Open-access Instrumentos de avaliação dos impactos de derramamentos de petróleo: abordagem integrada na saúde, no ambiente e no perfil socioeconômico de áreas expostas

Resumo

Os avanços da indústria de petróleo estiveram associados a grandes desastres envolvendo derramamento do material em campos marítimos, impactando negativamente a vida e o ambiente. Considera-se a importância do acompanhamento e da avaliação desses eventos, a partir de instrumentos variados, sobre três eixos de investigação: a saúde; o ambiente; e a situação socioeconômica das populações expostas. Desse modo, pretendeu-se mapear, por meio de uma revisão de escopo, as evidências científicas envolvendo a aplicação desses instrumentos sobre os impactos de derramamentos de petróleo. Foram utilizadas diferentes bases de dados e idiomas para a busca dos trabalhos. Os dados foram revisados por dupla de pesquisadores, que realizaram a avaliação qualitativa. Para a síntese dos resultados, foram considerados 45 estudos distribuídos entre os tipos observacionais sem grupo controle, de coorte com grupo controle e transversais, com predomínio daqueles voltados para o eixo saúde (n = 39; 86,66%) e com método de entrevista (n = 29; 64,44%). Foram identificados 75 registros de instrumentos utilizados, com escalas do tipo Likert, escalas combinadas e padrões de respostas livres. Ademais, observou-se a carência de estudos com investigação nos eixos ambiental e socioeconômico, sobretudo de forma integrada. Ao fim, considera-se a importância de novas pesquisas que incluam características essenciais dos instrumentos (consistência, confiabilidade, fidedignidade, adaptações transculturais) para a possibilidade de construir matrizes multidimensionais de acompanhamento de desastres motivados pela ação humana, facilitando tomadas de decisões na elaboração de políticas e ações governamentais.

Palavras-chave:
Poluição por Petróleo; Inquéritos e Questionários; Avaliação de Desastres


Abstract

Advances in the oil industry have been associated with major disasters involving oil spills in offshore fields, negatively impacting life and the environment. We considered the importance of monitoring and evaluating these events, using various instruments, according to three research axes: health; the environment; and the socioeconomic situation of exposed populations. Thus, the objective was to survey, through a scoping review, scientific evidence involving the application of these instruments to assess the impacts of oil spills. Different databases and languages were used to search for the works. The data were reviewed by a pair of researchers, who carried out the qualitative evaluation. For synthesis of the results, we considered 45 studies distributed among observational studies with no control group, cohort studies with control group, and cross-sectional studies, with a predominance of studies focused on the health axis (n = 39; 86.66%) and with interview method (n = 29; 64.44%). We found 75 records of instruments used, with Likert-type scales, combined scales and free response patterns. In addition, there was a gap in studies on the environmental and socioeconomic axes, especially in an integrated manner. Finally, we considered the importance of new research including essential characteristics of the instruments (consistency, reliability, faithfulness, cross-cultural adaptations) for the possibility of building multidimensional matrices to monitor disasters caused by human action, facilitating decision-making in the formulation of government policies and actions.

