Open-access Vinte anos de Hospitalidade no Brasil: gênese social e epistemológica de um campo a partir da produção científica em uma Instituição de Ensino Superior

Twenty years of Hospitality in Brazil: social and epistemological genesis of a field based on scientific output at a Higher Education Institution

RESUMO

Objetivo:  Analisar a trajetória social e epistemológica e a produção científica do Programa de Pós-Graduação em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), verificando sua contribuição para a consolidação do campo da hospitalidade no Brasil.

Método:  A pesquisa foi organizada em duas etapas metodológicas complementares. A primeira consistiu em uma investigação documental e bibliográfica que buscou reconstituir a gênese do Programa por meio da análise de documentos institucionais, relatórios enviados à Capes, legislações pertinentes e editoriais da Revista Hospitalidade. A segunda etapa corresponde a uma análise bibliométrica da produção científica discente entre 2004 e 2024, composta por 282 dissertações e 22 teses. Os dados foram extraídos manualmente, com posterior normalização das referências e aplicação de análises estatísticas e visuais por meio das ferramentas Bibliometrix e Python, considerando indicadores como frequência de autores, obras, fontes, coocorrências e redes de cocitação.

Resultados:  Os resultados apontam a existência de núcleos teóricos estruturantes no campo e obras que articulam abordagens técnico-gerenciais e simbólico-relacionais. Identificou-se uma inflexão recente na produção, marcada por temas éticos, políticos e identitários. A análise revelou a crescente valorização dos periódicos científicos e a coexistência de paradigmas diversos, bem como uma defasagem média de dez anos entre publicação e citação.

Conclusões:  Conclui-se que a hospitalidade emerge como campo consolidado, mas em constante reconfiguração, atravessado por múltiplas racionalidades. A UAM e a Revista Hospitalidade destacam-se como instâncias estruturantes desse processo. O estudo contribui na compreensão crítica da evolução do campo, apontando caminhos para sua atualização diante dos desafios contemporâneos.

PALAVRAS-CHAVE:
Bibliometria; Atores científicos; Produção científica; Universidade Anhembi Morumbi.

ABSTRACT

Objective:  To analyze the social and epistemological trajectory and the scientific production of the Graduate Program in Hospitality at Anhembi Morumbi University (UAM) and its contribution to the consolidation of the field of hospitality in Brazil.

Methods:  The research was organized into two complementary methodological stages. The first consisted of a documentary and bibliographic investigation that sought to reconstitute the Program's genesis through the analysis of institutional documents, reports submitted to Capes, relevant legislation, and editorials from the Revista Hospitalidade. The second stage corresponds to a bibliometric analysis of student scientific production between 2004 and 2024, comprising 282 dissertations and 22 theses. Data were extracted manually, followed by reference normalization and the application of statistical and visual analyses using Bibliometrix and Python tools, considering indicators such as author frequency, works, sources, co-occurrences, and co-citation networks.

Results:  The results point to the existence of structuring theoretical cores in the field and works that articulate technical-managerial and symbolic-relational approaches. A recent inflection in production was identified, marked by ethical, political, and identity themes. The analysis revealed a growing appreciation for scientific journals and the coexistence of diverse paradigms, as well as an average lag of ten years between publication and citation.

Conclusions:  It is concluded that hospitality emerges as a consolidated field, yet one in constant reconfiguration, intersected by multiple rationalities. UAM and the Revista Hospitalidade stand out as structuring entities in this process. The study contributes to a critical understanding of the field's evolution, pointing out paths for its updating in the face of contemporary challenges.

KEYWORDS:
Hospitality; Scientific actors; Scientific research; Scientific production.

1 INTRODUÇÃO

A consolidação do campo da Hospitalidade no Brasil está intimamente relacionada ao surgimento e desenvolvimento de programas de pós-graduação que, ao longo das últimas duas décadas, contribuíram para a produção de um arcabouço teórico e metodológico próprio (Rejowski; Ferro; Sogayar, 2022; Spolon; Brusadin, 2016). Entre essas iniciativas, destaca-se o Programa de Pós-Graduação em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), pioneiro na institucionalização da hospitalidade como objeto legítimo de investigação científica e formação acadêmica stricto sensu. Criado em 2002, em resposta às exigências e demandas emergentes e regulatórias por qualificação docente na área de Turismo e afins (Bastos, 2008; Brito, Panosso Netto; Perinotto, 2024), o Programa teve papel decisivo na articulação de redes intelectuais, na introdução de referenciais teóricos internacionais e na consolidação de uma agenda de pesquisa nacionalmente referenciada (Camargo; Bastos; Cavenaghi, 2015).

O Programa fomentou a produção de dissertações e teses que não apenas expressam os caminhos investigativos de seus discentes, mas também espelham a evolução dos marcos conceituais, temáticos e metodológicos do campo da hospitalidade no país (Bastos; Rejowski, 2015; Marcelino; Camargo, 2022). A sistematização e análise crítica desse acervo permitem vislumbrar os percursos de institucionalização do saber, as continuidades e inflexões epistemológicas, bem como as tensões entre abordagens técnico-operacionais e perspectivas ético-relacionais que atravessam o debate contemporâneo (Derrida; Dufourmantelle, 2003; Lashley, 2004; Salles; Bueno; Bastos, 2010).

Este artigo tem como objetivo analisar a trajetória social e epistemológica e a produção científica do Programa de Pós-Graduação em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Para isso, a pesquisa foi estruturada em duas etapas metodológicas complementares. A primeira consistiu em uma investigação documental e bibliográfica e a segunda correspondeu a uma análise bibliométrica da produção discente.

Ao tratar da produção científica composta por dissertações e teses de um programa de pós-graduação stricto sensu, estabelece-se um diálogo direto com os fundamentos teóricos da comunicação científica, e, particularmente, com a disseminação científica entendida como a circulação do conhecimento no interior do campo (intra-pares) e entre campos disciplinares afins (extra-pares), distinguindo-se da divulgação científica voltada ao público leigo (Bueno, 2010).

Embora os periódicos sejam considerados o principal veículo de disseminação do conhecimento científico, sua centralidade inviabiliza parcela significativa da produção intelectual em áreas emergentes e interdisciplinares como a hospitalidade, cujos periódicos nacionais apresentam baixa inserção em bases de dados referenciais como SciELO, Scopus e Web of Science. Essa subindexação, além de ser um dado empírico, é resultado das assimetrias estruturais dos próprios sistemas de indexação e avaliação, que tendem a privilegiar áreas “consolidadas”, publicações em língua inglesa e pesquisas alinhadas à ciência central ou “centros hegemônicos” de produção do conhecimento (Meneghini; Parker, 2007). Diante disso, a escolha do corpus de análise centrado em literatura cinzenta (dissertações de mestrado e teses de doutorado) não é apenas uma opção metodológica, mas também é uma estratégia epistemológica crítica voltada à ampliação do olhar sobre a produção científica do campo.

