Open-access Arqueologia para viver o futuro

“De olhos fechados vejo um rio com água correndo nos dois sentidos e me ocorre que essa arqueologia de que me fala não conta do passado, mas do futuro” (Carelli, 2021, p.122). É assim que Ana - a filha adolescente de um arqueólogo trabalhando em um sítio de terra preta no Xingu - percebe esse modo de ver o mundo que é a arqueologia. O pensamento de Ana, personagem do romance de Rita Carelli, conflui com a arqueologia praticada na Amazônia hoje. A disciplina ocupa um lugar relevante na vida cotidiana dos povos que vivem na região e tem gerado conhecimento capaz de contribuir para salvar não somente o passado, mas também o futuro; da Amazônia e do planeta. Nas palavras do arqueólogo indígena Jaime Xamen Wai Wai (Rodrigues; Kater; Xamen Wai Wai, 2020, p.117): “a arqueologia é tudo”. A vinculação da arqueologia amazônica com desafios contemporâneos - necropolítica, pandemia, demarcação de territórios tradicionais, licenciamento ambiental, greenwashing, biodiversidade, antropoceno, marco temporal das terras indígenas, entre outros - é atestada na produção acadêmica, em fóruns de debate e ainda nos meios de comunicação que ampliam a sua visibilidade. Décadas atrás, a busca pelo termo “arqueologia amazônica” resultaria em algumas matérias sobre pesquisas na região, mas se somaria a elas um volume expressivo de elaborações fantasiosas que, em geral, se constroem sobre discursos que misturam o ideário evolucionista do século XIX com o imaginário que cerca a disciplina fora do ambiente acadêmico. Essa bricolagem apropriada, nos últimos tempos, por negacionistas da ciência e adeptos de teorias da conspiração, atua de forma perversa contra os povos que vivem na floresta, acirrando o ódio e incitando a violência de agentes externos em territórios indígenas e tradicionais.1 Como contraponto a esse tipo de disseminação, a busca por informações sobre arqueologia amazônica hoje traz, como primeiros resultados nas buscas digitais, reportagens sobre estudos arqueológicos na região, em sua maioria, entrevistas, filmagens, fotografias, textos do arqueólogo Eduardo Goés Neves, atual diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, autor de Sob os Tempos do Equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central, editado pela Ubu Editora em parceria com a Editora da USP e lançado em 2022. O primeiro registro que hoje aparece nas páginas de busca é outro livro sobre arqueologia amazônica, escrito pelo mesmo autor, e publicado em 2006 como parte da coleção “Descobrindo o Brasil”, dirigida por Celso Castro, e que tinha como objetivo a apresentação de temas brasileiros para um público amplo (Neves, 2006). Esses dois livros têm afinidades que vão além da autoria, eles falam de uma arqueologia pulsante, de uma história indígena profunda e convergem o passado, o presente e o futuro da região amazônica. Tudo isso em uma linguagem acessível, ainda que as duas publicações - em termos editoriais - tenham naturezas distintas. Cuidar da forma de escrita na/da ciência é um gesto em direção à socialização de um conhecimento que precisa alcançar muitas pessoas, coletivos e cantos de uma sociedade adoecida com a construção odiosa do outro. Em Sob os Tempos do Equinócio, Eduardo Neves procura se comunicar com leitoras/es/es distintas/es/os, e o faz com maestria não apenas estilística, mas com a inteligibilidade de quem tem um vigoroso estofo teórico e metodológico sobre a arqueologia e sobre a Amazônia. O livro é o resultado atualizado de sua tese de livre-docência, defendida em 2013 na USP, e conta a história de longa duração de ocupação de uma região sobre a qual Neves se dedicou por quase duas décadas: a Amazônia Central. Apesar de enfatizar esse contexto, os dados gerados pelas pesquisas ali conduzidas - no âmbito do Projeto Amazônia Central (PAC) - servem para pensar as dinâmicas socioculturais que movimentaram populações, ideias e materiais nas terras baixas da América do Sul. O livro retoma debates que marcaram a história da arqueologia amazônica desde meados do século XX e traz um panorama crítico da adoção, ou do abandono, de conceitos, teorias, que ao longo da trajetória da disciplina provocaram debates acirrados e derivaram, muitas vezes, dualismos que Neves se comprometeu a superar ao longo de sua carreira, como aqueles em torno do