Open-access Eleições em tempos de incerteza: a reconfiguração do sistema partidário brasileiro e o papel da disputa de 20261

RESUMO

As eleições nacionais de 2026 ocorrem em um momento sensível para o sistema partidário brasileiro, marcado pela incerteza derivada das transformações recentes do cenário político. Este artigo analisa como essas mudanças importam no contexto do frágil equilíbrio entre estabilidade partidária e representação democrática no Brasil. Dentre as alterações, destacam-se: a ascensão eleitoral da direita, os efeitos das reformas institucionais e a hegemonia eleitoral do PT. Partindo da literatura sobre sistemas partidários, argumenta-se que a estrutura partidária de competição eleitoral, que se organizava em torno da disputa presidencial e se alterou drasticamente em 2018, terá, em 2026, a oportunidade de iniciar uma reorganização. Sustenta-se que este pleito oferece um ponto de observação privilegiado da trajetória recente do sistema partidário brasileiro, tornando visíveis os limites e os espaços de reorganização partidária em democracias de baixa institucionalização.

PALAVRAS-CHAVE:
Sistema partidário; Eleições; Coordenação eleitoral; Mudança eleitoral; Ideologia

ABSTRACT

The 2026 national elections take place at a sensitive moment for the Brazilian party system, marked by uncertainty stemming from recent transformations in the political landscape. This article analyzes how these changes matter in the context of the fragile balance between party stability and democratic representation in Brazil. Among these changes, three stand out: the electoral rise of the right, the effects of institutional reforms, and the electoral hegemony of the Workers’ Party (PT). Drawing on the literature on party systems, the article argues that the party structure of electoral competition, which had been organized around the presidential contest and changed drastically in 2018, will have an opportunity to begin a process of reorganization in 2026. It contends that this election offers a privileged vantage point from which to observe the recent trajectory of the Brazilian party system, making visible both the limits and the possibilities of party reorganization in low-institutionalization democracies.

KEYWORDS:
Party system; Election; Electoral coordination; Electoral shift; Ideology

Introdução

As eleições nacionais de 2026 se aproximam em um contexto de incerteza incomum na política brasileira pós-1988. Para os cidadãos, trata-se de decidir quem conduzirá o país nos próximos anos; para a ciência política, o pleito permite observar como disputas eleitorais recentes continuam a reconfigurar a organização sistêmica dos partidos políticos e, por extensão, a própria dinâmica democrática no país. As fraturas recentes no sistema partidário brasileiro tornaram mais visíveis as tensões entre estabilidade institucional, competição eleitoral e representação política. Sob esses aspectos, a eleição de 2026 pode ser o primeiro passo para a reconfiguração de uma nova ordem do sistema partidário num futuro próximo.

Antes de tudo, é preciso considerar que os sistemas partidários ocupam um lugar central nas democracias representativas, pois estruturam a competição eleitoral e conferem previsibilidade ao jogo político. Quando consolidados, tendem a produzir resultados desejáveis ao reduzir a volatilidade, limitar a proliferação de candidaturas outsiders e oferecer aos eleitores referências claras para a escolha do voto. A interação recorrente entre os partidos e a interdependência de suas decisões geram sinais comparativos que funcionam como atalhos informacionais, reduzindo a incerteza e ampliando as condições para o controle democrático dos representantes. Embora se atribua tamanha importância a eles, a fragilidade dos sistemas partidários tornou-se um fenômeno recorrente em democracias ocidentais e latino-americanas desde o final do século passado, sendo o caso brasileiro um dos mais persistentes.

Apesar das características positivas de um sistema partidário institucionalizado, pesquisadores encontraram dificuldades para mensurá-lo de forma unidimensional e, além disso, perceberam que os partidos atuam como organizações multifacetadas, o que torna ainda mais complexa a avaliação empírica de um sistema formado por atores com dimensões díspares. Assim, parte da literatura limitou a análise apenas à estrutura da competição eleitoral e, com isso, observou que a competição no Brasil apresentou um padrão relativamente reconhecível de 1994 até meados da década de 2010. Embora existam críticas à interpretação de que havia um padrão estruturante, está claro que mesmo esse arranjo competitivo foi profundamente abalado. Desde 2018, a competição democrática passa por uma inflexão importante.

Há dois fatos que marcam essa alteração de padrão: o primeiro é a perda de centralidade eleitoral do PSDB, como um dos efeitos políticos da Operação Lava-Jato e de todo o movimento antipartidário que percorreu o país, a partir de 2013. O partido deixa de ser o oponente do PT na disputa pela Presidência, rompendo o duopólio característico do período 1994-2014. O segundo aspecto é a ascensão de forças eleitorais de extrema-direita, também fruto do contexto político de insatisfação dos eleitores. Esses aspectos não só levaram à vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas também implicaram uma alteração sistêmica cujos resultados ainda estão em aberto.

Assim, as eleições de 2026 assumem um caráter único, pois colocam os partidos diante de um contexto singular, que terá influência em suas trajetórias futuras e na própria estrutura de competição eleitoral no país. Três dinâmicas se entrelaçam nesse processo: a primeira é o surgimento de um eleitorado disposto a votar em candidatos que se declarem à direita do espectro político. Se havia uma “direita envergonhada”, ela agora assume relevância eleitoral, sem que haja um partido organizado para estruturar esse campo político. A segunda dinâmica é a dos constrangimentos impostos por regras eleitorais, que tendem a reduzir o número de partidos relevantes. As cláusulas de barreira implicam redução ainda maior no número de partidos que elegerão membros no parlamento e forçam as siglas a mudarem suas estratégias. Por fim, a terceira volta-se ao desafio de manutenção da hegemonia do Partido dos Trabalhadores sob a liderança de Lula, cuja próxima disputa presidencial provavelmente encerra um ciclo político.

O objetivo deste artigo é discutir essas três dinâmicas e sua importância na estruturação partidária da competição eleitoral a partir desta eleição. Para alcançar esse objetivo, o texto apresenta uma breve revisão teórica a respeito dos sistemas partidários e como a pesquisa desse tema se alterou, com o objetivo de avaliar o padrão de competição eleitoral. Em seguida, passa-se à revisão do debate nacional, em que é apresentada a interpretação sobre a estrutura competitiva nacional. A partir desse ponto, o artigo discute cada uma das dinâmicas destacadas, para, em seguida, apresentar dados da competição política recente que servem de contexto para tais efeitos. Por fim, uma seção de considerações finais conclui o artigo.