Apesar dos avanços das análises bibliométricas, cujas métricas oferecem instrumentos para mapear o conhecimento científico e explorar grandes quantidades de dados, há limitações quanto à sua natureza quantitativa, interpretação subjetiva e fragilidade de medições (Donthu et al., 2021; Gingras, 2016), pois “baseiam-se em simplificações metodológicas que ignoram a natureza complexa, diversa e, muitas vezes, local da produção científica” (Barbosa et al., 2025, p. 85). Em complemento, Castillo-González e González-Argote (2025) fazem uma crítica epistemológica (e não apenas metodológica) da bibliometria, argumentando que o seu conhecimento sofre influência de arcabouços e interesses institucionais, ideológicos e culturais que determinam o quê, como e por que é medido. Face aos limites epistêmicos e da reprodução de desigualdades cognitivas, os autores propõem uma releitura da bibliometria com base no paradigma construtivista-crítico (como resposta aos limites epistêmicos da bibliometria tradicional), a fim de contemplar aspectos éticos, contextuais e pluralistas da produção do conhecimento.

Além disso, esta pesquisa apoia-se nos princípios do Manifesto de Leiden sobre métricas de pesquisa (Hicks et al., 2015), considerando os indicadores bibliométricos como apoio e não como um fim em si mesmo, revisando e modificando indicadores, combinando evidências quantitativas e qualitativas e compreendendo a natureza das pesquisas, a fim de contribuir tanto para a hospitalidade quanto para outras áreas emergentes interdisciplinares.

Os resultados revelam a existência de núcleos teóricos estruturantes, a predominância de determinados autores e fontes, bem como o surgimento de novas agendas de pesquisa associadas à hospitalidade como prática simbólica, ética e política (Baptista, 2002; Camargo, 2004; Godbout, 1999). Constatam-se, ainda, dinâmicas de permanência e transformação que configuram um campo em processo de maturação, tensionado por múltiplas racionalidades (Rejowski; Ferro, 2023). Ao mapear as principais inflexões temáticas e epistemológicas da produção discente, este estudo contribui para a compreensão crítica da evolução da hospitalidade como campo acadêmico no Brasil e oferece subsídios para sua atualização frente aos desafios contemporâneos. Essa complexidade epistemológica e metodológica em uma área não consolidada como a hospitalidade, apresentou-se como uma oportunidade e, ao mesmo tempo, um desafio de investigação dado o contexto de um campo inerentemente interdisciplinar, em emergência e pouco indexado.

O artigo está estruturado em quatro seções. A primeira apresenta os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa. Em seguida, discorre-se sobre a gênese social e intelectual do Programa de Pós-Graduação em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Na terceira seção, são analisados os principais resultados da investigação bibliométrica, com destaque para padrões de citação, núcleos teóricos e tendências temáticas. Por fim, a última seção integra considerações finais discutindo os achados à luz do processo de consolidação e reconfiguração do campo da hospitalidade no Brasil.

2 METODOLOGIA

A pesquisa foi estruturada em duas etapas metodológicas complementares. A primeira consistiu em uma investigação documental e bibliográfica voltada à reconstrução da gênese social e intelectual do Programa de Pós-Graduação em Hospitalidade da UAM. Foram consultados documentos institucionais internos, relatórios enviados à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), legislações pertinentes à regulamentação da pós-graduação stricto sensu no Brasil, além de artigos científicos e editoriais da Revista Hospitalidade. Essa etapa visou contextualizar os fundamentos institucionais, acadêmicos e epistemológicos que conformaram a trajetória do Programa desde sua criação em 2002, oferecendo subsídios históricos e teóricos à análise subsequente.

A segunda etapa corresponde a uma análise bibliométrica da produção científica discente do Programa entre os anos de 2004 e 2024. Fundamentada na análise de metadados extraídos de dissertações e teses, a bibliometria permite avaliar as principais referências teóricas mobilizadas, o desempenho e a evolução da produção de autores, instituições e temas, bem como os vínculos de coautoria e suas articulações institucionais e geográficas. Também possibilita análises de impacto (como fator de impacto, índice H e Citescore), além do mapeamento de citações e cocitações, e, em certos casos, a análise combinada de metadados e conteúdos (Koseoglu; Rahimi; Okumus, 2016).

O corpus analisado é composto por trabalhos de conclusão dos cursos de mestrado e doutorado do Programa. A partir de uma base com os documentos disponíveis na íntegra, 348 dissertações e 22 teses defendidas entre 2004 e 2024, foram sistematizados 304 trabalhos, sendo 282 dissertações e 22 teses. As demais dissertações não puderam ser incluídas por estarem disponíveis apenas em formato físico na biblioteca da instituição, principalmente nos anos iniciais do Programa e em alguns anos pontuais entre 2010 e 2012, devido à ausência de depósito digital obrigatório no período.

As variáveis extraídas diretamente dos textos foram: (a) título; (b) resumo; (c) palavras-chave; (d) ano de defesa; e (e) referências bibliográficas. A construção da base de dados foi realizada manualmente por quatro pesquisadores ao longo de seis meses, com apoio de formulários específicos. Diferentemente de estudos bibliométricos baseados em bases indexadoras como Web of Science ou Scopus, neste estudo os metadados foram extraídos diretamente dos documentos originais.

A variável “referências” exigiu tratamento adicional: as listas bibliográficas foram normalizadas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT (o3-mini) e DeepSeek (v3.2.), para adequação aos padrões exigidos pelo software Bibliometrix1. Esse processo envolveu a correção de inconsistências, padronização dos dados e eliminação de duplicatas, resultando em um total de 21.767 referências tratadas.

A análise bibliométrica foi conduzida em duas frentes. A primeira consistiu no processamento dos dados no software Bibliometrix (Aria; Cuccurullo, 2017), que permitiu realizar análises de cocitação de autores, coocorrência de palavras-chave e frequência de termos, contribuindo para a identificação de núcleos teóricos e padrões temáticos. A segunda frente compreendeu análises estatísticas em ambiente Python2 voltadas à observação da dinâmica longitudinal da frequência de citações de autores, obras e fontes.

Para garantir comparabilidade e robustez estatística, foram definidos critérios de inclusão: autores com mais de 100 menções, fontes com mais de 100 citações e obras com 60 ou mais ocorrências. Com base nesses recortes, foi calculado o coeficiente de variação (CV), indicador que mede a dispersão relativa das citações ao longo do tempo (Sheskin, 2003; Marôco, 2018), além da inclinação de tendência por meio de regressão linear simples (Hair et al., 2009). Por fim, foi analisada a defasagem temporal entre o ano de publicação das referências e o ano de defesa dos trabalhos que as citaram, permitindo avaliar o grau de atualização bibliográfica do corpus.

