RESUMO
As sociedades americana e brasileira têm, como uma de suas características mais proeminentes, grande desigualdade entre os seus cidadãos, embora haja enorme diferença qualitativa e quantitativa sobre as formas e proporções que essas desigualdades assumem em cada um dos dois países. Enquanto uma porcentagem pequena da população é dona de grande parte da riqueza produzida socialmente, muitas pessoas vivem com rendimentos no limite ou abaixo do necessário para sua subsistência ou a de suas famílias, e um crescente número de seres humanos está relegado à exclusão e à subcidadania. Para esses, muitas vezes a única saída vislumbrada para tentar mudar a situação em que se encontram desde o nascimento é o crime. No entanto, a reação de agentes do Estado, outros criminosos e algumas pessoas comuns é quase sempre a da reprimi-los com a máxima violência. Este artigo analisa como duas canções populares, uma americana e outra brasileira, retratam esse problema, tecendo reflexões sobre como elas humanizam as vítimas dessa violência e contribuem para conscientizar o grande público acerca da realidade social dos Estados Unidos e do Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Desigualdade social; Violência; Música popular; Lugares de exclusão
ABSTRACT
One of the most prominent characteristics of both American and Brazilian societies is a large inequality in their citizen’s living conditions, in spite of a large qualitative and quantitative difference in the ways and proportions this inequality materialize in these two countries. If, on the one hand, a small percentage of the population owns a huge part of the wealth produced by society, on the other hand, many people live on incomes that are at or below what is necessary for their survival or that of their families, and a growing number of human beings are relegated to exclusion and sub-citizenship. For excluded ones, the only way out they can see to try to change the situation they have been in since birth is to commit crime. However, the reaction of state agents, other criminals, and some ordinary people is almost always to repress them with utmost violence. This article analyzes how two popular songs, one American and the other Brazilian, portray this problem, reflecting on how they humanize the victims of this violence and contribute to raise awareness among the general public about the social reality of the United States and Brazil.
KEYWORDS:
Social inequality; violence; popular music; places of exclusion
As canções “In the ghetto”, composta por Mac Davis e gravada por Elvis Presley em 1969, no álbum From Elvis in Memphis, e “O meu guri”, composta por Chico Buarque e gravada por ele mesmo em 1981, no álbum Almanaque, retratam o problema da violência a que estão expostos os extratos mais pobres das sociedades dos Estados Unidos e do Brasil. Suas letras contêm muitas convergências, sugerindo que elas tematizam duas realidades similares, embora os fatos narrados se passem em dois países bastante distintos em seu nível de desenvolvimento, força econômica e poderio geopolítico. Mesmo assim, as realidades desses países se aproximam pelo papel exercido pela colonização europeia, a escravidão de africanos e os fluxos migratórios em suas formações.
Neste texto, após traçar um panorama das mortes violentas ocorridas nos dois países ao longo do ano 2023, baseado em dados oficiais, analisaremos as duas canções em questão, tratando de sua importância para a legitimação da luta contra as situações de vulnerabilidade por elas abordadas. Vale ressaltar que, em razão dos limites de um artigo acadêmico, será preciso restringir-se às letras das canções, deixando de lado uma abordagem detalhada de seus aspectos mais diretamente musicais.
Duas sociedades iníquas
Tanto a sociedade estadunidense como a brasileira são hoje extremamente desiguais e muito violentas, em especial em relação às classes empobrecidas. Nos dois países, a questão social está imbricada com problemas de ordem racial. Negros, mestiços e migrantes, sejam esses vindos de outros países, sejam vindos de regiões desfavorecidas dentro do próprio país, constituem grande parte da base da pirâmide social. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil, muitos deles habitam a periferia das grandes cidades, onde se desenvolvem os guetos e as favelas, lugares que recebem pouca atenção do Estado. Este, quando se faz presente, muitas vezes se materializa na polícia, que ali comparece para supostamente reprimir o crime, não se furtando, no entanto, a cometer inúmeros crimes ela mesma, como se pode verificar no noticiário cotidiano dos dois países. Também chama a atenção a enorme quantidade de jovens do sexo masculino assassinados pelas forças policiais, o que tem impacto significativo no futuro dessas duas sociedades.
Conforme o Anuário brasileiro de segurança pública de 2024, no ano anterior ocorreram 6.393 mortes resultantes de operações policiais no Brasil. As vítimas dessas intervenções têm um perfil bastante bem definido: 82,7% são negras; 71,7% têm entre 12 e 29 anos; 99,3% são do sexo masculino. Entre os próprios policiais que tiveram mortes violentas em 2023, os números seguem o mesmo padrão: 69,7% eram negros; 51,5% tinham entre 35 e 49 anos; 96% eram do sexo masculino. Cinquenta e sete por cento (57%) deles morreram fora do horário de serviço, havendo taxas elevadas de suicídio entre eles. Para além da letalidade estritamente policial, o número total de assassinatos no Brasil foi 46.328 no ano 2023 (FBSP, 2024, p.14). Nesse mesmo ano, ocorreram 16.025 suicídios (ibidem, p.124).