determinismo agrícola,2 dos sítios de terra preta, do uso do conceito integrativo de fases arqueológicas, das críticas ao culturalismo histórico. Em relação a esse último, o pesquisador afirma que se trata de um “paradigma silencioso ainda presente” (p.42)3 na arqueologia brasileira e que tem de interessante a sua proximidade com a História. Decerto que fazer arqueologia na Amazônia é estudar a história indígena de longa duração, sem falar na história de comunidades tradicionais conhecidas pela arqueologia ao trabalhar em contextos mais recentes. Essas histórias substanciam uma grandeza temporal de 12 mil anos e se dão num continente tardiamente ocupado, mantendo-se isolado até o século XVI EC [Era Comum]. Os processos históricos levados a cabo em poucos milhares de anos originaram a diversidade sociocultural que conhecemos a partir da arqueologia. Por essa razão, Neves lembra que a Amazônia antiga é um laboratório no qual teorias bem-sucedidas em outros contextos, não se aplicam ao que ocorreu na região. Um exemplo é a relação entre domesticação e agricultura, que na Amazônia não se constituem em momentos dependentes que se sucedem. Do mesmo modo, a existência de chefias ali não implicou a adoção do modelo de Estado e, no caso específico da Amazônia central, há evidências de uma indústria lítica de pontas de projétil associadas não ao Pleistoceno, mas ao Holoceno Inicial. A minuciosa descrição da história estratigráfica dos sítios - alguns em particular - e das estratégias metodológicas para a sua compreensão faz com que um dos capítulos do livro seja uma aula de arqueologia de campo e que resultou na observação de indicadores profícuos para o entendimento de outros sítios da região. Nesse sentido, a proposta de Neves, discutida em um de seus artigos mais instigantes intitulado “Existe uma arqueologia brasileira?”, de pararmos de buscar soluções teó- ricas e metodológicas externas para fazermos “o movimento inverso: o de um mergulho profundo nas evidências que se têm encontrado” (Neves, 2015, p.9) foi levada a sério pelo pesquisador. Seus estudos atestam que a Amazônia central foi ocupada a partir de oito mil anos e os sítios pesquisados por ele e colaboradoras/es/es apontam que num dado momento havia uma expressiva densidade demográfica; em outros as evidências indicam uma drástica redução populacional; qualquer que fosse o tamanho das populações que viveram na região central, e em toda a Amazônia, elas deixaram suas marcas nos materiais produzidos, mas também nas paisagens, o que é o seu traço distintivo mais admirável. A arqueologia tem revelado/reconhecido a engenhosidade e o virtuosismo dos ancestrais dos povos indígenas do presente. Eles moveram volumes de terra (fossos, poços, valas, caminhos, montículos, aterros, tesos, geoglifos), pedras (megalitos), domesticaram espécies vegetais (algumas das quais comemos até hoje: mandioca, arroz, pupunha, abacaxi, feijão etc.), produziram arte (esculturas, pintura e gravação rupestre, iconografia da cerâmica). Além disso, a intensificação de suas ocupações tornou os solos mais férteis (conhecidos como “terra preta de índio” ou “terras antropogênicas”). Algumas dessas transformações e criações estão materializadas em muitos dos quase 100 sítios registrados pelo PAC. Esse conhecimento já seria suficiente para demover o discurso sobre a inferioridade dos povos indígenas, mas a arqueologia praticada por Neves tem ido mais além e demonstrado - norteada pelos princípios e debates da Ecologia Histórica - que ao contrário da propalada escassez de recursos, as sociedades que viveram na Amazônia antiga “manejaram a abundância” (Neves, 2007). Havia muita gente, muitos recursos, muitos modos de vida que se alternavam, muitos territórios ocupados, muita variabilidade artefactual, muitas formas de habitar as paisagens (Ingold, 1993). Quando olhamos para esse quadro vemos afluência e excesso. Tomo a ideia de excesso de Marisol de La Cadena (2010), conquanto ela trate da agência indígena no presente, é concebível pensar no protagonismo indígena desde a Amazônia antiga. E para melhor compreender essa história, Eduardo Neves trava um diálogo com a etnologia das terras baixas e a partir desse encontro fornece caminhos férteis para a arqueologia e para a etnologia indígena, um dos campos de estudo nos quais o pesquisador transita, sempre