Open-access Barreiras para a participação em programas públicos de atividade física: comparação entre o Brasil e a região Nordeste, Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 2019

Barriers to participation in public physical activity programs: comparison between Brazil and the Northeast region, National Health Survey (NHS), 2019

Barreras para la participación en programas públicos de actividad física: una comparación entre Brasil y la región Nordeste, Encuesta Nacional de Salud (PNS), 2019

Resumo

O objetivo do estudo é estimar as prevalências das principais barreiras para a participação em programas públicos de atividade física (PAF) segundo características sociodemográficas em residentes do Brasil e da região Nordeste. Estudo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2019), com indivíduos de 18 anos ou mais que referiram conhecer e não participar dos PAF. As variáveis dependentes foram as principais barreiras para a participação, sendo analisadas de acordo com variáveis sociodemográficas e estratificadas pelo Brasil (BR) e região Nordeste (NE). As barreiras mais frequentes foram falta de interesse (42,2% BR e 45,1% NE), horário de funcionamento (32,8% BR e 30,6% NE), distância do domicílio (11,2% BR e 11,8% NE) e problemas de saúde (8,1% BR e 8,4% NE). Características sociodemográficas como sexo, idade, estado civil, possuir trabalho remunerado e renda familiar apresentaram diferenças estatísticas em uma ou mais barreiras estudadas. As prevalências das barreiras para não participação em PAF foram elevadas e variou segundo as características sociodemográficas. Estratégias de enfrentamento das barreiras devem ser direcionadas aos grupos prioritários para garantir maior adesão aos PAF.

Palavras-chave:
Atividade física; Promoção da saúde; Política pública; Barreiras; Estudos epidemiológicos

Abstract

The scope of this study is to estimate the prevalence of the main barriers to participation in public physical activity (PPA) programs, according to sociodemographic characteristics among residents of Brazil and of the Northeast region. The study used data from the 2019 National Health Survey, individuals aged 18 or older who reported being aware and not participating in PPA programs. The dependent variables were the main barriers to participation, analyzed according to sociodemographic variables and stratified by Brazil (BR) and the Northeast region (NE). The most frequent barriers were lack of interest (42.2% in BR and 45.1% in NE), opening hours (32.8% BR and 30.6% in NE), distance from home (11.2% BR and 11.8% in NE) and health problems (8.1% BR and 8.4% in NE). Sociodemographic characteristics such as sex, age, marital status, having paid employment, and family income showed statistically significant differences for one or more of the barriers analyzed. The conclusion drawn is that the prevalence of barriers to non-participation in PPA programs was high and varied according to sociodemographic characteristics. Strategies to address these barriers should be targeted at priority groups to ensure greater adherence to PPA programs.

Key words:
Physical activity; Health promotion; Public policy; Barriers; Epidemiological studies

Resumen

El objetivo de este estudio es estimar la prevalencia de las principales barreras para la participación en programas públicos de actividad física (PPAF), según características sociodemográficas, en residentes de Brasil y la región Nordeste. Estudio con datos de la Encuesta Nacional de Salud (2019), en personas de 18 años o más que declararon conocer los PPAF pero no participar en ellos. Las variables dependientes fueron las principales barreras para la participación, analizadas según variables sociodemográficas y estratificadas por Brasil (BR) y la región Nordeste (NE). Las barreras más frecuentes fueron la falta de interés (42,2 % BR y 45,1 % NE), los horarios de funcionamiento (32,8 % BR y 30,6 % NE), la distancia al domicilio (11,2 % BR y 11,8 % NE) y los problemas de salud (8,1 % BR y 8,4 % NE). Las características sociodemográficas como sexo, edad, estado civil, empleo remunerado e ingresos familiares mostraron diferencias estadísticamente significativas en una o más de las barreras estudiadas. La prevalencia de barreras para la no participación en programas de actividad física fue alta y varió según las características sociodemográficas. Las estrategias para abordar estas barreras deben dirigirse a los grupos prioritarios para garantizar una mayor adherencia a los programas de actividad física.

