Resumo
A hesitação vacinal, embora não seja um fenômeno exclusivo da pandemia da COVID-19, tornou-se mais evidente durante esse período, impactando diretamente a cobertura vacinal e expondo tensões entre ciência, desinformação e práticas em saúde pública. Este ensaio tem como objetivo articular criticamente as dimensões que influenciam a motivação dos usuários na adesão à vacinação, analisando: (1) os receios relacionados a eventos adversos e segurança das vacinas; (2) o papel das redes sociais na disseminação de desinformação; e (3) as lacunas na comunicação em saúde como barreira à educação popular. A partir de dados observacionais e relatos da atenção primária à saúde, evidencia-se um paradoxo: embora a recusa inicial seja minoritária, a baixa adesão às doses de reforço revela uma hesitação residual. Propõe-se, então, que o direito à comunicação em saúde, entendido como um eixo prático-metodológico, é fundamental para a efetivação do direito à saúde no Sistema Único de Saúde. Conclui-se que estratégias baseadas em diálogo crítico, transparência e participação social podem potencializar a cobertura vacinal, fortalecendo não apenas a resposta a períodos críticos de emergência sanitária, mas também os pactos coletivos em saúde pública.
Palavras-chave:
Hesitação Vacinal; Vacinas Contra COVID-19; Atenção Primária à Saúde; Comunicação em Saúde; Desinformação
Abstract
While not a phenomenon exclusive to the COVID-19 pandemic, vaccinal hesitation became more evident during this period, directly impacting vaccination coverage and exposing tensions among science, misinformation, and public health practices. The aim of this essay is to offer a critical description of the dimensions that influence the motivation to adhere to vaccination, analyzing (1) fears related to adverse events and the safety of vaccines, (2) the role of social media in the dissemination of misinformation, and (3) gaps in health communication as a barrier to the education of the population. A paradox emerges from observational data and reports from the primary health care: although the rate of initial refusal was low, the poor adherence to booster shots reveals residual hesitation. Therefore, the right to health communication, which is understood as a practical-methodological axis, is fundamental to the realization of the right to health in the Brazilian Unified National Health System. Strategies based on critical dialogue, transparency, and social participation can enhance vaccination coverage, strengthening not only the response to critical periods of health emergencies, but also collective pacts in public health.
Keywords:
Vaccination Hesitancy; COVID-19 Vaccines; Primary Health Care; Health Communication; Desinformation
Resumen
La hesitación vacunal, aunque no es un fenómeno exclusivo de la pandemia de COVID-19, se ha hecho más evidente durante este periodo, lo que ha repercutido directamente en la cobertura vacunal y ha puesto de manifiesto las tensiones entre la ciencia, la desinformación y las prácticas de salud pública. Este ensayo tiene como objetivo articular críticamente las dimensiones que influyen en la motivación de los usuarios para adherirse a la vacunación, analizando: (1) los temores relacionados con los eventos adversos y la seguridad de las vacunas; (2) el papel de las redes sociales en la difusión de la desinformación; y (3) las lagunas en la comunicación sobre salud como barrera para la educación popular. A partir de datos observacionales e informes de la atención primaria de salud, se evidencia una paradoja: aunque el rechazo inicial es minoritario, la baja adherencia a las dosis de refuerzo revela una hesitación residual. Se propone, entonces, que el derecho a la comunicación en salud, entendido como un eje práctico-metodológico, es fundamental para la efectividad del derecho a la salud en el Sistema Único de Salud brasileño. Se concluye que las estrategias basadas en el diálogo crítico, la transparencia y la participación social pueden potenciar la cobertura vacunal, fortaleciendo no solo la respuesta a períodos críticos de emergencia sanitaria, sino también los pactos colectivos en materia de salud pública.
