Resumo
O objetivo foi analisar a ocorrência, a evolução e os fatores associados à incapacidade física por hanseníase no diagnóstico da doença e na alta da poliquimioterapia (PQT), no Estado da Bahia, Brasil, 2001-2023. Estudo transversal de base populacional com componentes repetidos no tempo pela análise do grau de incapacidade física (GIF) no diagnóstico e na alta da PQT em casos novos de hanseníase. Calcularam-se as proporções e razões de prevalência (RP), com intervalos de 95% de confiança (IC95%) por regressão de Poisson com variância robusta. Foram detectados 58.168 casos novos de hanseníase. A proporção com GIF avaliado foi de 85% no diagnóstico (n = 49.434) e 48% na alta (n = 27.860). Entre os casos com GIF 0 na admissão, 5,9% (n = 1.077) evoluíram para GIF 1 e 1,2% (n = 212) para GIF 2. Dos casos novos com GIF 1, 44,5% (n = 2.231) mantiveram o grau e 4% (n = 201) pioraram para GIF 2. Entre aqueles com GIF 2 no diagnóstico, 53,8% (n = 830) mantiveram o grau. A menor taxa de detecção de casos novos com GIF 2 por 1.000.000 de habitantes ocorreu em 2020, com maior proporção de casos na admissão em 2023 (7,8%, pós-COVID-19). Verificou-se associação entre GIF 1/2 e: sexo masculino (RPa = 1,17; IC95%: 1,06-1,27; p = 0,001), ausência de escolaridade (RPa = 1,85; IC95%: 1,29-2,63; p = 0,001), classificação multibacilar (RPa = 1,52; IC95%: 1,20-1,91; p = 0,001), reação hansênica tipo 1 e 2 (RPa = 1,27; IC95%: 1,12-1,43; p < 0,001). Verificou-se associação na piora do GIF em reação hansênica tipo 1 e 2 (RPa = 1,34; IC95%: 1,02-1,76; p = 0,039). A hanseníase mantém elevada carga de incapacidade física na Bahia, reforçando a necessidade de diagnóstico oportuno, monitoramento longitudinal do GIF e integração entre vigilância e cuidado, com atenção especial a pessoas socialmente vulnerabilizadas.
Palavras-chave:
Hanseníase; Estado Funcional; Vigilância em Saúde Pública
Abstract
This study aimed to analyze the occurrence, evolution, and factors associated with physical disability due to leprosy at diagnosis and discharge from multidrug therapy (MDT) in the state of Bahia, Brazil, 2001-2023. A cross-sectional population-based study was conducted of the degree of physical disability (DPD) at diagnosis and discharge from MDT in new cases of lepropsy. Poisson regression analysis with robust variance was used to calculate proportions and prevalence ratios (PR) with 95% confidence intervals (95%CI). A total of 58,168 new cases of leprosy were detected. The proportion of cases with the assessment of DPD was 85% at diagnosis (n = 49,434) and 48% at discharge (n = 27,860). Among the cases with DPD 0 at admission, 5.9% (n = 1,077) and 1.2% (n = 212) worsened to DPD 1 and DPD 2, respectively, at discharge. Among the new cases with DPD 1, 44.5% (n = 2,231) maintained the grade and 4% (n = 201) worsened to DPD 2. Among those with DPD 2 at diagnosis, 53.8% (n = 830) maintained the grade. The lowest detection rate of new cases with DPD 2 per 1,000,000 residents occurred in 2020 and the highest proportion of cases at admission occurred in 2023 (7.8%, post-COVID-19). Associations were found between DPD 1/2 and the male sex (adjPR = 1.17; 95%CI: 1.06-1.27; p-value = 0.001), the absence of schooling (adjPR = 1.85; 95%CI: 1.29-2.63; p-value = 0.001), multibacillary classification (adjPR = 1.52; 95%CI: 1.20-1.91; p-value = 0.001), and type 1 and 2 reactions (adjPR = 1.27; 95%CI: 1.12-1.43; p-value < 0.001). An association was found between the worsening of DPD and type 1 and 2 reactions (adjPR = 1.34; 95%CI: 1.02-1.76; p-value = 0.039). Leprosy still causes a high burden of physical disability in Bahia, underscoring the need for early diagnosis, the longitudinal monitoring of DPD, and the integration between surveillance and care, with special attention to socially vulnerable individuals.
