeneidade - os dispositivos são compostos por elementos diversos e não homogêneos, que se interconectam de maneiras complexas; b) a estratégia: cada dispositivo responde a uma “urgência” ou necessidade histórica específica, funcionando como uma estratégia para lidar com determinadas questões sociais, como a doença, a loucura ou a sexualidade; c) a produção de subjetividade: os dispositivos não apenas regulam comportamentos, mas também moldam os sujeitos, influenciando suas identidades, crenças e práticas.

Para isso, consideraram-se, em um primeiro momento, os almanaques e seus repertórios como “objetos concretos”, ou seja, dispositivos infocomunicacionais presentes no mundo ocidental, especialmente a partir da invenção da escrita e da imprensa. Buscou-se identificar seus sinais e significados, os diálogos entre oralidade e escrita, entre diferentes formas de saberes, bem como suas estratégias textuais e editoriais. Em um segundo momento, foram analisados seus modos de existência e circulação social, enquanto portadores de múltiplas formas de saberes e ideias.

No Brasil, os mais populares são os almanaques de farmácia, de ampla divulgação e uso desde as primeiras décadas do século XX até os anos de 1970, patrocinados por laboratórios farmacêuticos. Estudos realizados no país (Park, 1999; Casa Nova, 1996; Meyer, 2001; Gomes, 2006) mostram o interesse dos laboratórios farmacêuticos brasileiros e estrangeiros na promoção dos seus produtos, por meio da publicação e circulação de almanaques, alcançando amplas tiragens com distribuição gratuita nas farmácias em todo o território brasileiro.

Além da divulgação de medicamentos para diversas enfermidades e de produtos voltados ao embelezamento feminino e masculino, esses materiais também veiculavam tradições culturais - como provérbios, adivinhas, crendices populares, festas - além de informações práticas, como calendários agrícolas, religiosos e cívicos. Atuavam como instrumentos de educação, especialmente na área da saúde, direcionados tanto a adultos quanto a crianças, promovendo orientações sobre hábitos de vida saudáveis, práticas de higiene e valores associados à construção de uma nação trabalhadora (Kuhlmann Jr; Magalhães, 2010).

Os almanaques de farmácia funcionaram como veículos de difusão não apenas de medicamentos, como também de ideias relacionadas com o projeto de modernização do país para o avanço da saúde pública por meio do higienismo, além dos contrapontos e comparações com os modelos de saúde: “mais do que isso, a raça brasileira precisava ser moldada para trilhar o caminho da civilização. O almanaque de farmácia traz em seu bojo a medicalização do espaço urbano-rural, trazendo uma política higienista, com normas de conduta individual e social” (Park, 1999, p. 77).

Configura-se, assim, o almanaque de farmácia como uma publicação de ampla circulação, promotora de práticas de leitura e escrita, construída a partir de elementos textuais cujas características se situam nas fronteiras entre formas de sistematização científica e a concepção popular de “informação útil”. Ao mesmo tempo, funciona como espaço de expressão da cultura popular - naquilo que ela conserva, cria e recria do mundo da vida, da ciência e das mídias (Marteleto; Guimarães; Nóbrega, 2009; Marteleto; David, 2014).

4 TRIANGULAÇÃO DE TEORIAS E MÉTODOS COM FUNDAMENTO INTERDISCIPLINAR

A triangulação se destaca por permitir o uso de diferentes técnicas de coleta de dados, a mobilização de teorias e de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, bem como a busca de dados em fontes diversificadas, em espaços e tempos diversos (Denzin; Yvonna, 2008). Desta forma, a triangulação de métodos não é um método em si mesmo, mas uma estratégia de pesquisa que combina métodos, teorias, dados e investigadores “servindo e adequando-os a determinadas realidades, com fundamento interdisciplinar” (Minayo; Souza; Constantino; Santos, 2005, p. 71).

Para se estabelecer o encontro entre triangulação de métodos, teorias e a interdisciplinaridade são necessárias três posturas, complementares entre si: “o profundo respeito aos campos disciplinares; a relativização da visão fragmentada de cada um deles; a crença na capacidade dialógica dos pesquisadores frente a propostas teóricas e metodológicas diferentes e com os sujeitos que atuam no mundo da vida” (Minayo, 2005, p. 46).

