| Vulnerabilidade individual |
1. Conhecimento e informação: há uma lacuna crítica no conhecimento e compreensão sobre o uso correto da profilaxia pós-exposição. A confusão em torno das dosagens, regimes de tratamento e preocupações relativas à resistência bacteriana destacam uma necessidade urgente de educação e orientação específica para o usuário. |
| 2. Comportamento e práticas de saúde: existem pessoas que estão procurando ativamente métodos de prevenção, como a doxiciclina. No entanto, elas estão recorrendo à automedicação e interrompendo tratamentos, o que reflete um conflito entre o medo da infecção e os efeitos adversos. Isso demonstra um dilema, em que na busca por cuidar de si mesmos, incorrem na possibilidade de gerar danos. |
| 3. Consciência de prevenção: reconhece-se a importância da prevenção de ISTs, levando em consideração diversas práticas e comportamentos. Muitos buscam maneiras próprias de gerenciar essas precauções ou integrá-las em seu cotidiano, criando mecanismos para propiciar satisfação pessoal, saúde e bem-estar. |
| Interseccionalidade |
O nível elevado de escolaridade apresenta-se em expressividade. Contudo, pode não implicar em bom grau de Letramento em Saúde sexual, no uso de medicamentos profiláticos e no automanejo da saúde-doença; o bom nível socioeconômico pode oportunizar o acesso os HSH pesquisados à rede de medicamentos, mas segue atravessado de comportamentos de saúde propenso a risco, o qual pode ser decorrente da desinformação, cultura midiática, apelo da indústria farmacêutica, clandestinidade, traços de personalidade; o aprendizado acerca da prevenção pode ter influência do perfil socioeconômico, localização geográfica/território e incorporação tecnológica ao cotidiano, mas pode ofuscar a desorientação e a autogestão eficaz do controle e da manutenção da saúde sexual. |
| Vulnerabilidade social |
1. Estigma e normas sociais: o estigma associado às ISTs e à sexualidade, particularmente dentro da própria comunidade LGBT+, pode ter um impacto prejudicial nas práticas de prevenção e tratamento. Isso pode levar a abordagens discretas ou não convencionais na tentativa de evitar julgamento ou discriminação, destacando a necessidade de ambientes mais acolhedores e inclusivos. |
| 2. Acesso e disponibilidade: existe uma lacuna significativa entre a identificação de novos tratamentos e sua efetiva incorporação às políticas públicas de saúde. Devido a essa defasagem, as pessoas buscam acesso antecipado a medicamentos por conta própria. Desde 2020, a doxiciclina vem sendo relatada nos depoimentos, como usada na profilaxia pós-exposição de forma independente. Mas, em quase quatro anos, pouco foi feito para incorporar essa abordagem às estratégias de saúde pública do Brasil. A falta de acesso à doxiciclina, causada por restrições na prescrição ou barreiras sociais, destaca a necessidade de tornar medicamentos e serviços de saúde mais acessíveis e entendidos, especialmente para populações vulneráveis. |
| 3. Mídias sociais e comunicação: o papel das redes de pares na disseminação de informações, sejam elas precisas ou não, sobre a profilaxia pós-exposição destaca a influência significativa do contexto social nas decisões relacionadas à saúde, sublinhando a necessidade de estratégias eficazes de comunicação comunitária. |
| Interseccionalidade |
A estigamtização e normatização social estrutural provoca um “angarrajamento” de fenômenos que se entrecruzam e produzem repercussões deletérias para a autopercepção de saúde, adoção de comportamentos seguros e conscientes, mediante ao suporte da rede de apoio institucional de saúde, que ainda se mostra ausente, punitiva e discriminatória para com as demandas apresentadas pelos usuários, o que faz das redes sociais digitais o espaço de compartilhamento das experiências entre os pares, criando novos caminhos e itinerários terapêuticos, os quais podem ser permeados por rotas críticas e iniquidades em saúde, especialmente, quando marcada pelo quesito raça/cor/etnia, classe social, idade/geração, religiosidade e gênero/sexualidade. |
| Vulnerabilidade programática/institucional |
1. Políticas de saúde e práticas institucionais: a falta de diretrizes oficiais claras e protocolos específicos quanto ao uso da doxiciclina como PEP destaca uma lacuna nos programas de saúde pública, possibilitando práticas inconsistentes e potencialmente perigosas, e assim ressaltando a necessidade de diretrizes políticas bem definidas e baseadas em evidências. |
| 2. Resistência bacteriana: a preocupação com o desenvolvimento de resistência bacteriana sublinha a necessidade de abordagens mais sustentáveis e cientificamente informadas ao uso de antibióticos, bem como a importância do monitoramento contínuo e da pesquisa para orientar práticas seguras e eficazes. |
| 3. Relacionamento com profissionais de saúde: a variabilidade nas interações com profissionais de saúde, que variam de diálogos francos a estratégias de manipulação para obter prescrições, reflete as complexidades na relação paciente-fornecedor. Esta situação enfatiza a necessidade de comunicação clara, ética profissional e orientação explícita, fomentando uma relação de confiança e abertura entre pacientes e profissionais de saúde. |
| Interseccionalidade |
Os sistemas de crenças e valores, atrelados aos marcadores sociais dos profissionais de saúde, bem como refletidos nas diretrizes das políticas públicas de saúde instituídas no Brasil, podem incidir no modo com a produção do cuidado, a assistência à saúde e a gestão dos serviços e a implementação das políticas públicas vão dar conta ou não de atender as demandas, necessidades e especificidades singulares dos HSH no contexto do emprego da Doxi-PEP, sob uma perspectiva interseccional que faça parte do cotidiano das práticas profissionais e dos serviços de saúde disponíveis na rede. |