Open-access A “mortigrafia” de Lampião e Maria Bonita: considerações sobre a musealização do trágico (1938-2023)

RESUMO

Analisaremos neste artigo a trajetória e a musealização dos remanescentes humanos de Lampião e Maria Bonita, com enfoque nos aspectos históricos, éticos e museológicos associados à exposição e preservação desses restos. Objetiva-se analisar os debates sobre o tratamento dos remanescentes humanos de Lampião e Maria Bonita, considerando as implicações históricas, científicas e éticas de sua musealização. Para alcançar esse objetivo, utilizamos métodos como: a revisão historiográfica e análise qualitativa de documentos históricos, entrevistas e reportagens relacionadas ao tema. Os principais resultados evidenciam o contínuo debate sobre a exposição dos remanescentes, marcado por questões éticas e narrativas históricas, que oscilam entre o consumo do trágico e a busca pela dignidade dos envolvidos.

PALAVRAS-CHAVE:
Cangaço; Remanescentes humanos; Museus; Lampião; Maria Bonita

ABSTRACT

In this article, we will analyze the trajectory and musealization of the human remains of Lampião and Maria Bonita, focusing on the historical, ethical, and museological aspects associated with the exhibition and preservation of these remains. The objective is to analyze the debates on the treatment of the human remains of Lampião and Maria Bonita, considering the historical, scientific, and ethical implications of their musealization. To achieve this objective, we use methods such as historiographical review and qualitative analysis of historical documents, interviews, and reports related to the topic. The main results highlight the ongoing debate about the exhibition of the remains, marked by ethical issues and historical narratives that oscillate between the consumption of tragedy and the search for dignity for those envolved.

keywords:
Cangaço; Human remains; Museums; Lampião; Maria Bonita

Introdução

O envernizamento discursivo acerca do Cangaço depositou muitas camadas de sentido sobre os processos históricos e, sobretudo, sobre as biografias das personagens envolvidas, tornando muito difícil estabelecer uma definição concisa sobre esse tema. Talvez uma definição mais genérica e abrangente possível seja aquela que relaciona o cangaço ao “gênero de vida dos cangaceiros” do sertão nordestino caracterizados pelas armas e equipamentos transpassados no corpo assemelhando-se às cangas dos bois de carga - termo do qual derivam as nomenclaturas. Esse gênero de vida pautado pelo banditismo é entendido pela literatura especializada como derivado de uma espécie de trabalho mercenário armado que, após a fase marcada pela atuação de Lampião, passaria a se agrupar em bandos subordinados a um único chefe e em constante perseguição e confronto com as milícias armadas, governamentais ou privadas, chamadas de volantes.1

Escrever sobre o cangaço é essencial para refletir criticamente sobre as práticas museológicas e éticas relacionadas à preservação e exposição de remanescentes humanos, como os de Lampião e Maria Bonita. Essa análise promove debates fundamentais sobre memória, identidade e dignidade, ao mesmo tempo em que expõe as implicações históricas e sociais de narrativas construídas sobre figuras emblemáticas. Além disso, contribui para a construção de práticas mais humanas e conscientes nos campos da museologia e da preservação patrimonial.

O objetivo deste artigo é apresentar os resultados da pesquisa e trabalho técnico desenvolvido pelo Departamentos de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com o Instituto de Biociências (IB-USP). Assim, buscar-se-á analisar os debates e as implicações históricas, científicas e éticas relacionadas ao tratamento e musealização dos remanescentes humanos de Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938),2 posteriormente eternizado sob a alcunha de Lampião, e Maria Gomes de Oliveira (1910-1938),3 chamada Maria Bonita. Para alcançar esse propósito, utilizou-se uma abordagem baseada na revisão historiográfica e na análise qualitativa de documentos históricos, entrevistas e reportagens. Essa metodologia permitiu explorar as narrativas que envolvem o consumo do trágico e as controvérsias sobre a preservação e exposição desses vestígios, contribuindo para discussões mais aprofundadas sobre memória, identidade e práticas museológicas. Para além disso, procuraremos demonstrar como a decapitação, decaimento e tentativas de conservação dessas cabeças, ou seja, o estado da matéria que as compõem, acompanha e de certa maneira molda a opinião e orienta os debates acerca do trato e da justiça histórica e social.

Contextualização e resultados do trabalho técnico de reconstrução e avaliação dos crânios de Lampião e Maria Bonita

Antes de qualquer consideração inicial sobre este estudo, é preciso discorrer sobre a necessidade e relevância de apresentar imagens sensíveis acerca da trajetória das cabeças de Lampião e Maria Bonita. Adotamos aqui a definição de Britto (2022, p.141-3) para definir o consumo do trágico: a “explosão discursiva”, ideia foucaultiana da seletividade de enunciados voltada para a reprodução do poder através da condução de comportamentos, aplicada à espetacularização, muitas vezes mercadológica, de acontecimentos trágicos ligados, sobretudo, à morte violenta. Tratando-se de um trabalho científico, pro-bono e transdisciplinar, afastam-se os interesses de capitalização com as eventuais repercussões deste manuscrito. De outro lado, espera-se que os eventuais questionamentos e reflexões apresentados a seguir possam servir de substrato para as preocupações que a ciência, em suas mais diversas áreas, tenha no sentido de promover o respeito ao mesmo tempo que recompõe, não apenas a morfologia dos crânios, mas também a memória de um evento traumático muitas vezes cooptado para interesses alheios à preservação da dignidade humana. Nesse sentido, fazemos coro à observação de De Tienda Palop e Currás (2019, p.34, tradução nossa), a respeito da dignidade do morto não poder ser reduzida a cronologias, sendo necessário reconhecer que qualquer prática de memória ou preservação transmite a possibilidade de devolver “a dignidade ao ser humano e lembra-lhe a sua verdade original: que o ser humano é um ser temporário que deseja transcender as suas limitações primárias”.

O presente trabalho foi iniciado em 2021 a pedido dos familiares de Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), e facilitado pelo Museu da Gente Sergipana em parceria com o Instituto do Banco do Estado de Sergipe (Banese). O trabalho realizado nos Departamentos de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com o Instituto de Biociências (IB-USP), buscou examinar os crânios de Maria Gomes de Oliveira e Virgulino Ferreira da Silva. A pesquisa foi estruturada em três etapas complementares: análise genética, descrição osteológica e investigação histórica da trajetória desses remanescentes até sua chegada à FMUSP em 2021.

Na primeira etapa, a tentativa de confirmação por perfil genético mostrou-se inviável. O histórico de manipulação e conservação dos crânios em diferentes substâncias químicas, variando entre querosene e formol, além de radiação de maquinários e de fatores ambientais de guarda, que comprometeram a preservação de material genético adequado para análise de DNA.

A segunda etapa consistiu na descrição osteológica. A situação na qual os crânios chegaram à FMUSP era exatamente aquela que se apresentava em 2002 após a exumação no cemitério Quinta dos Lázaros na Bahia (Figura 1) após mais de 30 anos armazenados em carneiros (Figura 2). O crânio de Maria Bonita (Figura 3) apresentava boa preservação, excetuando-se os danos da craniotomia - procedimento de retirada de parte do crânio, retalho ósseo, para acessar o cérebro -, feita em 1938.4 Os indicadores apontam para indivíduo adulto do sexo feminino, com poucas lesões perimortem - lesões que podem ter ocorrido em qualquer momento próximo à morte, sendo antes ou depois do acontecimento -, sugerindo que as marcas observadas sejam de origem post-mortem. A comparação com as medidas registradas pelo legista na época revelou compatibilidade em mais da metade dos parâmetros, reforçando a identificação. Já o crânio de Virgulino (Figura 4) encontrava-se em estado extremamente fragmentado, exigindo cuidadosa remontagem. Foram observadas múltiplas fraturas perimortem, ausências ósseas significativas, sobretudo no lado direito, e evidências compatíveis com a decapitação na altura da terceira vértebra cervical.

Figura 1
Crânios de Maria Bonita e Lampião, respectivamente, exumados em 1º de fevereiro de 2002.

Figura 2
Adalício Santana, administrador do cemitério da Quinta dos Lázaros, apontando para os carneiros onde foram sepultadas as cabeças de Lampião e Maria Bonita.

Figura 3
Crânio de Maria Bonita após reconstrução (2023).