A partir desta compreensão a respeito da triangulação, construída ao longo do tempo das pesquisas - a interlocução entre pesquisadores dos campos da informação e da saúde, a complementaridade entre diferentes métodos da pesquisa qualitativa (sócio-interpretativa, histórico-documentária e experimental), delineou-se uma estratégia de pesquisa em perspectiva interdisciplinar por meio dos procedimentos descritos a seguir:

I) aplicação de pesquisa de campo junto a ACS e ACE, na cidade de Fortaleza, e a ACS, na cidade do Rio de Janeiro. Empregaram-se os recursos de oficinas de leitura e apropriação do Almanaque da Dengue (2004), grupo focal e entrevistas narrativas individuais em unidades da Estratégia de Saúde da Família (ESF) da Regional V, da cidade de Fortaleza, totalizando 26 agentes. E em duas unidades da Estratégia de Saúde da Família (ESF), na cidade do Rio de Janeiro - Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, Ensp/Fiocruz, Área Programática 3.1, Manguinhos e Centro Municipal de Saúde Ernesto Zeferino Tibau Júnior, Área programática 1.0, São Cristóvão, totalizando 15 agentes.

A análise foi conduzida com base nas categorias temáticas definidas previamente na pesquisa, quais sejam: a) perfil social; b) condições de formação e trabalho; c) atuação no enfrentamento das arboviroses e outras doenças que atingem a população; d) fontes de informação acessadas e utilizadas para a aquisição de conhecimentos e orientação à população sobre as arboviroses; e) redes sociais dos agentes nos territórios; f) sugestões para o Almanaque DCZ.

Os resultados demonstraram que os ACS e os ACE, embora tenham tempos diferenciados de vínculo na Estratégia de Saúde da Família (ESF), demonstram condições de formação e de trabalho semelhantes, ao relatarem a falta de cursos de formação e atualização, a sobrecarga de trabalho devida ao acúmulo de tarefas não previstas em seus fazeres. Em geral se preocupam com a origem das informações obtidas de diferentes fontes e buscam sua certificação com outros profissionais das unidades de saúde nas quais atuam. Suas redes sociais nos territórios são formadas por profissionais de saúde - os próprios agentes, além de enfermeiros e médicos. O vínculo com a população consolida-se pelo fato de serem eles mesmos residentes nos territórios onde atuam, além de realizarem visitas domiciliares, o que os torna conhecedores de situações e experiências desconhecidas pelos demais profissionais das equipes de saúde.

A pesquisa foi cadastrada na Plataforma Brasil e seguiu os protocolos para aprovação do Conselho de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com CAAE 86848718.3.0000.5582 e Parecer Consubstanciado 3.095.845.

II) análise documental de almanaques populares, com foco nos almanaques de farmácia.

Essa etapa da pesquisa teve três objetivos principais. O primeiro, perceber as redes de atores (editores, autores, colaboradores, patrocinadores, leitores etc.) atuantes na produção, mediação e distribuição dos almanaques de farmácia. O segundo, compreender como são organizados os conteúdos sobre saúde: cuidados, prescrições de remédios e tratamentos, doenças, no contexto histórico da produção dos dispositivos. O terceiro, analisar a estrutura formal própria aos almanaques populares de farmácia, tanto quanto seus elementos icônicos e tipográficos.

Para a coleta e a classificação dos dados foi selecionado um corpus textual de almanaques de farmácia de duas coleções particulares - da Família Carneiro Rezende, Goiânia (GO)2 e da Profa. Yasmin Jamil Nadaf, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), estudiosa e colecionadora de formas de escrita popular, dentre elas os almanaques, a qual cedeu a coleção digitalizada para uso na pesquisa.

A análise de um corpus textual de almanaques de farmácia extraído das duas coleções foi realizada com o emprego das seguintes categorias, divididas em duas classes temáticas: a) Conteúdos - Arte e ciência: astronomia, história, técnicas e invenções, artes, cinema; Literatura: romances, contos, poesias e crônicas; Lúdico: anedotas, curiosidades, provérbios, charadas, jogos; Misticismo e predições; Astrologia; Religiosidade; O lar: culinária, conselhos, cuidados; Vida cívica e esportiva: cidadania; Saúde: saúde, doença, beleza física; b) Formas - Iconográficos: ilustrações, imagens, fotografias, diagramas; Publicidade; Editorial; Autor; Editor; Patrocinador; Cartas de leitores; Marcas de leituras; Frontispício: capa, folha de rosto; Fontes e capitulares.