Os números dos Estados Unidos também refletem uma realidade marcada por uma violência chocante, embora com números bem menores que os brasileiros. De acordo com um relatório da organização Mapping Police Violence, no ano 2023 policiais americanos assassinaram 1.247 pessoas. Embora os negros se constituam em 12% da população do país, eles representam 24% das vítimas da polícia. Em anos anteriores, essa porcentagem chegou a 27%. Entre as pessoas desarmadas que mesmo assim foram mortas por policiais, os negros são 34%. Menos de 3% dos policiais envolvidos em homicídios chegaram a ser acusados por seus crimes (MPV, 2024). Quanto à idade das vítimas, uma reportagem do jornal The Washington Post dá conta de que algo próximo de 60% delas têm entre 20 e 40 anos. Noventa e cinco por cento (95%) são do sexo masculino (TWP, 26.9.2024). Conforme um relatório da organização sem fins lucrativos Gun Violence Archive (2024), para além da letalidade estritamente policial, o número total de assassinatos nos Estados unidos foi de 18.798 no ano 2023, e, entre essas vítimas, 1.676 eram crianças e adolescentes até 17 anos. Houve ainda 24.090 suicídios. Nota-se, em tais números, um padrão semelhante ao que destacamos no levantamento sobre a letalidade policial no Brasil.
Embora os dados estatísticos expostos aqui delineiem um cenário em que ambos os países se mostram atormentados pelo flagelo da violência, impondo-lhes um desafio social de magnitude considerável, uma análise mais detida e sensível dos contextos específicos revela que estamos diante de duas realidades complexas que, apesar de convergentes em alguns aspectos, divergem profundamente no que tange à formação histórica dos dois países, suas estruturas sociais e a expressão numérica do problema. Portanto, ainda que se possa estabelecer um paralelo entre os dois casos - exercício comparativo que pode ser frutífero intelectualmente e proveitoso do ponto de vista pragmático -, é importante que essa comparação seja matizada, evitando-se generalizações simplistas que possam obscurecer as particularidades de cada país.
A formação histórica de cada uma dessas sociedades, por exemplo, apresenta percursos bastante distintos. De um lado, tem-se a experiência de uma colônia de povoamento de origem inglesa, alicerçada em grande medida por uma ética protestante; um país que conquistou sua independência por meio de uma ruptura revolucionária em relação à metrópole, estabelecendo de imediato um regime republicano que se consolidou nas décadas seguintes. De outro, observa-se a experiência de uma colônia de exploração de origem portuguesa, impregnada pela tradição católica, que logrou sua emancipação política por meio de um arranjo peculiar conduzido pela própria elite local e pelo herdeiro do trono metropolitano, resultando em uma monarquia que durou de 1822 a 1889. No que tange à questão racial, pedra angular dessa discussão, ambos os modelos econômicos foram brutalmente sustentados pelo trabalho escravizado, ainda que a extensão, a duração e o legado desse sistema apresentem suas singularidades.
As peculiaridades históricas de cada país forjaram sociedades com composições demográficas bastante contrastantes. Os Estados Unidos têm uma população cujos cidadãos que se autodeclaram negros representam aproximadamente 14,4% do total, ao passo que, no Brasil, esse contingente ascende a expressivos 55,5% da população, conforme levantamentos recentes. Ademais, em termos absolutos, a população estadunidense é consideravelmente maior, superando a casa dos 350 milhões de indivíduos, enquanto a brasileira se situa em torno de 220 milhões.
Esse panorama demográfico confere uma dimensão particularmente alarmante aos números da violência no Brasil. Quando analisados em termos relativos (taxas por 100 mil habitantes), os índices brasileiros não apenas superam os norte-americanos, mas os eclipsam por uma larga margem, atingindo patamares aproximadamente cinco vezes superiores. Essa disparidade coloca o problema da violência no Brasil em outro patamar de urgência e impacto social, representando uma crise humanitária de proporções epidêmicas que permeia e devasta comunidades inteiras.
Entretanto, e é crucial enfatizar esse ponto, isso não deve, de forma alguma, servir para minimizar ou normalizar a gravidade das estatísticas observadas nos Estados Unidos, que, isoladamente consideradas, permanecem muito preocupantes e mesmo intoleráveis para uma sociedade com o seu nível de desenvolvimento, representando um dos mais sérios entraves à plena realização do bem-estar social naquele país. Ambos os países, cada uma à sua maneira e em sua própria escala, falham de modo sistemático e trágico em garantir um direito fundamental: a segurança e a inviolabilidade da vida de seus cidadãos.
