Open-access Palavras fonológicas nas línguas de oralidade x sinais fonológicos na língua brasileira de sinais

Phonological words in spoken languages ​​vs. phonological signs in Brazilian Sign Language

Resumo

Este artigo tem como objetivo discutir a realização de traços supra-segmentais em Libras, em especial o papel do acento para a constituição do que identificamos inicialmente como “sinal fonológico”, o correspondente à palavra fonológica, na Libras. A pesquisa levou em consideração os estudos mais relevantes que tratam da descrição fonética e fonológica da Libras. Para análise, foram utilizados dados retirados do Novo Deit-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Libras.

Palavras-chave:
Libras ; fonética e fonologia ; “sinal fonológico”

Abstract

This article aims to discuss the realization of supra-segmental features in Libras, especially the role of the accent, for the constitution of what we initially identified as “phonological sign”, the corresponding to the phonological word, in Libras. The research took into account the most relevant studies dealing with the phonetic and phonological description of Libras. Thus, data taken from the Novo Deit-Libras: Trilingual Encyclopedic Illustrated Dictionary of Libras were used.

Keywords:
Libras ; phonetics and phonology ; “phonological sign”

Palavras iniciais

Trataremos, inicialmente, de relacionar os estudos de descrição das línguas de sinais - LSs. As primeiras descrições foram realizadas por William Stokoe, na década de 1960, sendo o primeiro linguista a defender que essas línguas são naturais. Suas pesquisas foram baseadas em observações realizadas na Língua Americana de Sinais-ASL.

Stokoe (apud Xavier, 2006) corroborou com a ideia de que as línguas de sinais são formadas por símbolos complexos e abstratos, que podem ser estudados como unidades menores. Para isso, identificou três aspectos essenciais para constituição de sinais, os quais retomamos aqui. A configuração de mão (diversas formas que a (s) mão (s) assume (m) no momento da realização do sinal), localização (espaço neutro ou uma região específica em relação ao corpo, no qual os sinais são realizados) e movimento (modo como a mão se desloca na realização de um sinal). Esses parâmetros, individualmente, possuem um número limitado de combinações, mas podem se recombinar em diferentes constituições, e assim produzirem todos os itens lexicais desta língua.

Em forma de comparação com as línguas orais-LOs, Stokoe averiguou que os parâmetros das línguas de sinais, além de apresentarem a possibilidade de recombinações, também possuem traços que constituem segmentos distintivos de significado, ou seja, apresentam pares mínimos que toda língua natural necessita para ser considerada, pelos linguistas, como sendo uma língua. Propondo isso, Stokoe apresentou uma diferença significativa entre a estrutura fonológica das línguas de sinais e das LOs, que está no modo como os fonemas se organizam. Os fonemas das LOs são produzidos sequencialmente, enquanto nas línguas de sinais podem acontecer simultaneamente. Ressaltamos que a existência de sequencialidade na produção de fonemas, das línguas de sinais, não foi descartada por Stokoe, mas considerada apenas irrelevante.

De acordo com Quadros e Karnopp (2004), Stokoe apresentou dezenove configurações de mãos, doze localizações e vinte e quatro modos de movimentos.

Posterior aos estudos de Stokoe houve pesquisadores que, de forma considerável, não ignoraram seus estudos, mas respeitosamente contestaram que seus estudos não davam conta de esclarecer a organização das LSs. Conforme Quadros e Karnopp (2004), estes pesquisadores propuseram acréscimos que aperfeiçoaram os parâmetros e as relações estruturais entre a sequencialidade e a simultaneidade na descrição fonológica dos sinais, tornando os estudos das línguas de sinais mais satisfatórios. Lembrando que os pesquisadores, que deram continuidade aos estudos de Stokoe basearam-se nas LSs de seus respectivos países.

Pesquisas realizadas sobre a estrutura da Língua de Sinal - LS, no Brasil, iniciaram a partir da década de 1980. De acordo com Silva (2012), essas pesquisas diversificaram-se entre estudo estruturalista, aquisição, histórica, formação de léxico, como também os instrumentos linguísticos: dicionários e proposta de uma gramática. Dentre os pesquisadores que iniciaram seus estudos, nessa época, sobre a Libras, temos como precursora a autora Lucinda Ferreira Brito.

Com bases em pesquisas realizadas por Stokoe e outros pesquisadores, Ferreira (2010) afirma que a estrutura linguística da Libras também é formada por parâmetros fonológicos, considerando três, os mais importantes: a configuração da(s) mão(s) (doravante CM), o ponto de articulação (doravante PA) e o movimento (doravante M). Observemos na imagem abaixo os parâmetros fonológicos da Libras, sinalizando o sinal “certo”.

Figura 1
Parâmetros de sinal em Libras.

Ferreira (2010) reafirma que a Configuração de Mão (CM) são as diversas formas que as mãos assumem quando estão realizando os sinais. Tais configurações se formulam, a partir das 46 configurações de mão apresentadas pela estudiosa. A cada configuração é possível acrescentar o movimento, ponto de articulação, a expressão não-manual e a posição da (s) mão (s).

