Open-access O uso infantil dos verbos acabar, sair e saber: uma descrição léxico-gramatical

The children use the verbs acabar, sair and saber: a lexico-grammatical description

Resumo

Esta pesquisa descritiva aplica uma taxonomia verbal inédita proposta por Mário Perini em dados provenientes do corpus oral compilado de forma naturalística pelo grupo Corpus Oral Infantil Longitudinal. Em seu dicionário de valências verbais do Português do Brasil, Perini (s.d.) propõe uma categorização léxico-gramatical divergente da terminologia recorrente. Os 650 verbos presentes no dicionário são caracterizados a partir de um rol de 327 tipos inéditos de diáteses verbais. O presente estudo propõe-se a aplicar a referida taxonomia a usos verbais infantis registrados durante as conversas entre mãe e filho entre os primeiros 4 meses de vida e os 4 anos e meio de vida da criança. Assim, junto às ocorrências dos verbos acabar, saber e sair foram reconhecidas as diáteses que esquematizam os pares de papéis temáticos Agente-Tema/Paciente, Conhecedor/Coisa.conhecida e Agente-Tema/Fonte, respectivamente. Dessa exploração empírica, resultam reflexões sobre o dinamismo lexical e o alinhamento discursivo como fenômenos dialógicos na realização da transitividade verbal infantil.

Palavras-chave:
Uso verbal infantil ; Corpus oral ; Taxonomia diatésica ; Diálogos

Abstract

This descriptive research applies an innovative verbal taxonomy proposed by Mário Perini to data extracted in a naturalistic oral corpus compiled by the Corpus Oral Infantil Longitudinal group. In his dictionary of verbal valences for Brazilian Portuguese (unpublished), Perini introduces a lexico-grammatical categorization that diverges from conventional terminology. The 650 verbs included in Perini’s dictionary are characterized by an unprecedented set of 327 types of verbal diatheses. This study aims to apply this taxonomy to child verbal uses recorded in mother-child interactions from the child’s first four months of life up to four and a half years of age. Accordingly, the diatheses that schematize the thematic role pairsAgent-Theme/Patient,Knower/Known-Entity, andAgent-Theme/Sourcewere identified in the occurrences of the verbsacabar("finish"),saber("know"), andsair("leave"), respectively. This empirical exploration yielded reflections on lexical dynamism and discursive alignment as dialogic phenomena in the realization of child verbal transitivity.

Keywords:
Children's verbal use ; Oral corpus ; Diathetic taxonomy ; Dialogues

1. Introdução

Uso verbal infantil é um tema recorrente nos estudos sobre a aquisição da língua materna. Gentner (1978), Tomasello (1992), Befi-Lopes et al. (2007), Figueira (1978, 1999), Mumford e Kita (2014), e Aussems e Kita (2021) são alguns dos vários trabalhos que se dedicam a ele.

Gentner é uma importante referência para as discussões sobre o tema. Influenciada pela obra seminal de Talmy (1975) sobre “a variação das estruturas semânticas dos verbos em diferentes línguas” (Gentner, 2006, p. 544), a pesquisadora sustenta que “as crianças aprendem os verbos de forma mais lenta do que aprendem os nomes” (Gentner, 1978, p. 988). O uso verbal infantil ocorre após o uso dos itens nominais, porque a semântica das formas verbais é relacional, mais abstrata e mais complexa do que as formas nominais. Nas palavras da autora,

Os sentidos dos nomes são muito determinados pela natureza do mundo físico. Os verbos, ao contrário, expressam sentidos relacionais que demandam conceitos e são relativamente independentes do mundo físico (Gentner, 1978, p. 990)

São dois momentos. O uso de expressões nominais parte do reconhecimento de coisas “do mundo físico” e o uso verbal “demanda conceitos” para expressar “sentidos relacionais” entre as coisas físicas que foram reconhecidas. Assim, Gentner (1978) propõe uma concatenação cronológica entre o uso dos nomes e o uso dos verbos. Se os esquemas verbais relacionam os referentes identificados, estes antecedem os primeiros. Uma indicação empírica robusta desta linha temporal de processamento linguístico provém de um experimento de sua autoria que expôs crianças a expressões fictícias nominais e a expressões fictícias verbais. O experimento constatou que o primeiro uso nominal foi produzido pelas crianças após a exposição a 67 inputs nominais e o primeiro uso verbal foi produzido pelas crianças após a exposição a 164 inputs verbais. Gentner não é a única pesquisadora a propor esta concatenação cronológica entre nomes e verbos. A autora ela mesma considera em sua pesquisa dados obtidos em experimentos semelhantes, desenvolvidos anteriormente por Chukovsky (1968), Nelson (1973), Huttenlocher (1974) e Goldin-Meadow et al. (1976).

Seguindo a mesma linha experimental, há pesquisas contemporâneas que chegam a conclusões semelhantes às dos trabalhos de Gentner. Befi-Lopes et al. (2007) atestam que o uso de nomes antecede o uso de verbos e que as formas verbais intransitivas antecedem às demais realizações diáteses verbais no uso do português do Brasil. Aussems e Kita (2021), e Mumford e Kita (2014) constatam que o uso das formas verbais ocorre após o uso das formas nominais, em função da complexidade cognitiva constatada em suas pesquisas que estudaram a participação da iconicidade gestual no uso de verbos de movimento produzidos por crianças anglófonas em idade pré-escolar.

A seu turno, Tomasello sustenta que as primeiras construções verbais infantis acontecem nos formatos [verbo + x] ou [x + verbo]. Esse tipo de construção verbal foi por ele nomeado como “ilhas verbais”. Um a um, os verbos compõem realizações linguísticas junto a outras categorias lexicais complementares, indicadas por x nos esquemas, sem “haver imediata generalização para outros verbos” (Tomasello, 1992, p. 23). Nesse caso, não se alude à concatenação temporal, mas assume-se que essas construções não são formas pré-sentenciais em processo de preenchimento, mas associações entre verbos e outras formas lexicais. Presume-se a presença de verbos e de outras categorias no rol lexical das crianças que produzem “ilhas verbais”.

