Open-access Retrocesso democrático e o avanço da direita: perspectivas políticas

RESUMO

O artigo faz uma reflexão sobre o retrocesso democrático nas democracias representativas em geral, apontando a centralidade da desconfiança institucional e o crescimento das alternativas políticas de direita para o seu aprofundamento. Especificamente, o texto aborda o caso brasileiro focalizando as percepções públicas sobre o funcionamento do regime, a confiança nas instituições e a notável capacidade de organização dos partidos de direita no país. O que estimula essas reflexões são as perspectivas políticas da democracia representativa brasileira.

PALAVRAS-CHAVE:
Retrocesso democrático; Desconfiança institucional; Populismo; Partidos de direita

ABSTRACT

This article reflects on the democratic backsliding in representative democracies in general, highlighting the centrality of institutional distrust and the growth of right-wing political alternatives in deepening it. Specifically, the text addresses the Brazilian case, focusing on public perceptions of the regime’s functioning, trust in institutions, and the remarkable organizational capacity of right-wing parties in the country. These reflections are stimulated by the political perspectives of Brazilian representative democracy.

KEYWORDS:
Democratic backsliding; Institutional distrust; Populism; Right-wing parties

A democracia brasileira está sob pressão desde meados da década de 2010 e as forças político-partidárias de direita vêm crescendo ainda há mais tempo, trazendo consigo o seu braço mais extremo. Esse cenário não é singular dentre as democracias partidárias contemporâneas. A perda da qualidade democrática, a deslegitimação das instituições, a insatisfação com o regime e o crescimento de movimentos e partidos de extrema direita marcam muitos países nos continentes americano e europeu. O contexto brasileiro dos últimos anos compartilha esse cenário e mesmo com o esforço de recuperação democrática a partir de 2023, as condições da legitimidade política estão fragilizadas e a capacidade de organização das forças políticas de direita condicionam as perspectivas políticas do país no ano eleitoral de 2026 e depois dele. Quais aspectos marcam essas perspectivas?

Inicialmente, o artigo faz uma reflexão sobre o retrocesso democrático apontando a centralidade da desconfiança institucional e o crescimento da direita nas democracias representativas; em seguida, uma reflexão sobre o caso brasileiro aborda as percepções públicas sobre o funcionamento do regime, a confiança nas instituições e a notável capacidade de organização dos partidos de direita no país.

Os sinais do retrocesso democrático

É sabido que a crise da democracia é um fenômeno amplo, a autocratização continua a ser uma tendência dominante e seus dados mais recentes mostram uma piora global. Os dados do Relatório V-Dem de 2024, Democracy winning and loosing at the Ballot, mostravam que 71% da população mundial viviam em regimes autocráticos; em 2025, esse dado subiu para 74% (V-DEM Report 2026, Unraveling the Democratic Era?). O relatório também aponta que a Europa Ocidental e a América do Norte registram o mais notável declínio, liderado sobretudo pelo Estados Unidos sob o segundo mandato de Trump.

Na América Latina, a reversão sugerida pelo Brasil em 2023 com a vitória do Partido dos Trabalhadores não retirou a região latino-americana do cenário de autocratização, alimentado sobretudo pela Argentina. Esse contexto corrobora vários estudos que já vinham apontando esse movimento desde fins da década de 2010 (Mounk, 2018; Levitsky; Ziblatt, 2018; Lührmann; Lindberg, 2019; Mainwaring; Bizarro, 2019; Przeworski, 2019; Levitsky; Way, 2020), e como aponta Keman (2024) os sinais de retrocesso democrático são observados em um número significativo de sistemas políticos, notadamente, os altos níveis de descontentamento político, a insatisfação com o regime e a baixa confiança nas instituições, impulsionando a formação de propostas populistas e autoritárias.