De acordo com Oliveira (2015), há controvérsias em relação ao número exato de configurações de mãos usadas pela comunidade surda brasileira. Lira e Souza (2005) propuseram 73 CMs; “Nobre (2011) utilizada no sistema de buscas do software IDSinais e Faria-do-Nascimento (2009), que também desenvolveu uma proposta de ordenação de configurações de mãos” (Oliveira, 2015, p. 2011), como também, Castro1 (2011) que registrou 61 CMs. As CMs postuladas por Castro foram bem difundidas nos materiais comercializados pela LSB Vídeos. Contudo, não era possível encontrar referência para o inventário de CMs documentado pelo autor. Somente, em 2006, com a publicação do trabalho didático “Curso de Libras”, em parceria com Quadros, que isso foi possível.

Para Ferreira (2010), o parâmetro Movimento (M) é compreendido como sendo complexo, pois abarca uma ampla rede de configurações e direções, que apresentam traços fonológicos, ou seja, distintivos de significado, envolvendo desde os movimentos do pulso, das mãos, antebraços, os movimentos internos das mãos, os movimentos direcionados no espaço, que podem acontecer de modo unidirecional, bidirecional e multidirecional, até a descrição de sua velocidade, tensão e qualidade, como também possibilidade de perceber a frequência/repetições do movimento no momento da realização do sinal.

O terceiro parâmetro, considerado um dos mais importantes na estrutura gramatical da Libras, por Ferreira (2010), Ponto de Articulação (PA) ou Locação (L), é definido pela autora como “o espaço em frente ao corpo ou região do próprio corpo, onde os sinais são articulados” (Ferreira, 2010, p. 37). É o espaço/área de enunciação em que estão reunidos todos os pontos possíveis para realização do sinal.

Os pontos de articulação são delimitados dentro do referido espaço e divididos em quatro principais regiões, porém é necessário o emprego de mais alguns outros termos, pois também são distintivos de significado.

Ainda sobre a estrutura interna da Libras, de acordo Quadros e Karnopp (2004), posterior aos estudos de Stokoe, Battison (1974) e outros pesquisadores propuseram mais dois parâmetros, com base na existência de pares mínimos, em sinais que apresentam mudança de significado, com, apenas, a troca de um desses parâmetros, a saber, orientação das mãos e expressão não manual.

A Orientação das Mãos (doravante Or) é o parâmetro que tem a função de direcionar a palma da mão no momento da realização do sinal, podendo ser voltada para o corpo, para direita; para esquerda; para cima; para baixo; para frente. Durante a sinalização pode ocorrer mudança de Or da palma da mão.

Já o parâmetro Expressão Não Manual (doravante ENM) é definido como aquele movimento/expressão realizado na face, nos olhos, na cabeça ou no tronco. Como proposto por Ferreira (2010).

Compreender o funcionamento da estrutura gramatical da Libras nos possibilita desenvolver um olhar mais atento, além de ser, também, de suma importância para análise e compreensão do objeto dessa pesquisa, o sinal fonológico na Libras.

Fonética e fonologia das LSs

Segundo o precursor dos estudos das LSs, Stokoe, estas línguas, assim como todas as demais línguas naturais, possuem uma estrutura fonológica subjacente que é constitutiva de toda e qualquer língua natural. No caso das LSs, existe outra possibilidade articulatória para produção de sentido que viabiliza a comunicação diferente daquela das LOs. Enquanto as LSs têm como característica articulatória o fato de serem espaço-visuais, as LOs se caracterizam por serem orais, ou seja, os gestos articulatórios são distintos, os das LOs são intra articulatórios, enquanto os das LSs são extra articulatórios.

Para Quadros e Karnopp (2004), por serem as LSs de modalidades espaço-visuais, a função da fonética e da fonologia, nos estudos dessas línguas, que se relacionam entre si, mas possuem perspectivas diferentes, será realizada de forma distinta. Vejamos:

A principal preocupação da fonética édescreveras unidades mínimas dos sinais. A fonética descreve as propriedades físicas, articulatórias e perceptivas de configuração e orientação de mão, movimento locação, expressão corporal e facial. [...] A fonologia estuda as diferenças percebidas e produzidas relacionadas com as diferenças de significado (Quadros & Karnopp, 2004, p. 81-82).

A partir da proposta de Stoke em decompor os sinais das LSs, tornou-se possível a realização de estudos mais específicos, em relação a essas línguas. Os parâmetros das LSs são considerados como unidades mínimas na formação dos sinais, independentemente de qualquer língua de sinal, assim como acontece com os fonemas das línguas oralizadas.

Assim como Brito (S/D), os autores Quadros e Karnopp (2004) ratificam que a denominação dada ao termo palavra/item lexical, nas LOs, é designado sinal, nas LSs. Assim, os sinais são formados a partir de combinações entre os parâmetros (CM, M, PA, Or. e ENM) dessas línguas. Embora sejam apenas cinco parâmetros, ao se combinarem, geram um número limitado de sinais, com a função de determinar o sentido/significado entre um sinal e outro, que por sua vez combinados e recombinados formam um número ilimitado de possibilidades diferentes de produção de sentenças.

Assim como a fonética trata, nas línguas oralizadas, da fala e das diversas formas de realizações de seus fones, nas LSs muda-se o modo de articulação e o seu papel fundador, de acordo com Quadros e Karnopp (2004), passa a ser o de investigar as diversas formas de realizações de seus parâmetros:

...descrever a seleção dos dedos (número de dedos selecionados), a configuração dos dedos (mão fechada ou aberta, dedos flexionados ou estendidos, contato e abertura entre os dedos), entre outros (Quadros & Karnopp, 2004, p. 81).

