Open-access Colaborações entre a Diáspora Científica Brasileira e Pesquisadores no Brasil no Tema da COVID-19: Engajamento, Motivações e Sustentação de Vínculos*

Collaborations between the Brazilian Scientific Diaspora and Researchers in Brazil on the Topic of COVID-19: Engagement, Motivations, and Maintenance of Ties

Collaborations entre la Diaspora Scientifique Brésilienne et les Chercheurs au Brésil sur le Thème de la COVID-19 : l’Engagement, les Motivations et le Maintien des Liens

Colaboraciones entre la Diáspora Científica Brasileña e Investigadores en Brasil sobre el Tema de la COVID-19: Compromiso, Motivaciones y Sostenimiento de Vínculos

Resumo

Trata-se de pesquisa exploratória e qualitativa cujo objetivo foi explorar em profundidade, por meio de entrevistas, as interações entre pesquisadores no Brasil e membros da diáspora brasileira altamente qualificada (ou diáspora de CT&I, ou ainda, diáspora científica) para produção de conhecimento no tema da COVID-19. Os procedimentos metodológicos incluíram: estudo bibliométrico para identificação de coautoria internacional, análise de currículos e entrevistas em profundidade. Analisar pontos de vista de indivíduos já engajados em colaborações com seus pares, no Brasil e no exterior, permitiu conhecer os fatores que concorreram para o engajamento, os antecedentes dessas interações, as motivações e o que é necessário para a manutenção desses vínculos. Embora nossos entrevistados estejam ativamente envolvidos em colaborações internacionais, eles reconhecem que a escassez de recursos, os entraves burocráticos, e a falta de valorização da ciência nacional (e dos cientistas) comprometem possibilidades futuras de colaboração.

Palavras-chave:
colaboração internacional; COVID-19; engajamento; diáspora científica; sistema nacional de CT&I

Abstract

This exploratory qualitative study examines the interactions between researchers in Brazil and members of the highly skilled Brazilian diaspora (also called the ST&I diaspora or scientific diaspora) in generating knowledge related to COVID-19. The methodological approach combined a bibliometric analysis to identify international co-authorship, curriculum vitae analysis, and in-depth interviews. Analyzing the perspectives of individuals already involved in collaborations with peers in Brazil and abroad provided insights into the factors motivating their engagement, the precursors of these interactions, their motivations, and the need for maintaining these ties. Although the interviewees showed active participation in international collaborations, they also highlighted critical challenges—such as resource shortages, bureaucratic obstacles, and the undervaluation of national science and scientists—that threaten the sustainability of future partnerships.

Keywords:
international collaboration; COVID-19; engagement; scientific diaspora; national ST&I system

Résumé

Il s’agit d’une recherche exploratoire et qualitative dont l’objectif était d’explorer en profondeur, à travers des entretiens, les interactions entre les chercheurs au Brésil et les membres de la diaspora brésilienne hautement qualifiée (ou diaspora CT&I, ou diaspora scientifique) pour produire des connaissances sur le thème de la COVID-19. Les procédures méthodologiques comprenaient : une étude bibliométrique pour identifier la co-autorat internationale, l’analyse de curriculum, et des entretiens approfondis. L’analyse des points de vue d’individus déjà engagés dans des collaborations avec leurs pairs, au Brésil et à l’étranger, nous a permis de comprendre les facteurs qui ont contribué à l’engagement, les antécédents de ces interactions, les motivations et ce qui est nécessaire pour maintenir ces liens. Même si les personnes interrogées sont activement impliquées dans des collaborations internationales, elles reconnaissent que le manque de ressources, les obstacles bureaucratiques et le manque d’appréciation de la science nationale (et des scientifiques) compromettent les futures possibilités de collaboration.

Mots clés:
collaboration internationale; COVID-19; engagement; diaspora scientifique; système national de ST&I

Resumen

Se trata de una investigación exploratoria y cualitativa cuyo objetivo fue analizar, a través de entrevistas, las interacciones entre investigadores en Brasil y miembros de la diáspora brasileña altamente calificada (o diáspora de CT&I, o diáspora científica) para producir conocimiento sobre el tema de la COVID-19. Los procedimientos metodológicos incluyeron: estudio bibliométrico para identificar coautoría internacional, análisis de currículum vitae y entrevistas a fondo. El análisis de las perspectivas de individuos que ya colaboraban con sus pares, en Brasil y en el exterior, permitió comprender los factores que contribuyeron al compromiso, los antecedentes de esas interacciones, las motivaciones y lo que resulta esencial para mantener esos vínculos. A pesar de que nuestros entrevistados participan activamente en colaboraciones internacionales, reconocen que la carencia de recursos, los obstáculos burocráticos y la falta de aprecio por la ciencia y los científicos nacionales comprometen las oportunidades futuras de colaboración.

Palabras clave:
colaboración internacional; COVID-19; conexión; diáspora científica; sistema nacional de ST&

Introdução

As diásporas científicas, compostas por indivíduos que migraram de seus países de origem para seguir carreiras científicas no exterior, desempenham um papel significativo no fomento de parcerias entre indivíduos e instituições (colaborações internacionais), bem como entre países (cooperação internacional). Segundo a literatura, elas podem facilitar intercâmbios de conhecimento, transferência de tecnologia e desenvolvimento de projetos de pesquisa conjuntos, atuando como pontes entre seus países de origem e seus países anfitriões (Bonilla et al., 2023; Echeverría-King et al., 2022; Prieto, Scott, 2022; The Royal Society, 2010).

O presente trabalho teve como motivação a carência de estudos sobre a diáspora brasileira altamente qualificada e o papel que esta pode desempenhar no sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em vista disso, o objetivo foi realizar uma análise exploratória da interação entre pesquisadores no Brasil e membros da referida diáspora para conhecer a origem das colaborações, bem como os interesses e motivações relacionados, além das condições nas quais as interações ocorreram. Além disso, também refletimos sobre como as interações com a diáspora poderiam ser facilitadas.

Para tanto, elegemos o tema da COVID-19, que serviu de fio condutor da pesquisa. As perguntas orientadoras foram as seguintes: (i) como ocorreram as interações e colaborações entre membros da diáspora de CT&I e seus pares no Brasil no tema da COVID-19?; (ii) como facilitar e fomentar o engajamento entre o Brasil e sua diáspora altamente qualificada?

Buscando responder às perguntas de pesquisa, conduzimos levantamentos bibliométricos para identificar artigos científicos sobre a temática da COVID-19, realizados em coautoria entre pesquisadores sediados no Brasil e membros da diáspora científica brasileira. Nas etapas seguintes, identificamos os autores e coautores, sediados no Brasil e no exterior, e realizamos um conjunto de entrevistas com indivíduos selecionados.

Elegemos o tema da COVID-19 não apenas pela sua atualidade e pelo impacto da pandemia em diferentes esferas da vida social (saúde, economia, relações interpessoais, ensino etc.), mas, especialmente, porque a produção científica brasileira colocou o Brasil entre os países que mais produziram conhecimento nesse campo (Bernardes, 2020; Gimenez, 2022). Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE, 2021), foram consideráveis as contribuições da pesquisa brasileira nas áreas das ciências médicas e da epidemiologia, sem desconsiderar as discussões sobre os impactos da pandemia na saúde mental, na economia e na política. Assim, a produção brasileira não ficou restrita somente aos campos científicos mais diretamente relacionados ao estudo do vírus e da doença, com o ingresso de discussões de outras áreas que também buscavam compreender diferentes facetas do fenômeno na sociedade.

Cai, Fry e Wagner (2021), no início da pandemia, presumiram que o protagonismo científico dos países mais afetados poderia estar relacionado não apenas à própria necessidade de compreensão científica do fenômeno e de sua evolução, como também aos investimentos governamentais para financiar pesquisas voltadas à busca rápida de soluções para o enfrentamento da crise sanitária. Esses autores também levantaram a hipótese de que países com alta incidência de COVID-19 se tornaram verdadeiros “celeiros de casos” a serem estudados, o que poderia estimular colaborações e parcerias internacionais, especialmente devido ao acesso a um volume significativo de dados.

Assim, o referido cenário apresentou-se como uma oportunidade para levantar informações que permitissem compreender alguns aspectos que norteiam as dinâmicas de colaboração entre a diáspora científica brasileira e seus pares no Brasil, as formas de contribuição da diáspora para o país e como esses relacionamentos podem ser fomentados e facilitados.