Keywords:
Leprosy; Functional Status; Public Health Surveillance
Resumen
El objetivo fue analizar la incidencia, la evolución y los factores asociados a la discapacidad física por lepra en el diagnóstico de la enfermedad y en el alta de la poliquimioterapia (PQT), en el estado de Bahía, Brasil, 2001-2023. Estudio transversal de base poblacional con componentes repetidos en el tiempo mediante el análisis del grado de incapacidad física (GIF) en el diagnóstico y en el alta de la PQT en casos nuevos de lepra. Se calcularon las proporciones y razones de prevalencia (RP), con intervalos de 95% de confianza (IC95%) mediante regresión de Poisson con varianza robusta. Se detectaron 58.168 nuevos casos de lepra. La proporción con GIF evaluado fue del 85% en el diagnóstico (n = 49.434) y del 48% en el alta (n = 27.860). Entre los casos con GIF 0 al ingreso, el 5,9% (n = 1.077) evolucionó a GIF 1 y el 1,2% (n = 212) a GIF 2. De los nuevos casos con GIF 1, el 44,5% (n = 2.231) mantuvo el grado y el 4% (n = 201) empeoró a GIF 2. Entre los que tenían GIF 2 en el diagnóstico, el 53,8% (n = 830) mantuvo el grado. La menor tasa de detección de casos nuevos con GIF 2 por cada 1.000.000 de habitantes se produjo en 2020, con una mayor proporción de casos en el ingreso en 2023 (7,8%, post-COVID-19). Se observó una asociación entre GIF 1/2 y: sexo masculino (RPaj = 1,17; IC95%: 1,06-1,27; p = 0,001), falta de escolaridad (RPaj = 1,85; IC95%: 1,29-2,63; p = 0,001), clasificación multibacilar (RPaj = 1,52; IC95%: 1,20-1,91; p = 0,001), reacción leprosa tipo 1 y 2 (RPaj = 1,27; IC95%: 1,12-1,43; p < 0,001). Se observó una asociación entre el empeoramiento del GIF y la reacción leprosa de tipo 1 y 2 (RPaj = 1,34; IC95%: 1,02-1,76; p = 0,039). La lepra sigue causando una elevada carga de discapacidad física en Bahía, lo que refuerza la necesidad de un diagnóstico oportuno, un seguimiento longitudinal del GIF y la integración entre la vigilancia y la atención, prestando especial atención a las personas socialmente vulnerables.
Palabras-clave:
Lepra; Estado Funcional; Vigilancia en Salud Pública
Introdução
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica de base neural, com potencial significativo de incapacidades físicas e estigma 1. Apesar de avanços no controle, persiste como doença tropical negligenciada (DTN) de elevada magnitude e transcendência, em especial em países como Índia, Brasil e Indonésia 1,2.
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou 182.815 casos novos no mundo, 22.773 no Brasil (12,5% do total) 1,2, correspondendo, entre países notificantes, a 22,7 casos por um milhão de habitantes 1,3.
No período 2014-2023, o Brasil notificou 309.091 casos (247.139 novos; 80%). Dos 22.773 casos novos em 2023, verificou-se maior ocorrência entre pessoas do sexo masculino (55,4%; 12.618), em adultos de 30 a 59 anos (53,6%; 12.199), mas demarcando-se a detecção em menores de 15 anos (4,2%; 958) 3. Ademais, 72% (16.392) ocorreram em pessoas negras (pretas ou pardas), 6,7% (1.534) em analfabetas e 41,3% (9.413) com Ensino Fundamental incompleto ou completo. A maioria das pessoas acometidas residia nas regiões Centro-oeste, Norte e Nordeste. Em conjunto, estes dados reforçam a vulnerabilidade social e individual da doença 1,2,3.
O dano neural causado por Mycobacterium leprae e M. lepromatosis relaciona-se à incapacidade física, com risco de déficit sensitivo-motor permanente em mãos, pés e face (olhos e nariz), particularmente em casos multibacilares com diagnóstico e tratamento tardios. As limitações podem variar desde a redução da sensibilidade, até a ocorrência de dano motor com incapacidade física visível e irreversível 4. Há o potencial de ampliar a vulnerabilidade social pelo impacto em atividades da vida diária, como interrupção do trabalho, com repercussões psicossociais 5.
A avaliação e o monitoramento de possíveis danos neuro motores são essenciais na hanseníase. A avaliação neurológica simplificada no momento do diagnóstico, durante a poliquimioterapia (PQT) e na alta é central para o cuidado e a vigilância 4. O grau de incapacidade física (GIF) é indicador operacional crítico essencial para monitorar a efetividade das ações e direcionar planos terapêuticos singulares nos serviços de saúde 4,6. Deste modo, será possível, inclusive, revisar estratégias mediante condições de risco para prevenção e redução de incapacidades 4,7.