Palabras clave:
Actividad física; Promoción de la salud; Políticas públicas; Barreras; Estudios epidemiológicos

Introdução

Os programas públicos de atividade física (AF) são estratégias de enfrentamento ao cenário global de inatividade física que acomete as populações e as consequências dela advindas. Em relação ao contexto brasileiro, evidências apontam que esses programas impactam positivamente nos indicadores da saúde¹. Pesquisa realizada no estado de Pernambuco², mostrou que nos municípios onde existia o Programa Academia da Saúde (PAS) foi observada redução de 12,8% na taxa de mortalidade por hipertensão arterial, quando comparados aos municípios que não implantaram o mesmo programa.

Outros programas públicos de AF que podem ser destacados como experiências exitosas nos municípios brasileiros diante de seus resultados são: o Programa Academia da Cidade (PAC), o Programa CuritibAtiva, o Programa Agita São Paulo, o Serviço de Orientação ao Exercício (SOE), o Programa Saúde Ativa, o Saúde Floripa Educar, Conscientizar e Praticar, entre outros. E a partir da institucionalização do PAS, puderam ser cadastrados como polos similares e assim receber o custeio do Ministério da Saúde para sua manutenção3,4.

Além disso, a oferta gratuita de práticas corporais e atividades físicas para a população brasileira ocorre também através de outros programas e estratégias, como as equipes multiprofissionais5, as Academias ao Ar Livre6, o Programa Esporte e Lazer na Cidade7 e, em 2022, a criação de um incentivo federal para o custeio das ações de atividade física na atenção primária à saúde8.

Apesar do cenário de aumento das ações de promoção das práticas corporais e atividades físicas8 e da prevalência de atividade física de lazer no Brasil no período de 2009 a 2023, mais da metade dos adultos brasileiros não atingiu a recomendação mínima de prática de atividade física9. A não realização de atividade física é marcada por iniquidades sociais e mais frequente em grupos específicos10-13. Nesse contexto, é necessário reconhecer que há barreiras de acesso a tais práticas14,15 e também aos programas públicos de AF16-18, e que é importante conhecer o perfil da população acometida por essas barreiras, com o objetivo de minimizá-las.

Dessa forma, este estudo tem como objetivo estimar a prevalência das principais barreiras para a participação em programas públicos de AF segundo características sociodemográficas em residentes no Brasil e na região Nordeste, a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019.

Métodos

Estudo conduzido a partir da análise de dados secundários oriundos da PNS de 2019. A população-alvo da PNS (2019) foram indivíduos residentes em domicílios particulares permanentes em todas as regiões do Brasil (residências com a finalidade exclusiva de habitação)19. Os dados da PNS são de domínio público e foram acessados pelo site do IBGE (https://ibge.gov.br).

A amostragem foi realizada por conglomerados, em três estágios: 1) setores censitários; 2) os domicílios dentro de cada setor; e 3) morador com idade de 15 anos ou mais, selecionado aleatoriamente, sendo convidado a responder a um questionário sobre características gerais do domicílio, dos outros moradores e individuais19. No total, 94.114 domicílios foram visitados, 90.846 moradores selecionados participaram da entrevista e 88.531 tinham 18 anos ou mais de idade.

Para este estudo foram considerados os indivíduos de 18 anos ou mais que responderam conhecer mas não participar dos programas públicos de AF no Brasil (n = 17.652) e na região Nordeste (n = 6.197).

As entrevistas da PNS 2019 foram conduzidas entre os meses de agosto de 2019 e março de 2020. Mais informações estão disponíveis na página da internet do IBGE (https://ibge.gov.br) e na página de internet da PNS (https://www.pns.icict.fiocruz.br/).

Variáveis

As variáveis dependentes do estudo foram as principais barreiras para a participação em programas públicos de AF, obtidas pela seguinte pergunta: “Qual o principal motivo de não participar?”, com as opções de resposta: não é perto do meu domicílio; o horário de funcionamento do programa é incompatível com minhas atividades de trabalho ou domésticas; não tem interesse nas atividades oferecidas; o espaço não é seguro/iluminado; problemas de saúde ou incapacidade física; outro. As opções de respostas foram recodificadas em novas variáveis binárias (sim ou não).