Ainda sobre as especificidades do uso verbal infantil, Figueira (1999) chama a atenção para a recorrente e equivocada etiquetação como “erros” os casos em que a criança produz verbos em formas não-convencionais. Para autora, o uso “desabrir o perfume” no lugar de destampar o vidro de perfume, o uso “desajudar” no lugar de atrapalhar e de “acender” no lugar de apagar, por exemplo, não são erros, mas “ocorrências divergentes” (Figueira, 1999, p. 193). Em artigo anterior, a pesquisadora já explicara a razão desse tipo de ocorrência. Em casos como esses, a criança distingue os eventos e “expressa devidamente as situações contrárias” (Figueira, 1978, p.125). O que há de específico à fala infantil é o uso de um repertório de significantes verbais próprio à cada criança. Assim, explica, o uso dessas formas ditas errôneas na verbalização não ocorre em função de uma suposta imaturidade cognitiva, mas concerne usos linguísticos infantis que divergem das formas cristalizadas na língua adulta, como se vê no Excerto 1.

Excerto 1. Registro G.23 [02; 03.01]

(Conversam no quarto, mexem em artefatos para cabelo.)

G: Desmarra, mamãe. [2’15’’]

Mãe: Oi?

G: Desmarra. Sim. [2’17’’]

Mãe: Não é desamarrar, não. É amarrar.

G: Marrá? [2’19’’]

Mãe: É, amarrá.

No registro G.23, mãe e filho conversam sobre uso do verbo amarrar durante uma extensa interação dialógica. Praticamente durante todos os 27 minutos desta gravação, os dois falam sobre as formas amarrar e desamarrar. Repetidas vezes, G usa o significante “desmarra” e formas correlatas com o sentido de amarrar. O uso desse item lexical em formato divergente, concebido por analogia mórfica, se dá repetidas vezes apesar do também recorrente uso da forma convencional “amarra” produzida várias vezes pela mãe. (Neste registro, o lexema amarrar ocorre 135 vezes, 40 vezes produzidas por G e 95 pela mãe ). O uso da expressão “desamarra” pode assim ser compreendido como a escolha de um item disponível no rol lexical da criança que tem sentido complementar “em que a negação de um implica a afirmação do outro” (Figueira, 1978, p. 22). Na ocasião do excerto do registro G.23, G demandava que a mãe amarrasse uma gominha em um de seus dedos.

Nas referências teóricas aqui expostas, reconhece-se que há mais complexidade no uso das expressões verbais do que no uso das expressões nominais, porque os verbos expressam processos esquematizados entre as entidades reconhecidas. É neste cenário que se enquadra a presente pesquisa empírica. Intenta-se descrever diáteses verbais infantis que exemplificam as relações entre os elementos da sentença a partir da taxonomia proposta por Perini (2006, 2008, 2009, 2015, 2019, 2021, 2024), como será apresentado adiante.

Introdução conclusa, o artigo segue adiante com a apresentação dos dados da pesquisa, das categorias taxonômicas verbais aplicadas no uso verbal infantil e com a apresentação do dicionário de valências de Perini. Em seguida, serão expostos excertos em que foi aplicada a taxonomia apresentada aos verbos acabar, sair e saber, lexemas verbais bastante recorrentes no corpus em estudo.1 Na última seção desta publicação, nos comentários finais, são feitas observações sobre a descrição do uso verbal em dados infantis.

2. Sobre o corpus e os conceitos taxonômicos

O corpus naturalístico do grupo Corpus Infantil Longitudinal (CIL)

CIL é um grupo de pesquisa que se dedica à compilação e à descrição de dados orais naturalísticos infantis de crianças brasileiras monolíngues desde a sua fundação em 2015. O protagonista desta pesquisa é identificado pelo acrônimo G. G é uma criança comunicativa, colaborativa e criativa que teve seus diálogos domésticos registrados entre maio de 2015, quando tinha 5 meses, e abril de 2019, aos seus 4 anos e 4 meses de vida. Foi a mãe-pesquisadora que gravou e anotou as interações discursivas ocorridas entre ela e o filho. A participação da avó de G também é frequente nos diálogos registrados.2

Todas as sessões de gravação aconteceram na casa dos interlocutores, que fica em uma pequena cidade do nordeste do estado de Minas Gerais. Não houve mudança na dinâmica cotidiana da família. Não houve inclusão ou exclusão de objetos do ambiente onde os diálogos foram gravados. Não houve orientação temática ou discursiva para as conversas. Não houve risco ou qualquer constrangimento para os participantes da pesquisa. Ao todo, foram feitos 47 registros de áudio em sessões dialógicas mensais com duração média de 30 minutos.

Os registros do corpus foram identificados pelo acrônimo G acrescido do número da gravação, G1[0;05.01], G2[0;06.01] e assim por diante. As notações sobre a idade do informante na data da gravação aparecem entre colchetes [anos, meses e dias]. As demais informações referentes aos participantes, aos locais, aos contextos, às datas e aos horários da gravação estão disponíveis no cabeçalho das transcrições. Os processos de compilação e de transcrição do corpus estão detalhados em Perini-Santos et al. (2019, 2022)3.

Sobre os conceitos: a valência e a taxonomia verbal em Mário Perini

Nesta seção do artigo, apresento como se esquematizam as diáteses verbais que, em um primeiro nível, se servem de um rol de papéis semânticos como Agente, Paciente, Instrumento, Causa, Meta ou Fonte, entre outros, como veremos mais adiante de acordo com proposta taxonômica de Mário Perini.4

O projeto de Perini (2006, 2008, 2011, 2015, 2019, 2021, 2024) sobre a transitividade verbal do Português Brasileiro foi apresentado em 2008 da seguinte forma.

O estudo da estrutura de uma língua tem como objetivo explicitar o relacionamento realizado pelo falante entre certos estímulos sensoriais (fonéticos, gráficos...), que podemos chamar de “formas”, e um sistema de conceitos. Essa posição, claro, não é novidade: repete apenas o que se encontra em Saussure (1916) acerca da associação de imagens acústicas com conceitos. Mas seria preciso levar isso a extremos metodológicos, o que me parece que em geral não se faz. (Perini, 2008, p. 21)

Em consonância com a proposta léxico-gramatical “Simpler Syntax” de Culicover e Jackendoff, que assumem ser mais explicativa a sintaxe que “atribui o mínimo de estrutura necessário para mediar entre a fonologia e o significado” (Culicover & Jackendoff, 2005, p.5), Perini anuncia que em sua metodologia de pesquisa não serão usadas categorias sintáticas abstratas, como sujeito oculto e objeto nulo. “Tento evitar a formulação de hipóteses de ordem superior”, explica, “e manter a análise ‘perto do chão’, por assim dizer” (Perini, 2015, p. xii). A realidade da linguagem está na sua forma sonora e na sua semântica.5 Esta pesquisa endossa esse princípio.