Feitas essas considerações iniciais, é importante destacar que a terminologia utilizada pela literatura para nomear os profissionais expatriados que atuam nos campos científico, técnico/tecnológico e de ensino superior (Ho, Hickey, Yeoh, 2015; Barré et al., 2003) inclui os termos “diásporas científicas”, “diásporas altamente qualificadas” e “diásporas de CT&I”. Sendo assim, neste trabalho, utilizaremos esses termos de forma intercambiável para indicar brasileiros que atuam em instituições científicas no exterior.

Além desta introdução e das considerações finais, o trabalho é formado por mais cinco seções que abordam, respectivamente: referencial teórico, procedimentos metodológicos, apresentação dos resultados, discussão e considerações finais.

Referencial Teórico

O termo diáspora vem passando por um processo paulatino de ressignificação desde os anos 1960, com a ampliação do rol de indivíduos que se enquadram em seu escopo. Se originalmente o termo era utilizado somente para designar os povos que se “estabeleceram longe de suas terras ancestrais” (Séguin et al., 2006:80) em decorrência de migrações forçadas pela perda de território, guerras, perseguições de cunho político, religioso, étnico (Cohen, 2008), atualmente também serve para designar as populações no exterior que migraram voluntariamente. A incorporação das pessoas com nível de escolaridade mais elevado, ou as que constituem as diásporas “científica”, “do conhecimento”, “intelectuais”, ou ainda, “altamente qualificadas” (Barré et al., 2003:17) se deve a uma nova compressão dos movimentos migratórios e da mobilidade internacional dos chamados “talentos”, que podem contribuir para os seus países de origem, mesmo permanecendo no exterior. No entanto, é preciso construir as pontes necessárias para essa interação.

O crescente interesse de estudiosos e países na diáspora qualificada pode ser visto como um dos desdobramentos da importância que se tem atribuído à mobilidade internacional, pois a conquista de experiências em diferentes sistemas de ensino e pesquisa, cada vez mais, tem sido considerada como um fator importante não apenas para o desenvolvimento profissional, mas também para o fortalecimento da comunidade científica e para o avanço da ciência (Scellato, Franzoni, Stephan, 2012; Dueñas-Fernández, Iglesias-Fernández, Llorente-Hera, 2013; García-Pascacio et al., 2023).

O estudo empírico conduzido por Scellato, Franzoni e Stephan (2012), com dados de pesquisadores de 16 países, inclusive do Brasil, apontou os efeitos positivos da mobilidade internacional, destacando-se os seguintes: (i) acesso a redes científicas mais amplas, pois os cientistas tendem a continuar trabalhando com colegas que conheceram no exterior; (ii) ampliação do escopo internacional e da qualidade das redes de pesquisa no país de destino; (iii) incremento do impacto da produção científica, com publicações em revistas de alto impacto, aumento das citações, entre outros. Muitas vezes, os laços pessoais e profissionais permanecem entre os migrantes e os seus países de origem, ou de residência anterior, e constituem uma invisible backbone (espinha dorsal invisível), permitindo que o conhecimento continue circulando (Scellato, Franzoni, Stephan, 2012:3), conforme também já havia sido observado por Saxenian (2002).

Brinkerhoff (2006), a partir de dados empíricos sobre as diásporas filipina e chinesa, identificou os fatores que favorecem a mobilização das diásporas para que estas possam oferecer contribuições às suas terras natais, agrupando-os em três dimensões:

  1. capacidade de mobilização: diz respeito à idade e ao nível de desenvolvimento profissional do diasporado - os mais jovens, por exemplo, podem entender que ainda não possuem um nível de maturidade (científica ou profissional) que os habilite a interagir com seus pares em seu país de origem. Isso também diz respeito ao estágio da carreira, ou seja, se o profissional já alcançou uma posição permanente (professor titular, por exemplo), ou se está vinculado a contratos transitórios e mais precários em termos de duração, recursos de financiamento etc. (Brinkerhoff, 2006);

  2. motivação: está relacionada com os laços que unem os indivíduos no país de origem e no exterior. Isso pode ser potencializado, por exemplo, pela participação em organizações/redes de diáspora, mas também diz respeito à manutenção dos vínculos com indivíduos na terra natal. Brinkerhoff (2006) nomeou esses laços ou sentimento de solidariedade e interesse uns pelos outros de “capital social”.

  3. estruturas de oportunidades nos países de envio: diz respeito ao estabelecimento de um ambiente doméstico propício ao engajamento com a diáspora. Para tanto, os governos devem ser proativos, não apenas incentivando relacionamentos, mas efetivamente gerando oportunidades para que os membros da diáspora possam oferecer contribuições, criando mecanismos que favoreçam as conexões dos países com suas diásporas (Brinkerhoff, 2006).

Essa visão oferece um entendimento distinto do fenômeno, rompendo com a lógica de soma zero presente nas visões tradicionais que analisavam a migração de pessoas altamente qualificadas a partir da ideia da perda de capital humano (conceito da teoria neoclássica). Dessa forma, a ida de profissionais qualificados para o exterior representava perda/fuga/drenagem de cérebros (brain drain). O país de origem perdia não somente recursos humanos, mas também os investimentos atrelados à formação e qualificação desses indivíduos, enquanto somente o país de destino efetivamente ganhava (Cañibano, Woolley, 2015).

Essas discussões, geralmente, focam na perda de capital humano de países do Sul Global (ou periféricos) para países do Norte Global (ou centrais). Tradicionalmente, os países do Norte Global, com seus sistemas de ensino e pesquisa desenvolvidos e intensivos em conhecimento, são os principais destinos da mobilidade internacional de profissionais altamente qualificados de países do Sul Global, que buscam nesses países melhores oportunidades para o desenvolvimento de suas carreiras (Zdravkovic, Chiwona-Karltun, Zink, 2016). Também é importante destacar que a literatura tem apontado assimetrias importantes nas relações entre acadêmicos de países menos desenvolvidos, ou em desenvolvimento, que ocupam um papel periférico no sistema científico global, e acadêmicos dos países que estão no centro desse sistema (Demeter, 2019; Olechnicka, Ploszaj, Celińska-Janowicz, 2019; Schott, 1998). Essas constatações reforçam a importância do papel das diásporas qualificadas na construção de pontes que promovam colaborações e parcerias mais equilibradas entre seus pares nos países de origem e de destino.

Desde o final dos anos 1990 e meados dos anos 2000, cresceu o número de estudos que, reiteradamente, sustentam que os ganhos podem ser recíprocos, ou seja, que tanto os países anfitriões quanto os países de envio podem ser beneficiados (Meyer, Brown, 1999; Brown, 2000; Kuznetsov, Freinkman, 2013; Yamashiro, 2015; Anand, Hofman, Glass, 2009). Esse novo entendimento começou a despontar quando a ideia de circulação de cérebros (brain circulation) passou a se contrapor à da perda definitiva (N. Cohen, 2013; Tung, 2008).

Brinkerhoff (2006, 2012) sustenta que as diásporas podem representar os maiores e mais recentes recursos para o desenvolvimento nacional, sendo que muitas das contribuições costumam ocorrer mesmo sem o endosso ou apoio formal dos Estados. Quando os Estados de origem escolhem estabelecer parcerias com suas diásporas pode ser necessário o estabelecimento de uma série de negociações, políticas e práticas. Nesse contexto, as parcerias e colaborações com membros altamente qualificados da diáspora, especialmente quando atuam em centros de excelência internacionais, podem representar um meio de alavancar o desenvolvimento do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) do país de origem, sem o necessário retorno desses expatriados, conforme esclarece Brown (2000:10):

Muitas vezes, um expatriado adquire novas habilidades e conhecimentos aos quais possivelmente não teria acesso se estivesse em seu país de origem. A política de engajamento com a diáspora (diaspora option) permite que o país de origem acesse não apenas as habilidades e conhecimentos do expatriado, mas também o conhecimento das redes das quais ele faz parte no país de acolhimento. Também permite a transferência de informação e tecnologia dos países mais industrializados para os países em desenvolvimento. Em suma, permite que o brain “DRAIN” seja transformado em brain “GAIN”.

Entretanto, a falta de políticas, ou a existência de políticas coercitivas, pode ser um obstáculo para que os expatriados possam oferecer contribuições aos seus países de origem, neutralizando as oportunidades para que estes se beneficiem das suas experiências e expertises. Ocorre que transferir conhecimento, criar parcerias, lidar com a burocracia são atividades que demandam recursos, como também envolvem entraves burocráticos que podem inibir a construção e a manutenção de uma rede. Portanto, a efetiva contribuição dos profissionais altamente qualificados, pertencentes à diáspora, depende de políticas de engajamento que estimulem e facilitem a cooperação, para poderem desempenhar um papel ativo no cenário científico e inovativo de seus países de origem (Séguin et al., 2006; Ciumasu, 2010).

