Open-access Entre becos e escadarias: mobilidade, território e envelhecimento em favelas brasileiras

Resumo

O envelhecimento em favelas brasileiras é atravessado por desigualdades estruturais que conformam condições precárias e produzem experiências cotidianas heterogêneas. A partir do Censo 2022 (IBGE) e de pesquisa de campo com entrevistas e observação nas comunidades do Morro da Providência e Complexo do Jacarezinho (RJ), analisam-se espacialidades desenvolvidas por idosos: desde intervenções em escadarias e vielas até a circuitos alternativos de mobilidade, desconstruindo estereótipos sobre territórios periféricos. Essas práticas revelam velhices que contestam narrativas hegemônicas – especialmente as que associam envelhecer à decadência ou passividade –, sustentando-se em redes locais de sociabilidade. Os resultados sugerem que políticas urbanas sensíveis a essas dinâmicas podem tanto ampliar possibilidades existenciais quanto ressignificar paradigmas que historicamente invisibilizam tais experiências.

Palavras-chave:
envelhecimento; favelas e comunidades urbanas; interseccionalidade; mobilidade; acessibilidade urbana

Abstract

Aging in Brazilian favelas is shaped by structural inequalities that produce precarious living conditions and heterogeneous everyday experiences. Drawing on the 2022 Census (IBGE) and field research (interviews and observation) in Morro da Providência and Jacarezinho (city of Rio de Janeiro), this study examines spatial practices developed by older adults – from adapting stairways and alleyways to creating alternative mobility routes – that challenge stigmatizing stereotypes about peripheral territories. These practices reveal aging experiences that counter hegemonic narratives (which often equate aging with decline or passivity) and are sustained through local sociability networks. The findings suggest that urban policies attuned to these dynamics could both expand existential possibilities and transform the paradigms that historically invisibilize such experiences.

Keywords:
aging; favelas and urban communities; intersectionality; mobility; urban accessibility

Introdução

O envelhecimento populacional no Brasil é marcado por profundas desigualdades socioeconômicas e regionais (Neumann e Albert, 2018). Nas cidades, as transformações na estrutura etária e nas trajetórias individuais do envelhecimento se somam a fatores como raça, classe, gênero e precariedade urbana (Campelo e Paiva et al., 2021; Silva, 2019a). Nesse contexto, as favelas e comunidades urbanas brasileiras, que abrigam mais de 16 milhões de pessoas, têm recebido atenção crescente tanto nas estatísticas públicas quanto na produção acadêmica devido aos múltiplos desafios relacionados à insegurança jurídica, à precariedade dos serviços públicos, às edificações autoconstruídas e à localização em áreas de risco ambiental (IBGE, 2024a). É nesse cenário que este artigo propõe analisar a interface entre envelhecimento, mobilidade e acessibilidade urbana, com foco nas experiências de idosos em favelas e comunidades urbanas (FCUs) brasileiras.

Partimos de duas premissas fundamentais: (1) a velhice é um fenômeno situado no tempo e no espaço, variando conforme os contextos socioeconômicos e culturais; e (2) as estruturas materiais das periferias urbanas produzem corporeidades envelhecidas específicas. A pesquisa concentra-se nos casos do Morro da Providência e do Complexo do Jacarezinho, no município do Rio de Janeiro (RJ), buscando compreender como as condições de infraestrutura, a falta de acessibilidade e a violência urbana impactam a qualidade de vida e a mobilidade cotidiana dos idosos.

Nesse contexto, o artigo discute a mobilidade e a acessibilidade urbana diante do envelhecimento populacional nas favelas e comunidades urbanas do Sul Global. Embora o envelhecimento tenha sido amplamente estudado em países do Norte Global, onde há acesso consolidado à previdência e infraestrutura urbana eficiente (Skinner, Cloutier e Andrews, 2014), essa lacuna é particularmente evidente no Sul Global, onde as condições urbanas desiguais e a informalidade desafiam os modelos tradicionais de envelhecimento ativo. O objetivo central, portanto, é explorar as dinâmicas vividas por idosos nas favelas brasileiras, em contextos marcados pela informalidade, pelas desigualdades socioeconômicas e pela fragilidade da infraestrutura urbana.

Para isso, a análise adota uma perspectiva interseccional (Calasanti e King, 2015), examinando as interações entre gênero, raça e classe nas experiências de envelhecimento e de mobilidade e como essas variáveis amplificam as dificuldades de acesso a serviços básicos, como transporte e saúde. Essa abordagem permite compreender como o território reproduz desigualdades sociais e espaciais, incidindo diretamente sobre as experiências de envelhecimento e sobre a autonomia dos sujeitos. A metodologia é qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas e observações de campo, de modo que as vozes dos próprios idosos são inseridas nas discussões sobre políticas públicas e as dinâmicas que os afetam.

Os interlocutores são apresentados por meio de suas memórias, visando reconstruir suas histórias de vida, percepções de envelhecimento, vivências espaciais e compreensões sobre a formação das comunidades ao longo do tempo. As entrevistas revelam que a favela, revisitada nas memórias, é percebida não apenas como um espaço físico, mas como um território de transformação social e afetiva. A conversão do espaço em lugar carregado de significados permitiu aos entrevistados rememorar eventos marcantes de suas trajetórias. O lugar, portanto, assume papel central na construção das narrativas, uma vez que a memória está profundamente vinculada a espaços dotados de valor simbólico (Bosi, 1994).

A interseção entre memória e velhice propõe uma investigação sobre como as experiências dos idosos se entrelaçam com o contexto das favelas, destacando a importância do espaço na construção das identidades e na definição das formas de envelhecer. As trajetórias reconstruídas demonstram que é possível superar visões reducionistas sobre a velhice, apresentando os idosos como sujeitos ativos, com perspectivas de futuro, participação nas lutas por moradia e nas práticas cotidianas que sustentam a vida comunitária.

As narrativas reforçam que compreender o envelhecimento exige ultrapassar uma perspectiva biológica e demográfica, entendendo-o como uma categoria socialmente construída e múltipla. Nos relatos dos idosos que participaram desta pesquisa, o significado do envelhecer é moldado por marcadores sociais e biológicos, como a capacidade de realizar atividades cotidianas e produtivas – cuja perda é frequentemente vista como um dos sinais mais evidentes da velhice. Outros elementos, como o embranquecimento dos cabelos, as rugas, a diminuição da força física e o exercício de papéis familiares também compõem essa percepção plural do envelhecer.

Para preservar a identidade dos participantes, foram utilizados pseudônimos inspirados em elementos da natureza, simbolizando suas trajetórias de resistência, adaptação e enraizamento. Essa escolha reforça a conexão entre suas histórias e a força simbólica da natureza – que, como os idosos, enfrenta adversidades e floresce mesmo em contextos desafiadores.