Outro elemento teórico relevante para a taxonomia é a opção pela abordagem léxico-gramatical. Assume-se que as sentenças são realizações linguísticas derivadas dos esquemas sintático-semânticos dos verbos.

[As] conexões entre os complementos da sentença [...] e as funções semânticas como Agente, Paciente, que são, ao fim e ao cabo, variações dos esquemas (também nomeadas como frames ou schemata) evocados pelo verbo ou outros itens lexicais. (Perini, 2019, p. 01)

Não se supõe a existência de uma estrutura sentencial canônica a ser preenchida ou a ficar vazia. O que se sustenta é que as sentenças são realizações simbólicas das valências verbais com a materialização dos complementos demandados pelos esquemas. Nos exemplos (1) e (2), o verbo beliscar ocorre com dois complementos nominais.

(1) SN[O Lineu] V[beliscou] SN[o vizinho].

(2) SN[O vizinho] V[beliscou] SN[o Lineu].

Em (1), SN[o Lineu] é o complemento Sujeito e SN[o vizinho] é o complemento pós-verbal. O complemento SN[o Lineu] exerce papel temático Agente.6 O complemento SN[o vizinho] exerce o papel temático Paciente. No exemplo (2), os complementos verbais são disponibilizados em ordem invertida: SN[o vizinho] exerce papel Agente e SN[o Lineu] exerce função Paciente. As duas sentenças são aceitáveis, porque os complementos, locados antes e depois de “beliscou”, são compatíveis com a valência do verbo. Especificamente sobre o complemento Sujeito, Perini (2019) observa que a sua efetivação pode ser redundante no PB. Nas sentenças (1) e (2), os Sujeitos gramaticais SN[o Lineu] e SN[o vizinho] se materializam em posição pré-verbal e também como flexão verbal de terceira pessoa no singular [ _ou]. 7 Além disso, by default, o complemento SN locado imediatamente antes do verbo é o Sujeito. Nos exemplos (3) e (4), os complementos sentenciais pré-verbal e pós- verbal não são compatíveis com o verbo telefonar, por motivo sintático em (3), e por motivo semântico em (4). As diáteses realizadas em (3) e em (4) não compõem a valência do verbo telefonar.

(3)* SN[O Lineu] V[telefonou] SN[o vizinho].

(4)* SN[O vizinho] V[telefonou] SP[para os livros].

No exemplo (5), a seguir, o complemento SN[sorvetes de chocolate] que ocorre no começo da sentença, e assim, antes do verbo, não é Sujeito.

(5) SN[Sorvetes de pistache] SN[diabéticos] V[detestam].

O verbo detestar ocorre imediatamente após o SN[diabéticos], que exerce função de Sujeito. Apesar de o SN[sorvetes de pistache] acontecer, digamos, fora do lugar canônico, a função de sujeito atribuída ao SN imediatamente pré-verbal mantém-se válida. Por esse motivo, no Valency Dictionary of Brazilian Portuguese Verbs, o SN imediatamente pré-verbal é sempre identificado como sujeito.

Ao fim e ao cabo, não há deslocamento, movimento alfa ou algo como a topicalização que deixaria vazio o espaço pós-verbal. Esses recursos sintáticos são abstratos e inconvenientes para a opção metodológica da “Sintaxe Simpler”. Assim, no exemplo (5), não é reconhecido objeto nulo, pronome suprimido, deslocamento de sintagma ou espaço preenchidamente vazio após o verbo “detestam”. A partir dessas premissas, Perini elenca as valências verbais, as respectivas diáteses e lista exemplos para os verbos escolhidos de forma aleatória em uma lista de dicionário de regência da língua portuguesa.

O dicionário de valências verbais do português brasileiro

Perini lista as diáteses e as resultantes valências dos verbos por ele descritas no Valency Dictionary of Brazilian Portuguese Verbs (s.d.). O dicionário descreve a valência de 650 verbos do Português do Brasil a partir de um rol categorial composto por 327 tipos diáteses verbais que associam os sintagmas complementos pré- e pós-verbais a uma também extensa lista de papéis temáticos. Cada tipo de diátese é identificado pelo acrônimo C acrescido de um número, C1, C2... C327. As valências verbais apresentadas na publicação são ilustradas com exemplos introspectivos. Fato: dados introspectivos são ocorrências potenciais sujeitas a críticas e revisões se submetidos à comprovação empírica; nas palavras do autor, “a linguagem proposta neste livro pode também ser compreendida como uma ferramenta para a pesquisa em corpora” (Perini, 2015, p. xiii). É o que aqui foi feito.

Se há algo pertinente na presente pesquisa é a confrontação de uma proposta taxonômica introspectivamente ilustrada com um material empírico de uso espontâneo. Além disso, se é fato que o corpus oral infantil aqui escrutinado foi compilado com o objetivo de acompanhar a produção verbal de uma criança, também o é que as falas dessa criança ocorreram durante diálogos com adultos. Assim, tem-se a confrontação das categorias taxonômicas de Perini com os usos verbais provenientes do falante infantil e dos falantes adultos.

As Categorias do dicionário

A categorização das formas sintagmáticas e os papéis temáticos associados não são nomeados como tradicionalmente se faz. No dicionário, Perini propõe nomeações descritivas especificas para os papéis temáticos como Needer e Needed.thing, grafadas com um ponto entre os termos contíguos, que foram aqui traduzidas como Que.necessita e Coisa.necessitada. Além disso, em casos como os tipos C15 e C43, como veremos logo adiante, dois papeis temáticos são associados a um único complemento. E ainda, o autor se serve ora das categorias sintagmáticas usuais como [SN] e [SAdj], ora de etiquetas alternativas como [prep.+ SN] e [prep. + SAdj].

(6) Sujeito>Que.necessita V de SN>Coisa.necessitada

Leonardo precisa de um martelo.

(7) Sujeito>Coisa.qualificada Reflexivo V de SAdj>Qualidade

Leonardo se fez de bobo.