Keywords:
Petroleum Pollution; Surveys and Questionnaires; Disaster Evaluation


Resumen

Los avances en la industria petrolera están asociados a grandes desastres que involucran derrames en campos marítimos, con repercusiones negativas en la vida y en el medioambiente. Es importante monitorear y evaluar estos eventos a partir de diversas herramientas divididas en tres ejes de investigación: la salud; el medioambiente; y la situación socioeconómica de las poblaciones expuestas. A partir de una revisión de alcance, este estudio pretende mapear la evidencia científica sobre la aplicación de estas herramientas acerca de los impactos de los derrames de petróleo. Se utilizaron diferentes bases de datos e idiomas en la búsqueda de estudios. Los datos fueron revisados por dos investigadores, quienes realizaron la evaluación cualitativa. Para la síntesis de los resultados se consideraron 45 estudios distribuidos entre observacionales sin grupo control, de cohorte con grupo control y transversales, con predominio en el eje salud (n = 39; 86,66%) y como método la entrevista (n = 29; 64,44%). Se identificaron 75 registros de herramientas utilizadas, con escalas Likert, escalas combinadas y patrones de respuesta libre. Además, se observó la falta de estudios centrados en los ejes ambiental y socioeconómico, sobre todo de manera integrada. Por último, se destaca la importancia de que futuras investigaciones incluyan características esenciales de los instrumentos (consistencia, confiabilidad, fiabilidad, adaptaciones transculturales) para que se construyan matrices multidimensionales de monitoreo de desastres causados por la acción humana, facilitando la toma de decisiones en la elaboración de políticas y acciones gubernamentales.

Palabras-clave:
Contaminación por Petróleo; Encuestas y Cuestionarios; Evaluación de Desastres


Introdução

Historicamente, o desenvolvimento industrial e a crescente demanda por energia têm impulsionado o crescimento econômico global. Nesse contexto, a indústria de petróleo, que se originou no século XIX nos Estados Unidos, destacou-se como uma das principais fontes de energia mundial 1,2,3. Além disso, o crescimento econômico de diversas nações passou a depender fortemente de combustíveis fósseis, como petróleo, gás natural e carvão, que movimentam diretamente a economia global e o comércio internacional 4.

As principais reservas de petróleo se encontram em campos marítimos profundos, cuja exploração exige avanços tecnológicos constantes. Esses avanços são essenciais para a extração, o transporte e o refino, mas também enfrentam desafios geológicos, climáticos e operacionais, que podem resultar em grandes danos humanos, materiais e ambientais quando não superados adequadamente 3,5,6,7. Assim, é importante ressaltar que a exploração de petróleo está entre as atividades humanas mais poluentes, pois gera enormes volumes de resíduos sólidos e gases nocivos que degradam o meio ambiente e prejudicam a saúde humana 8.

Nesse sentido, a segurança ao longo da cadeia produtiva é crucial para evitar acidentes de grandes proporções, como derramamentos de petróleo, que causam sérios danos ambientais e riscos à saúde dos seres vivos, tornando-os vulneráveis ao aumento da incidência de câncer, de doenças neurológicas e psíquicas, tegumentares, hepáticas, cardiovasculares e respiratórias 9,10.

Não por acaso, ao longo da história, vários desastres envolvendo petróleo demonstraram o impacto devastador dessas ocorrências. O primeiro grande caso registrado foi o desastre do Sinclair Petrolore (1960), seguido por outros como o Torrey Canyon (1967), Exxon Valdez (1989), Hebei Spirit (2007) e, mais recentemente, o Deepwater Horizon (2010) 11,12,13,14,15,16,17,18,19. Cada um desses desastres trouxe consequências severas, tanto para os ecossistemas atingidos quanto para as populações locais, expondo-as a sérios problemas de saúde e perdas econômicas.

No Brasil, o desastre de 2019 evidenciou a gravidade de derramamentos de óleo. As manchas de petróleo que surgiram no litoral nordestino afetaram mais de 3.400km de costa, impactando diretamente o ecossistema, a economia local e a saúde pública. Além disso, o derramamento continua gerando desafios ambientais, uma vez que fragmentos de petróleo continuam a surgir nas praias, sem que a origem do problema tenha sido identificada 20,21.

Diante desses desastres, a utilização de instrumentos de avaliação e monitoramento tem se mostrado fundamental para lidar com os impactos gerados. Tais instrumentos - que incluem escalas, questionários e checklists - são utilizados para medir as consequências dos derramamentos e subsidiar a tomada de decisões em situações de emergência 22,23. Contudo, a escolha adequada desses instrumentos é vital, pois a diversidade de variáveis envolvidas pode influenciar diretamente a confiabilidade dos resultados 24.

