RESUMO
Objetivo Realizar a validação transcultural do Teste de Autoavaliação da Competência na Comunicação (TACCom) para a língua italiana.
Método O procedimento de validação transcultural seguiu as recomendações e diretrizes do COnsensus-based Standards for the selection of health Measurement INstruments (COSMIN) e constou de cinco etapas: 1) Tradução do TACCom do português brasileiro (PB) para o italiano, por três fonoaudiólogos bilíngues; 2) Elaboração da versão por consenso; 3) Retrotradução do italiano para o PB por um quarto fonoaudiólogo bilíngue; 4) Comparação da retrotradução com o instrumento original e elaboração da versão final em italiano, denominada Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT); e 5) Aplicação do pré-teste do TACCom-IT em 101 indivíduos nativos italianos, que usam a voz e a comunicação oral como principal instrumento de trabalho. Nesta etapa, a opção “não aplicável” foi acrescentada na chave de respostas.
Resultados Na tradução, houve escolhas lexicais diferentes em relação ao título, às instruções e a sete itens. Na retrotradução, houve discordâncias conceituais no título e nas instruções, e lexicais em cinco itens. O comitê de especialistas realizou mudanças no título, nas instruções e em três itens. Na fase pré-teste, uma proporção significativamente maior de participantes respondeu com opções da chave de resposta habitual do instrumento para todos os itens.
Conclusão A versão adaptada do TACCom para o italiano, intitulada Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT), apresenta equivalência cultural e linguística satisfatória em relação ao instrumento original, sendo considerada válida transculturalmente.
Descritores:
Protocolos Clínicos; Autoavaliação; Fonoaudiologia; Comunicação; Voz; Fala; Relações Interpessoais
ABSTRACT
Purpose To carry out the cross-cultural validation of the Self-Assessment of Competence in Communication – SACCom to Italian.
Methods The cross-cultural validation procedure followed the recommendations and guidelines of the COnsensus-based Standards for the selection of health Measurement INstruments (COSMIN) and consisted of five stages: 1) Translation of the SACCom from Brazilian Portuguese (BP) into Italian by three bilingual speech-language-hearing pathologists; 2) Preparation of a consensus version; 3) Back-translation from Italian into BP by a fourth bilingual speech-language-hearing pathologist; 4) Comparison of the back-translation with the original instrument and preparation of the final version in Italian called Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT); and, 5) Application of the TACCom-IT pre-test to 101 native Italians whose voice and communication are essential to their profession. At this stage, the option “not applicable” was added to the answer key.
Results In the translation, there were different lexical choices regarding the title, instructions, and seven items. In the back-translation, there were conceptual disagreements in the title and instructions, and lexical disagreements in five items. The expert committee made changes to the title, instructions, and three items. In the pre-test phase, a significantly higher proportion of participants responded with options from the instrument's usual answer key for all items.
Conclusion The Italian adapted version of SACCom, entitled Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT), shows satisfactory cultural and linguistic equivalence in relation to the original instrument and is considered cross-culturally valid.
Keywords:
Clinical protocols; Self-testing; Speech, Language and Hearing Sciences; Communication; Voice; Speech; Interpersonal Relations
INTRODUÇÃO
A comunicação é uma troca de informações entre duas ou mais pessoas, durante a qual se espera uma alternância entre processos interdependentes de fala e escuta; é um ato geralmente espontâneo e automático, tanto na esfera social como na profissional. Tal como acontece com a maioria das atividades habituais, na comunicação tende-se a recorrer apenas às habilidades naturais, aos automatismos desenvolvidos ao longo da vida, ao instinto e à improvisação, e nem sempre se considera ou se conhece a possibilidade de aperfeiçoar a habilidade de competência na comunicação, o que pode ser feito com a ajuda de profissionais habilitados, propiciando maior qualidade nas interações entre o falante e o ouvinte(1).
Na maioria das situações de fala tem-se pouca consciência sobre a atitude comunicativa, o que faz com que o falante não se dê conta das informações adicionais que possa eventualmente estar passando aos ouvintes, para além do conteúdo linguístico da mensagem, por meio tanto da comunicação não-verbal, como da frequência e intensidade vocal, velocidade da fala, pausas e modulação. Porém, de forma consciente ou não, é um fato que a comunicação interfere na qualidade dos relacionamentos construídos ao longo da vida.