Em linhas gerais constatou-se que os almanaques de farmácia, sobretudo em suas origens, reservaram grande parte de seus espaços dedicados à publicidade dos produtos dos próprios laboratórios farmacêuticos criadores ou financiadores desses dispositivos infocomunicacionais. Ao mesmo tempo, tinham o intento de orientar sobre cuidados com a saúde e a higiene. Os conteúdos sobre ciências, arte e literatura indicavam o objetivo pedagógico dos almanaques, num país que buscava o sentido de nação, em diálogo dissonante com o seu povo. Matérias próprias aos almanaques populares, tais como misticismo, predições, astrologia, religiosidade, além de conteúdos lúdicos como anedotas, curiosidades, provérbios, charadas, jogos e quadrinhos estão ainda presentes, como forma de criar diálogos entre a publicidade, os conteúdos técnico-científicos e de saúde e os elementos próprios da cultura popular.

III) produção de banco de dados.

Construiu-se um banco de dados abrangente para armazenar e atualizar os dados primários (pesquisa de campo) e secundários (análises dos almanaques de farmácia; dados científicos, oficiais, das mídias e de outras fontes sobre saúde nos territórios e as arboviroses), contendo fontes documentais textuais e iconográficas para alimentar o conteúdo do almanaque e dialogar com as falas e as percepções dos agentes de saúde extraídas da análise do material coletado na pesquisa de campo, garantindo ainda a acessibilidade e a atualização contínua dos dados entre os participantes da pesquisa.

Esse conjunto de procedimentos permitiu o realinhamento do quadro teórico-metodológico da pesquisa em função da construção coletiva do Almanaque DCZ, desde o estudo das fontes documentais e bibliográficas até as atividades de campo.

Essa etapa constituiu uma das fases mais complexas da pesquisa, devido à necessidade de selecionar fontes documentais confiáveis e diversas, além de atender a salvaguarda dos direitos de autoria de textos e imagens coletados em fontes impressas ou digitais. A esses desafios somou-se a formação da equipe responsável pela elaboração do material de coleta de dados para o trabalho de campo e sua aplicação, exigindo a articulação de perfis variados para a construção do dispositivo Almanaque DCZ. A equipe interdisciplinar incluiu especialistas nas áreas de informação, comunicação e saúde, além de diagramadores, designers, ilustradores, redatores e revisores de conteúdo. Embora essa diversidade tenha enriquecido e valorizado o processo de pesquisa, também impôs novos desafios à prática interdisciplinar.

5 ARQUITETURA E PRODUÇÃO DO ALMANAQUE DCZ

5.1 Estrutura classificatória dos dados

O banco de dados foi construído a partir de uma estrutura classificatória para organizar as fontes de informação necessárias ao andamento técnico-teórico-metodológico da pesquisa. Sua principal função foi organizar os conjuntos de documentos de acordo com seu suporte e particularidade. Os principais tópicos observados foram: o vetor Aedes aegypti; o modo de transmissão; o ciclo das doenças; o itinerário do paciente; a prevenção e os cuidados; a vacina; o que dizem as pesquisas. Adotaram-se as seguintes categorias gerais para a organização dos dados:

Fontes oficiais - produzidas por órgãos governamentais e internacionais da área da saúde: Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Ministério da Saúde (MS), entre outras;

Fontes científicas - artigos publicados em periódicos avaliados pelo Qualis/CAPES, livros com comitê científico, dissertações de mestrado e teses de doutorado, além de mídias certificadas de divulgação científica;

Fontes digitais - mídias criadas e disponíveis no ambiente digital, com alcance amplo de disseminação e acesso. Os suportes considerados na pesquisa incluíram: blogs; sites e portais; plataformas sociais interativas tais como o Facebook, Twitter, Instagram;

Fontes midiáticas - foram consideradas como fontes midiáticas os principais veículos de imprensa e jornalismo como jornais, revistas, rádio e televisão;

Fontes civis e comunitárias - considerou-se como fontes civis e comunitárias os materiais elaborados pelos coletivos populares, organizações não-governamentais, dentre outras;

Fontes CULTICOM - dados primários coletados no campo empírico da pesquisa por meio de entrevistas, oficinas, grupo focal. Também foi considerado o arcabouço teórico reunido e empregado pelo grupo de pesquisa e os dispositivos de informação e comunicação em saúde produzidos em projetos anteriores como o Almanaque da Dengue (2004) e o Almanaque do Agente Comunitário de Saúde (2014).