Considerando a carência de estudos que correlacionem a aplicação desses instrumentos em contextos de derramamentos de petróleo, pressupõe-se que, ao identificá-los, o acompanhamento e a resposta, bem como a intervenção sobre a situação, tornam-se mais ágeis e eficazes, permitindo uma melhor condução das ações em diferentes abordagens, sejam elas direcionadas aos aspectos de cuidados em saúde, de proteção e recuperação ambiental, ou de reparos socioeconômicos.

Assim, o presente estudo visa mapear as evidências científicas relacionadas à aplicação desses instrumentos para avaliar, acompanhar e monitorar os impactos de derramamentos de petróleo na saúde, no ambiente e no perfil socioeconômico das áreas afetadas.

Método

Trata-se de um estudo do tipo revisão de escopo (scoping review), utilizado no mapeamento de uma lacuna sobre um campo de investigação de interesse, e considerado um estágio preliminar à realização de uma revisão sistemática com rigor metodológico e reprodutibilidade, em termos de natureza, características e volume 25,26,27.

Para essa abordagem, adotou-se o guia internacional Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) e a recomendação proposta pelo Instituto Joanna Briggs, amplamente difundidos e adotados por diversos estudos que utilizam a metodologia da revisão de escopo em seis etapas: (i) definição da questão; (ii) identificação dos estudos; (iii) seleção dos estudos com base nos critérios de inclusão e exclusão; (iv) extração de dados; (v) organização dos resultados; e (vi) divulgação dos relatórios da pesquisa 28,29,30.

Este estudo foi registrado no Open Science Framework (https://osf.io/y792v/), com o objetivo de armazenar e fornecer a transparência quanto ao protocolo utilizado. Além disso, quanto à questão norteadora, utilizou-se o método População-Conceito-Contexto (PCC) para a identificação dos tópicos-chave, como segue: como os instrumentos de medida e acompanhamento dos impactos de derramamentos de petróleo são utilizados para a avaliação da saúde, do ambiente e do perfil socioeconômico de populações e áreas expostas?

Foram utilizadas, para fins deste estudo, as seguintes bases de dados: MEDLINE via PubMed, Cochrane Library, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Portal de Periódicos da CAPES, Scopus, Web of Science, Embase e SciELO. Todas as bases apresentam o escopo de estudos que atendem ao objetivo e à questão norteadora apresentados. Ademais, não foram consideradas as fontes de literatura cinzenta, as quais não foram publicadas formalmente.

A busca bibliográfica para o desenvolvimento deste estudo foi realizada por meio da relação de termos pertinentes ao objeto central do estudo, com operadores booleanos AND e OR, filtrando os resultados nas diferentes bases de dados. Os termos utilizados, assim como a estratégia de busca, foram regulados pelo Medical Subject Headings (MeSH): petroleum pollution, surveys and questionnaires e seus respectivos entry terms, conforme Quadro 1.

Quadro 1
Estratégias de busca aplicadas por base de dados utilizando operadores AND e OR.

Foram identificados 2.055 registros nas bases de dados. Após eliminar 167 duplicados, restaram 1.888 para leitura de títulos e resumos. Desses, 1.780 foram excluídos por falta de informações relevantes, resultando em 108 registros para leitura completa. Finalmente, 45 registros foram selecionados para a revisão e síntese narrativa (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma indicando o processo de seleção dos estudos adaptado do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR).

Foram incluídos todos os estudos originais nos idiomas inglês, português e espanhol, publicados e disponíveis integralmente, que contemplam diferentes metodologias, devendo responder à questão norteadora de modo a atender à correlação entre a exposição à desastres com derramamento de petróleo e os impactos decorrentes dessa, utilizando-se instrumentos de mensuração dos efeitos.

Os estudos selecionados, publicados entre 2011 e 2023, refletem o aumento significativo de pesquisas sobre derramamentos de petróleo após a explosão da plataforma Deepwater Horizon em 2010, o segundo maior desastre de petróleo da história e o maior em ambiente aquático 31.

