Open-access Serendipidade e etnografia: reflexão epistemológica

Serendipity and ethnography: epistemological reflection

Serendipia y etnografía: reflexión epistemológica

Resumo

A serendipidade é praticamente uma inevitabilidade da investigação científica, sobretudo no campo das ciências sociais e quando se privilegiam abordagens qualitativas. No entanto, a sua relevância epistemológica ainda é pouco considerada. Proponho-me, por isso, a debatê-la no âmbito da pesquisa etnográfica. A reflexão assume o formato de ensaio e é guiada no sentido de compreender as propriedades da serendipidade, as inferências de cariz abdutivo que pressupõe, a sua intrínseca associação à etnografia e as principais manifestações que assume no decurso do trabalho de campo. Desta reflexão é possível salientar que a abordagem etnográfica é, simultaneamente, condição e expressão de serendipidade, fomentando imprevistos, descobertas e raciocínios de pendor indutivo-abdutivo conducentes a possibilidades de interpretação plausíveis até então não equacionadas. No exercício da etnografia no terreno, a serendipidade não se circunscreve apenas a situações estritamente cognitivas e também se manifesta noutros âmbitos que condicionam a análise e a conceptualização.

Palavras-chave
Ciência; Conhecimento; Serendipidade; Abdução; Etnografia

Abstract

Serendipity is practically inevitable in scientific research, mostly in the social sciences and when qualitative approaches are favoured. However, its epistemological significance is often overlooked. Therefore, I propose to discuss it in the context of ethnographic research. This reflection takes the form of an essay, focusing on understanding the properties of serendipity, the abductive inferences it entails, its intrinsic connection with ethnography, and the primary manifestations it assumes during fieldwork. From this reflection it is possible to emphasise that the ethnographic approach is both a condition and an expression of serendipity, fostering unforeseen events, discoveries and inductive-abductive reasoning, and leading to plausible possibilities of interpretation that had not previously been considered. In empirical ethnographic research, serendipity extends beyond purely cognitive scenarios and also manifests itself in other circumstances that influence analysis and conceptualisation.

Keywords
Science; Knowledge; Serendipity; Abduction; Ethnography

Resumen

La serendipia es prácticamente una inevitabilidad en la investigación científica, especialmente en las ciencias sociales y cuando se favorecen los enfoques cualitativos. Sin embargo, su relevancia epistemológica aún se tiene poco en cuenta. Por ello, propongo debatirla en el contexto de la investigación etnográfica. La reflexión toma la forma de un ensayo y se orienta hacia la comprensión de las propiedades de la serendipia, las inferencias abductivas que presupone, su asociación intrínseca con la etnografía y las principales manifestaciones que asume durante el trabajo de campo. A partir de esta reflexión, es posible destacar que el abordaje etnográfico es a la vez condición y expresión de la serendipia, propiciando imprevistos, descubrimientos y razonamientos inductivo-abductivos que conducen a posibilidades plausibles de interpretación que antes no habían sido consideradas. En el ejercicio etnográfico sobre el terreno, la serendipia no se limita a situaciones estrictamente cognitivas, sino que también se manifiesta en otros ámbitos que condicionan el análisis y la conceptualización.

Palabras clave
Ciencia; Conocimiento; Serendipia; Abducción; Etnografía

Introdução

A ciência não é apenas um produto da estrita normatividade epistemológica racionalista. O acaso, a sorte, a inspiração, os erros, os desvios, as coincidências e os imprevistos, embora quase sempre menosprezados em prol de um ideal de razão imaculada, são fatores indissociáveis e, muitas vezes, decisivos nos processos de construção do conhecimento científico (Bedessem e Ruphy 2019; Gallenga e Wathelet 2022; Namian e Grimard 2013). As descobertas da penicilina, dos raios X e da aspirina – entre muitos outros avanços em todas as ciências – resultaram de diversos tipos de eventualidades que acabariam por conduzir a rumos de investigação não planeados e a dados não expectáveis, proporcionando substanciais desenvolvimentos teóricos e metodológicos (Bourcier e Van Andel 2011; Darbellay et al. 2014; De Rond 2014; Marletta 2017). Tal só acontece efetivamente quando os imprevistos e as contingências da investigação (v.g., sociais, materiais) se transformam em “boa sorte” ao serem aproveitados de forma sagaz por “mentes preparadas” para gerar imaginação e inovação científica (Glăveanu 2020; 2022; Jacobsson, Göransson e Wästerfors 2013; Pearce 1912). Afinal, “a sorte favorece apenas a mente que está preparada”2 (Pasteur 1854, citado em Holmes 1961, 39; tradução do autor).

As situações epistemológicas em que a sorte e a sagacidade são decisivas na produção de resultados acidentais significativos enquadram-se na noção sociológica mertoniana de serendipidade: processo cognitivo flexível, não linear, imprevisível e tendencialmente intuitivo de criatividade científica (Merton 1957; Merton e Barber 2004). De modo geral, as ocorrências de serendipidade são mais discutidas, exemplificadas e glorificadas no campo das ditas ciências exatas e naturais, e não tanto no contexto das ciências sociais (Åkerström 2013; De Rond 2014; Oliver 2019; Wyart e Fait 2013; Yaqub 2018). Para tal poderá contribuir o facto de a produção de conhecimento nas ciências sociais ser mais lenta, cumulativa e disputada, afastando-as do padrão de “ciência[s] de elevado consenso e de rápida descoberta”3 de outras ciências (Collins 1994, 155; tradução do autor), o que torna mais complexa a institucionalização de “descobertas científicas” significativas e o mapeamento das respetivas circunstâncias.