No entanto, lacunas significativas pela ausência de dados consistentes e inúmeras barreiras de acesso a diagnóstico e tratamento persistem em diferentes territórios. Insere-se a ausência de avaliação cuidadosa da função neural em diferentes momentos do cuidado e de condução de processos de vigilância 7,8,9. São falhas em diferentes pontos de atenção, em especial na atenção primária à saúde (APS), lócus essencial para ações de cuidado e vigilância 8.
No Brasil, entre 2014 e 2023, reduziu-se a proporção de casos sem incapacidade física no diagnóstico para 23,1%, período em que o país apresentou uma queda na proporção do GIF avaliado no diagnóstico, passando de 88,1% em 2014 para 85,3% em 2023. Entretanto, houve aumento de 48,5% na proporção de casos com GIF 1 e de 69,7% com GIF 2. Já em 2023, 53,6% dos casos foram diagnosticados com GIF 0, 35,2% com GIF 1 e 11,2% com GIF 2 4. Estima-se que a pandemia por COVID-19 tenha contribuído para o aumento da incapacidade física nos anos pós-2020 e para a manutenção da transmissão 1,5,10, por restringir o acesso a serviços e retardar diagnósticos 11.
No Estado da Bahia, em 2024, foram notificados 1.451 casos novos, 54 (3,7%) em crianças menores de 15 anos de idade. Nos últimos 10 anos, o estado tem se mantido em parâmetro considerado alto (75% a 84,9%) para a detecção de casos notificados nesta faixa etária. Entre 2014 e 2023, a proporção de casos com avaliação neurológica simplificada variou de 82,9% a 79,1% e a proporção de casos novos com GIF 2 permaneceu no parâmetro médio (5% a 9,9%), conforme parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde 12.
A mudança no GIF pode ocorrer com o tempo, particularmente frente à ocorrência de reações hansênicas que podem induzir ou agravar incapacidade física 13. Por outro lado, parte dos casos com GIF 1 no início do tratamento regride para o GIF 0 quando estes são avaliados e acompanhados adequadamente 14. Na vigência de GIF 1 ou 2, há maior risco de desenvolver deficiências, podendo indicar diagnóstico tardio ou endemia oculta, evento ainda mais crítico particularmente no contexto da pandemia 10,13,14,15.
Portanto, torna-se central analisar em que medida áreas endêmicas para hanseníase, a exemplo da Bahia, vêm implementando o processo de monitoramento e avaliação dos casos, com o objetivo de alcançar a meta global de “zero hanseníase” e de “zero incapacidade física” 1,2,3,6,16. O presente estudo teve como objetivo analisar a ocorrência, a evolução no diagnóstico e na alta da PQT e os fatores associados ao GIF por hanseníase, no Estado da Bahia. A série histórica delineou padrões antes, durante e após a pandemia por COVID-19, evento que impactou diretamente os serviços de saúde e o acesso a diagnóstico e tratamento da hanseníase.
Métodos
Desenho do estudo e fonte de dados
Trata-se de estudo transversal de base populacional com componentes repetidos no tempo pela análise do GIF no diagnóstico e na alta da PQT em casos novos de hanseníase. Conduzido a partir de dados secundários extraídos da base do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) para hanseníase, incluiu todos os casos novos de hanseníase residentes no Estado da Bahia, diagnosticados entre 2001-2023.
O estudo compõe o projeto denominado IntegraDTNs, com abordagem integrada de aspectos operacionais, epidemiológicos, clínicos e psicossociais em áreas de alta endemicidade para hanseníase e doença de Chagas.
Local de estudo
A Bahia, na Região Nordeste do Brasil, apresenta acentuadas desigualdades sociais historicamente. A população estimada para 2024 é de 14.850.513 pessoas em 417 municípios distribuídos em nove regiões de saúde 12. O estado combina vasta extensão territorial (564.764,429km2) e elevados índices de pobreza em territórios específicos. Apesar de ocupar a 7ª posição no ranking nacional do produto interno bruto (PIB), o estado apresenta o maior índice de desigualdade do Nordeste (índice Gini = 0,500) 17.
Análise dos dados
A incapacidade física foi classificada a partir da avaliação neurológica simplificada de cada caso reconhecendo-se o maior grau observado em olhos, mãos e pés: GIF 0 (sem incapacidade relacionada à hanseníase), GIF 1 (incapacidade física não detectável pela inspeção ou pelo teste de acuidade visual, mas se observa diminuição da sensibilidade protetora ou redução da força muscular nas mãos, pés e/ou nos olhos) e GIF 2 (incapacidade e deformidades visíveis) 4,10. O GIF no momento do diagnóstico e na alta da PQT é registrado em campos específicos da ficha de notificação dos casos de hanseníase 4.