Ocorre que, muitas vezes, isso poderá depender do estabelecimento de uma nova cultura e visão acerca da diáspora, pois as interações ocorrem sob determinados condicionantes, ou seja, existe uma “dependência da trajetória” (path dependence) (Czaika, Toma, 2015). O processo de path dependence se configura como um “acúmulo de rotinas comportamentais, conexões sociais ou estruturas cognitivas” que vão conformando as decisões presentes e futuras (Lee, 2012:95). Ocorre que essas rotinas não apenas podem garantir eficiência, mas também gerar bloqueios que impedem os avanços. Os bloqueios de um caminho poderão ser superados por uma intervenção política que fomente uma mudança de mentalidade e aponte novos caminhos. Para evitar novos bloqueios, entretanto, é necessário que a política seja, de tempos em tempos, revisada ou, ainda, aperfeiçoada, para que os instrumentos e mecanismos criados não se tornem obsoletos ou ineficientes.

Trazendo essa discussão para o caso brasileiro, dados recentes apontam que ainda há muito o que ser feito para que se estabeleça uma cultura de engajamento com a diáspora. É comum pesquisadores que retornaram ao Brasil após passarem períodos no exterior – ou pesquisadores brasileiros que continuam integrando a diáspora – relatarem dificuldades para se relacionarem com seus pares no Brasil, seja pelo desinteresse de seus pares, seja por agendas ou linhas de pesquisa incompatíveis, ou ainda devido a questões burocráticas (Carneiro et al., 2020).

Ao longo dos anos, as organizações governamentais brasileiras tradicionalmente adotaram uma postura reativa frente à diáspora no sentido de barrar a fuga de cérebros. Assim sendo, na esteira da visão econômica neoclássica, a fixação de brasileiros em instituições de CT&I no exterior era vista como uma perda de recursos públicos escassos, investidos em sua formação, e como uma perda de competências. Essa percepção justificou a adoção de um conjunto de medidas duras para garantir o retorno e a permanência no país, por um período determinado, dos pesquisadores brasileiros formados ou titulados no exterior, sob pena de devolução dos valores investidos na sua formação1. Tais medidas parecem ir de encontro às análises mais recentes sobre a circulação de cérebros, e partem de uma premissa teórica que precisa ser repensada, qual seja, a “reversão da fuga de cérebros” ou “repatriação”, ressignificando a diáspora no contexto brasileiro.

É importante observar que a partir de 2012 surgiram iniciativas pontuais de engajamento com a diáspora de CT&I brasileira, como por exemplo o Projeto Rede Diáspora Brasil2 (2012-2016), o Programa Diplomacia da Inovação3 (2017, atual) e o Programa de Repatriação de Talentos - Conhecimento Brasil (2023, atual)4. Além disso, em 2023, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aperfeiçoaram o “instituto da novação”5, que permite aos ex-bolsistas no exterior a substituição do retorno ao país por outros tipos de contraprestações que possam surtir algum impacto no sistema de CT&I e na comunidade científica nacional. No entanto, algumas dessas ações não tiveram continuidade, como é o caso da Rede Diáspora Brasil. Além disso, embora algumas dessas ações sejam alvo de críticas de diversos setores da sociedade brasileira, é possível afirmar que representam um novo olhar do governo brasileiro para a presença de nacionais altamente qualificados no exterior (ver notas 4 e 5).

Em vista dessas evidências, na Figura 1 esboçamos um quadro analítico no qual elencamos os fatores que podem influenciar, ou ainda, determinar o engajamento com a diáspora, bem como os resultados que podem ser esperados caso o engajamento ocorra. Classificamos esses fatores de acordo com seus níveis de atuação: institucionais, organizacionais e individuais, com base nos conceitos de instituição e organização de North (1990).

Figura 1
Quadro Analítico do Engajamento com a Diáspora: Determinantes e Resultados Presumidos

Com inspiração em North (1990), que entende as instituições como as restrições humanamente criadas para estruturar as interações sociais, sejam elas formais – leis, regulamentos – ou informais – costumes, tradições e códigos de conduta –, no nível institucional localizamos as políticas, a legislação, as regras e características das áreas do conhecimento e das disciplinas científicas, bem como a postura da comunidade científica nacional, que pode ser mais favorável ou menos favorável ao engajamento com a diáspora altamente qualificada (especialmente se conceber a diáspora como uma “desistente” ou “desertora”). E isso pode ganhar relevância quando membros da comunidade científica exercem cargos nos quais podem influenciar normas ligadas à mobilidade e à colaboração internacionais, por exemplo.

Considerando que North (1990) define organizações como grupos de indivíduos ligados por algum propósito e com o fim de atingir objetivos comuns, no nível organizacional localizamos as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) brasileiras e sua cultura organizacional. Ao mesmo tempo em que as organizações são moldadas pelo quadro institucional vigente, elas também são agentes de mudança, pois no desenvolver de seus propósitos podem influenciar a evolução institucional (North, 1990).

No nível individual localizamos os fatores que dizem respeito a cada indivíduo, mas que podem influenciar a decisão de se engajar ou não com a diáspora, tais como: gênero, idade, agendas e temas de pesquisa, laços profissionais e pessoais, estágio da carreira. Convém aqui mencionar o conceito de “capital social científico” (estoques de vínculos relevantes) cunhado por Jonkers e Tijssen (2008), pois, segundo os autores, este exerce importantes influências nas colaborações internacionais. Assim, não são apenas as competências do pesquisador que importam, mas também o número, a força e a qualidade dos laços que mantém. Também é importante recuperar a visão de Brinkerhoff (2006) sobre os fatores que influenciam o engajamento de membros da diáspora com seus pares em sua terra natal, que podem ser usados também para os pesquisadores baseados na terra natal. Segundo a autora, o engajamento também depende da “capacidade de mobilização”, que está ligada ao estágio em que suas carreiras se encontraram (titular, sênior) e do tipo de contratos de trabalho (tempo integral/parcial, transitórios, precários, permanentes etc.).

A questão do gênero também pode ser relevante para entender a colaboração internacional, uma vez que estudos empíricos têm comprovado que há diferenças significativas entre homens e mulheres, tanto no que diz respeito à mobilidade (Momeni et al., 2022; Toader, Dahinden, 2018) e à colaboração (Aksnes, Piro, Rørstad, 2019) internacionais, como no que se refere à ascensão na carreira (Uhly, Visser, Zippel, 2015).

Finalmente, os resultados do engajamento também atuam nos três níveis anteriormente mencionados.

No nível institucional, os resultados do engajamento podem envolver desde o aumento do Soft Power (“poder brando”) do Estado até uma maior inserção do país no sistema global de CT&I (institucional). Segundo Nye (2008), Soft Power é a capacidade que os Estados possuem de atingirem metas e influenciarem comportamentos que lhes sejam favoráveis, não pelo uso da força ou do poder econômico, mas pela atração ou admiração. Nesse sentido, a diplomacia pública pode ser um instrumento para mobilizar recursos de poder a fim de atrair audiências residentes de outros países, construindo relacionamentos de longo prazo, especialmente com pessoas-chave que podem criar um ambiente positivo para as políticas governamentais (Ferreira, 2019). Dessa forma, é possível incluir, no esforço da diplomacia pública, a comunicação e o estabelecimento de relacionamentos com a diáspora científica. No texto “New Frontiers in Science Diplomacy: Navigating the Changing Balance of Power” (The Royal Society, 2010), a comunidade científica foi reconhecida como uma importante intermediadora de parcerias internacionais. Além disso, foi reconhecido o papel estratégico da diáspora científica, cujo interesse em estabelecer relacionamentos com seus países de origem deve ser não apenas valorizado, mas também estimulado. Portanto, estratégias de engajamento e mobilização da diáspora também podem contribuir para o aumento do Soft Power na medida em que conseguem despertar o interesse, pelo país, de atores-chave no exterior (Yamashiro, 2015).

No que se refere ao nível organizacional, o engajamento com a diáspora altamente qualificada poderia contribuir para o incremento da internacionalização e da visibilidade do conhecimento gerado nas ICTs (universidades, centros de pesquisa etc.).