A fonética das LSs trata da sinalização, do modo como os sinais são produzidos/articulados e quais os pontos usados para articulação dos sinais. É possível considerar, então, que essa área vai estudar os aspectos físicos que estão relacionados à percepção e à produção dos sinais, pois os gestos acontecem de modo extra articulatório. A transcrição de suas unidades básicas são realizadas entre colchetes [i]. Vejamos o exemplo:

Figura 2
Exemplo de transcrição fonética da Libras.

Nas LOs, as transcrições das unidades mínimas também são realizadas entre colchetes. Entretanto, para que seja feita uma transcrição fonética dessas unidades é necessário compreender que as unidades básicas de estudo para a fonética não são letras e nem fonemas e sim os fones. Esses, por sua vez, são representados por símbolos encontrados no Alfabeto Fonético Internacional - AFI, ilustrado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.).

Adotamos, por ainda não haver um alfabeto fonético das unidades básicas das LSs, os estudos de Quadros e Karnopp (2004), por terem sido eles, dentre outras leituras que realizamos, que propuseram elementos sobre a fonética na Libras. São os únicos a se aproximarem do que é proposto pela fonética, no que se refere à transcrição dessas unidades, vez que as transcrições fonéticas devam ser realizadas entre colchetes. Embora os autores tenham usado os colchetes no exemplo apresentado, não usaram fones dentro deles e sim, fonema pertencente à LO, em outras palavras, ainda não há evidências empíricas que comprovem a existência dos símbolos de fones na Libras.

Partindo desse pressuposto, podemos entender a necessidade de estudos mais específicos que tratem/abordem sobre as unidades mínimas da Libras, pois assim como as LOs têm um conjunto básico de sons mais usados nas línguas do mundo, que são representados pelos símbolos do IPA, a Libras também possui um conjunto de modos diferentes de sinalizar, porém ainda não se tem um levantamento da quantidade e nem os símbolos que poderiam representá-los, em uma transcrição fonética, para então propor um alfabeto fonético próprio da língua. Acreditamos que futuros estudos, nessa perspectiva, poderão proporcionar uma descrição fonética mais específica e precisa da Libras.

A área da fonologia das LSs investiga o comportamento dos fonemas (parâmetros fonológicos) e sua organização interna/estrutura desses parâmetros.

Para abarcarmos os estudos dessa área nas LSs, é imprescindível a compreensão da organização sublexical proposta por Stokoe e o que foi proposto por Liddell (1984). Stokoe propôs que os sinais fossem instituídos por fonemas estruturados e produzidos de forma simultânea. Embora não tenha sido seu interesse de pesquisa, não descartou a possibilidade de existir a sequencialidade em sua estrutura.

Posterior aos estudos de Stokoe, temos o que foi proposto por Liddell (1984 apud Xavier, 2006), de que na ASL existem duas categorias de sinais: os que são unitários e os sequenciais. Os unitários são aqueles que têm aspectos formacionais estáticos (sinais produzidos com ou sem movimento), enquanto os sequenciais são aqueles realizados em sequência.

Em seus estudos, Xavier (2006) ratifica o que foi proposto por Liddell & Johnson ao dizer que:

... a simultaneidade é o princípio organizador da estrutura de cada segmento, a sequencialidade é o princípio organizador da estrutura interna de cada sinal, uma vez que este pode ser constituído de mais de um segmento (Xavier, 2006, p. 25).

A fonologia das LSs “estuda as diferenças percebidas e produzidas relacionadas com as diferenças de significado” (Quadros & Karnopp, 2004, p.82), e tem o papel de determinar as unidades mínimas formadoras dos sinais, estabelecer os possíveis padrões de combinação e apresentar os traços distintivos de significado. Para tanto, nos baseamos em Ferreira (2010), que descreveu 218 desses traços, possibilitando, para essa pesquisa, a constatação do sinal fonológico na Libras.

Segundo Roberto (2016), na LO, é possível identificar os pares mínimos quando percebemos o traço distintivo de significado, como no exemplo “vaca” e “faca”. Nesse exemplo há dois fonemas distintos, porém o que os fazem serem distintivos de significado é o traço sonoro, ou seja, o que os diferencia é a troca de apenas um elemento sonoro entre as palavras.

De acordo com Quadros e Karnopp (2004), o mesmo acontece com a Libras, entre sinais que produzem significados diferentes com a troca de apenas um dos traços envolvidos na sinalização, ou seja, este traço será considerado um traço distintivo de significado. Vejamos os exemplos:

Figura 3
Exemplo de par mínimo de sinais que se opõem quanto ao PA.

Como foi possível perceber, as palavras em português se estruturam a partir de unidades mínimas sonoras, enquanto os sinais, na Libras, se estruturam a partir de unidades mínimas espaciais. Essas unidades, como foram abordadas, são distintivas porque, quando há a mudança de uma por outra, suscitam um novo item lexical com significado diferente.

Dentre outros constituintes que formam a fonologia de uma língua, temos a estrutura silábica, a palavra fonológica e o pé métrico, domínio nos quais a maioria dos processos fonológicos mais relevantes acontecem, além do acento. Por ser o foco dessa pesquisa evidenciar o sinal fonológico na Libras, adentraremos ao constituinte da sílaba na Libras, assim como proposto por Aguiar (2013), o acento em ASL, tratado por Wilbur (1999) e por ainda não haver um estudo sobre a palavra fonológica e o pé métrico na Libras, tomaremos como base, em nossa análise, estudos já realizados nas LOs. Trataremos da sílaba por ser o constituinte fonológico que abriga a palavra fonológica, o acento e por ser o constituinte dominante do pé métrico. Nessa perspectiva, evidenciaremos o sinal fonológico dentro dos sinais da Libras, buscando materializar tal aspecto suprassegmental.