Entre os indicadores calculados, insere-se o percentual de pessoas acometidas pela hanseníase com GIF avaliado na admissão e na alta ao longo da série histórica de 23 anos. Para aquelas pessoas com avaliação realizada, foi possível reconhecer a evolução entre o diagnóstico e a alta (melhora, manutenção ou piora). Considerou-se como padrão de melhora quando se verificou diminuição do valor do GIF (1 para 0 ou 2 para 1); de manutenção quando o GIF ficou mantido; e piora do GIF quando se verificou aumento do valor (0 para 1 ou 2 e 1 para 2). Adicionalmente, procedeu-se ao cálculo da taxa de detecção de casos novos com GIF 2 por um milhão de habitantes.
Para verificação das mudanças dos GIF nos momentos do diagnóstico e da alta da PQT, utilizou-se o teste de Bowker (extensão de McNemar) para testar a assimetria das mudanças, com o objetivo de analisar fluxos predominantes de melhora ou de piora do GIF.
Os dados relativos às macrorregiões de saúde na Bahia (Sul, Sudoeste, Oeste, Norte, Nordeste, Leste, Extremo Sul, Centro-leste e Centro-norte) foram analisados descritivamente.
Como variáveis independentes individuais inserem-se as sociodemográficas (sexo: masculino, feminino e ignorado; escolaridade: analfabeto, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior e ignorado/não se aplica; idade: < 15 anos, 15 a 59 anos, 60 anos ou mais; raça/cor: branca, preta, amarela, parda, indígena e ignorado) e as clínicas (classificação operacional: paucibacilar, multibacilar e ignorada; forma clínica: indeterminada, tuberculoide, dimorfa, virchowiana, não classificada e ignorado; e reação hansênica: reação tipo 1, reação tipo 2, reação tipo 1 e 2 e ignorado). A possível associação destas variáveis com o GIF 1 ou 2 foi verificada a partir de análises bivariadas considerando a proporção de pessoas que receberam alta com GIF 1 ou 2, bem como a proporção de pessoas com piora do GIF.
Procedeu-se à estimativa da prevalência com respectivo intervalo de 95% de confiança (IC95%) e razões de prevalência (RP), pelo método de regressão de Poisson com variância robusta, brutas e ajustadas via análise multivariada, considerando as demais variáveis de interesse. Os valores de p foram estimados pelo teste de Wald global.
Para o cálculo da RP bruta (RPb) e da RP ajustada (RPa), com o IC95%, foi utilizado o ano do diagnóstico para ajustar a variabilidade das estimativas. A colinearidade entre variáveis foi verificada pela análise do fator de inflação da variância (VIF, do inglês variance inflation factor), considerando a variação 1-5. Variáveis com evidência de colinearidade foram removidas do modelo. Para a análise dos dados, utilizou-se o programa Stata 13.0 (https://www.stata.com). As informações descritivas estão apresentadas por meio de tabelas e gráficos.
Considerações éticas
Esta pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (parecer nº 6.174.030, de 10 de julho de 2023; CAAE 70680823.7.0000.5556).
Resultados
De 2001 a 2023, registraram-se 58.167 casos novos de hanseníase no Estado da Bahia. O GIF foi avaliado no momento do diagnóstico em 85% (49.434) dos casos e em 48% na alta (27.860). Em 9,9% (5.784), o GIF não foi avaliado em nenhum momento do acompanhamento (dados não apresentados em tabelas). Por outro lado, 42,8% (24.911) das pessoas acometidas foram avaliadas tanto no diagnóstico quanto na alta, permitindo analisar a evolução do GIF.
No subconjunto com avaliação nos dois momentos (n = 24.911), a proporção de pessoas com incapacidade física (GIF ≥ 1) reduziu-se (-7%) de 26,3% (admissão) para 19,3% (alta). Houve manutenção do GIF em 80,8%, melhora em 13,2% e piora em 6%, com melhora global de 7,3%. Entre os casos com GIF 1 na admissão, 51,5% regrediram para GIF 0 e 4% pioraram para GIF 2; entre os com GIF 2, 28,9% melhoraram, enquanto 53,8% mantiveram o grau (Tabela 1). O teste de Bowker indicou assimetria nas trocas e confirmou a direção para melhora entre a admissão e a alta (χ2(3) = 712,3; p < 0,001).