Uma planilha foi elaborada para o monitoramento, registro e atualização dos dados obtidos nas fontes consultadas, atualizadas semanalmente, com foco nos boletins epidemiológicos sobre dengue, febre de Chikungunya e Zika vírus emitidos pelo Ministério da Saúde.

5.2 Princípios orientadores

Com base em experiências anteriores na construção de dispositivos de informação e comunicação em saúde, estabeleceram-se princípios gerais para orientar a arquitetura e a produção do Almanaque DCZ.

Princípio ético da pesquisa

Referencia-se pela ideia de que a construção de dispositivos de informação e comunicação em saúde, orientada pelas e para as falas populares, deve fundamentar-se em uma forma compartilhada de produção de conhecimentos, saberes e informações, baseada na escuta ativa e no diálogo com os agentes, profissionais de saúde e especialistas. Desse princípio ético de pesquisa deriva-se a concepção de que o Almanaque DCZ configura-se como uma proposta autoral oriunda do espaço acadêmico, que convoca diferentes atores e formas de saberes para o diálogo, promovendo reflexão e ação conjunta em torno das questões relacionadas à saúde.

Texto, discurso, narrativa

- Considerar as facetas biológicas, sanitárias, sociais, culturais, políticas e econômicas das arboviroses, por meio da busca e elaboração de conteúdos que demonstrem essas diferentes dimensões das doenças de forma crítica e suas determinações sociais.

Por exemplo, a proliferação de criadouros de mosquitos no espaço das cidades por conta da forma de urbanização e seus agravantes, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) sobre o aumento da pobreza no país e a relação com o aumento de casos de doenças nos territórios, dentre elas as arboviroses;

  • - Explorar os remetimentos das informações, apresentando conteúdos científicos e oficiais de maneira objetiva, remetendo a outras fontes, usando o recurso visual: “Para ler mais”;

  • - Evidenciar a importância da certificação e confiabilidade das informações, referenciando cada fonte citada;

  • - Indicar a existência de farto material sobre o tema, disponível aos serviços de saúde e à população em geral, num ambiente de abundância informacional potencializada pela Internet;

  • - Alertar para a presença de fake news e desinformação nos ambientes digitais, principalmente em relação a temas associados à saúde: vacinas, tratamentos, inovações científicas, dentre outras;

  • - Explorar a não linearidade textual dos almanaques em relação a outros formatos convencionais;

  • - Realçar os elos entre os conteúdos, contextos e situações vividas no cotidiano dos territórios comunitários em relação à saúde e às condições de vida.

Abordagem crítica e dialógica

Da mesma forma que em outros almanaques construídos de forma compartilhada em projetos anteriores do Grupo de pesquisa CULTICOM, os temas são acionados pelas falas dos agentes, conversando com outras falas discursivas (autorizadas, legitimadas) e as falas narrativas (não legitimadas, não autorizadas). O desafio da pesquisa é entender e demonstrar no Almanaque DCZ o jogo entre essas linguagens e suas diferentes representações sobre as questões da saúde.

A categoria empírica “terceiro conhecimento” indicaria os caminhos de interpretação das disputas entre diferentes linguagens em torno de questões comuns sobre a saúde, quando em seu estado prático são acionadas diferentes formas de saberes para compreender e agir sobre as arboviroses e outras questões que afetam o cotidiano vivido das comunidades em seus territórios.

Tópicos ou temas

A partir desses princípios gerais, os conteúdos do Almanaque DCZ tratam dos seguintes tópicos:

  • - Transmissão, proliferação, sintomas, duração, complicações, prevenção, controle, cuidados com as arboviroses;

  • - O que as pesquisas estudam: controle e combate de vetores; diagnóstico; manejo de casos; tratamentos; desenvolvimento de vacinas;

  • - As arboviroses e outras doenças nas rotinas dos serviços e equipes de saúde da Estratégia de Saúde da Família (ESF); os ACS e os ACE como mediadores de saberes entre as equipes de saúde e a população;

  • - A estrutura do SUS desde a atenção primária à saúde: prevenção e promoção à saúde; itinerário dos pacientes e usuários;

  • - Surtos, endemias, epidemias, pandemias causadas por arbovírus;

  • - As doenças e suas classificações oficiais: crônicas; emergentes e reemergentes; e doenças negligenciadas: doenças tropicais como a malária, a doença de Chagas, a doença do sono (tripanossomíase humana africana, THA), a leishmaniose visceral (LV), a filariose linfática, a dengue e a esquistossomose.

