RESUMO
O artigo analisa a evolução histórica da extrema-direita francesa. Reconstitui o processo de afirmação do Front National como o principal partido extremista francês. Observa o impacto da chegada de Jean-Marie Le Pen, líder do Front National, ao segundo turno das eleições presidenciais francesas em 2002. Reconhece as suas modificações importantes na natureza do partido a partir de 2010. Menciona a presença de Marine Le Pen, herdeira do movimento, no segundo turno das eleições presidenciais francesas mais recentes. E estabelece aproximações entre essa realidade francesa e o bolsonarismo praticado no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Política; Partidos; Extrema-Direita; Front National; Bolsonarismo
ABSTRACT
The article analyzes the historical evolution of the French extreme right. It reconstructs the process of asserting the Front National as the main French extremist party. Observes the impact of the arrival of Jean-Marie Le Pen, leader of the Front National, in the second round of the French presidential elections in 2002. It recognizes its important changes in the nature of the party from 2010 onwards. It mentions the presence of Marine Le Pen, heiress of the movement, in the second round of the most recent French presidential elections. And it establishes approximations between this French reality and the Bolsonarism practiced in Brazil.
KEYWORDS:
Politics; Parties; Far Right; National Front; Bolsonarism
O futuro de uma ilusão de Sigmund Freud é uma das reflexões mais perturbadoras da contemporaneidade desde a sua publicação em 1927. A sua negação incisiva das crenças e paixões que fundamentam uma religião antecipou e naturalizou o reconhecimento da intermitência do mal-estar da civilização que o Ocidente presencia até os dias de hoje. O passado de uma ilusão de François Furet - em diálogo e dissonância, mas não em negação - sepultou as paixões profundas que pavimentaram a emergência e a consolidação do socialismo e do comunismo. Com praticamente a mesma agitação intelectual do psiquiatra austríaco, o grande especialista da Revolução Francesa teorizou sobre o féretro inclemente das crenças que alimentaram as ideias disruptivas que fizeram a Revolução de 1917, monopolizaram porções importantes da atenção mundial até 1989-1991 e, desde então, claudicam impetuosamente na esperança de algum devir (Freud, 2014; 2011; Gay, 2012; Furet, 1995; Furet; Ozouf, 1988; Winock, 1997; Judt, 1992; Judt; Snyder, 2012).
A fé nas religiões e as paixões dos socialistas e comunistas não foram completamente eliminadas. O passado e o futuro de suas ilusões resistem. As suas crenças e paixões persistem. E, por resistir e persistir, alimentam extremismos políticos e partidários no mundo inteiro. Sendo a extrema-direita francesa um de seus exemplos mais emblemáticos e o partido Front National - rebatizado recentemente como Rassemblement National - um de seus acabamentos mais pugnazes e sem reparo (Perineau, 1997; 2012; 2014; 2017; 2021; Caiani; Weisskircher, 2022).
Extrema-direita, por definição, supõe múltiplas sensibilidades. Muitas crenças e algumas paixões. Nunca no singular. Sempre em muitos tipos e formatos. Sempre disponível e disponível para variados gostos (Caiani; Parenti, 2013).
Historicamente, ela emerge ainda no século XVIII com corrente de pensamento político hostil à brutalidade das rupturas requeridas ou induzidas pelo caminhar revolucionário francês dos tempos da Grande Revolução. Na viragem do século XIX ao XX, esse pensamento tornado radical e extremista começa a ganhar corpo partidário e aceitação política inclusive nos ambientes democráticos que resistiram à emergência do império de farsa de Napoleão III e admoestaram os eventos traumáticos que reservou o seu fim.
O ressentimento inoculado pela humilhação francesa infligida pelos germânicos na guerra franco-prussiana do biênio de 1870-1871 conduziu, assim, segmentos intermediários e superiores das elites aos corpos médios franco-europeus a alimentar uma irrevogável detestação dos alemães. Eles jamais esqueceram o “abandono” da Alsácia e da Lorena nem jamais perdoariam os envolvidos na dissolução do Affaire Dreyfus (Perineau, 2021).
