A retomada do nacional-desenvolvimentisto está na ordem do dia no Brasil por meio da agenda do Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS) e da defesa de uma pauta industrialista abrangente no terceiro governo Lula1. É muito comum que os liberais brasileiros, na academia, mídia social e imprensa tradicional, creditem a retomada contemporânea da agenda nacional-desenvolvimentista exclusivamente a pensadores latino-americanos, como forma de destituí-la e vetá-la. O livro The Nationalist Dilemma: A Global History of Economic Nationalism, 1776 - Present2 ajuda a pulverizar o argumento liberal ao demonstrar que o ideário da ampla intervenção política na macroeconomia é patrimônio intelectual das nações que estão vencendo a globalização em curso ou buscando freá-la.
As ideias do autor ajudam efetivamente a argumentar em defesa do desenvolvimento da capacidade tecnológica nacional autônoma no campo da saúde, ao apresentar a surpreendente trajetória do pensamento econômico de orientação nacionalista em uma ampla amostra de regimes políticos e países: desde os fundadores do pacto federativos dos Estados Unidos até a pauta reacionária do American first ou o esforço pela hegemonia tecnológica da China dos dias atuais. Não ficam de fora as experiências históricas do nacionalismo econômico na França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Japão, Argentina, Bolívia e Brasil.
O caso do Leste Asiático é detalhadamente revisitado, assim como é destacado o pensamento econômico que emergiu na luta anticolonial africana, com foco nas ideias de Kwame Nkrumah em Gana e Julius Nyerere na Tanzânia. Não deixa também de ser interessante a contextualização da emergência das ideias de Friedrich List e a chocante demonstração dos vínculos de Max Weber ao discurso social-darwinista e ao chauvinismo racista alemão de fins do século XIX e início do século XX. Por fim, as páginas sobre a questão nacional na finada União Soviética são extremamente esclarecedoras e ajudam o leitor a compreender, por exemplo, o conflito atual entre Rússia e Ucrânia.
Suesse defende no livro que existem pontos comuns na forma como os nacionalistas veem a economia. Na versão mais radical, o nacionalismo econômico é a expressão, no plano político, da ideia de que economia e nação devem ser absolutamente convergentes. Nesse sentido, esse nacionalismo advoga o desenvolvimento da economia doméstica independente da esfera global, com o comércio e o investimento controlados por compatriotas, restrição ao contato com estrangeiros, privilégio da propriedade de bens e do emprego por concidadãos e exclusão deliberada de não-nacionais de funções públicas. Em outras palavras, segundo Suesse, o privilégio do intercâmbio dentro da nação, e não fora dela, é objetivo da agenda isolacionista do nacionalismo econômico.
Desse modo, os intelectuais nacionalistas atacam a teoria econômica liberal clássica que advoga a globalização das economias domésticas por privatizações de empresas estatais, abertura unilateral do mercado interno, livre fluxo de capitais e destruição dos direitos trabalhistas. De resto, os pensadores do nacionalismo econômico são comumente vistos pelos liberais como antagonistas da globalização.
Suesse mostra que as ideias sobre o desenvolvimento nacional foram efetivas na consolidação de coalizões de interesse, articulando de forma exitosa as demandas domésticas no contexto da globalização. Para ele, o dilema que acompanha a pauta isolacionista é originado pela adoção adicional, por parte de seus formuladores, da agenda da “modernização” da nação. Em alguns casos o sucesso do projeto modernizante permitiu que muitas nações alcançassem padrões tecnológicos e comerciais idênticos aos dos países ocidentais pioneiros da Revolução Industrial. O sucesso desse catch-up foi possível por alianças com os países hegemônicos no cenário da globalização e políticas agressivas de substituição de importação, inovação tecnológica e exportação. Nesse contexto, Suesse denomina como “dilema nacionalista” a tentativa das elites domésticas de conciliar o isolacionismo com os objetivos expansionistas não só do poder comercial, mas também político e militar.
Com base nas evidências do The Nationalist Dilemma, Rodrik afirma que ninguém pode negar o sucesso dos Estados desenvolvimentistas do Leste da Ásia: Japão, Coreia do Sul, Taiwan e China, que encorajaram a integração econômica global e protegeram seletivamente setores essenciais, ainda que tenham falhado na construção do Estado de bem-estar social. Para ele, o nacionalismo econômico do leste da Ásia foi uma benção para o resto do mundo. Mesmo com barreiras comerciais aqui e ali, os mercados aquecidos que ele criou para os parceiros comerciais foram muito maiores do que qualquer outra estratégia econômica alternativa teria produzido3.
São muitas as referências de Suesse à difusão das ideias nacional- desenvolvimentistas no Brasil, com especial destaque para o resgate da influência decisiva do formulador do modelo de Estado autoritário Mihail Manoilescu nos anos 1920 e 1930. O autor destaca que após 1945, entretanto, o nacional-desenvolvimentismo brasileiro se distanciou do legado autoritário inspirado em Manoilescu e buscou sustentação da sua agenda pela mobilização dos trabalhadores e da burguesia industrialista. Suesse também atribui a resiliência das ideias nacional-desenvolvimentistas na América Latina pós-Segunda Guerra Mundial à permanência em escala ampliada da agenda desenvolvimentista do segundo governo Vargas. Esse é um ponto que também foi abordado em um extraordinário artigo de 2015 de Wilson Cano4. Ainda assim, o leitor informado sobre a produção intelectual acerca do pensamento econômico no Brasil estranhará a pobreza das referências à importante literatura nacional sobre o desenvolvimentismo, que exerce, atualmente, notável influência na agenda setorial do CEIS. No livro, o trabalho monumental de Celso Furtado recebe apenas uma menção residual. O lançamento, em 2023, da coletânea A History of Brazilian Economic Thought, organizada por Bielschowsky, Boianovsky e Coutinho5, certamente ajudará no reconhecimento da produção intelectual doméstica em futura reedição do livro de Suesse.
De qualquer modo, The Nationalist Dilemma é uma obra de recomendação segura para a leitura no campo da saúde coletiva. Constitui um texto obrigatório para a compreensão da complexidade intelectual e política que é a construção de um projeto de desenvolvimento para uma nação. É possível concluir, pela leitura da obra de Suesse, que a agenda do desenvolvimento nacional, especialmente na esfera da economia do conhecimento e inovação, é uma variável determinante de qualquer possibilidade de resiliência do sistema de saúde com base em política industrial ativa, como advoga a pauta estratégica do CEIS.
Referências
- 1 Costa NR, Gon RK. Saúde é desenvolvimento: o Complexo Econômico-Industrial da Saúde como opção estratégica nacional. Saude Debate 2024; 48(140):e9027.
- 2 Suesse M. The Nationalist Dilemma: A Global History of Economic Nationalism, 1776-Present. London: Cambridge University Press; 2023.
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3 Rodrik D. Nacionalismo de maneira certa [Internet]. 2023 [acessado 2024 abr 9]. Disponível em: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/nacionalismo-da-maneira-certa.ghtml
» https://valor.globo.com/opiniao/coluna/nacionalismo-da-maneira-certa.ghtml - 4 Cano W. Crise e industrialização no Brasil entre 1929 e 1954: a reconstrução do Estado Nacional e a política nacional de desenvolvimento. Rev Econ Polit 2015; 35(2):444-460
- 5 Bielschowsky R, Boianovsky M, Coutinho MC. A History of Brazilian Economic Thought. London: Routledge; 2023.


