O objetivo do estudo foi analisar as desigualdades raciais presentes nas narrativas de pessoas cujos familiares morreram por COVID-19 no Brasil. Trata-se de um trabalho de abordagem qualitativa e está inserido na perspectiva do construcionismo social. Narrativas sobre adoecimento e morte foram produzidas por meio de entrevistas em profundidade com 35 sujeitos. Os dados foram coletados em 25 municípios de sete estados brasileiros, interpretados através da análise de conteúdo e discutidos com base no aporte teórico proposto por Judith Butler. As narrativas apontam que pessoas negras que foram a óbito pela COVID-19 enfrentaram dificuldades no acesso aos serviços de saúde, foram cuidadas no SUS, não dispuseram de tratamento domiciliar, sofreram restrição de informações sobre o estado de saúde e a família vivenciou problemas financeiros após o óbito. Entre aquelas de cor da pele branca, houve negligência e práticas negacionistas, assistência prestada pela iniciativa privada, com tecnologias médicas avançadas e inexistência de impacto financeiro na família. Pessoas que morreram constituíram-se como “vidas precárias” no contexto da pandemia, e a população negra foi marcada por vulnerabilidades e desigualdades raciais, evidenciando a necessidade de abordagens antirracistas nas práticas de saúde.
Palavras-chave:
COVID-19; Pandemia; Grupos raciais; Morte