Cabe ainda mencionar a preocupante afirmação do V_DEM Report 2026, o qual registra que os níveis globais de democracia para o período de 50 anos entre 1975 e 2025, ponderados pela população, mostram que, para o cidadão comum global, o nível de democracia retornou ao nível observado em 1978. Isso significa que “[...] a enorme expansão de liberdades e direitos alcançada com a ‘terceira onda de democratização’ foi quase totalmente erradicada” (Nord et al., 2026, p.8). A gravidade dessa afirmação é inequívoca, mesmo considerando que esse é um indicador expresso em média da população mundial. A afirmação traduz, no mínimo, a atual condição não responsiva dos estados democráticos, resultante do mau funcionamento das instituições que não conseguem manter o Estado de direito de forma satisfatória e garantir as condições básicas de bem-estar, consumo e inclusão para a grande maioria da sociedade (Foa et al., 2020).

Esse contexto amplo de insatisfação democrática e desconfiança institucional é acompanhado pelo estabelecimento de governos de direita e o crescimento de partidos de direita e de extrema direita nos Parlamentos de muitos países considerados democracias estáveis. São exemplos recentes o seu avanço na Itália, com a vitória com 44% dos votos para o Parlamento da coalizão de extrema-direita e centro direita, tendo o partido Fratelli d’Italia à frente; na Alemanha, com o AfD (Alternativa para a Alemanha) com a mais expressiva vitória da extrema direita desde o nazismo, com aproximadamente 21% dos votos em 2025; na Áustria, com a expressiva vitória parlamentar em 2024 de aproximadamente 30% do FPÖ (Partido da Liberdade); e na Noruega em 2025, com o avanço do FrP (Partido do Progresso), para aproximadamente, 24% dos votos.

A crescente presença da extrema-direita na Europa ocorre desde o início da década de 2010, como demonstra o seu significativo sucesso em eleições locais e nacionais em países como Inglaterra, França, Grécia, Hungria, Polônia, Suécia, Suíça e Ucrânia, além da inserção nos legislativos da Áustria, Bulgária, Finlândia, Dinamarca, Itália, Holanda, Noruega e Suíça, em um movimento de organização alimentado, sobretudo, pelos apelos populistas que encontram nas novas tecnologias e recursos políticos online uma das principais formas de crescimento (Doroshenko, 2018; Rosina; Griffini; Talani, 2025). Mais recentemente, as eleições de 2024 para o Parlamento Europeu corroboraram o avanço da extrema direita, traduzindo o novo contexto geopolítico da Europa, com aproximadamente 25% das cadeiras conquistadas sobretudo pelos partidos Reunião Nacional (França) e Alternativa para a Alemanha (Ramos, 2024).

Nesses países específicos do continente europeu, a xenofobia, o nacionalismo e a intolerância se destacam nos eixos articuladores das mobilizações que organizam propostas políticas (agora transportados para os Estados Unidos no segundo mandato de Trump), e que acompanham aspectos centrais do populismo, como a rejeição ao pluralismo e a oposição à proteção às minorias (Mudde; Kaltwasser, 2012; Abts; Rummens, 2007; Rooduijn; de Lange; van der Brug, 2014; Kaltwasser, 2014; Mudde; Kaltwasser, 2013; Pappas; Aslanidis, 2015).

O debate contemporâneo sobre as características e consequências do populismo de direita é denso, não teria lugar nesse espaço, mas acompanhamos Urbinatti (2019) quando aponta que, mesmo que o populismo seja considerado uma transformação interna da democracia representativa, ele pode desfigurá-la, transformando os seus fundamentos - o povo, a maioria, as eleições e a representação, e essas são condições propicias à fragilização que atinge as democracias representativas de forma generalizada.

De forma distinta de retrocessos dos outros períodos, a onda de autocratização observada em vários contextos é marcada por uma face legal, por meio da qual os governantes chegam ao poder legalmente e passam a enfraquecer gradualmente as instituições democráticas, sem destruí-las; são regimes multipartidários que vão paulatinamente perdendo sua eficácia, sem conduzir ao fim da democracia (Stokes, 2026).

Parece correto sugerir, por sua vez, que esse movimento é ainda mais significativo para as democracias da terceira onda de democratização, nas quais os processos de transição resultaram em democracias menos consolidadas e que mais facilmente abrem brechas para o estabelecimento de situações de autocratização (Lührmann; Lindberg, 2019).