3 GÊNESE SOCIAL E INTELECTUAL DO PROGRAMA

Pioneira no ensino superior de Turismo e áreas afins, a UAM consolidou-se como referência nacional. Esse percurso inovador culminou na criação do primeiro mestrado em Hospitalidade do país. A iniciativa se inscreve nas exigências da legislação do período, que levou muitas universidades privadas a criarem programas de mestrado voltados à titulação de docentes nessas áreas.

Foi nesse contexto que, no primeiro semestre de 2001, a UAM contratou professores doutores para a elaboração de dois projetos de mestrado, nas áreas de Turismo e Hospitalidade. A partir da afinidade temática, alguns docentes participaram de ambos os projetos (Bastos, 2005). A avaliação da Capes (2002, apudBastos, 2005, p. 4) considerou que a proposta em Hospitalidade apresentava escopo mais abrangente e relevância para a área do Turismo, além de alcance nacional. Assim, recomendou-se a aprovação do mestrado em Hospitalidade em 15 de março de 2002.

A primeira turma iniciou suas atividades em agosto de 2002, com o Programa estruturado em uma área de concentração - Planejamento e gestão estratégica em hospitalidade - e duas linhas de pesquisa: Dimensões conceituais e epistemológicas da hospitalidade e do turismo e Políticas e gestão em hospitalidade e turismo.

Desde o início, o corpo docente enfrentou desafios significativos, como a escassez de bibliografia especializada, a baixa qualificação dos periódicos nacionais na área, a limitação de contatos com grupos de pesquisa no exterior e as restrições orçamentárias típicas das instituições privadas. Além disso, no início dos anos 2000, a literatura-base - livros, dissertações, teses e periódicos - ainda não estava disponível em formato eletrônico, o que restringia o acesso à produção científica. A comunicação entre pares, portanto, ocorria majoritariamente em eventos acadêmicos e viagens técnicas.

Para superar tais limitações, os docentes empreenderam uma série de ações que fundamentaram suas atividades de ensino e pesquisa, bem como as de seus orientandos. Essas ações também contribuíram para a consolidação do campo da hospitalidade em outras instituições. Entre as principais iniciativas, destacam-se quatro empreitadas relevantes.

A primeira delas diz respeito à produção de literatura em língua portuguesa. Diante da escassez de obras nacionais, foram organizadas três coletâneas por editoras qualificadas. As duas primeiras centraram-se na hospitalidade (Dencker; Bueno, 2003; Dias, 2002), enquanto a terceira abordou o planejamento e o turismo em articulação com a hospitalidade (Dencker, 2004). No total, os vinte e nove capítulos publicados reuniram contribuições de docentes do Programa e de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

Paralelamente, a antropologia ofereceu um aporte teórico essencial às pesquisas desenvolvidas por docentes e discentes. Um marco importante foi o texto de Marcel Mauss (2001) e a aproximação com os grupos Mouvement Anti-Utilitariste dans les Sciences Sociales (MAUSS) e Revue du MAUSS, que fomentaram um diálogo profícuo e a incorporação de autores que discutem a dádiva como base da sociabilidade contemporânea (Godbout, 1999; Caillé, 1998, 2002; Martins, 2002; Martins, Nunes, 2004). Tal referencial permitiu compreender os vínculos sociais como fundamentais à hospitalidade (Salles; Bueno; Bastos, 2010).

Nesse mesmo esforço de ampliação teórica, a edição da Revue Communications dedicada ao tema da hospitalidade - organizada por Anne Gotman em 1997 (Gotman, 1997) - tornou-se referência para os estudos da área. A publicação trouxe contribuições centrais, como a noção de hospitalidade como relação (Le Bras, 1997), a importância do território (Raffestin, 1997), a dimensão simbólica do espaço (Godbout, 1997) e a valorização do cosmopolitismo (Schérer, 1997).

No âmbito das conexões internacionais, as primeiras aproximações formais com pesquisadores estrangeiros ocorreram em 2002, com destaque para Alain Montandon3. Na ocasião, foi organizado o Seminário Internacional Estudos das Interações Sociais, em parceria com Sébastian Joachim e com apoio da CAPES/COFECUB. Posteriormente, a visita de Montandon ao Programa resultou na publicação de um capítulo seu (Montadon, 2002) na primeira coletânea mencionada e na participação de docentes e discentes no Colóquio Internacional Hospitalidade e Sustentabilidade, realizado na Universidade Blaise Pascal, em 2005.

Essa aproximação com Montandon também se desdobrou na interlocução com Le Livre de l’Hospitalité, obra de caráter enciclopédico por ele organizada. Publicada originalmente em francês (2004) e traduzida para o português em 2011, com revisão técnica de Luiz Octávio de Lima Camargo, a obra reúne cerca de oitenta autores e explora a hospitalidade em seus aspectos históricos, simbólicos, culturais e artísticos (Montandon, 2004, 2011).

Com impacto semelhante, a atuação de Luiz Octávio de Lima Camargo como revisor técnico da tradução da coletânea organizada por Lashley e Morrison (2004) contribuiu para consolidar essa obra como referência no campo. A coletânea original de 2000 exerceu influência decisiva na ampliação do escopo conceitual da hospitalidade nas pesquisas brasileiras. Ao criticar sua concepção restrita à prestação de serviços, propôs uma abordagem relacional e culturalmente situada. Destacam-se, nesse volume, as contribuições de Lashley (2000), com o diagrama de Venn que articula os domínios doméstico, social e comercial, e de Telfer (2000), cuja perspectiva ética ressalta as dimensões morais e simbólicas do fenômeno.

Outra parceria fundamental foi estabelecida com Isabel Baptista (Portugal), cuja atuação como professora visitante, participação na organização do I Colóquio em Hospitalidade Urbana e publicação do capítulo “Lugares de hospitalidade” (Baptista, 2002) consolidaram um intercâmbio teórico importante. A segunda edição do colóquio foi realizada em Portugal (Salles, 2008, p. 1).

No mesmo eixo filosófico, a publicação do livro de Derrida (2003) viabilizou reflexões sobre a hospitalidade incondicional e a abertura ao outro, independentemente de sua condição ou contexto. Essa linha de pensamento foi aprofundada por Baptista (2002), cuja leitura de Levinas (1988) conduziu a discussões sobre urbanidade, civilidade, acolhimento e exclusão, posteriormente desenvolvidas em artigos na Revista Hospitalidade (Baptista, 2005, 2008) e em obras posteriores (Baptista; Azevedo, 2014, Baptista, 2017).