Falas e narrativas dos ACS e ACE

Extraídas dos dados da pesquisa de campo, apresentam-se no Almanaque DCZ como aquelas que orientam as perguntas, reflexões e diálogos entre os conhecimentos científicos e os saberes construídos nos territórios.

Conteúdos informacionais

Desde os conteúdos das fontes científicas e oficiais, de mídias tradicionais (jornal, revista, televisão, rádio) até as novas mídias da web (blogs, sites, portais, plataformas sociais de comunicação etc.) foram empregados de forma a contextualizar as informações sobre a ocorrência das arboviroses, a responsabilidade do poder público, da sociedade, incorporando visões críticas sobre as determinações sociais da saúde: falta de condições sanitárias adequadas, segurança, saneamento, educação, o desemprego e ocorrências de violência doméstica, entre outras.

Fontes documentais de almanaques, literatura, escritas populares

Os elementos coletados nessas fontes foram empregados como elos conversacionais de ligação entre os diferentes textos discursivos, informativos e narrativos, realçando o seu valor reflexivo e atuante nos almanaques de farmácia.

Conteúdos autorais

Trata-se das citações de trabalhos publicados ou de conteúdos produzidos e assinados para a pesquisa por especialistas da área da saúde estudiosos da temática das arboviroses e suas diferentes manifestações nos territórios.

5.3 Estrutura textual e visual

A partir das sugestões e comentários dos agentes de saúde, colhidas no trabalho de campo, fixou-se como público-alvo do Almanaque DCZ os próprios agentes, outros profissionais e os usuários dos serviços de saúde. Assim como crianças e jovens em idade escolar, consideradas pelos agentes como multiplicadores das informações sobre saúde no ambiente familiar e escolar.

O almanaque foi publicado em formatos impresso e digital, este último disponível no website do grupo da pesquisa3 e no repositório Arca/Fiocruz4. Tem um total de 32 páginas, com formato 25 cm por 16 cm, em cores. Os temas e conteúdos abordados seguem o roteiro temático do Almanaque da Dengue, publicado em 2004, uma vez que pretende ser uma atualização deste último, refazendo e atualizando as questões abordadas, os trânsitos das arboviroses no período, agora inserindo as doenças Chikungunya e Zika provocadas pelo mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti.

Matérias, ilustrações e formatos tipográficos dos almanaques de farmácia foram recuperados e adaptados para a composição do leiaute e da arte gráfica. A extensão de cada boxe ou bloco de conteúdo foi previamente calculada, com o objetivo de orientar a produção dos textos, ilustrações, imagens e a diagramação final.

Após a redação e construção página por página, foi elaborado um primeiro protótipo do Almanaque DCZ, com o objetivo de obter a validação de especialistas - epidemiologistas, sanitaristas - da área da saúde em relação aos conteúdos técnico-científicos, bem como submetê-lo à apreciação de toda a equipe do projeto de pesquisa - pesquisadores, estudantes, agentes de saúde. Foi ainda elaborado um caderno de artes por uma das pesquisadoras vinculadas ao projeto, contendo jogos e textos variados destinados a realizar os elos entre os diferentes conteúdos, as falas dos agentes de saúde e os leitores.

Na capa (Figura 1), buscou-se representar visualmente um território habitado, com moradias e pessoas da comunidade local, em interação com uma ACS e um ACE, questionando e refletindo sobre as arboviroses. A composição gráfica procura estabelecer uma identificação com o público-alvo, evocando o cotidiano dos territórios populares. As perguntas inseridas têm a função de despertar a curiosidade do leitor em relação ao conteúdo do almanaque, ao mesmo tempo em que reforçam o convite à participação ativa e ao diálogo. A frase “Vamos pensar juntos?” funciona como um chamado à construção coletiva do conhecimento, alinhando-se à proposta comunicacional do dispositivo.

Figura 1
Capa do Almanaque DCZ

Na página do Editorial (Figura 2), um breve texto cria um diálogo direto com o leitor, apresentando as motivações que orientaram a construção do Almanaque DCZ e também compartilhando uma dúvida. No momento em que a pandemia de Covid-19 eclodiu, o almanaque encontrava-se em fase de sistematização da sua forma textual final. Diante desse cenário, o grupo da pesquisa considerou que seria importante mencionar a pandemia do coronavírus, compartilhando a decisão com o leitor e lembrando a dinamicidade dos processos endêmico-epidêmicos como um desafio permanente da saúde pública. As falas dos agentes de saúde realçam a importância do trabalho em rede e o valor das informações e dos saberes em suas práticas.