Em uma atuação profissional que dependa de uma boa performance na comunicação, torna-se necessário um desenvolvimento consciente dessa competência, dada a importância e o alto grau de visibilidade envolvidos nesse contexto(1,2). A evolução de uma carreira não depende diretamente da competência na comunicação, mas esta se configura como uma soft skill, uma habilidade socioemocional valorizada e esperada, principalmente em cargos de alta gestão, podendo influenciar positivamente na carreira profissional(1,3).
Existem várias formas de se comunicar e de se apropriar dos diferentes estilos de comunicação, dependendo do contexto e da área de atuação profissional. Para uma comunicação eficiente, é importante considerar principalmente o objetivo da mensagem, o público-alvo, e o local ou o contexto da interação comunicativa(4,5).
Há duas vias principais de trabalho para a melhoria da competência na comunicação: a da modificação dos aspectos emocionais e a do controle consciente dela. A modificação dos aspectos emocionais relacionados a esse desafio pode requerer estratégias de coaching ou até mesmo orientação psicológica. A atuação sobre o desenvolvimento da comunicação geralmente é realizada por fonoaudiólogos, por meio de dois acessos principais, muitas vezes usados de forma associada, com base na linguagem ou nos aspectos físicos da voz e da fala. O trabalho sobre a linguagem tem foco em uma abordagem mais teórica, partindo-se da organização do pensamento, das questões da construção do discurso e da elaboração da argumentação, enquanto a atuação com base nos aspectos da voz e da fala está centrada em técnicas para o controle e estabilidade desses componentes(1), além da transmissão de segurança e credibilidade.
Para estabelecer um ponto de partida para o programa de desenvolvimento dessa competência e monitorar a evolução da intervenção, é importante dispor de um instrumento capaz de avaliá-la. Na língua italiana, não há um teste ou questionário específico para tal propósito. Com o intuito de proporcionar aos fonoaudiólogos italianos um instrumento de avaliação da competência na comunicação, considera-se importante validar para o italiano o Teste de Autoavaliação da Competência na Comunicação – TACCom. O TACCom, desenvolvido em português brasileiro, foi elaborado por Mara Behlau(6), em 2002, e validado em 2022(7).
O TACCom(7) é composto por 19 itens que auxiliam na autoavaliação do comportamento na comunicação e inclui 9 aspectos mais direcionados à fala e 10 aspectos mais direcionados à escuta. Por ser um instrumento de autoavaliação, o TACCom não reflete, necessariamente, a percepção do outro sobre o falante, mas é uma estratégia importante de autorreflexão. O instrumento pode ser empregado para diferentes finalidades, a saber: a avaliação da eficiência na comunicação e o direcionamento da ação para o desenvolvimento de aspectos específicos da comunicação, sejam eles: formais, de voz e fala; atitudinais, como prestar atenção genuína ao que se diz; de linguagem, como responder diretamente ao que se é perguntado; ou de escuta, como se lembrar de elementos importantes ditos pelo interlocutor(1-7). Além disso, ele também pode ser um recurso de comparação das respostas dadas por autoavaliação com as respostas assinaladas por terceiros sobre o respondente(8), a fim de verificar a diferença entre a autopercepção do falante e o real impacto da comunicação sobre o ouvinte.
A validação transcultural de instrumentos de avaliação e autoavaliação constitui estratégia relevante para a ampliação do uso de medidas padronizadas em diferentes contextos linguísticos e culturais. Além de favorecer o intercâmbio científico internacional, possibilita a utilização de instrumentos previamente desenvolvidos e teoricamente consolidados, evitando a duplicação de esforços na construção de novas medidas. No entanto, a adaptação transcultural exige rigor metodológico para assegurar equivalências semântica, idiomática, conceitual e cultural entre a versão original e a versão adaptada(9). No caso do TACCom, sua adaptação para o contexto italiano justifica-se pela ausência de instrumentos equivalentes que avaliem, de forma específica e sistematizada, a competência comunicativa no âmbito da prática fonoaudiológica e do desempenho profissional. A disponibilização de uma versão culturalmente adequada amplia as possibilidades de avaliação clínica, de monitoramento das intervenções e de desenvolvimento das pesquisas na área, além de permitir comparações internacionais e produção de evidências multicêntricas.
Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi o de realizar a validação transcultural do Teste de Autoavaliação da Competência na Comunicação (TACCom) para a língua italiana.
MÉTODO
A presente pesquisa tem delineamento transversal, e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Sergipe (parecer número 4788134). Os voluntários que concordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os autores do TACCom autorizaram o estudo de validação transcultural do instrumento para a língua italiana.
A metodologia adotada seguiu as recomendações do Consensus-based Standards for the Selection of Health Measurement INstruments (COSMIN)(10). O COSMIN foi escolhido como referencial metodológico, por se tratar de um instrumento desenvolvido e aplicado no contexto da prática fonoaudiológica, com implicações diretas para a avaliação funcional, a tomada de decisão clínica, o planejamento de intervenção e o monitoramento de resultados. Nesse enquadramento, o TACCom é concebido como uma medida do funcionamento comunicativo, na dimensão do desempenho humano relacionada à participação social e profissional, em consonância com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Assim, embora o instrumento avalie competências comunicativas de natureza comportamental, o construto é operacionalizado como um desfecho funcional relacionado à saúde, o que justifica a adoção do COSMIN para a avaliação de suas propriedades de medida.
As etapas da validação transcultural foram organizadas da seguinte forma:
-
Etapa 1: tradução do TACCom do PB para o italiano, realizada por três fonoaudiólogos bilíngues (indicados na figura e no Quadro 1, como T1, T2, T3); 2: síntese das três versões traduzidas em italiano, em uma primeira versão consenso, conduzida por um dos autores do estudo e conferida pelos coautores; 3: retrotradução da primeira versão consenso em italiano para o PB, realizada por um quarto fonoaudiólogo bilíngue (indicada na figura e no Quadro 1 como R); 4: revisão do comitê de especialistas para a comparação da retrotradução da primeira versão do italiano para o original, e análise das equivalências semântica, conceitual, idiomática, experiencial, cultural e operacional; e 5, etapa de pré-teste com a população-alvo.
A amostra das quatro primeiras etapas foi composta por 8 fonoaudiólogos, sendo seis bilíngues e dois não bilíngues, especialistas no construto. Dentre eles, quatro integravam a equipe de autores do estudo e participaram das etapas 2 e 4. A amostra da quinta etapa foi composta por 101 indivíduos italianos, nascidos e residentes na Itália, que usam a voz e a comunicação oral para desempenharem sua profissão. Para classificar os profissionais da voz, foi utilizada a informação sobre a profissão, autorrelatada pelos participantes do estudo, no formulário de coleta de dados. Utilizou-se a recomendação do COSMIN(10) de tamanho amostral mínimo de 30 indivíduos para o pré-teste.
Os critérios de elegibilidade dos quatro fonoaudiólogos responsáveis pelas etapas de tradução e retrotradução foram: ser fonoaudiólogo bilíngue Italiano-PB, com competências linguísticas nas duas línguas, e conhecimento sobre o construto e a cultura de ambos os países (Itália e Brasil). Os participantes foram selecionados por conveniência e mediante análise do currículo, avaliando a experiência profissional na área da voz e a vivência em ambos os países, por meio de atividades relacionadas à prática da fonoaudiologia, além de entrevista telefônica realizada em ambas as línguas. Para a quinta etapa, a de pré-teste, profissionais italianos de várias áreas, que empregam a voz e a comunicação oral como principal instrumento de trabalho, com idade a partir de 18 anos, atualmente residentes na Itália, foram recrutados por meio de um convite divulgado nas redes sociais. Foram excluídas pessoas em situação de desemprego e/ou que não atuavam em áreas cuja voz desempenha um papel central. Ao clicar no link constante no convite, o participante acessava diretamente o questionário de elegibilidade, disponibilizado no Google Drive, ao fim do qual constava a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE. Dos 198 participantes voluntários, 101 foram selecionados após o cumprimento dos critérios de elegibilidade.