Essa é a condição da América Latina, na qual o contexto de insatisfação democrática e desconfiança institucional é igualmente preocupante. O mais recente relatório do Latinobarômetro aponta que a insatisfação com a democracia tem uma trajetória de 30 anos, com médias regionais que nesse período amplo não chegaram a 50% da população (Corporación Latinobarômetro 2024).1 Desde 2018, metade dos países da região, e não sempre os mesmos, apresenta porcentagens de satisfação com a democracia no país abaixo da média regional, que, por sua vez, nesse período, atinge o máximo de 33% de indivíduos satisfeitos (Corporación Latinobarômetro, 2024, p.42). Os dados mais recentes estão apresentados no Gráfico 1.

Com relação às instituições representativas, os dados sobre confiança institucional mostram sinais de saturação do modelo representativo, como a perda do apoio e da confiança nas elites políticas, nos partidos e parlamentos, um cenário resultante da fragmentação dos partidos e da expansão do populismo na região. A título de contextualização, em 2024, 24% dos latino-americanos confiavam no congresso, e 17% nos partidos políticos (Gráfico 2). De fato, embora a região mantenha médias significativas de apoio ao funcionamento da democracia por meio da presença de partidos e do congresso, as porcentagens contrárias são preocupantes: em 2024, 42% dos indivíduos da região consideram que a democracia pode funcionar sem partidos, e 39% consideram que o regime pode funcionar sem congresso (Grafico 3). Essa deslegitimação das instituições está especialmente presente em alguns países, como o Peru, Colômbia, Paraguai e Equador, que apresentam as menores porcentagens regionais (Corporación Latinobarômetro, 2024). E tal qual outros contextos, as direitas partidárias passaram a ganhar espaço eleitoral e de representação, ampliando a composição dos parlamentos e estabelecendo governos à direita, como foi o caso do Brasil em 2018, e como são os governos mais recentemente constituídos da Argentina, com Milei; Chile, com Kast; Equador, com Noboa e El Salvador, com Bukele (Kaltwasser, 2024)

No caso do Brasil, os gráficos aqui apresentados mostram percepções da população obtidas já em um contexto de recuperação democrática, após a vitória do presidente Lula na eleição de 2022; mas, como é possível observar, os dados de insatisfação e desconfiança com relação à democracia e suas instituições representativas persistem e são muito negativos. A seguir, apresentamos mais detalhadamente o caso brasileiro, o contexto de desligitimação das instituições e o avanço dos partidos de direita. O objetivo é contextualizar nossas perspectivas democráticas.

Gráfico 1
Satisfação com a democracia no país (%), 2024.

Gráfico 2
Confiança nas Instituições Representativas (%), 2024.

Gráfico 3
Partidos e Congresso NÃO são necessários para o funcionamento democrático (%), 2024.

Brasil: insatisfação democrática, desconfiança institucional e fortalecimento da direita

O caso brasileiro é um bom exemplo para compreender a importância da legitimidade política e do fortalecimento das instituições no movimento de reversão democrática. O país desenvolveu a sua transição política no decorrer da terceira onda de democratização, e o atual contexto de reestabelecimento democrático após o período autocrático do governo Bolsonaro e a mais dura tentativa de golpe contra o regime e o Estado de direito mostraram que as instituições republicanas estabelecidas tiveram papel central na busca da normalidade. No entanto, ainda encontramos um terreno frágil para a recuperação das relações sociais, políticas e institucionais.

Seria esperado que após pouco mais de 40 anos desde a transição da ditadura militar para um regime democrático a democracia no Brasil mostrasse indicadores fortes, expressivos de um cenário de consolidação e de qualidade democrática. No entanto, as pesquisas indicam que há portas ainda abertas para os perigos autoritários. A baixa confiança institucional, a insatisfação com o funcionamento do regime, e a redução da compreensão dos cidadãos sobre o que é o fenômeno democrático estão entre os vários aspectos que permitem esse diagnóstico (Moisés; Meneguello, 2013; Meneguello; Del Porto, 2022; Meneguello, 2024).