As variáveis independentes incluíram as seguintes características sociodemográficas: sexo (masculino, feminino); faixa etária (18-34 anos, 35-59 anos e 60 anos ou mais); raça/cor (branca, não branca - incluídas todas as outra categorias de cor); estado civil (solteiro, casado, divorciado/desquitado/separado e viúvo); escolaridade (sem instrução, fundamental incompleto/completo, médio incompleto/completo, superior incompleto/completo) e trabalho remunerado (não e sim); e a variável do domicílio, renda familiar per capita (até ½ salário mínimo, mais de ½ até 1 salário mínimo, mais de 1 até 2 salários mínimos e mais de 2 salários mínimos).

Análise dos dados

As análises dos dados foram feitas no pacote estatístico Stata, versão 15.0, sendo utilizado o comando “survey”, a fim de considerar pesos amostrais e o desenho complexo da amostra. Adotou-se nível de significância de 5%.

Foi realizada a análise descritiva por meio de frequências relativas com intervalo de confiança de 95% (IC95%). A comparação entre os recortes geográficos (Brasil e Nordeste) foi feita a partir da análise da sobreposição dos seus respectivos intervalos de confiança. Conduziu-se o teste qui-quadrado de Pearson para analisar a associação entre as variáveis sociodemográficas e do domicílio e as barreiras mais prevalentes para a participação nos programas públicos de AF (falta de interesse nas atividades oferecidas; distância do domicílio; horário de funcionamento do programa; problemas de saúde ou incapacidade física), com estratificação para Brasil e Nordeste.

Aspectos éticos

Todos os participantes foram consultados e aceitaram integrar a pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido. A Pesquisa Nacional de Saúde 2019 foi aprovada em 23 de agosto de 2019 pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP)/Conselho Nacional de Saúde (CNS), Parecer nº 3.529.376.

Resultados

Do total de entrevistados que referiram conhecer e não participar de nenhum programa público de AF, sendo 17.652 do Brasil (BR) e 6.197 do Nordeste (NE); o maior percentual observado foi de indivíduos do sexo feminino (59,3% BR; 61,3% NE), faixa etária entre 35 a 59 anos (50,4 BR; 50,8% NE), solteiros (37,2% BR; 46,9% NE) ou casados (48,1% BR; 40,6% NE), nível de escolaridade médio incompleto/completo (37,6% BR; 38,8% NE) e entre aqueles que referiram ter trabalho remunerado (59,2% BR; 55,2% NE); não foi observada diferença significativa ao comparar essas proporções entre Brasil e Nordeste. Entretanto, para as variáveis raça/cor e a renda familiar per capita foi observada uma maior frequência de não brancos (55,4% BR; 74,5% NE) e renda familiar per capita de até ½ salário mínimo (17,6% BR; 33,7% NE) na região Nordeste, em comparação com o Brasil (dados não mostrados em tabela).

As principais barreiras para a participação em programas públicos de AF foram falta de interesse nas atividades oferecidas (42,2% BR; 45,1% NE), horário de funcionamento do programa (32,8% BR; 30,6% NE), distância do domicílio (11,2% BR; 11,8% NE), problemas de saúde ou incapacidade física (8,1% BR; 8,4% NE). Em menor frequência, as barreiras de segurança (1,0% BR; 1,2% NE) e outras (4,7% BR; 2,9% NE) (Figura 1).

Figura 1
Principais barreiras para a participação em programas públicos de atividade física no Brasil e região Nordeste. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil 2019.

Quanto à barreira de falta de interesse nas atividades para a participação em programas públicos de AF, as maiores prevalências, tanto no Brasil quanto no Nordeste, foram observadas em indivíduos do sexo masculino, aqueles com idade de 18 a 34 anos (45,1% BR; 49,0% NE), 60 anos ou mais (46,5% BR; 46,9% NE), sem companheiro (viúvos: 47,2% BR; 47,0% NE; solteiros: 44,2% BR; 47,7% NE) e que não tinham trabalho remunerado. No Brasil, observou-se maior prevalência da barreira de falta de interesse entre aqueles com renda familiar per capita de mais de 2 salários mínimos, e na região Nordeste, entre os indivíduos que se autodeclararam brancos. Não foi observada associação segundo os níveis de escolaridade (Tabela 1).