Figura 2
Editorial

A página 7 do Almanaque DCZ (Figura 3) faz uma apresentação dos ACS e ACE descrevendo em breve histórico a sua inserção institucional e atribuições como membros das equipes de saúde. Em suas próprias falas os agentes expressam as funções importantes que desempenham, principalmente nas visitas domiciliares, quando procuram perceber “se as pessoas estão sendo assistidas”. Nas palavras do agente de combate às endemias “A importância do ACE é muito grande, porque [ele] entra onde na maioria das vezes a polícia não entra...” (Almanaque DCZ, 2020, p. 7). No pé de página uma brincadeira “Receita para ser quem sou”, sobre a construção da identidade.

Figura 3
Olha o agente aí, gente!

O tema da prevenção é destacado em duas páginas contíguas (Figura 4), nas quais imagens dos ACS e ACE interagindo com moradores em suas atividades cotidianas sugerem um conjunto de ações preventivas voltadas ao controle dos focos de vetores. Os conteúdos apresentados têm um caráter mais amplo que as usuais recomendações individualizadas de cuidados nos domicílios com vasos de plantas, pneus ou recipientes acumuladores de água e inclui a complexidade do espaço urbano e os múltiplos fatores que favorecem a formação de criadouros de mosquitos.

A dimensão coletiva dos problemas de saúde é ressaltada, de forma intencional. A ideia é romper com o modelo prescritivo de individualizar a mensagem, o que pode escamotear a complexidade do processo de produção social das arboviroses, e dar uma conotação de “culpabilização da vítima” ao processo informacional.

Figura 4
A prevenção é uma ação compartilhada

Na perspectiva de demarcar o papel do Estado e das políticas públicas, uma página é dedicada ao Sistema Único de Saúde, comentando de forma dialogada sobre a amplitude de alcance destas políticas, ressaltando sua importância social e convidando o leitor a também defender nosso sistema de saúde (Figura 5). Um jovem segura um cartaz “Defenda o SUS”, retirado do material da 16ª Conferência Nacional de Saúde - Democracia e Saúde, 2019, elencando as diversas atribuições desse importante sistema de saúde na vida dos brasileiros.

Figura 5
O que é o SUS?

Na página 18 (Figura 6) é ressaltada a dimensão histórica dos fenômenos coletivos de saúde e adoecimento, evidenciando como a circulação de informações - intensificada durante os períodos epidêmicos - tende a diminuir ou desaparecer em épocas com poucos casos ou ausência de surtos. Essa “provisoriedade informacional”, especialmente quanto à dengue, tem sido relatada há muitos anos por agentes comunitários de saúde, que vivenciam de perto a sazonalidade do vírus e da informação. Em análises anteriores, com base em oficinas de leituras e apropriação do Almanaque da Dengue (2004) com os ACS, esses expressaram que um tópico intitulado “Quando não há epidemia, não há informação” foi o que mais lhes chamou a atenção (David; Marteleto, 2012). Para os agentes, esse enunciado é a expressão da vivência cotidiana daqueles que estão percebendo os casos aumentarem e se acumularem no território, evidenciando os limites da capacidade de resposta dos serviços de saúde quando não se estabelece um processo dialógico com a população.

Com o título “Problema de ontem, problema de hoje”, os conteúdos da página 21 (Figura 6) referem-se às manchetes noticiosas de jornais sobre surtos e epidemias por arbovírus ao longo do tempo, indicando o seu reaparecimento. As falas dos ACS e ACE reforçam os ciclos sazonais das arboviroses e os hiatos informacionais entre cada um deles, o que provoca o relaxamento do poder público e da população em relação aos cuidados e à prevenção tanto das doenças provocadas por vírus, quanto outras prevalentes nos seus territórios de atuação.

Figura 6
Problema de ontem, problema de hoje...

A questão da informação confiável, a circulação das chamadas fake news - intensificadas durante a pandemia da Covid-19 - são problematizadas na página 22 (Figura 7) por meio das falas dos ACS e ACE. As vozes desses agentes, que atuam na linha de frente dos territórios, evidenciam o impacto nocivo da desinformação na adesão a práticas de prevenção, no enfrentamento das doenças e na confiança da população em relação aos serviços de saúde e seus profissionais. Tal qual em outras páginas do almanaque, no pé de página apresenta-se um conteúdo de humor, este sobre “Mentirinhas correntes”, retirado do Almanaque Biotônico Fontoura, de 1943.