Outro marco relevante de 2004 foi a criação da Revista Hospitalidade, publicação oficial do Programa. Em formato impresso e com periodicidade semestral, a revista foi apresentada, em seu primeiro editorial, como um espaço transversal para a disseminação de conhecimentos sobre hospitalidade, com o objetivo de “fornecer subsídios para o fortalecimento da hospitalidade como um valor importante para o processo civilizatório da humanidade” (Sansolo, 2004, p. 4). A transição para o formato eletrônico, em 2009, alinhou-se ao movimento internacional de acesso aberto. A revista ampliou seu alcance, diversificou seus conteúdos e passou a incorporar traduções de textos inéditos em português.

Entre os docentes que contribuíram para o desenvolvimento do Programa, destacam-se outros dois pesquisadores com produções relevantes. Grinover (2008) propôs uma abordagem interdisciplinar da hospitalidade urbana, articulando-a aos campos do urbanismo, sociologia, arquitetura e turismo. Para tanto, sistematizou as categorias de acessibilidade, legibilidade e identidade como critérios para análise da hospitalidade nas cidades. A proposta, apresentada inicialmente no Colóquio Hospitalité et développement durable (Grinover, 2005), foi retomada em artigos (Grinover, 2006, 2013) e nos livros (Grinover, 2007, 2014, 2021).

A produção científica de maior impacto, no entanto, é a de Luiz Octávio de Lima Camargo, cuja trajetória está profundamente vinculada à história do Programa e à consolidação do campo da Hospitalidade no Brasil. Membro da equipe responsável pela formulação da proposta do curso, Camargo estruturou suas reflexões a partir das interações com discentes, docentes e pesquisadores externos, bem como de um repertório teórico plural. Sua produção, inicialmente veiculada em capítulos de livros (Camargo, 2002, 2003a, 2003b), passou a concentrar-se em periódicos eletrônicos (Camargo, 2006, 2015, 2021), acompanhando a evolução do meio acadêmico. Ainda em 2004, publicou o livro Hospitalidade, obra que se consolidou como referência teórica nacional. Além disso, sua contribuição foi decisiva para a difusão de autores estrangeiros no Brasil por meio da revisão técnica e da tradução de obras fundamentais para o campo, como a coletânea organizada por Lashley e Morrison (2004) e o livro de Montandon (2011). Com isso, Camargo atuou não apenas como autor e organizador, mas também como mediador intelectual entre diferentes tradições teóricas, papel central na estruturação dos marcos epistemológicos da hospitalidade no país.

Esse amadurecimento teórico também se expressou na sistematização da produção discente. Com o avanço das defesas de dissertações no Programa, passou a ser desenvolvida, de forma sistemática, uma iniciativa voltada ao acompanhamento e à análise dessa produção (Bastos, 2005; Bastos; Fedrizzi, 2006; Fedrizzi; Bastos, 2007). Essa iniciativa foi ampliada em 2008, com o objetivo de “[...] acompanhar o conhecimento produzido no campo da Hospitalidade, revisitar o escopo do Programa e dos conteúdos programáticos das disciplinas, fortalecendo o posicionamento vanguardista” evidenciado em sua aprovação pela Capes em 2002 (Bastos, 2008, p. 132).

A proposta considerou a análise das 132 dissertações defendidas entre 2002 e 2008. O estudo permitiu revisitar e expandir os eixos temáticos inicialmente previstos no curso. Como resultado, os eixos “entretenimento” e “restauração” foram desdobrados em categorias mais específicas - eventos, lazer, restaurante e gastronomia -, além da incorporação de novas temáticas, como ensino, religião e hotelaria hospitalar (Bastos, 2008).

A consolidação do Programa na década de 2010 evidenciou-se, entre outros aspectos, pela ampliação do uso do termo “hospitalidade”, que passou a nomear cursos e setores em diferentes instituições. Contudo, tais apropriações nem sempre dialogavam com os fundamentos teóricos da área, reforçando a importância de fortalecer a produção científica especializada.

Esse protagonismo repercutiu em outros programas de pós-graduação, seja pela inclusão de disciplinas sobre hospitalidade - como no mestrado em Turismo da USP -, seja por mudanças curriculares - como na Universidade de Caxias do Sul, que alterou o nome do curso para Turismo e Hospitalidade (Camargo; Cavenaghi; Bastos, 2014, p. 132).

Nesse mesmo movimento de consolidação, destaca-se a participação da comitiva de docentes no Academy of International Research in Hospitality Conference (2014), realizada em Leeuwarden, Holanda, com a presença de Conrad Lashley. O evento resultou na publicação dos trabalhos apresentados em número especial da Revista Hospitalidade (maio de 2015) e, posteriormente, na revista Research in Hospitality and Management.

Influenciada pelas abordagens teóricas de Camargo (2004), Lashley (2004) e Montandon (2011), uma nova proposta de análise foi elaborada em 2014, resultando na classificação das dissertações a partir das categorias de setor, domínio e dimensão da hospitalidade (Bastos; Stefanelli, 2014). Essa abordagem foi testada no ano seguinte por meio da análise de teses e dissertações defendidas em programas stricto sensu no Brasil, entre 2004 e 2013 (Bastos; Rejowski, 2015). Os resultados evidenciaram a relevância de uma abordagem crítica nas pesquisas em hospitalidade, com potencial para impulsionar a evolução dos programas acadêmicos nas áreas de Hospitalidade e Turismo.

Diante desse contexto de internacionalização e amadurecimento teórico, o Programa foi reestruturado em 2014, com a submissão do projeto de Doutorado. A proposta previa uma área de concentração em Hospitalidade e duas linhas de pesquisa: Dimensões e contextos da hospitalidade e Competitividade da hospitalidade em serviços.

A primeira turma do doutorado iniciou-se em março de 2015, trazendo novos desafios, entre eles a ampliação de parcerias interinstitucionais e o fortalecimento do diálogo com pesquisadores de referência na área - aspectos impactados pela pandemia de Covid-19. Também se destacou a busca por ampliar o alcance e a cobertura temática da Revista Hospitalidade, com vistas a consolidar sua relevância nos cenários acadêmicos nacional e internacional.

4 RESULTADOS

A análise da evolução temporal do corpus revela um movimento de crescimento inicial, seguido por oscilações moderadas ao longo do tempo. Observa-se um aumento expressivo no número de trabalhos a partir de 2005, com um pico relevante em 2006, ano em que o volume de produções atingiu 31 registros. Após essa ascensão, verifica-se uma estabilização relativa entre 2007 e 2017, com pequenas flutuações anuais, embora sem expansão significativa. A partir de 2018, nota-se uma leve tendência de retração, possivelmente relacionada a fatores estruturais. O comportamento linear levemente decrescente apontado pela linha de tendência e o valor de R2 indicam que, embora existam variações pontuais, a trajetória geral do corpus é de relativa estabilidade, com sinais recentes de retração (Figura 1).