Justamente por configurar um problema social comum e persistente em ambas as realidades nacionais - ainda que se manifestando com intensidade e em moldes diversos em cada uma delas -, a realização de uma análise comparativa entre o Brasil e os Estados Unidos, no que tange ao tema da violência, não apenas se mostra viável, mas também potencialmente iluminadora, podendo oferecer elementos para a compreensão das dinâmicas que perpetuam esse mal, bem como para a reflexão acerca de uma possível formulação de estratégias que visem à sua superação.
As duas canções aqui estudadas também tratam dessas realidades infaustas, porém abordando-as de maneira muito distinta daquela típica dos levantamentos estatísticos. Vale destacar que, pelas limitações de um artigo acadêmico, as análises se restringirão às letras das canções.
Um círculo vicioso num gueto de Chicago
Inicialmente, ao compor a peça musical que viria a ser “In the ghetto”, Mac Davis deu-lhe o título de “Vicious circle”. De fato, ela retrata um círculo vicioso marcado pelos dois nascimentos de meninos miseráveis que pontuam o princípio e o desfecho da história contada. Antes de passarmos à análise, porém, é importante reproduzir a letra da canção acompanhada de sua tradução livre, feita por mim, sem buscar recriar o ritmo, a métrica e as rimas do original.
A mudança do título deslocou o centro de interesse da canção. Se inicialmente ele enfatizava o processo de renovação de uma realidade tétrica, com o nascimento de mais uma criança condenada a repetir a mesma história do protagonista da narrativa, por causa de sua exclusão social, agora ele ressalta o local onde a catástrofe se desenrola. O gueto assume tamanha importância que, para além do título, ele se faz presente no refrão, sendo repetido quinze vezes. Com isso esse lugar adquire dimensão simbólica, funcionando como metonímia da exclusão a que muitas pessoas estão sujeitas na sociedade dos Estados Unidos.
A palavra “gueto”, que não é de uso muito comum em português, tem origem na língua italiana, onde quer dizer “ambiente fechado, não acessível” (Houaiss et al., 2001). O termo em inglês segue a mesma forma do italiano. Ressaltando que ele é às vezes utilizado de maneira ofensiva, o dicionário americano Merriam-Webster (versão online) define-o como “distrito desprivilegiado de uma cidade, onde membros de um grupo minoritário vivem devido a pressões sociais, legais ou econômicas” (tradução minha).
Por praticamente determinar o destino daqueles que ali nascem - um destino muito desfavorável -, o gueto confere a seus habitantes um aspecto trágico, do qual bem poucos conseguem escapar.
A narrativa contida na canção tem início situando o que vai ser contado. Há referências claras ao tempo atmosférico e ao espaço. Está nevando, e os acontecimentos se processam na cidade de Chicago, onde o inverno é bastante extremo. É significativo que não tenha havido uma situação precisa no tempo cronológico, como a significar que essa história não pertence a um ano, década ou século específico, mas se repete desde a fundação do país.
Numa manhã inóspita, numa área inóspita da metrópole americana, ocorre o nascimento de uma criança pobre. No imaginário cristão, essas circunstâncias fazem lembrar a natividade, ainda mais por acontecer no inverno do Hemisfério Norte, durante o qual ocorrem as celebrações natalinas. Entretanto, em vez de esse nascimento ser celebrado como o de um messias que redimirá a humanidade, motivo para júbilo por parte de todos, ele provoca tristeza e apreensão na mãe, pois a criança é vista apenas como “mais uma boca faminta para alimentar”. A ausência do pai nessa cena também causa forte contraste com a natividade. Muito provavelmente estamos diante de uma mãe e um filho abandonados pelo pai, ou de um pai morto ou encarcerado, como é comum em diversas famílias marginalizadas.
Uma voz de narrador, funcionando como um coro de tragédia antiga, chama a atenção das pessoas que, cegas para essa situação ou simplesmente indiferentes, não se responsabilizam nem tomam uma atitude para que o menino tenha um mínimo de oportunidade de integrar-se à sociedade e humanizar-se, sem que venha a se tornar “um jovem cheio de raiva”.
A expressão “o mundo gira”, na quinta estrofe, indica a passagem do tempo, com um salto de alguns anos na biografia do protagonista. Agora ele é um menino a brincar à solta nas ruas de Chicago, possivelmente vivendo nelas, acossado pela fome, de nariz escorrendo, sem ter a proteção adequada para enfrentar o tempo frio. Em suas perambulações noturnas, como única alternativa de sobrevivência, aprende a roubar e a brigar.