Sílaba na Libras

Assim como em qualquer outra língua natural a sílaba é um constituinte fonológico tomado como universal, em outras palavras, presente em todas as línguas e reconhecida pelos linguistas do mundo. Na Libras, isso não é diferente, pois esse constituinte fonológico também já foi evidenciado. Para abordar esse assunto, partiremos dos estudos realizados por Aguiar (2013). Embora Liddell e Johnson (1989), Sandler e Lillo-Martin (2006), Hulst (1993) e como também Cunha (2011) já tenham desenvolvidos pesquisas de suma importância para os estudos das LSs, selecionamos a pesquisa de Aguiar (2013), por ter resultados que mais se aproximam do interesse da nossa pesquisa, em se tratando de sílaba.

No primeiro momento, o objetivo de Aguiar não era pesquisar a existência de sílaba na Libras, pois outrora Cunha (2011), com base em estudos realizadas na ASL sobre sílaba, já havia realizado um importante trabalho nessa perspectiva e, a partir dessa pesquisa, conseguiu importantes contribuições para desenvolver seu estudo. No entanto, os resultados foram diferentes ao se referir ao N (Núcleo) da sílaba.

Os dados coletados por Aguiar apontaram que o parâmetro PA fosse o mais conveniente para ser aceito como N, pois é o único parâmetro que perdura na realização de todos os sinais na Libras. Isso se deve ao fato dessa língua, assim como qualquer outra LS, já ter uma descrição fonológica consolidada e que, por esse motivo, torna-se indispensável a presença desses elementos na estrutura silábica. Contudo, isso não fora proposto anteriormente, pois consideraram o parâmetro M como N, ao proporem os sinais sem o parâmetro M terem o Movimento Transitório2. No entanto, segundo Aguiar, isso não é possível, visto esse movimento não distinguir significado e por isso ir contra os princípios fonológicos de formação silábica.

Para comprovar a existência do N na sílaba, em Libras, o autor apresentou algumas exposições de sinais. Embora tenha também declarado a presença da sequência silábica simultânea em alguns sinais, constatou que sem a sequencialidade, na língua, não seria possível comprovar a existência do núcleo silábico.

Partindo desse pressuposto, o autor fez um levantamento da quantidade de sílabas possíveis e afirmou que os sinais podem ser monossilábicos (sinais formados por uma sílaba) ou dissilábicos (sinais formados por duas sílabas), como também podem apresentar sequencias silábicas simultâneas. Vejamos alguns exemplos:

Figura 4
Exemplo de sinal monossílabo.

Neste exemplo o sinal é monossilábico por ser constituído de apenas um PA, ou seja, o sinal é formado por apenas um N.

Figura 5
Exemplo de sinal dissílabo.

O sinal SURDO apresenta duas sequências silábicas (parte de um PA a outro PA), é dissílabo por conter dois PA, em outras palavras, o sinal é formado por dois N que são produzidos em uma sequência silábica.

Figura 6
Exemplo de sinal dissílabo, com duas sequencias silábicas simultâneas.

No sinal MACACO, considerando uma característica idiossincrática da LS, duas sílabas podem ser realizadas simultaneamente, embora os dois pontos de articulação aconteçam de forma simultânea. É um sinal dissílabo por conter dois N.

A representação da estrutura silábica da Libras proposta por Aguiar, segue, a princípio, o que é proposto na representação silábica das LOs. Vejamos:

Figura 7
Estrutura da sílaba na Libras.

Assim como nas línguas oralizadas, segundo Aguiar (2013), a estrutura da sílaba na Libras é realizada por três constituintes silábicos. A representação silábica é realizada pelo sigma [σ] e subdivide-se em dois outros constituintes silábicos: Ataque (A) ou Onsat (O) e Rima (R), sendo que o segundo ramifica-se obrigatoriamente com o núcleo (N) e opcionalmente com a Coda (Co). Ressaltando que o atributo N nunca poderá ser vazio. Por isso, Aguiar propõe que o parâmetro PA seja o N da sílaba na Libras, porém, não inclui o parâmetro ENM, nessa estrutura, alegando ter encontrado, em seus dados, esse parâmetro aparecendo apenas com funções pragmático-discursivas e sintáticas, porém não descartou a possibilidade dele aparecer como item fonológico na função de par mínimo entre dois sinais, propondo ser esse um parâmetro suprassegmental do sinal.

Outra questão importante que o autor propõe é a distinção de peso existente entre as sílabas dentro de um sinal, podendo ser leve ou pesada. Considerando a sílaba pesada somente aquelas que têm M, pois teria a sílaba do sinal com a Coda preenchida, e no caso de sílabas sem M não preencheriam a Coda, sendo assim, consideradas as sílabas leves dos sinais na Libras. Embora não tenha sido mencionado, é importante acrescentar que, de acordo com os estudos fonológicos, a palavra fonológica e o pé métrico são constituintes universais que estão localizados acima da sílaba e devem, portanto, figurar na estrutura fonológica da Libras, muito embora ainda precisem ser comprovados nos futuros estudos da fonologia dessa língua.