No nível individual, as parcerias e colaborações com membros da diáspora altamente qualificada poderiam alavancar a inserção internacional dos pesquisadores do país de origem, bem como gerar ou incrementar as possibilidades de financiamento ou de acesso a recursos de pesquisa não disponíveis no país de origem.

Metodologia

Este trabalho foi realizado, principalmente, por meio de entrevistas em profundidade. Como forma de selecionar os entrevistados, foram utilizados métodos auxiliares como estudo bibliométrico e análise de currículos. O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (CEP) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP) - Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 55672222.0.0000.5390.

A amostra das entrevistas foi intencional para selecionar casos de pesquisas ou outras colaborações no tema da COVID-19 envolvendo membros da diáspora e/ou pesquisadores no Brasil, sem a intenção de generalização. Para selecionar a amostra foram utilizadas quatro estratégias: 1) identificação de pesquisadores, no Brasil, que produziram artigos no tema da COVID-19 no período entre 2020 e 2022; 2) seus respectivos colegas brasileiros no exterior, que atuaram como autores ou coautores nos artigos científicos recuperados pelo levantamento bibliométrico; 3) pesquisadores indicados pelos entrevistados – estratégia da bola de neve; e 4) líderes de grupos e redes de pesquisa que trataram do tema COVID-19.

Inicialmente realizamos levantamentos bibliométricos nas ferramentas Scival (da base Scopus/Elsevier) e Research Rabbit para identificar trabalhos em colaboração internacional entre pesquisadores no Brasil e membros da diáspora de CT&I brasileira. Na plataforma Scival/Scopus foram recuperados 1.652 trabalhos em coautoria internacional, a partir do “Topic Cluster” “COVID-19”; “SARS-CoV-2;Coronavirus6. Foram selecionados 153 artigos, em colaboração internacional, dos cinco autores mais produtivos no período e que estavam vinculados a instituições no Brasil. Na plataforma de acesso aberto Research Rabbit, a partir do termo de busca “COVID-19”, foi possível recuperar 93 trabalhos. Com isso, criamos um banco de dados com 246 artigos científicos.

Na sequência, as colaborações com brasileiros no exterior foram identificadas manualmente por meio de análise minuciosa das autorias e vinculações institucionais de cada autor, utilizando-se, para tanto, análise de currículos na Plataforma Lattes, informações em páginas pessoais ou institucionais dos autores identificados.

Finalizadas essas análises e após a exclusão de trabalhos duplicados, bem como de trabalhos que não foram realizados com membros da diáspora, identificamos 35 trabalhos (lista completa dos trabalhos no ApêndiceQuadro 3) nos quais havia, pelo menos, um autor no Brasil e um autor brasileiro no exterior. A partir desses trabalhos foram elaboradas as primeiras listas, com nomes e contatos de possíveis entrevistados, no Brasil e no exterior.

Quadro 3
Lista Completa do Levantamento Bibliométrico

Conforme as entrevistas eram realizadas, utilizamos o método da bola de neve para levantar nomes de outros pesquisadores, membros da diáspora e seus parceiros no Brasil, com os quais os entrevistados haviam colaborado no tema da COVID-19, para eventual entrevista.

Por fim, também incluímos na amostra líderes de grupos de pesquisa registrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, dirigentes de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) e de Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID/FAPESP) que tiveram atuação em pesquisas sobre temas ligados à COVID-19. Nem todos esses líderes tinham experiência de colaboração com a diáspora, mas foram incluídos para ampliar as possibilidades de reflexão sobre o papel da diáspora no desenvolvimento do país e as estratégias que o governo poderia mobilizar para fomentar as interações.

No total, enviamos 57 convites e conseguimos realizar 21 entrevistas (36,8%) on-line entre os meses de março e julho de 2022, com duração média de 45 minutos. Foram entrevistados 11 pesquisadores no Brasil (seis do gênero feminino e cinco do gênero masculino), e dez pesquisadores brasileiros atuantes em instituições de ciência, tecnologia e inovação no exterior (sete do gênero feminino e três do gênero masculino). Tanto no Brasil quanto no exterior, a maioria dos entrevistados atua em universidades. O Quadro 1 traz um resumo de informações acerca dos entrevistados.

Quadro 1
Perfil dos Entrevistados

Os roteiros de entrevistas tinham seções específicas para cada grupo de entrevistados (membros da diáspora, parceiros no Brasil e líderes de grupos de pesquisa), tratando da origem e motivação das colaborações, do papel das diásporas e das políticas de engajamento com a diáspora. As entrevistas foram transcritas e analisadas com o apoio do software de Análise Qualitativa de Dados NVivo (versão R1.7). Após essa organização inicial, as respostas foram analisadas a partir do método da análise de conteúdo (qualitativa) que, na perspectiva de Bardin (2016), compreende as seguintes etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Optamos pela análise categorial temática, tendo como ponto de partida estas três perguntas:

  1. Identificamos que você é autor/coautor de um texto/textos (artigo, preprint etc.), na temática da COVID-19, juntamente com pesquisadores sediados no Brasil (ou com pesquisadores brasileiros no exterior) e gostaríamos que você comentasse o que motivou essa colaboração.

  2. De que maneira os brasileiros altamente qualificados, que vivem no exterior, poderiam contribuir para o avanço da ciência e tecnologia brasileira, ou ainda, para o desenvolvimento do país?

  3. Ao seu ver, como o Brasil (esfera governamental, instituições de CT&I – como institutos de pesquisa e as universidades, bem como as agências de fomento) poderia apoiar, facilitar e favorecer a cooperação em CT&I entre brasileiros no exterior e no Brasil?

Considerando que se trata de um estudo qualitativo baseado em perguntas abertas, as categorias foram estabelecidas com base no sentido ou significado de cada fala. Isso se alinha com a orientação de Bardin (2016:135), que define a análise temática como o processo de “descobrir os ‘núcleos de sentido’ que compõem a comunicação e cuja presença, ou frequência de aparição, pode significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido”. Trata-se, portanto, de um processo inferencial interpretativo realizado por meio de um conjunto de ações – agrupamentos, desmembramentos e reagrupamentos das unidades de registro em categorias analíticas destinadas a compreender o conteúdo do texto (Souza Júnior, Melo, Santiago, 2010), sem se preocupar com “a posição discursiva do sujeito, legitimada socialmente pela união do social, da história e da ideologia, produzindo sentidos”, que é objeto da análise de discurso (Caregnato, Mutti, 2006:684).

Para cada pergunta estabelecemos categorias temáticas, iniciais, intermediárias e finais, nas quais agrupamos fragmentos de respostas, por aproximação semântica, ou seja, considerando a similaridade dos significados. Finalmente, após refletirmos sobre todo o processo de organização das unidades de registro (fragmentos da fala dos autores que deram origem às categorias temáticas) e de contexto (as perguntas e as respostas completas dos entrevistados), refinamos, reagrupando ou desmembrando unidades de registro e reformulamos as categorias intermediárias e finais, que sintetizam os consensos nas falas dos entrevistados para cada núcleo temático, conforme apresentado na próxima seção.

Resultados

Conforme informado na seção anterior, as respostas dos entrevistados foram agrupadas em três níveis de categorias analíticas – iniciais, intermediárias e finais. O Quadro 2, a seguir, apresenta o conjunto categorial originado da análise de conteúdo.

Quadro 2
. Análise de Conteúdo: Categorias Analíticas

Nos próximos tópicos apresentamos os principais resultados.

Colaboração no Tema da COVID-19: Origem e Motivação

Foram 16 os entrevistados que tiveram algum tipo de colaboração, como publicação de artigos ou preprints, atuação em iniciativas no Brasil, realização de divulgação científica, concessão de entrevistas, realização de palestras e atuação no Observatório Covid-19 BR7, por exemplo. Identificamos 13 entrevistados que iniciaram a colaboração porque tinham laços pessoais ou profissionais com seus parceiros: amizade, relações acadêmicas – colegas de curso, docentes, orientadores, alunos –, já haviam colaborado ou colaboravam com frequência, ou porque foram convidados por alguém que tinha esses laços com o parceiro no Brasil ou no exterior. Dois entrevistados se conheceram durante a pandemia, pelas redes sociais, e perceberam que tinham interesses comuns (foi o pesquisador no Brasil que localizou uma pesquisadora integrante da diáspora com ativa participação em divulgação científica durante a pandemia). Finalmente, um diasporado contatou a prefeitura de São Paulo e se colocou à disposição para ajudar, especialmente porque percebeu que havia uma necessidade de comunicação sobre aspectos de proteção e prevenção da COVID-19. Esse diasporado tomou conhecimento do trabalho realizado pelo Observatório COVID-19BR e começou a colaborar com o grupo, tentando também fazer uma ponte entre o grupo e as autoridades sanitárias.