Relevância teórica dos sistemas partidários

Os sistemas partidários ocupam um lugar central na análise das democracias representativas porque estruturam a competição eleitoral, organizam as alternativas políticas disponíveis e condicionam o comportamento de eleitores e das elites (Sartori, 1976). Se consolidados, tendem a produzir resultados superiores ao reduzir a volatilidade eleitoral, limitar o lançamento de candidatos outsiders e fornecer referências para a decisão do voto. Um sistema partidário não se reduz, portanto, a um simples conjunto de partidos coexistindo em uma unidade política, mas refere-se ao padrão de interações entre esses partidos, às regras formais e informais que moldam sua competição e às restrições que delimitam suas estratégias. Nesse sentido, Bardi e Mair (2008) distinguem explicitamente conjuntos de partidos de sistemas propriamente ditos e propõem uma tipologia com três linhas analíticas centrais: a distinção entre simples conjuntos de partidos e sistemas propriamente ditos; a investigação sobre a existência de um ou múltiplos sistemas partidários em uma mesma unidade política, sejam eles territoriais ou funcionais; e a delimitação das fronteiras que separam o sistema partidário de outros subsistemas da vida política.

Tomando por base essa interpretação teórica, os sistemas partidários foram analisados quanto à sua institucionalização, como forma de captar seu grau de consolidação. Embora Sartori (1976) não tenha desenvolvido explicitamente esse conceito, sua obra forneceu os fundamentos para análises posteriores ao enfatizar padrões estáveis de competição. Esse esforço foi sistematizado sobretudo por Scott Mainwaring e coautores. De acordo com essa literatura, a institucionalização do sistema partidário se dá a partir de um conjunto de partidos interagindo de forma suficientemente padronizada para moldar as expectativas dos atores políticos sobre como o sistema político funciona. Originalmente, o conceito abrangia quatro dimensões distintas: a estabilidade das regras da competição, o enraizamento dos partidos na sociedade, a legitimidade dos atores e a força das organizações partidárias, tornando-o central para o estudo comparado das democracias.

A aplicação empírica da institucionalização do sistema partidário, no entanto, revelou dificuldades persistentes. Problemas de mensuração, ambiguidades conceituais e a sensibilidade dos indicadores a contextos específicos limitaram a comparabilidade sincrônica e diacrônica, tornando cada vez mais difícil sustentar seu uso como eixo analítico central.2 Por exemplo, Luna e Altman (2011) argumentam que essas dimensões não são necessariamente correlacionadas, o que permite que um sistema seja estável em sua competição eleitoral, mas careça de enraizamento social ou legitimidade, como observado nos casos do Chile e da Venezuela. Essas limitações levaram a busca por alternativas analíticas que captassem mudanças relevantes na dinâmica partidária, sem depender de medidas excessivamente agregadas ou normativas.

Uma dessas alternativas foi o deslocamento analítico para a noção de “estrutura da competição” (Mair, 1997). Peter Mair define a estrutura da competição partidária como o elemento central que permite caracterizar e distinguir a sistematicidade de um conjunto de partidos. Para o autor, o cerne de todo sistema partidário está especificamente na estrutura da competição voltada ao controle do Poder Executivo nacional. Essa definição foca nas propriedades que emergem da interação entre as legendas eleitorais ao longo da sequência das eleições. A estrutura proposta por Mair é avaliada com base em três componentes principais: o padrão observado de alternância no governo, a fórmula governamental empregada nos processos de formação de gabinetes e a identificação dos partidos que efetivamente participam da gestão. Com base nesses critérios, o autor diferencia os sistemas em estruturas de competição abertas ou fechadas. Uma estrutura fechada apresenta alternância previsível, governos geralmente unipartidários e atores políticos bem definidos, enquanto uma estrutura aberta carece dessa previsibilidade, tornando incerto o padrão de alternância ou a composição do futuro governo. Portanto, a consolidação do sistema partidário está diretamente ligada à estabilidade e à inteligibilidade desse padrão de competição pelo controle do governo. Quando os atores e suas estratégias de aliança se tornam previsíveis para o eleitor e para os próprios políticos, o sistema deixa de ser um conjunto incoerente de legendas para adquirir uma estrutura sistêmica propriamente dita.

Há um ponto teórico importante para essa discussão, associado aos estudos dos partidos individualmente. O momento eleitoral é central tanto para a análise da competição política quanto para a dinâmica interna dos partidos, pois é nele que se tornam visíveis padrões de disputa e onde as organizações avaliam a eficácia de suas estratégias. As eleições afetam a dimensão organizacional dos partidos, que vai além do objetivo imediato de conquistar o governo (Panebianco, 2005). Os resultados eleitorais são decisivos para o equilíbrio de poder no interior da organização partidária. A vitória assegura acesso a recursos externos e a cargos públicos, que funcionam como incentivos seletivos à manutenção da lealdade de militantes e quadros, enquanto a derrota restringe esses recursos, fragiliza a liderança e pode abrir espaço para a contestação interna. Além disso, as eleições tornam visível o controle das chamadas zonas de incerteza organizacional, valorizando competências especializadas, como a condução de campanhas e o marketing político, e atribuem à seleção de candidatos um papel estratégico na construção da coesão e da disciplina partidária (Panebianco, 2005, p.41-64). Nesse sentido, o desempenho eleitoral funciona como informação importante sobre as estratégias a serem adotadas no futuro e sobre sua autonomia ante o ambiente político. As disputas eleitorais orientam os partidos em suas decisões estratégicas, o que ocorre em um ambiente sistêmico. Como exemplo, se um partido está consistentemente concorrendo à disputa presidencial e obtém sucesso com essa estratégia (como ir para o segundo turno), outros partidos terão ações restringidas nessa direção pelo efeito mecânico do sistema eleitoral (Duverger, 1970).

Então, em suma, esse mesmo movimento teórico ocorreu nas análises sobre o caso brasileiro: abandonou-se a discussão sobre a institucionalização do sistema partidário (Carreirão, 2014) e o foco se deslocou para a competição eleitoral em si e para a compreensão da ação coordenada dos partidos na disputa eleitoral (p.ex., Tarouco, 2010; Braga, 2010). O detalhamento dessa interpretação está na próxima seção.

A interpretação sobre o sistema partidário brasileiro pós-1988

A estrutura de competição tornou-se central para a avaliação do caso brasileiro, pois acredita-se que o conceito de institucionalização tradicional falha por não captar a estabilidade sistêmica consolidada após 1994. Embora o sistema brasileiro apresente baixa identificação partidária e alta volatilidade em certas arenas, o que indicaria baixa institucionalização, ele teria adquirido uma estrutura de competição estável na arena presidencial (Tarouco, 2010; Braga, 2010).