Palavra fonológica na LO

De acordo com Nespor e Vogel (1986 apud Bisol, 2004), a palavra fonológica é o componente mais baixo na hierarquia prosódica, sendo o primeiro nível de interação entre morfologia e fonologia. É constituída pelo pé métrico, ou seja, pelo agrupamento de sílabas que formam o pé métrico e, por conseguinte, esse é dominado pela palavra fonológica. Sua relação de dominância está pautada na existência de uma sílaba forte, que recebe o acento proposto pelo pé métrico, e a sílaba fraca, que não recebe o acento.

Segundo Roberto (2013), não se deve confundir a palavra fonológica com a palavra morfológica, pois existe uma diferença fundamental entre elas. A primeira está relacionada ao ritmo, ao acento e a segunda, ao significado. A palavra fonológica apresenta dimensões que excedem os limites da palavra morfológica.

Em palavras compostas, tanto morfológicas como fonológicas, pode acontecer algumas mudanças em relação à silabificação e ressilabificação. Como é o caso da palavra morfológica “guarda-roupa”, que se constitui de apenas uma palavra morfológica e duas fonológicas distintas. Em contrapartida, no processo de ressilabificação é possível observar que há casos em que os segmentos inalterados são preservados e outros que perdem o alinhamento de limites entre palavras, porém preservam seu significado por não perderem o material morfológico ou até mesmo fonético, como em [lu.za.ma.'ɾɛ.la]. Contudo, existe aquele que perde o material fonético, mas seu significado não é prejudicado.

Pé métrico

Por ser o pé métrico um componente fonológico que compõe a estrutura do acento, faz nos atentar, também, em compreender esse constituinte da língua oralizada, para então pensarmos isso na Libras.

Estudos sobre o constituinte prosódico pé (∑), segundo Liberman e Prince (1977 apud Mistieri, 2013), não são recentes. Embora não tenha sido considerado um constituinte prosódico, na antiguidade clássica, mas esteve presente em análises e construção de poemas, naquele período. Somente depois de um artigo publicado pelos autores é que o pé métrico passou a ser considerado como sendo um constituinte prosódico.

Na hierarquia prosódica, o pé métrico está em um nível acima da sílaba e abaixo da palavra fonológica. De acordo com Roberto (2016), no pé métrico, sempre haverá uma sílaba forte/dominante e a outra mais fraca/dominada, compondo, assim, a organização do acento. A sílaba que recebe o acento é a dominante, enquanto a dominada não é acentuada. O pé métrico pode ser encontrado de três maneiras: degenerado (quando há apenas uma sílaba); binário (com duas sílabas) e ternário (com três sílabas). Pode ser basicamente Troqueu3, Iambo/Jambo4, Dátilo5 e Anapesto6. Na maioria das línguas os pés métricos tendem a ser binários, como em:

(x) (x) (x .) (x)

ór gã<o> cha péu coy ta to co ra çon

- ᴗ ᴗ - - ᴗ ᴗ ᴗ ᴗ -

Troqueu Iambo Dátilo Anapesto

Segundo Roberto (2016), o pé métrico também é considerado uma unidade rítmica, pois pode tomar uma posição forte ou fraca dentro da palavra prosódica. A Língua Portuguesa é um exemplo de língua que, na maioria das vezes, suas palavras concentram o acento na sílaba inicial7, podendo afirmar que se trata de uma língua de ritmo trocaico.

Acento em Libras

Apresentamos a seguir um estudo sobre acento na ASL de Ronnie B. Wilbur (1999) e o adotamos como um estudo de extrema importância, mais especificamente, o que foi abordado sobre acento lexical, pois fora por intermédio desse trabalho que se tornou provável o desenvolvimento da nossa pesquisa. No entanto, não poderemos considerar, inteiramente, o contexto em que foi desenvolvido, devido os nossos dados apontarem para um resultado que contém, além do que foi proposto por Wilbur, um outro diferencial. Contudo, faremos um breve esboço de sua pesquisa, procurando mostrar as conclusões que levaram a autora a propor o acento no item lexical.

O estudo comparativo entre a ASL e o inglês realizado por Wilbur propõe constatar a proeminência frasal em ASL, revisar a marcação de acento e limites de frase, como também discutir a atribuição de destaque a nível frasal, com breve menção ao acento lexical. A autora esclarece que para tratar da proeminência, primeiro, é importante definir qual sinal está sendo acentoado e identificar os fatores que contribuiram para essa percepção. Uma vez encontrado o sinal acentoado, poderá identificar as regras para a colocação de acento na frase. Todavia, percebeu que a estrura frasal da ASL não possui plasticidade para mover essa proeminência para marcar o foco em um local diferente do final da frase.

Ao tratar do acento frasal, a autora afirma que o acento incide no sinal e não propriamente na sílaba. Stressed signs are modified and set off from the other signs in a frase by means of one or more of several perceptual cues”8 (Wilbur, 1999, p. 233). Partindo desse pressuposto, Wilbur ilucida que os sinais acentuados, na oração, têm um número significativamente maior de sílabas do que as suas contrapartes não acentuadas, mas as sílabas individuais em sinais acentuados não são necessariamente mais longas, declarando que os sinais que recebem proeminência exibem fronteiras de transição mais nítidas entre o sinal acentuado e os sinais não acentuados. Estes são produzidos fisicamente mais altos no espaço de sinalização do que os demais sinais não acentuados da frase, e são produzidos com aparente aumento da tensão muscular.