Sob o chão de ruínas da Grande Guerra de 1914-1918, decidiram retribuir aos alemães todo ódio ressentido em sua própria humilhação. Nenhum francês educado ou esclarecido, às voltas com a paz em 1919, havia se esquecido da profanação impingida pelos homens do chanceler Otto von Bismarck sobre os monumentos históricos franceses, tampouco daquela cena indignamente eloquente do coroamento do primeiro monarca da Alemanha unificada, o kaiser Guilherme I, na imponente Galerie des Glaces (galeria de espelhos) do Palácio de Versalhes.
Às voltas, portanto, com as negociações de paz do aftermath da Grande Guerra, esses franceses, mortalmente ressentidos pela audácia dos vitupérios prussianos de 1870-1871 em solo nacional, decidiram impor aos alemães os seus implacáveis “dividendos da paz”.
O jovem funcionário do Tesouro britânico, o economista John Maynard Keynes, integrante da comitiva do primeiro-ministro David Lloyd George, que tratava da construção da paz após a Grande Guerra, foi dos primeiros a denunciar a fúria imoderada das intenções do primeiro-ministro e cicerone francês George Clemenceau. Uma paz assentada em ressentimentos, logo declarado, não pode gerar nada diferente de menos paz e mais ressentimentos. Mas foi voz e voto vencidos (Nolte; Furet, 2004; Courtois, 2000; Figes, 1998; Clark, 2014; Ferguson, 2008; Skidelsky, 2000).
Iludidos com resultados urgentes para reparações simbólicas de opróbios pretéritos, os franceses seguiram cultivando o ovo da serpente. Dias, meses, mas menos de ano após a assinatura das conveniências da paz de Versalhes, a cólera dos alemães começou a desatar e a abrir as portas da percepção dos extraordinariamente severos extremismos do século XX, ambientados em nazismos, fascismos, franquismo, salazarismo e afins.
O aprendizado de toda essa desonra foi autorrefletido a duras penas. A noite escura de ressentimentos alimentou o Armagedão da Segunda Grande Guerra Mundial, que ceifou mais de 80 milhões de pessoas ao redor do planeta, sendo ao menos 10% delas exterminadas no sem-nome da Solução Final da ignomínia alemã (Aglan; Frank, 2015).
Esse verdadeiro inferno, como atribuíram muitos, impôs aos sobreviventes recobrar alguma dignidade e consolidar esforços para o consenso pelo never more. E assim se fez. E, entre as muitas ações práticas avançadas, o desconjuntamento dos impérios coloniais foi identificado como um imperativo prioritário (Judt, 2006).
O adeus aos impérios e a autodeterminação dos povos já ocupava a agenda liberal do presidente Woodrow Wilson desde os seus 14 pontos de 1918-1919. O comunista Vladmir Lênin, do outro lado da paisagem ideológica, partilhava da mesma compreensão. Entendia o imperialismo como etapa suprema do capitalismo.
Mas precisou inalar a fumaça de Auschwitz para que o consenso deles dois - Wilson e Lênin, liberal e comunista - ganhasse força para se realizar.
A entrega da Índia aos indianos foi um trauma emblemático aos ingleses. Aos coevos da elevação do notável Winston Churchill à condição de primeiro-ministro de todos os ingleses seguia desmesuradamente vivo o entendimento que ninguém que acedia àquele honroso posto poderia aspirar pelo esfacelamento do império de Her Majesty. Mesmo assim, após 1945, descolonizar virou um caminho sem volta nem fim. Winston Churchill não ratificou nada aquilo. Ele dera sangue, suor e lágrimas ao combate da guerra, mas foi preterido do poder nas eleições imediatamente após guerra cessar.