Na primeira etapa, o TACCom foi traduzido para o italiano por três fonoaudiólogos. A tradução do título, das instruções, dos itens e das opções da chave de resposta foi realizada respeitando o formato, o conteúdo e os conceitos da versão original, embora com adaptações de aspectos culturais e linguísticos concernentes ao idioma italiano. Essa etapa foi independente e blindada, sem alguma interação entre os participantes.
Na segunda etapa, a de síntese, as três versões traduzidas foram comparadas e sobrepostas por três dos autores deste artigo, decidindo-se sobre a melhor tradução, por consenso, considerando-se as equivalências culturais e semânticas. A primeira versão em italiano do TACCom foi assim construída, e validada por todos os autores do presente artigo.
A terceira etapa consistiu em enviar a versão consenso em italiano para um quarto fonoaudiólogo, que não participou das etapas anteriores, e que não teve acesso à versão original do instrumento, a fim de que realizasse a retrotradução para o PB, sua língua original.
Na quarta etapa, foi constituído o comitê de especialistas, formado por quatro fonoaudiólogos, sendo um especialista em metodologia e três especialistas em voz, com pelo menos cinco anos desde a conclusão da graduação, autores e não autores do presente estudo. O comitê realizou a comparação da versão retrotraduzida com o instrumento original, da qual emergiram apenas divergências lexicais, e, no título, também uma divergência conceitual. Após análise, decidiu-se, por consenso, sobre as mudanças necessárias para a versão final, com equivalências semântica, conceitual, idiomática, experiencial, cultural e operacional. A versão em italiano do TACCom recebeu o nome de Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT). A Figura 1 e o Quadro 1 ilustram as quatro fases do processo de validação transcultural do TACCom para o TACCom-IT.
Fluxograma do processo de validação transcultural do TACCom para o italiano (TACCom-IT) segundo as recomendações do COSMIN
Na etapa do pré-teste, 101 indivíduos italianos responderam ao TACCom-IT. A média de idade dos participantes foi de 40 anos, sendo 22 homens e 79 mulheres, de várias áreas que utilizam a voz e a comunicação oral como principal instrumento de trabalho. As categorias de profissionais foram: empresários, advogados, gestores, representantes comerciais, professores e profissionais da saúde.
Nessa fase, todos os participantes responderam à versão TACCom-IT. O TACCom(7) original é um instrumento de autoavaliação da competência na comunicação, com 19 itens e chaves de resposta dicotômica (sim/não). Os itens dizem respeito às habilidades de fala e escuta na comunicação interpessoal. O cálculo estatístico das respostas é realizado através de uma planilha específica, dado que a validação ocorreu por Teoria de Resposta ao Item(9). Para essa fase pré-teste, na chave de resposta dicotômica (sim/não) foi adicionada a opção <não aplicável>, traduzida como <la domanda non è chiara>. Essa opção deveria ser assinalada caso os participantes não compreendessem o item, ou este não se aplicasse à cultura italiana. Além disso, foi adicionado um espaço para comentários, no caso de o participante responder “não aplicável”, embora não fosse obrigatório preenchê-lo. O número de participantes que respondeu às opções da chave de resposta dicotômica foi comparado ao número daqueles que responderam à opção “não aplicável”, por meio do Teste de Igualdade de Duas Proporções. A análise foi realizada com o IBM SPSS Statistics 29.0.
RESULTADOS
Na segunda etapa, a da síntese das três versões traduzidas em italiano em uma primeira versão, foi possível obter consenso, em relação às escolhas lexicais, entre pelo menos dois fonoaudiólogos para o título, as instruções, as opções de chave de resposta e em 13 itens. Nos itens 2, 4, 7, 12, 17 e 19 não houve consenso a nível lexical; portanto, optou-se por uma das três traduções.
Na retrotradução, não houve concordância conceitual em relação ao título e às instruções, mas houve concordância quanto às opções das chaves de resposta, nos itens 8, 9, 10, 13 e 14. Nos itens 1, 2, 3, 4, 5, 6, 11, 15, 16, 17, 18, 19, não houve concordância lexical. Em dois itens, 7 e 12, o quarto fonoaudiólogo adicionou uma frase, respectivamente, “que se apresentam” e “a responsabilidade daquilo que diz”.