Assim, este artigo dialoga com o envelhecimento tanto em seus aspectos individuais (associados ao aumento da longevidade) quanto estruturais (ligados à mudança da composição etária da população), contribuindo para a literatura sobre envelhecimento, mobilidade e acessibilidade urbana. Argumenta-se que as transformações demográficas e as condições territoriais específicas das favelas moldam as experiências de envelhecimento e produzem práticas cotidianas de resistência e adaptação.

O trabalho está organizado em quatro seções. A primeira apresenta dados demográficos que contextualizam o perfil do envelhecimento no Brasil. Na segunda, discutimos como o território interfere nas experiências do envelhecer. A terceira descreve os caminhos metodológicos, os processos de acesso aos interlocutores, as práticas espaciais observadas e a caracterização do território a partir da abordagem qualitativa e da escuta de idosos nas favelas. Na quarta seção, analisamos a mobilidade urbana nesses contextos, considerando o ambiente social, as barreiras físicas e as estratégias de reprodução socioterritorial. Por fim, as considerações finais apresentam a síntese dos resultados, contribuições e limitações da discussão, com apontamentos sobre caminhos para pesquisas futuras.

Transição demográfica, envelhecimento e interseccionalidade

Como reflexo das transformações demográficas, a proporção da população idosa no Brasil tem crescido de forma contínua nas últimas décadas. Há redução da taxa de natalidade, aumento da expectativa de vida e melhorias nas condições de saúde e saneamento (Camarano, Kanso e Mello, 2004). Estima-se que o percentual de pessoas com 60 anos ou mais passou de 3,2% em 1900 para 15,8% em 2022 – mudança estrutural que tem implicações importantes para o planejamento urbano e social, principalmente em territórios marcados por desigualdades e desafios de infraestrutura (Tabela 1).

Tabela 1
– Evolução da população idosa no Brasil (1872–2022)

O envelhecimento não ocorre de maneira homogênea no País. A Figura 1 apresenta as mudanças nos grupos etários acima de 60 anos em cada Unidade Federativa (UF), a partir de 1970. Além da tendência geral de aumento da proporção de idosos, os dados recentes confirmam as perspectivas do envelhecimento no País (Camarano, Kanso e Mello, 2004; Cepellos, 2021), com peso crescente das mulheres, da feminização da velhice e do grupo com mais de 80 anos. Além disso, há clara desigualdade regional e nos espaços urbanos e rurais, que contribuem para formas diversas de vivenciar a velhice no Brasil. Estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul possuem proporções maiores de idosos, enquanto estados das regiões Norte e Nordeste ainda apresentam uma população majoritariamente jovem, embora também em processo de envelhecimento (IBGE, 2024). Ademais, até 2010 (último ano com disponibilidade de dados da população urbana e rural por grupos etários), há disparidades entre esses espaços. Os estados do Amazonas e de Pernambuco, por exemplo, apresentavam proporções de idosos próximas entre as populações rurais e urbanas: no Amazonas eram 5,7% e em Pernambuco, 6,1% – 10,6% para ambas as populações. Já em outras UFs havia mais idosos, proporcionalmente, nos espaços rurais. É o caso do Rio Grande do Sul (17% e 13%), Goiás (12,2% e 9%) e Rondônia (8,4% e 6,8%).

Figura 1
– Distribuição proporcional de idosos segundo sexo e grupos de idade, UFs, 1970-2022

Nesse contexto, as diferentes fases que compõem a vida de idosos também influenciam o envelhecimento. Uma definição comum no Brasil atual trata da heterogeneidade desses grupos classificando-os em idosos jovens (60 a 79 anos) e idosos longevos (80 anos e mais), considerando questões relativas ao bem-estar, à acessibilidade urbana e à saúde pública. O primeiro, com maior relativa autonomia funcional e participação social, enquanto o segundo teria maior prevalência de condições de fragilidade, declínio cognitivo e maior dependência nas atividades diárias (Lee et al., 2018; Navarro et al., 2015).

Entre a população em FCUs e a população total, as diferenças também são marcantes. Como a Figura 2 indica, a população em FCUs passa por um processo de envelhecimento menos intenso do que o visto na população total, mas já com grupos das diferentes fases idosas. Salvo o Pará, em todas as UFs a diferença em pontos percentuais entre os grupos etários que formam a população idosa é favorável à população não residente em favelas. Em termos gerais, as diferenças também são maiores em UFs mais envelhecidas, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Nesse caso, também há feminização da velhice, além de uma concentração diferencial. Espírito Santo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Minas Gerais apresentam o maior envelhecimento para as FCUs. Já o Distrito Federal e Roraima possuem os menores valores.

Figura 2
– População idosa em favelas e comunidades urbanas e total (exceto favelas e comunidades urbanas), 2022)

A leitura desses dados deve, portanto, ser associada à compreensão do espaço como categoria central de análise. A experiência de envelhecer está profundamente vinculada ao território onde se vive. Condições como moradia, mobilidade urbana, segurança pública, acesso à saúde, ao lazer e a equipamentos coletivos variam enormemente nas cidades brasileiras, especialmente nas favelas e periferias urbanas, marcadas por desigualdades históricas.

A compreensão do envelhecimento no Brasil exige, portanto, um olhar atento para os contextos territoriais em que os sujeitos estão inseridos. De acordo com Campelo e Paiva et al. (2021), a velhice é vivida de maneira distinta, dependendo das condições urbanas e socioespaciais que moldam o cotidiano: acesso à infraestrutura, transporte, serviços públicos, segurança, moradia adequada e oportunidades de sociabilidade. São essas variáveis que mediam, facilitam ou limitam o direito de envelhecer com dignidade. Em territórios marcados por desigualdades estruturais, a experiência do envelhecimento tende a ser atravessada por desafios que extrapolam as dimensões individuais ou biológicas da velhice (Batista, Proença e Silva, 2021), revelando a centralidade do espaço na constituição das possibilidades – ou impedimentos – de viver mais e melhor.

Ao discutir o Sistema Único de Saúde (SUS) e os desafios da proteção social às populações idosas em contextos de crise e contrarreformas, Campelo e Paiva et al. (2021) destacam que raça/etnia, gênero e classe social são indissociáveis na análise do envelhecimento. A perspectiva interseccional proposta pelos autores evidencia que o patriarcado, o racismo estrutural e as desigualdades econômicas – seja pela posse dos meios de produção, seja pela dependência da força de trabalho – influenciam diretamente as experiências do envelhecer. Além desses marcadores sociais, o contexto espacial – expresso no local de moradia, nas condições habitacionais e no acesso aos serviços públicos – é elemento central nas condições de vida da população idosa (Antunes et al., 2023). As ausências e presenças nesses territórios impactam diretamente a percepção dos moradores de favelas sobre o viver e o envelhecer nesses espaços.