Liddell (1978 apud Wilbur, 1999 p. 234), ao analisar os fatores que instigam a duração do sinal, relatou que os sinais finais com expressão são marcados pelo aumento da duração, assim como os sinais iniciais, embora em menor alcance. Todavia, Wilbur afirma que a proeminência é possível quando há o aumento da velocidade de pico, quando os sinais proeminentes atingem uma velocidade máxima de pico, em relação aos sinais não acentuados. Sendo assim, o alongamento final da frase aumenta a duração, a proeminência aumenta a velocidade do pico e o deslocamento varia conforme necessário. Preferivelmente a aceitação de prominência ocorra na posição final da frase.

Ao analisar a presença da proeminência em posição final, Wilbur também constatou que para a linearidade ser relevante, é necessário estabelecer que os pronomes finais nem sempre são impedidos de serem proeminentes. Se aparecer os pronomes finais não acentuados na ASL, serão pronomes clíticos, essa será sua posição na frase envolvida. Com uma exceção nos estímulos (um objeto de uma preposição), os pronomes finais estão em uma posição em que eles poderiam ser vistos como clíticos na frase de predicado imediatamente anterior.

Como foi possível perceber, segundo Wilbur, o acento frasal incide no sinal, preferencialmente da direita para esquerda. Todavia, o nosso objetivo é entender onde ocorre o acento, em relação ao léxico. Ressaltando que para Wilbur o N da sílaba seja o M, precisamos nos ater em compreender como isso seria possível ocorrer em uma LS, em que o N seja o PA.

Segundo Wilbur (1999), a atribuição de acento lexical na ASL é direta e previsível. Embora existam evidências de que, nas sílabas da ASL, ocorram diferenças em relação ao peso, isso não interfere na atribuição de estímulo em nível de palavra. Não há pares mínimos na ASL que dependam crucialmente da colocação de acento. Uma das principais razões para isso é que a maioria dos sinais, em ASL, são monossilábicos. Existem apenas dois modos para que os itens lexicais não compostos tenham mais de uma sílaba, ambas extremamente restritivas em relação à atribuição de acento, ou seja, o acento é previsível em:

“(a) signs formed as a result of lexicalization of a reduplicated monosyllabic item. A single movement is repeated and the resulting form is frozen (usually a two-movement sign with a transitional movement in between; examples include the ASL signs NAME and CHAIR). In these forms, only the first syllable is prominent (Coulter, 1990); and (b) lexical disyllables, that is, if the morpheme itself requires two syllables. There are two types of disyllables (Wilbur, 1990b): (1) the movement of the second syllable is rotated 180 degrees from that of the first syllable (back-and-forth, side-to-side, or up-and-down movement; and (2) the movement of the second syllable is rotated 90 degrees from the first (as in tracing the shape of a cross). Supalla and Newport (1978) discuss the first type, which they term bidirectional, and note that prominence is equal on both syllables. It is also the case that prominence is equal on both syllables in the second typ”9 (Wuilbur, 1999, p. 243).

Dessa forma, de acordo com Wilbur, é considerado, na ASL, que o léxico não composto tenha, na maioria das vezes, acento na primeira sílaba. No caso dos sinais dissílabos, haverá exceções que requerem proeminência em ambas as sílabas. Embora isso contraste com as regras complexas de atribuição de acento para o inglês, mas é essencialmente o Princípio de Acentuação Básica10. Como diria Wilbur, “... the Basic Accentuation Principle stresses the leftmost syllable because ASL does not make accentual distinctions among syllables at the lexical level as in many spoken languages.” (Wilbur, 1999, p. 243)

Nesse sentido, entendemos que por considerar o M como sendo o N da sílaba na ASL, o acento é permitido incidir no sinal, visto que os sinais são basicamente monossilábicos, com exceção de alguns. Contudo não poderemos considerar todo esse contexto, em consequência de ser, na Libras, o parâmetro PA o N da sílaba. Entretanto, verificaremos se isso também é possível acontecer na Libras. Além de observarmos que Wilbur não tratou da palavra fonológica e nem do pé métrico, mas nos levou a intuir que eles estão presentes na organização do acento da ASL.

Sinais fonológicos e o pé métrico na Libras

A realização dos constituintes prosódicos que estão acima e abaixo da sílaba nem sempre é idêntica nas LOs, logo, também, não têm motivos para esses constituintes terem um correspondente direto com a Libras. Exemplo disso é o conceito de palavra fonológica, que não pode ser aplicado à Libras, visto se tratar de uma língua de modalidade espaço-visual em que ao léxico é constituído de sinais e não de palavras. Há assim uma impossibilidade de tratar, na Libras, tal conceito. Por haver emergência dessa representação, propomos o conceito de ‘sinal fonológico’, que embora não signifique o mesmo que palavra fonológica, mantém com ele uma relação semântica.

Como vimos, nos estudos da fonologia prosódica da LO, na palavra fonológica encontramos uma única sílaba forte, que recebe o acento projetado pelo pé métrico, e as demais que não recebem o acento serão fracas. É no pé métrico que acontece a organização do acento, por estar entre a sílaba e a palavra fonológica e, em sua combinação silábica, ser indispensável uma relação de dominância, de modo que uma delas receberá o acento. Essa por sua vez será a sílaba dominante e ao mesmo tempo dominada pela palavra fonológica. Partindo dessa conjectura, prosseguimos com o que foi postulado por Aguiar (2013), pois percebemos que há coerência em sua sustentação ao propor uma estrutura silábica que segue o que, também, foi proposto na representação silábica das línguas oralizadas.