deixando ver que a arqueologia não é uma disciplina que se ocupa somente do passado, mas nos faz pensar em como ela circula por lugares, tempos e saberes. O livro é organizado em sete seções (introdução, cinco capítulos e conclusão) e inclui mapas e fotos do repertório material coletado em sítios da Amazônia Central. A publicação preenche uma lacuna na arqueologia amazônica ao apresentar uma síntese em português sobre as pesquisas em uma das áreas mais importantes da região - situada na confluência dos três maiores rios da bacia amazônica - e que serve para a formulação de hipóteses sobre outros contextos amazônicos. Sob os Tempos do Equinócio não fala apenas do passado, mas lança um olhar para o presente a todo momento. Isso decorre tanto do compromisso de Neves com os povos amazônicos, como da impossibilidade científica, histórica e política de se fazer arqueologia na Amazônia sem pensar no presente. O autor ressalta a importância da disciplina nos debates sobre o Antropoceno (Crutzen; Stoermer, 2000), em particular, os estudos voltados para o entendimento das relações entre as pessoas e as paisagens amazônicas. Adriana Adbenur et al. (2020, p.1, trad. minha) afirmam que o conhecimento produzido pela arqueologia, sobre o manejo ambiental no passado, poderia ser usado de forma que “as lições do passado pudessem ajudar a Amazônia a se recuperar no futuro”, beneficiando a comunidade global e a sustentabilidade. É também impensável olhar para o passado e perder de vista o fato de que as pessoas na Amazônia vivem sobre os sítios arqueológicos, elas vivem nos sítios arqueológicos, e persistem numa prática observada desde a Amazônia antiga de reocupar lugares, assim cidades amazônicas se assentam sobre antigos aldeamentos, Neves cita exemplos de Santarém, Manaus e outras. Na Amazônia Central, como em toda a região amazônica, as pessoas colecionam artefatos arqueológicos4 e mantêm relações memoriais e de afeto com essas materialidades indígenas antigas (Bianchezzi et al., 2021). A convivência e a escuta dos modos de ver o mundo de povos indígenas e tradicionais têm desestabilizado conceitos com os quais a disciplina opera há séculos - como sítios, vestígios, tempo - provocando transformações na prática da arqueologia (Cabral, 2015, 2022; Gomes, 2021) e a arqueologia conduzida na região tem contribuído substancialmente para esse debate. O acesso de estudantes indígenas, quilombolas e de comunidades ribeirinhas aos cursos de formação de arqueologia é citado por Neves como um dos movimentos que têm mudado as perspectivas sobre a disciplina na Amazônia. No início do livro, Eduardo Neves, afirma que “a arqueologia estuda fenômenos do presente” (p.8), já que os sítios e outros vestígios teriam “viajado pelo tempo” chegando até hoje (p.11), isso me faz lembrar um pensamento de Ailton Krenak sobre o conceito de “remoto”. Ao contar uma história em que a categoria “remota” havia sido acionada como referência ao Vale do Javari, ele diz: “Eu costumo comentar que remoto é sempre o outro, remoto nunca é a gente. Eu nunca estou num lugar remoto” (Moreira, 2022, p.6). Assim é a arqueologia que Eduardo Neves traz Sob os Tempos do Equinócio, nunca é remota porque trata de uma história que teve início há milhares de anos, mas que continua sendo escrita pelos povos que vivem na Amazônia, pelas pessoas e grupos ativistas que lutam por justiça social e ambiental, por arqueólogas/es/os, como ele que com suas pesquisas têm revelado partes desconhecidas dessa longa história indígena, enquanto deixam um conjunto de dados e teorias que constituem um documento importante, não apenas para a história, mas para os povos da floresta também. No momento no qual vivemos, com os debates em torno do ilógico marco temporal, a arqueologia tem muito a contribuir, seja com um “não” (Rocha, 2023), seja com a produção de evidências que de maneira incontestável declaram que os ancestrais dos povos indígenas deixaram marcas profundas na terra, nos rios, nas matas, na floresta amazônica. Mais do que vestígios, são repositórios de conhecimentos produzidos por povos que conseguiram por milhares de anos, como mostra Neves, viver de maneira criativa, diversa e sustentável. É uma lição do passado que pode nos guiar para uma vida melhor. É, Ana, essa arqueologia da qual fala Eduardo Neves é também uma arqueologia do futuro.