A Figura 1 apresenta distribuição proporcional dos GIF por hanseníase no momento do diagnóstico (Figura 1a) e na alta da PQT (Figura 1b), no Estado da Bahia ao longo de série histórica. No momento da admissão, houve predomínio de GIF 0, com pequenas variações ao longo dos anos. Destaca-se redução desta condição durante e após a pandemia por COVID-19, período em que se eleva a proporção de pessoas não avaliadas, alcançando o maior percentual da série em 2021 (Figura 1a). Destaca-se que a maior proporção de casos com GIF 2 no momento de admissão ocorreu em 2023 (pós-pandemia), com 7,8% dos casos (dados não apresentados em tabela).
Distribuição do grau de incapacidade física (GIF) pela hanseníase no momento do diagnóstico e da alta da poliquimioterapia (PQT) no Estado da Bahia, Brasil, de 2001 a 2023.
No momento da alta da PQT, as maiores proporções relacionam-se à condição de não avaliação do GIF, de modo mais acentuado nos seis primeiros anos da série histórica, alcançando 68,2% em 2006. Em 2023, este percentual de não avaliação alcança 62,9% das pessoas. A proporção com GIF 2 alcança seus maiores percentuais em 2020 (4,6%) e em 2021 (4,4%) (Figura 1b).
A análise da taxa de detecção de casos com GIF 2 por hanseníase no Estado da Bahia apresenta variações significativas. Entre 2001 e 2003 a taxa manteve-se relativamente estável, com valores próximos a sete casos novos por milhão de habitantes. A partir de 2004, houve um aumento progressivo, alcançando 14,8 casos por milhão em 2007, representando o maior valor observado em toda a série histórica. Entre 2008 e 2014, verifica-se estabilidade de taxas variando entre aproximadamente 10 e 13 casos por um milhão de habitantes. Em 2020, há uma queda pontual, voltando a elevar-se nos anos seguintes (Figura 2).
Taxa de detecção (por 1.000.000 de habitantes) de casos com grau 2 de incapacidade física ocasionada pela hanseníase no Estado da Bahia, Brasil, 2001 a 2023.
Na análise multivariada para GIF 1/2 na alta (Tabela 2), observaram-se associações com pessoas do sexo masculino (RPa = 1,17; IC95%: 1,06-1,27; valor de p = 0,001), sem escolaridade (RPa = 1,85; IC95%: 1,29-2,63; valor de p = 0,001), classificação multibacilar (RPa = 1,52; IC95%: 1,20-1,91; valor de p < 0,001), forma clínica tuberculoide (RPa = 1,31; IC95%: 1,01-1,71; valor de p < 0,001), e com reação hansênica tipo 1 e 2 em casos multibacilares (RPa = 1,27; IC95%: 1,12-1,43; valor de p < 0,001) (Tabela 2).
Na análise de possível associação da piora do GIF na alta (Tabela 3), por sua vez, destacaram-se o sexo masculino (RPa = 0,93; IC95%: 0,77-1,17; valor de p = 0,455), sem associação significativa após ajuste, e com associação à reação hansênica tipo 1 e 2 em casos multibacilares (RPa = 1,34; IC95%: 1,02-1,76; valor de p = 0,039) (Tabela 3).
Discussão
Este trabalho traz em perspectiva achados das últimas duas décadas indicando um cenário persistente de controle crítico da hanseníase como condição crônica no Estado da Bahia. Os padrões evidenciados por indicadores epidemiológicos e operacionais estratégicos relacionados à ocorrência e progressão de incapacidade física demarcam falhas significativas no processo de detecção e de longitudinalidade do cuidado, em especial nas pessoas residentes na Região Centro-leste do estado (Feira de Santana). Apesar da disponibilidade no Sistema Único de Saúde (SUS) de meios para diagnóstico e tratamento, a persistência de casos com incapacidade física, tanto no momento de diagnóstico quanto de alta da PQT, inclusive com evolução de piora ao longo do tempo, aponta para desafios a serem superados pelas redes de atenção e vigilância.
Ressalta-se a elevada proporção de pessoas sem avaliação neurológica simplificada nos momentos recomendados, que esteve associada a sexo masculino, baixa escolaridade, idade avançada, presença de episódios reacionais hansênicos tipo 1 e 2 e à classificação operacional multibacilar. Tais achados são corroborados por outros estudos que reforçam falhas operacionais/institucionais no controle, bem como questões de vulnerabilidade e estigma associados que criam barreiras de acesso 14,18,19,20,21. Em conjunto, apontam para a necessidade do cuidado centrado na pessoa, atentando para a singularidade de cada grupo específico e a necessidade de priorizar ações e serviços, em especial, após a pandemia por COVID-19 15.