Há outro salto temporal e, na sétima estrofe, estamos diante de um jovem. Percebe-se que a situação piorou gradativamente, passando do choro da mãe com o nascimento do bebê para o menino faminto e, por fim, para o rapaz desesperado. Este não tem alternativa, marginalizado que está, a não ser dar vazão à violência que fervilha em seu espírito e extrapolar os limites legais. Compra uma arma, rouba um carro e tenta fugir, havendo a sugestão de que foi alvejado por forças de repressão ao crime, sejam elas legais ou ilegais.
A estrofe seguinte volta a colocar foco em sua mãe. Se a vimos chorando pelo nascimento da criança, agora a vemos chorar a morte do jovem, unindo em seu pranto as duas pontas da vida do filho. Se o nascimento do protagonista continha elementos que remetiam a uma natividade, logo desfeita pela realidade daqueles que não são ninguém na sociedade capitalista, sua morte contém elementos de uma paixão, mais especificamente de uma pietà, também desfeita por essa mesma realidade. No entanto, em vez de expirar acompanhado por discípulos e pessoas queridas, como Cristo, sendo amparado na morte pelo colo da mãe, o jovem agoniza e morre em plena rua, “de bruços no chão”, rodeado por uma turba de curiosos que talvez o hostilizem.
Por fim, o círculo vicioso reinicia-se. Enquanto uma mãe chora a morte violenta de um filho ainda jovem, outra mãe, no mesmo gueto, chora o nascimento de outro bebê muito provavelmente condenado a ter o mesmo destino.
A narrativa em terceira pessoa habilmente guia o olhar do receptor para personagens, lugares, acontecimentos e momentos significativos, selecionando-os de maneira precisa, a fim de fazer que eles sejam condensados no limite muito restrito da letra de uma canção. Além disso, a linguagem é muito próxima da fala, reproduzindo desvios gramaticais e reduções de palavras comuns na oralidade: “she don’t need”, “he don’t get far”, “cause”, “round”. É de notar que o protagonista da narrativa não é nomeado, indicando que não se trata de um indivíduo apenas, mas de um tipo representativo de todo um estamento social desprivilegiado. O próprio tempo atmosférico em que se dão os acontecimentos narrados - “fria e cinzenta manhã”, uma noite com um “vento frio” - compõe o clima sinistro em que eles se desenrolam. A frieza estende-se às pessoas indiferentes, das quais o narrador chama a atenção, questionando sua atitude. O cinzento da manhã e a escuridão da noite estendem-se à cegueira dessas mesmas pessoas e também às trevas de um mundo que produz tanta riqueza, ao mesmo tempo em que condena muitos seres humanos a uma existência miserável e violenta. O fato de isso acontecer no país mais rico do mundo torna essa frieza e essa cegueira ainda mais absurdas.
Por fim, há de ressaltar mais uma vez a importância do lugar onde se passam os acontecimentos. Sua presença no título e sua repetição no refrão evidenciam o gueto como lugar de exclusão que representa a injustiça social que grassa nos Estados Unidos. A canção tem seu desfecho com a imagem marcante do choro da mãe - com o qual ela havia começado - e a última recorrência da expressão adverbial “In the ghetto”, que ecoa ao final de cada uma de suas partes, terminando com um lamento expresso pela interjeição “Ah...”, reticente, como a prolongá-lo.
Pode parecer estranho que uma canção como essa seja um dos grandes sucessos de Elvis Presley, que sempre evitou cantar temas muito sensíveis, a fim de não desagradar ninguém e preservar sua vasta popularidade. No entanto, na segunda metade dos anos 1960, sua carreira estava em baixa, havendo rumores de que ele estava superado pelas novas correntes do rock’n’roll e da música pop. Embora precisasse fazer algo novo, atualizado com as lutas pelos direitos civis, que estavam no auge ao final daquela década, o artista hesitou em gravar “In the ghetto”. Porém, decidiu fazê-lo, e a canção foi discretamente colocada como última faixa do lado B do álbum From Elvis in Memphis, apesar de pouco tempo antes já ter sido lançada num compacto, num dos lados, com “Any day now” do outro lado. Duas semanas depois do lançamento, “In the ghetto” entrou para a parada de sucessos americana, tendo uma ascensão constante até chegar ao primeiro lugar, três meses depois, onde permaneceu ao longo de cinco semanas. Foi a canção que redefiniu a importância de Elvis Presley para a música popular. Sobre ela, escreve o crítico Jim Beviglia (2021, p.32, tradução minha):
O fato de “In the ghetto” nunca perder a relevância é tanto um certificado da força expressiva da criação de Davis e Presley, como uma triste crônica acerca dos problemas sociais em torno da pobreza, que parecem nunca ceder. Esse círculo vicioso segue perpetuando-se décadas depois que a canção trouxe a discussão do tema para as massas que compõem o público da música popular.