Foram excluídos estudos de dados secundários, revisões, casos únicos ou séries de casos, relatos, opiniões de especialistas, editoriais e similares. Também foram excluídos trabalhos acadêmicos (teses e dissertações), livros, capítulos de livros, anais de eventos, relatórios e documentos. Além disso, foram removidos estudos duplicados ou irrelevantes conforme a leitura de títulos, resumos ou textos completos.

Para a etapa de seleção dos estudos, dois revisores independentes tiveram auxílio da plataforma Rayyan QCR (https://www.rayyan.ai/) nas etapas de leitura dos títulos e resumos e de leitura do texto na íntegra. Em caso de discordância, um terceiro revisor independente seria necessário para decisão final. Na etapa seguinte, as informações extraídas foram exportadas para o software Microsoft Excel (https://products.office.com/), obedecendo-se a caracterização dos estudos selecionados para a extração da amostra (autor[es], periódico, local de publicação, objetivos, tipo de estudo, população, eixo de investigação, principais resultados, pesquisa de formação preliminar, e nível de evidência), assim como a caracterização dos instrumentos utilizados nos estudos (identificação, aplicação do instrumento pelo estudo, dimensões analisadas, informações adicionais e padrões de respostas aos instrumentos utilizados).

O nível de evidência utilizado para caracterização dos estudos também seguiu as recomendações do Instituto Joanna Briggs em cinco níveis e suas subclassificações 32, com escala do nível de maior recomendação (1) para estudos do tipo experimentais até o nível de menor recomendação (5) para opiniões de especialistas e pesquisas de bancada, esse último não sendo aplicável para o presente estudo, obedecendo-se o critérios de exclusão adotados.

Os dados extraídos foram apresentados em quadros, analisados sob estatística descritiva (frequência absoluta e relativa), seguidos de síntese narrativa para a construção dos resultados deste estudo. Por fim, por se tratar de um estudo produzido a partir de dados secundários, de livre acesso, sem exposição direta de seres humanos e/ou animais para a coleta dos dados, não precisou ser submetido à apreciação de Comitê de Ética em Pesquisa competente.

Este estudo conta com o apoio financeiro do Programa Pesquisa para o Sistema Único de Saúde: Gestão Compartilhada em Saúde - PPSUS/Pernambuco (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, Secretaria de Estado da Saúde de Pernambuco, Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco [CNPq/Decit/SCTIE/MS/SES/Facepe]), do Programa Inova Fiocruz - Encomendas Estratégicas: Territórios Sustentáveis e Saudáveis no Contexto da Pandemia de COVID-19 e do edital para projetos e ações estratégicas territorializadas para a implementação da Agenda 2030, da Presidência da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES; Código Financeiro 001).

Resultados

Quanto à caracterização dos registros selecionados (Quadro 2), observou-se que a maioria dos estudos foi realizada nos Estados Unidos (71,11%), com menor frequência na Coreia do Sul (13,33%), Nigéria (6,66%), Espanha (4,44%), Reino Unido (2,22%) e Brasil (2,22%). O maior volume de publicações foi em 2019 (20%), seguido por 2022 (15,55%) e 2012 (11,11%). Apenas um estudo foi publicado em 2023, por pesquisadores dos Estados Unidos.

Quadro 2
Caracterização dos estudos selecionados.

Os estudos identificados foram: Estudos Observacionais sem Grupo Controle (44,44%; nível de evidência 3.e), Estudos de Coorte com Grupo Controle (33,33%; nível de evidência 3.c) e Estudos Transversais (22,22%; nível de evidência 4.b).

Quanto à relação entre objetivos e eixos de investigação dos artigos selecionados, observou-se que a maioria se concentrou no campo da saúde (86,66%), com pouca ênfase no ambiente (4,44%) e nenhuma pesquisa exclusiva sobre aspectos socioeconômicos. Foram identificadas abordagens mistas na revisão: saúde e aspectos socioeconômicos (6,66%); saúde e ambiente (2,22%); e saúde, ambiente e aspectos socioeconômicos (2,22%). Nenhum estudo mencionou a pesquisa de formação preliminar no delineamento metodológico.

