| Ausência de preparo acadêmico na abordagem de questões relacionadas a impossibilidade de cura e morte |
Na faculdade ninguém te prepara para lidar com a morte; na faculdade eles te ensinam tudo o que você precisa fazer para manter o doente vivo até o dia que o seu doente morre. Aí você tem que lidar com a primeira frustração da sua vida, e, ao longo do tempo, dependendo de onde o médico trabalha, a morte acaba fazendo parte da rotina (E11, Cirurgia Geral, M, 39 anos). A gente vê [abordagem] a morte durante a nossa graduação como uma grande vilã (E3, anestesiologia, F, 42 anos). A gente foi preparado para aprender a ser o super-herói, o salvador, o vencedor da morte. Eles nunca falam para você: você vai perder. Você vai perder muitas vezes. Isso eles não te ensinam não, você aprende apanhando mesmo. Eu senti falta desse preparo para dar notícias aos familiares em caso de óbito, em caso de doença sem prognóstico. Nada disso é explorado na academia (E23, clínica médica, F, 57 anos). A gente é preparado para prolongar a vida, agora para lidar com a morte... você nota com os residentes que eles não gostam de ficar aqui [setor destinado aos pacientes crônico-sequelados], porque eles ficam pensando: nossa, que negócio chato... todo mundo morrendo. Então ninguém quer ficar nessa parte não, próxima da morte (E32, clínica médica, F, 56 anos). Eu nunca tive oportunidade de acompanhar ou simular uma notícia de óbito na faculdade (E19, neurocirurgia, M, 32 anos). Eu percebo que os médicos em formação são preparados para fazer o diagnóstico e tratar. Muitas vezes os pacientes não têm cura, vamos tratar sintomas, vamos paliar, melhorar a qualidade de vida etc. Mas, para muitos médicos a morte do paciente é um insucesso, e às vezes não é insucesso, é um desfecho esperado (E14, cirurgia geral, M, 47 anos). Não existe essa preparação do ponto de vista acadêmico. As escolas não preparam o estudante, o futuro médico para isso [morte, impossibilidade de cura], isso é uma questão do dia a dia mesmo, da sua residência, do seu trabalho depois como médico, como cirurgião, é uma coisa de se aprender mesmo no sofrimento (E10, cirurgia geral, M, 39 anos). |
| Ausência de preparo acadêmico - relação interpessoal (para além do paciente) |
Não havia nada que abordasse a relação do médico para com as outras pessoas. Eu formei sem entender que eu iria trabalhar com gente, mas não só com o paciente com ele vinha junto uma gama de outras pessoas que eu também seria responsável. Porque quando eu estou com um paciente, ele tem irmãos, tios, tem pai, mãe, avô, tem vizinho, amigo, professor. Então a gente não fica responsável só pelo paciente, a gente tem que ter alguns minutos do plantão para esses outros ‘pacientes’ que vêm agregados (E37, pediatra, F, 58 anos). A escola nos ensina muito sobre a doença. A vida é que nos ensina sobre o doente. São duas coisas diferentes: a doença e o doente. Eu sempre parti da premissa que é fundamental na formação do médico um alicerce para que ele possa compreender melhor o ser humano, isso incluindo a relação com o familiar e com o doente (E8, cirurgia geral, M, 58 anos). A gente não tem nada na faculdade referente ao contato com o familiar. Não tinha nenhum tipo de disciplina que te preparasse para isso. É muito mais a ciência mesmo do que a parte humana. É muito deficiente a parte humana, de relação humana. Eu senti muita falta e tive que aprender na prática (E28, terapia intensiva, F, 49 anos). |
| Ausência de preparo acadêmico relacionado ao contato com a prática profissional (comunicação de más notícias, dentre outros) |
A gente é formado sem prática adequada, você se sente totalmente incompleto (E25, clínica médica, F, 56 anos). Não existe uma aula na faculdade ensinando como você deve dar notícias, eu aprendi isso na prática acompanhando quem tem essa experiência. Então o acadêmico que passa aqui no hospital, por exemplo, a gente percebe que ele fica interessado quando a gente vai dar notícia para alguém sobre óbito, ele quer ver como que é, como que faz, como que deveria ser. Porque, de fato, ele não sai preparado para isso, inclusive preparado para encarar a morte. Na faculdade a gente aprende a salvar vidas. Tudo o que a gente aprende lá é no intuito de manter a vida do paciente. Chega aqui fora, a gente tenta aplicar tudo aquilo que a gente aprendeu lá, e a gente percebe que, às vezes, por maior que seja o esforço o doente acaba morrendo, e muitos não estão preparados para isso. Tem acadêmico, médico em início de carreira, que se sente de fato muito abalado com situações desse tipo, a ponto às vezes de não conseguir conviver bem com situações assim (E11, cirurgia geral, M, 39 anos). Eu senti falta. A gente tem um pouco dessa abordagem na disciplina de Psicologia Médica. E a gente vê que os estudantes, os acadêmicos de hoje sentem mesmo falta disso. Eles vêm loucos atrás de mim, quando eu vou dar a notícia para algum familiar, querendo saber como é que faz. Isso é muito interessante porque mostra que a gente sente falta dessa abordagem na graduação [...]. Tinha que ter uma cadeira para te mostrar o que é a morte, o que ela é para você, como você pode lidar com ela, como você vai lidar com os familiares, então, eu acho que não faltaria assunto nessa abordagem, e isso faz falta a gente sente na pele (E16, neurocirurgia, M, 32 anos). Eu acho que deveria ser um assunto melhor abordado durante a formação médica. Eu acho que a Antropologia deveria ter um papel maior. É uma matéria normalmente inserida no início do currículo e que não desperta muito interesse nos acadêmicos, porque eles ainda não foram para a prática... Mas, depois que já estamos mais experientes a gente vê a importância dessa disciplina que deveria estar ao final do curso (E2, cirurgia geral, M, 41 anos). A abordagem da morte durante a graduação é muito pouca... você tem algumas disciplinas da relação médico-paciente, Psicologia Médica, que trata um pouco, mas... não necessariamente da morte, então você não vê isso na faculdade. Quando ocorre, é no início do curso, e no começo você ainda não tem noção de nada... ah, a gente lê aquele livro “Sobre a morte e o morrer...”, você lê e tal, mas você ainda não foi para a prática, você não sabe das coisas que dizem ali. (E9, cirurgia geral, F, 38 anos). Depois que você sai do curso que você percebe que faltou alguma coisa desse contato com a prática. [...] Querendo ou não é um choque de realidade, porque o estudante de medicina daqui tem um nível socioeconômico um pouco mais elevado que os pacientes e a maioria dos estudantes daqui não tinha contato com essas histórias, como pobreza demais dos pacientes, falta de estudo. [...] Na faculdade a gente é treinado para fingir ao ver essas coisas todas. Tem uma pressão da sociedade de que a medicina é a “melhor das profissões”, como se fôssemos um muro resistente para lidar com tudo. E eu vi muitos casos na faculdade de colegas deprimidos, há histórias de tentativas e efetivação de autoextermínio, uso de drogas [...]. O estudo mesmo nem é tanto, mas a parte psicológica é muito mais pesada. Entrar no curso é difícil, mas sair é muito mais (E34, clínica médica, F, 29 anos). |