De toda maneira, os talentos de Mahatma Gandhi proporcionaram uma separação, se não integralmente isenta de tumultos e protestações, com abundantes intentos de pacificação. Uma pacificação que iria, inclusive, ultrapassar fronteiras e inspirar gerações mundo afora, notadamente a beat generation norte-americana a partir dos anos 1950. Uma pacificação conveniente a ingleses e indianos, mas longe de encantar argelinos e franceses que, como eles, também seguiam tratativas de desfecho de sua realidade matrimonial.
França e Inglaterra, convém lembrar, possuíam os maiores impérios territoriais-coloniais do planeta desde os séculos XVII, XVIII e XIX. Quando o incidente do 28 de junho de 1914 precipitou a insurgência e tragou países e sociedades sonâmbulos para o interior de conflito mundial, França e Inglaterra possuíam, aproximadamente, dois terços dos territórios colônias existentes. Depois, portanto, da liberação da Índia em 1947 - a maior porção colonial dos ingleses -, faltava à França dar mostras de similar grandeza. Mas a questão argelina se mostrou muito mais delicada, complexa e tensa que se poderia, em primeira vista, imaginar (Herring; Brands, 2016; Judt, 2006; Hobsbawm, 1995; Soutou, 2011).
Enquanto os franceses recebiam o seu herói da France Libre, resistente incansável desde a primeira hora, responsável pelo apelo do 18 de junho de 1940 que era o imponente general Charles De Gaulle, pelas ruas da Paris liberada em 1944, os argelinos tomavam ruas e praças de Argel, em tensões inflamadas e sem fim, que iriam se desembocar na violentíssima disputa franco-argelina de liberação, descolonização e independência da Argélia.
A Quarta República Francesa instaurada em 1946 quase que não funcionou em razão desse contencioso na Argélia. A instabilidade foi estruturalmente insuportável. Foram numerosas as trocas de ministros, primeiro-ministro e governos inteiros. Tudo devido às batalhas na Argélia e, especialmente, às batalhas por Argel. Nobre tentação por territórios e pura ilusão colonial.
Após muito naufragar, decidiu-se por conclamar, em 1958, o retorno do general Charles de Gaulle. Retirado da vida pública francesa desde 1946, como o seu homólogo inglês, o general francês era a única entidade verdadeiramente respeitada nos dois lados do front - França e Argélia, Argel e Paris (Rémond, 2003; Villepin, 2005; Tauriac, 2008; Vaïsse, 1998; 2009).
Quem, ainda hoje, revê os Mémoires de guerre do general Charles De Gaulle nota com espanto e intimidação a presença imponente, espetacular e inquestionável do líder francês na alma, no coração e nas mentes dos colonos franceses. Muitos deles africanos. Muitos dos africanos entre eles, argelinos (De Gaulle, 1954-1959; Stora, 2020; 2012; 2009; 2008).
Após fugir para a Londres de Winston Churchill quando da capitulação do marechal Phillipe Pétain aos homens de Adolf Hitler em Vichy no início de junho de 1940, Charles De Gaulle fez o apelo do 18 de junho de 1940 pelas ondas curtas e médias da rádio BBC e não se demorou em seguir para o espaço francês ultramarino ainda não nazificado. Correu, então, para as colônias francesas. Especialmente aquelas espalhadas pela África. Notadamente na Argélia. Tudo para materializar a resistência. Resistência ao nazismo, resistência a Hitler.
Comitês De Gaulle pela France Libre foram inaugurados ali - na Argélia, na África - para, em seguida, ganharem forma e organização pelo planeta inteiro (De Gaulle, 1954-1959; Silva, 2016; Bely, 2005; Crémieux-Brilhac, 2014).
Hoje em dia as justificações dessa solidariedade universal aos franceses não passam de quimeras depositadas em passados desabados. Mas às voltas com os anos de 1940 e, notadamente, diante da investida sem-perdão da ofensiva nazista pelo país Mirabeau, o mundo inteiro, que via na França o modelo perfeito de savoir vivre e savoir faire, tinha razões de sobra para se solidarizar. Subestima-se, hodiernamente, muito abruptamente, que houve um tempo - que começou a desaparecer em 1940 - em que o mundo inteiro falava, pensava e respirava em francês.