Com efeito, os cenários políticos dos últimos anos apontam fragilidades com relação aos alicerces do processo de democratização. Dados comparativos internacionais sobre a percepção do sistema democrático mostram que a satisfação dos indivíduos com a democracia no Brasil teve uma tendência de queda constante a partir de 2011, chegando a apresentar o menor índice dentre os países da América Latina em 2018, com apenas 9% de indivíduos satisfeitos com a democracia no país, abaixo da média da região, de 24% de indivíduos (Corporación Latinobarômetro, 2024).

Esses dados são corroborados pelos dados da coleção Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), que mostram que sobretudo a partir de 2014 as fragilidades das bases da adesão à democracia foram aprofundadas nos últimos anos em que a própria noção de democracia, para parte dos cidadãos, teve o conteúdo desfigurado no período do governo Bolsonaro. É isso que apontam os dados coletados na onda de 2022 do Eseb, e que foram corroborados pelos eventos ocorridos no país em janeiro de 2023, logo após a eleição presidencial (Meneguello, 2024). A recuperação democrática com a vitória do governo Lula, o resgate das instituições e das expectativas com relação à convivência democrática levaram o país em 2023 a uma significativa melhora, resultando em uma percepção positiva do funcionamento do regime no país acima da média latino-americana, com 31% de indivíduos satisfeitos, sobre uma média regional de 28%, uma relação que havia alcançado pela última vez em 2011 (Corporación Latinobarômetro, 2024, p.42).

Com relação às instituições representativas, se a confiança nelas depositada é uma atitude fundamental para garantir a legitimidade do regime democrático, pois é preciso construir a avaliação e a expectativa de que elas funcionam corretamente e são responsivas (Norris, 2011; Moises, 2010; Letki, 2018), os dados da coleção Eseb entre 2002 e 2022 mostram a queda no tempo dessa percepção, ilustrado pelo seu contínuo comprometimento. Para os partidos políticos, as porcentagens de confiança caem de 35,7% para 15,8% no período; para o Congresso, a queda é continua entre 2002 e 2018, tendo melhora em 2022, quando atinge 30,2%. De toda forma, essa movimentação de manifestações positivas não atinge metade da população entrevistada em todo o período.

Gráfico 4
Confiança nos Partidos e no Congresso Nacional (%).

A reação articulada das instituições da República contra a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 delineou um caminho promissor de recuperação democrática para um país que finalizava quatro anos de uma autocracia com raízes na ditadura militar de 1964. Mas a legitimidade democrática não se estabelece apenas com o apoio e coesão política, ela requer o funcionamento exitoso e esperado das instituições e a percepção desse funcionamento pela população. Entretanto, a conjuntura dominante especialmente dos dois últimos anos do atual governo Lula, marcada por uma forte polarização política, um Congresso de maioria oposicionista resistente ao bom funcionamento do governo, e o lento processo de reconstrução institucional dificultam de forma significativa as perspectivas de resistência e fortalecimento democrático.

Vejamos como o crescimento da direita partidária atua nesse contexto.

Crescimento e força organizacional da direita partidária

A polarização que marcou as eleições de 2022 e que marca a conjuntura do terceiro mandato do presidente Lula é um claro retrato da vitalidade das forças políticas de direita na democracia brasileira. A vitória presidencial do PT por pequena margem de votos, o crescimento da representação dos partidos de direita no Congresso, e as tentativas golpistas de recuperação de poder pela direita bolsonarista, já no início do novo governo, denunciaram um vigor antidemocrático que estendeu a “mobilização do fundo regressivo da sociedade brasileira” realizado pelas eleições de 2018 (Singer, 2021), e fortalecido durante o governo Bolsonaro, para a dinâmica do poder legislativo e para as relações com o poder executivo no período seguinte.