Nessa perspectiva, o sistema partidário brasileiro caracterizava-se por uma fragmentação legislativa que coexistia com um padrão de competição amarrado pelas eleições presidenciais. A estabilidade resultava de uma lógica bipolar entre PT e PSDB, organizada em três blocos: centro-esquerda, centro-direita e um bloco pivotal (PMDB, PP, PTB) (Melo; Camara, 2012). A lógica dos “jogos aninhados” garantia a coordenação entre as arenas nacional, estadual e legislativa, influenciando as estratégias dos partidos. A divisão PT-PSDB moldava disputas subnacionais, enquanto o PMDB focava em ampliar sua força local para manter-se central no presidencialismo de coalizão (Melo, 2010). A coordenação das eleições estaduais era compreendida como o meio que integrava essas arenas; a clivagem nacional PT-PSDB ditava o ritmo das disputas subnacionais, levando os partidos líderes a sacrificarem sua expansão regional, muitas vezes retirando candidatos competitivos ao governo estadual, para apoiar aliados em troca de sustentação no palanque presidencial (Limongi; Cortez, 2010).

Essa coordenação no nível subnacional também era adotada por partidos que não almejavam a vitória da Presidência. Algumas agremiações priorizavam as disputas para governador e utilizavam essas bases para eleger bancadas federais, conseguindo nacionalizar sua votação de forma horizontal, mesmo sem uma candidatura presidencial viável (Borges, 2015; 2019). Esse processo de barganha em torno das eleições estaduais acabava por impulsionar o desempenho eleitoral das legendas menores e reduzir os ganhos dos partidos majoritários na Câmara, tornando a fragmentação um subproduto endógeno do próprio sistema de coalizões brasileiro. Enquanto o PT e o PSDB adotavam uma estratégia de “presidencialização” para nacionalizar suas siglas, o PMDB focava na “provincialização nacional”, utilizando sua força nas disputas subnacionais para eleger bancadas federais expressivas e manter-se como ator central no controle de cargos federais (Borges, 2015). Ou seja, por um lado, havia uma estruturação a partir da disputa presidencial entre PT e PSDB, tornando-os polos dos acordos políticos nas demais disputas subnacionais. Por outro, havia espaço para que outras estratégias fossem adotadas, que resultariam na crescente fragmentação do sistema partidário. A coordenação não implicava a redução do número de partidos3 e ainda as coligações representavam um viés pró-partidos menores (Calvo; Guarnieri; Limongi, 2015). Esse contexto abria espaço para críticas sobre o otimismo da consolidação da disputa eleitoral no país. Por exemplo, embora reconheça sinais de estruturação, Carreirão (2014) sustenta que havia evidências relevantes de instabilidade, indicando que a disputa presidencial não organizava o sistema de forma tão robusta quanto sugerido. Haveria um descolamento persistente entre a arena presidencial e as dinâmicas estaduais e legislativas, acompanhado pela perda de centralidade da ideologia como fator estruturante da competição. Esse quadro se refletia em níveis elevados de volatilidade eleitoral fora da disputa presidencial, especialmente para cargos como governador e senador, bem como no crescimento contínuo da fragmentação partidária na Câmara dos Deputados e na criação recorrente de novas siglas, indicando uma oferta partidária instável por parte das elites políticas. O autor também questionava a capacidade de a eleição presidencial funcionar como ponto de coordenação do sistema ao mostrar o aumento das coligações inconsistentes no nível subnacional. Esse padrão reforçava a ideia de que a coordenação sistêmica era limitada.

Em suma, enquanto um grupo enfatizava a capacidade da disputa presidencial de integrar estrategicamente as arenas nacional e estadual, destacando o aninhamento entre os jogos disputados em diferentes níveis federativos (Melo, 2010; Melo; Camara, 2012; e Limongi; Cortez, 2010), também se observava que essa coordenação se restringia a um núcleo reduzido de aliados de PT e PSDB, sendo insuficiente para explicar o comportamento da maioria dos partidos, cuja atuação permanecia fortemente orientada por lógicas locais e pragmáticas (Carreirão, 2014; Borges, 2019).

Em última instância, a colocação de Melo e Camara (2012, p.81) sintetiza a interpretação possível a respeito do sistema partidário nacional:

[...] a melhor aposta para o sistema partidário brasileiro parece ser um quadro em que uma competição estruturada entre dois blocos não muito distantes do ponto de vista ideológico conviva com um quadro de baixa legitimidade dos partidos e de fluidez nas relações entre estes e os eleitores.

Uma série de eventos, porém, desestabilizou o que havia de estruturado na competição no nível presidencial e essa aposta foi perdida. Começando nas jornadas de junho/2013, passando pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, o movimento contra políticos promovido pela Lava Jato, tudo isso culmina em uma mudança acentuada em 2018 que nem o próprio sistema político conseguia prever.4 Novamente, como em 1989, um partido pequeno elege um suposto outsider como presidente da República. Jair Bolsonaro (PSL) disputa e vence o segundo turno contra Fernando Haddad (PT), quebrando o ciclo que organizava o sistema até ali. Encerram-se vinte anos de competição PT-PSDB pela presidência.

O que torna ainda mais dramática a mudança está no fato de que, durante seu mandato, Bolsonaro não atuou de forma a participar de uma nova estruturação da competição partidária: se indispôs publicamente com Gustavo Bebianno, vice-presidente do PSL e também ministro da Casa-Civil de seu governo, levando-o a abandonar a sigla logo depois. Permanece sem partido por longo tempo; tenta criar um, mas não consegue. Ao final, concorre a reeleição em 2022 pelo PL.5 A consequência disso é que o sistema partidário não caminhou para o surgimento de uma sigla que ocupasse o lugar do PSDB. Após seu governo, o centro de gravitação do seu poder eleitoral parece estar em torno do bolsonarismo, que se associa à figura pessoal de Jair Bolsonaro e de sua família próxima, sem qualquer legenda reconhecidamente vinculada.

Assim, para além da compreensão necessária das causas da ascensão deste movimento político que surpreendeu a todos (p.ex., Rocha, 2021; Lynch; Cassimiro, 2022), há um aspecto importante: esse movimento despertou a direita eleitoral que será central na eleição de 2026. Nessa disputa, espera-se que esse eleitorado seja alvo do opositor ao candidato petista. Se, por um lado, há poucas dúvidas de que Lula buscará um quarto mandato, por outro, não é possível afirmar quem será seu antagonista. No início de 2026, acredita-se que o candidato que mobilizar aquele eleitorado em seu favor, seja da família Bolsonaro (como o senador Flávio Bolsonaro), seja outro político desse grupo (como o governador Tarcísio de Freitas), terá chances reais de ir ao segundo turno. Há legendas candidatas a hospedarem os principais nomes em torno dessa disputa. E tudo isso ocorre em meio às novas regras que visam a diminuição do número de partidos em nosso sistema eleitoral. São esses fatores que merecem atenção na disputa em 2026.