De volta à guerra, à África e a Argel, o resistente Charles De Gaulle mobilizou, portanto, as tropas africanas para conter e ajudar a vencer os desatinos do conflito mundial encarnado por Hitler. O empenho, a disciplina, a dedicação e a relevância das gentes das Áfricas nesse propósito foram, são e serão permanentemente inquestionáveis. O general Charles De Gaulle tinha a exata compreensão de tudo disso. E, não ao acaso, o notável diplomata brasileiro, Vasco Leitão da Cunha, enviado do ditador-presidente Getúlio Vargas em Argel com o fim de afinar as relações brasileiras com a France Libre do general francês, pôde tudo isso instantaneamente notar e anotar em suas fulgurantes memórias em Diário de Alto-Mar (Da Cunha, 1994).
A convocação, porquanto, do general Charles De Gaulle para amainar o conflito franco-argelino em 1958 era um chamado ao salvador. Sabia-se que Charles de Gaulle era um eminente representante das duas pátrias. E, nessa condição, era o portador da cartada da última chance para intentar dar fim ao problema.
“Je vous ai compris” diria o general Charles De Gaulle em sua primeira visita à Argel ainda conturbada em 1958. Essa sua movimentação deu início às distensões do conflito. Desde ali, a belicosidade geral tendeu a diminuir. Mesmo que atentados contra franceses, notadamente civis e especialmente em passagem capital argelina, tenha tendido a aumentar. Seja como for, a sinalização, “Je vous ai compris”, do general intencionou o fim do enfrentamento. Que, ao menos nos planos diplomático e militar, teria fim nos Acordos de Évien, assinados entre as partes, França e Argélia, em março de 1962 (Stora, 2020; 2012).
Uma coisa é terminar um enfrentamento, um conflito, uma guerra. Outra, extremamente diferente, é produzir a conciliação, o entendimento, a reconciliação, a paz.
As tensões que envolveram a “questão argelina” e, especialmente, o retorno do general Charles De Gaulle e a sua condução dos acontecimentos até o fim do conflito reabilitaram paixões extremistas de tendências fortemente nacionalistas que, por algum tempo, chegou-se a imaginar que haviam, de fato, sido moralmente sepultadas com Hitler em 1944 e/ou exorcizadas por Stálin, Churchill e Roosevelt (depois Truman) entre Yalta e Potsdam. Mas, não.
O nacionalismo exacerbado dos partidários da Argélia francesa, e, portanto, contrários à sua liberação, foi avivando sensibilidades extremistas. Primeiro em organizações clandestinas - muita vez, discretas e inofensivas. Depois em aparelhos menos comedidos - muita vez, é verdade, amplamente imoderados. Mas o fato foi que todo esse extremismo, em todas as suas dimensões, ganharia materialidade formal com a criação, em 1972, do partido Front National, liderado pelo arrivista Jean-Marie Le Pen, que desde o início autodeclarou se tratar da única, legítima e original agremiação a representar a extrema-direita francesa (Perineau, 1997).
Com a criação do Front National, as paixões de outrora condensadas em ilusão ganharam valência de intermitência no presente e consistência na fruição para se perpetuar no futuro.
Nos seus anos iniciais de existência, a agremiação subsistia como um simples locus de acomodação de tendências nacionalistas extremistas. A sua eleitorabilidade era diminuta e, conseguintemente, a indiferença popular ao seu encontro era imensa. Tanto que a sua participação nas eleições presidenciais francesas de 1974 rendeu ao seu candidato, Jean-Marie Le Pen, não mais que 0,7% do sufrágio.