O Censo Demográfico (IBGE, 2022) revela as contradições desses territórios. No acesso à rede de esgoto, 61,39% das residências em favelas estão conectadas, diante de 64,69% da média nacional. Já o abastecimento de água por rede geral apresenta um cenário paradoxal: é superior nas favelas (86,38%) em comparação com o total do País (83,88%). O mesmo ocorre com a cobertura da coleta de lixo, que atinge 96,73% das moradias em favelas, contra 91,71% da média nacional. Essa aparente vantagem, porém, oculta desafios cotidianos, como a intermitência na prestação do serviço, a informalidade e a baixa qualidade, frequentemente relatadas por moradores em pesquisas de campo. Um morador do Complexo de Manguinhos – comunidade vizinha ao Jacarezinho – relatou à Agência Brasil: “A prefeitura coloca caçambas em determinados pontos, mas elas não conseguem receber todo o lixo produzido nesse território, porque são muitas pessoas” (Barbosa, 2024).

Essas deficiências estruturais revelam que, para além das estatísticas, a precariedade dos serviços públicos nas favelas constitui um fenômeno sistêmico e historicamente enraizado (Pinheiro, 2022). Problemas como abastecimento irregular de água, esgoto a céu aberto e instabilidade energética não são exceções, mas condições crônicas que atravessam gerações, como evidenciam as denúncias recorrentes dos moradores. A combinação entre infraestrutura deficiente e gestão pública insuficiente reforça um cenário de abandono institucionalizado.

Em entrevista realizada em 2024, uma idosa moradora da Favela do Jacarezinho (RJ) resume: “Aqui, o lixo fica dias acumulados, a luz cai todo mês e a água some sem aviso. [...] Vários fatores diminuem a qualidade de vida do favelado. Enquanto pessoas de outros lugares da cidade têm acesso a médicos e serviços de saúde, nós enfrentamos uma vida de descaso” (Primavera, 67 anos – Jacarezinho). O relato demonstra a sobreposição entre privações materiais e desigualdades territoriais: a falta de acesso a serviços básicos compromete severamente as condições para uma velhice digna e reforça a determinação social do processo (Teixeira, 2020).

Além disso, a exposição prolongada a riscos ambientais, como contato com esgoto não tratado, lixo acumulado e presença constante de vetores, intensifica quadros de doenças crônicas e problemas respiratórios, reduzindo a expectativa de vida saudável dessa população (Cardiano, 2022). Essa dinâmica, longe de ser uma condição natural, reflete um projeto político de exclusão territorial que naturaliza a precariedade como destino das periferias. Como relata uma idosa do Morro da Providência:

Olha! Eu ando tranquila na parte onde moro. O único problema é quando tenho que descer direto para a Gamboa, o espaço é muito apertado. Para você descer uma moto, tem que encostar na parede para ver se a moto passa. Agora, escada mesmo, não muito. Como moro embaixo, só tem uma ou duas escadinhas, que nem são tão altas. Mas, para quem mora mais para cima, acho que é mais complicado, porque a moto só vai até a escada da praça. Daí pra cima, quem mora lá tem que subir a pé. Minha ex-nora, por exemplo, mora lá em cima. Vou te dizer, é muito difícil. Tem esgoto, lixo, rato passando. Vixe Maria! E tudo isso exposto. (Sucupira, 60 anos – Morro da Providência)

Essas disparidades materializam as desigualdades territoriais, articulando-se ao racismo ambiental e à negligência histórica do Estado diante das periferias urbanas. Trajetórias de vida marcadas por discriminação racial, de classe e de gênero resultam em processos de envelhecimento atravessados por múltiplas privações (Campelo e Paiva et al., 2021). A precariedade da mobilidade urbana, sobretudo nas favelas, reforça o isolamento de idosos que vivem em territórios vulnerabilizados. Envelhecer, portanto, não é apenas um processo biológico, mas profundamente social (Teixeira, 2020). Em sociedades moldadas pela lógica neoliberal, as desigualdades acumuladas ao longo da vida se intensificam na velhice (Campelo e Paiva, 2014), sobretudo entre aqueles que dependem exclusivamente das políticas públicas.

O exemplo da coleta de lixo, aparentemente mais eficiente nas favelas, ilustra bem essa contradição: mesmo quando os serviços públicos avançam, a dependência exclusiva deles revela a ausência de alternativas e aprofunda os ciclos de marginalização. Assim, envelhecer em favelas significa resistir cotidianamente às ausências do Estado e às barreiras impostas pela cidade, transformando o viver e o envelhecer em um ato contínuo de resistência e reinvenção.

O peso do território no corpo que envelhece

Para aprofundar a compreensão sobre a materialização do contexto estrutural das FCUs nas experiências concretas do envelhecimento, adotamos uma perspectiva geográfica, inspirada na teoria dos sistemas de objetos e ações (Santos, 1996), que permite analisar o envelhecimento a partir da inter-relação entre os elementos materiais do território – os objetos – e as práticas sociais dos sujeitos – as ações. Essa abordagem considera o espaço urbano como uma totalidade complexa, onde técnicas, relações sociais e história se entrelaçam para moldar as experiências heterogêneas da velhice nas favelas.

Neste estudo, buscamos compreender como os componentes espaciais e as dinâmicas sociais influenciam as trajetórias de envelhecimento dos idosos que vivem nesses territórios. Propomos um quadro conceitual que articula as formas espaciais, os conteúdos sociais e a interação entre eles, revelando como infraestruturas, equipamentos culturais e moradias se conectam às práticas cotidianas, às lutas políticas e às redes de sociabilidade presentes nas favelas. Os principais elementos dessa rede estão dispostos no Quadro 1. Destaca-se o papel ativo dos moradores na produção do espaço e na criação de práticas de sociabilidade, resistência e adaptação ao território. A materialidade de objetos urbanos – como escadarias, becos, equipamentos públicos e moradias autoconstruídas – representa tanto restrições quanto possibilidades para a mobilidade, saúde e sociabilidade dos idosos. Ao mesmo tempo, as práticas cotidianas, que vão desde mutirões e redes de cuidado até a festas e ações de mobilizações políticas, ressignificam o território, reforçando a autonomia dos sujeitos envelhecidos.

Quadro 1
– Redes socioespaciais de objetos e ações nas favelas: dimensões da experiência de envelhecimento

Nesse contexto, o corpo do idoso é compreendido como um espaço pessoal, onde as limitações físicas interagem com as rugosidades do espaço, como a dificuldade de acesso em áreas íngremes e a ausência de equipamentos adaptados. Esse raciocínio dialoga com Beauvoir (1976) e Debert (1999), que consideram a velhice como uma construção social, atravessada por marcadores de classe, raça e gênero. A partir dessa perspectiva, introduzimos a espacialidade do envelhecimento, com práticas e estruturas que ensejam múltiplas formas de envelhecer.

As marcas da segregação socioespacial, como a falta de acessibilidade e equipamentos adaptados nas áreas de morro, impõem ritmos diferenciados de envelhecimento, que contrastam com o tempo acelerado das políticas de modernização. Essa análise abrange as escalas: micro, com o corpo do idoso e suas mobilidades alternativas; meso, com o território favelado como arena de conflitos entre abandono estatal e solidariedade comunitária; macro, que vê o envelhecimento populacional como fenômeno global, mas com expressões locais diversas.