Tabela 1
Prevalência da barreira “falta de interesse nas atividades oferecidas” para a participação em programas públicos de atividade física segundo variáveis sociodemográficas e do domicílio no Brasil e região Nordeste. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil 2019.

A barreira de horário de funcionamento dos programas públicos de atividade física foi mais prevalente em ambas as localidades estudadas entre indivíduos de 35 a 59 anos (37,2% BR; 34,1% NE), casados, divorciados/desquitados/separados, com maior escolaridade (39,5% BR; 40,2% NE), com maior renda familiar per capita e que tinham trabalho remunerado. Não foi observada diferença significativa segundo sexo e raça/cor (Tabela 2).

Tabela 2
Prevalência da barreira “horário de funcionamento” para a participação em programas públicos de atividade física segundo variáveis sociodemográficas e do domicílio no Brasil e região Nordeste. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil 2019.

A barreira de distância do domicílio para Brasil e Nordeste foi mais referida pelo sexo feminino (12,7% BR; 13,4% NE), por aqueles com nenhuma ou baixa escolaridade, entre o grupo de menor renda familiar per capita (14,4% BR; 13,9% NE) e entre os que não tinham trabalho remunerado. Não foi observada diferença significativa segundo faixa etária, raça/cor e estado civil (Tabela 3).

Tabela 3
Prevalência da barreira “distância do domicílio” para a participação em programas públicos de atividade física segundo variáveis sociodemográficas e do domicílio no Brasil e região Nordeste. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil 2019.

A barreira de problemas de saúde ou incapacidade física, para Brasil e Nordeste, foi mais prevalente no sexo feminino (9,3% BR; 10,2% NE), entre os idosos, os viúvos (17,1% BR; 16,6% NE), sem instrução (23,6% BR; 21,3% NE) e os que não tinham trabalho remunerado. Apenas para o Brasil a barreira de problemas de saúde ou incapacidade física foi mais referida por indivíduos com renda per capita de mais de 1 até 2 salários mínimos. Não foi observada diferença significativa segundo raça/cor (Tabela 4).

Tabela 4
Prevalência da barreira “problemas de saúde ou incapacidade física” para a participação em programas públicos de atividade física segundo variáveis sociodemográficas e do domicílio no Brasil e região Nordeste. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil 2019.

Discussão

O presente estudo evidenciou que as barreiras mais referidas pelos residentes no Brasil e na região Nordeste foram a falta de interesse pelas atividades ofertadas, o horário de funcionamento dos programas, a distância do domicílio dos entrevistados e problemas de saúde ou incapacidade física, e se distribuem de forma desigual segundo as características sociodemográficas.

Estudos que analisaram os dados da PNS de 2013 mostraram que na população adulta as principais barreiras para não praticar atividade física nos programas públicos de AF foram falta de tempo, falta de interesse pelas atividades físicas oferecidas e distância até o local16, enquanto entre os idosos foram a falta de interesse, falta de tempo e problemas de saúde18. Tais achados demonstram que, após seis anos, as mesmas barreiras se mantiveram entre as mais frequentes, indicando a necessidade de reavaliações regulares e de que sejam planejadas e implementadas estratégias para minimizar seus efeitos.

Nossos resultados reforçam a importância dos inquéritos populacionais brasileiros para conhecer a distribuição, a magnitude e a tendência das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e de seus fatores de risco e proteção. A vigilância desses fatores é um componente fundamental para monitorar as mudanças em comportamentos de saúde e seus fatores de risco, além da avaliação da capacidade de respostas dos sistemas de saúde por meio de políticas ou planos, provisão de infraestrutura, recursos humanos e acesso a serviços de saúde20.

