Resumo
Objetivo refletir sobre a atuação do enfermeiro frente aos desastres e às catástrofes ambientais à luz da Teoria da Adaptação de Callista Roy.
Método ensaio reflexivo que emergiu das discussões em uma disciplina de Pós-graduação em Enfermagem, o qual se encontra ancorado nos quatro modos adaptativos propostos por Roy e na literatura sobre a atuação do enfermeiro em situações de desastre ambiental.
Resultados os desastres e as catástrofes ambientais devem ser compreendidos como processos sociais complexos, com impactos diretos e indiretos sobre a saúde pública, incluindo agravos físicos, sofrimento psíquico, rupturas sociais e sobrecarga dos serviços de saúde. O Modelo da Adaptação mostrou-se consistente para interpretar tais respostas, ao permitir identificar estímulos focais, contextuais e residuais e os mecanismos regulador e cognador. A aplicação dos modos adaptativos possibilita organizar a atuação do enfermeiro desde o cuidado físico imediato até o suporte emocional, a reorganização de papéis sociais e o fortalecimento das redes de apoio comunitário.
Considerações finais e implicações para a prática a Teoria da Adaptação permite orientar a atuação do enfermeiro em desastres ambientais, favorecendo uma abordagem integral e sistematizada do cuidado e da gestão. Ao colocar a adaptação no centro da intervenção, o modelo subsidia práticas voltadas à recuperação e resiliência das comunidades.
Palavras-chave:
Desastres Ambientais; Enfermagem; Modelos de Enfermagem; Resposta em Desastres; Teoria de Enfermagem
Abstract
Objective to reflect on nurses’ role in environmental disaster situations, using Callista Roy’s Adaptation Theory as a framework.
Method a reflective essay that emerged from discussions in a graduate-level Nursing course, in line with the four adaptive modes proposed by Callista Roy and in the literature on nursing practice in environmental disaster situations.
Results environmental disasters should be understood as complex social processes, with direct and indirect impacts on public health, including physical harm, psychological distress, social disruption, and overload of health services. Callista Roy’s Adaptation Model proved to be a relevant framework for interpreting these responses, as it allows the identification of focal, contextual, and residual stimuli, as well as regulatory and cognator coping mechanisms. The application of the four adaptive modes made it possible to organize Nursing actions ranging from immediate physical care to emotional support, reorganization of social roles, and strengthening of community support networks.
Final considerations and implications for the practice Roy’s Theory is relevant to guide Nursing practice in environmental disasters, as it promotes a comprehensive and systematic approach to care and management. By placing adaptation at the center of the intervention, the model supports practices for community recovery and resilience.
Keywords:
Disaster Response; Environmental Disasters; Nursing; Nursing Models; Nursing Theory
Resumen
Objetivo reflexionar sobre el desempeño de las enfermeras en situaciones de desastre ambiental, utilizando la Teoría de Adaptación de Callista Roy como marco.
Método ensayo reflexivo sobre las posibilidades de los profesionales de enfermería en situaciones de desastre ambiental, en consonancia con los cuatro modos de adaptación propuestos por Callista Roy.
Resultados desastres ambientales deben comprenderse como procesos sociales complejos, con impactos directos e indirectos sobre la salud pública, incluyendo daños físicos, sufrimiento psíquico, rupturas sociales y sobrecarga de los servicios de salud. El Modelo de Adaptación de Callista Roy se mostró como un referente para interpretar estas respuestas, al permitir la identificación de estímulos focales, contextuales y residuales, así como de los mecanismos regulador y cognador. La aplicación de los cuatro modos adaptativos posibilitó organizar la actuación del enfermero desde el cuidado físico inmediato hasta el apoyo emocional, la reorganización de roles sociales y el fortalecimiento de redes de apoyo comunitario.
Consideraciones finales e implicaciones para la práctica la Teoría de la Adaptación orienta las acciones del personal de enfermería ante desastres ambientales, promoviendo un enfoque integral y sistemático de la atención y la gestión. Al centrar la adaptación en la intervención, el modelo apoya prácticas para la recuperación y la resiliencia comunitarias.