Referências

  • ABDENUR, A. E. et al. Protecting archaeological sites in the Amazon is essential for environmental wellbeing. Latin America and Caribbean Forests and Biodiversity, 2020. Disponível em: <https://climate-diplomacy.org/magazine/environment/protecting-archaeological-sites-amazon-essential-environmental-wellbeing>.
    » https://climate-diplomacy.org/magazine/environment/protecting-archaeological-sites-amazon-essential-environmental-wellbeing
  • BIANCHEZZI, C. et al. Fragmentos: arqueologia, memórias e histórias de Parintins. Parintins: Eskenazi Gráfica, 2021.
  • CABRAL, M. Traces of Past Subjects: Experiencing Indigenous Thought as an Archaeological Mode of Knowledge. Journal of Contemporary Archaeology, v.2, n.2, p.S4-S7, 2015.
  • _______. Cuando un pájaro viviente es un vestigio arqueológico: considerando la arqueología desde una perspectiva de conocimiento diferente. In: ROJAS, F.; HAMANN, B. E.; BENJAMIN A. (Ed.) Otros Pasados: ontologías alternativas y el studio de lo que ha sido. Bogotá: Fondo Promoción de la Cultura, 2022. p.25-52.
  • CARELLI, R. Terrapreta. São Paulo: Editora 34, 2021.
  • CRUTZEN, P. J.; STOERMER, E. F. The ‘Anthropocene’. Global Change Newsletter, v.41, p.17-18, 2000.
  • GOMES, J. Desvios e encantados: Uma outra arqueologia da paisagem na Amazônia. Revista de Arqueologia, v.34, n.2, p.61-73, 2021.
  • INGOLD, T. The temporality of the landscape. World Archaeology, v.25, n.2, p.152-74, 1993.
  • LA CADENA, M. de. Indigenous cosmpolitics in the Andes: conceptual reflections beyond ‘politics’. Cultural Anthropology, v.25, n.2, p.334-70, 2010.
  • MORAES, C. de P. O determinismo agrícola na arqueologia amazônica. Estudos Avançados, v.29, n.3, p.25-43, 2015.
  • MOREIRA, A. de L. Entrevista “Ser índio deixou de ser sinônimo de escondido no mato”: uma conversa sobre visibilidade com Ailton Krenak. Revista de Antropologia, v.65, n.3, p.e202285, 2022.
  • NEVES, E. G. Arqueologia da Amazônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.
  • _______. El formativo que nunca terminó: La larga história de la estabilidad en las ocupaciones humanas de la Amazonía central. Boletín de Arqueología PUCP, v.11, p.117-42, 2007.
  • _______. Existe algo que se possa chamar de “arqueologia brasileira”? Estudos Avançados, v.29, n.3, p.7-17, 2015.
  • _______. Sob os Tempos do Equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central. São Paulo: Ubu Editora; Edusp, 2022.
  • ROCHA, B. Marco temporal: a arqueologia também diz não. Amazônia Real, 7 jun. 2023. Disponível em: <https://amazoniareal.com.br/marco-temporal-a-arqueologia-tambem-diz-nao/>.
    » https://amazoniareal.com.br/marco-temporal-a-arqueologia-tambem-diz-nao
  • RODRIGUES, I. M. M.; KATER, T.; XAMEN WAI WAI, J. Arqueologia indígena dos povos do rio Mapuera: entrevista com Jaime Xamen Wai Wai. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v.35, p.114-21, 2020.

Notas

  • 1
    O mesmo ocorreu durante a pandemia quando a produção de fake news ameaçou a vacinação em territórios indígenas. Ver: <https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/fake-news-impacta-na-decisao-de-indigenas-sobre-tomar-vacina>.
  • 2
    A esse respeito, ver também Claide Moraes (2015).
  • 3
    Referência à versão e-book.
  • 4
    A legislação que protege o patrimônio arqueológico coíbe esse tipo de prática que, no entanto, é comum entre as comunidades amazônicas.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2024

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2023
  • Aceito
    21 Jan 2024
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