O acento na ASL sugerido por Wilbur (1999), por sua vez, não foge da regra fonológica, visto considerar os sinais da ASL monossilábicos. Entretanto, isso não se aplica a Libras. Assim como Aguiar, Wilbur também fez alusão à uma propriedade que pode atrair o acento, o peso silábico.

O modo como as autoras abordam essa propriedade nos chamou a atenção para localizar no sinal fonológico, o pé métrico e, consequentemente, encontrarmos a sílaba acentuada, a sílaba proeminente do sinal em Libras.

Na estrutura silábica da Libras, considerada em nossa pesquisa, o parâmetro M é opcional por ocupar a posição de Coda. Todavia, é imprescindível sua presença em uma sílaba pesada. A localização do peso silábico nos proporciona uma possível identificação da sílaba dominante, pois como diria Collschonn (2001), essa propriedade atrai o acento. Contudo, devemos entender que a proeminência de uma sílaba dominante não ocorre, tão somente, em relação ao peso silábico, mas pode, também, acontecer por intensidade, altura e duração. Sendo assim, é necessário considerar que, na Libras, isso ocorra, também, pelo parâmetro ENM, postulado por Aguiar, como sendo um parâmetro suprassegmental, mas que tem a tendência de aparecer junto ao parâmetro M. Dessa forma, é plausível afirmar que na Libras a sílaba dominante seja atraída pelo peso silábico. Vejamos:

Figura 8
Dado 1

Figura 9
Dado 2

Nos dados 1 e 2, as sílabas são produzidas de forma sequencial. Devido a isso, é possível perceber o fortalecimento de uma única sílaba, em cada sinal em que os pés métricos são binários, por apresentarem dois PA e por ser sensível à sílaba dominante, a sílaba que tem todas as posições preenchidas. Enquanto uma mão se posiciona como apoio (sílaba dominada) a outra (sílaba dominante), associada com o parâmetro prosódico ENM, intensifica o sinal. As sílabas dos dois dados são paroxítonas, pois as proeminências incidem nas penúltimas sílabas, da esquerda para direita. Isso se deve ao fato desses sinais iniciarem em um PA e se movimentarem para chegarem a outro PA. Sendo assim, nos dois dados apresentados acima, é possível perceber a manifestação do acento na Libras. Também é possível perceber o ‘sinal fonológico’ que recebe o acento projetado pelo pé métrico.

Não descartamos a proeminência em sílabas que não contenham o parâmetro ENM, pois localizamos, em nossos dados, casos em que foi possível intuir a duração e altura silábica, com apenas o preenchimento da Coda, peso silábico, sem a presença desse elemento. Vejamos:

Figura 10
Dado 3

Figura 11
Dado 4

Figura 12
Dado 5

Assim como nos dados 1 e 2, nos dados 3 e 5, os sinais também são produzidos de forma sequencial, com fortalecimento de uma única sílaba. Os pés métricos são binários e os sinais são paroxítonos. Já no dado 4 o sinal é produzido com uma sílaba forte. Contudo não há presença do parâmetro prosódico ENM, em nenhum e a proeminência no dado 3 é demarcada pela duração, enquanto no dado 4, é pela intensidade e no dado 5, pela altura.

Ao identificarmos a sílaba dominante em ‘sinais fonológicos’ simples, passamos a investigar se seria possível, também, visualizar essa proeminência em sinais compostos, em processo de ressilabificação. Ressaltamos que levamos em consideração a idiossincrasia da estrutura silábica proposta por Aguiar (2013), em que Onset e Coda são posições preenchidas por constituintes de naturezas diferentes daquelas das LOs, ou seja, consoantes e vogais, como acontece no Português Brasileiro - PB, por exemplo. Na Libras essas posições são preenchidas por constituintes de natureza articulatória.

Figura 13
Dado 6

Figura 14
Dado 7

Embora as palavras JANTAR e INCÊNDIO, dos dados 6 e 7, sejam tomadas como palavras morfológicas simples no PB, na Libras, são sinais morfológicos compostos (COMER+NOITE e ACENDER+FOGO). E considerando o contínuo da sinalização na comunicação em Libras, em que um final de um sinal se modifica no encontro com outro sinal, podemos observar processos de ressilabificação. Houve uma ‘junção’ entre os dois sinais compostos, um M em posição de Coda se reorganizou, unindo-se ao PA do sinal seguinte. Dessa forma, o alinhamento dos limites entre os sinais foram perdidos, porém não houve perdas de material fonético, garantindo a preservação dos significados. Os dois sinais morfológicos compostos passaram a ser sinais fonológicos simples, com uma única sílaba forte.

No dado 6, cada sinal do sinal composto tem uma sílaba, enquanto no dado 7, o primeiro sinal do sinal composto acontece de forma sequencial seguido de uma sequência silábica simultânea e, ao passarem pelo processo de ressilabificação, acontece o fortalecimento de uma única sílaba, os pés métricos passam a ser binários. Contudo diferem em relação à posição da sílaba tônica e caracterização silábica. A proeminência da sílaba do dado 6 incide na penúltima sílaba (paroxítona) e é caracterizada pela duração, enquanto no dado 7 ocorre no último sinal e é caracterizada pela altura. Apesar de ser perceptível a presença do parâmetro ENM, não foi possível identificá-lo, de acordo com os traços propostos por Ferreira (2010).