Um guri anônimo numa periferia brasileira
Se “In the ghetto” é um ponto fora da curva na obra de Elvis Presley, “O meu guri” é uma entre muitas outras canções em que Chico Buarque aborda problemas sociais. Essa temática é tão marcante em sua criação como cancionista que muitas vezes tem provocado visões redutoras de sua obra, que contém outras vertentes igualmente importantes, para além da social.
A canção, que apresenta muitos pontos de contato com “In the ghetto”, embora não resulte de influência direta da canção americana, também contém uma narrativa da vida de um personagem marginalizado vivendo num lugar de desprestígio que praticamente define o seu destino. Na canção de Mac Davis, o narrador era alguém de fora do gueto que selecionava cenas emblemáticas e momentos significativos da vida do protagonista, consciente de um grave problema social, e a mãe do rapaz assassinado era apresentada em terceira pessoa. Na de Chico Buarque, no entanto, o narrador é a própria mãe de um menino assassinado, também vítima de exclusão, alienada, inconsciente da gravidade de sua situação e até mesmo do que aconteceu a seu filho. Se, na canção americana, os fatos narrados se passam em Chicago, na brasileira não há menção a um lugar específico, embora o fato de a narradora viver no morro sugira que possa ser o Rio de Janeiro, onde muitas favelas localizam-se em regiões elevadas. A não localização precisa também sugere que essa é uma história comum em todas as áreas periféricas das grandes cidades brasileiras. Do mesmo modo, ao não nomear a mãe e seu filho, eles adquirem a condição de tipos representativos de um extrato social amplamente difundido pelo país.
Mas comecemos pela letra:
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
A canção inicia-se com a narrativa da vida do protagonista, realizada pela narradora. A referência a seu filho como “rebento” indica que se trata da mãe, pois essa palavra é utilizada, em seu sentido denotativo, para referir-se a um broto ou ramo que surge em uma planta, e, em seu sentido conotativo, para um filho que também “brota” do corpo da mãe. Ela utiliza a fórmula tradicional para começar o relato de uma vida: a exposição de como se deu o nascimento e as circunstâncias em torno dele. Aqui também se percebe que a figura paterna está ausente já desde o momento em que o menino veio ao mundo.
A narração é feita para alguém identificado apenas como “seu moço”, talvez um jornalista ou policial que veio colher o depoimento da mãe, talvez um curioso que veio saber de pormenores em torno do que se passou com o protagonista. A primeira informação fornecida é a de que seu rebento nasceu fora do momento adequado, seja porque foi um parto prematuro, seja porque a mãe era uma adolescente, seja porque ele foi concebido antes de ela constituir uma relação sólida com o pai do menino. O bebê já surgiu com “cara de fome”, e a mãe “não tinha nem nome pra lhe dar”. Se a cara é o lugar no corpo onde nossa identidade está exposta, trata-se de uma identidade desde o princípio marcada pela falta do que há de mais fundamental para qualquer ser vivo. Se o nome é o que nos torna alguém, não ter sequer um nome para receber nos torna ninguém.
A segunda estrofe mostra a resiliência dessa mãe que, com todas as carências, conseguiu levar adiante a sua vida e criar o menino, ao mesmo tempo em que ele também a levava adiante ao dar um sentido a seus esforços. Já na infância ele promete que um dia haveria de “chegar lá”, ou seja, melhorar de vida, ascender socialmente, fazer sucesso, o que, na sociedade do consumo e do espetáculo, está associado a obter bens materiais e aparecer nos jornais.
O refrão, que retorna sempre ao final de cada duas estrofes que contam passagens significativas para a composição da figura do protagonista, enfatiza o orgulho da mãe em relação a esse filho, segundo ela, imbuído do propósito de conquistar uma vida melhor para os dois. “Olha aí/ É o meu guri” faz com que visualizemos esse guri cumulado de carinho e exaltado.
A quarta e a quinta estrofes mostram que o filho, a essa altura talvez um adolescente, já está supostamente chegando lá. Ele chega sempre “suado e veloz do batente”, o que já nos faz entender que vem fugindo de alguém. Entre as coisas que ele traz de presente para a mãe estão correntes de ouro, além de uma bolsa com itens de pouco valor e uma “penca de documentos” que, na perspectiva ingênua da mãe, servirão para identificá-la, proporcionando-lhe um mínimo de cidadania, já que até então ela talvez nunca havia possuído um documento de identidade, sendo oficialmente ninguém. Para nós, receptores da mensagem, é óbvio que tudo aquilo são objetos roubados, uma vez que o crime se mostrou ser a única via possível para que o rapaz pudesse tentar transformar sua condição miserável e “chegar lá”. Para a mãe, entretanto, aquelas coisas são fruto do trabalho duro e honesto de seu rebento.
