Resumo
O objetivo do artigo é identificar e sintetizar evidências científicas acerca das vivências do racismo em pessoas idosas negras. Trata-se de uma revisão de escopo conduzida conforme a estrutura metodológica proposta pelo Joanna Briggs Institute (JBI). Realizaram-se buscas nas bases Lilacs, Medline/PubMed, Scopus, Web of Science e Embase. Para busca de literatura cinzenta, utilizaram-se as bases Google Acadêmico, Cochrane Library, Catálogo de Teses e Dissertações (CAPES), Cybertesis e NDLTD. As buscas resultaram em 1.778 referências, e amostra final foi composta por 13 estudos. As vivências do racismo em saúde foram verificadas em todos os estudos e estavam relacionadas à dimensão biopsicossocial da saúde. Os resultados possibilitaram inferir que, entre as diversas manifestações do racismo, suas vivências estão mais diretamente ligadas à saúde biopsicossocial. O estudo apresentou categorias de análise para cada uma das vivências do racismo, sendo essas vivências unânimes em apontar iniquidades em saúde na dimensão biopsicossocial, embora sejam necessários aprofundamentos que favoreçam a inclusão, compreensão e investigação das vivências do racismo em pessoas idosas negras.
Palavras-chave:
Pessoas idosas; Negros; Racismo; Tipologia do racismo; Prejuízos em saúde
Abstract
This article aims to identify and synthesize scientific evidence about the experiences of racism among older Black individuals. This is a scoping review conducted according to the methodological framework proposed by the Joanna Briggs Institute (JBI). Searches were conducted in the following databases: Lilacs, Medline/PubMed, Scopus, Web of Science, and Embase. For gray literature, the following sources were used: Google Scholar, Cochrane Library, CAPES Theses and Dissertations Catalog, Cybertesis, and NDLTD. The search yielded 1778 references, and the final sample consisted of 13 studies. Experiences of racism in healthcare were identified in all studies and were related to the biopsychosocial dimension of health. The results suggest that among the various manifestations of racism, its experiences are most directly linked to biopsychosocial health. The study presented analytical categories for each of the experiences of racism, all of which unanimously pointed to health inequities within the biopsychosocial dimension. However, further research is necessary to promote the inclusion, understanding, and investigation of the experiences of racism among older Black individuals.
Key words:
Older adults; Black people; Racism; Racism typology; Healthcare damage
Resumen
El objetivo de este artículo es identificar y sintetizar evidencia científica sobre las vivencias del racismo en personas mayores negras. Se trata de una revisión de alcance realizada según la estructura metodológica propuesta por el Joanna Briggs Institute (JBI). Se realizaron búsquedas en las siguientes bases de datos: Lilacs, Medline/PubMed, Scopus, Web of Science y Embase. Para la búsqueda de literatura gris se utilizaron: Google Académico, Cochrane Library, Catálogo de Tesis y Disertaciones de CAPES, Cybertesis y NDLTD. Las búsquedas resultaron en 1778 referencias y la muestra final estuvo compuesta por 13 estudios. Las vivencias del racismo en el ámbito de la salud se verificaron en todos los estudios y estaban relacionadas con la dimensión biopsicosocial de la salud. Los resultados permitieron inferir que, entre las diversas manifestaciones del racismo, sus vivencias están más directamente relacionadas con la salud biopsicosocial. El estudio presentó categorías de análisis para cada una de las vivencias del racismo, siendo estas unánimes en señalar inequidades en salud en dicha dimensión. Sin embargo, se requieren estudios más profundos que favorezcan la inclusión, comprensión e investigación de las vivencias del racismo en personas mayores negras.
Palabras clave:
Personas mayores; Personas negras; Racismo; Tipología del racismo; Daños en la salud
Introdução
As pessoas idosas estão constantemente expostas a acontecimentos sociais, culturais, psicológicos e ambientais que podem causar significativas mudanças no curso de suas vidas, e a resposta que elas podem dar para tais demandas surge a partir dos recursos que possuem. Para além das ocorrências comuns no envelhecimento, como morte de pessoas próximas, convivência com doenças crônicas, diminuição da capacidade funcional, aposentadoria, problemas familiares e econômicos, os idosos se deparam com questões que atravessam gerações e geram implicações diretas na vivência da velhice e do envelhecimento, dando origem às diversas formas de ser e estar no mundo1,2.