O sucesso da democracia brasileira em retirar a liderança antidemocrática de Bolsonaro do poder por meio das eleição de 2022, em combater as tentativas golpistas, em identificar planos criminosos de assalto ao poder e, finalmente, ao julgar e punir pela mais alta Corte as lideranças golpistas, sobretudo o ex-presidente Bolsonaro e seus parceiros, garantiu fôlego ao movimento de reversão democrática, mas não reverteu o fortalecimento da direita partidária.

Parte da bibliografia aponta que a direita partidária brasileira passou a ter crescimento no país a partir de 2010 (Codato; Berlatto; Bolognesi, 2018), mas a força organizacional dos partidos de direita e a sua presença nas casas legislativas é um movimento ascendente desde a década de 1990, quando, no início da redemocratização e da constituição do leque partidário brasileiro, 14 partidos organizavam o fragmentado conjunto de forças conservadoras (Campello de Souza, 1992; Mainwaring; Meneguello; Power, 2000). Entretanto, será sobretudo a partir de 2002, quando tem início o ciclo de governos petistas de centro-esquerda, que a tendência de crescimento da direita se fortalece, revelando a capacidade organizativa e reativa dos partidos conservadores no país, chegando atualmente, a 19 agremiações. São três os aspectos destacados a seguir.

O predomínio no lançamento de candidaturas é um primeiro aspecto. Dentro de um sistema partidário sabidamente numeroso, que entre 2002 e 2022 foi constituído de em média 30 partidos, e acolheu o lançamento de, em média, mais de 7 mil candidaturas a deputado federal e mais de 15.300 candidaturas para deputados de nível estadual, o conjunto de partidos de direita mostrou uma capacidade notável de estruturar-se para as campanhas eleitorais. Além disso, mesmo com a proibição das coligações proporcionais para as eleições de 2022 (Lei n.14.211 de 2021), o que reduziu parcialmente o volume de candidaturas para as muitas legendas, o conjunto de partidos à direita não foi afetado de forma significativa, indicando o vigor de sua mobilização no período mais recente.

É o que mostram as Tabelas 1 e 2.

Tabela 1
Número de partidos e de candidaturas disputando cargos para deputado federal
Tabela 2
Número de partidos e de candidaturas disputando cargos para deputado estadual e distrital

Em todo o período, as agremiações de direita mobilizam as maiores porcentagens no conjunto total de candidaturas para os cargos proporcionais. No nível estadual, desde 2002 esse conjunto mobiliza por volta de 40% das candidaturas, chegando nas eleições de 2022 com mais de 47% do total, o que ilustra a capilaridade obtida por essas legendas nos estados no período. No nível federal, o desempenho é semelhante, chegando em 2022 com 47,7% das candidaturas lançadas para a Câmara de Deputados. A diferença com a capacidade organizativa das agremiações de esquerda e centro esquerda é clara. Essas agremiações conseguem apenas apresentar em média 25% das candidaturas para deputado federal e 23% em média para deputado estadual/distrital.

Esse volume de recursos políticos teve resultado evidente na composição do Congresso Nacional no período, o segundo aspecto que ilustra o fortalecimento da direita. Os blocos de direita e centro-direita predominam na representação na Câmara com não menos que 46% somados em 2010, chegando a mais de 63% em 2022 (Gráfico 5). No Senado, a menor taxa de sucesso do bloco também ocorre em 2010, com pouco mais de 33% das cadeiras conquistadas, chegando a mais de 77% em 2022 (Gráfico 6).

Gráfico 5
Cadeiras conquistadas para a Câmara dos Deputados por bloco ideológico (%).

Gráfico 6
Cadeiras conquistadas para o Senado Federal por bloco ideológico (%).