Na sétima estrofe amplia-se a lista dos itens roubados pelo rapaz, com a grande ironia de a mãe se apegar à sua fé e rezar sempre até que ele retorne bem, pois “essa onda de assaltos tá um horror”. Nem de longe ela suspeita de que ele mesmo seja um assaltante.
A oitava estrofe expõe a ligação intensa da mãe com seu filho, a ponto de tomá-lo no colo para que ele a nine, numa inversão de papéis. Mas, quando ela acorda, o rapaz já se foi, a seu ver, para entregar-se ao trabalho diligente dos que desejam vencer na vida com o próprio esforço, ideologia sempre muito propagandeada entre os que dispõem de recursos insuficientes para isso.
Até o dia em que seu guri não mais chega de volta para casa. O que chega para a mãe é um retrato dele estampado num jornal, com “venda nos olhos, legenda e as iniciais”, com gente nas proximidades fazendo “alvoroço demais”. Provavelmente analfabeta ou apenas semiletrada, ela não entende o que se passou com o filho querido, assassinado e abandonado num local ermo. Por ser menor de idade, o periódico não pode publicar o seu nome por extenso nem expor seu rosto na fotografia que ilustra a reportagem. De maneira patética, a mãe acha que ele “tá rindo”, “tá lindo de papo pro ar”, exultando pelo fato de seu menino haver finalmente chegado lá. Estamos diante de uma cegueira trágica, do tipo daquela de Édipo, que não enxergava os crimes que havia cometido. Como a narrativa termina antes, é de se imaginar o que ela sentirá quando enfim tomar consciência da verdade.
Se o narrador de “In the ghetto”, que aparentemente não é alguém que mora no gueto, utilizava uma linguagem coloquial para contar a vida do protagonista, a narradora de “O meu guri”, possível habitante de uma favela, mãe do rapaz, escassamente letrada, faz uso de uma linguagem ainda mais informal, mesmo se dirigindo a alguém que ela não conhece, como se pode notar nas muitas marcas de coloquialidade do texto: “seu moço”, “pra”, “fui levando”, “chegava lá”, “consolo ele”, “o danado”, “tá”, “de papo pro ar”.
Pelos limites de um artigo, não há espaço para uma análise dos aspectos fônicos do texto, mas vale ao menos chamar a atenção para a habilidade de Chico Buarque no jogo com rimas internas, que ocorrem em todas as estrofes: “rebento”/”momento”, “fome/nome”, “meninice/“disse”, “já”/“patuá/“identificar” e várias outras. Além disso, a cadência dos versos acompanha a emoção da mãe ao falar de seu filho.
É interessante notar o contexto brasileiro do começo da década de 1980, quando a canção foi lançada. O chamado “milagre brasileiro”, período de elevado crescimento do produto interno bruto, ocorrido entre 1969 e 1973, fez que se intensificassem os fluxos migratórios internos para as grandes cidades, especialmente as do Sudeste do país, com os migrantes buscando melhores oportunidades de trabalho. Como muitos deles chegavam a seus destinos desprovidos de meios econômicos, iam morar nas favelas, lugares desassistidos pelo Estado que tiveram grande crescimento naquele tempo. Não se pode esquecer de que aquele foi também o período de mais intensa repressão política da ditadura militar, quando os crimes mais bárbaros foram cometidos por agentes do Estado. Proliferaram-se os esquadrões da morte, milícias de facínoras que assassinavam adversários políticos do regime, logo expandindo sua atividade até eliminarem criminosos comuns a soldo de comerciantes e potentados de bairro. O “milagre econômico” só foi milagroso para os que controlavam o Estado e colocavam-no a serviço de seus negócios. Durante sua vigência, exacerbou-se a concentração de renda e a desigualdade social no Brasil, tornando-o uma das sociedades mais iníquas do mundo.
O “milagre” desmoronou com as crises do petróleo de 1973 e 1979, pois o crescimento do país era muito dependente dessa commodity, que era quase toda importada. Recorreu-se, então, a grandes empréstimos internacionais, a juros altos. Com isso, ao final da década de 1970 o Brasil tinha a maior dívida externa do mundo, algo em torno de 92 bilhões de dólares. Em 1981, quando a canção foi lançada, iniciava-se aquela que ficou conhecida como “década perdida”, uma época marcada por recessão, hiperinflação, alta no desemprego e elevação da dívida pública. Esse foi o principal legado da ditadura militar para o país. Para piorar esse quadro, nos Estados Unidos e na Europa vários governos começavam a implementar as catastróficas políticas neoliberais, que começariam a ser aplicadas no Brasil na segunda metade daquela década. Com isso, nosso abismo social haveria de se aprofundar ainda mais.
Aproximações e convergências
As análises das canções já mostraram algumas aproximações e convergências entre elas, mas é interessante fazer isso de modo mais sistematizado.