Em nossa busca encontramos outro dado que nos chamou a atenção. Apesar de também ser uma palavra morfológica simples (ALUMINIO), no PB, e ser um sinal morfológico composto (FERRO+BRILHAR), na Libras, observamos que nesse dado 8, a última sílaba do primeiro sinal morfológico é fraca e a sílaba do sinal morfológico seguinte é forte. E, ao passarem pelo processo de ressilabificação, não foram impedidos de perderem o alinhamento dos limites entre os sinais e se permitirem a ‘junção’ entre os dois sinais compostos, sem perder o significado, passando a ser um sinal fonológico simples, com uma única sílaba forte, posicionada na última sílaba. Vejamos:

Figura 15
Dado 8

O primeiro sinal do sinal composto desse dado acontece de forma sequencial e o segundo é constituído por uma sílaba e, ao passar pelo processo de ressilabificação, também acontece o fortalecimento de uma única sílaba. O pé métrico passa a ser binário e a posição da sílaba tônica passa a ser a última (oxítona), que é constituído por uma sílaba, caracterizado pela altura.

Finalizando

A Libras, assim como qualquer outra língua, possui as características fonológicas, sintáticas, semânticas e pragmáticas, além de outra característica própria dela, que é a maracação visual. Assim como as línguas orais são naturais, as LSs, também são, pois marcadas por modalidades diferentes, gestos articulatórios distintos. Enquanto a primeira é oral-auditiva, com gestos intra articulatórios a segunda é espaço-visual, com gestos extra articulatórios. Apesar de haver essa diferença, é de se esperar que ambas possuam características em comum. A existência de constituintes prosódicos é uma delas. Todavia, devemos notar que diferenças incididas da modalidade podem aparecer. Dentre elas destacamos uma que foi importante para compreensão da localização do “sinal fonológico” na Libras. Enquanto nas línguas orais tem dois conjuntos, vocálicos e consonantais, em LSs, são cinco parâmetros formadores de sinais, consequentemente de sílabas.

Procurando responder as nossas perguntas sobre o possível sinal fonlógico na Libras, constatamos, a partir do encontro entre os estudos fonéticos e fonológicos da LO e estudos fonéticos e fonológicos das LSs, como também a análise dos nossos dados, que esse elemento também está presente na Libras.

A localização do ‘sinal fonológico’ e do pé métrico na Libras corroboram para a constatação de que essa língua, assim como as línguas oralizadas, são constituídas de elementos prosódicos. Dois outros elementos da hierarquia prosódica - sinal fonológico e pé métrico - são vistos, por nossos estudos, como presentes na estrutura da Libras.

Além dos estudos da sílaba na Libras, almejamos que futuras pesquisas possam corroborar com a complementação dos estudos prosódicos. Acreditamos que pesquisas mais aprofundadas sobre fonologia da Libras devam levar em consideração novas formas de representações de construtos teóricos, como as noções de fone e fonema.

Nas análises realizadas em nossos dados, podemos confirmar três modos de produção de sinais fonológicos: constituído por uma sílaba, sequência silábica e sequência silábica simultânea. Foram também encontrados sinais em que esses modos são articulados de forma conjunta. Independentemente do modo como os sinais fonológicos foram produzidos, alcançamos nossos objetivos, pois ele, sinal fonológico,está presente na Libras.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

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  • 1
    Nelson Pimenta de Castro é surdo e professor titular do Departamento de Educação Básica no INES, Mestre e doutorando em Pós-Graduação em Estudos da Tradução pela UFSC.
  • 2
    Movimento que ocorre entre os sinais e na preparação da realização de algum sinal. (Aguiar, 2013, p. 59)
  • 3
    “um pé formado por uma sílaba longa (tônica) e uma breve (átona)” (Quintino, 2012, p. 162).
  • 4
    “um pé formado por uma sílaba breve e uma longa.” (Quintino, 2012, p. 162).
  • 5
    “um pé formado por uma sílaba longa e duas breves.” (Quintino, 2012, p. 162).
  • 6
    “Pé formado por duas sílabas breves e uma longa.” (Quintino, 2012, p. 162).
  • 7
    Pé métrico com cabeça à esquerda - troqueu. (Roberto, 2016, p. 87).
  • 8
    Os sinais acentuados são modificados e partiram dos outros sinais em uma frase por meio de uma ou mais de várias pistas perceptivas (tradução nossa).
  • 9
    Tradução nossa: (a) sinais formados como resultado da lexicalização de um item monossilábico reduzido. Um único movimento é repetido e a forma resultante está congelada (geralmente um sinal de dois movimentos com um movimento de transição no meio, os exemplos incluem a ASL assina NOME e CHAIR). Nessas formas, apenas a primeira sílaba é proeminente (Coulter, 1990); e (b) dissílabas lexicais, isto é, se o morfema necessita de duas sílabas. Existem dois tipos de dissílabas (Wilbur, 1990b): (1) o movimento da segunda sílaba é girado 180 graus daquela da primeira sílaba (de ida e volta, de lado a lado ou de cima e de baixo movimento e (2) o movimento da segunda sílaba é girado a 90 graus do primeiro (como no traçado da forma de uma cruz). Supalla e Newport (1978) discutem o primeiro tipo, que eles denominam bidirecional, e note que a proeminência é igual em ambas as sílabas. É também o caso de que a proeminência é igual em ambas as sílabas no segundo tipo.
  • 10
    Tradução nossa: ...o Princípio de Acentuação Básica enfatiza a sílaba mais à esquerda porque a ASL não faz distinções acentuadas entre sílabas no nível lexical como em muitas línguas faladas.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2026

Histórico

  • Recebido
    30 Out 2023
  • Aceito
    12 Ago 2024
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