Este estudo mostra que envelhecer em favelas, processo cada vez mais presente, é um ato de resistência. Os idosos transformam seus espaços pessoais, como quintais e lajes, em lugares de memória e cuidado, enquanto lideram lutas por direitos, desafiando estereótipos de passividade. Nessas comunidades, ser idoso e envelhecer traz uma rede complexa de relações entre as condições materiais, as práticas sociais e a capacidade dos sujeitos de resistir, mostrando que as vulnerabilidades coexistem com formas inovadoras de resistência no território.

Percursos metodológicos: acesso aos sujeitos e práticas espaciais no território

O trabalho de campo estruturou-se como uma escuta situada, orientada pelo compromisso ético e pela construção gradual de relações de confiança. Estar nos territórios implicou negociar presenças, silêncios e receios (Beaud e Weber, 2007), exigindo sensibilidade às dinâmicas sociais do Jacarezinho e do Morro da Providência. A entrada no campo ocorreu progressivamente, a partir do contato com equipes do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Caio Fernando Abreu, do Instituto Entre o Céu e a Favela, da Legião da Boa Vontade, do movimento Eu Amo Jacarezinho e de lideranças comunitárias. Cartas de apresentação, participação em reuniões e visitas acompanhadas foram essenciais para legitimar a pesquisa e viabilizar o acesso aos interlocutores.

A mediação de moradores facilitou o mapeamento inicial dos territórios e favoreceu a formação de um ambiente de confiança. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assegurou adesão voluntária e informada de todas as pessoas participantes.

Entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025, realizaram-se entrevistas semiestruturadas com dez pessoas idosas dos territórios. A seleção seguiu a técnica de amostragem em bola de neve, adequada para grupos de difícil acesso e pesquisas que envolvem experiências sensíveis (Bockorni e Gomes, 2021; Vinuto, 2014). A rede de participantes expandiu-se a partir de informantes-chave até a saturação teórica.

Foram incluídas pessoas idosas com vivências relacionadas ao uso, à formação ou transformação dos territórios e com condições físicas e cognitivas para participar. Excluíram-se indivíduos que apresentavam comprometimento cognitivo severo e doenças crônicas avançadas que dificultassem a comunicação ou situações que pudessem comprometer seu bem-estar.

A abordagem metodológica qualitativa mostrou-se adequada para captar percepções, memórias e práticas espaciais não apreensíveis por métodos quantitativos (Minayo, 2001). Três procedimentos principais foram utilizados: entrevistas semiestruturadas, observações registradas em diário de campo e análise de dados secundários do Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2022) que auxiliaram na contextualização dos territórios. A localização das áreas analisadas é apresentada na Figura 3.

Figura 3
– Localização da área de estudo: favelas do Complexo do Jacarezinho e do Morro da Providência

A inserção prolongada no campo reforçou a importância da posicionalidade do pesquisador (Haraway, 1995) e da responsabilidade ética na interpretação das narrativas. As entrevistas permitiram reconstruir trajetórias individuais, memórias sobre a formação das favelas, experiências de trabalho, redes de apoio e percepções acerca das transformações socioespaciais. Seguiram-se as etapas descritas por Beaud e Weber (2007), que incluem a negociação da participação, a condução, a transcrição e os retornos pontuais para esclarecimentos.

O roteiro contemplou dimensões relativas às histórias de vida, rotinas atuais, expectativas futuras e práticas espaciais, aos processos de envelhecimento e sentidos de pertencimento, possibilitando apreender dinâmicas cotidianas, continuidades e rupturas no envelhecimento em territórios populares.

Apesar da proximidade com importantes vias, como a Linha Amarela, o Jacarezinho enfrenta precariedade urbana e fragmentação de políticas públicas. O complexo de favelas dispõe de apenas três unidades de saúde para toda a população, enquanto persistem problemas crônicos de saneamento. Para os idosos, a mobilidade é agravada pela ausência de transporte interno e pela instabilidade gerada por conflitos armados e incursões policiais, que restringem horários e rotas de circulação.

A história local remonta ao século XVIII, quando a área integrava o Engenho Novo dos Jesuítas (Paulino, 2017). A ocupação intensificou-se a partir da década de 1920 (Abreu, 2020), consolidando o Jacarezinho como uma das maiores favelas da cidade. Apesar do acesso a serviços básicos, sua qualidade é precária, marcada por esgoto a céu aberto e infraestrutura sobrecarregada (Paulino, 2017).

Na região portuária, o Morro da Providência abriga cerca de 4,8 mil habitantes em 1,8 mil domicílios (IBGE, 2024). A topografia íngreme, com escadarias estreitas e sem corrimãos, impõe barreiras diárias à mobilidade, sobretudo para idosos, que dependem de moto táxis. O teleférico, inaugurado em 2014, opera de forma irregular, comprometendo deslocamentos e acesso a serviços essenciais.

Reconhecida como a primeira favela do Brasil, a Providência foi ocupada inicialmente por ex-combatentes negros da Guerra do Paraguai e da Revolta de Canudos (Pinheiro, 2022). Ao longo do tempo, passou por processos de remoção acentuados por políticas de revitalização da zona portuária associadas a megaeventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos (Reginensi e Bautès, 2013). Apesar das limitações estruturais e dos baixos indicadores socioeconômicos (SOS Providência, 2022), 82% dos moradores afirmam gostar de viver no local, destacando vínculos afetivos e redes comunitárias consolidadas.

As observações in loco complementaram as narrativas, permitindo identificar interações e dinâmicas espaciais não verbalizadas. Dados quantitativos auxiliaram na caracterização sociodemográfica dos interlocutores e na contextualização de suas experiências individuais no panorama urbano mais amplo.

Os participantes tinham entre 62 e 84 anos, sendo nove mulheres e um homem, todos residentes há mais de três décadas nos territórios estudados. Para fins analíticos, considerou-se a distinção entre idosos mais jovens (60-79 anos) e idosos longevos (80+), cujas condições de mobilidade e autonomia revelam diferenças significativas na relação com o espaço.

Em síntese, a pesquisa de campo demonstrou que as experiências de envelhecimento nas favelas são inseparáveis das condições territoriais, das redes de sociabilidade e das formas de mobilidade cotidiana. A escuta das narrativas permitiu compreender como o espaço é vivido, percorrido e ressignificado no processo de envelhecer, articulando dimensões éticas, afetivas e socioespaciais presentes no cotidiano dos idosos.

Com cerca de 31 mil habitantes em 12 mil domicílios, o Jacarezinho localiza-se no subúrbio carioca, na zona norte do Rio de Janeiro. Seu relevo predominantemente plano, com exceção de áreas como o Azul – favorece a expansão territorial (0,381 km2), mas resulta em altíssima densidade demográfica (78.130 hab/km2). Formado por 14 comunidades, o território expressa grande complexidade socioespacial.