Essas novas nomeações se justificam. A diferença do valor semântico das preposições modifica a interpretação dos papéis temáticos (indicados pelo sinal >). O uso do SP [para o amarelo] junto ao verbo puxar em (8) tem valor semântico Qualidade. Em (9), o uso do SP [da navalha] junto ao mesmo verbo puxar tem valor semântico Paciente.

(8) Sujeito>Coisa.qualificada V para SN>Qualidade

Essa blusa puxa para o amarelo.

9) Sujeito>Agente V de SN>Paciente

O assassino puxou da navalha para cometer o crime8

A mudança na interpretação dos papéis temáticos associados ao mesmo verbo em (8) e (9) se deve às preposições, para e de, que compõem os complementos pós-verbais.

3. Aplicação da taxonomia na fala infantil: verbos acabar, sair e saber

Procedimentos de pesquisa

Esta seção da pesquisa apresenta e descreve ocorrências dos verbos acabar, sair e saber, que são de uso recorrente no corpus em análise. Munido da taxonomia apresentada, passou-se à localização das ocorrências desses verbos no corpus transcrito do CIL, através da entrada dos significantes associados aos lexemas verbais no software AntConc.

A expressão lexemas pede um esclarecimento. Na busca pelas formas infantis que não correspondem aos significantes convencionalizados, coube a este pesquisador, fazendo uso do conhecimento do texto do corpus e das situações discursivas, anotar as formas lexicais reconhecíveis como itens verbais. “Cabô”, “bobô” e “bô”, por exemplo, não são formas convencionais. No entanto, foram as primeiras formas do verbo acabar produzidas pelo informante G, como veremos a seguir.

As diáteses infantis no uso do verbo acabar

A primeira diátese do verbo acabar elencada no dicionário expressa o esquema verbal com um complemento pré-verbal Sujeito e um complemento pós-verbal SN com os papéis temáticos Agente e Paciente,

C1 Sujeito>Agente V SN>Paciente

Leonardo acabou o novo quadro.

A diátese do tipo C1 tem o Sujeito interpretado no papel temático Agente e o SN pós-verbal é interpretado no papel temático Paciente. Para o verbo acabar, são elencados mais oito tipos de diátese verbal.

C3 Sujeito>Paciente Reflexivo V

A festa se acabou.

C4 Sujeito>Paciente V

A festa acabou.

C25 Sujeito>Coisa.qualificada V X>Qualidade9

Ana acabou louca.

C43 Sujeito>Possuidor V SN>Paciente+Coisa.possuída

O carro acabou a gasolina.

C47 Sujeito>Agente Vcom SN>Paciente

O diretor acabou com a festa.

C48 Sujeito>Coisa.qualificada Vcomo X>Qualidade

Joaquim acabou como herói.

C93 Sujeito>Tema Vem X>Alvo

Ana acabou no hospital.

C149 Sujeito>Coisa.qualificada Vem SN>Qualidade

A máquina acabou em pedaços.

A valência de acabar é o conjunto das nove diáteses esquematizadas e identificadas como C1, C3, C4, C25, C43, C47, C48, C93 e C149 no dicionário. Ou seja, potencialmente, o verbo acabar pode expressar o esquema acabar nesses formatos e com essas interpretações temáticas.

Exemplos do uso do verbo acabar no corpus CIL

Os 25 usos do verbo acabar localizados no corpus estão distribuídos na Tabela 1. Especificamente nas falas de G, foram localizadas 15 ocorrências do verbo, 12 delas nas formas “cabô”, “babô” e “bô”, duas vezes na forma “acabou” e uma vez na ilha verbal [acabou + SN].

Tabela 1
Ocorrências do verbo acabar

O registro G.14 traz a primeira ocorrência de acabar localizada na fala infantil. Com 1 ano e 6 meses de vida, em (10), G se dirige à avó com um copo vazio em mãos e lhe pede mais bebida, como se lê no excerto a seguir.

Excerto 2. Registro G.14 [01; 06.01]

(G carrega um copo de vidro vazio em direção à avó.)

G.: Vó.

Avó: Nem um tiquim, nem um pinguinhozim.

G.: Cabô.

Mãe: Cabô, filho?

G.: É?

Mãe: É, cabô. Pede a vovó mais.

O uso infantil, que aparece destacado em negrito no Excerto 2, pode ser descrito como:

(10) G: Cabô

C4 V

A expressão “cabô” que foi produzida por G é replicada pela mãe com a mesma forma fonética e sem complementos verbais. Na fala da criança e na fala da mãe, a maior parte das vezes o verbo acabar ocorre em uso nu, sem qualquer complemento pós-verbal. Assim, o contexto dialógico é necessário para a interpretação de sua realização semântica. Nos dois turnos da interação, aquilo que “cabô” - a bebida que estava no copo da criança - é associado ao papel temático Paciente. Por isso, a diátese é reconhecida como uma realização dialógica da diátese do tipo C4.

C4 Sujeito>Paciente V

No excerto do registro G.26, Excerto 3, os interlocutores dialogavam sobre um pote de creme cabelo com que a criança brincava. G fala para a mãe que o produto havia acabado, a mãe confere a informação e se prepara para buscar mais para o filho.

Excerto 3. Registro G.26 [02; 06.01]

(Conversam sobre um produto de estética capilar.)

Mãe: Vou colocar pra você.

G: Já acabou, mamãe.

Mãe: Ah... acabou; você usou tudo?

G: Usou tudo.

O exemplo (11) novamente ilustra o uso do verbo acabar pela criança como uma realização diatésica do tipo C4

(11) G: acabou, mamãe.

C4: Sujeito>Paciente V

O Sujeito interpretado na função temática Paciente não foi expresso nesse trecho da conversa, mas foi produzido pela mãe em turnos de fala anteriores aos transcritos no excerto acima.

No registro G.28, a seguir, o informante usa o verbo acabar duas vezes.

Excerto 4. Registro G.28 [02; 08.01]

(Mãe e filho conversam na cozinha. A mãe registra a conversa com o celular.)

Mãe: Xô te ajudar a virar. Pronto. É só virar que passa, moço.

G.: Tá fazeno uma ligação?

Mãe: Não.

G: Ê... tá ligação, cabô?

Mãe: Oi?

G: Cabô? Cabô, mamãe?

Mãe: Cabô o quê?

G: A ligação.