Quanto à caracterização dos instrumentos utilizados pelos artigos selecionados (Quadro 3), observou-se que a maioria dos estudos usou questionário próprio aplicado por meio de entrevistas (64,44%), em contraste com o uso isolado de outros instrumentos de avaliação (6,66%). Além disso, foram identificados registros que combinaram diferentes instrumentos (28,88%).

Quadro 3
Caracterização dos instrumentos.

Ao total, foram observados 75 registros de uso de instrumentos. Além dos questionários próprios, foram identificados 29 instrumentos distintos para avaliar os impactos dos derramamentos de petróleo. Entre eles, o 20-item Center for Epidemiological Studies Depression Scale (CES-D) e o 8-item Patient Health Questionnaire (PHQ-8) foram os mais utilizados, cada um em três estudos. Seguiram-se o 7-item Generalized Anxiety Disorder (GAD-7), o Kessler-6 (K6) e o Primary Care PTSD (PC-PTSD) screen, cada um em dois estudos. Apenas quatro instrumentos focaram em aspectos ambientais e percepções dos respondentes: Community and Environment in Rural America Gulf Coast Module, Environmental Exposure Questions, Risky Events Self-Report Questionnaire e Environmental Risk Tolerance. Outros instrumentos podem ser consultados no Quadro 3.

Nove artigos não forneceram informações suficientes sobre os instrumentos utilizados, limitando a análise detalhada. Observou-se o uso de escalas binárias, escalas do tipo Likert, escalas combinadas e respostas livres na estruturação dos instrumentos (Quadro 3).

Dentre as dimensões analisadas pelos instrumentos (Quadro 3), observou-se o predomínio do foco em aspectos mentais e emocionais na dimensão saúde (41,33%), seguido por aspectos gerais da saúde física (13,33%), e aspectos cardiovasculares, respiratórios e obstétricos/neonatais (6,66% cada). Aspectos neurológicos foram abordados em 2,66% dos estudos.

Na dimensão geral, foram analisadas percepções de exposição e impacto (8%), enquanto na dimensão ambiental, foram avaliadas percepções de riscos ambientais e impactos (8%). Também foram identificadas variáveis multidimensionais para avaliação de aspectos socioeconômicos e saúde geral (2,66%), e aspectos socioeconômicos com saúde obstétrica, percepção de exposição e impacto ambiental (1,33% cada).

Considerando os Quadros 2 e 3 2os objetivos dos artigos, a exposição ao petróleo/óleo bruto e as respostas de contenção estão associadas aos seguintes achados:

(a) Na saúde: aumento de distúrbios neurológicos e comportamentais, como transtorno de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT); distúrbios cardiovasculares e respiratórios, como hipertensão, infarto, asma e doenças pulmonares; e eventos obstétricos e neonatais adversos, como abortos e natimortos.

(b) No ambiente: percepções de aumento do risco associado à exposição e impactos na vida marinha, levando à redução do consumo de frutos do mar.

(c) No contexto socioeconômico: impactos negativos no turismo e na pesca, perda de subsistência para trabalhadores locais e alterações nas rotas de cultivo, destacando a importância da coesão social na recuperação dos danos.

Discussão

Os estudos identificados mostram uma variedade de instrumentos utilizados em desastres de derramamento de petróleo, embora a maioria apresente modelos próprios dos grupos de pesquisa e métodos de coleta de dados baseados em escalas para investigar os impactos. Esses impactos afetam tanto o ambiente quanto os seres humanos, especialmente a população costeira e os territórios próximos, gerando grande vulnerabilidade 33. Isso ressalta a importância de compreender as mudanças nas dinâmicas socioeconômicas, na ocupação dos espaços e na determinação do processo saúde-doença nessas áreas 34.