Quadro 2
– Perfil sociodemográfico dos(as) idosos(as) entrevistados(as)

Mobilidade urbana em favelas

Ao analisar o envelhecimento nas favelas, é fundamental considerar as condições territoriais que influenciam a qualidade de vida dos idosos. As particularidades de cada favela, desde as dificuldades de mobilidade até a ausência de infraestrutura básica, são determinantes para as estratégias de resistência e adaptação dos moradores. Em territórios como o Jacarezinho e o Morro da Providência, as limitações estruturais impõem desafios diários que exigem soluções práticas e, muitas vezes, informais. A seguir, exploraremos como essas condições afetam os moradores, especialmente idosos, e como eles buscam maneiras de resistência e adaptação.

A mobilidade em favelas constitui uma dimensão central da vida urbana e reflete as desigualdades estruturais que atravessam esses territórios. Mais do que simples deslocamento físico, ela envolve dimensões sociais, políticas e simbólicas diretamente relacionadas ao direito à cidade, ao pertencimento e à qualidade de vida dos moradores.

Silva et al. (2016) propõem uma abordagem ampliada do conceito, distinguindo dois tipos de movimento: o físico, relativo à circulação das pessoas pelos territórios, e o social, associado aos processos de ascensão ou queda socioeconômica. Para os autores, a mobilidade deve ser entendida como um processo de encontros e pertencimentos na cidade, que abrange, também, dimensões residenciais, laborais e migratórias. Essa perspectiva permite analisar a mobilidade nas favelas não apenas como questão de infraestrutura, mas como uma experiência cotidiana marcada por percepções espaciais, vínculos sociais e graus diferenciados de autonomia.

Quadro 3
– Dimensões do envelhecer em favelas: comparativo entre Jacarezinho e Providência1

Santos (2015) e Santos e Gonçalves (2017) ressaltam que as favelas situadas em encostas e áreas de alta densidade construtiva, como o Morro da Providência, apresentam desafios específicos à circulação, condicionados pela topografia, pelos riscos ambientais e pela limitação dos acessos viários. Nesses contextos, a mobilidade é moldada pela forma urbana e pela desigualdade social, expressando tanto barreiras físicas quanto simbólicas.

No Rio de Janeiro, o crescimento das favelas reflete processos socioespaciais, culturais e econômicos que transformaram a paisagem e a estrutura urbana da cidade. Izaga e Pereira (2014) destacam que a mobilidade urbana se tornou eixo central das políticas de urbanização nas últimas décadas, especialmente nos programas Favela-Bairro (1993) e Programa de Aceleração do Crescimento – PAC (2007). Tais iniciativas buscaram integrar as favelas à malha formal, ampliando sua conectividade física e simbólica com o restante da cidade. Entretanto, intervenções realizadas em territórios como Rocinha, Pavão-Pavãozinho/Cantagalo e Complexo do Alemão revelaram limitações: apesar de tratarem a mobilidade como condição de cidadania e acesso, muitas soluções – como escadarias, planos inclinados e teleféricos – priorizaram o aspecto técnico das obras, sem considerar plenamente os modos de deslocamento e as práticas cotidianas dos moradores. Assim, compreender a mobilidade em favelas requer reconhecer sua articulação entre morfologia urbana, política pública e experiência vivida.

De modo convergente, Legroux, Britto e Benetti (2019) analisam a mobilidade como um dos grandes desafios urbanos contemporâneos, sobretudo nas favelas cariocas, onde as limitações do Estado e as especificidades morfológicas, marcadas pela autoconstrução, alta densidade e redes viárias formadas por becos, vielas e escadarias, impõem restrições significativas ao direito de ir e vir. Para os autores, é fundamental distinguir duas dimensões interdependentes: a mobilidade interna, ligada à circulação e ao acesso a serviços dentro do território, e a mobilidade externa, associada à articulação com a cidade formal e às oportunidades urbanas mais amplas.

Entre os idosos moradores de favelas, essas barreiras físicas e simbólicas tornam-se ainda mais marcantes. A acessibilidade precária, a topografia acidentada e as deficiências nos serviços urbanos impactam diretamente a autonomia, a sociabilidade e o bem-estar, tornando a mobilidade um eixo fundamental para compreender as experiências do envelhecimento nesses territórios.

Essa vivência se manifesta em múltiplas escalas. No plano urbano, calçadas irregulares, transporte limitado e ausência de acessibilidade reduzem a participação social das pessoas idosas, evidenciando como o desenho da cidade reproduz desigualdades no acesso a serviços e oportunidades. No interior das favelas, escadarias íngremes, becos estreitos e infraestrutura insuficiente – como coleta irregular de lixo, falhas no abastecimento de água e energia – transformam a mobilidade em esforço físico e social contínuo. Já na escala doméstica, a verticalização das moradias e a ausência de rampas convertem escadas e degraus em obstáculos permanentes à autonomia. A mobilidade, portanto, revela-se como um fenômeno multiescalar que atravessa o urbano, o comunitário e o doméstico, sendo decisiva para compreender as desigualdades e vulnerabilidades do envelhecimento. Escadarias sem adaptação, ausência de rampas, desníveis acentuados, falta de corrimãos e vias malconservadas tornam o deslocamento cotidiano mais difícil, especialmente diante da precariedade do transporte público e das falhas nos serviços básicos.

Para além das barreiras físicas, o ambiente social também condiciona a mobilidade. A violência urbana e as recorrentes operações policiais restringem o direito de ir e vir gerando medo, confinamento e insegurança (Bueno, 2018). A circulação de pessoas idosas torna-se ainda mais limitada em territórios marcados por conflitos armados e pela ausência de políticas de proteção territorial. Nessas condições, mobilidade e segurança se entrelaçam, afetando diretamente o pertencimento e a dignidade no envelhecimento.

Diante desses entraves, os moradores desenvolvem estratégias de reprodução socioterritorial que revelam agência e capacidade de adaptação. Entre elas, destacam-se a reorganização das rotinas, o apoio de redes locais de cuidado e o uso de transportes alternativos – como vans, mototáxis e kombis – que, embora essenciais ao deslocamento, operam frequentemente em condições precárias, sem regulação ou garantia de acessibilidade. Essa informalidade expõe os idosos a riscos adicionais e evidencia a ausência do poder público na provisão de transporte digno e inclusivo.

Essas práticas demonstram uma dimensão ativa do envelhecimento e apontam para formas de resistência e permanência no território. Contudo, tais estratégias não são soluções definitivas nem substitutas da responsabilidade estatal na promoção da acessibilidade urbana. Como destacam Laws (1994) e Schwanen, Hardill e Lucas (2012), o direito à mobilidade é elemento estruturante de um envelhecimento com qualidade de vida, especialmente quando considerado em articulação com as desigualdades sociais e as condições ambientais dos territórios populares.