Figura 1
Evolução temporal do corpus

A análise dos dados apresentou um núcleo consistente de autores, fontes e obras no corpus. Foram calculados indicadores estatísticos de frequência, coeficiente de variação (CV), a inclinação média da regressão linear (indicando crescimento ou declínio da frequência de citações ao longo dos anos), o coeficiente de determinação (R2) e o valor-p associados à tendência baseada em regressão linear simples. As Tabelas 1, 2 e 3 sistematizam esses dados, respectivamente para os autores, fontes e obras.

Tabela 1
Autores com frequência maior que 100
Tabela 2
Nove fontes com frequência superior a 100
Tabela 3
Obras de referência com frequência superior a 60

A análise da frequência de citações no corpus revelou a centralidade de determinados autores e obras na consolidação do campo da hospitalidade. Treze autores ultrapassaram a marca de 100 citações, com destaque para CAMARGO LOL (545), LASHLEY C (411), DENCKER AFM (292), BAPTISTA I (223) e GRINOVER L (202), evidenciando a importância de suas contribuições na formação da base teórica mobilizada pelos discentes do Programa.

No que se refere às fontes, nove superaram a marca de 100 citações, com a Revista Hospitalidade ocupando posição de destaque como principal veículo nacional especializado. Entre outras fontes mais recorrentes estão coletâneas organizadas e livros como o de Lashley e Morrison (2004), de Dencker e Bueno (2003), de Dias (2002), de Camargo (2004) e de Montandon (2011), além da presença expressiva de periódicos internacionais como Annals of Tourism Research e International Journal of Hospitality Management.

Uma comparação entre os dois períodos analisados (2004-2014 e 2015-2024) revela uma mudança significativa no perfil das fontes utilizadas. Enquanto no primeiro recorte apenas três periódicos figuravam entre as 25 fontes mais citadas (Revista Hospitalidade, Communications e Turismo em Análise), no segundo período esse número sobe para quinze, evidenciando uma crescente valorização da literatura periódica e uma aproximação com as práticas de publicação científica internacional. Passam a compor esse grupo periódicos especializados como Hospitality & Society, Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, International Journal of Contemporary Hospitality Management, Journal of Travel Research, Revista Rosa dos Ventos e Journal of Sustainable Tourism.

Em relação às obras mais citadas, dez referências ultrapassaram 60 menções, com destaque para Lashley4 e Morrison (2004) - ou o capítulo de Lashley (2004), Camargo (2004) e Telfer (2004) -. Também merecem destaque o livro de Godbout (1999) e o artigo de Gotman (2009). CAMARGO LOL, em particular, figura entre os autores mais citados com três obras distintas: o livro Hospitalidade (Camargo, 2004), o capítulo na coletânea Hospitalidade: cenários e oportunidades (Camargo, 2003a, 2003b), e artigos publicados na Revista Hospitalidade em 2008 e 2015, o que reforça sua relevância estrutural para o campo (Camargo, 2008, 2015).

A análise conjunta da tendência temporal e do coeficiente de variação (CV) revelou padrões distintos entre os autores e obras mais citados, permitindo sua organização em quatro agrupamentos interpretativos, conforme ilustrado na Figura 2. A posição de cada autor, obra e fonte no gráfico foi determinada pela combinação entre a direção da tendência (inclinação da regressão linear) e o valor da oscilação relativa (CV). Os eixos de referência da Figura 2 foram definidos a partir da média dos valores de tendência e coeficiente de variação observados no corpus, de modo a estruturar a divisão estatística dos quadrantes. Esses agrupamentos compreendem as seguintes categorias: (a) consolidados e em ascensão; (b) consolidados e estáveis; (c) em crescimento recente; e (d) em declínio e com oscilação. Essa análise permitiu interpretar os padrões de mobilização, estabilidade e retração de referências centrais no campo da hospitalidade.

Figura 2
Matriz de análise dos principais autores, obras e fontes

No quadrante de crescimento recente encontram-se autores, fontes e obras cuja trajetória é acompanhada por coeficientes de variação mais elevados, indica uma expansão recente, ainda que permeada por certa instabilidade, e tendência positiva. Esse grupo inclui os autores CAMARGO LOL, LASHLEY C, TELFER E, GOTMAN A e MONTANDON A. Entre as fontes, destacam-se a Revista Hospitalidade e o livro Hospitalidade (Camargo, 2004). Essas referências não apenas demonstram solidez conceitual, mas também revelam uma constante adaptação às novas demandas do campo.

O quadrante das consolidadas e estáveis reúne aqueles com alta frequência de uso, tendência neutra ou levemente negativa, e baixa variação, o que sugere estabilidade ao longo do tempo. Nesse grupo estão GRINOVER L e MAUSS M. Entre as obras, destacam-se a de Grinover (2002), Camargo (2003a, 2003b, 2004) e Lashley (2004). No que tange às fontes, merecem destaque a coletânea de Lashley e Morrison (2004) e o livro Antropologia e sociologia (Mauss, 2001). Embora essas referências não apresentem crescimento recente, permanecem relevantes e amplamente citadas no corpus analisado.

No quadrante das consolidadas em ascensão, observa-se uma tendência neutra ou levemente positiva, acompanhada de coeficientes de variação mais altos, o que também sinaliza um movimento de renovação recente, ainda que instável. Neste caso, destaca-se a autora BAPTISTA I. Entre as obras, sobressaem o artigo de Gotman (2009), o livro organizado por Montandon (2011) e o artigo de Camargo (2015), refletindo a ampliação das perspectivas teóricas no campo. No conjunto das fontes, nota-se a ascensão de periódicos internacionais e da coletânea O livro da hospitalidade (Montandon, 2011).

Por fim, o quadrante em declínio com alta oscilação é composto por autores cuja frequência de uso apresenta tendência de queda, associada à grande variação. São eles: DENCKER AFM, WADA EK e GODBOUT JT. Entre as obras, figuram a coletânea organizada por Dias (2002) e o livro de Godbout (1999). No âmbito das fontes, observa-se a diminuição do uso da coletânea organizada por Dias (2002). Embora fundamentais para a consolidação do campo, essas referências demonstram sinais de esgotamento em sua capacidade de mobilização nas pesquisas contemporâneas.

A defasagem média foi de 10,28 anos, com mediana de 8 anos e desvio padrão de 9,73. A maior parte das referências (62,7%) se concentrou em uma diferença temporal de até 10 anos. Referências com defasagem entre 11 e 20 anos representaram 17% do total, enquanto 10% estavam entre 21 e 50 anos. Apenas 0,8% das citações apresentaram defasagem entre 51 e 100 anos.

Esses resultados indicam que, embora o uso de obras mais recentes seja predominante, o corpus também recorre a publicações com maior distância temporal, sugerindo a manutenção de referências consolidadas em paralelo à incorporação de fontes mais atuais.