Fatores que estruturarão a competição eleitoral brasileira

A ascensão eleitoral da direita

A surpreendente eleição de Jair Bolsonaro como presidente da República em 2018 gerou um evento transformador que precisava ser explicado. Se os políticos não esperavam por essa possibilidade em 2017, a ciência política estava ainda mais atrás. Mas o campo teórico avançou: o líder carismático deu nome ao fenômeno social mais amplo e o bolsonarismo ganhou definição (Kaysel; Bianchi, 2025; Lynch; Cassimiro, 2022); diversos olhares nas ciências sociais em geral buscaram compreender suas características e os motivos para sua rápida conformação e seus efeitos eleitorais (p.ex., Rennó, 2022). Porém, uma dimensão ainda pouco explorada reside no fato de que esse movimento social teve consequências além dos votos em Bolsonaro. Ele permitiu que a disputa eleitoral incorporasse candidatos que explicitamente se declarassem como “de direita”.6

Desde a pós-democratização, a interpretação política corrente era a de que declarar-se político à direita não traria votos. Pierucci (1987, p.36) cunha o termo “direita envergonhada” para se referir a esse fenômeno e é claro ao enfatizar: “A direita não diz seu nome” (ibidem, p.37). Esse posicionamento é claro também para os políticos. Em entrevista recente, Ronaldo Caiado afirma que, apesar de sua longa atuação política nesse campo, dizer-se de direita em 1986 era “palavrão” (Galzo, 2024). Essa expressão vai ser usada também por Rodrigo Garcia, ex-governador de São Paulo, ao tratar das eleições de 2026 (Venceslau; Duran, 2025). Porém, hoje, os políticos discutem abertamente a respeito de como a direita deve se organizar para a eleição de 2026 e sobre quem será seu candidato à presidência. Essa mudança foi acompanhada de uma alteração no posicionamento do próprio eleitorado. Segundo pesquisas de opinião, eleitores atualmente se identificam, grosseiramente, em três grupos de aproximadamente o mesmo tamanho: um terço à direita, um terço à esquerda e um terço ao centro (Quaest, 2026). Inclusive, há uma série de trabalhos que procuram demonstrar como as preferências do eleitor teriam se deslocado para a direita a partir de 2018 (p.ex., Layton et al., 2021).

Houve, portanto, a incorporação explícita de uma designação pelos próprios atores políticos: se antes, políticos à direita, como Paulo Maluf, se declaravam publicamente de centro (Pierucci, 1987, p.37), agora é termo usual no contexto eleitoral nacional, seguido da autocorrespondência pelo eleitorado no mesmo sentido. A disputa entre PT-PSDB não era realizada nesses termos. A classificação como direita ao partido tucano não era feita por eles próprios, mas apenas por analistas ou por seus opositores. A mudança recente no discurso político é clara.

Esse fenômeno de alteração da própria identidade partidária entre políticos não é exclusivo do Brasil. Zucco e Power (2025), por exemplo, avaliam o contexto da América Latina de retomada democrática após regimes autoritários associados à direita no século XX, em que políticos à direita negaram seu posicionamento ideológico. Os autores argumentam que esse comportamento decorre tanto de legados autoritários, que tornam custosa a associação explícita a regimes passados, quanto de fatores estruturais, como a impopularidade de políticas econômicas em contextos de elevada desigualdade. No Brasil, esse comportamento foi mais intenso entre parlamentares com vínculos diretos com o regime militar. Recentemente, os autores identificam um declínio da ofuscação na autoidentificação dentre parlamentares, associado à substituição geracional e à emergência de uma direita mais explícita em suas posições, o que amplia a clareza ideológica da representação. No Brasil, o bolsonarismo promoveu essa mudança.

Com Bolsonaro impedido de concorrer, ainda estão abertas a escolha do candidato e o arranjo que os partidos desse campo farão. Não é possível antecipar se será um candidato único ou mais de um, nem quais alianças serão feitas entre os partidos. Mas a disputa de 2026 será significativa para a organização desse campo político, no qual agora há eleitores explicitamente identificados.

As mudanças nas regras eleitorais

Como segundo fator relevante, há algumas modificações institucionais. Ao longo dos últimos anos, as regras eleitorais foram alteradas para reduzir o número de partidos no país. A principal mudança nessa direção, a Emenda Constitucional 97/2017,7 instituiu uma cláusula de desempenho com critérios graduais para restringir o acesso dos partidos ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda em rádio e televisão. Um critério gradual ao longo das eleições começou a valer a partir de 2019: passaram a ter direito a esses recursos os partidos que elegeram 9 deputados federais distribuídos em 9 unidades da federação (um terço) ou que obtiveram ao menos 1,5% dos votos válidos nas eleições de 2018 para a Câmara dos Deputados, com um mínimo de 1% dos votos válidos em cada um daqueles distritos. As exigências aumentam até que, nas eleições de 2030, a cláusula aplicável a partir de 2031 exige a eleição de 15 deputados federais ou o patamar de 3% dos votos válidos nacionais, com 2% em cada, ambos distribuídos em pelo menos 9 unidades da federação. Além disso, há ainda uma avaliação do desempenho individual dos candidatos: são passíveis de serem eleitos apenas indivíduos que atingirem ao menos 10% do quociente eleitoral de seu estado.8 Adicionalmente, a reforma extinguiu as coligações partidárias nas eleições proporcionais a partir do pleito de 2018. Com essa mudança, os partidos deixaram de somar votos para a distribuição de cadeiras no legislativo, eliminando o mecanismo pelo qual partidos com votação expressiva ampliavam a representação de legendas com baixo desempenho eleitoral. A junção de siglas deve ser estável ao longo dos mandatos, em formato de federações partidárias. A combinação entre a cláusula de desempenho e o fim das coligações proporcionais busca reduzir a fragmentação partidária e alterar os incentivos estratégicos das elites políticas, concentrando o acesso a recursos institucionais em partidos com maior capilaridade eleitoral.