Palabras-clave:
Vacilación a la Vacunación; Vacunas Contra la COVID-19; Atención Primaria de Salud; Comunicación en Salud; Desinformación
Introdução
A pandemia de COVID-19 colocou em evidência a importância da vacinação como medida fundamental para conter a disseminação do vírus, reduzir a gravidade dos quadros clínicos e salvar vidas 1. A literatura científica vem sistematicamente descrevendo que o alcance de uma cobertura vacinal satisfatória passa pela formulação, aceitação e adesão às campanhas de vacinação 2,3. Contudo, quatro anos após as primeiras aplicações das doses da vacina contra a COVID-19 no Brasil, como podemos olhar para os desafios ainda presentes no alcance da cobertura vacinal na atenção primária à saúde (APS)? A fim de responder esta pergunta, o presente ensaio teórico tem como objetivo articular criticamente as dimensões que influenciam a motivação dos usuários na adesão à vacinação, analisando: (1) os receios relacionados a eventos adversos e segurança das vacinas; (2) o papel das redes sociais na disseminação de desinformação; e (3) as lacunas na comunicação em saúde como barreira à educação popular
Em um contexto de uma acelerada disseminação de informação, sejam elas factíveis ou não, o campo da Saúde Coletiva é convocado a refletir sobre a importância da percepção pública sobre ciência e tecnologia para o desenvolvimento, execução e implementação de novas campanhas e políticas de saúde 4. Estudos comparativos sinalizam que as atitudes, crenças e preocupações da população são capazes de impactar significativamente a aceitação de intervenções e cobertura vacinal, o que acaba por afetar a efetividade das campanhas 5. Deste modo, a comunicação em saúde passa a ser ponto estratégico na construção da confiança, disseminando informações precisas e mitigando os efeitos da desinfodemia, ou seja, os efeitos que a rápida proliferação de desinformação podem ter sobre a saúde pública e seus pactos coletivos, como no caso das vacinas 6.
Apesar da ampla discussão existente sobre a importância da comunicação em saúde, no Brasil e no mundo, especialmente no contexto de vacinação, a realidade dos territórios apresenta especificidades típicas do tecido social no qual a APS se insere, tais como as dinâmicas sociais, culturais, econômicas e políticas que se relacionam com os modos únicos de produção dos vínculos necessários nas linhas de cuidado entre os equipamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e os territórios 7. É um desafio que passa não somente pelas análises quantitativas dos macrodados, mas também pelas análises qualitativas realizadas sobre as práticas no cotidiano 8.
Cabe ressaltar ainda o papel do Estado e de seus dirigentes na disseminação de desinformações e fake news relacionadas à pandemia, incluindo a minimização da gravidade da COVID-19, questionamentos sobre a eficácia vacinal e a deslegitimação das orientações de saúde pública. Segundo relatório do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário, Universidade de São Paulo (CEPEDISA/USP) 8, a desinformação oficial contribuiu para a erosão da confiança da população nas vacinas e nos serviços de saúde, configurando uma barreira adicional ao enfrentamento da pandemia.
Nesse contexto, o presente ensaio teórico se apoia em elementos teórico-práticos identificados em ações extensionistas voltadas para o enfrentamento da desinformação na APS do Rio de Janeiro, especificamente em uma Clínica da Família na Zona Oeste da cidade. A experiência é utilizada como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre os desafios da cobertura vacinal contra a COVID-19, com foco na hesitação vacinal e nas percepções de cuidado. Embora a vacinação seja amplamente promovida pela Clínica da Família, a resistência de muitos indivíduos persiste, seja por receios quanto aos efeitos colaterais, desinformação ou crenças equivocadas sobre a eficácia e segurança das vacinas. O ensaio propõe uma discussão crítica sobre os aspectos que permeiam essa problemática, articulando conceitos teóricos e evidências empíricas para aprofundar a compreensão do fenômeno.
Caminho metodológico
Neste caminho metodológico, tem-se como ponto de partida os desdobramentos de atividades extensionistas de projetos de cooperação técnica em saúde coletiva junto a um serviço de saúde na Área Programática 4.0 da Zona Oeste, no Município do Rio de Janeiro, Brasil, entre junho e dezembro de 2024. Trata-se de um ensaio de natureza qualitativa, apoiado em experiências extensionistas desenvolvidas em uma Clínica da Família que utiliza relatos e observações oriundos das ações no cotidiano do serviço, complementados por dados secundários extraídos do accountability institucional do ano de 2024. A análise priorizou a reflexão crítica de experiências vividas por 17 usuários participantes e 8 profissionais de saúde, considerando especificidades socioculturais do território.