Na quarta etapa, o comitê de especialistas decidiu adicionar ao título a sigla IT (para referir-se à versão italiana do TACCom); além disso, foi necessário modificar uma expressão no título da versão italiana, de Test di Autovalutazione della Competenza Comunicativa para Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione , a fim de atender aos critérios de equivalência semântica. Manteve-se a tradução das instruções de acordo com a versão de síntese. Nos itens 2, 7, e 19 foi corrigida uma palavra por item para atender aos critérios de equivalência cultural. Nos demais itens obteve-se equivalências cultural e linguística satisfatórias.
Após a conclusão da etapa com base nas modificações e ajustes do comitê de especialistas, uma segunda versão transculturalmente validada do TACCom-IT foi construída. Todos os dados descritos ao longo das quatro etapas iniciais podem ser observados no Quadro 1.
Na etapa de pré-teste (Tabela 1), não foi possível analisar estatisticamente os itens 3, 10 e 12, visto que todos os participantes responderam com uma opção da chave de respostas habitual do instrumento (sim/não). Para todos os demais itens houve proporção significativamente maior de participantes que responderam com opções da chave de resposta habitual do instrumento (sim/não), comparados à proporção de participantes que responderam <não aplicável> (p<0,001 para todos).
Comparação da proporção de participantes que responderam com as chaves de resposta habituais e com a chave de resposta não aplicável
Com relação à interpretabilidade, observou-se que, durante a aplicação do pré-teste, alguns participantes selecionaram a opção <não aplicável>, ou seja <la domanda non è chiara>, justificando, no espaço disponível para comentários, que a escolha não se referia à clareza ou adequação cultural do item, mas à dificuldade de assinalar uma resposta dicotômica, um ‘não’ ou ‘sim’ absolutos, porque alguns comportamentos de comunicação podem variar de acordo com o interlocutor e o contexto. O comitê de especialistas, após a análise desses comentários, decidiu, na etapa de interpretabilidade, manter as instruções da versão consenso, adicionando, porém, uma frase que parafraseia as instruções, garantindo a equivalência cultural. Assim, a versão final do TACCom-IT foi consolidada (Apêndice A).
DISCUSSÃO
No ambiente dinâmico e competitivo do mercado de trabalho atual, diversas soft skills, ou habilidades socioemocionais contribuem para o sucesso das organizações. Dentre elas, está a habilidade de competência na comunicação. Sua importância é tão grande, que alguns autores sugerem o emprego da expressão essential skill ao invés de soft skill para se referir a essa competência, muito requisitada nos altos cargos das organizações, e cuja ausência pode influenciar negativamente a chance de uma promoção ou até mesmo contribuir para a demissão de um profissional(8).
A competência na comunicação, no mundo das organizações, nem sempre é uma exigência na fase inicial de desenvolvimento de carreira, porém, torna-se um recurso imprescindível e um pré-requisito na passagem de uma função operacional para cargos de gestão. Nesse momento, podem ser uma exigência as habilidades conceituais de comunicação, como por exemplo, a capacidade cognitiva de visualizar, entender e coordenar todas as atividades e interesses das organizações em um sistema, compreendendo suas inter-relações(11,12).
Um profissional que se comunique de maneira ponderada, planejada, estruturada, preparada e assertiva tem a capacidade de gerar considerável impacto psicológico no seu ouvinte, causando-lhe a impressão de profissionalismo e segurança, o que espelha clareza de raciocínio e pensamento, além do domínio das regras do mundo das organizações. Por isso, muito se vem buscando pelo desenvolvimento dessa competência em cargos de liderança.
Para que a comunicação seja desenvolvida de forma assertiva e consciente, faz-se necessário dispor de instrumentos avaliativos, que ajudem os profissionais a compreender quais habilidades já existem, quais precisam ser melhoradas e, ainda, quais precisam ser adquiridas. Na língua italiana não há nenhum questionário para análise da percepção da competência na comunicação, o que justifica a validação transcultural para o italiano do TACCom, um instrumento de autoavaliação da competência na comunicação validado em português brasileiro.