Além disso, cabe dizer que houve também modificações nas regras de financiamento eleitoral desde 2016. As campanhas não podem mais receber recursos de pessoas jurídicas, apenas de pessoas físicas e de recursos públicos que, a partir de 2017, passaram a ser organizados no Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). Essas mudanças levam à centralização da maior parte dos recursos pelas lideranças partidárias e, assim, a uma atuação estratégica mais coordenada (Fisch; Mesquita, 2022, p.48).

Essas alterações modificam os critérios de elaboração das estratégias partidárias que, agora, precisam enfatizar mais a disputa legislativa. O desempenho eleitoral para deputado federal teve maior consequência. E os recursos financeiros públicos estão concentrados nas mãos das elites partidárias: os maiores partidos recebem mais recursos dos fundos públicos. As estratégias partidárias precisam dar conta dessas modificações, mas espera-se que o número de partidos que obtêm assento no Parlamento federal, de fato, se reduza. Esse conjunto de mudanças de regras coincide com o período de ruptura da competição eleitoral apresentada aqui. A sua implementação gradual começa a ter efeitos em 2022. A próxima eleição sofrerá as consequências delas, afetando as estratégias dos partidos.

A hegemonia petista na estrutura de competição

Por fim, o terceiro fator relevante da próxima eleição está associado ao Partido dos Trabalhadores. Como apresentado, o PT tornou-se um dos polos da disputa eleitoral no país a partir de 1994. Um caso atípico de partido de massas na América Latina, despertou muito interesse da academia. Por isso, há uma extensa série de trabalhos sobre sua origem e trajetória (Em Weller e Limongi (2024) há uma síntese dessa literatura). O ponto de interesse é que 2026 deve marcar o fim de um longo ciclo do partido. A despeito do resultado da eleição, essa deve ser uma das últimas disputas de Lula. A trajetória do partido confundiu-se com a de seu líder do ponto de vista histórico. Ainda que se identifique certo distanciamento entre as motivações dos eleitores na opção pelo voto nesse partido (a ponto de existir o conceito de lulismo (Singer, 2012), não é claro qual será seu futuro eleitoral. Lula foi o candidato petista em todas as eleições entre 1989 e 2006 e, novamente, em 2022. Ou seja, foi candidato sempre que possível. Ademais, a vitória de Dilma Rousseff em 2010 deve muito à elevada aprovação de seu segundo mandato. Nesse sentido, a capacidade de ocupar o lugar central de articulação eleitoral do sistema partidário passava pela sua posição como candidato à Presidência. Além disso, a vitória de Dilma em 2014 por pequena margem, o impeachment em 2016 e a baixa votação de Fernando Haddad em 20189 sugerem que haverá resistência dos eleitores a substituí-lo (Singer, 2018). Os nomes alternativos a Lula lançados pelo partido tiveram desempenhos pouco animadores. Atualmente, não há alternativa clara a Lula. Ademais, o resultado eleitoral em 2022 mostra o esforço para vencer e, por conseguinte, implica menor capacidade de barganha na formação de alianças. A aprovação do presidente não é elevada e, mesmo como incumbente, a disputa de 2026 está claramente aberta.

Por outro lado, a manutenção da posição petista como um dos polos a organizar o sistema depende da sua capacidade de articular o campo eleitoral da centro-esquerda. Se o poder de barganha é relativamente menor pela margem apertada de 2022, a identificação partidária em torno da sigla é um ponto a favor. Mas a falta de eventuais nomes competitivos no PT para o futuro cria um contexto em que as demais legendas deste campo ideológico, tradicionais aliadas, podem almejar ser as herdeiras eleitorais. Nesse sentido, podem usar 2026 como primeiro passo visando disputas futuras, aglutinando-se apenas no segundo turno, por exemplo, ou articulando alianças estaduais diferentes.

As três forças indicadas nesta seção devem ser cotejadas em seus efeitos à luz do contexto eleitoral recente. Os dados da próxima seção contribuem neste sentido.

Dados sobre a competição recente

A fim de avaliar o contexto em que os fatores apontados operarão, esta seção apresenta dois conjuntos de dados. O primeiro refere-se à evolução da votação para os cargos de deputado federal por campo ideológico. O segundo volta-se à formação das coligações eleitorais subnacionais em 2022. Ambos possibilitam vislumbrar o contexto de ação para as elites políticas do país.

Evolução das eleições para deputado federal

Se a competição eleitoral estava organizada em termos da disputa presidencial e o mesmo não acontecia para os postos legislativos, uma análise mais detida da distribuição ideológica desses votos ajuda a revelar o contexto eleitoral recente. Para isso, os partidos foram classificados em apenas três grupos ideológicos - Direita, Centro e Esquerda - a partir da percepção das próprias elites políticas. A divisão dos partidos em ideologia seguiu o trabalho de Zucco e Power (2024). Para cada uma das classificações apresentadas pelos autores, associaram-se os valores estimados à eleição do ano subsequente (a onda de 1997 se vinculou à eleição de 1998, a de 2001 à de 2002 e, assim, sucessivamente). A escala estimada de -1 a 1 foi dividida em três grupos simétricos para representar cada campo.10 No anexo está a classificação final de cada partido em cada grupo.

A menção mais importante nessa classificação é a trajetória do PSDB. Partido que, em sua fundação, se reconhece como de centro-esquerda (correspondente com valor de ideologia estimado de -0,309 em 1990) se desloca para a direita, até atingir valor igual a 0,477 em 2017, único momento da série em que se classifica como um partido à direita. Como na análise iniciada aqui parte-se dos dados de 1998, em todas as demais classificações, é tido como um partido de Centro.11 A sua classificação torna-se um ponto-chave da análise. Afinal, a sua prevalência como partido organizador da disputa eleitoral, a partir da oposição ao PT à Presidência, não era suficiente para que o partido adotasse uma postura típica à direita. Claramente, o partido se desloca nessa direção, mas há um conjunto de outros partidos relevantes que ocupam este espaço do espectro político.

Isso importa porque, como se vê na Figura 1, o percentual de voto para deputado federal entre os grupos é mais ou menos do mesmo tamanho, notadamente em 2002 e 2006. Já nos anos de 2010 e 2014 são aqueles em que o centro infla e a direita atinge o valor mínimo ao longo da série de votação. Ademais, a Figura 1 revela um comportamento ainda mais interessante. Até 2014, nenhum dos grupos, de fato, conseguia se sobrepor aos demais. A partir de 2018, porém, esse padrão muda. Os partidos à direita obtêm a maioria dos votos. Esse movimento é bastante claro e mudanças na classificação de partidos na margem dos espectros não alteram a interpretação ocorrida em 18 e 22. O crescimento da votação é sensível em prol dos partidos à direita, apesar de acompanhado da derrocada do PSDB em 2018.12

Esse dado reforça a interpretação da mudança nas eleições em favor da direita. Mas quais seus efeitos sob o ponto de vista do sistema partidário brasileiro? A Figura 2 ajuda a compreender o fenômeno por meio do número de partidos efetivos por ideologia, construído com base no resultado eleitoral para deputado federal em todo o país.