O referencial teórico se apoia em pressupostos da educação popular em saúde, como diálogo, emancipação, problematização e compromisso social 9,10. O ensaio articula experiências sobre os entendimentos dos usuários no cotidiano da clínica, no que tange à vacinação, convocando a discussão de questões que permeiam os indicadores de cobertura vacinal. A escolha pelo ensaio como caminho metodológico se justifica por sua natureza híbrida, situada entre o rigor científico e a reflexão crítica. Como destaca Starobinski 11, o ensaio é um gênero capaz de articular análise teórica e observação empírica de maneira reflexiva, oferecendo uma abordagem aberta, exploratória e interpretativa.
Este ensaio possui natureza qualitativa e é resultado da articulação entre as percepções das ações cotidianas e fontes secundárias, a exemplo dos dados do último accountability da Clínica da Família, em agosto de 2024. Aqui, priorizamos a abordagem qualitativa por seu potencial de captar especificidades e problematizar números 9,10.
Cabe sublinhar que a discussão não se concentra na desagregação de dados ou na correlação entre os indicadores, e sim em uma discussão qualitativa sobre as práticas. Por meio do contato direto com os usuários, surgiram relatos de questões relacionadas à adesão ao esquema vacinal, experiências pessoais com as vacinas, incluindo reações adversas, e as justificativas para a não adesão às doses de reforço. Esses relatos, que não são transcritos, oferecem uma visão aprofundada das motivações e percepções que influenciam as decisões vacinais no contexto local. Esses registros da experiência trazem informações qualitativas sobre a adesão vacinal, facilitando a análise comparativa entre as percepções dos usuários e a realidade observada nos indicadores da Clínica da Família.
Destacamos que todas as ações mencionadas foram aprovadas pelos Comitês de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (pareceres nº 6.806.681 e nº 6.942.469, respectivamente; CAEE 76939724.5.3001.5279). Os aspectos éticos das práticas seguiram as diretrizes éticas das Resolução nº 466/201212 do Conselho Nacional de Saúde, que regula a pesquisa com seres humanos e da Resolução nº 510/201613, também do Conselho Nacional de Saúde, que regula as pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Por último, reconhecemos como limitação do estudo o fato de que as análises qualitativas estão circunscritas a uma Clínica da Família localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Tal recorte territorial não permite generalizações automáticas para outros contextos, embora ofereça pistas relevantes para a reflexão em realidades similares de vulnerabilidade social.
Vacinar-se ou não vacinar-se, eis a questão? Alianças solidárias entre comunicação em saúde e educação popular como pistas para o alcance da cobertura vacinal
A vacinação contra a COVID-19 ainda enfrenta obstáculos devido à hesitação e recusa vacinal, fenômenos complexos e multifatoriais, o que pode incluir desde o adiamento até a recusa em vacinar-se, mesmo quando os imunizantes estão amplamente disponíveis no sistema de saúde 14. Esse fenômeno envolve desde crenças pessoais até a confiança na ciência e nas instituições de saúde 4. A hesitação vacinal afeta a eficácia das campanhas não somente contra a COVID-19, mas em diversas outras doenças, revelando-se um “calcanhar de Aquiles” nos planos de imunização e nas estratégias de saúde pública de um país polarizado também de forma político-partidária 15. Análises de conjuntura apontam o agravamento deste cenário pelo baixo grau de governança da crise sanitária, entrelaçando-se a um cenário de instabilidade política, econômica e institucional 16,17. Além disso, estudos recentes demonstram que a infodemia - a disseminação massiva de desinformação sobre a COVID-19 - tem um papel central no aumento da hesitação vacinal, minando a confiança da população nos imunizantes e nas autoridades sanitárias 3,7.
Elementos práticos contribuíram para ilustrar esta discussão. Ao longo das ações no serviço de saúde, observou-se uma queda expressiva na adesão às doses de reforço, apesar de uma cobertura vacinal satisfatória em relação à primeira e segunda dose dos imunizantes. Essa percepção corrobora com dados do Ministério da Saúde, nos quais afirma-se que até março de 2024, 93,6% da população brasileira havia recebido a primeira dose contra a COVID-19, enquanto apenas 63,4% completaram o esquema com doses de reforço, revelando um declínio expressivo na adesão conforme o avanço do calendário vacinal 18.