Figura 4
Crânio de Lampião após reconstrução (2023).

A terceira etapa, de caráter histórico, reconstruiu a “mortigrafia” dos crânios, desde a execução e exibição pública em 1938 até os processos de musealização, exumação e reconstrução. Os resultados dessa etapa são apresentados a seguir neste artigo, que se pretende extenso nesse aspecto pela necessária fundamentação histórica para a execução das demais análises.

O Cangaço e as narrativas históricas a partir do episódio de Angicos (1938)

O episódio na Grota do Angico finda as vidas e biografias de Lampião e Maria Bonita, mas inicia aquilo que chamaremos de suas “mortigrafias”.5 Uma vez que a morte nem sempre é o fim da vida social dos corpos humanos, a ideia de uma “mortigrafia” viria no sentido de simular a biografia, experiências e legados de uma pessoa em vida, para sua vida social póstuma. Certamente seria muito difícil identificar todas as contribuições sobre o tema, o cangaço é um dos temas mais recorrentes no imaginário popular brasileiro. Uma verdadeira “explosão discursiva” no campo do exercício do poder, das condutas e da construção coletiva de subjetividades (Britto, 2018, p.97). As versões sobre o massacre de Angicos, em 28 de julho de 1938, parecem transmitir um certo consenso. Foi um tiroteio breve (Figura 5) que vitimou 11 cangaceiros “que tiveram suas cabeças decepadas - alguns ainda em vida - foram: Virgulino Ferreira da Silva (Lampião); Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita); Enedina; Luis Pedro; Moeda; Quinta-Feira; Alecrim; Elétrico; Colchete; Mergulhão; e Macela” (Britto, 2018, p.112).

Figura 5
Mapa da ação da volante que assassinou os 11 cangaceiros em 1938.

Para aqueles que escreveram de forma mais detida sobre o cangaço, Marianne L. Wiesebron (2011) faz uma seleção de autores, regionais e internacionais, agrupados conforme suas similaridades ao longo do século XX. Um primeiro grupo de autores é identificado como da própria região dos acontecimentos: Franklin Távora (O Cabeleira, 1876), Gustavo Barroso (Terra de Sol, 1912; Heróis e bandidos, 1917; A margem da história do Ceará, 1962) - também conhecido como João do Norte e aluno de Afrânio Peixoto -, Xavier de Oliveira (História real, observação pessoal e impressão psychologica de alguns dos mais celebres cangaceiros do Nordeste, 1920), Pedro Baptista (Cangaceiros do Nordeste, 1929), Manoel Candido (Factores do Cangaço, 1934), Ulysses Lins de Albuquerque (Um Sertanejo e o sertão, 1957), José Lins do Rego (Meus verdes anos (Memórias), 1958), Graciliano Ramos (Viventes das Alagoas, 1962).

Um possível segundo grupo é identificado como aquele dos médicos interessados no cangaço: Raimundo Nina Rodrigues (As coletividades anormaes, 1890), Estácio de Lima (O mundo estranho dos cangaceiros (Ensaio Biosociológico), 1965). Outra categoria de autores conterrâneos do cangaço são os jornalistas Melchiades da Rocha (Bandoleiros das Catingas, 1942), Oleone Coelho Fontes (Lampião na Bahia, 1988), José Chiavenato (Cangaço: a força do Coronel, 1990).

Eric J. Hobsbawn (Primitive Rebels, 1959) e Fernand Braudel (La Mediterrannée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II, 1987) seriam representantes do terceiro grupo, representado pela rede internacional de debate sobre o tema. Diferenciando-se à medida em que Braudel tomou como fonte, especialmente, Stendhal e Cervantes, enquanto Hobsbawn inspirou-se na literatura popular. A defesa dessa escolha reside na separação das ideias de exatidão dos fatos e representação do meio social, sendo este segundo o interesse de sua análise. Em resumo, seria a interpretação de que o banditismo começa a desenvolver-se na desintegração da sociedade tribal, ou naquela baseada na família na passagem do pré-capitalismo ao capitalismo. O resultado seria uma perturbação da estrutura da sociedade agrária propiciando o banditismo (Wiesebron, 2011, p.426-7).

Ainda um quarto grupo de autores é formado pelos brasileiros que escrevem ao tempo de Hobsbawn. Aqui estão inclusos Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos, gênese e lutas, 1963), Maria Isaura Pereira de Queiroz (O messianismo no Brasil e no mundo, 1966 - podendo também mencionar sua publicação em francês, Os cangaceiros: Les bandits d’honneur brésiliens, 1968, que inspirou largamente o livro Bandidos, 1969, de Hobsbawn) e Christina Matta Machado (As táticas de guerra dos cangaceiros, 1969), da Universidade de São Paulo. Além desses nomes, Frederico Pernambucano de Mello iniciou seus trabalhos em 1974 e organizou suas ideias no livro Guerreiros do Sol: o banditismo no Nordeste do Brasil, de 1985.

As publicações sobre o cangaço, sem contar as formas de expressão artísticas e populares, assistiram ainda a uma proliferação de publicações de memórias de personagens diretamente ligados ao cangaço como, ex-cangaceiros, ex-militares ou de descendentes nas últimas décadas do século XX. Para além de todos esses autores, Wiesebron ainda elenca Billy Jaynes Chandler (Lampião: o rei dos cangaceiros, 1981), Richard W. Slatta (Bandidos: the varieties of Latin American Banditry, 1987), Linda Lewin (The Oligarchical Limitations of Social Banditry in Brazil: The Case of the “Good” thief Antônio Silvino, 1979), Gilbert M. Joseph (On the trail of latin american bandits: a reexamination of Peasant Resistance, 1990), James Scott (Weapons of the Weak: everyday forms of Peasant Resistance, 1985) e Peter Singelmann (Political structure and social banditry in Northeast Brazil, 1975) no grupo de autores não brasileiros.

Quase meio século antes da execução dos cangaceiros do bando de Lampião, ocorreu o massacre de Canudos (1896-1897), no interior do estado da Bahia, um conflito armado entre sertanejos, dentre os quais alguns oriundos do ciclo do cangaço pré-Lampião, liderados por Antônio Vicente Mendes Maciel, vulgo Antônio Conselheiro (1830-1897), e o Exército Brasileiro. A relação entre o cangaço e a tragédia de Canudos se desenvolveu no esteio da reorganização das elites nacionais. A Proclamação da República, em 1889, enlaçada no processo de falência do império e substituição do regime escravista no país, seria imediatamente seguida pela publicação do código penal de 1890, reformulado diversas vezes durante a Primeira República Brasileira. Um novo modelo de controle e punição, adequado à realidade e complexidade da população, se fazia urgente no novo regime.7

Periodização da mortigrafia

Quando pensamos o percurso geográfico e institucional que os vestígios humanos de Lampião e Maria Bonita tiveram, podemos sintetizar o trajeto no seguinte itinerário (Figura 6).

Figura 6
Trajetória das cabeças de Lampião e Maria Bonita de 1938 a 2002.

Durante o trajeto do grupo até Maceió (AL) - em que se preze a famigerada imagem das cabeças do bando expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas (Figura 7) -, maior certeza surgiu quanto à conservação das cabeças de Lampião e Maria Bonita em formol, por se tratar de uma instituição cujo preparo de amostras e conservação de tecidos tinha na lei, desde 1903, previsto que:

Qualquer orgão ou tecido que o perito pretenda reservar como peça de convicção será guardado em vaso fechado, de dimensões proporcionaes, cheio de liquido conservador apropriado, de que é typo o de Kaiserling e suas variantes (formalina 800 gr., acetato de potassio 85 gr., azotato de potassio 45 gr., agua distillada 4.000 gr.) (Brasil, 1903, p.2945)

Os eventos se desdobraram no Instituto Médico Legal (IML) Estácio de Lima, Maceió (AL), ainda no mesmo ano, onde exames8 foram realizados pelo Dr. José Lages Filho. As cabeças foram entregues pelo Dr. Lages Filho ao Dr. Arnaldo Rodrigues Silveira, da Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, BA, entre 1938 e 1944.

Figura 7
Cabeças expostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas (AL), 1938.

Posteriormente, de 1944 a 1969, em Salvador (BA), as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram expostas, sob certa forma de mumificação, no Museu Antropológico Criminal do Instituto Médico Legal (IML) Nina Rodrigues. Em 1965, os descendentes de Lampião e Maria Bonita conquistaram o direito de sepultar os restos mortais de Lampião e Maria Bonita no Cemitério Quinta dos Lázaros, também em Salvador, através do Projeto de Lei n.2.867. O projeto acabou engavetado e somente em 1969 as cabeças sairiam do museu por ocasião da troca de direção do IML Nina Rodrigues com a substituição de Estácio de Lima, como veremos, ferrenho defensor da manutenção das cabeças no museu, por Waldemar Graça Leite, mais inclinado à devolução. Somente em 2002, a guarda dos crânios de Lampião e Maria Bonita passou a ser feita por Expedita Ferreira Nunes e Vera Ferreira, respectivamente filha e neta de Lampião e Maria Bonita, em Aracaju (SE), até 2021, após a obtenção desse direito pela família.

Há, dessa forma, aparentemente, quatro distintos momentos de intensificação no debate sobre os acontecimentos relacionados às cabeças aqui analisadas. Em primeiro lugar, a soma da história e biografia dos cangaceiros já dava as condições iniciais nas controvérsias sobre o cangaço. Ao menos, Lampião foi biografado ainda em vida em livros que narram “os acontecidos praticamente em tempo real” (Carvalho, 2019, p.11). Cabeças ainda ligadas a seus corpos, bocas que dizem sobre si, os mitos fundantes, os documentos produzidos, as polarizações políticas e a imprecisão dos fatos deram o tom da fluidez a respeito dos cangaceiros nesse primeiro momento (?-1938): bandidos, heróis ou vítimas. É o momento do discurso sobre si criado pelos próprios cangaceiros, sobretudo nos últimos anos de suas operações que já não mais dependiam das incursões bélicas, mas de um sistema de clientela que permitia uma vida mais sedentária ao “rei do cangaço”.

A partir do assassinato e decapitação de parte do bando de Lampião, inicia-se o segundo momento (1938-1944), no qual ganha espaço a ciência da época e suas tentativas de avaliação e conservação desse material. É o momento em que, inclusive, se encerra com a exposição das cabeças no Museu Antropológico Criminal Nina Rodrigues.

O terceiro momento (1944-1969) é aquele da “redenção” dos insepultos. A conservação, legando um impactante estado de mumificação das cabeças, somada a uma interpretação negativa da exposição e guarda desse material, aciona um sentimento de justiça para os cangaceiros. Uma série de debates ao longo das décadas de 1950 e 1960 acabaria levando ao sepultamento das cabeças de Lampião e Maria Bonita, em 1969.

Por fim, o quarto momento (1969-atualmente) seria aquele que melhor se enquadra em relação ao afastamento da leitura acrítica dos relatos dos integrantes dessa história enquanto fatos inquestionáveis sobre os acontecimentos. Ausentes dos tecidos moles, restos mumificados e todo o material que, como os pormenores dos acontecimentos, são levados mais facilmente pela ação do tempo, apenas os ossos dos crânios dos cangaceiros chegam neste momento. Essa distância temporal, ao mesmo passo que afasta as paixões que ofuscam a análise da história social dessas cabeças, dificulta a análise científica da materialidade dessas evidências por conta de seus trajetos de salvaguarda. Essa dificuldade acaba fazendo coro àqueles que nas décadas de 1950 e 1960 questionavam os legistas, contrários ao sepultamento das cabeças, sobre o que a ciência ainda poderia dizer a respeito desse material e impedindo, assim, seu “descanso” em algum cemitério.

Sobretudo, é esse o momento em que, para além da história social do cangaço, reassume lugar preponderante a reflexão a respeito do lugar de partes humanas em exposições museológicas, principalmente aquelas resultantes de atos e discursos violentos. Como aponta Tarle (2020), a produção de coleções de remanescentes humanos e a subsequente exposição são fruto do dualismo entre corpo e mente produzido pela ontologia ocidental. Sobretudo enquanto forma de reforçar a lógica colonial de modo que a coleta de corpos sem consentimento “era socialmente aceita porque era aplicada a indivíduos “desajustados”, “desviantes” ou marginalizados - como criminosos, pobres, desviantes sociais e membros de “raças” não brancas” (Tarle, 2020, p.25).

Da decapitação à construção de memórias no museu

Disputas narrativas tanto sobre a memória quanto sobre as evidências materiais e imateriais do banditismo ao tempo de Lampião e Maria Bonita ainda hoje encantam e fascinam o imaginário popular. Oitenta e cinco anos depois das mortes em Angicos, em 2023, uma das maiores paradas carnavalescas do Brasil viu a escola de samba Imperatriz Leopoldinense ser coroada campeã com alegorias no intuito de recontar a história de Lampião. São feitas referências às cabeças cortadas (Figura 8) no carro intitulado “Dia 28: rebuliço no olhar do mamulengo”.

Figura 8
Dia 28: rebuliço no olhar do mamulengo.

A centralidade de Lampião e Maria Bonita nas narrativas pode ter explicação ao se assumir um projeto imagético que teria sido o primeiro, ou ao menos o mais bem-sucedido, a utilizar “modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura original, principalmente a imprensa e a fotografia” (Grunspan-Jasmin, 2006, p.19). Para além disso, é importante ter em vista que mesmo com o aumento da coerção e da dificuldade nas operações dos cangaceiros, é possível perceber como Lampião “pudiera dar una sobrevida al cangaceirismo, en caso de que viviera algunos años más”, de modo que, após sua morte, o vácuo deixado pela importante figura do organizador, líder e figura mítico-simbólica, acabou levando à rendição dos outros cangaceiros (Pericás, 2014, p.220) - reafirmando a significância da imagem que Lampião projetava sobre si.

As conhecidas fotografias feitas por Benjamin Abrahão Botto (c.1890-1938),9 fotógrafo libanês, de Lampião e seu grupo foram, inclusive, utilizadas como salvos-condutos do próprio cangaceiro para o trânsito no sertão nordestino (Grunspan-Jasmin, 2006, p.29). Tudo isso conflui para a situação em que se

[...] aos olhos das autoridades da intelligentsia do litoral, Lampião simbolizou a brutalidade, e até mesmo o mal, uma alteridade absoluta que era preciso erradicar, uma espécie de doença da qual o Brasil precisava ser curado, para uma parte da população do sertão ele encarnou, na mesma época, valores como a bravura, o heroísmo, o senso da honra. (Grunspan-Jasmin, 2006, p.18)

Mas a opinião pública, de jornalistas e autoridades policiais dava o tom do senso comum sobre os cangaceiros. Quando da chegada das cabeças do bando de Lampião ao IML de Maceió, a comissão acadêmica de estudantes da Faculdade de Direito do Recife (Figura 9) entregava em seu relatório o seguinte agradecimento:

Os estudantes da “Comissão Acadêmica Coronel Lucena” que sob os auspícios do Governo de V.Excia. e com a colaboração igualmente valiosa do Governo de Alagôas, realisámos uma viagem de estudos sobre o cangaço e extinção de Virgulino e parte de seu grupo, agradecemos á orientada noção de governo de V.Excia., o haver nos proporcionado essa oportunidade de estudar de perto, o mais angustioso dos problemas brasileiros, aquele a que nos propuzemos denominar a “LEPRA NACIONAL”. (p.1)

Segundo Elise Grunspan-Jasmin, (2006, p.30), é a partir de 1935 que a publicação, aceita pelo poder do Estado, das fotografias de cadáveres mutilados de cangaceiros ladeados por seus assassinos começa a aparecer na imprensa com grandes cuidados de encenação. O extermínio sistemático e a publicação das fotografias de corpos e cabeças chocavam-se com o projeto de imagem dos cangaceiros liderados por Lampião.

Não sendo a primeira vez que cabeças de inimigos da ordem pública no nordeste brasileiro são submetidas a exames antropométricos - sobretudo quando temos em vista a produção científica do pioneiro e fundador da escola brasileira de Antropologia Criminal Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) que, após seu livro As raças humanas (1894) se dedicou a escrever sobre “a relação entre raça e crime. Nesses textos, sempre defendeu a responsabilidade diferenciada como a melhor forma de tratar os casos criminais, para comprovar suas teorias, utilizava-se, sobretudo, de observações empíricas” (Rodrigues, 2015, p.1125) a respeito de Lucas da Feira e Antônio Conselheiro, por exemplo - Lampião, Maria Bonita e toda a repercussão e notoriedade que aglutinaram sobre si, parecem vir no momento em que essa linha teórica, como vimos, já muito readaptada não daria conta de fornecer informações significativas para o trato sistemático dos indivíduos no intuito de enquadrá-los cientificamente enquanto bandidos.

Figura 9
Visita da “Comissão Acadêmica Coronel Lucena” ao necrotério público de Maceió, 1938.

Nos seis anos seguintes, os grandes centros urbanos do litoral do nordeste brasileiro revestiram as cabeças, até então cobertas das histórias e disputas narrativas sobre a atuação dos cangaceiros, com a opinião e os exames dos médicos responsáveis pela medicina legal no país juntamente dos tecidos moles mumificados. Após o primeiro exame realizado no IML de Maceió, pelo Dr. José Lages Filho em 1938, sob o disfarce de “latas de manteiga de dez quilos” (Silveira apud Araujo; Bonfim, 2019, p.192) (Figura 10), o Dr. Arnaldo Silveira levaria as duas cabeças para Salvador, nesse mesmo ano.

Em 1944, passaram a fazer parte do Museu do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues ficando até 1969. Nesses anos, o saldo do confronto de narrativas sobre a vilania ou heroísmo, sobretudo centrado na imagem de Lampião, ganha o foco. Toda a sorte de profissionais se manifestou e ainda se manifesta sobre essas cabeças, como veremos a seguir. Talvez por conta de toda a gama de tópicos envolvidos nesses acontecimentos.

É importante destacar que, na época em questão no Brasil, as considerações éticas e a conservação dos bens musealizados não tinham os padrões atuais adotados pelos órgãos reguladores e diretores da museologia. Isso é particularmente notável devido à ausência de uma discussão abrangente sobre a necessidade de exibir tais corpos de maneira humanizada, o que só se desenvolveria décadas mais tarde. O que se observa aqui, em consonância com o contexto histórico, é a apresentação de corpos humanos intencionalmente alterados pela forma de conservação adotada na época.

Figura 10
Chegada das latas contendo as cabeças de Lampião e Maria Bonita em Salvador, 1938.

Na valiosa antologia de fontes para esse assunto feita por Araújo e Bonfim (2019), vemos a seleção de três opiniões de personalidades envolvidas e influentes. Antonio Muniz Sodré de Aragão (1881-1940), jurista e sociólogo baiano, juntamente de Estácio Luiz Valente de Lima (1897-1984) e Raimundo Brito (1900-1982) protagonizam essa discussão. Lima, que assumiu papel central no debate seguinte em relação à guarda dessas cabeças, visto como continuador da obra de Nina Rodrigues, faz coro a Brito quando conclui que é necessária a penetração da “civilização” nos rincões do cangaceirismo para que “aquele forte de Euclydes da Cunha, não acorra mais, ao aceno do Padre Cícero, nem calce as alpercatas dos Lampeões” (apud Araujo; Bonfim, 2019, p.144). Cientes da existência e avançado estado de decaimento das cabeças, as opiniões, assim como a matéria lutavam para arguir sobre o passado recente e sua íntima relação com a teoria antropológica criminal, ironicamente, há muito mumificada pela dificuldade de metrificar os fatores sociais aglutinados no estudo sobre o banditismo.

O terceiro momento é talvez aquele de maior foco sobre as cabeças per se. Na década de 1950 debateu-se junto de diversos elementos da sociedade a questão relacionada à exposição dessas cabeças. Matérias jornalísticas não falharam em documentar a realidade (Figuras 11 e 12). De um lado, aqueles que defendiam sua permanência em exposição, do outro, aqueles que, junto ao apelo dos familiares, reclamavam a devolução dessas cabeças.

Expor corpos não é uma atividade nova, essa necessidade de mudança no discurso museológico das cabeças de Lampião e Maria Bonita não surge de forma isolada. Na década de 1950, o cenário dos museus, no Brasil, estava em um processo de estruturação e fortalecimento, abrangendo várias profissões e consequentemente várias trocas de ideias e conceitos. Esses indivíduos contribuíam com práticas e visões relacionadas aos museus e à educação neles presentes. Eventos como o Primeiro Congresso Nacional de Museus, em 1956, e o Seminário Regional da Unesco sobre a Função Educativa dos Museus, em 1958, fomentaram a troca de experiências nos museus brasileiros naquela época (Faria; Possamai, 2018). Na mesma década, a concepção de patrimônio, intrinsecamente ligada ao campo da museologia, ampliou-se notavelmente. Essa expansão gradual abarcou todo o conjunto de provas materiais associadas à humanidade e ao seu ambiente (Desvallées; Mairesse, 2013). Através da análise das discussões no campo museal e do contexto de estruturação dos museus no Brasil, na década de 1950, é evidente que as transformações nas concepções de patrimônio e as trocas de ideias ocorridas em eventos citados influenciaram não apenas as práticas educativas e a visão dos museus, mas também a própria maneira de expor objetos, refletindo um período de evolução e mudanças significativas no cenário museológico brasileiro.

O processo de musealização, ao retirar a função original do “objeto”, aqui um corpo humano, e atribuir-lhe uma nova função alinhada ao discurso museológico elaborado pelos curadores, exemplifica uma ressignificação presente na contemporaneidade. Essa abordagem pode auxiliar na perspectiva mais humanística dos corpos, transcendendo seu papel de meramente como documentos e explorando suas dimensões mais profundas.

Figura 11
Dr. Charles Pittex, diretor do IML Nina Rodrigues, com as cabeças de Lampião e Maria Bonita.

Figura 12
Cabeça de Lampião.

O ano de 1959 apresentou eventos para os quais a adesão pública se fez argumento de autoridade (Figura 13) na representação feita por juristas, políticos, militares e religiosos. O comparecimento do Dr. Estácio de Lima à Câmara Municipal de Salvador, em 1959, para dar explicações sobre a conservação das cabeças dos cangaceiros no museu do IML Nina Rodrigues, as séries de reportagens e entrevistas com personalidades, ligadas à polêmica das cabeças, em periódicos baianos e, sobretudo, uma mesa redonda transmitida via rádio na Bahia fazem desse ano um marco central para o terceiro momento da “mortigrafia” de Lampião e Maria Bonita.

Figura 13
Cabeças de Lampião e Maria Bonita no Museu Nina Rodrigues.

A lógica desse debate precisa ser entendida dentro da chave da guarda das cabeças. Os principais argumentos de ambos os lados se valiam de convencer a opinião pública sobre a quem deveria pertencer essas cabeças: à família ou ao museu. Sob o argumento das cabeças pertencerem ao patrimônio histórico nacional, Estácio de Lima assume quase que só a defesa do pertencimento desse material, enquanto, sob os argumentos de direito da família sobre os corpos de seus antepassados, vilipêndio ao cadáver e impotência científica de análise do material, figurava um grupo heterogêneo de interessados.

Segundo Araújo e Bonfim, em sua exposição, o “prof. Estácio de Lima declarou que se as pretensões para inumação da cabeça de Lampião e de seus companheiros se avolumassem na Bahia, ameaçando o patrimônio do Museu, seria forçado a cedê-las a organização congênere de São Paulo”, pois não seria razoável enterrar um patrimônio que atua “como um protesto histórico contra as injustiças que engendraram os cangaceiros” (Araujo; Bonfim, 2019, p.180). Na disputa que se sucederia via rádio, nota-se a disparidade numérica dos lados. Estácio era o único a defender veementemente a permanência das cabeças. Alguns outros, como Arnaldo Silveira, responsável por levar as cabeças a Salvador, o deputado padre Luiz Palmeira e o funcionário público Osmar Dantas Vidal, reconheceram e validaram os argumentos de Estácio, mas quando pressionados pelo estado de conservação física das cabeças inclinavam em prol do sepultamento.

Por fim, na miríade de acusadores, poderíamos citar os familiares de Lampião e Maria Bonita, representados pelos primos de Lampião o advogado Antônio Ferreira Magalhães e Manoel Ferreira de Lima, os deputados Francisco Assis de Barros, Francisco Julião, José Francisco, Elpídio Branco, padre Luiz Palmeira, Antonio Brito. O vereador Paulo Moreira, o soldado Antônio José dos Santos, o padre Gaspar Sadock, o funcionário da Câmara Municipal e radialista Irênio Simões, o então estudante de direito Jorge Medauar, posteriormente deputado federal, e o governador Juracy Magalhães também compunham aqueles contrários à conservação das cabeças. Assistiram ao debate, ainda, o sociólogo Acácio Ferreira, o crítico de arte Vivaldo Costa Lima e o diretor do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, professor Magalhães Neto (Araujo; Bonfim, 2019, p.179-96).

Estácio de Lima, ao que tudo indica, lograva vitória por sua argumentação centrada na ideia de que “os “grandes e impetuosos delinquentes eram passíveis de plena reabilitação, pois se distinguiam dos criminosos vulgares e malandros dos grandes centros; eram antes “criaturas graves, de alma empedernida e de coração delicado” (p. XIV)” (Lima, O Estranho Mundo dos Cangaceiros, 1965 apud Pinto, 1967, p.118). Se acusavam-no de perpetrar a mefistofélica exposição das cabeças, de ser a ciência incapaz de gerar informações a partir do material, Lima apontava a crueldade na execução e a ausência de esforços na reintegração dos cangaceiros como motivo da incômoda exposição. Certo é, como indica Nadai (2018, p.224-6), que a “escola Nina Rodrigues” influenciou e gerou um sentido de coletividade entre os representantes da medicina legal brasileira - o que verificamos pela fala de Estácio sobre sua vontade de enviar as cabeças à São Paulo caso o volume de queixas sobre a exposição ameaça-se o patrimônio que elas representavam. No repertório argumentativo daqueles que combatiam o professor Estácio de Lima, vem à tona a questão do estado da matéria como principal argumento. Nesse sentido, não nos é estranho que Lima publique em seu livro de 1965 imagens de radiografia das cabeças dos cangaceiros, incluindo, Lampião e Maria Bonita (Figura 14). Afinal de contas, era a legitimidade da pesquisa científica o último istmo argumentativo que legitimava a vontade de guarda das cabeças sob a autoridade do Museu do IML Nina Rodrigues.

Britto (2018) aponta o Projeto de Lei n.2.867, apresentado na Câmara dos Deputados em 24 de maio de 1965 (Figura 15), como marco nos debates no campo da Museologia a esse respeito. Como justificativa para esse projeto de lei, posteriormente engavetado, são empregadas leituras que identificam uma união de interesses, já apresentados, dos familiares dos cangaceiros, jornalistas, pesquisadores com os interesses do governo ditatorial vigente de se afastar da utilização da mutilação como modo de repressão exemplar. O autor corrobora com a análise de Ordep Serra (2006) a respeito dos propósitos, fortemente fundamentados na argumentação de Estácio de Lima, da exposição das cabeças no Museu Estácio de Lima articularem a manutenção de uma infâmia para preservar sua lembrança, algo que, segundo Serra, não “parece coisa muito inteligente. Nem muito Ética” (Serra, 2006, p.317).

Todavia, é Serra (2006, p.314) quem indica que o “mais forte instrumento retórico da exposição evocada era o silêncio do seu discurso”. O discurso tácito, dono de tanto atavismo quanto às propostas antropológico-criminais, parece ser o grande responsável por tantas acusações e intrigas. Como reconhece Serra (2006, p.322):

Figura 14
Radiografias de Lampião e Maria Bonita.

Figura 15
Projeto n.2.867, de 1965.

Suponhamos, porém, que se encontrem motivos mais lógicos para manter esses bens sob a guarda do Estado. Podem-se conjeturar razões menos frágeis para tanto: afinal, os objetos em apreço foram tombados, tornaram-se bens públicos (ainda que ilicitamente) e haveria o interesse da ciência em seu estudo e preservação. Nesse caso, o mínimo que seria de esperar da instituição guardiã é que efetivamente os guardasse e preservasse. Expô-los e depois ocultá-los sem explicações - ou pior, permitir que sumam - é inadmissível.

O projeto de lei apresentado dessa forma aparece como um marco para os debates acerca do que Britto (2018, p.109) nomeou como “consumo do trágico”. Nesse sentido, o que entra em jogo é a necessidade de uma postura e posicionamento das instituições responsáveis. Muito se fala sobre ética em museus, mas pouco se avança em direção de diretrizes e delimitações a esse respeito. Sobretudo em relação aos remanescentes humanos, a tarefa recai exclusivamente sobre as instituições que os guardam, ressaltando um certo consenso sobre a pesquisa histórica, que afasta anacronismos e teleologias, a responsável por evidenciar os parâmetros éticos sobre as questões sobre remanescentes humanos em coleções e museus (Closs; Veras; Lima, 2023).

Controvérsias e reflexões contemporâneas

O quarto momento se destaca por seu estudo mais detido de relatos pessoais, dos matizes político-ideológicos envolvidos, sem deixar de apresentar uma nova visão, agora mais humanizada, sobre o tratamento desses remanescentes humanos. Nesse estágio, restam apenas os ossos dos crânios dos cangaceiros, após a decomposição dos tecidos moles e a preservação do material mais durável.

Ainda hoje, perícias são feitas nos vestígios materiais dos cangaceiros. Em laudo pericial (n.0982.19.1122.19), o Instituto de Criminalística Perito Dely Ferreira da Silva, da Secretaria de Estado da Segurança Pública do estado de Alagoas, conclui:

[...] que as avarias registradas [nos pertences dos cangaceiros] e descritas neste laudo possuem características compatíveis com impactos e perfurações de projétil de arma de fogo, não sendo possível determinar a cronologia entre os disparos e nem o calibre dos projéteis que atingiram os objetos analisados. (Laudo Pericial n.0982.19.1122.19, 2018, p.13)

Mesmo que muito se tenha escrito a respeito das reflexões éticas de remanescentes humanos em museus, o quarto momento da “mortigrafia” de Lampião e Maria Bonita evidencia a perpetuação daquilo que julgamos ser o verdadeiro “consumo do trágico”. No entanto, o vazio discursivo originado do medo de enfrentar essas questões propicia o espaço necessário para a proliferação de discursos, veiculados pela imprensa, que visam propagar as controvérsias e o mal-estar de uma herança violenta adsorvida nestes remanescentes humanos.

Os remanescentes humanos, ressignificados como testemunhos de práticas científicas, exemplos pedagógicos ou símbolos de memória coletiva, acionam impasses justamente por redefinir o estatuto do corpo, que deixa de ser apenas pessoa para se tornar também objeto. Clegg (2020) sugere que a contextualização histórica, subdividindo os remanescentes humanos entre recém-mortos, recentemente falecidos, ajuda a delimitar parâmetros mínimos de análise.

Ao contrário de remanescentes arqueológicos, de contextos muito distantes de conceitos-chave para a delimitação de parâmetros éticos, exposições médicas e etnográficas dos séculos XIX e XX inseriram crânios, múmias e corpos inteiros sob a lógica da curiosidade científica e da classificação biológica. Foucault sugere que essas práticas devem ser entendidas sob a ótica do biopoder, no qual “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade” (Foucault, 1976, p.126). Como observa Trish Biers (2023, p.79), “museus que exibiam corpos e partes de corpos, especialmente crânios, […] estavam alinhados com a exploração e a classificação da natureza e da biologia, bem como com o racismo científico e a mercantilização dos mortos”. Ao mesmo tempo em que reproduziam conhecimento e as narrativas hegemônicas, essas práticas autorizavam hierarquias sociais e raciais, contrastando criminosos, pobres e desprivilegiados com corpos célebres ou divinizados.

Nesse ponto, a museologia contemporânea propõe desmentir a neutralidade ingênua de um suposto olhar do corpo como mero objeto, pois essa objetificação atinge especificamente aqueles corpos de indivíduos previamente marginalizados, para compreendê-lo em sua dupla condição: documento científico e vestígio biográfico. Cat Irving (2023, p.33) expressa esse paradoxo ao afirmar que

[...] não se trata apenas de um objeto. Trata-se também de um tecido que já foi parte de um ser humano e, para mim, essa manutenção não é necessária apenas para garantir a continuação da preservação do tecido, mas também […] preservar a dignidade da pessoa que ele já foi. (tradução nossa)

Esse cuidado, contudo, não se restringe à preservação física. Segundo Miguel Leal (2015, p.307), o discurso museológico é a ferramenta essencial para retirar os remanescentes de um estado “vegetativo entre a vida e a morte” e reinscrevê-los em uma narrativa que lhes restitua significado.

Experiências internacionais atuais também demonstram a complexidade da interação entre público e restos humanos. Em um estudo realizado entre 2017 e 2019 no Mütter Museum revelou-se que ao observar crânios, fetos e órgãos preservados, os grupos de crianças não estabeleciam relações com as biografias dos indivíduos que lhes deram origem: “nenhum dos comentários se referia aos indivíduos cujas partes do corpo estavam em exibição” (Divaker; Kerr, 2019, p.476, tradução nossa). Esse distanciamento evidencia a necessidade de reforçar o discurso curatorial para que a narrativa não se restrinja à dimensão anatômica, mas inclua as histórias de vida e morte que cada remanescente encerra.

Nesse sentido, a noção de “morte social” pode ajudar a compreender os riscos de tal negligência. Hallam e Hockey (2001, p.44) definem “morte social” como a ruptura entre a interação social e a comunicação, privando o corpo de seu estatuto de pessoa e reduzindo-o a mero objeto. Preservar o corpo sem preservá-lo como sujeito é condená-lo ao apagamento. Isso implica reconhecer sua dupla biografia: como pessoas, portadoras de direitos, personagens ativas da história, e como objetos que circulam e atuam indiretamente nos processos históricos através de sua exposição. “A biografia de um objeto não estagnou quando este chegou ao museu. No entanto, a sua incorporação na coleção foi talvez o acontecimento mais significativo” (Alberti, 2005, p.565, tradução nossa). Dessa forma, é dever das instituições que guardam esses remanescentes assumir o compromisso de proteger simultaneamente a integridade material e a dignidade simbólica desses fragmentos humanos.

Em suma, não se trata de ser certo ou errado expor a materialidade humana post-mortem, mas de que maneira contar a história dos remanescentes humanos de forma ética, responsável e crítica, pois o silêncio e a omissão revelam-se, talvez, mais nocivos do que a tarefa difícil de elaborar esses discursos. O desafio museológico contemporâneo está em mobilizar narrativas de trajetórias humanas, científicas e culturais, reconhecendo nelas não só objetos, mas testemunhos de vidas que, uma vez doadas ou apropriadas, permanecem interpelando a sociedade. O privilégio de acessar essa materialidade exige, portanto, o mais comprometido comportamento ético. Algo que não se faz autoritariamente. Podemos encontrar essa ideia nas próprias definições fundamentais da Museologia. Diferentemente da moral, baseada em normas externas, a ética se remete a valores constantemente revistos e adaptados à realidade social (Desvallées; Mairesse, 2013, p.40-2). Dentro do universo museal, ela funciona como guia para decisões sobre aquisição, conservação e exibição. Isso significa que a manutenção de restos humanos em coleções não pode ser naturalizada, mas deve ser problematizada a partir de princípios que envolvem responsabilidade profissional, cooperação com comunidades e compromisso com a dignidade dos mortos. Indo de encontro com muitas das ideias contidas dentro da própria definição de museus atual.14

A ausência de narrativas oficiais de instituições museológicas propicia a espetacularização do trágico. Na matéria publicada pela Revista Época (Cordeiro, 2002),15 em 24 de junho de 2002, que versava sobre a trajetória das cabeças de Lampião e Maria Bonita, ano de sua exumação no Cemitério Quinta dos Lázaros de Salvador, Bahia, não faltaram as marcas dos momentos anteriores aqui apresentados. Aparecem, portanto, a mística da atuação dos cangaceiros, expressa sob a frase “anos perambulando pelo sertão” - característica do primeiro momento; a tentativa de “comprovar a teoria do médico italiano Cesare Lombroso” - característica do segundo momento; e o confronto entre a opinião de que Lampião e Maria Bonita ainda “não puderam descansar em paz” contra a concepção de que, segundo o médico legista Lamartine Lima, essas “cabeças são patrimônio histórico e estão correndo risco” - característica do terceiro momento. Fundamental, todavia, é reparar que essa publicação, talvez, inaugure a marca definitiva do quarto momento: a orientação de controvérsias sobre essas cabeças em função de sua trajetória.

Aproximadamente vinte anos depois, outra reportagem eclode justamente no momento em que uma aproximação entre os familiares e instituições de pesquisa originou este estudo. É extremamente sintomática a presença dessas mesmas características elencadas constarem na publicação da jornalista Adriana Negreiros,16 de 19 de setembro de 2023, no periódico digital Tab UOL. Em depoimento de Gleuse Ferreira, bisneta de Lampião e Maria Bonita, a publicação apresenta a pesquisa realizada nas dependências da Faculdade de Medicina da USP como “um convênio entre a faculdade e o Instituto Banese (Banco do Estado de Sergipe) para análises de DNA, tomografia, reconstituição das ossadas e reconstrução em 3D”. Sob o pretexto de enigmas, “doidos para tudo” e “capítulos tenebrosos e espetaculares do cangaço” confirma-se a permanência da grande característica deste quarto momento. A memória de uma mística do “casal de cangaceiros mais célebre da história”, os “estudos frenológicos [que] estavam em alta entre médicos e antropólogos” e a vontade de Estácio de Lima de manter a guarda das cabeças frente a “campanha promovida pelos jornais Diários Associados levou ao sepultamento dos remanescentes do casal e de outros cangaceiros”, aparecem nesta publicação permeadas por anúncios de produções cinematográficas a respeito do cangaço. Não somente, o consumo desse passado trágico acaba se expandindo a acontecimentos mais recentes. A exumação dos crânios, o interesse de pesquisa de nomes suntuosos na investigação acerca do cangaço, como o de Amaury Corrêa de Araújo (1935-2021), a ambiguidade na legislação brasileira sobre o trato de remanescentes humanos, algo que se replica para instituições museológicas, a própria vontade de erigir um espaço dedicado à memória do cangaço e as crescentes discussões sobre decolonialidade em museus aparecem nessa amálgama bricolada pela insinuação de uma morbidez pertinente ao estudo dessas cabeças. Vemos, assim, que o consumo do trágico se inicia muito antes da instituição museológica. Muito antes, inclusive, de seu surgimento neste caso. Negreiros (2023) compila opiniões acerca do estudo:

“Do ponto de vista científico, acho que não vai ter nenhuma novidade”, afirma o médico Leandro Cardoso, o que diz ter visto as cabeças na casa de Vera Ferreira. Lamartine Lima, que esteve com as cabeças no IML nos anos 1960 e no cemitério em 2002, pensa diferente. “A ciência não tem limite”, afirma. “Ainda há alguma pergunta a ser respondida?” Pode ter. “Eis mais um mistério a ser solucionado - ou não - nos próximos capítulos da história do cangaço”.

Em entrevista aos pesquisadores responsáveis por este estudo,17 Expedita Ferreira Nunes, e Gleuse Ferreira e Vera Ferreira, respectivamente filha e neta de Lampião e Maria Bonita, contribuíram para o entendimento de algumas dessas questões. Quando questionada sobre os planos com relação aos crânios, Vera disse: “A minha vontade era enterrar, se tivesse os corpos e as cabeças era minha vontade. Mas os corpos não existem, foram enterrados na cova rasa e ninguém encontra mais nada”.

Em seguida complementa ela dizendo que “às vezes eu penso enterrá-los, mas depois de tanto trabalho que eu vou ter cientificamente, eu acho que seria um crime enterrá-los”. Vemos, aqui, como os impasses gerados ao longo das décadas e, sobretudo, do terceiro momento da “mortigrafia” se confirmam na opinião dos familiares. Não parece ser, então, mera atribuição de uma análise do discurso. Esse mal-estar e as controvérsias se apresentam como resultados de uma sociogênese responsiva aos traumas oriundos de violências que encontram no cangaço um exemplo notório. Não foram apenas cangaceiros que compuseram a exposição no IML Nina Rodrigues (Serra, 2006), mas sua repercussão, certamente, fez do caso de Lampião e Maria Bonita um caso de inegável representatividade em relação ao sentimento de perpetuação de violências pela apropriação do patrimônio integral relacionado a eles. É Vera quem discorre sobre as propostas em relação aos crânios:

Veja bem, o que eu sempre pensei em relação às cabeças é como se fossem aliadas de todos os acontecimentos. Tá, elas estão aí, são a prova concreta de uma história. Você entendeu? Essa sempre foi a minha visão. É aliar isso, uma peça fundamental para a história. Eu estou aberta a debates com todos, com os historiadores. Isso é importante, né? Chegar a um consenso. A minha visão é essa, essas cabeças são importantes para a história que eles veem e pensam [...]. A cada ano, a cada momento, as pessoas têm mais interesse em saber, mas vai ficando mais distante. Tem gente que pensa que minha mãe é a neta de Lampião e nós, as bisnetas. Criando um museu, podemos contar essa história para que as pessoas interajam com ela. Uma outra coisa que penso é que não necessariamente precisem ser os crânios originais, poderiam ser réplicas e ninguém vai duvidar, já que ali estarão as assinaturas de vários profissionais.

É interessante notar como a consciência da necessidade de se enfrentar discursos midiáticos e pouco compromissados com a história através do diálogo, da aproximação das pessoas com a história, da avaliação a respeito da ética expositiva e da validação do conhecimento científico. Parece, dessa forma, que mesmo que remanescentes humanos possam gerar desconfortos, a pesquisa acerca da história e o diálogo com a sociedade pode garantir uma relação ética entre as instituições museológicas e esses mesmos remanescentes. Para esse caso, que talvez seja o marco inicial das discussões sobre a ética e deontologia de remanescentes humanos e museus no Brasil, a solução ainda não esteja dada, vide a magnitude da influência que imprimem em uma discussão na qual o campo da Museologia ainda caminha incipientemente. Quantos anos até a próxima matéria que insistirá na morbidez dessa história ao invés de anunciar tentativas de reaver a dignidade humana aos remanescentes humanos e a memória à qual se ligam?

Considerações finais

A musealização das cabeças de Lampião e Maria Bonita destaca questões éticas e científicas relacionadas à preservação de remanescentes humanos, evidenciando os limites entre ciência e respeito à dignidade dos indivíduos. Exames científicos realizados tentaram comprovar teorias criminológicas da época, mas também enfrentaram críticas ao ignorarem o contexto social que moldou as ações dos cangaceiros. Essa trajetória reflete ainda o consumo do trágico, em que a morbidez em torno de suas histórias alimentou produções culturais e midiáticas, perpetuando um imaginário social que mescla fascínio e desconforto.

O tratamento dado a Lampião e Maria Bonita também revela as relações entre o cangaço e os projetos políticos do regime de Getúlio Vargas, que utilizou a perseguição aos cangaceiros como instrumento para consolidar o poder e combater ameaças à ordem, aprofundando desigualdades sociais no sertão nordestino. Nesse contexto, as cabeças do casal tornaram-se objeto de debates sobre conservação e musealização, levantando questões sobre sua importância como patrimônio histórico e os limites éticos dessa preservação. Esses debates expõem a transição de práticas museológicas, que passaram de discursos que reforçavam a vilania para abordagens mais humanizadas e reflexivas, evidenciando a necessidade de os museus despontarem como as legítimas instituições responsáveis pela questão dos remanescentes humanos enquanto patrimônio cultural e indivíduos portadores de direitos.

Agradecimentos

Os autores agradecem à família de Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938) e Maria Gomes de Oliveira (1910-1938) pela confiança na competência para execução da investigação e trabalho técnico. Agradecem também ao Museu da Gente Sergipana e ao Instituto Banese pela facilitação nos tramites necessários para a plena execução dos trabalhos. Agradecem, ainda, à colaboração do professor Gregório Cardoso Tápias Ceccantini na aquisição de imagens de todo o processo técnico dos trabalhos aqui realizados. Por fim, agradecem, também, à FMUSP e ao Laboratório de Investigação Médica 40 (LIM40-HCFMUSP) pelo assessoramento e orientação nas tratativas institucionais necessárias para o pleno desenvolvimento legal das investigações e trabalhos aqui apresentados.

Referências

  • ALBERTI, S. J. M. M. Objects and the Museum. Isis, v.96, n.4, p.559-71, 2005. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/10.1086/498593>.
    » http://www.jstor.org/stable/10.1086/498593
  • ALVAREZ, M. C. A criminologia no Brasil ou como tratar desigualmente os desiguais. Dados, v.45, n.4, p.677-704, 2002.
  • ARAÚJO, A. A. C. Lampião: herói ou bandido? São Paulo: Claridade, 2009.
  • _______. Maria Bonita. Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2011a.
  • _______. Maria Bonita: A mulher de Lampião. Coleção Gente da Bahia. Salvador: Alba (Assembleia Legislativa da Bahia), 2011b.
  • _______. Lampião, as mulheres e o cangaço. São Paulo: Traço, 2012.
  • ARAÚJO, A. A. C.; BONFIM, L. R. F. A. Lampião e as cabeças cortadas. São Paulo: Editora Graf Tech, 2019.
  • BIERS, T. Engaging with Death in Museum and Cllections. In: BIERS, T.; CLARY, K. S. (Org.) The Routledge Handbook of Museums, Heritage, and Death. New York: Routledge, 2023.
  • BRASIL. Decreto n.4.864, de 15 de junho de 1903. Aprova o regulamento sanitário federal. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1900-1909/decreto-4864-15-junho-1903-508952-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 10 jan. 2025.
    » https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1900-1909/decreto-4864-15-junho-1903-508952-publicacaooriginal-1-pe.html
  • _______. Laudo n.0982.19.1122.19. Tiros em Lampião. Disponível em: <https://www.historiadealagoas.com.br/wp-content/uploads/2019/07/Laudo-0982.19.1122.19-Tiros-em-Lampi%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2025.
    » https://www.historiadealagoas.com.br/wp-content/uploads/2019/07/Laudo-0982.19.1122.19-Tiros-em-Lampi%C3%A3o.pdf
  • BRITTO, C. C. Revisitando uma “coleção de cabeças”: notas sobre a musealização de restos mortais do cangaço. Sociedade e Cultura, v.21, n.1, 2018.
  • ________. Pedagogia do abjeto: reflexões sobre restos mortais do cangaço em museus brasileiros. In: BRITTO, C. C.; QUEIROZ, M. S. (Org.) O trágico nos museus: Perspectivas sobre colecionismos, memória e morte. Brasília: Editora UnB, 2022.
  • CANCELLI, E. A leniência e Vargas: falas da História. Estudos Históricos, v.33, n.71, p.448-68, set. 2020. https://doi.org/10.1590/S2178-14942020000300002
    » https://doi.org/10.1590/S2178-14942020000300002
  • CARVALHO, M. C. M. A espetacularização de cadáveres: a musealização de restos dos cangaceiros no Museu Antropológico Estácio de Lima. 2019. São Paulo, 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.
  • CHANDLER, B. J. Lampião: o rei dos cangaceiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
  • CLEMENTE, M. E. A. Fotografia e história: imagens fotográficas do cangaço. In: XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA - 2007, São Leopoldo, RS.
  • CLEGG, M. Human remains: curation, reburial and repatriation. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. DOI: 10.1017/9781316161654.
    » https://doi.org/10.1017/9781316161654.
  • CLOSS, J.; VERAS, M.; LIMA, J. Entre objetos e vidas: explorando a ética em museus e coleções de patologia. Cadernos de Sociomuseologia, v.66, n.22, p.49-58, 2023. https://doi.org/10.36572/csm.2023.vol.66.06
    » https://doi.org/10.36572/csm.2023.vol.66.06
  • CORDEIRO, T. Caveiras errantes. Época, São Paulo, n.214, jun. 2002.
  • DE TIENDA PALOP, L.; CURRÁS, B. X. The dignity of the dead: ethical reflections on the archaeology of human remains. In: SQUIRES, K.; ERRICKSON, D.; MÁRQUEZ-GRANT, N. (Org.) Ethical approaches to human remains: a global challenge in bioarchaeology and forensic anthropology. New York: Springer Cham, 2019.
  • DESVALLÉES, A.; MAIRESSE, F. (Ed.) Conceitos-chave de museologia. São Paulo: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2013.
  • DIVAKER, R. A.; KERR, M. M. Close encounters with death and disease: young visitor’s perspectives at the Mütter Medical History Museum. In: BYERS, T.; CLARY, K. S. (Org.) The Routledge Handbook of Museums, Heritage, and Death. New York: Routledge, 2023. p. 472-484.
  • FARIA, A. C. G.; POSSAMAI, Z. R. O campo dos museus no Brasil: indícios das relações instituídas em meados do século XX. Anais do Museu Histórico Nacional, v.50, p.13-29, 2018.
  • FERNANDES, L. C. Lampião, a medicina e o cangaço: aspectos médicos do cangaceirismo. S.l.: Editora Traço, 2005.
  • FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1976.
  • GRUNSPAN-JASMIN, E. Cangaceiros. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2006.
  • HALLAM, E. Anatomy Museum: death and the body displayed. London: Reaktion, 2016.
  • HALLAM, E.; HOCKEY, J. Death, memory and material culture. Oxford: Berg, 2001.
  • IRVING, C. Conserving the humanity of human remains. In: BYERS, T.; CLARY, K. S. (Org.) The Routledge Handbook of Museums, Heritage, and Death. New York: Routledge, 2023. p. 26-36.
  • LEAL, M. Estranheza e deslocação: notas sobre um Museu de História da Medicina. In: ALVES, M. V. (Org.) Imagens médicas: fragmentos de uma história. Porto: Porto Editora, 2001. p. 301-315.
  • LOMBROSO, C. et al. Criminal man. Durham: Duke University Press, 2006. https://doi.org/10.2307/j.ctv11vc7kd
    » https://doi.org/10.2307/j.ctv11vc7kd
  • MELLO, F. P. Quem foi Lampião. Recife: Stähli, 1993.
  • _______. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.
  • _______. Apagando Lampião: vida e morte do rei do cangaço. São Paulo: Global Editora, 2019.
  • _______. A guerra total de canudos. São Paulo: Escrituras, 2020.
  • NADAI, L. Entre pedaços, corpos, técnicas e vestígios: o Instituto Médico Legal e suas tramas. Campinas, 2018. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas.
  • NEGREIROS, A. USP reconstrói e faz exame de DNA em cabeças de Lampião e Maria Bonita. Tab UOL, São Paulo, 19 set. 2023. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2023/09/19/usp-reconstroi-e-faz-exame-de-dna-em-cabecas-de-lampiao-e-maria-bonita.htm>. Acesso em: 10 jan. 2025.
    » https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2023/09/19/usp-reconstroi-e-faz-exame-de-dna-em-cabecas-de-lampiao-e-maria-bonita.htm
  • OLMO, R. del. The development of criminology in Latin America. Social Justice, v.26, n.2 (76), p.19-45, 1999. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/29767133>.
    » http://www.jstor.org/stable/29767133
  • PERICÁS, L. B. Los cangaceiros: ensayo de interpretación histórica. Cuba: Editorial de Ciências Sociales, 2014.
  • PINTO, R. M. Estácio de Lima - o mundo estranho dos cangaceiros. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n.2, p.117-20, 1967. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i2p117-120
    » https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i2p117-120
  • ROCHA, M. Bandoleiros das Caatingas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.
  • RODRIGUES, M. F. Raça e criminalidade na obra de Nina Rodrigues: uma história psicossocial dos estudos raciais no Brasil do final do século XIX. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v.15, n.3, p.1119-35, 2015. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/XXXX>. Acesso em: 10 jan. 2025.
    » https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/XXXX
  • SANTELMO, A. Vida, aventuras e morte de Lampião e Maria Bonita. Rio de Janeiro: Livraria Antunes, 1954.
  • SERRA, O. Sobre psiquiatria, candomblé e museus. Caderno CRH, v.19, n.47, p.309-23, maio/ago. 2006.
  • TARLE, L. Exhibiting respect: investigating ethical practice for the display of human remains in museums. Burnaby, 2020. Tese (Doutorado em Arqueologia) - Faculty of Environment, Simon Fraser University,Burnaby, 2020.
  • WIESEBRON, M. L. Historiografia do cangaço e estado atual da pesquisa sobre banditismo em nível nacional (Brasil) e internacional. Ciência & Trópico, v.24, n.2, 2011. Disponível em: <https://periodicos.fundaj.gov.br/CIC/article/view/634>.
    » https://periodicos.fundaj.gov.br/CIC/article/view/634
  • Disponibilidade de dados de pesquisa
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação aos autores.
  • 1
    Para maiores detalhes, ver Santelmo (1954, p.701).
  • 2
    Para maiores detalhes biográficos, ver Mello (2004; 1993; 2019); Chandler (1981).
  • 3
    Para maiores dados biográficos, ver Araújo (2012; 2011a/b).
  • 4
    Para maiores detalhes. ver Araujo (2009).
  • 5
    Sobre a vida social das partes humanas expostas, ver Hallam (2016).
  • 6
    Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=003581 &pasta=ano%20195&pesq=Lampe%C3%A3o&pagfis=83460>. Acesso em: 13 abr. 2023.
  • 7
    Sobre a relação entre Canudos e o cangaço, ver Mello (2020). Sobre a relação entre a Antropologia Criminal e o Estado brasileiro, ver Alvarez (2002).
  • 8
    Nesses exames das cabeças de Lampião e Maria Bonita transparecem exatamente os sintomas de um Brasil que buscava uma taxonomia para o atavismo criminal. Comum aos dois casos, os comprometimentos de análise pela degradação das cabeças falam em prol de uma conservação precária ao longo do trajeto Angico-Maceió. Para além das descrições e medidas antropométricas, é interessante reparar como a taxonomia de Edgard Roquette-Pinto (1884-1954), legista brasileiro, no sobre “brasilianos xantodermos” aparece como suplente a um lombrosianismo inerte frente à ausência de deformidades cranianas e outros sinais característicos do criminoso nato que, nas palavras de Lages Filho, não “perdem a sua valia pelas sugestões que oferecem na apreciação da natureza deliquencial de Lampião” (Lages Filho, apud Fernandes, 2015, p.204). Em um período de conhecida decadência da teoria lombrosiana, a insistência em uma análise nacional sobre antropologia criminal se aproxima daquele supracitado ímpeto de impedir qualquer manifestação de desordem sobre o território nacional. Para mais detalhes sobre os exames, ver Fernandes (2005); Rocha (1988).
  • 9
    Instalado no Recife em 1915, tornou-se secretário particular de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero (1884-1934), conhecido por sua ligação biográfica com Lampião e o ciclo do cangaço. Notando a imagem mitológica que se formava com Lampião, associou-se com Ademar Albuquerque (1892-1975) para desempenhar a longa negociação que culminou com centenas de metros de gravações sobre Lampião e seu bando. O sucesso de suas imagens levou Lourival Fontes (1899-1967), nomeado por Vargas diretor do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC) em 1934, a ordenar a apreensão do material produzido. Sobre isso, ver Clemente (2007).
  • 10
    Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=003581 &pasta=ano%20195&pesq=Lampe%C3%A3o&pagfis=83460>. Acesso em: 12 fev. 2026.
  • 11
    Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=0035 81&pasta=ano%20195&pesq=Lampe%C3%A3o&pagfis=83460>. Acesso em: 12 fev. 2026.
  • 12
    Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=003581&-pagfis=124704>. Acesso em: 12 fev. 2026.
  • 13
    Disponível em: <https://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD05JUN19 - 65.p df#page=49>. Acesso em: 12 fev. 2026.
  • 14
    Disponível em: <https://www.icom.org.br/nova-definicao-de-museu-2/>.
  • 15
    Cf. Cordeiro (2002).
  • 16
    Disponível em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2023/09/19/usp-reconstroi-e-faz-exame-de-dna-em-cabecas-de-lampiao-e-maria-bonita.htm>. Acesso em: 12 fev. 2026.
  • 17
    Entrevista concedida por Vera Ferreira, Expedita Ferreira, Gleuse Ferreira [out. 2023]. Entrevistadores: Jô Veras Closs e Mariana de Carvalho Dolci. Aracaju, 2023.

Editado por

  • Editores
    Sérgio Adorno e Dario Luis Borelli

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação aos autores.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2026

Histórico

  • Recebido
    23 Set 2025
  • Aceito
    09 Fev 2026
location_on
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo Rua da Reitoria,109 - Cidade Universitária, 05508-900 São Paulo SP - Brasil, Tel: (55 11) 3091-1675/3091-1676, Fax: (55 11) 3091-4306 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: estudosavancados@usp.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error