As mudanças sociodemográficas do Brasil, que segue a tendência mundial e da América Latina de envelhecimento, com maior longevidade, expectativa de vida e redução da natalidade, tem sido observada como um ganho em termos de saúde3,4. Contudo, envelhecer sendo uma pessoa negra, em um contexto marcado por desigualdades sociais, econômicas, educacionais, ambientais e de acesso à saúde, à moradia e à alimentação, entre outras, nem sempre significa vivenciar uma velhice com qualidade de vida e dignidade. Ao contrário, tais desigualdades contribuem para o surgimento e a perpetuação de condições que limitam as oportunidades de envelhecimento saudável e equitativo.
As desigualdades imprimem formas diferentes de engendrar o envelhecimento. Privadas de condições dignas de saúde, trabalho, moradia e relações sociais, as pessoas idosas negras estão sujeitas às implicações de poder, que, entendido a partir das relações sociais e da dimensão histórica-espacial/temporal, não se configura como algo isolado ou autônomo dos indivíduos e de suas práticas, mas a partir das várias relações de saber/poder, como a medicina, a psiquiatria, as instituições carcerárias e a sexualidade, que tomam os corpos como superfície onde incide o poder5-10.
Apesar de o cenário das desigualdades no Brasil ser marcado visualmente pelas diferenças que separam os mais ricos dos mais pobres, os que têm mais educação formal dos que têm menos, os que têm melhores condições de moradia, acessibilidade e ambientes mais saudáveis dos que não têm, o que há em comum para marcar as disparidades em todos os campos é a catastrófica dimensão racial, que coloca de um lado sujeitos com melhores condições em todas as esferas - os brancos -, e do outro, em contraste com os primeiros, sujeitos negros.
Seja contrariando as estatísticas apontadas, seja como população que mais aumentou no Brasil, as pessoas que se declararam pretas subiram de 7,4% para 10,6% de 2012 a 2022, e as declaradas pardas cresceram de 7,4% para 10,6%. Os que se declararam brancos diminuíram de 46,3% em 2012 para 42,8% em 202111.
A assimetria do envelhecimento no Brasil marcada pelo recorte racial “será sempre um complexo perverso, gerador de medos e tormentos, de problemas de pensamento e de terror, mas sobretudo de infinitos sofrimentos e, eventualmente, de catástrofes”12. Esse cenário se desenvolve no Brasil desde a época da escravidão, e vem marcando a história do povo negro ao longo dos anos, uma vez que a resistência que foi desenvolvida pelos negros escravizados lhes custou um preço muito alto, inclusive suas próprias vidas.
O Brasil foi o país que mais importou pessoas da África no período do tráfico negreiro. Vindos de locais como Senegal, Angola, Congo, Costa da Mina e Golfo de Benin, estima-se que aproximadamente 4,9 milhões de pessoas - africanos comercializados como escravos - vieram para o Brasil13. As marcas das violências perpetradas pelo racismo sistemático e cruel parece explicar o porquê de a população negra sofrer ainda hoje por condições vividas naquela época. Mesmo após a chamada abolição, as condições de vida e trabalho dos “ex-escravizados” permaneciam ligadas ao domínio e à dependência de seus “ex-senhores”, isso porque não fora permitido aos negros acumular bens ou terras13.
Dessa forma, ter que se adaptar a uma realidade que expurgava seus valores, sua moral e suas condições físicas pode estar relacionado a respostas fisiológicas incomuns ou pouco habituais para os seres humanos13. Nesse sentido, as desigualdades sociais, sobretudo as expressas a partir das implicações do preconceito e do racismo para a pessoa idosa negra, geram experiências diferentes sobre a história de vida e a velhice, demarcadas por raça, gênero, classe social e origem de nascimento, entre outros aspectos interseccionais14.
A velhice negra apresentará impossibilidades de se compor de forma linear e igualitária, pois está limitada a dispositivos de violência que historicamente não contribuem para a engrenagem de uma velhice dita bem-sucedida, justamente porque se depara com vivências estruturais em que se destacam a pobreza, a baixa escolaridade e diversas iniquidades sociais15,16.