Na presente validação transcultural, foram encontradas algumas discordâncias lexicais e conceituais, durante o processo de tradução e retrotradução do TACCom-IT. Esses dados corroboram a importância em seguir etapas bem estruturadas no processo de validação transcultural de um instrumento, e confirmam que uma simples tradução literal não é, de forma alguma, suficiente, pois ignora e desconsidera a complexidade cultural(13).
A equivalência semântica e conceitual indicou a necessidade de ajustes no título e nas instruções, garantindo o mesmo peso semântico da versão original. Em relação ao título, a discussão apurou a melhor expressão, em italiano, para traduzir a frase “competência na comunicação”. Esse conceito pode ser traduzido de diversas formas: capacità comunicativa, capacità di comunicazione, competenza comunicativa, abilità comunicative, competenza nella comunicazione. Dentre elas, na fase de síntese do estudo, optou-se por competenza comunicativa (competência comunicativa). Todas as opções referem-se a ambos os conceitos: competência linguística ou gramatical e competência de fala e escuta na comunicação. Todavia, em português, a competência comunicativa refere-se exclusivamente à competência linguística ou gramatical para produzir frases que sejam entendidas como produtos não apenas de uma determinada língua, como também coerentes à intenção do falante, em dada circunstância. Envolve também a competência textual, vista como a capacidade do usuário de, em situações de interação comunicativa, produzir, compreender, transformar e classificar textos que se mostrem adequados à interação comunicativa pretendida, seguindo regularidades e princípios de organização e construção dos textos e do funcionamento textual, uma vez que os textos são a unidade da língua em uso. Na fase de análise do comitê de especialistas, por consenso, optou-se por modificar a expressão para competenza nella comunicazione, a fim de garantir a equivalência semântica e conceitual entre o TACCom-IT e o TACCom.
Nessa mesma fase, para os itens 2, 4, 7, 12, 17 e 19 foram realizados ajustes de palavras, de modo que o significado refletisse aquele do TACCom, e que o sinônimo respeitasse culturalmente o contexto italiano(14).
Na fase pré-teste do TACCom-IT, houve proporção significativamente maior de participantes que responderam com opções da chave de resposta habitual do instrumento, quando comparada à opção <não-aplicável>. Os itens em que não houve diferença foram os que todos os participantes responderam com as opções habituais da chave de resposta do instrumento. Dessa forma, não houve necessidade de modificação e/ou eliminação de itens.
No tocante à interpretabilidade, alguns ajustes foram necessários, levando em consideração os comentários deixados pelos participantes na fase pré-teste. A interpretabilidade refere-se ao grau em que se pode atribuir significado qualitativo para os escores quantitativos de um instrumento ou mudança nos escores quantitativos(10). Observou-se uma característica diferente na população italiana, em que os participantes tiveram dificuldade para escolher entre as opções da chave de resposta original, ‘sim’ e ‘não’. Para resolver esse desconforto, optou-se por manter a chave de resposta original e as instruções da versão consenso, além de acrescentar uma frase, parafraseando as instruções do TACCom-IT. A instrução inicial “Le seguenti domande si riferiscono a diversi aspetti del parlato e dell’ascolto. Legga attentamente ciascuna domanda e scriva se ha o meno questi comportamenti comunicativi” foi ajustada para “Le seguenti domande si riferiscono a diversi aspetti del parlato e dell’ascolto. Legga attentamente ciascuna domanda e scriva se ha o meno questi comportamenti comunicativi. Risponda SI, se questi comportamenti si compiono/sono presenti la maggior parte delle volte e risponda NO, se questi comportamenti non sono presenti la maggior parte delle volte”. O ajuste foi realizado a fim de garantir a boa interpretabilidade do TACCom-IT e de guiar os participantes na escolha da chave de reposta que mais refletisse o real comportamento comunicativo(15).
Apesar dos resultados satisfatórios na validação transcultural, para garantir a validade, confiabilidade e responsividade do TACCom-IT, será necessário demonstrar as demais propriedades psicométricas do instrumento na população italiana, o que deverá ser feito em estudos futuros.
Como limitação, ressalta-se que a descrição sociodemográfica da amostra foi restrita às variáveis idade, sexo e profissão. A inclusão de informações adicionais poderia enriquecer a caracterização do grupo investigado.