Agora com 2 anos e 8 meses, G pergunta se a mãe teria encerrado uma ligação no celular. O primeiro uso do verbo em (12) pode ser descrito como uma ocorrência de valência do tipo C4.

(12) G: Ê... tá ligação, cabô?

C4 Sujeito>Paciente V

A pergunta “cabô?” refere-se à ligação telefônica que a mãe fazia. Por esse motivo, a sentença “...tá fazeno uma ligação?”, que antecede o uso do verbo acabar, também tem um contorno prosódico interrogativo. Dada a incompreensão materna e a consequente falta de resposta, G insiste com a pergunta “Cabô? Cabô, mamãe?” que é por ele esclarecida à mãe no seguinte trecho do diálogo:

Mãe: Cabô o quê?

(13) G: A ligação.

C4 V Sujeito>Paciente

No Excerto 5, G usa o verbo acabar enquanto fazia seu dever de casa.

Excerto 5. Registro G.46 [04; 01.01]

(G faz o dever de casa. Ao fundo, música em som alto.)

Mãe: Você já coloriu duas linhas de roxo?

G: É porque eu quero.

Mãe: Eu sei, uai?

G: Acabô a música.

Mãe: Graças, né? Oh, meu filho, presta atenção no que cê tá fazendo.

G: Essa música é rápida.

Em (14), a forma “Acabô a música” é interpretada como uma realização da diátese do tipo C4 que pode ser esquematizado da seguinte forma:

(14) G: Acabô a música.

C4 V Sujeito>Paciente

Apenas um único uso do verbo acabar encontrado no corpus não mereceu a interpretação diatésica do tipo C4. No Excerto 6 do registro G.16, a mãe se refere a algo que acabara de acontecer.

Excerto 6. Registro G.16 [01; 08.01]

(A mãe dá banho no filho. Abre um produto para a higiene infantil.)

Mãe: Toma. Deixa a mamãe fechá pra você. Peraí. Pronto. Toma. Opa! Pronto

G: Abri. [01’27”]

Mãe: Uá? Cê acabô de pedir pra fechá. Qué que abre? Abriu?

G: Abre. [01’37”]

Mãe: Mamãe abre. Pronto. Toma.

Nesse último caso, a construção “Cê acabô de pedir pra fechá” não esquematiza complementos semelhantes àqueles que aparecem no dicionário. Esse uso verbal anuncia um evento ocorrido em um tempo passado imediato, traço aspectual que não consta no rol de possibilidades diatésicas de acabar listadas no dicionário.

As diáteses infantis no uso do verbo sair

Sete tipos de diáteses compõem a valência do verbo sair.

C4 Sujeito>Paciente V

A cicatriz vai sair com o tempo.

C15 Sujeito>Agente-Tema10 V de X>Fonte

Eu saí do banheiro.

C25 Sujeito>Coisa.qualificada V X>Qualidade

O quadro saiu muito bonito.

C153 Sujeito>Coisa.medida Vpor SN>Medida

O vestido saiu por mais de 400 reais.

C238 Sujeito>Coisa.qualificada Va SN>Qualidade

O menino saiu ao avô.

C239 Sujeito>Agente Reflexivo V X>Maneira

O candidato se saiu bem na discussão.

C240 Sujeito>Agente Reflexivo Vcom SN>Paciente

Você semprese sai com uma mentira.

Exemplos do uso do verbo sair no corpus CIL

Sair foi localizado em 65 ocasiões ao logo do corpus. G usa o verbo nos formatos “sai”, “chai”, “saiu”, “vou sair” e em outras construções, como aparece na Tabela 2.

Tabela 2
Ocorrências do verbo sair

O primeiro uso infantil do verbo sair localizado no corpus aparece no Excerto 7. Na data do diálogo registrado, G tinha 1 ano e 9 meses. Mãe e filho estavam no jardim da casa e repararam na presença de uma formiga no chão.

Excerto 7. Registro G.17 [01; 09.01]

(Mãe e G estão no jardim da casa.)

Mãe: Olha a formiguinha.

G.: Guinha, chai... chai...

Mãe: Não. Sai não, filho

G.: Chai.

Mãe: Ela tá no lugar dela. Você que tá errado.

G.: Ado?

As ocorrências (15) “Ginha, chai... chai...” e (16) “Chai” podem ser interpretadas como duas realizações da diátese verbal de sair do tipo C15.

Mãe: Olha a formiguinha.

(15) G: Guinha chai... chai...

C15 Sujeito>Agente+Tema V

Mãe: Não. Sai não, filho.

(16) G: Chai.

C15 Sujeito>Agente+Tema V

Nesses exemplos, G se dirige ao inseto incitando-o a entrar em movimento. Em (15), o comando para o ente animal agir se evidencia pelo uso vocativo “Guinha”. No segundo uso, exemplo (16), G produz o verbo em sua forma nua.

O registro G.24, gravado quando a criança tinha 2 anos e 4 meses, traz outro exemplo do uso infantil do verbo sair pelo protagonista G.

Excerto 8. Registro G.24 [02; 04.01]

(Na procura por um objeto, G entra em um móvel da sala.)

Mãe: Fala com a vovó, fala filho. Cê num cabe aí não, moço.

G.: Não?

Mãe: Cê num cabe aí não. Cê vai cair e vai machucar. Tô te avisando. Anda filho. Sai daí.

G.: Sai daí?

Mãe: É. Sai daí.

A ocorrência do verbo sair em (17) também pode ser interpretada como um exemplo de diátese do tipo C15.

Mãe: Cê num cabe aí não. Cê vai cair e vai machucar. Tô te avisando.

Anda, filho. Sai daí.

(17) G: Sai daí?

C15 Vde X>Fonte

Mãe: É. Sai daí.

Além disso, pode-se reconhecer o exemplo (17) como um caso de resposta em “ressonância confirmativa”, segundo Da Mata (2010), que é logo em seguida usada pela mãe. Assim, às três ocorrências do verbo presentes no excerto, atribui-se a mesma interpretação. Voltarei a esse tema mais adiante.

Na gravação do diálogo do registro G.35, a mãe acompanhava o filho na produção do desenho da casa de personagem de desenho animado e seus entornos.

Excerto 9. Registro G.35 [03; 03.01]

(A mãe acompanha G desenhando um centro urbano.)

Mãe: A rua é aqui, assim. Oh...Pronto.