A barreira da falta de interesse, para Brasil e Nordeste, foi mais referida pelo sexo masculino, por indivíduos de 18 a 34 anos e 60 anos ou mais, sem companheiro e entre aqueles que não tinham trabalho remunerado. Sabe-se que a maioria dos programas públicos de estímulo à prática de atividade física prioriza a oferta de atividades como caminhada, ginástica e alongamento, conforme demonstrado em estudos anteriores3,17. Essas atividades podem ser menos atrativas para homens, o que justificaria a falta de interesse deles em participar desses programas, como observado no presente estudo e em outras pesquisas17,18. Em se tratando da faixa etária, os resultados observados corroboram as evidências científicas18,21-23, e mesmo sendo uma característica desses programas propor atividades para o público idoso, parece que, para muitos, as atividades ofertadas ainda não são atrativas. Esse contexto permite duas reflexões importantes: 1) a necessidade de se diversificar as atividades físicas desenvolvidas nesses programas, levando em consideração o contexto individual, social e cultural de cada localidade; 2) a demanda de outras investigações diante das divergências percebidas acerca da associação analisada.

Adicionalmente, a barreira de falta de interesse foi mais prevalente entre os indivíduos de maior renda per capita para o Brasil e que se autodeclararam brancos para a região Nordeste. Alguns estudos mostraram menor participação nos programas públicos de AF entre aqueles com maior nível socioeconômico, o que poderia estar relacionado ao maior acesso e maior escolha por locais privados para a prática de atividade física9,18,24,25.

A barreira de horário de funcionamento, em ambos os recortes geográficos, foi mais frequente entre indivíduos em idade economicamente ativa, com maiores níveis de instrução e renda. O horário de funcionamento dos programas que estimulam a prática de AF, na maioria das vezes, está associado ao funcionamento dos demais serviços de saúde25,26, que coincidem com outras atividades diárias (estudo, atividades rotineiras ou laborais) e, consequentemente, restringem a participação desse subgrupo populacional. Com relação a esse aspecto, sugere-se que, durante o processo de implementação desses programas, sejam levadas em consideração tais limitações e que ocorra a flexibilização na oferta de dias e horários. Estudos destacam que, em alguns programas, como o Programa Academia da Saúde, foram incluídos horários noturnos e/ou integrais para a ampliação do acesso a outros subgrupos populacionais24,27.

Em relação à barreira de distância do domicílio, destaca-se que foi observada semelhança quanto os fatores analisados nos dois recortes, sendo mais relatada por mulheres, entre aqueles com menor escolaridade, indivíduos com menor renda per capita e que referiram não ter trabalho remunerado. Estudo com dados da PNS 2019 mostrou que a presença de instalações públicas de AF próximas ao domicílio foi mais relatada pelos indivíduos nos quintis mais elevados de renda e escolaridade, enquanto a participação em programas de AF foi semelhante segundo os quintis de renda e escolaridade28. Existe um consenso de que os espaços públicos destinados à prática de AF e/ou programas públicos de AF próximos às residências são facilitadores para aumentar os níveis de AF19-31. Entretanto, existem desigualdades na presença de instalações de AF em áreas de menor renda e regiões desfavorecidas do Brasil, sendo, portanto, necessário considerar esses aspectos na implementação de estratégias setoriais e intersetoriais para a promoção da atividade física32,33.

A barreira de problemas de saúde ou incapacidade física foi mais frequente entre indivíduos de 60 anos ou mais, aqueles do sexo feminino, os sem instrução e que não tinham trabalho remunerado. Estudo que avaliou usuários de programas para promoção de AF na atenção básica à saúde em Pernambuco mostrou que aqueles com idade de 60 anos ou mais relataram “a condição atual de saúde” como principal barreira percebida17. Estudo de revisão de escopo, abrangendo artigos disponíveis até dezembro de 2020, identificou que a barreira intrapessoal “doença, dor ou lesão” foi reportada em 10 dos 13 artigos originais avaliados22. Essa barreira está relacionada a aspectos biológicos, como a maior presença de doenças crônicas não transmissíveis, especialmente em mulheres, nos de idade avançada e entre aqueles com pior percepção de saúde e menor renda18,21,22.

Além disso, estudo qualitativo realizado por meio de entrevistas com participantes de grupos de dor crônica ofertados por Unidades Básicas de Saúde de Florianópolis identificou como barreiras a exacerbação da dor e o medo de lesão ou piora dos sintomas. O medo de agravar a situação, associado às crenças de inaptidão para exercícios físicos em decorrência de sua condição de saúde pode reduzir ou impedir a prática de exercícios físicos34. Esse fato reforça a importância de uma maior sensibilização dos demais profissionais da assistência com relação a aconselhar esses grupos a buscarem atividades físicas que garantam uma melhor saúde, e ainda que as intervenções promovidas atendam às especificidades de suas condições de saúde, a fim de melhorar a qualidade de vida dessa população22,25.