Além disso, o silenciamento histórico, cultural e, sobretudo, subjetivo da pessoa negra, estruturado ao longo de um processo histórico marcado pela violência imposta na e a partir da colonização, gerou disparidades orientadas a partir da violência, da hierarquização de poder, saber e renda, e que têm o racismo como ponto central à criação e à manutenção de áreas de silenciamento. Outras disparidades, como a de gênero, também se colocam como mais uma forma de exclusão da pessoa negra do cenário de existências, o que revela e amplia a complexa rede interseccional de iniquidades que atingem a maior parte da população brasileira.
Com base no exposto, torna-se imprescindível problematizar não apenas o fenômeno do racismo e da velhice, mas sobretudo suas características. Nesse sentido, surge a pergunta de pesquisa: como se caracterizam as vivências do racismo em pessoas idosas negras descritas na literatura? Considerando primordial problematizar o fenômeno do racismo e da velhice, o objetivo desta revisão é: identificar na literatura existente estudos científicos acerca das vivências do racismo em pessoas idosas negras.
Embora existam diversos estudos sobre a percepção do racismo, da discriminação e do tratamento injusto entre pessoas negras, ainda são incipientes as pesquisas que abordam especificamente as vivências do racismo na população idosa negra. Nesse sentido, torna-se necessário reunir e sintetizar as evidências disponíveis sobre essas experiências, bem como identificar lacunas na literatura existente.
Método
Protocolo e registro
Esta revisão de escopo foi realizada de acordo com a metodologia proposta pelo Joanna Briggs Institute (JBI), que estabelece as etapas: 1) identificação da questão de pesquisa; 2) critérios de inclusão; 3) estratégia de busca; 4) seleção de fonte de evidência; 5) extração e análise dos dados; e 6) apresentação dos resultados17,18 - e relatada em concordância com o guia Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)19. O protocolo desta revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF) sob o número DOI 10.17605/OSF.IO/HJVK4, que pode ser encontrado em: https://osf.io/hjvk4/19.
Critérios de seleção
Este trabalho buscou responder à seguinte pergunta norteadora: “Como se caracterizam as vivências do racismo em pessoas idosas negras descritas na literatura?” Tal pergunta foi formulada a partir do mnemónico PCC20, sendo P (população): pessoas negras; C (conceito): racismo; e C (contexto): velhice. Os participantes são pessoas negras e idosas com idade igual ou superior a 60 anos. Os critérios de seleção foram estabelecidos com base na questão norteadora, a partir da estratégia PCC.
Foram incluídos os seguintes tipos de estudos: a) quanto à população: pesquisas envolvendo pessoas negras, aqui entendidas como pessoas que têm origem em quaisquer dos povos negros originários da África, assim como o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme requisito de raça ou cor usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga21; b) quanto ao conceito: estudos envolvendo o racismo, aqui entendido como tratamento diferenciado ou acesso desigual a oportunidades com base em pertença a um grupo devido à origem ou etnia; e c) quanto ao contexto: velhice, isto é, estudos que envolvam pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Não foram estabelecidos critérios de exclusão, assim como não foi delimitado tempo e idioma.
Fontes de informação
As buscas foram feitas nas seguintes bases eletrônicas de dados: Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde); Medline (National Library of Medicine)/PubMed; Scopus; Web of Science; Embase. Além disso, para busca de literatura cinzenta, foram realizadas buscas nas seguintes bases: Google Acadêmico; Cochrane Library; Catálogo de Teses e Dissertações (CAPES); Cybertesis - Repositorio de Tesis Digitales e Networked Digital Library of Theses and Dissertations (NDLTD). As buscas foram feitas no dia 18 de janeiro de 2024.
Estratégia de busca
A estratégia foi delineada pela equipe de autores em consenso com um bibliotecário, sendo realizada uma busca preliminar limitada à PubMed para identificação dos descritores e sinônimos nos seguintes vocabulários controlados: MeSH, DeCS e Emtree Term. Após essa identificação houve a adaptação dos termos para cada base de dados e/ou fonte de informação, incluindo a literatura cinzenta. As chaves de busca foram testadas no período de novembro a dezembro de 2023.
Por meio dos operadores booleanos AND e OR, elaborou-se uma estratégia de busca única, validada por três pesquisadores, sendo um com expertise na temática, outro com expertise na temática e no método e um terceiro com expertise no método. Tal estratégia foi adaptada às bases de dados e à literatura cinzenta. Não foi aplicado nenhum tipo de filtro que pudesse limitar a busca quanto ao tempo, ao idioma ou ao tipo de estudo, desde que respondessem à questão de pesquisa. A lista de referências dos estudos incluídos também foi consultada, a fim de identificar estudos que pudessem ser incluídos na revisão. A estratégia de busca utilizada em cada uma das bases eletrônicas de dados está disponível no Quadro 1.