Mas a sua evolução foi seguindo o seu destino. Com os anos entrando e a experiência se acumulando, a sua profissionalização foi se ampliando pari passu. E, para o espanto de muitos, essa sua profissionalização foi produzindo a ampliação de sua aceitação como corpo ideológico consistente, consequente e legítimo no ambiente político francês.
A mostra mais eloquente dessa constatação apareceu em 1984, quando das eleições para o Parlamento Europeu. Nessa ocasião, ao abrir das urnas, percebeu-se que seriam dez os apaniguados de Jean-Marie Le Pen a representar a extrema-direita francesa nos edifícios europeus de Bruxelas. Dois anos depois, em 1986, se nada disso bastasse, foi a vez de se notar a eleição de 35 deputados da direita extremista para a Assembleia Nacional Francesa (Perineau, 1997).
O que era, portanto, uma simples tendência, virou uma verdade em afirmação. Uma verdade tornada inquestionável a partir dos resultados do primeiro turno das presidenciais francesas de 2002.
Depois do score agonicamente pífio recolhido pelo Front National nas presidenciais de 1974, a figura corpulenta e destronada do mentor do movimento, Jean-Marie Le Pen, virou onipresente no espaço público francês. O seu body language peculiar somado ao seu radicalismo discursivo foi calando fundo no inconsciente daqueles franceses ou não que iam progressivamente se reconhecendo como derrotados da globalização, vítimas das fraturas sociais e moradores dos territórios perdidos da República, das leis e de Deus. Em 2002, esses subterrâneos da alma vieram à tona e, não ao acaso, chocaram o mundo inteiro.
2002 foi ano de eleições presidenciais na França
O lendário François Mitterrand, liderança socialista que presidiu o país pelos quatorze anos de 1981 a 1995, havia morrido em 1996 sem necessariamente deixar herdeiros nem testamento. Jacques Chirac, de matriz gaullista e que sucedera o socialista François Mitterrand na presidência da França em 1995, seguia, agora, para a sua quinta disputa presidencial, sendo a primeira de reeleição. Lionel Jospin, antigo primeiro-secretário do partido socialista de François Mitterrand e, em 2002, primeiro-ministro em coabitação1 na presidência de Jacques Chirac, era o único oponente reconhecidamente viável aos anseios de reeleição do presidente na função, Jacques Chirac. Isso era tudo. Jacques Chirac e Lionel Jospin: esse era o previsível. Quase o combinado (Attali, 2005; Cotta, 2015; Roussel, 2015; Védrine, 1996; Winock, 2015; Chirac, 2012; Fontaine, 1995).
Abertas das urnas do primeiro turno, no entanto, o imponderavelmente inimaginável aconteceu: o candidato do Front National, Jean-Marie Le Pen, vinha de desbancar o candidato socialista, Lionel Jospin, e ia habilitado para disputar o segundo turno das eleições presidenciais do país dos mais democraticamente importantes da Europa.
O espanto e o desespero dos franceses foram incontidos. O “horroroso” Front National e o não menos “horroroso” Jean-Marie Le Pen presidirem a França das Luzes, do Iluminismo, de Voltaire, Diderot, Versalhes, Raymond Aron, Charles De Gaulle, François Mitterrand era a realização de um pesadelo nunca sonhado tampouco esperado. O choque foi colossal. Um choque que alimentou a construção de uma verdadeira união nacional entre adversários políticos - democráticos e não tão democráticos assim - históricos provenientes de todas as colorações ideológicas para se fazer barragem à ascensão desse verdadeiro pandemônio que um dia fora apenas uma ilusão.
O esforço surtiu efeito. O presidente Jacques Chirac foi reeleito com 82% do sufrágio. Um score inédito na história eleitoral francesa - e, francamente, impossível em qualquer realidade democrática consolidada.
O “amor venceu”. Mas ficou confirmada a verdade inconveniente da aceitação inclemente da extrema-direita no ecossistema político francês. Uma aceitação com tons macabros. O líder do Front National, Jean-Marie Le Pen, esse corpulento e destronado que foi levado ao segundo turno das presidenciais francesas de 2002, era o mesmo indivíduo que propalava, aberta e desavergonhadamente, que o extermínio de judeus, especialmente em câmaras de gás, nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, não passava de “detalhe da história”.