A prática regular de atividade física é importante na promoção da saúde, entretanto, é marcada por iniquidades sociais, com alguns grupos populacionais se envolvendo menos, como aqueles de raça/cor da pele preta, do sexo feminino, de menor renda per capita e nível de escolaridade10-13. Segundo o documento do Ministério de Saúde sobre promoção da saúde e vigilância de doenças e agravos não transmissíveis integradas, a atuação nos determinantes sociais para a atividade física devem considerar a implementação de políticas de educação e de conscientização, com campanhas de mídia, combinadas com programas educacionais, motivacionais e ambientais destinados a apoiar mudança de níveis de atividade física; o aconselhamento sobre benefícios de atividades físicas na atenção primária à saúde; medidas de mobilidade urbana e acessibilidade, com a melhoria da estrutura física das calçadas e acesso aos transportes públicos; espaços públicos abertos, de qualidade e com infraestrutura adequada, para apoiar caminhadas e ciclismo; implementação de programas de promoção da atividade física20.

A presente pesquisa apresenta como ponto forte identificar quais fatores sociodemográficos estão associados às principais barreiras para a participação nos programas públicos de AF, a partir de uma amostra representativa do Brasil e da região Nordeste do país. Algumas limitações do estudo devem ser consideradas, como o fato de que as perguntas do questionário sobre o conhecimento e a participação em programas públicos de promoção da AF não permitiram identificar o tipo, a população de abrangência e a esfera de gestão. A especificidade de cada programa pode interferir na adesão dos participantes e nas barreiras relatadas, principalmente pela estrutura de implementação do programa e suas características9.

Os resultados apresentados pelo presente estudo demonstraram que a participação nos programa públicos de AF pela população brasileira foi limitada por importantes barreiras, sendo as mais prevalentes a falta de interesse, o horário de funcionamento, a distância do domicílio e problemas de saúde/incapacidade física. Nos recortes analisados referentes ao Brasil e à região Nordeste, evidenciou-se que uma ou mais barreiras apresentaram diferenças estatísticas conforme as características sociodemográficas, como sexo, idade, estado civil, ter trabalho remunerado e renda familiar.

Considerar o contexto da população ao qual o programa se destina é de suma importância para sua efetividade. Diversificar as atividades promovidas, flexibilizar dias, turnos e horários de funcionamento, aumentar a oferta e o acesso a esses programas e garantir atividades planejadas de acordo com peculiaridades de cada público, respeitando características biológicas, de crenças e culturais, seriam potenciais estratégias. Além disso, é necessário monitorar continuamente os indicadores de atividade física de diferentes populações e as desigualdades sociais, de maneira a subsidiar intervenções com foco na atuação nos determinantes sociais da saúde para promover modos de vida saudáveis.

Diante do exposto, esses achados podem colaborar no direcionamento de gestores e profissionais de saúde acerca dos programas públicos de AF, destacando a necessidade de potencializar estratégias resolutivas quanto às principais barreiras identificadas e aos fatores associados a essas barreiras, vislumbrando o aumento da participação de outros subgrupos populacionais nesses programas.