Ainda sobre as referências, construiu-se uma rede de cocitação a partir do corpus (Figura 3). Cada nó representa uma referência (autor e ano), e o seu tamanho corresponde à frequência de citação. As arestas ligam referências que coaparecem em pelo menos quatro artigos distintos, com espessura proporcional ao número de cocitações. A aplicação do algoritmo Walktrap isolou duas comunidades principais, destacadas em vermelho e azul. A análise das comunidades revela a existência de dois núcleos teóricos distintos, porém interconectados por referências centrais.

Figura 3
Redes de cocitações

O cluster vermelho concentra obras de autores mobilizados em documentos mais antigos, com foco na interface entre hospitalidade, turismo e gestão, além de incluir textos sobre a dádiva, como Mauss, Godbout e Caillé. Trata-se de uma matriz conceitual voltada à operacionalização de serviços e equipamentos turísticos. Já o cluster azul agrega referências mais recentes, com orientação teórico-antropológica e filosófica, centrada nos aspectos simbólicos, éticos e relacionais da hospitalidade. As obras de Camargo (2004) e Lashley (2004) (ou Lashley; Morrison, 2004), embora situadas no cluster vermelho, exercem papel de mediação entre os núcleos, sendo cocitadas em produções de orientação tanto pragmática quanto interpretativa, o que evidencia sua relevância fundacional e transversalidade conceitual no campo.

Uma rede de coocorrência de palavras-chave foi construída com base em uma frequência mínima de duas ocorrências conjuntas no corpus (Figura 4). Suprimiu-se o termo “hospitalidade” para evitar que a sua alta frequência no corpus distorcesse a proporcionalidade dos demais nós. A estrutura relacional foi organizada por meio do algoritmo Walktrap, que evidenciou cinco clusters com forte coesão interna. É possível delinear distintas tendências e temas que compõem o corpus.

Figura 4
Redes de coocorrência de palavras-chave

A análise da rede de coocorrência de palavras-chave revelou cinco agrupamentos temáticos que refletem distintos enfoques da produção científica do Programa.

O cluster vermelho articula termos como turismo, comensalidade, sociabilidade, convivialidade, comunidade, imagem, festa, lazer, alimentação e ensino superior, indicando um eixo voltado às dimensões culturais e relacionais da hospitalidade, centrado nas experiências turísticas e nas formas de sociabilidade mediadas pela alimentação e pela convivência.

O cluster azul, por sua vez, estrutura-se em torno da gastronomia e inclui termos como cozinha, restaurante, qualidade, gestão, formação profissional, mercado de trabalho, chefe de cozinha, imigração e conceito, evidenciando um núcleo temático voltado à profissionalização, à mobilidade e à organização técnica dos setores ligados à alimentação.

O cluster verde reúne termos como serviços, stakeholders, competitividade, mobilidade corporativa, eventos corporativos, economia criativa, expatriação, entretenimento, eventos, hotelaria e hospitableness, conformando um campo discursivo ligado à hospitalidade organizacional, às estratégias institucionais e às indústrias criativas.

O cluster roxo é centrado em termos como acolhimento, dádiva, pertencimento, espaço teatral e enoturismo, apontando para uma abordagem simbólica e afetiva da hospitalidade, marcada por práticas imersivas, trocas culturais e vínculos subjetivos em contextos como o turismo do vinho e as artes cênicas.

Por fim, o cluster amarelo - menos denso, porém significativo - é composto pelos termos dissertações e teses e produção científica, configurando um núcleo metateórico voltado à reflexão sobre a construção do próprio campo acadêmico, suas metodologias e dinâmicas de consolidação.

Em conjunto, esses cinco clusters delineiam um panorama integrado das múltiplas dimensões da hospitalidade - do simbólico ao aplicado, do organizacional ao cultural e ao institucional - e apontam caminhos para investigações interdisciplinares que associem práticas, discursos e estruturas acadêmicas no estudo da hospitalidade.

A análise das tendências temporais das palavras-chave no período de 2004 a 2024, segmentada em dois intervalos - 2004 a 2014 (Figura 5a) e 2015 a 2024 (Figura 5b) -, permite identificar transformações relevantes na agenda temática do campo da hospitalidade. A visualização gráfica desses dados, estruturada por meio de linhas horizontais que indicam a duração do uso de cada termo e círculos proporcionais à sua frequência máxima durante o período, evidencia movimentos de consolidação, declínio, continuidade e emergência ao longo do tempo.

Figuras 5a e 5b
Tendência temporal das palavras-chave

Entre 2004 e 2014, observa-se a predominância de um vocabulário técnico-instrumental voltado à operacionalização da hospitalidade como prática profissional e campo aplicado. Termos como “serviços”, “alimentação”, “gastronomia”, “restaurante”, “hotelaria”, “lazer” e “qualidade” refletem uma abordagem funcionalista, centrada na gestão de operações, na eficiência organizacional e na normatização da experiência.

Essa linguagem evidencia a consolidação da hospitalidade no âmbito do turismo, com ênfase na prestação de serviços e na qualificação técnica, o que se confirma pela presença de expressões como “formação profissional” e “ensino superior”. Paralelamente, ainda que com menor frequência, emergem termos de natureza simbólica e relacional, como “comensalidade”, “sociabilidade”, “convivialidade”, “dádiva”, “relacionamento”, “humanização” e “acolhimento”, antecipando uma inflexão interpretativa centrada nas trocas simbólicas e nos vínculos afetivos - uma tensão produtiva entre o paradigma técnico-normativo e sensibilidades ético-culturais emergentes.

O período entre 2015 e 2024 é marcado por uma ampliação expressiva do repertório temático e pela emergência de um léxico atravessado por questões éticas, políticas e identitárias. A inclusão de termos como “hostilidade”, “hospitableness”, “LGBTQIA+”, “família”, “identidade” e “migração nordestina” desloca a hospitalidade para o campo das categorias críticas, sensível aos dilemas da alteridade, do pertencimento e da exclusão. Essa inflexão revela o impacto das lutas sociais contemporâneas sobre os marcos teóricos do campo, articulando hospitalidade, diversidade e justiça social.

Ao mesmo tempo, permanecem em circulação termos ligados à racionalidade organizacional e à lógica de mercado - como “stakeholders”, “eventos”, “economia criativa”, “empresa aérea” e “competitividade” -, evidenciando a coexistência de paradigmas distintos. A retomada de expressões como “dádiva”, “acolhimento”, “comensalidade” e “sociabilidade” confirma a consolidação de abordagens que compreendem a hospitalidade como prática social mediada por sentidos, afetos e trocas simbólicas, compondo um campo epistemologicamente mais denso, heterogêneo e em contínua reconfiguração.