Palabras clave::
Desastres Ambientales; Enfermería; Modelos de Enfermería; Respuesta a los Desastres; Teoría de Enfermería
INTRODUÇÃO
Historicamente, em diferentes partes do mundo, desastres ambientais como enchentes, terremotos, queimadas e secas prolongadas têm produzido perdas na biodiversidade, mortes e sequelas, destruição de infraestruturas e profundas transformações sociais. Entretanto, nas últimas décadas, a frequência e a magnitude desses eventos têm se intensificado, em grande parte associadas às mudanças climáticas antropogênicas, que alteram ciclos naturais e intensificam a ocorrência de desastres.1 No Brasil, essa realidade tem se tornado particularmente evidente, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, onde desastres hidrológicos recorrentes têm provocado deslocamentos populacionais, danos econômicos significativos e repercussões expressivas na saúde física e mental das pessoas que vivem nas comunidades afetadas, configurando-se como uma demanda emergente para os serviços de saúde e seus profissionais.2
Os desastres e as catástrofes ambientais não reverberam sobre as populações de forma homogênea. Elas atingem de modo mais severo aquelas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade social, para as quais o acesso aos recursos materiais e aos serviços de saúde já se encontra limitado. Essa desigualdade amplia a exposição a agravos de ordem física e emocional, como transtornos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, além de comprometer a capacidade de recuperação comunitária. A experiência desses eventos também impacta diretamente os profissionais da saúde que, ao estarem na linha de frente, lidam com a sobrecarga de trabalho, sofrimento emocional e com o desafio de manter a qualidade do cuidado em contextos marcados pela gravidade, imprevisibilidade e escassez de recursos.3
Nesse cenário, os sistemas de saúde são desafiados a responder com rapidez, eficiência e sensibilidade, articulando ações que integrem a prevenção, a mitigação, a resposta emergencial e a reabilitação pós-desastre. Entre os profissionais envolvidos, o enfermeiro ocupa uma posição estratégica, não apenas na assistência direta às vítimas, mas também no planejamento, na gestão de equipes e na promoção da resiliência comunitária. Sua prática demanda competências técnicas, éticas e comunicacionais, bem como a habilidade de apoiar pessoas em processos de adaptação diante de situações críticas e de incerteza.4
Para fundamentar essa perspectiva, a Teoria da Adaptação de Callista Roy oferece um referencial teórico capaz de fundamentar a compreensão dos processos pelos quais os indivíduos e as comunidades enfrentam e se reorganizam diante das adversidades. Ao conceber o ser humano como um sistema adaptativo em interação constante com o ambiente, a teoria possibilita refletir criticamente sobre as estratégias de cuidado que favoreçam não apenas a sobrevivência imediata, mas também a reorganização social, o fortalecimento dos vínculos comunitários e a promoção da saúde integral. Assim, faz-se necessário analisar como os princípios dessa teoria podem subsidiar a prática do enfermeiro, de modo que favoreçam a adaptação de indivíduos e comunidades em contextos de desastres e catástrofes climáticas e ambientais, contribuindo para um cuidado que integre os aspectos físicos, emocionais e sociais em contextos de crise.
Objetivou-se refletir sobre a atuação do enfermeiro frente aos desastres e às catástrofes ambientais à luz da Teoria da Adaptação de Callista Roy.
MÉTODO
Trata-se de um ensaio reflexivo, proveniente de discussões na disciplina de “Saúde Planetária e Saúde Global: desafios atuais e perspectivas futuras”, ofertada pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em parceria com o Programa de Pós-graduação em Saúde e Nutrição da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Para subsidiar as reflexões tecidas, duas pesquisadoras, de forma independente, realizaram buscas nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), na Base de Dados de Enfermagem (BDENF) e na PubMed/MEDLINE, utilizando os descritores “Mudanças Climáticas”, “Saúde Ambiental”, “Resposta em Desastres”, “Desastres Ambientais”, “Enfermagem” e “Teoria de Enfermagem”, combinados pelos operadores booleanos “AND” e “OR”. Essa etapa foi fundamental para a identificação dos textos mais relevantes que seriam utilizados para a reflexão teórica.