CONCLUSÃO
A versão validada transculturalmente para o italiano do TACCom foi denominada Test di Autovalutazione della Competenza nella Comunicazione (TACCom-IT) e manteve a estrutura original do instrumento. Contudo, além dos ajustes nos processos habituais de validação transcultural, foi preciso uma adaptação das instruções do teste, para que se pudessem obter todas as equivalências necessárias. O estudo apresentou resultados satisfatórios em relação à validação transcultural do TACCom-IT.
Apêndice A Versão final, transculturalmente validada do TACCom
TEST DI AUTOVALUTAZIONE DELLA COMPETENZA NELLA COMUNICAZIONE (TACCom-IT)
Nome: ______________________________________ Data: ___/___/____
Le seguenti domande si riferiscono a diversi aspetti del parlato e dell’ascolto. Legga attentamente ciascuna domanda e scriva se ha o meno questi comportamenti comunicativi. Risponda SI, se questi comportamenti si compiono/sono presenti la maggior parte delle volte e risponda NO, se questi comportamenti non sono presenti la maggior parte delle volte
| 1. Riesce a catturare e mantenere l’attenzione di chi la ascolta? | sì | no |
| 2. La sua voce è buona ed espressiva? | sì | no |
| 3. Parla in modo chiaro, con una buona dizione? | sì | no |
| 4. Considera facile influenzare gli altri attraverso il suo modo di comunicare? | sì | no |
| 5. Le persone si ricordano di ciò che ha detto? | sì | no |
| 6. Gli altri la lasciano parlare senza interromperla? | sì | no |
| 7. Approfitta delle opportunità di comunicazione che le si presentano? | sì | no |
| 8. Gli altri accettano i suoi suggerimenti, le sue critiche o i suoi feedback (ovvero la sua opinione sugli altri)? | sì | no |
| 9. Usa la comunicazione come parte del suo marketing personale? | sì | no |
| 10. Lascia parlare gli altri senza interromperli? | sì | no |
| 11. Presta attenzione al messaggio verbale e non verbale di quello che viene detto (voce, linguaggio del corpo e gestualità)? | sì | no |
| 12. Si prende la responsabilità di ciò che dice? | sì | no |
| 13. Focalizza l’attenzione sull’interlocutore (evitando di ascoltare conversazioni parallele)? | sì | no |
| 14. Mantiene l’attenzione su ciò che le dicono (evitando di distrarsi con i propri pensieri)? | sì | no |
| 15. Risponde direttamente a ciò che le viene chiesto (senza giri di parole)? | sì | no |
| 16. Mostra interesse per ciò che viene detto, tramite lo sguardo, la postura o segnali di supporto ed approvazione? | sì | no |
| 17. Ripete i punti importanti di ciò che le dicono per essere sicuro di aver capito bene? | sì | no |
| 18. Cerca di memorizzare fatti importanti e caratteristiche del suo interlocutore? | sì | no |
| 19. Accetta le critiche, i suggerimenti o i feedback (ovvero le opinioni degli altri su di lei)? | sì | no |
AGRADECIMENTOS
Os autores gostariam de agradecer Anna Beghetto, Cecilia Pascucci e Debora Bibiano por contribuírem com as traduções do TACCom brasileiro para o italiano, na primeira fase da adaptação. Além de Janaina Tessari, por ter contribuído com a retrotradução do TACCom-IT para o PB. As fonoaudiólogas Anna Beghetto e Cecilia Pascucci participaram também do comitê na quarta fase do estudo.
-
O trabalho foi realizado no Centro de Estudos da Voz - CEV - São Paulo (SP), Brasil.
-
Fonte de financiamento:
nada a declarar.
-
Disponibilidade de Dados:
Os dados de pesquisa não estão disponíveis.
-
Utilização de tecnologia assistida por inteligência artificial
Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial na investigação aqui reportada nem na preparação deste artigo.
REFERÊNCIAS
- 1 Behlau M, Madazio G. Abordagem fonoaudiológica no aprimoramento da comunicação em público. In: Lopes L, Moreti F, Zambom F, Vaiano T. Fundamentos e atualidades em Voz Profissional. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações; 2022. p. 107-16.