Como é conhecido, o número total (NPE-G) cresce sistematicamente até a eleição de 2018, momento em que as alterações de regra já produzem os efeitos restritivos. Estas já geram efeitos na eleição de 2022, quando o número se aproxima do de 2010. Porém, destaca-se como esse valor se comporta em cada um dos grupos ideológicos.

Figura 1
Porcentagem de votos para deputado federal por ideologia.

Figura 2
Número de partidos efetivos para deputado federal por ideologia.

A esquerda apresenta praticamente três partidos efetivos ao longo de todo o período. A Tabela 1 mostra que o PT lidera esse grupo, obtendo entre 43% e 53% dos votos para deputado federal ao longo da série. Os outros dois partidos que compõem esse quadro são PSB e PDT, até 2014, quando o Psol alcança a 3ª maior votação entre as legendas da esquerda nas duas eleições seguintes.13 Eles obtêm entre 13% e 23% dos votos da esquerda. Apesar de todas as crises que passou durante o tempo em que esteve na presidência, o PT foi capaz de mobilizar o voto desse campo e se colocar como o partido protagonista eleitoral da esquerda brasileira.

Tabela 1
Participação relativa dos partidos de esquerda nos votos para deputado federal por ideologia

Já para a direita, não há movimento semelhante. O número de partidos efetivos observado é pouco maior já no início da série e permanece assim em praticamente todo o período. Como se pode ver na Figura 2, o número de partidos nesse grupo inicia com 3,6 em 1998, chega a 5,0 em 2006, e atinge alta de 7,0 em 2014, apesar de o percentual de votação não crescer nesse período. Já em 2018, quando o percentual de votação atinge seu máximo, o número de partidos também se eleva ao ponto mais alto da série: 8,8 partidos efetivos. Em 2022, revertendo esta tendência, o indicador retoma valor próximo ao de 2006.

Tabela 2
Participação relativa dos partidos de direita nos votos para deputado federal por ideologia

Esses dados reforçam a ideia de que não houve, à direita, um partido capaz de consolidar esse campo eleitoralmente. Não houve quem produzisse o mesmo efeito que o PT produziu à esquerda. A Tabela 2 mostra que, até 2010, o PFL/DEM tinha destaque eleitoral, mas que diminuiu ao longo do tempo. Em 1998, o partido obteve percentual similar ao petista na votação nos partidos à direita: 42,5% dos votos. Esse número declina até 2010 para apenas 33,3%. Já nas duas eleições seguintes, não está entre as quatro legendas de maior votação à direita. Apenas em 2022, outra sigla, o PL, é capaz de obter votação semelhante. Vale mencionar também que o elevado número de partidos efetivos em 2014 e 2018 decorre da pulverização da votação entre os partidos. Na Tabela 2 nota-se que os quatro principais obtêm, respectivamente, 68% e apenas 52% da votação, o menor valor total da série. Isso indica que, já em 2014 e, mais fortemente, em 2018, a votação se deu em uma miríade de siglas e, apenas em 2022, ela se agrupou em torno das principais: PL, União Brasil, PP e Republicanos. Espera-se que essas quatro tenham atuação destacada nesta eleição.

As coligações em 2022

Por fim, os dados das coligações refletem o resultado do esforço de coordenação das elites políticas brasileiras. As eleições de 2022 tiveram um caráter excepcional: se deram entre dois presidentes, um em exercício e outro como desafiante. Havia, portanto, razões para que a elite política antecipasse a disputa em torno desses nomes e os partidos se aglutinassem ao redor dessas duas forças. Do lado de Lula, a federação partidária da qual o PT faz parte, junto com PC do B e PV, formou coligação com Solidariedade, Psol, Rede, PSB, Agir, Avante e Pros. Do lado de Bolsonaro, o PL formou coligação com o PP e o Republicanos. As demais legendas lançaram candidatos próprios, com apenas mais uma candidatura formando coligação, a de Simone Tebet, formada pelo MDB, a federação PSDB-Cidadania e o Podemos. Essa composição de forças sugere que a elite política, mais uma vez, não priorizou a conformação ideológica e que a direita esteve mais pulverizada do que a esquerda. De certa forma, os partidos de centro e de direita mediram forças nas urnas.

Vale destacar como essa organização, no âmbito nacional, se refletiu nas disputas nos estados. Se o sistema se estruturava em torno da disputa pela presidência, seriam possíveis alguns movimentos nesse sentido. A Tabela 3 apresenta como os partidos que estiveram nas coligações à presidência se distribuíram nas disputas pelos governos estaduais.

Em cada linha dessa Tabela 3 estão os partidos, considerando sua posição como cabeça de chapa na disputa pelo governo. Nas colunas, a sua adesão ou não a uma candidatura de outro partido. A diagonal principal da tabela indica o número de estados em que o partido lançou candidato ao governo estadual. Então, na primeira linha, vemos o Psol, que lançou 21 candidaturas a governos estaduais no país. Em apenas uma delas, no Espírito Santo, teve o Solidariedade em sua chapa. Já na última linha, vemos que o PL lançou 12 candidaturas aos governos estaduais. Na sua candidatura no Rio de Janeiro, o Solidariedade, o MDB e o Republicanos participaram da coligação. Esse último ainda se coligou ao PL em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. As cores indicam as coligações nacionais: o laranja para a de Lula, o azul para a de Tebet, e o verde para a de Bolsonaro. Em cinza, estão indicadas as áreas em que as coligações estaduais cruzaram as fronteiras das presidenciais. Essa tabela nos mostra um resultado interessante: nos 17 casos em que os partidos apoiadores de Bolsonaro lançaram candidatos aos governos estaduais, em apenas dois, um partido de coligação de Lula participou da coligação estadual: o Solidariedade, no Tocantins e no Rio de Janeiro. Em todas as outras campanhas, agruparam-se apenas os partidos da mesma coligação nacional ou daqueles que participaram da chapa de Simone Tebet. Porém, quando a cabeça de chapa era um partido da coligação nacional de Lula, os partidos de apoio a Bolsonaro integraram as alianças estaduais. Ademais, esses dados sugerem que a indisciplina de alianças permaneceu como tônica. Psol e, em menor grau, o PL foram aqueles menos afeitos a aceitar a participação de outras legendas em suas candidaturas e também a integrar coligações com outros partidos. Para os demais, prevaleceu uma lógica mais localizada a despeito da nacional.