Os protagonistas das duas narrativas, embora vivam em países distintos e distantes, apresentam muitos pontos em comum. Ambos já nascem como portadores da maldição de vir ao mundo no lugar onde isso aconteceu. Se o nascimento de um filho é um momento de felicidade para os pais, os seus foram de tristeza para a mãe do americano e angústia para a mãe do brasileiro, ambas desprovidas de recursos para criá-los, ambas sem poder contar com a presença e o suporte do pai do bebê. Nenhum dos dois meninos é nomeado, como se isso expressasse que, nas sociedades de que fazem parte, eles não são ninguém. Seus destinos são muito parecidos. Pressionados por suas carências e necessidades, ambos começam a roubar. Como, numa sociedade coisificada, a propriedade privada está acima das considerações sobre a inclusão e o bem-estar de todos os seus membros, bem como sobre o valor da vida humana, ambos são assassinados.
As duas mães encarnam a concepção que se têm delas no imaginário cristão, com várias evocações marianas: uma delas chora a atrocidade sofrida por seu filho, e a outra é um modelo de amor, humildade, paciência e esperança. Ambas têm o seu destino imbricado no de seu filho.
Os lugares onde vivem são praticamente sinônimos de exclusão e marginalidade, possuindo conotações carregadas de preconceito em inglês e português. Estão até mesmo geograficamente à parte das áreas das cidades consideradas prestigiosas ou simplesmente “normais”.
O gueto e a favela em nosso tempo
Como se viu, “In the ghetto” e “O meu guri” tratam de problemas estruturais das sociedades americana e brasileira, historicamente configurados. Nada em suas letras permite concluir que os tipos humanos retratados são negros, estrangeiros, pessoas vindas de regiões desprestigiadas do país ou estigmatizadas por sua aparência ou seu comportamento, mas é muito possível imaginar que eles pertencem a uma ou outra dessas categorias. Por certo é possível dizer que eles são pobres e diferentes do que se toma como corriqueiro ou “de bem” nessas duas sociedades profundamente desiguais, antidemocráticas (se se levar em conta aquilo que de fato importa numa democracia) e onde não há isonomia entre os seus cidadãos.
Os números apresentados antes, concernentes às mortes violentas nos dois países, não deixam dúvida de que em ambos existem seres humanos “matáveis”, quase sempre tornados invisíveis, desumanizados pelos meios de comunicação de massa ao serem apresentados apenas como números, embora esses números sejam impressionantes, como se viu. A repetição e mesmo a piora desse quadro ano após ano é uma evidência não apenas do fracasso das políticas de segurança pública e promoção dos direitos da cidadania dos mais diversos governos, nos dois países, mas principalmente uma evidência dos preconceitos arraigados nas duas sociedades, em especial em suas classes dirigentes.
Entre inúmeros outros, os casos recentes de George Floyd, nos Estados Unidos, e Amarildo de Souza, no Brasil, são emblemáticos do racismo e da aporofobia com que agentes do Estado historicamente têm tratado os desprivilegiados e vulneráveis. Floyd, um homem negro, foi morto numa operação policial na cidade de Minneapolis, estado de Minnesota, depois de, na versão oficial, haver tentado repassar uma nota falsa de vinte dólares. Apesar de não ter havido resistência à prisão, o suposto criminoso foi lançado ao chão, e um dos quatro policiais (brancos) envolvidos em sua morte pressionou o joelho contra seu pescoço por vários minutos, mesmo com a vítima agonizando e dizendo repetidamente que não conseguia respirar. Amarildo, por sua vez, um pedreiro afrodescendente, foi detido na porta de sua casa, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, sendo, em seguida, sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares. Essas barbaridades só foram reconhecidas como tal, gerando comoção e protestos nas duas sociedades, porque as histórias das vítimas, nomeadas e individualizadas, foram contadas nos meios de comunicação de massa, que deram ampla cobertura aos fatos, influenciando a opinião pública. No entanto, todos sabem que ignomínias desse tipo acontecem todos os dias nos dois países, sem nenhuma repercussão para além do círculo de relações das vítimas.
À ferocidade policial soma-se, no caso dos Estados Unidos, a facilidade de acesso a armas de fogo, o extremo individualismo de sua cultura, a separação rígida de grupos étnicos e classes sociais. Para piorar, o recente recrudescimento de ideologias fascistas tem feito com que muitos não só preconizem soluções violentas para os conflitos como as pratiquem pessoalmente. No caso do Brasil, o crime organizado não apenas controla territórios crescentes nas grandes cidades, como tem adentrado o Estado. Não é novidade para ninguém que o método mafioso de lidar com inimigos e outras figuras incômodas passa invariavelmente pelo assassinato. Também entre nós o neofascismo conheceu uma recente ascensão, inventando bodes expiatórios a serem desumanizados e, no limite, eliminados. Na mentalidade de certa classe média urbana, com crescente difusão pelas classes baixas, existe mesmo a ideia de que o petty crime, e apenas ele, deve ser punido com o máximo rigor. Os grandes criminosos, em especial os que espoliam o Estado, muitas vezes são até admirados.