-
2 Pabón-Carrasco M, Martínez-Sánchez AM, Rodríguez-Gallego M. Competencia comunicativa. Educação e Fronteiras. 2022;e023018. https://doi.org/10.30612/eduf.v12in.esp.1.17111
» https://doi.org/10.30612/eduf.v12in.esp.1.17111 -
3 Fahm I, Ali H. Determination of career planning and decision making: analysis of communication skills, motivation and experience (Literature review human resource management). Dinasti Int J Management Science. 2022;3(5):823-35. https://doi.org/10.31933/dijms.v3i5.1222
» https://doi.org/10.31933/dijms.v3i5.1222 -
4 Zhong X, Tang F, Lai D, Guo X, Yang X, Hu R, et al. The Chinese version of the Health Professional Communication Skills Scale: psychometric evaluation. Front Psychol. 2023;14:1125404. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1125404 PMid:37621938.
» https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1125404 - 5 Menezes MHM, Portas J. Demandas contemporâneas em comunicação profissional. In: Lopes L, Moreti F, Zambom F, Vaiano T. Fundamentos e atualidades em Voz Profissional. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações; 2022. p. 155-67.
-
6 Behlau M. Teste de Autoavaliação da Competência Comunicativa [Internet]. 2002 [citado em 2020 Jul 5]. Disponível em: www.cevfono.com
» www.cevfono.com -
7 Ribeiro VV, Santos MADC, de Almeida AAF, Behlau M. Validation of the Self-assessment of Communication Competence (SACCom) in Brazilian Portuguese Through Item Response Theory. J Voice. 2025;39(1):279.e7-20. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2022.07.013 PMid:36088205.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2022.07.013 - 8 Behlau M, Barbara M. Comunicação Consciente. O que comunico quando me comunico. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações; 2022.
-
9 Giusti E, Befi-Lopes DM. Tradução e adaptação transcultural de instrumentos estrangeiros para o Português Brasileiro. Pro Fono. 2008;20(3):207-10. https://doi.org/10.1590/S0104-56872008000300012 PMid:18852970.
» https://doi.org/10.1590/S0104-56872008000300012 -
10 Mokkink LB, Terwee CB, Patrick DL, Alonso J, Stratford PW, Knol DL, et al. The COSMIN study reached international consensus on taxonomy, terminology, and definitions of measurement properties for health-related patient-reported outcomes. J Clin Epidemiol. 2010;63(7):737-45. https://doi.org/10.1016/j.jclinepi.2010.02.006 PMid:20494804.
» https://doi.org/10.1016/j.jclinepi.2010.02.006 -
11 Pedrotti CA, Behlau M. Recursos comunicativos de executivos e profissionais em função operacional. CoDAS. 2017;29(3):e20150217. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20172015217 PMid:28538820.
» https://doi.org/10.1590/2317-1782/20172015217 - 12 Katz RL. Skills of an effective administrator. Harvard Bus Rev. 1974;52(5):90-102.
-
13 Alexandre NM, Coluci MZ. Validade de conteúdo nos processos de construção e adaptação de instrumentos de medidas. Cien Saude Colet. 2011;16(7):3061-8. https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000800006 PMid:21808894.
» https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000800006 -
14 Beaton DE, Bombardier C, Guillemin F, Ferraz MB. Guidelines for the process of cross-cultural adaptation of self-report measures. Spine. 2000;25(24):3186-91. https://doi.org/10.1097/00007632-200012150-00014 PMid:11124735.
» https://doi.org/10.1097/00007632-200012150-00014 -
15 Reichenheim ME, Moraes CL. Operationalizing the cross-cultural adaptation of epidemological measurement instruments. Rev Saude Publica. 2007;41(4):665-73. https://doi.org/10.1590/S0034-89102006005000035 PMid:17589768.
» https://doi.org/10.1590/S0034-89102006005000035
Editado por
-
Editora:
Aline Mansueto Mourão.
Os dados de pesquisa não estão disponíveis.


Legenda: PB= português brasileiro, T1= tradutor 1 português-italiano; T2= tradutor 2 português-italiano; T3= tradutor 3 português-italiano; VCI= versão em italiano consenso; R= retrotradução do italiano para o PB