A reflexão dos entrevistados sobre alternativas para melhorar a infraestrutura e a mobilidade nas favelas destaca iniciativas que emergem do próprio território. Essas ações – muitas vezes informais, mas profundamente necessárias – expressam formas de organização coletiva e de apropriação do espaço nas quais os moradores se mobilizam para superar limitações estruturais e ampliar suas condições de vida. Apesar disso, enfatizam que o Estado deve assumir papel mais ativo nesse processo, reconhecendo e incorporando as soluções comunitárias já desenvolvidas.

Ao acompanhar as rotas e trajetos cotidianos percorridos por pessoas idosas, as escadas ganham destaque nas narrativas, assumindo significado ambíguo. Por um lado, representam conquista histórica dos moradores, que transformaram caminhos e desníveis em passagens funcionais; por outro, constituem um dos principais obstáculos à mobilidade de idosos (especialmente os mais longevos), gestantes e pessoas com deficiência, dada a ausência de acessibilidade e a precariedade de manutenção dessas estruturas:

Melhorar a escada. Ter corrimão, condições de descer e subir sem precisar pagar alguém. Porque muitas vezes o idoso não tem dinheiro e nem alguém para ajudar. Já vi gente ficar sem poder sair de casa, correndo risco de morrer esperando socorro. A ambulância demora muito, às vezes mais de uma hora. (Alecrim, 84 anos – Morro da Providência)

A complexidade da mobilidade se intensifica quando o desenho do território interfere na escala doméstica. No caso de Arruda, por exemplo, o acesso aos quartos (no segundo piso) e à lavanderia (no terceiro) ocorre apenas por escadarias. Sua mãe, com 89 anos e acamada, permanece isolada devido às restrições impostas pelo espaço e à ausência de alternativas de deslocamento dentro da própria casa.

O acesso da minha casa até a cidade é feito pela escadaria. Para descer, Deus ajuda. Para subir, é um sofrimento. Às vezes preciso pagar alguém para ajudar, como acontece com minha mãe. Ela não consegue subir nem descer sozinha. Para chegar lá embaixo, onde tem acesso a carro, é difícil. E para subir de volta, é a mesma coisa. Essa escada mata qualquer um. Tenho que subir e descer várias vezes. Carregar peso então, só pagando alguém para ajudar. Quando não tenho dinheiro, aí complica. (Arruda, 72 anos – Morro da Providência)

Esses relatos reiteram o caráter multiescalar da mobilidade, que atravessa desde o urbano, marcado por barreiras arquitetônicas e transporte precário, até o doméstico, onde escadas e desníveis dificultam a autonomia. O Quadro 4 aprofunda essas escalas, contextualizando o envelhecimento nesses territórios e evidenciando as conexões entre sujeito, espaço, mobilidade e condições de vida.

Figura 4
Escadas de acesso à casa de dona Arruda – Morro da Providência

Figura 5
Escadas de acesso à casa de dona Arruda – Morro da Providência

Quadro 4
– Quadro conceitual do envelhecimento em favelas

Sob uma perspectiva interseccional, o quadro acima também demonstra como gênero, raça/cor e classe social influenciam as experiências de envelhecimento, amplificando as dificuldades de mobilidade e o acesso a serviços básicos. De forma indissociável, compreende-se que os objetos e as ações materializados na estrutura urbana e nos ambientes construídos das favelas – expressos nas práticas cotidianas, espacialidades, memórias e subjetividades – são fundamentais para a reprodução da vida e das relações sociais nesses territórios.

Nesse sentido, ao reconhecer como tais dimensões estruturam o cotidiano e moldam as possibilidades de circulação dos moradores idosos, torna-se essencial observar de que maneira a própria configuração física das favelas condiciona e, muitas vezes, restringe os deslocamentos. A infraestrutura disponível, os caminhos possíveis e as barreiras urbanas que se acumulam no território constituem elementos centrais para compreender a mobilidade, revelando como o envelhecimento se entrelaça às formas de acesso, às rotas utilizadas e às limitações impostas pelo ambiente construído.

No Jacarezinho, a travessa Iza simboliza as dificuldades diárias de deslocamento enfrentadas pelos idosos. Essa escadaria íngreme e estreita conecta o centro da comunidade ao setor Azul, uma das áreas mais elevadas. Moradores apontam essa travessa como uma das principais limitações para a circulação de idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida, incluindo cadeirantes.

A fragilidade da travessa Iza é evidente, com degraus irregulares, alta inclinação e ausência de infraestrutura básica, como corrimãos, nivelamento e iluminação adequada. Além de difícil, a passagem é também perigosa. Embora represente um avanço em relação ao passado, quando o acesso era feito por caminhos de terra batida, sua configuração atual permanece desafiadora para uma parcela significativa da população envelhecida. Durante a pesquisa, interlocutores relataram que os problemas de mobilidade não se restringem a essa travessa, mas se espalham por todo o território, marcado por vias estreitas, desníveis e escadarias improvisadas. Ainda assim, essas escadarias são vistas como uma conquista histórica da comunidade, substituindo soluções improvisadas como o uso das paredes das casas como apoio.

Durante o trabalho de campo, observamos também questões socioambientais que se articulam diretamente à mobilidade cotidiana nas comunidades. Diversos problemas foram mencionados, como a coleta irregular de lixo, agravada pela ausência de caçambas, comprometendo a saúde pública e favorecendo a proliferação de doenças. A rede elétrica local apresenta grande fragilidade, com quedas frequentes de energia causadas pela sobrecarga, afetando especialmente moradores acamados, pessoas doentes e idosos que dependem de refrigeradores para conservar medicamentos e equipamentos essenciais. Soma-se a isso a recorrente falta de água e um sistema de escoamento insuficiente, condições que impactam de forma severa a saúde, o bem-estar e até mesmo os deslocamentos diários de muitos moradores.

Figura 6
– Travessa Iza – Jacarezinho

Figura 7
– Travessa Iza – Jacarezinho

A insuficiência do saneamento básico, visível em diferentes áreas da favela, agrava os riscos à saúde pública. A proximidade das moradias com o rio contaminado, muitas vezes sem qualquer barreira de proteção, expõe as famílias a vetores de doenças – como ratos e mosquitos –, afetando o bem-estar físico e psicológico e limitando a circulação segura nos arredores.

Esses elementos revelam desigualdades territoriais profundas, nas quais a ausência de políticas públicas de infraestrutura se entrelaça à invisibilidade das populações mais vulneráveis. A presença do Estado, quando se torna perceptível, concentra-se sobretudo na esfera da segurança pública, sem avanços equivalentes nas áreas de lazer, esporte e cultura. Lideranças comunitárias enfatizaram a necessidade de investir em iniciativas culturais e organizacionais que promovam o desenvolvimento local, como a criação de espaços de convivência, atividades culturais e projetos comunitários capazes de fortalecer os laços sociais e reduzir o isolamento.