No que diz respeito aos motivos da colaboração, destacamos pelo menos quatro grandes motivações. Em primeiro lugar, um dos motivos foi a grande incidência da COVID-19 no Brasil, que gerou a possibilidade de acessar dados de saúde pública considerados importantes para diferentes tipos de estudos (demográficos, epidemiológicos etc.) como indica E8 que é membro da diáspora na Áustria:

O professor “L” [...] foi meu professor e eu entrei em contato com ele já sabendo que ele é especialista [...] em dados de nível municipal. O que a gente queria saber é se teríamos acesso a dados, [...] se eles eram públicos [...], se daria para articular nossa pesquisa com o projeto de pesquisa deles com o IBGE. Primeiramente, o contato era mais para perguntar, consultar sobre a viabilidade do modelo que a gente estava desenvolvendo aqui em Viena [E8].

Em segundo lugar, foi uma preocupação dos membros da diáspora produzir estudos e/ou participar de iniciativas que contribuíssem para oferecer informações confiáveis à sociedade e/ou para a melhoria de capacidades das autoridades sanitárias para a tomada de decisão. Isso é relatado por E7, membro da diáspora nos Estados Unidos, que entrou em contato com a prefeitura de São Paulo para oferecer ajuda e depois fez a ponte com o Observatório COVID-19BR:

Eu sabia que a prefeitura de São Paulo estava precisando de ajuda na área de modelagem para entender o comportamento da pandemia para poder planejar ações. As ondas que poderiam vir. E eu sabia que o Observatório estava fazendo esse trabalho de pesquisa e de modelagem, e aí eu entrei em contato com os membros do Observatório para fazer a ponte entre eles e a prefeitura. E foi nessa que eu acabei também entrando e participando do Observatório [E7].

Em terceiro lugar, os entrevistados apontaram a oportunidade de aproveitar as competências dos pesquisadores no Brasil ou no exterior, em determinadas áreas, como relata E11, pesquisadora no Brasil, sobre a parceria com uma diasporada nos Estados Unidos:

Fui eu que pedi [...] se ela podia me ajudar a fazer algumas coisas que eu não sabia fazer, que eu sabia que ela sabia. E, lógico, por sermos brasileiras, é muito mais fácil falar, entender. A coisa sai mais lisa, eu acho. Então, foi por isso que eu trabalhei com ela, especificamente. [...] Ela colaborou em problemas que eu tinha. E um outro projeto que ela trabalha também com um colega [...], sobre malária, e eles quiseram fazer uma coisa de COVID, e eles pediram para a gente fazer o sequenciamento das amostras no meu laboratório [E11].

Em quarto lugar, do lado da diáspora, as colaborações durante a pandemia, com pesquisadores no Brasil, foram também motivadas pelo desejo de colaborar com sua terra natal, atendendo a um “chamado” que, segundo alguns dos entrevistados, foi nomeado de “dever moral”, ou de uma “vontade de retribuir” ao país pelos recursos públicos investidos em sua formação. Destacamos que todos os entrevistados têm alguma etapa da sua formação atrelada ao ensino público brasileiro – dos anos iniciais até as fases mais avançadas (seja na graduação, no mestrado ou no doutorado), em alguns casos, mesmo que o doutorado tenha sido realizado no exterior, este foi financiado por agências de fomento brasileiras.

Contribuições da Diáspora Científica Brasileira

Em relação à contribuição da diáspora, no conjunto de respostas foi possível constatar que os entrevistados enxergam na diáspora um grande potencial para abrir portas e facilitar a inserção internacional dos acadêmicos e da ciência brasileira, seja oferecendo oportunidades no exterior, seja compartilhando suas competências ou mesmo oferecendo oportunidades de qualificações e treinamentos por meio de aulas, cursos etc., ou ainda colaborando com seus pares e com Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) no Brasil. A recepção de pesquisadores e estudantes brasileiros foi relatada por muitos entrevistados da diáspora, como E5, pesquisadora no Canadá: “quando o brasileiro consegue se estabelecer no exterior, pode ajudar a levar brasileiros para o exterior, orientar, facilitar. No Canadá, o orientador pode pedir bolsas de estudos. Pode ajudar na formação dos brasileiros” [E5].

Também foi relatada por pesquisadores no Brasil, como aponta E11:

Se a pessoa já é um pesquisador que conquistou independência, se pode aceitar alunos do Brasil, se vem dar cursos aqui, isso pode ser uma fonte de extrema capacitação. [...] Pode abrir portas para os brasileiros, para colaborar. [...] Receber brasileiros para doutorado ou pós-doutorado [E11].

A colaboração em pesquisa internacional mediada pela diáspora aparece com destaque na fala de E10, professor em uma universidade dos Estados Unidos:

Agora eu tenho certeza de que eu consigo contribuir muito mais para a ciência do Brasil estando fora do que estando no Brasil. Por mais contraditório que isso pareça, né? Tem uma série de motivos. Estando fora e tendo acesso a esses privilégios que muitas vezes a gente não tem no Brasil, de recursos, de espaço, de acesso a equipamentos e a uma rede internacional de pesquisadores. Manter vínculos com o Brasil facilita essa troca de recursos materiais. [...] Então, eu acho que hoje em dia eu consigo contribuir muito mais na pesquisa e na ciência brasileira estando fora, simplesmente porque não cabe, não tem espaço para mim no Brasil, não tem um concurso público na minha área para professor, não tem uma vaga. Tentei por várias vezes, não consegui [...] [E10].

Ao mesmo tempo em que os entrevistados vislumbraram diversas possibilidades de colaboração, também foram levantados alguns fatores que influenciam ou até mesmo limitam as possibilidades de interação. Uma delas é a própria especialização da ciência em termos de agendas ou temas de pesquisa, como relata E7: “não encontrei pessoas no Brasil com pesquisas que se aproximam da minha. Não é fácil encontrar colaboradores na minha área”. Isso também apareceu no caso de E16, líder de INCT no Brasil:

Varia muito conforme a área de conhecimento. No caso da enfermagem, ela sempre foi uma profissão mais técnica no exterior. Já, no Brasil, ela é uma área científica de longa data. É uma ciência que está na academia, tem mestrado e doutorado, pós-doutorado. Teria muito a agregar à ciência da enfermagem lá fora se ocorressem mais intercâmbios entre o Brasil e o exterior [E16].

A colaboração também depende do estágio em que o pesquisador se encontra na carreira, especialmente da capacidade do pesquisador no exterior de conseguir recursos. E, por fim, dos próprios vínculos construídos antes da saída do país, como apresenta E5, pós-doutoranda em uma universidade no Canadá: “Vai depender muito da linha de pesquisa, do tipo de colaboração que já tinha previamente, no Brasil, pois começar colaborações do zero é muito difícil.”

Engajamento do Brasil com Sua Diáspora

Neste item reunimos a visão dos entrevistados sobre pontos a serem observados para que o Brasil, seja no âmbito institucional, seja no âmbito organizacional, ou ainda individual, possa se engajar com a sua diáspora de CT&I. Inicialmente, os entrevistados apontaram a necessidade de mudança de mentalidade em relação à diáspora no sentido de valorizá-la, como ilustra E15, professor em uma universidade no Brasil, que fez uma experiência de mobilidade durante seu doutorado:

Eu acho que tem que tratar eles bem. Como é tratar eles bem? Primeiro não achar que aquilo foi uma perda. Eu acho que foi um ganho. [...] Nos anos 2000, quando eu voltei e outros voltaram, tinha uma coisa assim, fulano traiu, [pois] não voltou, tinha que voltar. Eu acho que aí depois as pessoas notaram que fez uma diferença essas pessoas terem ficado. Então, a primeira coisa é aceitar que de vez em quando vai ter uma “perda”, de novo, se foi com dinheiro do Brasil, paga de volta, mas não rotula a pessoa de traidora, deixa ficar, incentiva a conexão [E15].

Isso passa pelo reconhecimento de que o retorno não é viável ou mesmo desejável em muitas situações, como apresenta E19, coordenador de CEPID: “Não dá para pedir para a pessoa largar posições muito mais vantajosas no exterior para voltar para o Brasil. Lá existem melhores condições para pesquisa, laboratórios mais bem equipados”.