Referências

  • 1 Silva AG, Prates EJS, Malta DC. Avaliação de programas comunitários de atividade física no Brasil: uma revisão de escopo. Cad Saude Publica 2021; 37(5):e00277820.
  • 2 Rodrigues BLS, Silva RN, Arruda RG, Silva PBC, Feitosa DKS, Guarda FRB. Impacto do Programa Academia da Saúde sobre a mortalidade por Hipertensão Arterial Sistêmica no estado de Pernambuco, Brasil. Cien Saude Colet 2021; 26(12):6199-6210.
  • 3 Amorim T, Knuth A, Cruz D, Malta D, Reis R, Hallal P. Descrição dos programas municipais de promoção da atividade física financiados pelo Ministério da Saúde. Rev Bras Ativ Fis Saude 2013; 18(1):63-74.
  • 4 Becker L, Gonçalves P, Reis R. Programas de promoção da atividade física no Sistema Único de Saúde brasileiro: revisão sistemática. Bras Ativ Fis Saude 2016; 21(2):110-122.
  • 5 Seus TLC, Silveira DS, Tomasi E, Thumé E, Facchini LA, Siqueira FV. Núcleo de Apoio à Saúde da Família: promoção da saúde, atividade física e doenças crônicas no Brasil - inquérito nacional PMAQ 2013. Epidemiol Serv Saude 2019; 28(2):e2018308.
  • 6 Battistel JA, Floss MI, Cruvinel AFP, Barbato PR, Fermino RC, Guerra PH. Perfil dos frequentadores e padrão de utilização das academias ao ar livre: revisão de escopo. Bras Ativ Fis Saude 2021; 26:e0186.
  • 7 Pintos AE, Mascarenhas F, Athayde PF. Monitoramento e avaliação de políticas e programas de esporte e lazer: a experiência do Programa Esporte e Lazer da Cidade. LICERE 2019; 22(3):97-139.
  • 8 Carvalho FFB, Vieira LA. Práticas corporais e atividades físicas como política pública de Saúde: desafios para avançar na atenção primária do Sistema Único de Saúde no período de 2023 a 2026. Pensar Prat 2023; 26:e.75847.
  • 9 Brasil. Ministério da Saúde (MS). Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2006-2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: MS; 2024.
  • 10 Wendt A, Ricardo LIC, Costa CS, Knuth AG, Tenório MCM, Crochemore-Silva I. Socioeconomic and Gender Inequalities in Leisure-Time Physical Activity and Access to Public Policies in Brazil From 2013 to 2019. J Phys Act Health 2021; 25; 18(12):1503-1510.
  • 11 Mielke GI, Stopa SR, Gomes CS, Silva AGD, Alves FTA, Vieira MLFP, Malta DC. Leisure time physical activity among Brazilian adults: National Health Survey 2013 and 2019. Rev Bras Epidemiol 2021; 24(Supl. 2):e210008.
  • 12 Cruz DKA, Silva KS, Lopes MVV, Parreira FR, Pasquim HM. Iniquidades socioeconômicas associadas aos diferentes domínios da atividade física: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019. Epidemiol Serv Saude 2022; 31(n. esp. 1):e2021398.
  • 13 Botelho VH, Wendt A, Pinheiro ES, Crochemore-Silva I. Desigualdades na prática esportiva e de atividade física nas macrorregiões do Brasil: PNAD, 2015. Rev Bras Ativ Fis Saude 2021; 26:e026.
  • 14 Christofoletti M, Streit IA, Garcia LMT, Mendonça G, Benedetti TRB, Papini CB, et al.. Barreiras e facilitadores para a prática de atividade física em diferentes domínios no Brasil: uma revisão sistemática. Cien Saude Colet 2022; 27(9):3487-3502.
  • 15 Rech CR, Camargo EM, Araujo PAB, Loch MR, Reis RS. Perceived barriers to leisure-time physical activity in the Brazilian population. Rev Bras Med Esporte 2018; 24(4):303-309.
  • 16 Ferreira RW, Caputo EL, Häfele CA, Jerônimo JS, Florindo AA, Knuth AG, Silva MC. Acesso aos programas públicos de atividade física no Brasil: Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Cad Saude Publica 2019; 35(2):e00008618.
  • 17 Silva CRM, Bezerra J, Soares FC, Mota J, Barros MVG, Tassitano RM. Percepção de barreiras e facilitadores dos usuários para participação em programas de promoção da atividade física. Cad Saude Publica 2020; 36(4):e00081019.
  • 18 Biehl-Printes C, Brauner FO, Rocha JP, Oliveira G, Neris J, Rauber B, Bós AJ. Prática de exercício físico ou esporte dos idosos jovens e longevos e o conhecimento dos mesmos em programas públicos: Pesquisa Nacional de Saúde 2013. PAJAR 2017; 4(2):47-53.