Seleção das fontes de evidências
Após identificação dos estudos nas bases eletrônicas de dados, estes foram exportados para o Rayyan22 para remoção das duplicatas. Após essa exclusão, foi realizada a fase 1, na qual dois revisores (EMSO e MLSO), de forma mascarada/cega, avaliaram os títulos e resumos dos estudos identificados. Aqueles que não atenderam aos critérios de inclusão foram excluídos. Na fase 2, os estudos foram lidos na íntegra pelos mesmos revisores, também de forma mascarada/cega, que novamente aplicaram os critérios de inclusão e exclusão para selecionar as pesquisas. Tanto na fase 1 quanto na 2, quando os dois revisores não chegavam a um consenso, o terceiro revisor com expertise na temática foi acionado para avaliar o estudo e tomar a decisão final.
Procedimento de coleta de dados
Para a extração dos dados dos estudos selecionados foi utilizado um instrumento baseado na sugestão de modelo disponível no manual do JBI17. O instrumento para mapeamento descritivo das variáveis do estudo foi construído no Excel para Microsoft 365 MSO (versão 2312 Build 16.0.17126.20132), no modelo de quadro sinóptico, cujas variáveis contemplaram os seguintes dados: características do estudo (autor, ano e país de origem do estudo, objetivo; características do conceito: tipologia do racismo e vivências do racismo). Dois revisores (EMSO e MLSOS) conduziram um teste-piloto para avaliar se os formulários propostos permitiam coletar todos os dados necessários para a análise qualitativa. As informações dos estudos incluídos na fase 2 foram extraídas, de maneira independente, com o uso de planilhas do Microsoft Excel.
Sumário dos resultados
Os dados coletados foram apresentados de forma descritiva por meio de tabelas, acompanhadas de sumário narrativo. Os dados extraídos foram: autor, ano de publicação e país de origem, objetivo e tipologia do racismo. Foram apontadas categorias de análise para cada uma das tipologias de racismo identificadas, agrupadas em: discriminação racial direta ou crime de ódio (racismo individual); racismo institucional; racismo estrutural; racismo cultural; racismo comunitarista ou diferencialista; racismo ecológico ou ambiental; racismo recreativo e racismo religioso. A partir das categorias, foram apresentadas as vivências do racismo apontadas por cada estudo. Os dados coletados foram agrupados para refletir os temas principais ou recorrentes relacionados ao objetivo da revisão. Para o sumário dos resultados foram observadas as orientações contidas no Manual de Síntese de Evidências do Instituto Joanna Briggs17.
Aspectos éticos
Por se tratar de uma revisão de escopo, a pesquisa não precisou ser submetida à apreciação de um comitê de ética em pesquisa.
Seleção dos estudos
As buscas nas bases eletrônicas de dados resultaram na identificação de 1.778 estudos. Destes, 309 foram excluídos por serem duplicatas, restando 1.469, que foram selecionados para leitura de título e resumo. Depois disso, 1.252 foram excluídos por não atenderem aos objetivos da pesquisa, por não estarem de acordo com a população, o conceito ou o contexto, e 13 por não serem open acess. Vinte e quatro estudos ficaram em conflito entre os dois primeiros revisores, sendo solucionados pelo terceiro revisor, restando 204 que foram eleitos para leitura na íntegra. Depois de lidos na totalidade, foram excluídos 191 por não atenderem aos objetivos da pesquisa, por não estarem de acordo com a população, o conceito ou o contexto. A amostra final foi composta por 13 estudos23-35. O fluxograma dos resultados das buscas nas bases de dados e critérios de seleção pode ser apreciado na Figura 1.
Fluxograma dos resultados das buscas nas bases de dados e critérios de seleção. Adaptado do PRISMA-ScR - Recife, PE, Brasil, 2024.
Resultados
Características dos estudos
As características dos estudos individuais estão descritas no Quadro 2. O período de publicação variou de 2008 a 2023, concentrando-se sobretudo no ano de 2023 (n = 4). Onze estudos foram desenvolvidos nos Estados Unidos23,24,26-28,30-35 e apenas dois no Brasil25,29.