Figura 7
Informação não falta, mas...

A página 28 (Figura 8) convoca os leitores, a partir da fala de um infectologista, a pensar sobre o papel do poder público como responsável pela formulação e implementação das políticas de prevenção e controle das arboviroses, sem eximir cada pessoa da responsabilidade na identificação de riscos. Mais abaixo, temos a expressão popular, por meio da letra de um funk composta por um coletivo jovem da Favela do Alemão, no Rio de Janeiro. Articula-se, num mesmo tópico, arte, cultura popular e saber técnico-científico, de forma não hierarquizada.

Figura 8
Fala de especialista e arte popular

O dito popular “A esperança muda sempre para o próximo ano”, lembrada por um agente de combate às endemias, é representativa do estado de espera dos moradores em territórios vulnerabilizados, como uma condição imposta pela falta de acesso e direitos a serviços básicos, políticas públicas adequadas no atendimento à população, quadro esse que aponta para as raízes estruturais da desigualdade social no país. Por outro lado, esse mesmo dito poderia expressar a luta diária da população nos territórios em relação ao alcance de políticas públicas, infraestrutura urbana e acesso a recursos.

Neste cenário, a questão da saúde e dos seus trabalhadores, como os ACS e ACE, surge como um eixo fundamental para desencadear ações de enfrentamento por melhores condições de vida. Este foi o fio condutor das conversas do Almanaque DCZ.

6 NOTAS CONCLUSIVAS

O Almanaque DCZ, concebido como um dispositivo de informação e comunicação em saúde, configura-se como uma ferramenta com intencionalidade política e ética voltada ao registro das múltiplas dimensões que envolvem as doenças virais, entre outras. Tais enfermidades não podem ser compreendidas exclusivamente sob a ótica cognitiva - isto é, como mera ausência de informação ou limitação na capacidade de buscar, acessar e utilizar conteúdos informacionais. Ao contrário, sua complexidade exige a consideração de fatores socioculturais, históricos e simbólicos que permeiam os modos de produção, circulação e apropriação das informações em saúde.

As análises realizadas apontaram para um impasse simbólico e material em relação à mediação de saberes e informações pelos ACS e ACE em relação às arboviroses e às condições de vida das comunidades, por duas razões principais: a falta de cursos de formação e a subvaloração dos seus saberes em relação aos saberes técnicos da saúde. Por outro lado, as experiências informacionais e comunicacionais realizadas no processo de trabalho nos serviços e nas comunidades parecem propiciar o desenvolvimento de capacidades críticas e cognitivas capazes de formar uma “reserva simbólica” individual e coletiva para desencadear ações políticas de mediação de saberes para o fortalecimento cultural, social e profissional dos agentes.

Nessa perspectiva, os dispositivos de informação e comunicação adquirem eficácia e legitimidade quando são reconhecidos como recursos para a ação, inseridos em práticas sociais dinâmicas e em constante transformação. Por essa razão, adotou-se uma abordagem que articula a perspectiva diacrônica - voltada para os processos históricos de constituição desses dispositivos - com a perspectiva sincrônica e técnica, que enfoca suas configurações atuais, as mediações que os atravessam e as redes que os sustentam, sob a ótica interdisciplinar da informação, da comunicação e da saúde.

AGRADECIMENTOS:

Registramos nossos agradecimentos:

AO CNPQ/MCTI, agência financiadora do projeto.

À toda a equipe do projeto e às suas respectivas instituições.

Aos Agentes comunitários de saúde (ACS) e aos Agentes de combate às endemias (ACE), das cidades de Fortaleza (CE) e Rio de Janeiro (RJ), bem como aos profissionais dos serviços de saúde.