A busca nas bases de dados ocorreu em junho de 2025, e foram consideradas somente publicações completas e gratuitas, nos idiomas português, inglês e espanhol, em razão da proficiência dos pesquisadores nesses idiomas. Não foi estabelecida restrição temporal para a seleção dos textos, uma vez que se buscou contemplar marcos teóricos e históricos fundamentais para embasar a discussão desenvolvida no estudo.
Nos textos selecionados, a análise concentrou-se na descrição de como os enfermeiros atuaram diretamente diante de catástrofes ambientais e climáticas. Além da busca nas bases de dados, realizou-se também uma busca manual, com o intuito de ampliar o escopo dos textos selecionados e incluir estudos relevantes que não haviam sido identificados na etapa anterior.
Após a leitura atenta dos textos e das discussões na disciplina, os principais pontos do ensaio reflexivo sustentaram-se na análise da literatura sobre as possibilidades de atuação do profissional enfermeiro em situações de desastres/catástrofes ambientais, considerando-se os quatro modos de adaptação propostos por Roy (fisiológico, de autoconceito, função de papel e interdependência).
As discussões foram organizadas em três tópicos: “Desastres e catástrofes ambientais e a saúde pública”, “A Teoria de Adaptação de Callista Roy” e “Atuação do enfermeiro em situações de desastre ambiental à luz da Teoria de Roy”.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Desastres e catástrofes ambientais e a saúde pública
A distinção entre os termos “desastre” e “catástrofe” adotada neste trabalho baseia-se na Sociologia dos desastres de Enrico Quarantelli (1998). À luz desses fundamentos, entende-se por "desastre" as ocorrências cujas origens estão relacionadas aos fatores da natureza (terremotos, enchentes, secas e furacões) externos ao humano, cuja representação na literatura traz à tona reflexões sobre o enfrentamento do imprevisível e da força descontrolada do ambiente. Por outro lado, o termo "catástrofe" é proposto para abordar contextos cuja destruição, sofrimento ou colapso estejam ligados aos fatores culturais, políticos ou sociais, ou seja, instâncias criadas e organizadas pelo próprio ser humano.5 Hodiernamente, ao se considerar que as mudanças climáticas, geradoras de intensos desastres naturais, são reflexo da ação humana direta, por meio da degradação do meio ambiente, neste estudo serão utilizados os termos desastres e catástrofes para referir-se aos problemas naturais enfrentados pelos seres humanos e por outras espécies.
Quarantelli também propôs uma reflexão crítica sobre os rumos teóricos, metodológicos e empíricos dos estudos sobre desastres, defendendo a ampliação do campo para além da análise de eventos isolados. O autor enfatizou que os desastres e as catástrofes devem ser compreendidos como processos sociais complexos, influenciados por fatores culturais, políticos, econômicos e organizacionais, e não apenas como consequências de fenômenos naturais isolados. Destaca-se, então, a necessidade de integrar as fases de prevenção, preparação, resposta e recuperação, bem como de fortalecer o diálogo entre a produção acadêmica e a prática profissional.5
Ao enfatizar que os desastres e as catástrofes não podem ser analisados de forma fragmentada ou restrita ao momento do impacto, Quarantelli reforçou a necessidade de abordagens que considerem as respostas humanas ao longo do tempo, incluindo as fases de preparação, resposta e recuperação.5 Nesse sentido, o Modelo de Adaptação de Roy oferece uma estrutura teórica consistente para compreender como indivíduos, famílias e comunidades respondem e se adaptam aos estímulos gerados por situações de catástrofes ou desastres.6
Destaca-se que a conceituação de desastres e catástrofes naturais demanda reflexão, uma vez que, na contemporaneidade, sua ocorrência está fortemente relacionada ao modo de produção e consumo das sociedades modernas, vinculando-se a fatores de origem humana, como o desmatamento, a poluição, o uso inadequado do solo e a degradação ambiental. Tais ações contribuem para o aumento da intensidade e da recorrência desses fenômenos, cujos impactos são amplos e atingem de forma significativa a saúde das populações. Esses impactos manifestam-se tanto de maneira direta, por meio de traumas físicos, doenças infecciosas, intoxicações e óbitos, quanto indireta, ao comprometer o bem-estar mental, favorecer o surgimento de transtornos psicológicos como ansiedade e depressão, restringir o acesso à água potável e aos alimentos e sobrecarregar os serviços de saúde. Ademais, a contaminação ambiental e o deslocamento forçado de comunidades potencializam a propagação de doenças e ampliam as condições de vulnerabilidade social, impactando sobre a saúde pública.3