Em uma análise mais detalhada da composição do Senado e da Câmara por agremiação, dois pontos se destacam. O primeiro é a capacidade da direita hiperfragmentada figurar na representação do Congresso ao longo dos vinte anos entre 2002 e 2022. Ao todo, são 19 partidos (em negrito, nas tabelas) que em alguma das eleições obtiveram representação parlamentar na Câmara dos Deputados, mesmo que muito pequena; e 13 partidos com cadeiras obtidas no Senado. O segundo ponto está nos dados dos anos de 2018 e 2022. Nessas duas eleições em que a turbulenta polarização política teve reflexos claros na composição parlamentar, é nítido o salto da organização partidária da direita durante o período do governo Bolsonaro, observado nas proporções partidárias de 2022, como mostram claramente os Gráficos 5 e 6 e as Tabelas 3 e 4. O impacto desse crescimento e a nova composição congressual amplamente oposicionista comprometeu a governabilidade do governo Lula já a partir de 2023, tal como demonstraram algumas derrotas em importantes votações de propostas apresentadas pelo governo ao longo do período.2

É importante ressaltar a fragilidade organizacional partidária da esquerda que, mesmo tendo atuado nos contextos de quase 14 anos de governos de centro-esquerda conduzidos pelo PT, com políticas progressistas bem sucedidas e de amplo alcance, e mesmo tendo obtido, inclusive, mais uma vitória eleitoral na eleição presidencial em 2022, baseada em uma Frente Ampla de partidos de esquerda e centro esquerda, esse campo ideológico não tenha tido êxito na constituição de uma expressiva representação parlamentar.

Tabela 3
Composição partidária da Câmara dos Deputados (%) (em negrito, partidos de direita)

Notas: Só foram incluídas siglas que conquistaram pelo menos uma cadeira para a Câmara dos Deputados no período analisado; (a) Ex-PDS (herdeiro da Arena, partido do governo da ditadura militar); (b) Ex-PJ/PRN, partido vencedor das eleições presidenciais de 1989; (c) O DEM e o PSL se fundiram, formando o União Brasil (União); (d) O PHS foi incorporado pelo Podemos (Pode); (e) O PRP foi incorporado pelo Patriota; (f) O PPL foi incorporado pelo PcdoB. A classificação ideológica está em Power e Zucco (2011), que não inclui as mais recentes movimentações política, daí a inclusão do partido Novo nos anos recentes, quando passa a alinhar-se ao bolsonarismo.

Tabela 4
Cadeiras conquistadas para o Senado Federal (%) (em negrito, partidos de direita)

O terceiro aspecto destacado é o impacto da penetração da direita no terreno das preferências políticas.

É sabido que durante todo o período de construção democrática o Brasil não foi capaz de constituir vínculos mais sólidos entre os cidadãos e os partidos, uma fragilidade que resulta, em parte, da descontinuidade dos partidos e dos sistemas partidários na vida republicana do país (Lamounier; Meneguello, 1986; Santos, 2018; Meneguello; Amaral, 2022). Mesmo com fortes condicionantes históricos, essa não é uma singularidade do caso brasileiro, pois os processos políticos recentes nas democracias partidárias, que combinam o desengajamento político e o enfraquecimento das lealdades com um contexto propício para a política personalista não programática e populista, tem beneficiado propostas, políticos e partidos de direita (Dalton, 2012; Mair, 2013; Keman, 2024). Ademais, a diluição das lealdades não é um fenômeno passageiro afeito a um partido ou conjunto de partidos, mas resulta de uma mudança estrutural da política e da representação na qual a revolução tecnológica tem tido papel central (Manin, 2019), e tende a substituir o processo de enraizamento institucional por estratégias de comunicação política por meio de novas formas de articulação e participação (Neves, 2024; Braga et al., 2017).

De toda maneira, laços e referências entre eleitores e partidos são fundamentais para constituição de preferências e bases político-eleitorais, e os dados de identificação partidária colaboram para conhecer o impacto que a mobilização das elites e dos partidos têm sobre o eleitorado.