O retorno obrigatório pode resultar em uma situação de precariedade, como relatado por E1, pós-doutorando em uma universidade nos Estados Unidos:

Eu conheço alguns casos de colegas meus que sentiram a pressão de ter que voltar, voltaram e ficaram desempregados, mas estão com seus dois pés em território brasileiro, não estão atuando na área de ciência, ou seja, não estão utilizando a sua formação para contribuir para o país. Mas para as agências de fomento, isso é exatamente o que elas querem, elas estão satisfeitas com o simples fato de a pessoa estar fisicamente aqui. Pode estar desempregado, se ela está fisicamente no Brasil, para a agência de fomento, isso já é uma contribuição [E1].

Em relação às políticas para engajar a diáspora, os entrevistados apontaram dois conjuntos. Por um lado, é importante criar e manter canais de comunicação. Neste sentido, segundo E1, do lado da diáspora, é importante “ter uma estrutura que favoreça a interação, manter contatos, conhecimento de quem pode colaborar, onde estão [...] Se as pessoas nem sabem que os pesquisadores da diáspora existem e onde eles estão, fica impossível estabelecer qualquer tipo de vínculo”. Na opinião de E15, é importante mapear a diáspora, para conhecer, por exemplo, quem são os demógrafos brasileiros no exterior. O mapeamento ajudaria a criar novas conexões, pois, em geral a maioria delas são “fruto de iniciativas individuais”.

Por outro lado, os participantes da pesquisa apontaram a relevância de criar possibilidades de interação e colaboração, o que inclui financiamento para pesquisa e mobilidade, ponto reforçado por pesquisadores da diáspora e no Brasil, como indicado por E18, coordenador de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT):

O melhor jeito é você ter projeto de pesquisa financiado no Brasil que estimule e talvez tenha contrapartida. As colaborações ocorrem naturalmente, mas para consolidarem é só através de financiamento. Agora, o Brasil tem que entender que o montante de recursos que ele põe é muito pequeno [E18].

O financiamento no curto prazo pode criar relacionamentos de longo prazo, que não implicam necessariamente no retorno ao Brasil, como colocado por E19: “Fornecendo retribuições financeiras de curto prazo. Então, se você começar a trazer devagar, essas pessoas podem ficar indo e vindo e às vezes estar lá é até melhor do que estar cá, porque você pode manter esse fluxo de cientistas para lá e para cá. É a ciência. Hoje ela é internacional” [E19].

Os entrevistados também ressaltaram a relevância de financiamento para pesquisas focadas, como apresentado por E21:

Eu acredito muito numa política de financiamento orientada por missões, em projetos orientados por missões. É preciso ter projetos focados. A prioridade é ter uma rede de gente que atua no estado da arte e trazer essas pessoas para atuarem nesses projetos focados. Seria perfeito se a gente pudesse estabelecer vínculos com os brasileiros que estão fora do Brasil e que estão trabalhando com tecnologias no estado da arte [E21].

Ambiente Doméstico

Ao longo das respostas dos entrevistados, permeando toda a entrevista, apareceram constantemente falas relativas ao contexto interno do país no que concerne à realidade vivenciada pela comunidade científica. A maioria das questões levantadas diz respeito a dificuldades geradas internamente, fruto do financiamento escasso e da desvalorização da CT&I por parte dos governos, dificultando a prática científica no país e forçando os profissionais a procurarem oportunidades no exterior, o que consideramos fatores endógenos. Além da falta de prioridade, E5 apontou a falta de continuidade de políticas: “falta interesse na ciência, a ciência não parece ser uma prioridade. As ideias existem, as boas intenções existem, mas o que acontece é que a cada troca de governo as ideias morrem. Então, o que eu vejo no Brasil hoje é a falta de continuidade”.

Na opinião de E7, a deficiência de infraestrutura é um dos motivos para o movimento de saída de pesquisadores do Brasil:

Existem muitas dificuldades no Brasil, por exemplo, para comprar reagentes, realizar alguns experimentos. Eu acho que, uma vez que a gente para de investir no Brasil e as condições de pesquisa vão se deteriorando no país, naturalmente as pessoas mais qualificadas acabam se deslocando para fora do país. Então, primeiro é preciso ter uma boa estrutura para conseguir reter os grandes talentos. [E7]

Como já mencionado, muitos membros da diáspora e pesquisadores no Brasil apontaram a falta de recursos como um fator marcante do ambiente doméstico e um fator explicativo para a saída de pesquisadores do país, como podemos notar na fala de E10: “então é muito mais difícil fazer ciência no Brasil pela falta de recursos. A competição é muito grande no Brasil porque tem pouco recurso, tem muita gente boa e tem pouquíssimo recurso comparativamente com países mais desenvolvidos, como Europa e América do Norte” [E10].

Outro fator endógeno relevante para explicar a saída de pesquisadores é a falta de oportunidade de emprego e o baixo valor de bolsas de pós-doutorado, como apresenta E11: “então o pessoal mais novo está indo para fora. Tem um aluno nosso muito bom, era um pós-doc, que falou: ‘Não, eu vou para fora porque eu quero ter emprego. Não aguento mais ficar só com bolsa’ [...]. Ele conseguiu uma posição nos Estados Unidos”.

Além disso, os entrevistados mencionaram a dificuldade de lidar com as burocracias no Brasil em relação à mobilidade internacional e à realização de convênios para parcerias. No que ser refere às parecerias, E19 mencionou o seguinte:

Nós temos uma tradição luso espanhola, onde nós achamos que burocratizando as coisas nós resolvemos. Então, para fazer um convênio hoje em dia é a coisa mais esdrúxula do mundo, é complicado, [...] o documento vem, vai, vem, vai, vem, vai e não é assim que funciona. Muitas vezes, muitas colaborações não têm nem papel [E19].

Na opinião desse entrevistado o estabelecimento de convênios top-down (entre instituições e não entre pesquisadores, diretamente) nem sempre é o mais interessante, pois o caminho deveria ser o oposto:

Se você falar assim, arranjamos aqui um casamento para você, casamento científico de tal universidade, aí você encontra o parceiro aqui dentro. É muito difícil isso, devia ser o contrário. Quais são seus parceiros? Os meus parceiros são este e este. Prova. Está aqui a produção científica, é isso, isso, isso. Aí caberia à administração ir atrás de oficializar isso [E19].

Surgiram questões que, embora sejam exógenas, também possuem poder para afetar o ambiente doméstico, de diferentes formas, por exemplo, dificultando a inserção internacional da ciência brasileira. Esses fatores foram levantados principalmente por pesquisadores no Brasil e dizem respeito à relação da ciência no Sul e Norte Globais. Um exemplo foi a dificuldade de publicação de artigos científicos em determinados periódicos quando só há autores brasileiros envolvidos, o que ocorreria devido a preconceitos com pesquisadores e países que seriam considerados de “segundo nível”. O principal motivo para essa relação desigual seria o financiamento, como expressa E15:

A gente acaba ficando em uma posição um pouco mais humilde porque normalmente eles [parceiros internacionais] vão ter mais recurso. [...] Eles querem que a gente continue a colaboração, principalmente nos momentos em que a gente está com pouco recurso. É muito importante ter recurso, pois isso gera simetria [E15].

Discussão

Nossos resultados apontaram que as colaborações entre a diáspora e seus pares no Brasil ocorreram, em grande medida, devido aos laços profissionais e pessoais pré-existentes, até porque, conforme pontuado por muitos dos entrevistados, é difícil estabelecer parcerias “a partir do zero”, pois é preciso ter afinidade e confiança. Esses vínculos são importantes e vão se configurando ao longo da trajetória de formação e profissional desses indivíduos e são relações que se dão entre colegas de classe, docentes e estudantes, orientados e orientadores, bem como interações em eventos, participação em redes etc. Isso se alinha ao entendimento da literatura que versa sobre o tema, como, por exemplo, Brinkerhoff (2006), que chama esses laços de solidariedade entre pesquisadores da diáspora e seus pares em seu país de origem de “capital social”, enquanto Jonkers e Tijssen (2008) nomeiam de “capital social científico”, constituindo a invisible backbone (espinha dorsal invisível) que dá sustentação a essas relações ao longo do tempo (Saxenian, 2002; Scellato, Franzoni, Stephan, 2012).