Ao evidenciar como a mobilidade no Jacarezinho é profundamente condicionada pelas condições ambientais, pela limitação da infraestrutura urbana e pelas desigualdades históricas que atravessam o território, torna-se possível ampliar o olhar para outros espaços da cidade onde desafios semelhantes se manifestam de maneiras particulares. Essa comparação é fundamental para compreender como diferentes configurações urbanas, sejam elas de terreno plano ou de encosta, moldam as experiências cotidianas de deslocamento das pessoas idosas. É a partir desse movimento analítico que se avança para o Morro da Providência, onde a relação entre topografia, infraestrutura e envelhecimento produz um conjunto próprio de barreiras e estratégias de mobilidade.

No Morro da Providência, as escadarias representam um desafio constante, especialmente pela ausência de corrimãos e rampas adaptadas. Moradores dependem do teleférico para deslocamentos mais longos e, quando o equipamento está fora de operação, recorrem a alternativas informais como os mototáxis. As condições gerais de mobilidade no morro evidenciam a necessidade de políticas urbanas inclusivas, que assegurem acessibilidade plena e adaptação do espaço público às demandas do envelhecimento populacional.

A mobilidade das pessoas idosas depende tanto de transportes alternativos quanto de esforço físico. Em 2025, os valores cobrados por kombis e mototáxis variavam entre 4 e 5 reais por trajeto, mas, mesmo assim, o acesso às áreas mais altas exige lidar com passagens estreitas, escadarias íngremes e degraus irregulares.

A Escadaria do Cruzeiro, com seus 162 degraus coloridos, é o principal acesso à parte mais alta da comunidade, ladeada por casas que se apoiam nas encostas. A topografia impede a circulação de veículos, tornando o trajeto acessível apenas a pé. A escadaria viabiliza a mobilidade, mas também impõe limitações significativas a idosos, pessoas com mobilidade reduzida e cadeirantes.

Figura 8
– Escadaria do Cruzeiro: um desafio para a mobilidade no Morro da Providência

Na região da Pedra Lisa, área contígua ao Morro, as condições de acessibilidade são igualmente desafiadoras. Escadarias com degraus desnivelados, ausência de corrimãos e passagens estreitas representam riscos constantes. Dona Umbu, de 72 anos, relatou ter sofrido três quedas, em 2025, devido às condições precárias das escadas. Embora haja melhorias pontuais, como a instalação de alguns corrimãos, a comunidade ainda carece de adaptações mais amplas para garantir segurança e bem-estar.

A mobilidade emerge como eixo central nas narrativas dos moradores idosos, revelando como o desenho territorial influencia diretamente as experiências cotidianas. Escadarias íngremes, falta de corrimãos, degraus desnivelados e a ausência de sombra em certos percursos criam situações de insegurança, sobretudo para aqueles com restrições físicas.

Arruda, por exemplo, destacou que para acessar o centro da cidade utiliza preferencialmente a Escadaria da Travessa da Felicidade, por ser a única com corrimão na Pedra Lisa: “Quando preciso ir ao centro da cidade, o principal acesso é a escadaria. Quando está sol forte, desço pelo Morrinho porque tem mais sombra. Quando está nublado, vou pela escada mesmo” (Arruda, 72 anos – Morro da Providência).

De modo semelhante, Alecrim relatou que, na Escada do Morrinho – sem corrimão –, precisa fazer pausas estratégicas para descansar e, em determinados trechos, adota o hábito de andar de lado para lidar com os desníveis. Essas adaptações corporais ilustram como pequenas variações na infraestrutura transformam a experiência do envelhecimento e a autonomia dos moradores.

As limitações no acesso a serviços públicos reforçam a sobreposição de vulnerabilidades. Alecrim também compartilhou as dificuldades de cuidar da mãe, de 89 anos, acamada no segundo andar da residência, dependendo do auxílio de vizinhos para qualquer deslocamento. Essas vivências evidenciam que a mobilidade não se limita às barreiras físicas, mas envolve dimensões domésticas, coletivas e simbólicas do espaço vivido. Por um lado, a situação expõe fragilidades sistêmicas; por outro lado, emergem formas de solidariedade e cooperação que mitigam as restrições impostas pelo território. A manutenção comunitária das escadarias, o apoio a vizinhos com mobilidade reduzida e a ajuda em situações de emergência constituem redes locais que sustentam o cotidiano e reforçam o caráter relacional da mobilidade — deslocar-se é também um ato social.

Outro aspecto relevante é a influência da localização das moradias na experiência de mobilidade, especialmente em favelas de encosta. Umbu, que vive na parte baixa e mais plana, conhecida como Campo, enfrenta menos escadarias, mas convive com o terreno irregular, marcado por buracos e pela falta de manutenção das vias:

“Eu, que moro aqui embaixo, não sofro tanto, porque é tudo mais plano. Mas tenho amigas que moram mais no alto e precisam descer e subir escadas todo dia – é um sufoco, por causa do sol e do cansaço. Imagina ainda ter que carregar peso e as compras. Não é mole, não”. (Umbu, 70 anos – Morro da Providência)

Ela ressalta, ainda, a insegurança urbana como um fator que restringe a circulação, sobretudo durante incursões policiais, que interrompem serviços e produzem medo (Bueno, 2018). Essa dimensão simbólica amplia o debate sobre mobilidade, mostrando que os obstáculos à circulação extrapolam as barreiras físicas e se enraízam nas dinâmicas de conflitos e controle territorial.

Em síntese, os relatos evidenciam a dualidade da Providência: de um lado, a força das redes comunitárias e o sentimento de pertencimento; de outro, a persistência das desigualdades urbanas. Apesar de algumas melhorias recentes – como a instalação de corrimãos e o reparo de determinadas escadarias –, as condições de mobilidade e acessibilidade seguem como desafios estruturais, especialmente para os idosos, cuja vivência do espaço é marcada por esforço, resiliência e reinvenção cotidiana.

Resultados e discussão

No estado do Rio de Janeiro, o Censo Demográfico de 2022 revelou que 13,3% da população estadual reside em 1.724 favelas e comunidades urbanas, somando 2.142.394 pessoas. No município do Rio de Janeiro, essa proporção é ainda mais expressiva, alcançando cerca de 21% da população da cidade. O Jacarezinho, com 30.498 habitantes, e o Morro da Providência, com 4.736 (IBGE, 2022) exemplificam territórios onde o envelhecimento ocorre em meio a contextos urbanos marcados por vulnerabilidades históricas e estruturais.

Como discutido ao longo deste artigo, o envelhecimento nesses territórios é moldado por desigualdades materiais e simbólicas. A infraestrutura limitada, ruas esburacadas, escadarias sem corrimão e ausência de sinalização restringem a mobilidade dos idosos, agravando as dificuldades impostas pela violência urbana, pelas operações policiais e pelos conflitos armados que resultam em confinamento involuntário. Essas barreiras impactam diretamente a qualidade de vida, mas o envelhecer nesses territórios transcende o aspecto físico: envolve também dimensões afetivas, memórias coletivas e vínculos comunitários que sustentam práticas de resistência e pertencimento.