Como aceitar? Como suportar? Como deixar ser eleito?
A, portanto, indecente e inconveniente presença do Front National no cotidiano político francês permitiu a inspiração de partidos de extrema-direita pelos quatro cantos do planeta. E, com o seu exemplo de 2002, fincou fundo bandeiras em territórios perdidos do imaginário de cidadãos desesperançados.
Oito anos depois, em 2010, no famoso Congresso de Tours, o capo do movimento, Jean-Marie Le Pen, promoveu a transmissão da patente dos adereços à sua filha, Marine Le Pen.
Sob Marine Le Pen, o objetivo crucial do partido foi aumentar a sua aderência e aceitação populares e, com isso, amplificar a sua eleitorabilidade. Nesse propósito, procederam-se movimentos severos de “desradicalização” e “desdiabolização”. O black humor macabra e politicamente incorreto do patriarca foi, lenta e cuidadosamente, dando lugar a expressões progressivamente contidas, pensadas e refletidas da nova líder do partido (Perineau, 2017; 2021).
Um novo estilo e uma nova gestão que inviabilizaram a permanência do próprio fundador do movimento, Jean-Marie Le Pen, no partido.
Uma briga de chefes foi, assim, instaurada. Uma crise em família, também.
A filha, Marine Le Pen, presidente da agremiação, precisou interditar e decapitar o próprio pai, Jean-Marie Le Pen, do convívio partidário. Jean-Marie Le Pen foi expulso do Front National em 2015, cinco anos depois de legar o destino da extrema-direita francesa aos cuidados de sua filha.
A tragédia familiar e a guerra de chefes surtiram efeito. Os resultados vieram quase que imediatamente. O, agora, Rassemblement National passou, doravante, a seduzir e mobilizar eleitores sensíveis a todos as colorações políticas e ideológicas.2
A esquerda francesa jamais se recuperou da entropia inaugurada pela sua experiência real de exercício do poder durante a presidência de François Mitterrand. Em complemento, ela também nunca se soergueu do vazio que a morte de François Mitterrand deixou, tampouco do baque de 2002 e, menos ainda, da atuação dramaticamente medíocre do presidente socialista François Hollande entre 2012 e 2017.
A direita republicana, liberal e com fortes tons do autoritarismo gaullista virou completamente disfuncional ainda na transição da presidência de Jacques Chirac para Nicolas Sarkozy em 2007. Com a crise financeira de 2008 e a severa crise do euro, a fragilização econômica e social de todos os segmentos da sociedade francesa colou nos franceses uma empertigada indiferença à política e aos políticos.
Quem mantiver alguma dúvida sobre isso, que acompanhe as taxas de comparecimento dos franceses às seções eleitorais desde então. Sob muitos aspectos, o quadro abstencionista francês talvez corresponda ao sinal mais eloquente de indiferença eleitoral em sistemas representativos democráticos consolidados. Mesmo assim, são numerosas as razões que impedem os franceses de ingressaram em aventuras mais consistentes pelas ilusões do que se vayan todos à latino-americana. Mesmo que, é o caso de se reconhecer, as protestações dos gilets jaunes, desde 2018 até o presente, sejam a amostra que mais profunda dessa ingrata tentação.
Todo esse cenário de erosão de convicções ideológico-partidárias abriu espaço para extremismos. À direita e à esquerda. Ficando apenas na primeira convicção, tudo isso, somado aos movimentos de aggiornamento de Marine Le Pen, permitiu a franca naturalização do partido do clã Le Pen como um algo ordinário. Como uma tendência política normal. Como um partido como os demais.