No âmbito das políticas globais, o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres (2015–2030) representa um referencial teórico-normativo relevante ao enfatizar a prevenção, a mitigação dos riscos e o fortalecimento da resiliência dos sistemas de saúde e comunidades. Esse marco reconhece a saúde como eixo estratégico da gestão do risco de desastres e catástrofes, reforçando a necessidade de integração intersetorial e de fortalecimento da capacidade de resposta dos serviços de saúde pública.7
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de respostas rápidas, eficientes e bem coordenadas por parte das autoridades que coordenam a saúde pública dos países. Protocolos de emergência bem definidos, comunicação clara e mobilização de recursos podem ser elementos que diferenciam as primeiras horas após o desastre/catástrofe. Contudo, é importante destacar que, além da eficiência, é fundamental que essas respostas sejam também humanizadas e pautadas em referenciais teóricos capazes de embasar a prática e a ação.2
A Teoria de Adaptação de Callista Roy
A Teoria da Adaptação de Callista Roy, desenvolvida na década de 1970, fundamenta-se na Teoria Geral dos Sistemas, na teoria da adaptação e em perspectivas humanistas. Nesse modelo, o ser humano é concebido como um sistema adaptativo em constante interação com um ambiente dinâmico, sendo compreendido de forma integrada em suas dimensões biológica, psicológica, social e espiritual. A proposta teórica orienta a prática da Enfermagem a partir da análise das respostas adaptativas emitidas diante de estímulos internos e externos, com vistas à promoção da saúde e da qualidade de vida.6
Um dos pilares fundamentais da teoria refere-se à classificação dos estímulos que influenciam o processo adaptativo. Roy distinguiu o estímulo focal, que representa a situação imediata que exige maior atenção do indivíduo; os estímulos contextuais, que correspondem a outros fatores presentes na situação e que influenciam a resposta; e os estímulos residuais, relacionados a experiências prévias, crenças, valores e atitudes, cujo impacto pode não ser claramente identificado, mas interfere no comportamento adaptativo.6
Esses estímulos são processados por meio de dois mecanismos de enfrentamento interdependentes. O subsistema regulador está associado às respostas automáticas de natureza fisiológica e neuroendócrina, enquanto o subsistema cognador envolve processos mentais e emocionais, como percepção, aprendizagem, julgamento e tomada de decisão, ou seja, tudo aquilo que depende da consciência, do pensamento e da experiência subjetiva do indivíduo. Segundo Roy, ele é responsável por transformar os estímulos recebidos em respostas adaptativas a partir de processos cognitivos e afetivos. A articulação entre esses subsistemas é determinante para a qualidade das respostas emitidas, podendo resultar em comportamentos adaptativos ou ineficazes, conforme a capacidade do indivíduo de lidar com as demandas impostas.6
Roy definiu, então, quatro modos de adaptação, nos quais, o indivíduo responde a estímulos internos e externos:6
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Modo fisiológico: abrange funções corporais essenciais, como oxigenação, nutrição, eliminação, repouso/atividade e proteção.
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Modo de autoconceito: refere-se à identidade pessoal do indivíduo, a forma como ele vê sua imagem corporal, bem como às dimensões psicológicas e espirituais.
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Modo função de papel: envolve o desempenho dos papéis sociais (familiares, comunitários e profissionais).
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Modo de interdependência: envolve os vínculos afetivos e o suporte social do indivíduo ao lidar com situações dinâmicas.