Essa resistência manifesta-se nas estratégias cotidianas dos moradores. As redes de ajuda mútua entre vizinhos e as soluções criativas, como a criação de rotas alternativas ou a instalação informal de corrimãos, compensam a ausência de políticas públicas efetivas. Ipê encontra seu “lugar no mundo” na escola de samba, enquanto Jatobá transforma seu pequeno bar em ponto de encontro solidário. Essas ações, longe de serem pontuais, configuram formas de resistência e cuidado coletivo, reafirmando o valor político das práticas comunitárias.

A mobilidade na favela não se define apenas por barreiras físicas, mas também por fatores sociais, como gênero, renda e suporte familiar, que delimitam os espaços de circulação dos idosos. As mulheres, em particular, enfrentam duplas jornadas, conciliando o cuidado com familiares e o trabalho informal para complementar a aposentadoria. Além disso, o estigma territorial persiste, levando muitos a ocultar o endereço em currículos por temerem discriminação. Como destaca Bueno (2018), a violência urbana, somada à precariedade dos serviços de saúde e segurança, intensifica essas vulnerabilidades e reforça o isolamento.

Durante a pesquisa, emergiram, ainda, experiências relacionadas à deficiência nas áreas periféricas, evidenciadas nos relatos de Bambu, homem cego de 72 anos, e Mandacaru, mulher de 62 anos com artrose crônica. A interseção entre envelhecimento e deficiência amplia as dificuldades cotidianas, especialmente em ruas mal pavimentadas e escadarias íngremes. Mandacaru relata: “Eu tenho que andar essa distância toda... O que me cansa, o que fica difícil é por causa do meu joelho e da dor.” Bambu complementa: “Dependo da minha família para sair de casa. Me sinto um peso”. As narrativas revelam como a deficiência potencializa as barreiras territoriais e aprofunda as desigualdades vividas no envelhecimento.

Os dados levantados reforçam que envelhecer nas favelas significa lidar com múltiplas privações que demandam respostas integradas e territorializadas. A ausência de políticas públicas voltadas aos idosos nessas áreas contribui para sua marginalização e exclusão. Assim, políticas inclusivas devem não apenas corrigir falhas estruturais, como a instalação de corrimãos, rampas e melhorias urbanas, mas também reconhecer e fortalecer as práticas de solidariedade e resistência já existentes nas comunidades.

Considerações finais

O envelhecimento nas favelas é um fenômeno crescente e complexo, marcado pela interação entre fatores materiais e imateriais. A precariedade da infraestrutura urbana, as limitações de mobilidade e o acesso restrito a serviços públicos se entrelaçam com dimensões de memória, afeto e pertencimento, configurando uma experiência particular e frequentemente invisibilizada.

A pesquisa demonstrou que a limitação no acesso aos serviços públicos não apenas compromete a qualidade de vida dos idosos, mas também perpetua desigualdades e exclusões. Ainda assim, as entrevistas evidenciam uma capacidade de adaptação e resistência. A mobilidade cotidiana nas favelas é uma negociação permanente com o espaço, na qual a solidariedade comunitária e o conhecimento territorial se tornam formas de sobrevivência e dignidade.

Longe de um processo linear, o envelhecimento em contextos de vulnerabilidade é uma luta contínua contra as desigualdades urbanas. Os idosos dessas comunidades não apenas resistem, mas reinventam o cotidiano, mantendo laços comunitários e criando práticas de cuidado coletivo. Essa resiliência, embora notável, não deve encobrir as carências estruturais que exigem intervenções urgentes do poder público.

Políticas voltadas ao envelhecimento precisam incorporar as especificidades territoriais e sociais dessas populações. A dignidade na velhice não pode ser um privilégio geográfico. Ações pontuais, como a instalação de rampas ou o aumento da oferta de transporte, são necessárias, mas insuficientes diante das desigualdades sistêmicas. Garantir um envelhecimento digno em favelas requer transformações estruturais que assegurem mobilidade, saúde, segurança e o pleno exercício da cidadania.

A oferta irregular de serviços públicos, como abastecimento de água, coleta de resíduos e fornecimento de energia produz desafios cotidianos que restringem escolhas e afetam a qualidade de vida dos moradores. Situações de insegurança urbana e de fragilização dos vínculos comunitários podem intensificar essas condições, ao passo que as redes de solidariedade locais se tornam elementos importantes de apoio emocional e material, ainda que não substituam a responsabilidade do Estado na garantia de direitos básicos.

Como limitação, este estudo concentrou-se em dois territórios específicos e em uma abordagem qualitativa, sem pretensão de generalização. Ainda assim, aponta caminhos para futuras investigações que incorporem análises comparativas entre diferentes favelas e enfoques interseccionais de gênero, raça e classe, combinando métodos qualitativos e quantitativos.

Em síntese, envelhecer em territórios periféricos transcende dimensões biológicas e demográficas, constituindo uma experiência social e espacial situada e profundamente marcada pela desigualdade. Os idosos das favelas não são meros espectadores, mas agentes ativos de resistência, que sustentam famílias, mantêm redes de cuidado e perpetuam memórias coletivas.

Estudos como o de Camarano (2021) evidenciam o papel dos idosos como pilares de estabilidade nas famílias: além de cuidarem dos netos, possibilitando o trabalho dos pais, contribuem com os afazeres domésticos e a transmissão de saberes. Durante a pandemia de covid-19, a renda das aposentadorias mostrou-se vital – em 2020, 34% dos domicílios brasileiros dependiam de 70% da renda dos idosos; em 21% deles, essa renda representava 90% do total familiar (Camarano, 2020).

O verdadeiro desafio para o Brasil, portanto, é assegurar que o envelhecimento seja acompanhado por políticas estruturais que promovam equidade e dignidade, independentemente do território de origem. Envelhecer nas favelas é, antes de tudo, um ato de resistência e um chamado à justiça urbana, que exige repensar o direito à cidade e reconhecer os idosos como sujeitos de direitos.

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Nota

  • 1
    De acordo com os dados do Censo 2022 do IBGE, o Complexo do Jacarezinho tem uma população oficial de 30.498 residentes. No entanto, é importante notar que essa contagem incorpora outras comunidades que aparecem de forma separada nos resultados do universo de favelas e comunidades urbanas, como as comunidades Tancredo Neves (549 moradores) e Malvinas (183 moradores). Além disso, lideranças comunitárias locais contestam esses números, afirmando que a população real ultrapassa os 80 mil moradores. Neste sentido, também fizemos o mesmo com o Morro da Providência, incorporando os dados referentes a à Pedra Lisa (575 moradores e 202 domicílios), localidade adjacente à favela
  • Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa:
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editores:
    Lucia Bógus e Luiz César de Queiroz Ribeiro
  • Organizadores deste número:
    Ana Marcela Ardila Pinto
    Carlos Fernando Ferreira Lobo
    Natália Villamizar Duarte

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    23 Jun 2025
  • Aceito
    30 Out 2025
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