As menções espontâneas de partidos políticos pelos eleitores nas pesquisas sobre preferência partidária da coleção Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb) entre 2002 e 2022 (Gráfico 7), mostram o predomínio do PT como referência dominante, e mostram a resistência - embora frágil - de mais dois partidos no mapa partidário dos eleitores: o (P)MDB, herdeiro da oposição partidária à ditadura e atuante no primeiro governo da democratização, e o PSDB, que governou o país por dois mandatos (1995-2002) e foi principal opositor do PT até 2014. O declínio do PSDB no mapa de referências do eleitor merece destaque, pois praticamente desapareceu das referências do eleitor depois de obter 20,9% de menções de preferência em 2014, caindo para 5,2% em 2018 e obtendo em 2022, menos 2,3% das menções em nível nacional. A consequente redução de força parlamentar desses partidos está registrada nas Tabelas 3 e 4. Algumas siglas emergem nas menções espontâneas do eleitor apenas uma vez, como são os casos do PFL em 2002 e o PV em 2010. Finalmente, também merecem destaque as menções espontâneas ao Psol e Novo, partidos de trajetória organizacional distinta, também ocupando distintos campos ideológicos, à direita e à esquerda, e que nas três eleições de 2014, 2018 e 2022 figuram nas referências partidárias.

Gráfico 7
Preferência partidária (%), 2002-2022.

Mas o que queremos apontar com os dados do Gráfico 7 é o impacto da polarização sobre as preferências políticas, e o estabelecimento do PL, em 2022, e antes o PSL, em 2018, ao lado do PT, como uma das principais referências do eleitorado. O PT é a legenda que durante toda a democracia recente mais constituiu laços significativos com o eleitorado, sobrevivendo inclusive às crises que atingiram o partido quando ocupou a Presidência da República entre 2003 e 2016, como os escândalos de 2005 de compra de votos no Legislativo (o “mensalão”), e de 2014 de corrupção na Petrobras, a crise econômica e o golpe parlamentar contra Dilma. A resiliência do partido como referência partidária é inegável, e deve-se em boa medida, à sua trajetória de construção institucional (Amaral; Meneguello, 2017; Samuels; Zucco, 2018). Os dados do Gráfico mostram que, para aqueles que afirmam ter preferência por algum partido, a preferência pelo PT é de mais de 41% em 2018, e de 54% em 2022.

As preferências pelo PSL e PL são de natureza distinta, a sua formação resulta na mobilização personalista do candidato Bolsonaro em 2018, alçada sobretudo nos recursos das redes sociais e internet naquela campanha eleitoral, assim como em 2022. Há diferenças de organização entre o PSL e o PL. O PSL é uma sigla inexpressiva da direita fundada em 1994 e que apenas constituiu uma imagem pública com a candidatura de Bolsonaro em 2018; por sua vez, o PL é um partido de formação anterior, em 1985, então com um perfil programático liberal, mas com uma trajetória errática no campo da direita, com fusões com outras siglas, mudanças de nome e mudança de lideranças, passando a figurar no mapa das principais referências ao acolher a candidatura de Bolsonaro em 2022 e alinhar-se ao populismo de direita. A troca de sigla do PSL para o PL pelo então presidente Bolsonaro para concorrer à presidência em 2022 transferiu a preferência bolsonarista para o novo partido, chegando a aproximadamente 27%. Feitas as distinções entre a natureza das preferências mencionadas aos dois principais partidos nas eleições de 2018 e 2022, o ponto a destacar é o crescimento dessa identidade bolsonarista e da direita nas sondagens eleitorais muito preliminares do início de 2026, vislumbrando as eleições gerais desse ano.

Os dados da pesquisa nacional Ipsos-Ipec realizada em março de 20263 mostram que, dentre os entrevistados que afirmam ter preferência ou simpatia por algum partido (aproximadamente 60% de entrevistados), o PT apresenta aproximadamente 44% das preferências, e o PL, 31%. As demais siglas que receberam alguma menção, inclusive siglas da direita partidária, receberam menções pouco significativas, mas indicativas de algum grau de penetração, como o PSD, Republicanos, Cidadania, Solidariedade, Novo e União Brasil, que não ultrapassaram 2% de menções cada um. Esses dados permitem estimar a significativa capacidade dos partidos de direita se organizarem em estratégias de mobilização e capilarização no país, certamente beneficiando-se da política populista, exercida pelas variadas formas de agregação que os recursos tecnológicos possibilitam.