Algumas áreas endêmicas, incluindo o Estado da Bahia, têm sistematicamente dificuldades na estruturação de respostas para enfrentamento da hanseníase agravadas pela grande desigualdade social, ainda que em territórios próximos dos grandes centros urbanos do estado 6,10,13,16. Pesquisa recente sobre padrão de ocorrência e fatores associados a incapacidades físicas em pessoas que concluíram de 2001 a 2014 a PQT para hanseníase no Município de Vitória da Conquista, Região Sudoeste da Bahia, reconheceu que 64,8% dos casos apresentaram algum GIF, com deformidades visíveis em 17,1% destes, em especial entre pessoas sem escolaridade 22.
Evidenciou-se neste trabalho que, no momento do diagnóstico, a maioria das pessoas acometidas apresentava GIF 0, indicando prognóstico inicial mais favorável. No entanto, proporção significativa dos casos evoluiu para GIF 1 e 2 na vigência de PQT. Outros trabalhos no contexto do Nordeste brasileiro reforçam e sinalizam também para a importância de uma atenção de qualidade ao longo do tratamento e a importância de se evitar o diagnóstico tardio da doença buscando a detecção oportuna dos casos novos 18,19,20,23,24. Nesse contexto, ressalta-se que a Bahia tem apresentado nos últimos anos desempenho insuficiente na avaliação do GIF no país 3,10,25.
Uma vez que o GIF traduz a efetividade das ações de diagnóstico precoce da hanseníase, as persistentes taxas de detecção de casos diagnosticados com incapacidades físicas já instaladas podem representar uma endemia oculta, em que há a persistência de casos sem tratamento, com potencial de detecção tardia, possivelmente atuando como fontes de M. leprae na comunidade 21,26,27,28.
A redução da proporção de casos com avaliação do GIF entre os momentos de diagnóstico e de alta da PQT revela que mais da metade das pessoas acometidas não teve sua incapacidade física devidamente monitorada ao longo do tratamento, o que pode resultar na subestimativa do impacto da hanseníase e na falta de intervenções para minimizar suas consequências 6,7,22. Ademais, quase 10% das pessoas acometidas nunca tiveram o seu GIF avaliado, reforçando as falhas no acesso às ações previstas em protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas vigentes 29. Assim, apesar da disponibilidade de políticas voltadas às pessoas com hanseníase no SUS, bem como à prevenção de incapacidades físicas, observa-se que ainda há falhas na promoção da redução de incapacidades, condição que contribui para manutenção de ciclos de vulnerabilidade 16,19,22,23.
A análise da evolução do GIF ao longo do tratamento demonstra um cenário heterogêneo, em que algumas pessoas acometidas demonstraram melhora clínica, indicando eficácia terapêutica na reversão de incapacidades, enquanto outras apresentaram piora do GIF. Os achados sugerem que a progressão da doença pode ocorrer por diferentes e complexos fatores e pode estar relacionada a dimensões de vulnerabilidade individual, social e programática das pessoas acometidas 20,21,30.
Embora a PQT seja decisiva para o controle da doença ativa, a reversão das incapacidades físicas é limitada, quando o dano neural já está instalado, especialmente nos casos mais avançados. Este aspecto reforça a centralidade do diagnóstico precoce, do manejo adequado de reações e do seguimento estruturado durante e após o tratamento.
A pequena proporção de pessoas acometidas que retornaram ao GIF 0 evidencia a importância da detecção precoce e do início oportuno do tratamento, uma vez que as incapacidades físicas se instalam, tendem a se tornar permanentes 6,9. Esta progressão traz a preocupação de complicações que podem levar a quadros clínicos mais graves, mas menos frequentemente sendo causa básica associada à morte 21,31.
Para além da realização da avaliação neurológica simplificada, um fator crítico que influencia a evolução do GIF é a qualidade da avaliação neurológica inicial. A literatura aponta falhas importantes na execução do exame, seja por ausência de formação técnica de profissionais da saúde, seja por lacunas na padronização e no registro das informações obtidas 6,7,22,23. A realização inadequada ou incompleta do exame pode levar a subdiagnóstico do grau real de comprometimento neurológico, fragilizando o plano terapêutico e as ações de prevenção de incapacidades 6,26,31.