Ao comparar o gerenciamento de desastres relacionados a derramamentos de petróleo com outros desastres naturais, tecnológicos e químicos, identificam-se tanto potenciais quanto limitações. Entre os potenciais, destacam-se a melhora na coordenação e resposta rápida, o uso de tecnologias avançadas e a capacitação eficaz das equipes. Estratégias de comunicação claras e a colaboração entre instituições também otimizam recursos e promovem uma resposta integrada. No entanto, limitações como avaliação e gerenciamento inadequados podem causar atrasos no acesso às áreas afetadas, aumento do número de vítimas, sofrimento psicológico, perda de coordenação nas ações de socorro, destruição cultural, maior vulnerabilidade e migração em busca de recursos 35.

Portanto, é crucial aprimorar continuamente as metodologias de avaliação para lidar com a diversidade de cenários e a complexidade dos impactos sobre as comunidades afetadas. A análise dos instrumentos utilizados, especialmente em desastres provocados por derramamentos de petróleo, revela a importância de ferramentas como o CES-D, PHQ-8, GAD-7, K6 e PC-PTSD. Esses instrumentos são eficazes para a triagem e o monitoramento de condições psicológicas pós-desastre, sendo padronizados e de fácil aplicação para identificar sintomas de depressão, ansiedade e TEPT. Contudo, apesar de sua utilidade, esses instrumentos podem não oferecer um diagnóstico completo e não captar a complexidade das experiências vividas pelas populações afetadas, bem como os fatores sociais, econômicos e culturais que contribuem para o desenvolvimento de transtornos mentais 36,37,38,39,40,41.

No contexto da saúde, a exposição ao petróleo está associada a sintomas físicos e mentais, genotóxicos e endócrinos, de diferentes gravidades em vários sistemas orgânicos. Além disso, tanto a intoxicação aguda quanto a crônica aumentam a vulnerabilidade da saúde mental, especialmente em indivíduos afetados pela destruição dos territórios e perda dos mecanismos de sobrevivência 42. Destaca-se o predomínio de artigos focados na saúde mental, justificado pela preocupação com o aumento de desordens na vida, no trabalho, na família e na vida social dos sobreviventes, bem como os impactos nas atividades de subsistência e a perda econômica 43.

Os instrumentos também revelaram percepções sobre impactos e riscos ambientais, além dos efeitos negativos nas condições socioeconômicas das populações expostas, semelhantes aos encontrados em estudos sobre a ocupação de territórios por indústrias poluentes, e a insustentabilidade ambiental dessas atividades 44.

É importante ressaltar que os artigos selecionados para esta revisão não se debruçam sobre os aspectos íntimos das injustiças ambientais e vulnerabilização socioeconômica causados pela exposição ao petróleo. Isso contribui para uma produção de conhecimento enviesado que oculta contextos de risco e desfavorece grupos humanos vulneráveis nesse modelo de concepção da avaliação dos impactos 10.

A falta de estudos sobre as percepções e respostas das comunidades afetadas por derramamentos de petróleo pode levar a intervenções inadequadas e déficits em políticas, agravando disparidades e injustiças, e intensificando o impacto do racismo ambiental. Esta revisão destaca a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e sistêmica, com políticas públicas integradas, para entender a relação entre saúde, ambiente e aspectos sociais e econômicos, e abordar os efeitos adversos sobre condições de vida e ocupação de territórios.

Ademais, sugere-se fortalecer a articulação entre os diferentes níveis de governo, com destaque para o nível municipal, em que se implementa e executa diretamente a política formulada, fortalecendo a participação social e permitindo que as comunidades locais colaborem na construção de soluções para as suas realidades específicas, nesse caso, o enfrentamento dos desastres 45,46,47.