Tabela 3
Coligações nas eleições para Governador - Partidos selecionados

Vale mencionar que em 2014 apenas nove partidos elegeram os governadores dos estados: MDB (7), PSDB e PT (5) e PSB (3) se destacaram. Porém, em 2018 e em 2022, foram 12 partidos a elegerem os governadores e apenas o DEM em 2018 elegeu 5. Todos os outros partidos elegeram no máximo 4. A desestruturação da disputa presidencial levou à pulverização nos resultados estaduais também. A Tabela 4 mostra essa dispersão das candidaturas e das coligações nos estados entre 2014, uma eleição ainda coordenada, até a de 2022.

Claramente, vê-se o aumento do número de partidos que lançam candidaturas nos estados e a redução no número de coligações. Esses dados sugerem que se reduziu a capacidade de coordenação das eleições nos estados em relação da disputa nacional. E é nesse contexto recente que a eleição de 2026 ocorrerá.

Tabela 4
Número de candidaturas e tamanho médio de coligação nas disputas estaduais - 2014 a 2022

Considerações finais

A eleição de 2026 pode assumir um caráter de início de reorganização do sistema partidário brasileiro. Depois da desestruturação da coordenação que prevaleceu até 2014, essa disputa tem condições de servir como a primeira na retomada de uma lógica em que a disputa presidencial dita os acordos estaduais, como foi a de 1994.

Em 1989, a disputa PT-PDT deu início à hegemonia petista no campo da esquerda, dando ao partido a liderança. Com o surgimento de um eleitorado com claro apelo à direita a partir de 2022, um movimento semelhante pode ocorrer entre as siglas desse campo. Neste momento, o PL com Flávio Bolsonaro sai na frente, tendo o PSD, ao centro, com Ronaldo Caiado, um outro partido a tentar tomar posição mais clara. As pesquisas de opinião fornecerão insumos para que as candidaturas se arrisquem e as alianças se formem, em uma típica coordenação duvergeriana. Elas se refletirão, em alguma medida, nas alianças estaduais que os partidos firmarão. É improvável que a coordenação já se torne clara neste momento. Quanto maior a incerteza da aliança, maior a disposição dos partidos de lançar chapas próprias. A eleição de 2026 servirá de ponto de partida para uma eventual estruturação, inclusive com base no resultado obtido e na avaliação interna de cada uma das legendas.

Ao mesmo tempo, a necessidade de buscar votos para a vaga de deputado federal tornou-se fundamental. Esses incentivos são recentes e também alteram as disposições para as alianças no geral, ainda mais em um contexto em que os recursos estão centralizados nas mãos dos partidos: lançar um candidato ao governo estadual tem de fazer sentido para a votação geral do partido também no cargo de deputado. Os efeitos dos palanques conjuntos se tornam ainda mais sensíveis.

A estruturação da competição eleitoral em um sistema partidário ocorre ao longo do tempo. Os efeitos apontados aqui moldarão a ação das legendas nesta eleição. A partir dessa interação e dos resultados obtidos, ela tem a chance de se desdobrar em efeitos estruturantes nas eleições subsequentes. A eleição de 2026 é, assim, um momento importante em que o sistema partidário pode se apoiar nas futuras disputas eleitorais no país.