  • 19 Stopa SR, Szwarcwald CL, Oliveira MM, Gouvea ECDP, Vieira MLFP, Freitas MPS, Sardinha LMV, Macário EM. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: histórico, métodos e perspectivas. Epidemiol Serv Saude 2020; 29(5):e2020315.
  • 20 Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Promoção da saúde e vigilância de doenças e agravos não transmissíveis integradas. Brasília: OPAS; 2024.
  • 21 Santos CES, d'Orsi E, Rech CR. Barriers to participation in physical activity programs among older adults. Motricidade 2020; 16(4):353-360.
  • 22 Socoloski TS, Rech CR, Correa Junior JA, Lopes RM, Hino AAF, Guerra PH. Barreiras para a prática de atividade física em idosos: revisão de escopo de estudos brasileiros. Rev Bras Ativ Fis Saude 2021; 26:e0208.
  • 23 Lemos EC, Gouveia GC, Luna, CF, Silva GB. Programa academia da cidade: descrição de fatores de adesão e não adesão. Rev Bras Cien Mov 2016; 24(4):75-84.
  • 24 Oliveira LN, Freitas PP, Lopes MS, Lopes ACS. Participação em programas públicos para prática de atividade física e comportamentos de saúde. Rev Bras Ativ Fis Saude 2021; 26:e0204.
  • 25 Monteiro GR, Santos CKA, Pereira GJ, Silva RJS. Fatores associados à aderência em programa comunitário de atividade física em uma capital brasileira. Rev Bras Ativ Fis Saude 2022; 27:e0265.
  • 26 Gomes GAO, Papini CB, Nakamura PM, Teixeira IP, Kokubun E. Barreiras para prática de atividade física entre mulheres atendidas na Atenção Básica de Saúde. Rev Bras Cienc Esporte 2019; 41(3):263-270.
  • 27 Sá GBAR, Dornelles GC, Cruz KG, Amorim RCA, Andrade SSCA, Oliveira TP, Silva MM, Malta DC, Souza MF. O Programa Academia da Saúde como estratégia de promoção da saúde e modos de vida saudáveis: cenário nacional de implementação. Cien Saude Colet 2016; 21(6):1849-1860.
  • 28 Werneck AO, Oyeyemi AL, Araújo RHO, Barboza LL, Szwarcwald CL, Silva DR. Association of public physical activity facilities and participation in community programs with leisure-time physical activity: does the association differ according to educational level and income? BMC Public Health 2022; 22(1):279.
  • 29 Silva AT, Fermino RC, Lopes AAS, Alberico CO, Reis RS. Distance to fitness zone, use of facilities and physical activity in adults. Rev Bras Med Esporte 2018; 24(2):157-161.
  • 30 Silva DB, Tribess S, Papini CB. Perfil dos usuários e padrão de utilização das Academias ao Ar Livre de Uberaba, Minas Gerais. Rev Bras Ativ Fis Saude 2019; 24:0111.
  • 31 Hino AAF, Rech CR, Gonçalves PB, Reis RS. Acessibilidade a espaços públicos de lazer e atividade física em adultos de Curitiba, Paraná, Brasil. Cad Saude Publica 2019; 35(12):e00020719.
  • 32 Manta SW, Reis RS, Benedetti TRB, Rech CR. Public open spaces and physical activity: disparities of resources in Florianópolis. Rev Saude Publica 2019; 53:112.
  • 33 Agrizzi P, Dourado TEPS, Silva JI, Andrade ACS. Fatores associados ao conhecimento de locais públicos de esporte e lazer nas capitais brasileiras. Rev Bras Ativ Fis Saude 2021; 26. :e0201.
  • 34 Borges PA, Koerich MHAL, Wengerkievicz KC, Knabben RJ. Barreiras e facilitadores para adesão à prática de exercícios por pessoas com dor crônica na Atenção Primária à Saúde: estudo qualitativo. Physis 2023; 33:e33019.
  • Declaração de disponibilidade de dados
    As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vania de Matos Fonseca

Disponibilidade de dados

As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    Fev 2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2024
  • Aceito
    06 Jan 2025
  • Publicado
    08 Jan 2025
location_on
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Av. Brasil, 4036 - sala 700 Manguinhos, 21040-361 Rio de Janeiro RJ - Brazil, Tel.: +55 21 3882-9153 / 3882-9151 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cienciasaudecoletiva@fiocruz.br
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error