Diante dos desafios na gestão de desastres, é importante adotar medidas como padronização de protocolos de resposta rápida, sistemas de monitoramento ambiental e mecanismos de fiscalização robustos, integrando essas ferramentas com processos decisórios em um contexto de governança democrática 48,49,50.

A discussão acerca dos eixos de investigação, aqui abordados num campo conceitual, permite o entendimento de causalidades e a determinação dos impactos causados pela atividade humana, numa tentativa de estabelecer soluções equitativas e sustentáveis 51. Nessa corrente, destacam-se as características altamente poluidoras do processo produtivo do petróleo e dos seus derivados, bem como dos potenciais danos em diversos aspectos, como a cultura, que isoladamente impulsionam abordagens de estudos direcionados aos impactos 52.

No enfrentamento de desastres de derramamento de petróleo, que afetam aspectos físicos, sociais e econômicos das populações, a recuperação das comunidades requer esforços integrados para entender os riscos à saúde e à sustentabilidade comunitária. Defende-se, portanto, o uso de instrumentos que permitam a coleta sistemática e detalhada de dados, para uma compreensão completa dos impactos e da eficácia das ações de recuperação.

Na investigação sobre a explosão do Deepwater Horizon, constatou-se que dificuldades na contenção do desastre foram relacionadas a estimativas inadequadas de fluxos de óleo e à avaliação deficiente dos riscos da exposição e consumo de frutos do mar. A atividade pesqueira e a indústria de frutos do mar, essenciais para a economia local, foram significativamente afetadas pelos derramamentos. Além disso, há uma carência de informações sobre treinamento e especialização na avaliação de exposição ambiental dos profissionais envolvidos 53,54,55.

Observou-se uma carência de estudos que integrem a avaliação e o acompanhamento dos eventos, especialmente considerando questões sociais além da saúde. Essa lacuna pode ser atribuída ao paradigma biomédico, que tende a resistir a abordagens que incluem subjetividade, valores e aspectos simbólicos das relações sociais, focando principalmente na aplicação de instrumentos de investigação 56.

É importante ressaltar que, embora este estudo tenha se debruçado sobre a temática dos derramamentos de petróleo, outros eventos envolvendo produtos químicos, como agrotóxicos, são considerados à luz dessa discussão, pois esses também produzem impactos socioeconômicos e ambientais significativos, e de interesse para a saúde pública. Nesse diapasão, identificam-se dinâmicas de exposição combinada com consequências para os sistemas orgânicos dos indivíduos e sobre as estruturas socioeconômicas das áreas afetadas, também associados a mecanismos que produzem vulnerabilidade e injustiças num ciclo constante de degradação 57,58. Dessa forma, faz-se necessário considerar os riscos de acidentes químicos como questão de saúde pública.

O desenvolvimento industrial e a manipulação de produtos químicos apresentam potencial catastrófico que impulsiona a necessidade de políticas de planificação e prevenção à acidentes e desastres, com o controle emergencial e medidas de segurança para cada processo 59. Ademais, no contexto da exposição a substâncias tóxicas, é crucial o papel dos centros de informação toxicológica no manejo de incidentes graves enquanto os serviços de tratamento chegam às vítimas. Para promover políticas adequadas, é necessário adaptar essa ferramenta para garantir o fluxo eficiente de informações, notificações e encaminhamentos entre os subsistemas de diagnóstico, laboratórios, estatísticas, epidemiologia e vigilância comunitária 60.

A predominância de métodos observacionais (analíticos e descritivos) nos estudos selecionados reflete o interesse epidemiológico tradicional em estabelecer causalidade entre eventos, especialmente entre fatores contextuais e repercussões na saúde. Isso reforça a contribuição biomédica, ao mesmo tempo que ignora a importância de integrar aspectos sociais na construção do conhecimento científico 61.