Todos esses modos adaptativos compõem o processo de Enfermagem, que, segundo Roy, envolve etapas sequenciais de: avaliação do comportamento adaptativo, identificação dos estímulos, formulação do diagnóstico, planejamento e implementação de intervenções e, por fim, avaliação dos resultados obtidos.6 Na prática clínica, a teoria de Callista Roy contribui significativamente para a organização do trabalho de Enfermagem, pois fornece uma estrutura sistemática centrada na adaptação do paciente e na qualidade do cuidado.8-10
Esse enfoque coloca a adaptação no centro do cuidado, reconhecendo o paciente como um sistema adaptativo que responde a fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e espirituais. Dessa forma, o enfermeiro consegue desenvolver intervenções individualizadas e holísticas, favorecendo resultados mais efetivos e abrangentes.11
Atuação do enfermeiro em situações de desastre e catástrofe ambiental à luz da Teoria de Roy
O cenário de atuação em desastres e catástrofes ambientais e climáticas é complexo, acarretando grande preocupação e sofrimento aos indivíduos envolvidos direta e indiretamente. A intensificação dessas situações nas últimas décadas tem evidenciado vulnerabilidades estruturais nos sistemas de saúde e, em especial, na atuação dos profissionais de Enfermagem. Entender as competências essenciais dos enfermeiros na sua atuação frente aos desastres e às catástrofes ambientais faz-se necessário para compreender como tais competências se articulam com a Teoria da Adaptação de Roy.
A atuação da Enfermagem é fundamental na resposta a desastres ambientais, sendo essencial tanto para o cuidado direto às vítimas quanto para a organização e o fortalecimento da resiliência das comunidades afetadas. Nesse sentido, os enfermeiros assumem um papel central de atuar como facilitadores da adaptação dos pacientes e de suas famílias, bem como do próprio profissional, das equipes e do sistema de saúde.
Em termos de serviços de saúde e cuidado direto ao paciente e à sua família, os enfermeiros, frequentemente, compõem a primeira linha de resposta, desempenhando funções como triagem, primeiros socorros, monitoramento e cuidados clínicos imediatos, além de coordenarem equipes multidisciplinares que atuam no cenário do desastre.12-15
No campo da gestão e organização, esses profissionais assumem papéis de liderança em abrigos, conduzindo a distribuição de recursos humanos, financeiros e materiais, o registro de informações e a proteção da saúde dos evacuados, sempre adaptando suas estratégias conforme as necessidades locais.13-17 Nesse sentido, a atuação dos enfermeiros requer um conjunto integrado de competências técnicas, gerenciais e psicossociais, desenvolvidas e aplicadas em contextos de alta complexidade.12
A resposta ágil emerge como uma competência central, envolvendo a capacidade de coordenar recursos humanos e materiais, reorganizar fluxos assistenciais e tomar decisões rápidas diante de cenários instáveis, mesmo na presença de limitações estruturais, como cortes de energia, sobrecarga hospitalar e escassez de insumos. A liderança é destacada como essencial para mobilizar equipes, manter a coesão organizacional e implementar soluções inovadoras diante de problemas inesperados, sendo potencializada pela construção de relações de confiança entre os gestores e profissionais de base.18
Além disso, a Enfermagem vai além do cuidado físico, oferecendo também suporte emocional, educação em saúde e promovendo a comunicação com vítimas e familiares, o que contribui para o bem-estar e para o fortalecimento da resiliência comunitária.14,17-20 A resiliência também aparece como uma habilidade crítica para sustentar a atuação profissional e a saúde mental dos profissionais em contextos de pressão contínua, envolvendo a adaptação às mudanças, o gerenciamento de impactos emocionais e a utilização de estratégias de autocuidado. Aspectos como diferenças culturais, dilemas éticos e lacunas organizacionais foram igualmente identificados como elementos que desafiam e moldam essa competência. A comunicação eficaz, por sua vez, não apenas facilita a coordenação das ações e a clareza nas atribuições, mas também atua como instrumento de apoio emocional, especialmente quando associada a canais de contato remoto que permitem manter vínculos familiares e de equipe durante a crise.18
Ademais, o suporte emocional contínuo é apontado como indispensável para a preservação do bem-estar dos enfermeiros, prevenindo transtornos como o estresse pós-traumático e favorecendo a recuperação a longo prazo. Essas competências, quando trabalhadas de forma integrada, ampliam a capacidade de resposta dos profissionais, fortalecem a assistência em situações críticas e oferecem subsídios para o aprimoramento das políticas de preparação e gestão de desastres na Enfermagem.18
Organizaram-se, no Quadro 1, as possibilidades de atuação do enfermeiro frente aos desafios decorrentes de desastres e catástrofes ambientais, à luz dos Modos Adaptativos propostos no Modelo de Adaptação de Callista Roy. Este referencial teórico compreende o indivíduo como um sistema adaptativo em constante interação com o ambiente, respondendo por meio de quatro modos interdependentes: fisiológico, autoconceito, função do papel e interdependência.