G: Agora... vamo agora.

Mãe: Fazê o que?

G: Agora, agora manda ele saí daí. [12’31’’]

Mãe: Mandar ele sair?

G: É.

Mãe: Saia.

G: Não saiu. [12'27'']

Mãe: Não saiu?

Ocorrem dois usos infantis do verbo sair, (18) “Agora, agora manda ele saí daí” e (19) “Não saiu”, que podem ser interpretados como realizações da diátese do tipo C15.

(18) G: Agora, agora ele saí daí?

C15 Sujeito>Agente+Tema Vde X> Fonte

(19) G: Não saiu.

C15 Sujeito>Agente+Tema V

Mãe: Não saiu?

No primeiro caso, G produz uma sentença plena. O Sujeito “ele” exerce o papel semântico Agente-Tema e a forma “daí” exerce o papel Fonte. No exemplo (19), propõe-se a mesma interpretação, porém sem a realização fonológica do Sujeito e do complemento pós-verbal.

No registro G.45, o uso infantil do verbo reconhecido no corpus ocorre na forma sentencial “Mas eu nem vou sair”. O informante já tinha 4 anos e 2 meses. No trecho dialógico do Excerto 10, G pede à mãe que ela lhe empreste a sombrinha.

Excerto 10. Registro G.45 [04; 02.01]

(G escolhe a roupa para ir para a escola na iminência de chuva.)

G.: Manhê, eu tenho que ficar sem ela?

Mãe: Não.

G.: Uh. Eu quero ficar sem ela.

Mãe: Não, filho.

G.: Mas eu nem vou sair de casa. [4’20’’]

Mãe: Mas não pode, moço. Como é que cê vai pegar uma coisa que cê tem que ter utilidade. Vai quebrar à toa.

G.: Mas que quebra com acidente, cê me empresta a sua?

Novamente reconhece-se o uso da diátese verbal do tipo C15.

(20) G: Mas eu nem vou sair de casa.

C15 Sujeito>Agente-Tema Vde X >Fonte

Assim como no registro anterior, o uso infantil descrito do registro G.45 é uma sentença plenamente realizada.

A diátese infantil do verbo saber

O dicionário de valências propõe dois tipos de diáteses para o verbo saber.

C50 Sujeito>Conhecedor V SN>Coisa.conhecida

Eu sei as dez primeiras lições do livro.

C87 Sujeito>Conhecedor Vde SN>Coisa.conhecida

Não sei dos negócios do meu irmão.

Nota-se que o que as diferencia é a presença da preposição antes do SN complemento pós-verbal no tipo C87, mas os papéis temáticos associados são os mesmos.

Exemplos do uso do verbo saber no corpus CIL

O verbo saber foi localizado em 266 ocorrências no corpus oral do CIL. Há uma vasta variação das formas de realização do verbo em um abundante número de ocorrências, como aparece na Tabela 3.

Tabela
3. Ocorrências do verbo saber

Os exemplos do uso verbal infantil apresentados no Excerto 11 foram reconhecidos nos registros G. 29, G. 41 e G.45.

Excerto 11. Registro G.29 [02; 09.01]

(G, a Mãe e um primo fazem aviãozinho de papel.)

Mãe: É. Cê sabe fazer sozinho?

G: Sabe. [17’42”]

Mãe: Sabe, uai? Então por que qui cê não fez?

G: Porque não. Eu num sabe fazê, drobá. [17’46”]

No primeiro uso de saber no registro G.29, identificado no exemplo (21), G responde à mãe fazendo uso da forma verbal idêntica à da pergunta.

(21) Mãe: É. Cê sabe fazer sozinho?

G: Sabe.

C50 Sujeito>ConhecedorV

No segundo uso do verbo, em (22), G produz uma sentença plena como resposta que explica à progenitora por que “não fez” um avião de papel, como ela havia perguntado.

(22) Mãe: Sabe, uai? Então por que qui cê não fez?

G: Eu num sabe fazê, drobá.

C50 Sujeito>ConhecedorVX>Coisa.conhecida

Aos dois casos, reconhece-se a mesma diátese verbal do tipo C50. O exemplo (23) presente no registro G. 41, Excerto 12, também é interpretado como uma ocorrência da diátese de saber no formato do tipo C50.

Excerto 12. Registro G.41 [03; 11.01]

(G e a Mãe manuseiam a embalagem do presente.)

Mãe: Você sabe que essa caixa é transparente, não sabe?

G: Sei. [14’21’’]

Mãe: Então isso não é esconder, cê sabe, não sabe?

G: Então, eu escondo noutro lugar

Mãe: Você sabe que essa caixa é transparente, não sabe?

(23) G: Sei.

C50 Sujeito>Conhecedor V X>Coisa.conhecida

Neste último caso, G, com 3 anos e 11 meses, usa o verbo saber em resposta à indagação da mãe. No turno de fala imediatamente anterior, a progenitora já havia usado o verbo em “Você sabe que esta caixa é transparente, não sabe?”. A criança responde à pergunta com a forma nua “sei”. Vamos chamá-la de uso sentencial unilexical. Os espaços anafóricos sentenciais pré- e pós-verbais não são considerados como abstrações, mas como realizações linguísticas verticais ocorridas entre os turnos de fala.

No exemplo (23), o sujeito, que se realiza na flexão verbal [ _ei], é interpretado como expressão do papel temático Conhecedor. A sentença complemento verbal identificada no esquema verbal como X e interpretada na função semântica Coisa.conhecida foi produzida no turno de fala imediatamente anterior. Perini não faz uso de ocorrências dialógicas na exemplificação dos verbetes do dicionário. Em livro que apresenta conceitualmente o projeto, o autor já explicava que, por motivos metodológicos, o uso de exemplos em “construções reduzidas”, como ocorre no diálogo acima, “não pode servir como critério subcategorizador dos verbos” (Perini, 2008, p. 98). Em formas verbais reduzidas, nuas, como é o caso do exemplo (23), não se deve interpretar espaços vazios ou algo que o valha (cf. seção 2.2, deste artigo), mas realizações sonoras prévias ou concomitantes, dialógicas, como é o caso deste exemplo.

Na data do registro G. 45, G tinha 4 anos e 2 meses. No excerto textual do Excerto 13, mãe e filho conversam enquanto brincam com pequenos objetos.