Entre os tipos de discriminação, foram identificados estudos associados a: discriminação racial direta ou a crime de ódio ou racismo individual ou discriminação percebida (n = 6)26,27,30,32-34; ao racismo institucional (n = 4)23,25-27; racismo estrutural ou sistêmico (n = 9)16,24,25,27,28,31,33-35; racismo cultural (n = 1)26; racismo comunitarista ou diferencialista (n = 1)24; racismo ecológico ou ambiental (n = 3)16,25,27. Não foram identificados pesquisas que tenham incluído o racismo religioso e o racismo recreativo. A maior parte dos estudos identificavam mais de uma categoria.
Quanto às vivências do racismo, 100% dos estudos evidenciavam algum tipo de implicação na saúde física e/ou mental dos sujeitos, sendo verificadas: menor expectativa de vida23, nocividade à saúde psicossocial24, desigualdades no acesso e na condição dos serviços em saúde25,27,29,35, injustiça epistêmica26; desregulação metabólica28,33, dor física30,34, maior probabilidade de morte ou amputação31 e depressão32.
Resultados dos estudos individuais
Os estudos selecionados analisaram como as diversas formas de racismo estavam associadas a outros fatores ou como suas vivências foram percebidas por pessoas negras com idade entre zero e 99 anos.
Foram identificadas diversas categorias e tipologias de racismo nas pesquisas selecionadas. O racismo institucional e/ou racismo estrutural, que diz respeito a um sistema de discriminação racial enraizado nas instituições, normas, práticas e relações sociais, e que operam de maneira sistêmica para perpetuar desigualdades entre grupos raciais, independentemente da intenção individual36-38. Como continuidade do racismo estrutural, o racismo ambiental pode ser entendido como a forma como são desproporcionalmente afetadas as populações negras e de outras minorias pelos danos ambientais, como poluentes, minimização ou ausência de espaços públicos e urbanos de qualidade, entre outros fatores que interferem na qualidade de vida física e geram impactos psicológicos em populações com menos privilégios políticos e econômicos39.
No que tange à discriminação cotidiana, trata-se de agressões, humilhações e desvantagens enfrentadas diariamente por pessoas pertencentes a grupos racializados, expressadas através de olhares de desconfiança, recusas veladas de atendimento ou tratamento diferenciado, entre outras; em alguns casos, essas ações são realizadas individualmente, ou seja, é uma forma de discriminação individual, que tem como resultado ações discriminatórias pautadas na raça, cor ou origem étnica40-42. Dessa forma, a discriminação institucional tem sua ligação com práticas, normas e políticas que, mesmo sem intenção explícita, perpetuam desigualdades raciais em espaços como escolas, hospitais, empresas e no sistema de justiça, resultando na exclusão de grupos racializados do acesso pleno a direitos e oportunidades36,37.
Quanto ao racismo sistêmico, é uma tipologia que diz sobre o aprofundamento das desigualdades integradas e reproduzidas em todos os níveis de uma sociedade, afetando suas estruturas políticas, econômicas, jurídicas e sociais, tendo como origem o colonialismo e os processos históricos-sociais diante dos quais se expressam amplamente, em nível individual e institucional, práticas excludentes e motrizes de desvantagens que garantem a pessoas racializadas, especialmente as negras, múltiplas desvantagens operadas e integradas no funcionamento cotidiano das instituições, observadas através de ações explícitas ou não e integradas ao funcionamento cotidiano36,37,43.
Ainda como uma tipologia do racismo, a discriminação em saúde se refere às desigualdades no acesso, na qualidade e nos desfechos dos serviços de saúde com base em características como raça, etnia, gênero, idade e status socioeconômico. No contexto racial, ela se manifesta por meio de práticas e políticas que resultam em um atendimento diferenciado e prejudicial a populações negras e indígenas, refletindo as dinâmicas do racismo estrutural, institucional e individual dentro do sistema de saúde38,41,44,45.
Alguns estudos25,31 discutem como o racismo institucional e sistêmico interfere na saúde e na qualidade de vida de pessoas idosas negras. As experiências relacionadas a essas formas de racismo estão associadas à redução da expectativa de vida, a barreiras no acesso e na utilização dos serviços de saúde e a desfechos mais desfavoráveis, incluindo maior probabilidade de morte e amputação. Esses achados evidenciam a persistência e a profundidade das estruturas de racismo sistêmico e discriminação no campo da saúde.