Entre os principais motivos relatados pelos usuários estavam as reações adversas e os receios associados. Os relatos envolvem a presença de efeitos colaterais, como febre e dores musculares, que, embora transitórios, geram receios em continuar o esquema vacinal em um contexto de desinfodemia 6. A desconfiança sobre a segurança das vacinas foi outro ponto levantado, associado pelos usuários a notícias circulantes nas redes sociais. Mesmo que as complicações graves fossem raras, o receio foi aspecto contribuinte para completar o esquema vacinal. Outro fator relevante foi a percepção, influenciada por desinformação, de que o ciclo de imunização estaria completo com apenas duas doses, o que resultou em uma menor adesão às doses de reforço. Esse fenômeno, quando analisado de forma mais ampla, representa um desafio significativo para a saúde pública, pois a vacinação incompleta compromete os esforços coletivos de controle de doenças.
A influência das redes sociais no fenômeno da hesitação vacinal vem sendo discutida. Pesquisas apontam que vídeos curtos e conteúdos emocionalmente apelativos têm sido amplamente compartilhados e consumidos, muitas vezes propagando desinformação sobre supostos riscos das vacinas 19,20. Além disso, a politização das vacinas emerge como um fenômeno que permeia o espaço público da saúde no Brasil, gerando debates polarizados sobre sua eficácia e segurança, como foi observado durante a pandemia de COVID-19 15. Identifica-se que a aceitação ou recusa da vacina muitas vezes não se limita a uma avaliação racional da tecnologia incorporada ao SUS, mas é permeada por atravessamentos político-partidários que refletem uma sociedade ainda polarizada após um período de instabilidade institucional 15,19. Dessa forma, discursos negacionistas e desinformação têm comprometido significativamente a adesão à vacinação, reforçando desconfianças e minando a efetividade das campanhas de imunização 20,21.
Ao longo das práticas de saúde, não raro usuários demonstraram desconfiança em relação aos veículos de mídia tradicionais, como a televisão. Comentários como “a Globo mente” foram repetidos, sugerindo uma preferência crescente por fontes de informação alternativas, como portais em redes sociais. Esse ambiente alimenta uma dinâmica de “câmaras de eco”, em que as pessoas são expostas a informações que reforçam suas crenças prévias, contribuindo para a polarização e dificultando o diálogo plural sobre a vacinação 22,23. A compreensão desse fenômeno exige uma análise cuidadosa da influência dos algoritmos das plataformas digitais, que amplificam a desinformação e criam coesão social em torno de narrativas muitas vezes baseadas em fake news24. Em nossas interações com os usuários do serviço de saúde, observamos que essas narrativas ofereciam uma “realidade alternativa”, que atendia às inseguranças e receios dos indivíduos, especialmente em tempos de crise e incerteza.
A participação social e a comunicação em saúde como construções potentes para um futuro possível
Pensar em um futuro possível, com pistas que nos ajudem a produzir ferramentas de reflexão, exige reconhecer que não existe um único caminho para enfrentar problemas como a hesitação vacinal. Soluções estão sendo propostas atualmente no Brasil e no mundo, mas suas implementações necessitam de adequação às realidades locais. A participação social e cidadã, envolvendo usuários, profissionais e gestores da saúde, é uma aposta crucial para fortalecer as ações nos territórios. Neste sentido, a literatura aponta que é fundamental promover espaços de diálogo e comunicação nos territórios, com destaque para as alianças solidárias, que aproveitam o potencial da comunicação em saúde junto às estratégias de educação popular 25. Como já defendido por Cruz et al. 14 e Pinheiro & Lofego 26, práticas dialógicas acontecem de forma territorializada, envolvendo lideranças locais, escuta ativa e produção de sentido compartilhado com os usuários. Quando trazemos essa perspectiva para o enfrentamento da desinformação nas comunidades, abre-se uma possibilidade de (re)construção da confiança nas vacinas ao valorizar os saberes populares e integrar diferentes formas de conhecimento.
Os dados de accountability das instituições de saúde podem ser uma janela de oportunidade para informar dados de transparência sobre os benefícios e riscos das vacinas, essencial para fortalecer a confiança do público. Incluir a comunidade e líderes locais no processo de educação e promoção da vacinação é vital para criar um ambiente de confiança, apoiar a imunização e alcançar as metas de cobertura vacinal. Esses esforços, entendidos enquanto alianças solidárias, não apenas protegem indivíduos e comunidades contra doenças evitáveis, mas também reduzem a sobrecarga nos sistemas de saúde e aumentam sua eficiência 27.