As tendências observadas entre 2004 e 2024 revelam, portanto, um campo em expansão e contínua reconfiguração, cujas fronteiras teóricas são atravessadas por múltiplas racionalidades - operacionais, éticas, culturais e políticas. A hospitalidade emerge não apenas como domínio aplicado, mas como objeto conceitualmente sensível às transformações sociais contemporâneas. A articulação entre permanência e mudança, técnica e ética, organização e subjetividade constitui o traço distintivo dessa trajetória, reafirmando a multidimensionalidade desse corpus.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A articulação entre os diferentes resultados obtidos - frequência de autores e obras, tendências temporais, coeficientes de variação, redes de cocitação, coocorrência de palavras-chave e evolução temática - permite uma leitura crítica e integrada da conformação contemporânea do campo da Hospitalidade. Os dados convergem para a identificação de um processo de maturação conceitual sustentado por um repertório teórico consolidado, ao mesmo tempo em que emergem novos horizontes analíticos, éticos e políticos que tensionam e expandem suas fronteiras epistemológicas.

Sob a ótica da Ciência da Informação e dos Estudos Métricos, os resultados aqui apresentados desafiam a lógica predominante que restringe a avaliação científica a bases de dados comerciais e indexadas (como Scopus ou Web of Science). Ao demonstrar que a gênese e a consolidação de um campo interdisciplinar e emergente no Brasil podem ocorrer predominantemente via literatura cinzenta (dissertações e teses) e periódicos nacionais não indexados nas grandes bases globais. Aplicar exclusivamente indicadores automatizados de bases hegemônicas a campos em humanidades e ciências sociais no Sul Global não apenas subdimensiona a produção real, mas produz uma invisibilidade artificial de colégios invisíveis e redes de conhecimento locais que são, como comprovado, densas e estruturadas.

Nesse sentido, a pesquisa oferece uma contribuição metodológica à Bibliometria ao validar um modelo híbrido de curadoria de dados. A estratégia de normalização e limpeza de referências que alia inteligência artificial à verificação manual não deve ser lida apenas como um procedimento técnico, mas como uma resposta às assimetrias estruturais da comunicação científica. Em campos subindexados, a curadoria assistida torna-se uma exigência para garantir a validade dos indicadores. O estudo demonstra que a confiança na extração automática de metadados, prática comum em estudos de larga escala, falha em capturar a complexidade das redes de cocitação e a real influência de atores que publicam em formatos não padronizados, como livros e capítulos.

Em complemento ao tratamento dos dados, o estudo inova analiticamente ao incorporar métricas estatísticas de dispersão e tendência - especificamente o coeficiente de variação (CV), a inclinação média da regressão linear, o coeficiente de determinação (R2) e o valor-p - para a interpretação dos indicadores bibliométricos. Essa abordagem propiciou uma nova forma de visualização de dados, menos comum na Bibliometria, ao permitir a distinção entre núcleos teóricos estáveis, frentes de pesquisa em ascensão e temáticas em declínio ou alta volatilidade. A aplicação desses parâmetros estatísticos sobre séries temporais oferece à Ciência da Informação um modelo replicável para refinar a compreensão dos ciclos de vida de conceitos e autores em qualquer campo do conhecimento.

Os achados evidenciam um crescimento inicial expressivo da produção acadêmica no campo da Hospitalidade, especialmente a partir de 2002, com a criação do mestrado em Hospitalidade na UAM. Essa iniciativa respondeu à demanda por qualificação docente impulsionada pela LDB nº 9.394/1996 (Brasil, 1996), representando uma estratégia institucional de valorização da formação acadêmica em áreas tradicionalmente voltadas à prática, como Turismo e Hotelaria. Entre 2007 e 2017, observa-se uma fase de estabilidade compatível com o amadurecimento dos programas de pós-graduação da área (Rejowski; Sogayar; Ferro, 2022), seguida de leve retração a partir de 2018, atribuída à redução de financiamento e mudanças nas políticas de fomento. Ainda assim, esse amadurecimento convive com sinais de esgotamento do modelo stricto sensu, diante da queda na demanda e das dificuldades de reposicionamento institucional (Brito; Panosso Netto; Perinotto, 2024; Rejowski; Sogayar; Ferro, 2022).

A centralidade de autores como CAMARGO LOL, LASHLEY C e TELFER E (Tabela 1), e de obras como Hospitalidade (Camargo, 2004) e Em busca da hospitalidade (Lashley; Morrison, 2004), atesta a consolidação de um núcleo teórico estruturante, como também evidenciado por Kohler e Digiampietri (2021), Marcelino e Camargo (2022) e Spolon e Brusadin (2016). Embora estes últimos apontem o predomínio de abordagens socioculturais na produção recente, o corpus analisado revela a baixa presença de referências filosóficas como Levinas e Derrida, o que sugere que a perspectiva crítica ainda não se consolidou como eixo dominante.

A manutenção da frequência de autores clássicos e a defasagem média de uma década entre a publicação e o uso das obras indicam uma combinação entre permanência e renovação - característica de campos consolidados, porém dinâmicos. A forte correspondência entre autores mais citados e docentes do Programa evidencia a influência do corpo docente permanente nos trabalhos de conclusão. Embora esse padrão reforce a existência de um núcleo estável, também revela limitações quanto à diversidade epistemológica. Como observam Spolon e Brusadin (2016), a produção científica brasileira em hospitalidade apresenta baixa internacionalização, com predominância de referências nacionais e escassa citação de autores estrangeiros - fator que pode comprometer o alargamento dos referenciais teóricos e o posicionamento global do campo.

Outro aspecto relevante refere-se à transformação das práticas editoriais e dos critérios de avaliação da produção científica no Brasil. Nos anos 2000, predominavam livros e capítulos, reflexo da escassez de periódicos nacionais qualificados e da baixa circulação de artigos internacionais. Esse cenário começou a se alterar com o lançamento do Portal Periódicos CAPES (2000) e a adoção do sistema OJS (2003), que incentivaram a criação de periódicos eletrônicos em acesso aberto. A partir de 2010, especialmente com a adoção do Qualis Periódicos na avaliação trienal 2010-2012, observa-se um aumento da presença de artigos em periódicos no corpus, levando a uma reorientação das estratégias de publicação por parte de programas e pesquisadores.

A rede de cocitação revelou dois grandes núcleos teóricos: um de orientação técnico-gerencial, centrado na gestão de serviços e experiências; e outro de perfil teórico-antropológico, focado na dádiva, na sociabilidade e na alteridade - padrão também identificado por Kohler e Digiampietri (2021). Tais núcleos refletem as próprias linhas de pesquisa do Programa e confirmam a configuração sugerida por Salles, Bueno e Bastos (2010), que compreendem a hospitalidade como prática social complexa, articulando dimensões pragmáticas e simbólicas. Camargo e Lashley aparecem como pontos de articulação entre esses polos, o que reforça seu papel integrador na constituição do campo, conforme também apontado por Spolon e Brusadin (2016).