REFERÊNCIAS

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  • PARK, Margareth Brandini. Histórias e leituras de almanaques no Brasil. Campinas, SP: Mercado de Letras; São Paulo: FAPESP, 1999.
  • ORIGEM DA PESQUISA:
    Projeto de pesquisa “(Re) construção de um dispositivo de informação e comunicação em saúde: o Almanaque da Dengue”, coordenado por Regina Maria Marteleto.
    Financiado pela Chamada Edital Universal CNPq/MCTI No. 01/2016; Processo CNPq/ 423911/ 2016-3. Período: novembro de 2016 a outubro de 2020.
    A pesquisa foi realizada no âmbito do PPGCI/IBICT-UFRJ e do Grupo de Pesquisa “Cultura e Processos infocomunicacionais” (CULTICOM).
    Fizeram parte da equipe do projeto: pesquisadores e estudantes do PPGCI/IBICT-UFRJ; Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Universidade Federal do Ceará (UFC); Universidade Estadual do Ceará (UECE); Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ); bolsistas de Iniciação Científica (IC) e de Apoio Técnico à Pesquisa (ATP) do CNPq.
  • PREPRINTS:
    O manuscrito não é um preprint.
  • USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
    Não se aplica.
  • FINANCIAMENTO:
    Chamada Edital Universal MCTI/CNPq No. 01/2016; Processo CNPq/ 423911/ 2016-3. Período: novembro de 2016 a outubro de 2020.
  • 1
    O Almanaque da Dengue foi publicado em 2004, como um dos produtos do projeto de pesquisa “Gestão do conhecimento e da informação na intervenção social: as redes de movimentos sociais no campo da educação popular e saúde”, conduzido pelo Grupo de pesquisa “Cultura e processos infocomunicacionais (CULTICOM), financiado pelo CNPq/MCTI. Disponível em: https://culticom.org/dispositivos/almanaque-da-dengue/.
  • 2
    A coleção foi objeto do estudo da tese de doutorado de Stella Dourado, intitulada “O Almanaque enquanto documento da informação e comunicação popular escrita: a coleção da família Carneiro Rezende”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação/PPGCI/IBICT-UFRJ, em 2018.
  • 3
    Disponível em: https://culticom.org/.
  • 4
    Disponível em: https://www.arca.fiocruz.br/discover?query=Almanaque+DCZ.
  • CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM:
    Não são utilizadas imagens de pessoas.
  • APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA:
    A pesquisa foi cadastrada na Plataforma Brasil e seguiu os protocolos do Conselho de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob o número CAAE: 86848718.3.0000.5582, datado de 19/12/2018.
    Também recebeu aprovação do CEP da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (CE); do CEP da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (RJ); do CEP do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (Ensp/Fiocruz).
    Os agentes que participaram da pesquisa consentiram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo o anonimato e o uso dos dados somente para fins de análises e publicações da pesquisa.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS
    Os dados primários de entrevistas, oficinas e grupo focal não podem ser compartilhados publicamente, uma vez que estão preservados por anonimato pelo Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) assinado pelos participantes da pesquisa (Agentes comunitários de saúde e Agentes de combate às endemias) para uso exclusivo na pesquisa na qual se baseia o artigo.
    Por outro lado, os dados da pesquisa documental sobre almanaques de farmácia se prestam à divulgação pública.
    Outro material que poderá ser disponibilizado é o relatório técnico final da pesquisa apresentado ao CNPq/MCTI enquanto agência financiadora do projeto.
    As autorias são favoráveis ao livre acesso, porém necessitamos de maiores esclarecimentos a respeito dos procedimentos.
  • ANUÊNCIA DE AVALIAÇÃO ABERTA
    Sim, concordamos.
  • LICENÇA DE USO
    As autorias cedem à Revista Encontros Bibli os direitos exclusivos de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Essa licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, atribuindo o devido crédito de autoria e publicação inicial neste periódico. As autorias têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada neste periódico (ex.: publicar em repositório institucional, em site pessoal, publicar uma tradução, ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial neste periódico.
  • PUBLISHER
    Universidade Federal de Santa Catarina. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

Editado por

  • EDITORES
    Edgar Bisset Alvarez, Patrícia Neubert, Genilson Geraldo, Camila de Azevedo Gibbon, Gilmar Gomes de Barros, Camila de Cássia Brito, Daniela Capri

Disponibilidade de dados

Os dados primários de entrevistas, oficinas e grupo focal não podem ser compartilhados publicamente, uma vez que estão preservados por anonimato pelo Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) assinado pelos participantes da pesquisa (Agentes comunitários de saúde e Agentes de combate às endemias) para uso exclusivo na pesquisa na qual se baseia o artigo.

Por outro lado, os dados da pesquisa documental sobre almanaques de farmácia se prestam à divulgação pública.

Outro material que poderá ser disponibilizado é o relatório técnico final da pesquisa apresentado ao CNPq/MCTI enquanto agência financiadora do projeto.

As autorias são favoráveis ao livre acesso, porém necessitamos de maiores esclarecimentos a respeito dos procedimentos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Jul 2025
  • Aceito
    28 Nov 2025
  • Publicado
    27 Fev 2026
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