A comunicação entre as instituições de saúde e a população é um fator-chave para aumentar a adesão vacinal. Quando essa comunicação é falha ou ausente, contribui para a disseminação de mitos e receios, especialmente por meio da mídia e das redes sociais, que muitas vezes veiculam informações conflitantes. Campanhas educativas claras e acessíveis, desenvolvidas por órgãos de saúde e adaptadas ao contexto local, são essenciais para restaurar a confiança nas vacinas. Além disso, a responsabilização e regulamentação das plataformas digitais na disseminação de fake news são pautas sublinhadas como outro ponto essencial para enfrentamento da problemática 28.
No âmbito da APS, as Clínicas da Família desempenham um papel central na implementação de estratégias para melhorar a adesão vacinal. Vejamos o exemplo do território de onde parte este ensaio. A Clínica da Família da Zona Oeste na qual esta experiência se situa abrange uma população de abrangência de cerca de 44 mil pessoas. No território predominam moradias improvisadas, com casas e prédios de alvenaria, parcialmente revestidos, em sua maioria alugados. O acesso aos domicílios se dá por becos e vielas, muitas vezes limitados a pedestres. A coleta de lixo é realizada em pontos estratégicos, sem coleta domiciliar regular. Apesar da presença de rede de esgoto e água filtrada na maioria das residências, o território enfrenta graves problemas de infraestrutura, como alagamentos, desabamentos e incêndios ocasionais, exacerbados pelo processo desordenado de urbanização e o fenômeno da “dança das marés”, que agrava os alagamentos devido ao aumento da maré na Lagoa da Tijuca.
Segundo o accountability do serviço, utilizado aqui como fonte secundária de informação, quanto ao perfil da população cadastrada na unidade de saúde local, até o final de 2023, foram registrados 45.320 indivíduos, dos quais 142 (0,31%) utilizam nome social, 857 (1,89%) são beneficiários do Cartão Família Carioca, e 6.197 (13,67%) participam de outros programas de transferência de renda. Há 97 pessoas (0,21%) com deficiência, 183 (0,4%) com problemas de saúde mental diagnosticados, 3.558 (7,8%) hipertensos e 1.312 (2,8%) diabéticos. O território também conta com 40 casos de tuberculose (0,08%) e 4 casos de hanseníase (0,008%). No que se refere à escolarização, 298 crianças entre 7 e 14 anos estão fora da escola (0,65%). A composição racial é diversa, com a maioria se autodeclarando parda (63,55%), seguida de branca (26,79%), preta (6,01%), amarela (3,59%), indígena (0,02%), e 0,03% de cor não informada. No que tange o acesso à informação, a maior parte dos usuários relata se informar pelas redes sociais, e predomina o uso do smartphone como único meio de acesso à internet. A vacinação contra a COVID-19 é outro dado importante, pois indica que há uma baixa adesão vacinal a partir da segunda dose dos imunizantes.
Campanhas educativas focadas no público local, combinadas com diálogos abertos entre profissionais de saúde e usuários, têm o potencial de desmistificar vacinas e superar barreiras à imunização. Abordagens que consideram o histórico médico dos usuários e as dinâmicas sociais do território são fundamentais para uma estratégia eficaz, além das estratégias governamentais adotadas por meio de sites e portais de verificação de fatos 29,30. O enfrentamento da hesitação vacinal demanda estratégias educativas e comunicativas integradas, nas quais o letramento digital, a alfabetização científica e a educação popular em saúde convergem como eixos de apoio 31,32. Essas abordagens não apenas capacitam os indivíduos para uma leitura crítica da informação em saúde, mas também fortalecem os vínculos entre comunidade e SUS, fomentando uma cooperação social baseada na confiança e no diálogo. Nesse contexto, a educação popular em saúde destaca-se como dispositivo transformador, criando espaços dialógicos nos quais profissionais e usuários podem desconstruir coletivamente narrativas falsas e ressignificar saberes 33. Essa perspectiva reconhece o conhecimento popular como legítimo, promovendo uma interlocução horizontal que problematiza tanto a desinformação quanto às assimetrias de poder inerentes ao sistema de saúde.