Ao contar as histórias dos dois rapazes assassinados, as duas canções, pela universalidade e a atemporalidade da arte, vão ainda mais além do que fazem os meios de comunicação de massa, que repercutem as atrocidades sofridas por um ou outro ser humano “matável” apenas por alguns dias ou semanas, enquanto as atenções do público lhes rendem acesso a suas plataformas, publicidade e likes. A individuação e a visibilidade que os artistas proporcionam a essas vítimas, por meio de sua formulação estética, humaniza-as em todos os lugares onde elas se encontrem, correlacionando seu martírio com o de todas as vítimas de brutalidades em outras épocas e nos fazendo refletir sobre essa realidade. Além disso, a sensibilização para o problema social retratado não se esgota em apenas uma ou algumas audições das duas canções. Elas continuam gerando interesse e nos tocando mesmo após as ouvirmos inúmeras vezes.
É muito relevante o fato de os três artistas envolvidos na composição e na interpretação dessas peças musicais serem brancos. Isso por certo aumenta o interesse pelas duas canções, pois elas vêm de um extrato social privilegiado, com acesso mais fácil às vias de legitimação artística. Além disso, elas conseguem se comunicar com um público muito mais amplo que o das classes desprivilegiadas e mais engajadas na luta por justiça social, o que provavelmente não aconteceria se os compositores e intérpretes fossem negros.
O momento em que cada uma das canções foi lançada também precisa ser levado em conta. “In the Ghetto” saiu em 1969, quando os movimentos pelos direitos civis estavam no auge. Buscava-se, então, a garantia de igualdade perante a lei entre todos os cidadãos dos Estados Unidos, em especial para a população negra, que enfrentava segregação e discriminação. Pouco tempo antes, grandes líderes negros como Malcolm X (em 1965) e Martin Luther King Jr. (em 1968) foram assassinados por forças reacionárias enquanto lutavam por justiça. O fato de a canção sair no álbum de um grande intérprete e uma figura tão proeminente no show business como Elvis Presley revela, já em 1969, uma encampação, pela opinião pública, dos pressupostos da luta pelos direitos civis, contribuindo para a sua difusão e uma conscientização mais ampla dos problemas enfrentados pelos extratos desprivilegiados da sociedade.
Já “O meu guri” foi lançada em 1981, nos estertores da ditadura militar brasileira, período de intensa demanda por democracia e justiça social, quando a opinião pública se mostrou amplamente contrária à atuação dos esquadrões da morte ao longo da década de 1970, repudiando-os. Também aqui o tratamento do tema por um artista branco e proeminente na cultura de massas, embora um artista que atravessou a ditadura produzindo canções de cunho político e social, revela uma conscientização mais ampla do problema por parte da população do país.
Em sociedades de precário letramento como a brasileira e, em grande medida, também a americana, o tratamento desses temas pela canção popular é uma das poucas elaborações intelectuais a discutir o problema da pobreza e da exclusão social a que muita gente tem acesso. Assim, canções como “In the ghetto” e “O meu guri”, produtos da cultura de massas, ao mesmo tempo em que são fruídas pelo grande público, também contribuem para a tomada de consciência e o debate acerca dos problemas gerados pela enorme desigualdade social nos dois países.
Referências
- BEVIGLIA, J. “Behind the Song: ‘In the ghetto,’ Elvis Presley”. In: American Songwriter. Nashville, TN: Savage Media Holdings, 2021.
- FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário brasileiro de segurança pública. São Paulo: FBSP, 2024.
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GHETTO. In: Merriam-Webster dictionary. Springfield, MA, 2024. Disponível em: <https://www.merriam-webster.com/dictionary/ghetto>. Acesso em: 7 out. 2024.
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GUN VIOLENCE ARCHIVE. Homicides in the U.S. in 2023. Disponível em: <https://www.gunviolencearchive.org/>. Acesso em: 10 out. 2024.
» https://www.gunviolencearchive.org - HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S.; FRANCO, F. M. de M. (Ed.) Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. CD-ROM. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
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MAPPING POLICE VIOLENCE INC. The 2023 police violence report. Disponível em: <https://policeviolencereport.org/>. Acesso em: 4 out. 2024.
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THE WASHINGTON POST. Fatal force. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/graphics/investigations/police-shootings-database/>. Acesso em: 5 out. 2024.
» https://www.washingtonpost.com/graphics/investigations/police-shootings-database
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