Embora estudos observacionais sejam mais adequados para a avaliação da incidência de eventos com menor custo, é importante considerar a ocorrência de fatores de confusão entre os grupos observados durante a construção do desenho metodológico, sobretudo para adequada aplicação de instrumentos 62. Ainda, ressalta-se o seu menor grau de evidência e de recomendação quando comparados a estudos experimentais ou quase-experimentais, além da necessidade de se analisar a qualidade metodológica por diferentes estratégias, considerando as particularidades existentes nos estudos observacionais de coorte com grupo controle, sem grupo controle e do tipo transversais, como aqui apresentados 32,63.

Um ponto relevante é o distanciamento dos pesquisadores em relação aos objetos de estudo e às comunidades afetadas. Esse afastamento é evidenciado pela falta de pesquisas preliminares que orientem a elaboração metodológica e a escolha dos instrumentos de avaliação. A relação entre o método e o objeto é crucial para definir a abordagem científica, a ferramenta adequada e os resultados, garantindo uma visão integrada e concreta do problema 64.

Em outras palavras, a escolha dos instrumentos de avaliação para um método científico deve ser antecedida pela imersão e pela aproximação com a realidade vivenciada, a fim de compreendê-la e possibilitar a sua transformação; não apenas a sua análise crítica e fragmentada 65. Deste modo, para uma compreensão mais holística e precisa, e para melhor análise dos impactos, sugere-se um maior envolvimento das comunidades e a imersão dos pesquisadores nos territórios afetados.

A preferência por questionários nos estudos revisados parece ser justificada pela busca de informações diretamente dos pesquisados, permitindo inferências com menores custos, em menos tempo e com maior padronização. No entanto, há desafios como baixa taxa de retorno, exclusão de indivíduos com baixa escolaridade, respostas superficiais e inadequações ao contexto, que podem comprometer a representatividade da amostra e das análises 66.

Diante desse cenário, abordagens participativas e colaborativas, com o uso de instrumentos, podem fornecer uma visão mais detalhada dos impactos e das necessidades de populações afetadas. Elas superam as limitações dos métodos tradicionais, que frequentemente não envolvem suficientemente as comunidades afetadas, permitindo uma compreensão mais completa e compartilhada dos desastres 53.

A seleção de elementos binários nos estudos revisados permite que o respondente escolha entre duas opções, facilitando a reflexão antes da resposta. Em contraste, escalas do tipo Likert permitem variações de intensidade nas respostas, oferecendo uma análise mais detalhada. No entanto, escalas com mais pontos exigem maior análise e podem ser desafiadoras para respondentes com menor instrução ou maior carga cognitiva 67,68,69.

O uso de padrões livres de respostas em entrevistas favorece a interação entre o pesquisador e o participante, permitindo acesso a informações subjetivas com linguagem do senso comum e liberdade nas respostas 70. Ressalta-se, contudo, as limitações para esse tipo de abordagem instrumental, associadas a razões próprias dos indivíduos no fornecimento das respostas ou da influência exercida pelo aspecto pessoal do aplicador, dentre outras desvantagens que comprometem o recorte da realidade analisada 70.

Considerações finais

Os artigos revisados utilizaram diferentes instrumentos para avaliar a exposição aos derramamentos, os impactos na saúde (principalmente mentais e psicológicos), e a percepção de riscos e danos ambientais, além dos efeitos socioeconômicos e sobre a coesão social. Embora esses instrumentos ofereçam uma visão ampliada dos eventos, há uma falta de estudos que abordem de forma integrada a dimensão ambiental e socioeconômica dos impactos. Futuras pesquisas devem expandir a análise sobre a consistência, a confiabilidade e as adaptações transculturais dos instrumentos. Essas informações podem ajudar a criar uma matriz multidimensional para monitorar desastres, facilitando decisões rápidas e eficazes na elaboração de políticas de proteção e recuperação.

Agradecimentos

Ao Programa Pesquisa para o Sistema Único de Saúde: Gestão Compartilhada em Saúde do Programa Inova Fiocruz.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Dez 2023
  • Revisado
    13 Set 2024
  • Aceito
    17 Out 2024
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