Marine Le Pen - especialmente após o parricídio de 2015 - virou uma persona política mais e mais frequentável. E, portanto, não foi ao acaso que ela esteve presente no segundo turno das presidenciais francesas de 2017 e 2022 com francas possibilidades, sobretudo em 2022, de galardoar, frente ao seu oponente Emmanuel Macron (Fottorino, 2019; Jeanneney, 2017).
A extrema-direita francesa, como se vê, corresponde a mais de 200 anos de existência, tendo no cinquentenário Front National, tornado Rassemblement National, a sua expressão mais consistente.
Isso tudo informa lastros de passado e de história inquestionáveis. Um passado adensado em batalhas e derrotas. Aprendizados e superação. Um passado de traumas que não passam; mas, em contrário, se agigantam. Um passado de tentações autoritárias transvestidas em interesses nacionalistas desprovidos de verdadeiro interesse nacional. Um passado de extremos. Da própria “era dos extremos”. Era essa diante da qual dever-se-ia reabilitar a sério o never more. Uma era perdida na história do século XX que, em lugar de intermitência, deveria ser, efetivamente, sepultada como o passado de uma ilusão.
Ainda não se consegue antever o futuro da extrema-direita na França. A cada eleição que passa, os ideais extremistas do partido vão seduzindo mais e mais. No último pleito legislativo francês, por exemplo, o partido de Marine Le Pen conquistou a marca histórica de 49 deputados eleitos.
Ainda não se consegue mensurar a força nem o poder da influência disso tudo sobre as tendências extremistas à direita florescentes no mundo inteiro.
O que se pode constatar é que nada indica que a extrema-direita francesa esteja às voltas de desandar, desatar, desaparecer. Ao contrário. É uma ilusão, se não com assegurado futuro, com incontestável devir.
Resta meditar, assim, sobre o futuro e sobre o devir dessa imensa ilusão: a extrema-direita francesa e suas consequências mundiais.
Muito se aproxima, no Brasil, o capitão Jair Messias Bolsonaro e o seu protomovimento bolsonarista a tendências de extrema-direita;3 e, mais exclusivamente, a esse modelo francês encarnado e protagonizado por Jean-Marie Le Pen e Marine Le Pen. A mesclagem do bolsonarismo ao olavismo tende a informar níveis de racionalidade que podem, talvez, indicar uma possível aproximação. Mas nada é muito claro. Nem justo. Tampouco consistente. E menos ainda historicamente verificável.
O bolsonarismo não é bem uma ideia. É eivado de extremismos. Mas não é bem uma extrema-direita. É habitado por crenças. Mas, talvez, crenças que não se constituam, ainda, em paixões. Ele, o bolsonarismo, é - se isso, de fato, for - mais a expressão de um desespero. O mesmo desespero - isso é necessário supor - que alimentou o choque francês de Jean-Marie Le Pen em 2002.
Os bolsonaristas são, nesse sentido, também hordas de desesperados enamorados de uma ilusão. A ilusão autoritária, transvestida em nacionalismo. “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”.
Mesmo após a presidência de seu campeão, o capitão, ainda é difícil de se dizer que o bolsonarismo tenha um verdadeiro passado. O movimento é incipiente demais para ter profundas lembranças de guerra e de paz. E memória verdadeiramente comum entre os seus simpatizantes para alimentarem sonhos intensamente iguais.
Da mesma forma, ainda é cedo demais para se tecer considerações sobre o seu futuro. Um futuro que - não se subestime - o bolsonarismo claramente possui. Com ou o sem os Bolsonaro.
A intermitência dessa ilusão chamada de bolsonarismo veio, portanto, também, para ficar.
Os abusos das tormentas brasilienses de 8 de janeiro de 2023 simplesmente demonstraram que, nessa ilusão, os bolsonaristas querem, adiante, efetivamente, tentar viver e sonhar. O que indica aos iludidos da bien-pensance e aos identitários sem moderação, que subestimam a força do bolsonarismo sob o pretexto de se tratar de uma simples ilusão, que aguardem os próximos incidentes análogos às tormentas brasilienses para, às margens de novas desesperações, voltar ao choque e ao espanto, para novamente sentar e chorar.