Reforça-se a importância de qualificação das supervisões, com monitoramento e avaliação em interfaces diretas entre a APS e a vigilância. Insere-se também a composição de processos diferenciais de educação permanente e apoio matricial às equipes de saúde, como estratégia fundamental para garantir a integralidade do cuidado 1,2,21. Ademais, a persistência de incapacidades em pessoas tratadas reforça a urgência da oferta contínua de cuidados reabilitadores e de grupos de autocuidado, promovendo reintegração social e qualidade de vida 5,7,8,10,11.
Nesse contexto, a abordagem multiprofissional é essencial e consolidada no SUS, com a valorização de diferentes profissionais como fisioterapeutas, que atuam com foco na preservação da função motora e educação em autocuidado. A prescrição precoce de órteses, como talas para evitar garras e estabilizar tornozelo-pé, também são algumas das estratégias eficazes e amplamente recomendadas para prevenir contraturas, corrigir deformidades iminentes e auxiliar na funcionalidade 32. A inspeção regular das extremidades, além de orientações com relação a hidratação da pele e proteção contra traumas, é essencial para prevenir úlceras plantares, uma das principais portas de entrada para infecções. A OMS e as diretrizes brasileiras reforçam ainda que esta abordagem integrada e contínua é a estratégia mais eficiente para mitigar as incapacidades, promover a reabilitação e melhorar a qualidade de vida das pessoas acometidas pela hanseníase 6,7.
As condições associadas à piora da incapacidade física ao longo do tratamento revelam questões sociais importantes que podem ser traduzidas em um alcance interseccional 14,16. Em conformidade com outros estudos tanto nacionais quanto internacionais, o sexo masculino, menor escolaridade, idade avançada e classificação multibacilar estiveram significativamente associados ao risco de piora do GIF. Isso indica que grupos mais vulneráveis, com menor acesso a informações e cuidados de saúde têm sido aqueles mais propensos a desenvolver sequelas 10,13,15,18,20,22,31.
As maiores taxas de incapacidade em homens podem estar associadas à menor frequência de busca por serviços de saúde em relação às mulheres, comportamento resultado de aspectos socioculturais relacionados ao machismo estrutural e ausência de ações promotoras de maior adesão às ações de prevenção e cuidado à saúde nesta população 18. Além disso, insere-se também como hipótese a associação entre níveis de testosterona e à maior resposta imunológica T helper 2, comumente encontrada em casos multibacilares 26.
Os menores níveis de escolaridade associados às taxas de incapacidade ocasionada pela hanseníase também foram observados em outros estudos em áreas hiperendêmicas. Este dado é fortemente associado à vulnerabilidade individual e social, com carência de conhecimento e/ou condições financeiras. Gera estados de insegurança alimentar com todas as suas consequências, além de limitar o acesso a serviços de saúde para diagnóstico oportuno e tratamento adequado, demandando mudanças na estrutura social do país 27,31. Além disso, desafia os sistemas de saúde para a promoção de processos de educação em saúde capazes de ser apreendidos e de promotores de mudanças individuais e coletivas 18.
Pessoas em idades mais avançadas estiveram mais propensas a desenvolver hanseníase com expressão de GIF mais elevada. A hanseníase representa uma condição crônica e o GIF está diretamente relacionado à evolução da doença 7,9. Dessa forma, dado o processo de envelhecimento, pessoas com idades avançadas apresentam maior probabilidade de desenvolver incapacidades físicas 2,5,6,25, inclusive por comorbidades associadas 31. A saúde da pessoa idosa, em especial do sexo masculino, deve ser discutida pela rede de atenção, buscando superar barreiras de acesso cristalizadas em serviços de APS, ambulatórios especializados e de reabilitação 7.
De fato, o enfrentamento às iniquidades sociais em saúde, por meio da adoção de ações culturalmente adequadas e acessíveis, pautadas em processos intersetoriais ativos e que envolvam aspectos políticos, econômicos e sociais, consiste em importante passo para superação das incapacidades físicas ocasionadas pela hanseníase. A garantia de recursos para o financiamento do SUS em redes de reabilitação física e psicossocial, sobretudo no que diz respeito às políticas voltadas para doenças negligenciadas, de forma equitativa, é fundamental para a melhoria das condições de saúde da população e redução dos impactos observados 27,31.
A classificação operacional multibacilar e a forma clínica dimorfa ou virchowiana são comumente apontadas como fatores de risco para desenvolvimento de incapacidade físicas em estudos prévios. Para além da maior gravidade pela carga bacteriana, ampliam-se os riscos por conta da maior propensão ao desenvolvimento de reações hansênicas mais graves 26.