Referências

  • BARDI, L.; MAIR, P. The parameters of party systems. Party Politics, v.14, p.146-66, 2008. doi: 10.1177/1354068807085887.
  • BORGES, A. Nacionalização partidária e estratégias eleitorais no presidencialismo de coalizão. Dados, n.58.3, p.651-88, 2015.
  • _______. Razões da fragmentação: coligações e estratégias partidárias na presença de eleições majoritárias e proporcionais simultâneas. Dados , n.62.3, e20170223, 2019.
  • BRAGA, M. d. S. Eleições e democracia no Brasil: a caminho de partidos e sistema partidário institucionalizados. Revista Brasileira de Ciência Política, 2010.
  • CALVO, E.; GUARNIERI, F.; LIMONGI, F. Why coalitions? Party system fragmentation, small party bias, and preferential vote in Brazil. Electoral Studies, v.39, p.219-29, 2015.
  • CÂMARA, L. M. de A. Coordenação pré-eleitoral e fragmentação partidária no Brasil (1998-2018) São Paulo, 2023. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.
  • CARREIRÃO, Y. O sistema partidário brasileiro: um debate com a literatura recente. Revista Brasileira de Ciência Política, 2014. doi: dx.doi.org/10.1590/0103-335220141410.
    » https://doi.org/10.1590/0103-335220141410
  • DUVERGER, M. Os partidos políticos Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
  • FISCH, A.; MESQUITA, L. Reformas eleitorais no Brasil contemporâneo: mudanças no sistema proporcional e de financiamento eleitoral. Estudos Avançados v.36, p.33-53, 2022.
  • FREITAS, A.; SILVA, G. P. da. Das manifestações de 2013 à eleição de 2018 no Brasil: buscando uma abordagem institucional. Novos estudos Cebrap, v.38, p.137-55, 2019.
  • GALZO, W. (2024). Estadão 2024. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/politica/caiado-diz-que-direita-nao-tem-dono-tem-que-moderar-para-ganhar-em-2026-e-critica-bolsonaro/?srsltid=AfmBOoosOP_hGU1zHFBhvIkG0Unq4rlwB1mzgx4MVQ8jcRjvS6ZXzrND>. Acesso em: 28 jan. 2026.
    » https://www.estadao.com.br/politica/caiado-diz-que-direita-nao-tem-dono-tem-que-moderar-para-ganhar-em-2026-e-critica-bolsonaro/?srsltid=AfmBOoosOP_hGU1zHFBhvIkG0Unq4rlwB1mzgx4MVQ8jcRjvS6ZXzrND
  • KAYSEL, A.; BIANCHI, A. Bolsonarismo como coalizão discursiva de extrema-direita”. Caderno CRH 38. 2025.
  • LAYTON, M. L. et al. Demographic polarization and the rise of the far right: Brazil’s 2018 presidential election. Research & Politics, n.8.1, p. 2053168021990204, 2021.
  • LIMONGI, F.; CORTEZ, R. As eleições de 2010 e o quadro partidário. Novos Estudos - Cebrap, 2010.
  • LUNA, J. P.; ALTMAN, D. Uprooted but stable: Chilean parties and the concept of party system institutionalization. Latin American Politics and Society, 2011.
  • LYNCH, C.; P. H. CASSIMIRO, P. H. O populismo reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo S. l.: Editora Contracorrente, 2022.
  • MAINWARING, S.; TORCAL, M. Party system institutionalization and party system theory after the third wave of democratization. In: Handbook of party politics S. l.: Sage Publications, 2006.
  • MAIR, P. Party system change: Approaches and interpretations. Oxford: Oxford University Press, 1997.
  • MELO, C. R. F. de. Eleições presidenciais, jogos aninhados e sistema partidário no Brasil. Revista Brasileira de Ciência Política, 2010.
  • MELO, C. R.; CAMARA, R. Estrutura da competição pela presidência e consolidação do sistema partidário no Brasil. DADOS - Revista de Ciências Sociais, 2012.
  • PANEBIANCO, A. Modelos de partido: organização e poder nos partidos políticos. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
  • PIERUCCI, A. F. As bases da nova direita. Novos Estudos - Cebrap, n.19.3, 1987.
  • QUAEST. Pesquisa Genial Investimento - Pesquisa eleitoral para Presidente. 21ª rodada - slide 125; Acesso em: 28 jan. 2026.
  • RENNÓ, L. Bolsonarismo e as eleições de 2022. Estudos Avançados, v.36, n.106, p.147-63, 2022.
  • ROCHA, C. Menos Marx, mais Mises: o liberalismo e a nova direita no Brasil. São Paulo: Todavia, 2021.
  • SARTORI, G. Parties and party systems: Volume 1: a framework for analysis. Cambridge: Cambridge University Press, 1976.
  • SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
  • _______. O lulismo em crise: um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016). São Paulo: Cia. das Letras, 2018.
  • TAROUCO, G. Institucionalização partidária no Brasil (1982-2006). Revista Brasileira de Ciência Política, 2010.
  • VENCESLAU, P.; DURAN, P. CNN Brasil 2025. Disponível em: <https://www.cnnbrasil. com.br/politica/cnn-entrevistas-rodrigo-garcia/?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 28 jan. 2026.
    » https://www.cnnbrasil. com.br/politica/cnn-entrevistas-rodrigo-garcia/?utm_source=chatgpt.com
  • WELLER, L.; LIMONGI, F. Democracia negociada: política partidária no Brasil da Nova República. São Paulo: Editora FGV, 2024.
  • ZUCCO, C.; POWER, T. J. The ideology of Brazilian parties and presidents: A research note on coalitional presidentialism under stress. Latin American Politics and Society, n.66.1, p.178-188, 2024.
  • _______. It’s my party and I’ll lie if I want to: Elite ideological obfuscation in post-authoritarian settings. Party Politics, n.31.2, p.310-22, 2025.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 1
    Agradeço a Lucas Gelape pelos comentários atentos. Os erros e omissões permanecem de minha inteira responsabilidade.
  • 2
    A dificuldade empírica conduziu a literatura a abandonar os quatro indicadores sugeridos em nome de apenas dois: a estabilidade na competição eleitoral (medida por meio da volatilidade) e o enraizamento dos partidos na sociedade (Mainwaring; Torcal, 2006), o que ainda trazia consigo os traços da definição de partido de massas como o caso exemplar de um partido político, mesmo diante de sua inadequação às agremiações existentes no final do século passado e início deste século.
  • 3
    Para uma discussão sobre as razões institucionais dessa permanência, ver Câmara (2023).
  • 4
    Fato que destaca essa incapacidade de leitura antecipada da mudança que se aproximava é a comparação da coligação eleitoral extensa liderada pelo PSDB em torno da candidatura Geraldo Alckmin, formada por PSDB, DEM, PP, PR, PRB, SD, PTB, PSD e PPS, com a do futuro presidente, Jair Bolsonaro, com apenas o PRTB, único partido a participar da chapa vitoriosa ao lado do PSL. Ver Freitas e Silva (2019).
  • 5
    Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/11/30/apos-dois-anos-sem-partido-bolsonaro-se-filia-ao-pl-nona-legenda-da-carreira-politica.ghtml>.
  • 6
    Disponível em: <https://ahoradosul.com.br/conteudos/2024/09/12/em-pelotas-bolsonaro-defende-voto-na-direita-e-questiona-eleicoes-de-2022/><https://www.instagram.com/p/DAn6jySJWuB/><https://www.youtube.com watch?v=2urnK5g7jVw>.
  • 7
    Disponível em: <https://www.camara.leg.br/deputados/liderancas-e-bancadas-partidarias/clausula-de-desempenho>.
  • 8
    Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2018/10/01/como-funciona-a-eleicao-de-deputados-feder ais-e-estaduais>.
  • 9
    Haddad alcançou 29,3% dos votos no primeiro turno, só equiparável às votações de 1994 e 1998. A despeito das fortes críticas que o partido recebia à época, o resultado é desencorajador para futuras disputas.
  • 10
    Esse critério arbitrário de divisão não trará prejuízos à análise, como se verá, pois eventuais ajustes ou dúvidas serão explicitados quando forem relevantes e incorporados à discussão.
  • 11
    Em uma escala que varia de -1 a 1, o PSDB obteve a seguinte pontuação estimada: -0,309 (1990); -0,225 (1993); 0,162 (1997); 0,179 (2001); 0,141 (2005); 0,087 (2009); 0,219 (2013); 0,477 (2017); 0,157 (2022) (Zucco; Power, 2024).
  • 12
    O partido, que havia recebido cerca de 11,1 milhões de votos em 2014, valor próximo à média de suas votações desde 1998, reduz sua votação para 5,9 milhões em 2018 e para apenas 3,3 milhões em 2022. Mesmo se classificado à direita, esse movimento de crescimento em 2018 e 2022 se manteria.
  • 13
    Vale dizer que para a eleição de 2018, o PSB foi classificado como um partido de centro e seria a segunda força à esquerda.

Anexo - Classificação e estimação do posicionamento ideológico dos partidos políticos brasileiros

Esta classificação foi elaborada a partir de Zucco e Power (2024).

Tabela 5
Classificação ideológica dos partidos por ano de referência

Tabela 6
Posicionamento ideológico dos partidos por ano de referência

Editado por

  • Editores
    Sérgio Adorno e Dario Luis Borelli

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    07 Abr 2026
  • Aceito
    25 Maio 2026
location_on
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo Rua da Reitoria,109 - Cidade Universitária, 05508-900 São Paulo SP - Brasil, Tel: (55 11) 3091-1675/3091-1676, Fax: (55 11) 3091-4306 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: estudosavancados@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro