Open-access Razão, técnica e (des)informação: os vetores das crises contemporâneas

BUCCI, E. Razão desumana: cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora). Belo Horizonte: Autêntica, 2025

Em 147 páginas e sete capítulos, o livro Razão desumana: cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora), de Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), publicado em 2025 pela Autêntica, toma como ponto de partida os impasses à racionalidade humana impostos pela técnica, ou pelo que chama “técnica além da técnica”, no tempo presente. Até que ponto a presença incontornável de tecnologias e sistemas técnicos, enquanto infraestruturas, ambientes e trampolins para informações de naturezas e intenções diversas, desafia diretamente a razão humana? De que forma aparatos técnicos, supercomputadores e inteligências artificiais subvertem a razão de humana para desumana? E onde reside a razão em tudo isso?

Esse parece ser um dilema antigo, mas impossível de ser totalmente superado, especialmente em um momento em que os efeitos dos usos de tecnologias e sistemas digitais são percebidos com rapidez crescente, abalando de forma igualmente veloz alguns paradigmas da democracia liberal e sociedades modernas. Como pensar em um mundo social e técnico baseado no sistema perito de Giddens diante da nova onda de pseudociência, intensificada desde a pandemia, ou em uma ideia de pluralismo político em que vozes contenciosas e reacionárias ocupam cada vez mais espaço na discussão pública e nos espaços institucionais? E como preservar a função informativa da imprensa quando milhares de canais e sites, muitos orientados pelo clickbait e desprovidos de responsabilidade editorial, espalham conteúdos sobre assuntos públicos, consumidos como se notícias fossem? E o que considerar desinformação? De onde partir para identificar causas e consequências de problemas estruturais multifatoriais complexos que afetam o jornalismo, instituições públicas e democracia hoje? São mais perguntas que aqui (re)faço após ler o livro.

Nesse horizonte, a obra de Bucci revela uma postura analítica irrequieta frente às transformações históricas, sociais, culturais e comunicacionais embaladas pela onipresença tecnológica e seus desdobramentos quase humanos, humanos e, no limite, até pós-humanos. Uma postura analítica e reflexiva sobre os impactos da técnica dos dias de hoje nas (re)configurações de paradigmas comunicacionais e epistemológicos. Em um compilado de textos oriundos de colunas de opinião e de palestras proferidas nos últimos anos, Eugênio Bucci, que também é jornalista, busca sentido para o que denomina uma “lógica destituída de humanidade” e “incomensuravelmente complexa” da realidade atual, mobilizando “contrapontos”, se assim lhe podemos chamar, como razão e sensibilidade, técnica e homem, informação e desinformação, ignorância e inteligência, bem como a ideia de uma cultura inculta, para abordar episódios que vão da pandemia da Covid-19 ao assassinato de George Floyd, passando pela crise de confiança no jornalismo e chegando à era da inteligência artificial generativa.

Como um elã argumentativo, a “razão desumana” de que fala Bucci seria capaz de articular linguagem, agir de forma autônoma, relacionar-se e cumprir tarefas tal qual a humana, mas apresentaria alguma dificuldade, ou mesmo incapacidade, de reconhecer(-se) no outro e vislumbrar consequências ao sopesar dimensões éticas, morais, simbólicas e culturais. É “razão” e é “desumana” porque, conforme sustenta o autor, trata-se de uma “técnica além da técnica”, que é “tão desumana quanto mais parece humana”. Eis, então, o dilema central da obra-ensaio: pensar essa tal razão desumana que “até parece sensível e por isso até parece humana”. “A razão desumana é o fantasma digital, o espírito que se liga na tomada e anda sozinho” (p.20). No mesmo ímpeto, a “desinformação” surge como mais um elemento contextual do mal-estar de época, apresentada como “um ambiente comunicacional que interdita o acesso ao conhecimento e gera um artefato no mínimo desconcertante: a “ignorância artificial”. Como observa o autor, tudo nesse ambiente desperta também intenso interesse e se transforma em entretenimento.

No primeiro capítulo, Bucci lembra o clima da pandemia da Covid-19, mostrando como ideias que pareciam promissoras sucumbiram à força da publicidade em meio às trágicas imagens de mortos nos telejornais. Aponta a curiosa e antiga profecia de que as civilizações são mortais, mas agora isto é acompanhado de uma intuição de que nós, populações, somos mais irrelevantes ou mesmo descartáveis. Da arte à universidade, na pós-pandemia, quase tudo o que é humano “parece coisa supérflua”. “Vidas humanas não apenas não geram riqueza, como podem importunar a conta. Entulho. Detritos industriais. Irrelevância existencial. Irrelevância material. Irrelevância metafísica. O humano ainda é um instrumento, mas cada dia mais descartável” (p.44). Anos depois, isso pode parecer exagerado, mas os mais de 700 mil mortos no Brasil vocalizam a indiferença institucional da política negacionista do governo Jair Bolsonaro, que espantou o mundo.

No segundo capítulo, Bucci aborda o fenômeno da desinformação. Como em um preâmbulo, discorre sobre a concepção de informação e de verdade factual à luz do Iluminismo e da matriz habermasiana da esfera pública. Em certa medida, informação e verdade, jornalismo e verdade, verdade factual e esfera pública aparecem equivalentes. Logo no início, discorda de quem pensa que uma mentira possa ser considerada informação, posicionando a verdade como parte constitutiva da esfera pública. Ao afirmar que “a desinformação esgarça, desfia e desagrega a esfera pública”, aponta, de um ponto de vista normativo, para o potencial de deterioração estrutural (não apenas pontual) ou uma força desagregadora (não apenas distorciva) da esfera pública. Ao fazer isso, opõe radicalmente informação e desinformação. Assim, por um lado, afirma que a informação dá acesso à verdade factual, nos termos de Hannah Arendt. Por outro, sublinha que a desinformação gera um colapso na esfera pública. Em suas próprias palavras:

A desinformação consiste no perfeito oposto de tudo aquilo que entendemos por informação. Onde esta pavimenta o caminho de acesso à verdade factual, aquela conduz à mentira, à ignorância dos fatos, ao apagamento da verdade e ao negacionismo. Se a informação invoca a razão no sujeito, a desinformação anestesia ou mesmo desativa a razão. Se a informação precisa da velocidade para ser eficaz - seguindo, com isto, o preceito da modernidade -, a desinformação se vale da velocidade para desfazer os fundamentos modernos da esfera pública. [...] Por meio da desinformação, a esfera pública se desfaz na velocidade da luz. (p.56)

Em “Verdade e Política” (Arendt, 1967), entretanto, ao desenvolver diretamente a noção de verdade factual como um acontecimento do mundo comum essencial à política, Arendt enfatiza a fragilidade da concepção de “verdade”, situando-a como parte vulnerável da propaganda política totalitária. O fato, assim como a verdade, pode ser distorcido, adulterado, fabricado, disputado por interesses divergentes e facilmente exposto a ataques e instrumentalização quando situado no campo da política. Essa perspectiva de Arendt, embora anterior, tensiona o ideal habermasiano de uma esfera pública sustentada por procedimentos comunicativos racionais, que orienta a reflexão de Bucci.

Como um contributo crítico, sugiro pensar que a desinformação, per si, não se reduz simplesmente à mentira, à distorção, à manipulação, mas remete a um tipo específico (e histórico) de prática propagandística, fortalecido tanto pelas tecnologias disponíveis e pela ubiquidade de conexões em redes em plataformas digitais quanto pela lógica de engajamento e monetização desses sistemas. Pelos mesmos motivos, fenômenos variados geram excesso, sobrecarga, ruído e engano, intensificados por essas infraestruturas algorítmicas interligadas e ferramentas digitais poderosas ao alcance de todos. Esses elementos afetam o fluxo de informações e a percepção pública de confiança, o que pode confundir, desorientar e influenciar, mas não equivalem automaticamente à desinformação, o que torna tudo mesmo mais complexo e confuso.

À luz dessa sobreposição de aspectos e da história, a situação se agrava. Talvez hoje não seja necessário recorrer a táticas clássicas de desinformação para alcançar efeitos semelhantes aos da propaganda do fascismo italiano ou do nazismo alemão. Como lembra Bucci:

Agora, os meios digitais entregam a mesma encomenda com eficiência ainda maior. Jamais a ligação direta do líder autoritário com as massas esteve tão fácil e tão azeitada. As redes sociais do século XXI são o sonho de consumo do bonapartismo do século XIX e dos fascistas e nazistas do século XX. (p.61)

Bucci observa que a “matriz publicitária” da comunicação digital contemporânea “carrega em si o DNA da propaganda fascista”. As experiências totalitárias europeias mostram o fascínio da publicidade e da propaganda para controlar as massas como “entes irracionais”, conceito de Gustave Le Bon (2020) que também inspirou estudos de Freud e reflexões filosóficas e sociológicas ao longo do tempo. A partir de Adorno, defende que, mais do que nunca, “o entretenimento melodramático, mesclado com a violência, fabrica a desinformação e tende ao fascismo” (p.64)tendo como palco principal algumas das empresas mais ricas do planeta.

No terceiro capítulo, Bucci discute uma concepção de cultura assimilada ao entretenimento, ou convertida em “indústria da diversão” pela técnica e pelo capitalismo. Quatro aspectos são apresentados como sintomas da atualidade. A noção de i. entretenimento fundamentalista designa a adesão estrita e literal ao entretenimento como valor absoluto da cultura. Bucci constrói a metáfora a partir da rigidez dos “fundamentos” da religião, sugerindo, com as escusas da minha interpretação, que o entretenimento opera como uma forma de crença. “Seu dogma essencial é o individualismo sem limites e seu rito é a adoração da mercadoria. O entretenimento é uma religião sem comunhão, sem possibilidade de comunhão” (p.77). Em seguida, com ii. infantilismo totalizante, a “infantilização do mundo” vem a reboque dessa sujeição absorta ao entretenimento. Essa tendência levaria os indivíduos a viverem um “hedonismo sem maioridade”, com dificuldade de realizar a “passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade” e, por isso mesmo, a permanecerem vulneráveis à força e à autoridade nas relações sociais e interpessoais.

Os terceiro e quarto sintomas da “cultura como experiência do comum”, como Bucci aborda, são, respectivamente, iii. a violência ritualística, e iv. a máquina como sujeito de linguagem. Na primeira, sustenta que não apenas a performance da violência se converte em linguagem, como também a própria cultura passa a ensejar oportunidades para sua encenação e circulação. Na segunda, reflete sobre como a linguagem, tipicamente humana, é hackeada, pirateada, sequestrada e sucateada pelas máquinas. “Uma tecnologia capaz de se apossar da linguagem humana tem tudo para tiranizar a cultura e, de resto, tem tudo para encilhar a humanidade inteira” (p.88), pontua o autor.

Essa discussão se conecta à do quarto capítulo, que começa a tecer as relações entre entretenimento e jornalismo, tendo como caso exemplificativo o assassinato de George Floyd, em 2020, um entre tantos crimes cometidos por policiais brancos nos Estados Unidos, denunciados há mais de uma década pelo Black Lives Matter. Bucci reflete sobre o papel decisivo da imagem do crime ao catapultar a atenção midiática mundo afora, para além da brutalidade em si que impediu um cidadão americano de respirar. Na fusão entre imaginário e simbólico, o assassinato de Floyd suscita uma reflexão sobre a dependência das visualidades no universo infinito das telas para que situações de gravidade extrema sejam reconhecidas como tais, bem como sobre o protagonismo do jornalismo na atribuição de sentido factual ao que circula nas mídias sociais. “Foi, portanto, pelo idioma do jornalismo, essa ilha do Simbólico cercada de Imaginário por todos os lados, que aquele vídeo entrou em circulação com indiscutível valor testemunhal” (p.100), afirma o autor. Por sua vez, no quinto capítulo, Bucci aponta preocupações quanto ao valor essencial das bibliotecas públicas diante das transformações digitais, do fetichismo tecnológico, da tendência à pós-verdade e do “combate” cada vez mais direto às chamadas fake news.

No sexto capítulo, Bucci examina a IA, não como inteligência propriamente dita, mas como ignorância artificial. Essa característica aponta tanto para seu potencial destrutivo - por exemplo, na predição de alvos e localizações em campos de guerra atuais - quanto para a sagacidade impenetrável das gigantes tecnológicas, que expandem seu poder não apenas político e econômico, mas também sobre a linguagem. Perguntas como “Quem está no comando? Para onde isso vai?” tornam-se fundamentais. No sétimo capítulo, o autor aborda o dilema da crise de confiança, refletida também no jornalismo, destacando a crescente adesão à onda anti-imprensa. Bucci observa que o sentimento antimídia, combinado à fadiga noticiosa, resulta de “um processo ativo, fabricado implacavelmente, com ajuda dos anônimos” (p.129), sustentado por fatores como carência afetiva e adesão à desinformação, em um contexto de crise epistêmica em nível macro. Para compreender essas transformações, o autor recupera a ambiência europeia e estadunidense desde o século XVIII, quando surgem o princípio da liberdade de expressão, a progressiva dissociação normativa entre imprensa e política partidária, e a distinção entre notícia e opinião que caracterizam o jornalismo moderno. Apesar disso, Bucci alerta para o encolhimento da imprensa nos últimos anos, não apenas devido à centralidade das plataformas digitais na (não) circulação de notícias, mas também em função da crise epistêmica e da expansão predatória do entretenimento, que redunda na “crise agônica da política democrática”. Chegamos, assim, a um marco confuso e obscuro, caso este “mundo sem jornalismo”, em seu sentido normativo, venha a prevalecer.


BUCCI, E. Razão desumana: cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora). Belo Horizonte: Autêntica, 2025.

Referências

  • ARENDT, H. Truth and Politics. The New Yorker, 25 fev. 1967. Disponível em: <https://www.newyorker.com/magazine/1967/02/25/truth-and-politic>.
    » https://www.newyorker.com/magazine/1967/02/25/truth-and-politic
  • BUCCI, E. Razão desumana: cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora). Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
  • LE BON, G. A psicologia das multidões. Lisboa: BookBuilders, jan. 2020.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editores
    Sérgio Adorno e Dario Luis Borelli

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2026

Histórico

  • Recebido
    15 Fev 2026
  • Aceito
    26 Fev 2026
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