O cenário traçado pelos aspectos levantados na reflexão deste artigo leva a perspectivas preocupantes quanto ao funcionamento da nossa democracia representativa.

O valioso capital político que o Partido dos Trabalhadores traz a partir de sua trajetória de representação, de formação de governos e de implementação de políticas de cunho inclusivo é central para o fortalecimento da democracia, da representação democrática e do sistema partidário brasileiro, mas no contexto atual, a transformação e a ampliação desse capital em apoio eleitoral requer que o legado democrático e os resultados das ações e políticas mobilizadas pelo governo do PT sejam de fato percebidos positivamente pela população.

Por sua vez, o movimento bolsonarista, nutrido pela polarização a que o país veio sendo exposto nos últimos anos, sobretudo a partir de 2018, bifurcou a direita brasileira e, por meio de uma política de retórica e práticas autoritárias, instalou uma extrema direita partidária, acolhida no PL, que resgatou a memória da ditadura militar, e promoveu a violência como prática política. A consolidação do Partido Liberal como a principal agremiação de direita no contexto democrático, com capacidade competitiva e representação fortalecida, traz como consequência a acomodação do extremismo de direita no sistema partidário e isso, por si só, é um desafio para a democracia representativa.

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    Dados sobre recessão democrática
    Dados de América Latina
    Estudo Eleitoral Brasileiro, ESEB
    Informações eleições Europa;
    Dados eleitorais oficiais Brasil:
  • 1
    Há algumas exceções isoladas de países, notavelmente o Uruguai que, com algumas oscilações internas, nesse período esteve sempre acima da média latino-americana.
  • 2
    São exemplos de derrotas do governo do PT em votações importantes: em 2023, a derrubada de vetos do presidente e o restabelecimento do marco temporal para terras indígenas, e a derrubada do veto à desoneração fiscal, possibilitando a manutenção da desoneração de 17 setores até 2027; em 2024, a recomposição pelo Congresso de trechos vetados pelo presidente na nova lei dos agrotóxicos e a derrubada do veto presidencial à lei que proibiu as saídas temporárias de presos para visitas familiares; em 2025, o Congresso sustou decretos do governo que aumentavam alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e derrubou a maior parte dos vetos do presidente à nova lei do licenciamento ambiental; e em 2026, até o mês de abril, foram destaque a recusa pelo Senado da indicação do presidente de Jorge Messias, Advogado Geral da União, para a cadeira vaga no Supremo Tribunal Federal, e a derrubada pelo Congresso do veto do presidente ao PL da Dosimetria, que poderá reduzir as penas dos condenados pelos crimes de 8 de Janeiro de 2023. Fontes: Poder360 <https://www.poder360.com.br/poder-congresso/governo-teve-6-grandes-derrotas-no-congresso-em-6-meses/> ; Congresso em Foco <https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/118501/de-messias-a-dosimetria-as-10-maiores-derrotas-de-lula-no-congresso>.
  • 3
    Relatório Ipsos-IPEC, Partidos políticos, Março 2026, disponível em: <https://www.ipsos.com/pt-br/um-terco-dos-brasileiros-nao-se-identifica-com-nenhuma-sigla>.

Editado por

  • Editores
    Sérgio Adorno e Dario Luis Borelli

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Dados sobre recessão democrática

https://www.v-dem.net/documents/75/V-Dem_Institute_Democracy_Report_2026_lowres.pdf

Dados de América Latina

https://www.latinobarometro.org/latinobarometro-2024

Estudo Eleitoral Brasileiro, ESEB

(https://www.cesop.unicamp.br/por/eseb)

Informações eleições Europa;

https://results.elections.europa.eu/en/

https://pt.euronews.com/

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Dados eleitorais oficiais Brasil:

https://cepesp.fgv.br/data

https://www.tse.jus.br/eleicoes/resultados-eleicoes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    08 Maio 2026
  • Aceito
    12 Jun 2026
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