Excerto 13. Registro G.45 [04; 02.01]

(Mãe e filho simulam acrobacias.)

Mãe: Quer ser o quê?

G: Acobrata.

Mãe: Acrobata.

G: Aham.

Mãe: É isso. E você sabe se equilibrar?

G: Ah não. Mas eu quando eu virar um malabarista eu vô sabê jogá pa cá e pa lá. [8’52’’]

O uso do verbo saber em (24) se realiza como uma diátese do tipo C50. G compõe uma sentença plena com o verbo saber na forma futura analítica “vou sabê jogá”. O Sujeito é interpretado como expressão do papel temático Conhecedor e complemento pós-verbal “jogá pa cá e pa lá” pode ser interpretado no papel temático de Coisa.conhecida.

Mãe: É isso. E você sabe se equilibrar?

(24) G: [...] eu vou sabê jogá pa cá e pa lá.

C50 Sujeito>ConhecedorV X> Coisa.conhecida

O último exemplo do corpus CIL selecionado para este artigo foi coletado quando G tinha 4 anos e 3 meses. No excerto do registro G.46, Excerto 14, G e a mãe brincam de engolir as pedras de gelo dos respectivos copos.

Excerto 14. Registro G.46 [04; 03.01]

(G brinca com as pedras de gelo do copo.)

G: Eu num queria pegá um grandão. Antes de eu engoli um grandrão.

Mãe: Hum...

G: Sei que você pode cuspi o grandão [11’45’’]

Novamente, o verbo saber ocorre como uma realização da diátese C50.

(25) G: Sei que você pode cuspí o grandão.

C50 Sujeito>Conhecedor V X> Coisa.conhecida

O complemento do uso verbal “sei” é uma oração substantiva indicada por X no esquema diatésico do tipo C50. O Sujeito exerce o papel temático Conhecedor e o pós-verbal exerce o papel temático Coisa.conhecida.

Síntese numérica das interpretações diatésicas

De um total de 356 ocorrências verbais infantis reconhecidas no corpus CIL, 16 usos foram descritos nesta pesquisa. Os 5 exemplos de uso infantil do verbo acabar foram interpretados como realizações diatésicas de um único tipo. De uma valência verbal composta por nove diáteses potenciais, apenas o uso de acabar na diátese do tipo C4 foi localizado no corpus. Sobre o verbo sair, de uma valência verbal composta por sete diáteses potenciais, todas as 6 realizações infantis descritas foram interpretadas como diáteses do tipo C15. E, de uma valência composta por duas possíveis diáteses, todos os 5 exemplos de uso infantil do verbo saber localizados no corpus do foram interpretados como realizações da diátese do tipo C50.

4. Comentários finais

Esta pesquisa evidenciou dois fatos. Primeiro, as diáteses verbais são mais frequentemente realizadas entre os turnos de fala do que em turnos únicos de fala. Segundo, a ressonância responsiva entre os turnos de fala é constante.

Essas duas observações permitem dizer que os argumentos de pesquisas sobre o dialogismo que reconhecem “a ressonância dialógica como uma reprodução de construções através dos turnos de fala” em que os interlocutores “negociam e coordenam seus turnos de fala para estabelecer a mútua compreensão sobre o que trata a conversa” (Põldvere et al., 2021, p. 644) se estendem às conversas entre adultos e crianças. Os estudos baseados em corpora infantis, que operam dentro rol de visões do interacionismo, analisam “os enunciados em continuidade (e em resposta) ao enunciado do outro”, sendo que “assim como os enunciados dos adultos, os [enunciados] das crianças [...] são construídos pelo discurso do outro” (Orvig-Salazar et al., 2021, p. 160). Os falantes infantis, a seu modo, interpretam o que lhes é dirigido e respondem aquilo que lhes parece pertinente durante a interação dialógica.

Nesse mesmo tom, apesar de não trajarem a camiseta com estampa interacionista, Garrod e Pickering assinalam que os interlocutores “precisam alinhar seus modelos situacionais, que são representações multidimensionais que contêm informações sobre o espaço, o tempo, a causalidade, a intencionalidade” (2004, p. 8) como condição para o sucesso das trocas simbólicas. Os psicólogos fiam na interpretação do texto em diálogo e incorporam “mecanismos de produção [textual] às teorias de compreensão”.

[De] forma corriqueira, e em diferentes níveis, os processos de compreensão têm acesso aos processos de produção e os processos de produção, também de forma corriqueira, têm acesso aos diferentes níveis da compreensão. (Garrod & Pickering 2013, p. 332)

Scollon (1967) já ensaiara em sua pesquisa sobre a fala da filha entre os seus 12 e 24 meses de vida algo que se assemelha àquilo que propõem os autores acima aludidos. Scollon nomeou como “construções verticais” os mecanismos textuais dialógicos que efetivam a contemplação da transitividade dos verbos entre na alternância dos turnos de fala. Mesmo as construções verticais unilexicais, que ocorrem com diversas funções responsivas, são construções sonoras, sintáticas e semânticas a serem consideradas. “Esse mecanismo de interação e repetição não é específico para o desenvolvimento sintático”, explica, “mas para o desenvolvimento linguístico em geral”. (Scollon, 1967, p. 4).

Em Du Bois (2001), como assinala Da Mata (2010), ao se falar sobre construções entre os turnos de fala, fala-se sobre “ressonância”.

Analisando a coprodução entre falantes no discurso conversacional, Du Bois propõe um modelo teórico: a Sintaxe Dialógica. Nesse modelo, ganha destaque a noção de Ressonância, que procura explicar como recursos usados por um falante são reunidos e reutilizados por um segundo falante, o parceiro engajado na conservação. [...] A essas relações entre enunciados, Du Bois denomina Ressonâncias. (Da Mata, 2010, p. 192).

A ressonância infantil observada no uso verbal de G merece pesquisas mais pormenorizadas, o que interpretam e a quê elas respondem. A descrição da produção infantil em cooperação com a fala adulta já se mostra muito bem-vinda no trabalho de Da Mata (2010). A autora elenca e exemplifica cinco funções discursivas reconhecidas como ressonância: a responsividade, a concordância, a discordância, a questão e o humor, que são subdivididas em categorias e subcategorias.11 Essa descrição pode ser aplicada aos dados do corpus CIL. As falas de G destacadas em negrito no registro G.22, Excerto 15, ilustram as ocorrências de ressonâncias nas funções Responsiva de Confirmação(*), Responsiva de Esclarecimento(**) e Responsiva de Discordância (***)

Excerto 15. Registro G.22 [02; 02.01]

(Mae e filho brinca com domino na cozinha.)