Entre 2004 e 2014, prevaleceram palavras-chave associadas à gestão, aos serviços e ao turismo, ainda que termos como “comensalidade” e “dádiva” já sinalizassem uma inflexão temática. Esses achados dialogam com os resultados de Kohler e Digiampietri (2021). A partir de 2015, intensifica-se uma virada ética e política, marcada pela presença de termos como “acolhimento”, “pertencimento”, “hostilidade”, “hospitableness”, “migração” e “LGBTQIA+”, que apontam para uma ressignificação da hospitalidade como prática situada e crítica, permeada por questões identitárias. Rejowski e Ferro (2023) associam esse movimento à consolidação dos doutorados e ao fortalecimento de abordagens interdisciplinares orientadas por valores como ética, sustentabilidade e justiça social. A atuação do corpo docente, nesse processo, segue sendo central na conformação das temáticas de pesquisa.

Conclui-se que o campo da hospitalidade, embora consolidado institucional e teoricamente, enfrenta o desafio de manter sua relevância diante das transformações institucionais, epistemológicas e políticas. Sua capacidade de integrar racionalidades técnica, simbólica, ética e política aponta para um campo dinâmico e sensível às transformações contemporâneas, com crescente capacidade de autorreflexão crítica. Nesse processo, destacam-se a UAM e a Revista Hospitalidade como instâncias estruturantes do campo no Brasil. Kohler e Digiampietri (2021) reforçam esse protagonismo ao identificarem a UAM como referência na autoria e estrutura intelectual da produção em hospitalidade, e a revista como espaço de legitimação e circulação do conhecimento. Apesar das barreiras à internacionalização, Spolon e Brusadin (2016) observam que os pesquisadores vinculados ao Programa demonstram autonomia teórica e habilidade de transitar entre distintos domínios epistemológicos, contribuindo para a complexificação e atualização das agendas de pesquisa.

Portanto, para além de mapear a hospitalidade, este trabalho contribui para a Ciência da Informação ao demonstrar que a análise bibliométrica, quando fundamentada em uma perspectiva crítica e contextual (Manifesto de Leiden), atua não apenas como ferramenta de mensuração, mas como instrumento de revelação da estrutura social do conhecimento. O caso analisado reforça a ideia de que a Bibliometria deve incorporar variáveis epistêmicas locais, superando a dicotomia entre análises qualitativas e quantitativas. A sobrevivência e compreensão de áreas interdisciplinares dependem, assim, de novos modelos métricos que considerem a literatura não convencional como vetor primário de institucionalização científica, e não como produção periférica.

Entre as limitações do estudo, destacam-se a delimitação institucional do corpus, que pode favorecer vieses endógenos; a ausência de dados em parte dos primeiros anos do Programa; e o processo manual de extração de dados, mesmo com apoio de IA. Pesquisas futuras devem ampliar a análise para outras instituições que tratam da Hospitalidade em seus programas de pós-graduação ou aplicar os mesmos procedimentos outros campos emergentes e interdisciplinares subindexados.

  • A lista completa com informações dos autores está no final do artigo
  • 1
    Pacote de ecossistema aberto, desenvolvido em linguagem R, utilizado para a realização de análises bibliométricas e de mapeamento científico quantitativo de metadados bibliográficos (Aria; Cuccurullo, 2017).
  • 2
    Linguagem de programação de alto nível e código aberto, amplamente utilizada em ciência de dados para a automação de coleta, tratamento estatístico e visualização de grandes volumes de metadados.
  • 3
    Professor Emérito da Universidade Clermont Auvergne e um dos principais teóricos da hospitalidade contemporânea, responsável por sistematizar o campo a partir de uma perspectiva literária, histórica e sociodiscursiva.
  • 4
    Cabe observar, contudo, que o software Bibliometrix, ao contabilizar referências, considera apenas o primeiro autor e o título geral da obra, desconsiderando a autoria individual de capítulos. Isso implica que as menções ao livro Em busca da hospitalidade sejam atribuídas integralmente a Lashley, sem distinção entre sua função como autor e como editor, o que pode inflacionar sua frequência relativa. Ainda assim, o impacto da coletânea é confirmado, inclusive por suas 29 citações em inglês sob o título In Search of Hospitality: Theoretical Perspectives and Debates, reforçando sua circulação internacional e sua centralidade no corpus.
  • ORIGEM DA PESQUISA
    Essa pesquisa é parte dos resultados dos debates e esforço conjunto de parte dos pesquisadores do grupo de pesquisa “Dimensões e Contextos da Hospitalidade” ligado ao Programa de Pós-graduação em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi. As líderes do referido grupo são Sênia Bastos e Mirian Rejowski, constadas como coautoras deste manuscrito.
  • PREPRINTS
    O manuscrito não é um preprint.
  • USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    O uso de ferramentas de IA foi devidamente informado no resumo e na seção de métodos.
  • FINANCIAMENTO
    Sênia Bastos - Instituto Ânima (Edital n. 60/2024) e Bolsa de Produtividade CNPq - Processo 316425/2021-4.
    Mirian Rejowski - Instituto Ânima (Edital n. 60/2024) e Produtividade em Pesquisa - Processo CNPq nº 310588/2020-0.
    Renan Teixeira e Giulia Medina - O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • LICENÇA DE USO
    As autorias cedem à Encontros Bibli os direitos exclusivos de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Essa licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, atribuindo o devido crédito de autoria e publicação inicial neste periódico. As autorias têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada neste periódico (ex.: publicar em repositório institucional, em site pessoal, publicar uma tradução, ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial neste periódico.
  • PUBLISHER
    Universidade Federal de Santa Catarina. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS
    Os dados já estão disponíveis em repositórios de dados confiáveis:
    Título: Metadados das Dissertações e Teses - Programa de Pós-graduação em Hospitalidade - Universidade Anhembi Morumbi

REFERÊNCIAS

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Editado por

  • EDITORES
    Edgar Bisset Alvarez, Patrícia Neubert, Genilson Geraldo, Camila de Azevedo Gibbon, Amanda Santos Witt, Marcela Reinhardt de Souza, José Paulo Speck Pereira.

Disponibilidade de dados

Os dados já estão disponíveis em repositórios de dados confiáveis:

Título: Metadados das Dissertações e Teses - Programa de Pós-graduação em Hospitalidade - Universidade Anhembi Morumbi

DOI: https://doi.org/10.17632/2w7v8xwft7.1

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Set 2025
  • Aceito
    06 Mar 2026
  • Publicado
    30 Abr 2026
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