Em relação às motivações para colaborações, uma das principais foi a oportunidade de acessar dados de saúde pública do Brasil, considerados relevantes para diferentes tipos de estudos (demográficos, epidemiológicos etc.), em razão da elevada incidência de COVID-19 no país. Isso confirma a hipótese levantada por Cai, Fry e Wagner (2021), apresentada na introdução deste trabalho, qual seja: que a alta incidência de casos de COVID-19 em determinados países poderia estar impulsionando colaborações internacionais, por terem se tornado verdadeiros “celeiros de casos” a serem estudados.

Outra motivação relevante foi aproveitar as competências dos pesquisadores no Brasil, ou no exterior, em determinadas áreas, tornando mais robustas as análises, bem como para produzir estudos e/ou participar de iniciativas que contribuíssem para oferecer informações confiáveis à sociedade e/ou para a melhoria de capacidades das autoridades sanitárias para a tomada de decisão. Portanto, podemos notar que a diáspora científica brasileira atuou em um momento de severa crise sanitária global, oferecendo contribuições, em diversas áreas do conhecimento, ao seu país de origem, o que pode ser considerado como um reforço do capital humano nacional naquele período. Segundo a literatura, as habilidades, os talentos e as competências dos migrantes podem, direta e indiretamente, incrementar os estoques de capital humano para atender às demandas de desenvolvimento do país de origem (Brown, 2000; Kuznetsov, 2006, Kuznetsov, Freinkman, 2013; Boyle, Kitchin, 2013; Brinkerhoff, 2006; 2012).

No conjunto de respostas sobre as potenciais contribuições da diáspora, foi possível constatar que os entrevistados, no Brasil e no exterior, entendem que a diáspora brasileira altamente qualificada pode atuar como uma facilitadora da inserção internacional dos acadêmicos e da ciência brasileira, seja oferecendo oportunidades para mobilidade no exterior – visitas de curta duração, doutorado, pós-doutorado, estágios durante a graduação etc. –, seja ministrando cursos, aulas, entre outros, no Brasil, estando aqui fisicamente, por curtos períodos, ou interagindo à distância. Além disso, entende-se que a diáspora pode colaborar com seus pares e com Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) no Brasil – participando em grupos de pesquisa e em projetos, por exemplo.

Nesse sentido, os resultados alinham-se à literatura que aponta a atuação da diáspora como parceira em projetos focados no desenvolvimento nacional, seja no campo científico e tecnológico, seja no campo da inovação e dos negócios (Kuznetsov, 2006; Kuznetsov, Freinkman, 2013; Séguin et al., 2006). A diáspora pode desempenhar um papel estratégico na intermediação de parcerias internacionais (The Royal Society, 2010), atuando como ponte para a construção de relacionamentos de confiança entre acadêmicos e instituições dos países de origem e destino, por entenderem questões culturais, linguísticas e logísticas de ambos os países (Kuznetsov, 2006; Kuznetsov, Freinkman, 2013; Séguin et al., 2006; Anand, Hofman, Glass, 2009) e estarem inseridas em redes científicas globais (Saxenian, 2007; Kuznetsov, 2006; Meyer, 2001; Brown, 2000). A diáspora também pode ser um recurso valioso para o aumento do Soft Power (Yamashiro, 2015).

No que se refere ao papel do governo brasileiro e outros atores (instituições de CT&I, agências de fomento) para fomentar e facilitar o engajamento com a diáspora, os entrevistados expressaram opiniões bastante próximas do entendimento da literatura e apontaram a necessidade de se enxergar a diáspora altamente qualificada como uma aliada e não a partir da lente da fuga de cérebros. No entanto, é preciso primeiro “arrumar a casa”, promovendo investimentos em CT&I, melhorando as condições para as atividades científicas, além de criar uma mentalidade favorável ao engajamento com a diáspora e desenvolver instrumentos e mecanismos que facilitem as interações. Conforme apontado pela literatura, os países que pretendem promover um engajamento realmente frutífero com suas diásporas, primeiramente, precisam criar um ambiente doméstico favorável a esse engajamento (Brinkerhoff, 2012; Séguin et al., 2006; Ciumasu, 2010). Isso envolve recursos financeiros, humanos, de infraestrutura, novas mentalidades e posturas, bem como criação ou melhoria das capacidades estatais (Pires, Gomide, 2016) para poderem ser promovidas sinergias e diálogos entre diferentes atores (estatais e não estatais).

Finalmente, cruzando os resultados das entrevistas com a revisão de literatura, foi possível identificar fatores que concorrem para que um país consiga criar um ambiente doméstico favorável ao engajamento com a sua diáspora altamente qualificada, gerando ganhos recíprocos. Isso passa pela superação das amarras ou entraves que dificultam ou mesmo impedem as interações, mas também das fragilidades do sistema de CT&I brasileiro. Dessa forma, recuperando elementos presentes no quadro analítico discutido na seção do referencial teórico (Figura 1), concebemos a Figura 2, que ilustra a necessidade de estratégias e políticas que fomentem as interações entre a diáspora e o país de origem para superar as barreiras em contextos orientados pelo path dependence.

Figura 2
Engajamento com a Diáspora e Path Dependence

O que se tem notado é que, no caso do Brasil, coexistem historicamente os seguintes fatores:

  1. falta de estratégias e políticas para a diáspora por esta não ser considerada um ator relevante do sistema nacional de CT&I;

  2. a mobilidade internacional ainda é vista no país pela lente da fuga e não da circulação de cérebros, visão que se materializa por meio de políticas de retenção;

  3. as políticas de retenção não têm contribuído para que se crie um ambiente propício ao engajamento entre o Brasil e sua diáspora altamente qualificada. Assim, essas políticas podem ser entendidas como barreiras à criação de círculos virtuosos de interação, dificultando ou mesmo gerando resistências ao estabelecimento de parcerias e colaborações (Carneiro et al., 2020).

O cenário acima descrito pode ser comparado ao que Lee (2012) menciona como padrões de ação que se autorreforçam, podendo limitar decisões futuras que não reproduzam os padrões reiterados e causar aprisionamentos ou bloqueios (lock-in). Isso pode ocorrer pelo simples fato de que as escolhas já consagradas acabam se tornando as melhores porque elas vêm sendo corroboradas por um número importante de atores relevantes ao longo do tempo (Page, 2006).

Para superar os bloqueios pode ser necessário, primeiramente, um processo de ressignificação da diáspora. Para Carneiro et al. (2020), isso significa que tanto o Estado brasileiro quanto a comunidade de CT&I nacional deveriam adotar uma nova postura frente à diáspora, para reconhecer o seu valor como um instrumento para promover a abertura das ICTs nacionais, e como um ator relevante para o processo de desenvolvimento do país. Intervenções políticas podem estimular mudanças institucionais, criando um quadro favorável à mudança de mentalidade em indivíduos e organizações.

No entanto, é importante considerar que há uma tendência de que as práticas reiteradas gerem um novo cenário de path dependence, gerando novos bloqueios (Lee, 2012). Criar um ambiente favorável ao engajamento com a diáspora, portanto, envolve mudanças no contexto institucional – nas estruturas políticas, jurídicas e regulatórias, a construção de capacidades em todos os setores, e em vários níveis, bem como mobilização e alocação de recursos e investimentos públicos, entre outros (Kuznetsov, 2006; Kuznetsov, Freinkman, 2013; Brinkerhoff, 2012; Séguin et al., 2006; Ciumasu, 2010). Como apontado por North (1990), seja no nível individual ou coletivo (organizacional), as ações sofrem influência do contexto institucional.

Por fim, a criação de iniciativas pontuais de engajamento, a partir da última década, conforme discutido na revisão de literatura, parece indicar um reposicionamento do Brasil frente à sua diáspora de CT&I. No entanto, tais medidas ainda parecem guardar resquícios de posicionamentos passados que privilegiavam a “reversão da fuga de cérebros” ou “repatriação” e não a circulação de cérebros, partindo-se de uma premissa teórica que precisa ser repensada.

Considerações Finais

O trabalho buscou cobrir lacunas no conhecimento relacionadas à contribuição da diáspora brasileira altamente qualificada (científica, ou ainda, de CT&I) para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. O ponto de partida deste estudo foi a colaboração internacional, no tema da COVID-19, entre pesquisadores no Brasil e membros da diáspora brasileira que atuam em instituições de CT&I no exterior. Elegemos o tema não apenas pela sua atualidade, mas, especialmente, pelo protagonismo da ciência brasileira nesse campo desde o início da pandemia. Com fulcro em um estudo qualitativo, procuramos analisar em profundidade essa temática, sem o objetivo de generalizações.