Quando se trata da nocividade à saúde psicossocial, o estudo24 discute como o tratamento injusto, sistemático e crônico pode ser percebido como uma ameaça à população idosa negra, contribuindo para o surgimento ou manutenção das limitações de atividades de vida diária (AVD) e atividades instrumentais de vida diária (AIVD), bem como consequências nocivas à saúde, sobretudo por minimizar e fragilizar a circulação e vínculos sociais, produto do racismo comunitarista, com impactos diretos na saúde psicossocial24.
Nos estudos25,27,29,35, os autores apresentam várias formas de racismo, bem como suas interseccionalidades. O racismo ambiental é apresentado25,27 como um fator determinante das desigualdades, favorecendo experiências limitantes no acesso a serviços com base na segregação geográfica, que interfere diretamente nos fatores de risco e proteção da pessoa idosa negra, sobretudo quando observada a condição sistêmica do racismo. O racismo estrutural também é apresentado29 como fonte para iniquidades na vivência de sujeitos idosos negros frente a condições e acesso a bens e serviços de saúde e seu uso. Essas ideias são reforçadas35 ao observar que a discriminação em saúde, e o racismo individual, sistêmico e estrutural, piora a condição de saúde de forma global.
Os impactos dos racismos institucional, estrutural e cotidiano favorecem as diferenças e limitações no acesso e condições de serviços em saúde, assim como a tomada de decisões médicas diante de pacientes idosos negros com doenças graves no fim da vida. Para alguns autores26 essas decisões estão relacionadas à injustiça epistêmica.
A discriminação em saúde e suas interseções com a discriminação racial e o racismo institucional contribuem para que a desregulação metabólica seja uma vivência do racismo28,33, interferindo diretamente em condições de saúde, como inflamações sistêmicas, envelhecimento, deterioração fisiológica acelerada e pressão arterial sistólica mais elevada.
A discriminação racial, direta ou indireta, também vai gerar vivências do racismo percebidas na maior intensidade da dor física e em sintomas depressivos entre mulheres idosas negras com osteoartrite, assim como em casos de depressão entre homens idosos negros que relataram dor corporal30,32,34.
Discussão
Esta revisão de escopo teve como objetivo identificar estudos científicos acerca das vivências do racismo em pessoas idosas negras. Foram identificados estudos que trataram de discriminação racial direta, ou racismo individual, racismo institucional, racismo estrutural ou sistêmico, racismo cultural (injustiça epistêmica), racismo comunitarista ou diferencialista e racismo ecológico ou ambiental.
Os estudos brasileiros incluídos25,29 analisaram aspectos da condição, do acesso e da qualidade dos serviços de saúde pela população idosa negra e utilizaram dados secundários para análise. Embora a cor da pele/raça declarada tenha sido fator comparativo entre os estudos, observa-se que os negros (pardos e pretos) somaram, em ambos os estudos, uma menor população do que brancos e amarelos, o que parece fortalecer os resultados ao demonstrar o menor acesso de pessoas negras aos serviços em saúde.
Os estudos23,32 trataram o papel do racismo diante da discriminação racial percebida como importante vetor de iniquidades em saúde. As descobertas desses estudos revelam que a percepção da discriminação racial tem efeitos adversos para a saúde física e mental de pessoas idosas. Por outro lado, a manifestação do racismo epistêmico26 contribuiu para piores relações entre médico e paciente, além de piores resultados e decisões médicas, o que resulta em maus-tratos e traumas.
A injustiça epistêmica, que envolve ações sistemáticas de exclusão e silenciamento dos conhecimentos dos sujeitos46, e que foram apresentadas em estudos23,32, dialoga com outra pesquisa25 quando aponta que as diferenças educacionais entre brancos e negros prejudica as possibilidades de prevenção, tratamento e cura de doenças e promoção de saúde. De igual modo, investigação29 aponta que os piores níveis de escolaridade são considerados uma das principais causas de iniquidades em saúde, o que reforça a importância da literacia em saúde para a população idosa negra.