Além disso, iniciativas que considerem os valores culturais e sociais da população têm se mostrado mais eficazes na promoção da adesão à vacinação, uma vez que a desinformação muitas vezes se sustenta em crenças 34,35. Neste sentido, são criadas condições de possibilidade para alianças de diferentes estratégias de promoção que forneçam às pessoas novas formas de construção de sentido e repertório, alargando o entendimento dos avanços científicos e suas implicações sociais, por meio da familiarização com a linguagem científica e de uma visão crítica do mundo, especialmente quando consideramos que a disseminação de informações incorretas entre usuários muitas vezes ocorre devido à falta de discernimento, e não por má-fé.
Com base nas observações feitas, embora a maioria dos usuários tenha tomado ao menos uma dose da vacina contra a COVID-19, uma parcela significativa não completou o esquema vacinal com as doses de reforço. Esse comportamento reflete uma tendência observada em várias regiões do país, nas quais o entusiasmo inicial foi gradualmente substituído pela hesitação e, em muitos casos, pela recusa persistente à vacinação 1. Dados nacionais e regionais de accountability também refletem essa queda na adesão às doses de reforço, ressaltando a necessidade de estratégias de comunicação mais eficazes e transparentes.
De acordo com Raquel et al. 36, a comunicação reflete interesses diversos e múltiplas vozes, dependendo da posição social de cada indivíduo. Esse fenômeno pode tanto ampliar as diferenças quanto criar oportunidades de negociação. Sob a perspectiva de Habermas, a ação comunicativa busca o entendimento mútuo e a realização de objetivos compartilhados, por meio do diálogo racional 37. Portanto, democratizar a informação não se limita à produção e divulgação de conteúdo online, mas também envolve compreender quais vozes ecoam essas informações e como as mensagens são recebidas e reinterpretada.
Destaca-se a APS como um ponto estratégico para abordar a problemática da desinformação e seus efeitos, como a hesitação vacinal, pois é nos territórios que se tem a maior compreensão das interações entre o meio, o indivíduo, a cultura, a sociedade e a política 38. Fortalecer a participação social é uma maneira de reforçar os princípios do SUS. Em contextos de emergência sanitária, como a pandemia de COVID-19, compreender as dinâmicas sociais locais e os conflitos existentes é essencial para a produção de estratégias culturalmente adequadas às realidades distintas. Essa abordagem é não só compreensiva, mas também pragmática, pois se adapta às necessidades concretas e urgentes de cada território.
Discutir o direito à comunicação enquanto direito à saúde é uma proposta que deve ser explorada para garantir o acesso a informações claras, precisas e acessíveis, de forma que a população possa tomar decisões conscientes sobre sua saúde e bem-estar 26,38. Neste sentido, a garantia ao acesso a informações de qualidade e factíveis com a realidade é um elemento do direito humano à comunicação, entendido aqui a partir de sua relação vicária com o direito humano à saúde 26,38. Sobretudo, tais relações dizem respeito à própria defesa da democracia, para que seja possível garantir o direito à comunicação enquanto direito à saúde em tempos que a desordem comunicacional fomenta hesitação vacinal, movimento antivacina, polarização política, negacionismo e discursos de ódio. É a partir disto que entende-se o direito à comunicação de maneira alargada, enquanto direito humano à saúde, e o cuidado como ação política para a efetivação destes direitos. Em outras palavras, o cuidado como ação política compreende o cuidado como um valor ligado à constituição de sentido de algo que só o ser humano pode realizar 38. Deste modo, conceber o cuidado como valor é defender a tese de que o cuidado configura o ethos humano, do agir em saúde, o cerne das práticas da integralidade de suas ações 38.
É com o pensamento de Hannah Arendt 39 que se acompanha a noção da ação enquanto ação política, uma atividade humana que se realiza na esfera pública na companhia de outras pessoas em um mundo compartilhado. É por meio da ação que os sujeitos criam relações, laços, diálogos e constroem a possibilidade de uma comunidade. Assim, a ação é tomada como base da vida em sociedade. Em suas reflexões sobre política e liberdade, Arendt destaca o importante papel da responsabilidade. Enquanto a liberdade se manifesta na maior ou menor capacidade de agir e escolher, a responsabilidade reside em arcar com as consequências de tais escolha 36. Assim, Bernstein 40 oferece uma atualização sobre a relevância do pensamento de Hannah Arendt na atualidade quando temos na a liberdade de expressão, por exemplo, a necessidade em responsabilizar-se pelas consequências da ação no mundo em que vivemos - um mundo compartilhado que agora precisa, mais do que nunca, de formas eficazes de sustentar a vida e dignidade humana no planeta - o que é facilmente confundido na internet e na manipulação deliberada de informações. No campo da saúde, o direito à comunicação enquanto direito à saúde revela a dimensão concreta da integralidade, entendida aqui como dispositivo portador de valores ético-políticos que, no cuidado à saúde, apresentam sua maior expressão como atividade humana 39,40. É possível inferir que estamos, em última análise, falando sobre a capacidade das pessoas dialogarem e construírem uma comunidade, de objetivarem a construção do bem comum e não de interesses privados de agentes, grupos ou organizações específicas. Em outras palavras, uma (re)construção fundamental para as alianças e pactos coletivos em saúde pública.