Desse modo, é coerente ressaltar a necessidade de atenção especial para estes casos, com intuito de estabelecer todas as medidas necessária para prevenção do dano neural, muitos deles irreversíveis, para além da interrupção da transmissão da doença 1,2,19,26,31.
Diante desse cenário, é essencial fortalecer as estratégias de detecção precoce, melhorar o acompanhamento das pessoas acometidas durante e após o tratamento e implementar ações de reabilitação para reduzir o impacto da hanseníase na qualidade de vida das pessoas acometidas. Investimentos na educação permanente de profissionais de saúde, na ampliação do acesso a serviços especializados, no enfrentamento de iniquidades em saúde e na promoção de educação em saúde da população podem ser determinantes para reduzir a carga da doença no Estado da Bahia 3,12,18,22,23,25. Todos estes aspectos, ganharam maior relevância no período pós-pandemia por COVID-19, período marcado pela redução de acesso, busca de cuidado e capacidade de resposta dos serviços de prevenção, monitoramento e cuidado 1,2,15.
Por fim, a persistência de casos ignorados ou não avaliados ao longo do tratamento aponta para desafios estruturais nos serviços de saúde, dificuldades na padronização dos registros e possíveis lacunas na continuidade do cuidado. Essa falha de base operacional compromete a efetividade das ações de monitoramento e pode indicar subnotificação de incapacidades, o que dificulta o planejamento de políticas públicas voltadas ao controle da hanseníase 20,23,24. Certamente, esta situação representa uma limitação do presente estudo, situação frequente em estudos com base em dados secundários via sistemas de informação em saúde. Procurou-se superar esta limitação a partir da análise integrada de todas as regiões do Estado da Bahia além do alcance de uma série temporal de mais de duas décadas que incorporasse, inclusive, períodos pré, per e pós-pandemia de COVID-19. De fato, o uso de dados secundários está sujeito a sub-registro, incompletude e viés de informação, especialmente na avaliação do GIF na alta. Buscou-se mitigar essas limitações abrangendo todas as macrorregiões, utilizando longa série temporal e aplicando modelagem específica.
Conclusão
A hanseníase persiste como problema de saúde pública no Estado da Bahia ao longo da série histórica analisada de duas décadas, com expressão relevante de incapacidades físicas do diagnóstico à alta. Em níveis elevados, tem sua expressão ampla no território baiano, mas com heterogeneidade territorial.
Ser admitido ou evoluir com lesões neurais irreversíveis durante o tratamento são marcadores significativos de baixa qualidade no desenvolvimento das ações de vigilância, diagnóstico, tratamento e reabilitação de casos diagnosticados. Trata-se de um contexto mais crítico a ser superado, considerando-se a associação da incapacidade com sexo masculino, baixa escolaridade, classificação multibacilar e reações hansênicas. Em conjunto, apontam prioridades para intervenções focalizadas, uma vez que se associa a questões sociais de desigualdade, perceptível pela associação de incapacidades físicas com baixa escolaridade e outras dimensões individuais e coletivas relevantes.
Os achados do presente estudo sugerem a necessidade de ampliação dos programas de supervisão mais próxima aos municípios, com monitoramento e avaliação das condições crônicas da hanseníase de modo a promover ações ativas para detecção precoce de casos da doença, além de seguimento qualificado. De fato, fazem-se necessários a avaliação e o registro adequados do GIF ao longo do tempo, um importante indicador da efetividade das ações de controle da hanseníase.
Adicionalmente, novas pesquisas devem ser realizadas, de forma contínua, com o objetivo de promover o acompanhamento adequado da situação epidemiológica e operacional de controle da hanseníase, sobretudo em contextos de vulnerabilidade, de elevada carga endêmica e de baixa resolutividade dos serviços de saúde.
É imperativo fortalecer a detecção precoce, assegurar a avaliação neurológica simplificada em todos os momentos do cuidado, qualificar o manejo de reações, ampliar o acesso à reabilitação e integrar vigilância e APS com supervisões sistemáticas. Essas ações são essenciais para avançar rumo às metas de eliminação e de “zero incapacidades”.
Agradecimentos
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento do projeto Vigilância e Cuidado Integrados para DTNs: Desafios para o Sistema Único de Saúde no Brasil (IntegraDTNs) (processo nº 408811/2021-8 - Edital Universal 2021). À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio. A. N. Ramos Jr. é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (processo nº 316316/2023-7).
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Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação à autora de correspondência.



Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) para hanseníase.
Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) para hanseníase.