Analisar pontos de vista de indivíduos já engajados em colaborações com seus pares, no Brasil e no exterior, permitiu conhecer os fatores que concorrem para o engajamento – os antecedentes dessas interações, as motivações, e o que é necessário para a manutenção desses vínculos. Considerando que grande parte da literatura sustenta a importância de um ambiente doméstico favorável ao engajamento entre as diásporas e seus países de origem, torna-se relevante a compreensão das pré-condições e dos fatores, no Brasil, que contribuem para que esses laços existam e se perpetuem.

Concluímos que as visões e expectativas dos entrevistados se alinham com as recomendações da literatura especializada no que concerne às possibilidades de colaboração das diásporas com os seus países de origem e às condições necessárias para que isso ocorra. Também foi possível apurar alguns dos fatores que influenciam ou até mesmo limitam as possibilidades de interação.

Ao refletirmos sobre os dados empíricos, à luz da revisão de literatura, apontamos elementos que podem auxiliar na compreensão dos fatores que influenciam o engajamento do Brasil com sua diáspora científica. Entendemos que a compreensão desses elementos pode permitir o desenho estratégico de políticas públicas eficientes que promovam sinergias, estimulem interações e abram caminhos para que a diáspora brasileira altamente qualificada possa ser também um ator relevante do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Entretanto, para que a diáspora brasileira seja vista como um ator relevante para o desenvolvimento nacional, é necessário não somente que esta seja considerada quando das definições de missões estratégicas para políticas nesse âmbito, mas também é necessário que a comunidade científica nacional esteja propensa a se envolver com seus pares brasileiros que atuam no exterior.

Brasileiros altamente qualificados e em posições relevantes em sistemas globais, especialmente os que atuam na fronteira científica e tecnológica, podem servir de pontes entre atores nacionais e internacionais por conhecerem ambas as realidades. Nesse sentido, o presente trabalho inova ao abordar a temática da diáspora brasileira altamente qualificada para além da discussão centrada na “fuga de cérebros”.

Destacamos que incentivar relacionamentos com a diáspora não significa menosprezar a capacidade dos pesquisadores que atuam no Brasil, nem deixar de apoiá-los. Além disso, a diáspora não pode ser vista como uma panaceia para todos os males do sistema de CT&I brasileiro. Se, de um lado, a mobilidade internacional deve ser incentivada, uma vez que estudos têm comprovado que esta impacta positivamente a ciência e a carreira dos cientistas, do outro, é necessário investir em capital humano e criar condições para que os talentos tenham oportunidades em seu próprio país. Nesse sentido, conforme sustentam Barré et al. (2003), políticas e estratégias de engajamento com a diáspora devem integrar um conjunto mais amplo de investimentos voltados ao desenvolvimento científico, tecnológico, social e mesmo cultural de cada país.

Finalmente, sugerimos uma agenda de pesquisa que amplie e aprofunde as análises aqui realizadas. Nesse aspecto, entendemos que as categorias analíticas desenvolvidas neste trabalho podem orientar pesquisas futuras que busquem ampliar a compreensão de diversas questões relacionadas às possibilidades de engajamento do Brasil com sua diáspora brasileira altamente qualificada, bem como dos fatores que podem limitar ou mesmo impedir esse engajamento. Além disso, recomendamos um acompanhamento de programas e políticas recentes, tais como, as Políticas de Novação instituídas no âmbito da CAPES e do CNPq (de 2023) e o Programa de Repatriação de Talentos - Conhecimento Brasil, capitaneado pelo CNPq (concebido em 2023 e com os primeiros editais divulgados em 2024), para apurar resultados e impactos dessas inciativas, com o fim de criar um corpo de conhecimentos, teóricos e empíricos, sobre o Brasil e sua diáspora de CT&I.

*Este artigo apresenta os resultados da pesquisa de pós-doutorado intitulada “O Papel da Diáspora Científica Brasileira na Cooperação Internacional do País”, conduzida, pela primeira autora, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). A pesquisa contou com bolsa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) da USP – “Projeto Diplomacia Científica e da Inovação: o papel de redes nacionais e internacionais no avanço da ciência” (coordenador: Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira), contemplado pelo Edital de Apoio a Projetos Integrados de Pesquisa em Áreas Estratégicas (PIPAE). A primeira autora agradece aos professores titulares da USP, Amâncio Jorge e Janina Onuki, pelas sugestões oferecidas durante o seminário de apresentação dos resultados da pesquisa. Agradece, também, à professora Elizabeth Balbachevsky, supervisora do pós-doutorado, e às pesquisadoras Ana Maria Carneiro e Gabriela Gomes Coelho Ferreira (bolsista do projeto NEWORLDatA, financiado pelo European Research Council – ERC, no âmbito do programa Horizon 2020 da União Europeia, Grant Agreement nº 101021098). Por fim, as autoras agradecem aos pareceristas pelas valiosas recomendações e, também, ao profissional que revisou o texto primorosamente.

Referências

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    » https://doi.org/10.1007/s11192-016-1989-z

Notas

  • Disponibilidade dos Dados –
    As autoras afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml?persistentId=doi%3A10.7910%2FDVN%2FMCNL5S
  • 1
    . Por meio da atuação, por exemplo, da Receita Federal e do Tribunal de Contas da União.
  • 2
    . Capitaneado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento, Industrial (ABDI) e com auxílio financeiro da Agência de Promoção das Exportações (APEX) – iniciou em 2012 e foi descontinuado em 2016.
  • 3
    . Criado, em 2017, pelo Ministério das Relações Exteriores – MRE (Itamaraty).
  • 4
    . O “Programa de Repatriação de Talentos - Conhecimento Brasil”, criado pelo CNPq, parece que se ancora muito mais na ideia de fuga de cérebros e não de rede de cérebros. Desde o seu lançamento, esse programa tem sido alvo de diversas críticas por parte da comunidade científica nacional, embora muitos também reconheçam que há méritos na iniciativa (ver em: https://abori.com.br/artigos/conhecimento-brasil-e-o-que-a-diaspora-cientifica-brasileira-tem-a-nos-dizer/; https://jornal.usp.br/articulistas/carlos-takeshi-hotta/os-problemas-do-programa-de-repatriacao-do-cnpq/).
  • 5
    . CAPES (Portaria 287/2023) e CNPq (Portaria 1594/2023) estabeleceram a “Política de Novação para bolsistas e ex-bolsistas no exterior” (ver em: https://abrir.link/ptBIF; https://abrir.link/aaBrj). Essas portarias inovaram ao tratarem do instituto da novação de forma autônoma e não como uma frágil ou ainda, tímida possibilidade no âmbito de normativas que previam o ressarcimento dos valores investidos nos bolsistas que ficaram no exterior devido a oportunidades surgidas após o término da bolsa. Embora essas medidas tenham sido bem recepcionadas, juristas apontam falhas que podem suscitar possíveis demandas judiciais no futuro (ver em: https://abrir.link/HTJZh).
  • 6
    . Na base Scopus utilizamos um agrupamento de tópicos (Topic Cluster) relacionado à COVID-19 e pré-definido pela base. Os Topic Clusters agregam documentos que abordam uma mesma temática ou campo de pesquisa, como é o caso da COVID-19, e podem ser de diferentes áreas do conhecimento. Os critérios de agregação envolvem métricas relativas ao número de citações e visualizações recentes, bem como ao impacto do periódico, critérios utilizados pela Scopus para informar que esses documentos são considerados de proeminência mundial (ver em: https://www.elsevier.com/products/scival/overview/topics). Na base Web of Science o termo de busca que utilizamos foi “COVID-19”. Na base Dimensions não utilizamos nenhum termo de busca, pois acessamos diretamente o repositório aberto sobre COVID-19 que agrupa a produção mundial nessa temática (ver em: https://reports.dimensions.ai/covid-19/).
  • 7
    . O Observatório COVID-19 BR é uma iniciativa independente de 85 pesquisadores associados a 28 instituições e com a missão de disseminar informações de qualidade sobre a pandemia da COVID-19, baseando-se em dados atualizados e em metodologia científica (ver em: https://covid19br.github.io/).

Quadro 3
Lista Completa do Levantamento Bibliométrico

  • Editor responsável:
    Luiz Augusto Campos.

Disponibilidade de dados

As autoras afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml?persistentId=doi%3A10.7910%2FDVN%2FMCNL5S

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Ago 2023
  • Revisado
    27 Nov 2024
  • Aceito
    18 Jun 2025
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