Ainda com relação à saúde, nota-se que todos os estudos incluídos nesta revisão23-35 avaliaram alguma dimensão da saúde no contexto biopsicossocial, conceito importante na medida em que confere uma abordagem que compreende as dinâmicas de saúde e doença como fenômenos influenciados pelas dimensões biológica, psicológica e social, sendo uma alternativa ao modelo biomédico reducionista, uma vez que possibilita um entendimento mais amplo do adoecimento, considerando não apenas a presença de patologias, mas como o sofrimento psíquico, os fatores sociais, as relações interpessoais e as condições de vida influenciam a qualidade de vida, sobretudo de populações historicamente vulneráveis como as pessoas idosas negras47-49.
Contudo, é importante notar que não foram identificados estudos que tratem da dimensão da espiritualidade e, antagonicamente, do racismo religioso. Nossa hipótese é de que, em função da diáspora negra, o candomblé - religião africana - e a umbanda, religião afro-brasileira, criaram uma identidade única, símbolo de lutas e resistências desde o período da escravidão e do tráfico negreiro até o início de suas práticas de forma mais aceitável socialmente. Dessa forma, a violência gerada pela intolerância religiosa é produto de preconceito racial e religioso, discriminação e racismos, que criam, mantêm e perpetuam a prática do racismo religioso no Brasil.
Embora se observe a feminização da velhice, ou seja, um superavit da população feminina que vem se apresentando desde a década de 1950 no Brasil e no mundo50, apenas em um estudo30 houve recorte para o gênero feminino, o que demonstra, embora não seja objeto desta revisão de escopo, mais uma lacuna nos estudos envolvendo a interseccionalidade de raça e gênero feminino.
Por meio desta revisão de escopo foi possível mapear uma quantidade ainda reduzida de estudos que demonstrem as vivências do racismo em pessoas idosas negras, demonstrando a existência de uma lacuna substancial no que diz respeito a um conhecimento ainda incipiente.
Limitações do estudo
Os resultados desta revisão podem ter sido limitado por alguns fatores. Primeiramente, observou-se a ausência, nos estudos incluídos, de definições claras e/ou de uma compreensão consistente dos termos e conceitos utilizados para a classificação do racismo. Além disso, a escassez de estudos realizados na América Latina e o reduzido número de pesquisas brasileiras limitaram a realização de análises qualitativas mais aprofundadas sobre o fenômeno investigado. Por fim, destaca-se como limitação a exclusão de estudos que não estivessem disponíveis em acesso aberto (open access). Em conjunto, essas limitações podem ter restringido a inclusão de evidências relevantes e dificultado uma análise mais crítica e detalhada dos estudos selecionados.
Implicações para o avanço do conhecimento científico para a área de gerontologia
Os resultados desta revisão de escopo demonstram para a comunidade científica, sobretudo à gerontologia, as implicações do racismo em pessoas idosas, ao mesmo tempo em que demonstra a lacuna existente na área. Esse estudo pode auxiliar pesquisadores na identificação das repercussões do racismo em pessoas idosas negras, a fim de que seja evitada a reprodução de pesquisas com questões que já tenham sido elucidadas pela literatura.
Conclusão
Esta revisão de escopo mapeou 13 estudos sobre as vivências do racismo em pessoas idosas negras. Os resultados possibilitaram visualizar que, entre as diversas manifestações do racismo, suas vivências estão mais diretamente ligadas à saúde biopsicossocial. Todavia, grande parte das vivências do racismo identificadas nesta revisão precisam ser avaliadas em estudos futuros para melhor compreensão.
Os esforços empreendidos nesta revisão indicam a necessidade de ampliação da produção científica sobre as vivências do racismo em pessoas idosas negras no Brasil, tanto em termos de quantidade quanto de variedade. As produções encontradas ainda são tímidas e fragmentadas, utilizando dados secundários, indicam a necessidade de investimentos para fortalecer os desenhos de pesquisa, que carecem de apresentação conceitual e metodológica nítidas. Avançar nesse sentido pode favorecer a orquestração de debates mais coesos e efetivos em termos interdisciplinares, uma vez que pesquisadores de diferentes áreas compartilham a mesma temática.
O estudo apresentou categorias de análise para cada uma das vivências do racismo, sendo essas vivências unânimes em apontar iniquidades em saúde na dimensão biopsicossocial, embora sejam necessários aprofundamentos que favoreçam a inclusão, compreensão e investigação das vivências do racismo em pessoas idosas negras.
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As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.


Fonte: Autores.