Mãe: Fala com a mamãe o que que é, moço? Quê isso? É o vidrinho?

G: O vidinho. (*) [00’19’’]

Mãe: Ah pode brincar.

G: Pode brincá? (**) [00’23’’]

Mãe: É, pode brincá ... Opa! Filho... Monta as pecinhas aí, monta.

G: Monta? (**) [00’36’]

Mãe: É, monta as pecinhas do dominó.

G: Dominó? (**) [00’39’’]

Mãe: É.

G: Pecinha de minó ? (**) [0’45’’]

Mãe: Pecinha de dominó.

G: Dominó? Pecinha de mini ó? (**)

Mãe: Cê qué?

G: Cê qué. (*) [0’45’’]

Mãe: Toma. Delícia. Cê gostô?

G: Gostô (*) [0’55’’]

[...]

Mãe: Ah tá entendi. Tem que tomar cuidado pra não machucar, viu? Cê num cansa não?

G: Num cansa não não. (***) [1’45’’]

Mãe: Cansa não?

G: Não, não, não. (***) [1’48’’]

A interpretação de exemplos de verbos funções responsivas dentro do quadro de uma sintaxe dialógica se mostra produtiva. No excerto dialógico do registro G.22, os verbos querer e cansar se realizam respectivamente em diáteses dos tipos C39 [Sujeito>Experienciador V SN>Estímulo] e C4 [Sujeito>Paciente V] de forma responsiva. Ou seja, os usos verbais infantis ecoam os usos verbais adultos de forma dialógica.

Últimos comentários. O verbo montar não consta no dicionário de valências por Perini (s.d.). O verbo poder em uso modal não consta nos verbetes da publicação em elaboração.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

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  • 1
    Esta publicação resulta de pesquisa desenvolvida durante residência pós-doutoral junto ao Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp com a supervisão da Profa. Rosa Figueira, a quem agradeço a generosa e produtiva acolhida.
  • 2
    O número da autorização lograda pelo comitê de ética da UFVJM é CAAE 57714216.5.0000.5108.
  • 3
    Para se ter acesso a outros usos verbais infantis descritos à luz da taxonomia de Perini (s.d.), ver Perini-Santos (2026).
  • 4
    O uso da expressão “primeiro nível” merece explicação. Em suas publicações de 2019 e 2024, o autor propõe dois níveis semânticos distintos para o reconhecimento dos papéis temáticos verbais. Se é fato que no evento A Magda comeu os biscoitos a função Agente pode ser atribuída ao sujeito SN[A Magda], também é verdade que a função Agente pode ser atribuído ao mesmo SN o papel de sujeito em A Magda assou os biscoitos. No entanto, nesse último caso, não foi a Magda que assou os biscoitos, mas o forno. No primeiro evento, o ente munido de ação voluntária Magda é a “comedora”. No segundo evento, Magda é a “assadora” que fez uso de um forno, faz uso de um instrumento. Esse é um exemplo de realização do “segundo nível semântico” que evidencia “uma elaboração do Agente” (Perini, 2024, p. 49). Em O menino chutou o cachorro e O menino amassou o papel, reconhece-se a mesma função semântica Paciente de primeiro nível para os complementos pós-verbais SN[o cachorro] e SN[o papel], apesar de os efeitos dos processos verbais serem distintos. No segundo nível analítico, relacionam-se os papéis semânticos de primeiro nível às especificidades esquemáticas dos verbos de forma hiponímica. As elaborações semânticas do verbo, etiquetadas como Relações Temáticas Elaboradas, RTE, compõem assim listas “exaustivas de todas as elaborações possíveis” dos papéis semânticos. (Perini, 2014, p. 49). Até 2019, o autor não havia cunhado a expressão RTE e se servia da nomenclatura proposta por Talmy (2000), a saber, a Representação Cognitiva, que evoca “in the listener a particular kind of experiential complex, here termed a Cognitive Representation or CR”. (Perini, 2019, p. 15)
  • 5
    Perini (2006) já trabalhava há um bom tempo com o “princípio da sintaxe residual”. Apenas na ausência de motivações semânticas, propõe descrição “exclusivamente em termos de traços formais não associados a traços semânticos” (p. 77).
  • 6
    As categorias semânticas (Agente, Paciente...) e sintática (Sujeito) que compõem as categorias verbais serão grafadas com a primeira letra maiúscula para facilitar a leitura.
  • 7
    As pessoas gramaticais são expressões morfossintáticas que determinam as conjugações verbais, como pisei (1ª pessoa gramatical) e pisaste (2ª pessoa gramatical). As pessoas discursivas são interpretadas como o próprio falante, o destinatário ou um terceiro participante. Em Agora SN[o menino] vai dormir porque SN[a mamãe] precisa descansar, tem-se, respectivamente 3ª pessoa gramatical/2ª pessoa discursiva e 3ª pessoa gramatical/1ª pessoa discursiva. (ver Perini, 2015, p. 44)
  • 8
    Os complementos verbais grafados em itálico não são obrigatórios.
  • 9
    X indica que o que vale é o papel temático do complemento, e não a forma.
  • 10
    Tema é o papel temático mais obtuso de se compreender. Não obstante, é um dos mais recorrentes. Na função Tema, podem ser interpretadas entidades que são deslocadas por outras entidades, como o Sujeito de [O livro] foi parar na biblioteca, e entidades que se movem por ação própria, como o Sujeito de [O autor do livro] foi parar na biblioteca. Perini (s.d.) reconhece no esquema da diátese verbal do tipo C15, o papel semântico Agente + Tema, como exemplificam os usos infantis do registro G.17.
  • 11
    Da Mata (201) as organiza como Responsividade: aberta ou fechada, Concordância: confirmação, reafirmação, fática, aceitação de colaboração, complemento, retomada de figura, lembrança, intensificação ou repasse, Discordância: contraste, negação ou retificação, Questão: interesse, pedido de esclarecimento, admiração ou certificação, Humor: humor/ironia ou apreciação.

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2026

Histórico

  • Recebido
    13 Maio 2025
  • Aceito
    16 Jul 2025
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