Possibilidades de atuação do enfermeiro frente aos desafios acarretados por desastres e catástrofes ambientais de acordo com os Modelos Adaptativos de Roy.
As intervenções listadas refletem o papel clínico e de cuidado direto do enfermeiro, bem como seu papel na organização e no encaminhamento. Uma visão crítica, contudo, pode expandir essa percepção para incluir o enfermeiro como agente de mudança, defensor e líder em saúde pública. Em desastres ambientais, o enfermeiro pode desempenhar um papel crucial na advocacia por políticas públicas mais robustas de gestão de desastres, na pesquisa sobre os impactos na saúde e na coordenação intersetorial com outras agências e profissionais. A promoção do voluntariado e a facilitação de redes de apoio mútuo são exemplos de intervenções que já apontam para essa direção mais ampla, mas o potencial de liderança e de influência do enfermeiro pode ser ainda mais destacado.
Assim, o uso do Modelo de Roy como guia possibilita uma abordagem integral, contemplando tanto as necessidades físicas quanto as emocionais e sociais das populações afetadas, fortalecendo a capacidade adaptativa e favorecendo a recuperação em contextos de desastre.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
Esta reflexão teórica permitiu analisar a atuação do enfermeiro frente aos desastres e às catástrofes ambientais à luz da Teoria da Adaptação de Roy, evidenciando que esse referencial oferece uma sustentação conceitual consistente para orientar práticas integrais e sistematizadas em contextos de crise. Ao articular os quatro modos adaptativos (fisiológico, autoconceito, função de papel e interdependência) com as competências clínicas, gerenciais e psicossociais exigidas nesses cenários, foi possível demonstrar que o enfermeiro atua como facilitador de processos adaptativos individuais e coletivos, promovendo não apenas o atendimento clínico imediato, mas também a reorganização emocional, social e comunitária.
Entretanto, reconhecem-se limitações metodológicas inerentes ao caráter ensaístico do estudo. Por tratar-se de uma reflexão teórica fundamentada em uma busca narrativa da literatura e em discussões acadêmicas, não houve aplicação de um protocolo sistemático de revisão, nem de critérios rigorosos de avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que pode introduzir vieses de seleção e interpretação. Além disso, a delimitação linguística (português, inglês e espanhol) e o recorte para as publicações de acesso gratuito também podem ter limitado a abrangência das evidências consideradas.
Diante disso, indicam-se como perspectivas futuras a realização de pesquisas empíricas que investiguem a aplicação concreta do Modelo da Adaptação de Roy em contextos reais de desastres ambientais, avaliando seus impactos nos desfechos clínicos, psicossociais e comunitários. Estudos de intervenção e investigações multicêntricas podem contribuir para validar e aprimorar protocolos assistenciais fundamentados nesse referencial. Ademais, recomenda-se aprofundar as análises sobre a formação e a capacitação de enfermeiros para a atuação em saúde planetária e na gestão de riscos, bem como explorar o papel da Enfermagem na formulação de políticas públicas e de estratégias intersetoriais de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, fortalecendo a produção científica e a consolidação de práticas baseadas em referenciais teóricos robustos.
AGRADECIMENTOS
Sem agradecimentos
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FINANCIAMENTO
Este estudo foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.
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Editado por
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EDITOR ASSOCIADO
Rafael Silva https://orcid.org/0000-0002-5211-9586
-
EDITOR CIENTÍFICO
Marcelle Miranda da Silva https://orcid.org/0000-0003-4872-7252