Considerações finais
A hesitação vacinal é um fenômeno multifacetado que exige abordagens complexas para ser enfrentado. Este ensaio levou em consideração elementos de análise teórico-práticos que emergiram durante ações extensionistas na APS da cidade do Rio de Janeiro. Neste território tivemos como principais barreiras para a completude do esquema vacinal contra a COVID-19 as reações adversas após as primeiras doses, o medo e a desinformação. A superação destes problemas é complexa, mas podem ser discutidas multiprofissionalmente em estratégias que apostem nas inúmeras alianças possíveis entre comunicação e educação em saúde na APS.
A discussão sobre a hesitação vacinal contra a COVID-19 nos conduz a um cenário complexo, em que a desinformação, o medo e a politização da vacina se entrelaçam com fatores sociais e culturais próprios das dinâmicas dos territórios, criando barreiras para uma ampla cobertura vacinal. Promover espaços para a criação de alianças solidárias entre comunicação em saúde e educação popular se apresenta como uma alternativa promissora para o enfrentamento. No fortalecimento dos vínculos com a população, valorizando seus saberes e validando seus receios, em uma escuta ativa, aponta-se a possibilidade de reduzir o impacto da desinformação. Nesse sentido, é fundamental que as estratégias de comunicação sejam adaptadas às realidades locais, considerando as especificidades de cada território.
Além disso, sublinha-se que a alfabetização científica e digital pode ser uma estratégia importante para capacitar os cidadãos a discernir entre informações confiáveis e falsas e será um próximo passo em nossas práticas. A democratização do acesso ao conhecimento científico não apenas promove autonomia dos indivíduos, mas também diz respeito aos pactos coletivos realizados no tecido social das comunidades, como a redução da transmissão de doenças pela adesão às campanhas de prevenção. Embora as respostas não sejam dadas a priori, e tampouco sejam universais, potentes pistas parecem emergir na articulação entre educação popular e a comunicação em saúde, uma vez que são tecnologias já existentes no SUS.
Pensar o cuidado como uma ação política, nos termos de Arendt, nos lembra que a saúde, enquanto direito humano, deve ser defendida de forma coletiva. A responsabilidade sobre o bem comum da saúde é fundamental para a construção de futuros possíveis. O fortalecimento das políticas de saúde, ancorado em práticas de cuidado que pensem a comunicação, nos parece substancial para a dignidade humana. Por fim, demonstra-se a necessidade de mais estudos que investiguem de forma crítica e qualitativa a hesitação vacinal no cotidiano dos serviços de saúde, a fim de ampliar a compreensão sobre uma problemática que atravessa múltiplos territórios.
Além disso, é fundamental reconhecer o papel central dos profissionais de saúde nas ações cotidianas de educação e comunicação em saúde. São eles que, por meio do contato direto com os usuários, constroem vínculos de confiança, identificam dúvidas e traduzem informações técnicas em linguagens acessíveis. Nesse sentido, a valorização e a capacitação permanente desses trabalhadores são estratégias indispensáveis para o fortalecimento da adesão vacinal. Paralelamente, as políticas públicas de imunização precisam manter-se firmes no compromisso de ampliar a cobertura vacinal, articulando campanhas contínuas e baseadas em evidências científicas. Outro eixo incontornável é a comunicação em ambientes digitais: diante da força das redes sociais na produção e circulação de sentidos, torna-se imperativo que gestores e profissionais de saúde ocupem esses espaços, difundindo informações de qualidade e dialogando com a população de maneira transparente e culturalmente sensível.
Agradecimentos
Pesquisa realizada durante doutoramento de I. M. Oliveira, com financiamento de bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
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