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Notas
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1
Coabitação é a prática política francesa de contemporização de perda de maioria parlamentar. Ocorreu, inicialmente, em 1986, quando o partido socialista do presidente François Mitterrand virou minoria no Parlamento após as eleições e, para se forjar governabilidade, convocou o líder da oposição que havia feito maioria para assumir o cargo de primeiro-ministro e ter autonomia quase integral para promover a indicação de ministros. Quase integral porque, pela Constituição promulgada pelo general Charles de Gaulle e vigente na Quinta República Francesa, o presidente da República possui o “domínio reservado” na indicação do responsável pelo Ministério da Defesa e do Exterior. Em 1986, portanto, formou maioria parlamentar o partido presidido pelo Maire de Paris, Jacques Chirac. De maneira que ele, Jacques Chirac, foi convocado para ser primeiro-ministro em coabitação da presidência de François Mitterrand. Com o sucesso eleitoral de François Mitterrand em disputa pela reeleição em 1988, a coabitação foi desfeita. Entretanto, em 1992, o seu partido socialista foi, novamente, minorado no Parlamento e, mais uma vez, pelo partido de Jacques Chirac, que, desta vez, para se guardar para a disputa presidencial de 1995, indicou, para a condição de primeiro-ministro em coabitação, o seu correligionário Édouard Balladur. Balladur foi primeiro-ministro em coabitação até o fim da presidência de François Mitterrand. Em 1997, sob a presidência de Jacques Chirac, o parlamento tendeu a ser minoritário ao encontro das intenções de governabilidade do governo. Diante disso, o secretário geral do Élysée - leia-se, da presidência da República francesa -, Dominique de Villepin, sugeriu ao presidente Jacques Chirac a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de novas eleições. No que o presidente da República anuiu. No entanto, do resultado das urnas emergiu uma maioria socialista que obrigou o presidente gaullista iniciar uma nova manobra de coabitação. O responsável pelo partido socialista em questão era o seu primeiro-secretário, Lionel Jospin; que, dessa forma, foi convocado para o posto de primeiro-ministro em coabitação na presidência de Jacques Chirac, mas com abertas aspirações de se tornar ele próprio, Lionel Jospin, presidente da república. De maneira que ele, Lionel Jospin, primeiro-ministro da presidência de Jacques Chirac, apresentou-se às presidenciais de 2002, à sombra de François Mitterrand, com possibilidades claras de sucesso eleitoral.
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2
Essa nova feição e versão do partido levou o historiador francês Marcel Gauchet a considerar que a transformação do Front National em Rassemblement National levou o movimento de extrema-direita a perder a sua natureza. Rassemblement National é um partido, normal e democrático, como os demais. Deixou para trás o peso de ser uma agremiação de extrema-direita. Com a sua emergência, a tendência de extrema-direita do Front National virou História. Mesmo que o partido siga extremista. Daí a distinção entre extrema-direita histórica - no caso, o Front National - e partido extremista - no caso, o Rassemblement National (Gauchet, 2021).
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3
Tratei das peculiaridades do bolsonarismo e de sua diferença das demais tendências mundiais de extrema-direita em “A razão bolsonarista” (12 de janeiro de 2023), “O significado do 8 de janeiro de 2023” (9 de janeiro de 2023), “De olhos bem abertos” (10 de janeiro de 2023), “A alma do bolsonarismo” (20 de janeiro de 2023). “Ainda Bolsonaro” (27 de janeiro de 2023), “Notícias do golpe” (8 de fevereiro de 2023) e “Razão bolsonarista é uma clara reação ao mal-estar intensificado pela pasmaceira do século XXI (20 de janeiro de 2023). A quem desejar se aprofundar ainda mais, duas leituras muito autorizadas sobre o assunto podem ser encontradas em Avritzer e Renno (2021) e Rennó, Avritzer e Carvalho (2021).