De certo modo, é irônico que a serendipidade – tão associada ao imprevisível e à subjetividade criativa do cientista – seja mais vincada e ilustrada no âmbito das ciências “exatas”, sujeitas a condições e processos de pesquisa mais controlados. Todavia, é forçoso não esquecer que esta maior padronização contribui, ao mesmo tempo, para tornar mais notórias as imprevisibilidades e os desvios criativos. Nas ciências sociais, muito em particular na investigação de matriz compreensiva, a serendipidade é quase um traço ontológico da própria pesquisa e, raramente, gera súbitos avanços teóricos de grande alcance. Como se manifesta deste modo mais difuso e discreto, tende a ser naturalizada e a não receber o devido reconhecimento como elemento epistemológico significante que é importante compreender (Fine e Deegan 1996; Jacobsson, Göransson e Wästerfors 2013). Perante esta tendência de naturalização e omissão, proponho-me debater aqui as manifestações de serendipidade enquanto componentes incontornáveis e decisivas na pesquisa etnográfica. A reflexão assume um formato ensaístico de teor epistemológico e é orientada de forma a evidenciar (i) as propriedades da serendipidade e o modo como se constitui no encontro criativo entre eventualidades empíricas e capacidades conceptuais; (ii) as inferências de cariz abdutivo que pressupõe; (iii) a sua centralidade como elemento ontologicamente indissociável dos pressupostos cognitivos e procedimentos metodológicos da etnografia; (iv) as diversas configurações que pode assumir no decurso das experiências de terreno etnográficas.

Serendipidade ou a sorte da “mente preparada”

Pela complexa trajetória histórica e geográfica que conduziu à formalização linguística e posterior institucionalização acadêmica, o conceito sociológico de serendipidade é, em larga medida, fruto dos acasos, agilidade intelectual e sagacidade que ele próprio recobre na respetiva semântica. A sua etimologia remonta a um conto Persa do século 14, de A. Khusrau, traduzido para italiano e alemão, reescrito em França e, em 1722, publicado em inglês sob o título The travels and adventures of three princes of Serendip (Cammann 1967; Goodman 1961; Van Andel e Bourcier 2013). Neste conto, os três irmãos, príncipes de Serendip (antigo Ceilão, atual Sri Lanka), são confrontados com situações inesperadas nas quais descobrem pistas que lhes permitem construir hipóteses plausíveis de explicação de coisas que previamente não conheciam (Darbellay et al. 2014). Considerando os acasos a que estão sujeitos os protagonistas da história e a sua capacidade analítica, o escritor inglês H. Walpole sugere, numa carta de 1754 a H. Mann, o neologismo serendipity para designar a arte da descoberta, por acaso e sagacidade, de algo relevante que não se procurava deliberadamente (Catellin 2014; Remer 1965).

Quase dois séculos depois, o sociólogo americano R. K. Merton fez uma descoberta acidental da palavra serendipity no Oxford English Dictionary e familiarizou-se com o conto em torno da perspicácia dos três príncipes de Serendip para captar indícios empíricos casuísticos e produzir insights sobre situações desconhecidas (Campa 2008). A partir daqui começou a esboçar muitas das suas noções sobre o papel e a relevância da empiria no desenvolvimento teórico da ciência,

sobretudo a ideia de que a pesquisa empírica não permite apenas a testagem de hipóteses teoreticamente derivadas, mas também a sua reconfiguração e mesmo a emergência de novas hipóteses (Merton 1948; Merton e Barber 2004; Simard e Laberge 2015). Este trabalho de construção da arquitetura conceptual de uma palavra resultante da literatura estendeu-se ao longo da segunda metade do século 20, com várias aproximações e enunciações sobre o seu potencial heurístico no âmbito da sociologia da ciência (Merton 1957; 1965; 1973; 1996). O trajeto conducente à institucionalização e popularização do conceito de serendipidade culminou com a publicação, primeiro em italiano (2002) e depois em inglês (2004), de uma obra esboçada quatro décadas antes em coautoria com E. Barber: The travels and adventures of serendipity: a study in sociological semantics and the sociology of science (Merton e Barber 2004).4 Aqui e noutros trabalhos, a serendipidade é apresentada como “a descoberta, por acaso ou por sagacidade, de resultados válidos que não eram procurados”5 (Merton, 1948, 506; tradução do autor), destacando-se ainda a noção de “padrão de serendipidade” como “a experiência bastante comum de observar um dado imprevisto, anômalo e estratégico, proporcionando a ocasião para desenvolver uma nova teoria ou expandir uma teoria já existente”6 (Merton e Barber 2004, 260; tradução do autor).7

As ideias de Merton sobre o papel dos processos criativos de serendipidade na produção de conhecimento científico configuram uma crítica ao antigo (e ainda com alguma expressão) ideal de uma ciência puramente racionalista-positivista, depurada de imaginação, imprevistos, habilidades pessoais, erros produtivos, sorte, coincidências e saberes tácitos (Catellin e Hautbois 2012; Gallenga e Raveneau 2016; Ross e Copeland 2022). Esta crítica põe em causa as formas de compreensão centradas em absoluto no ser humano (human centric) – segundo as quais os atos de conhecimento resultariam, inevitavelmente, da vontade e da capacidade do agente humano de perceber o mundo dos fenômenos – e destaca os eventos empíricos acidentais, aproveitados por mentes preparadas, como faíscas da sagacidade que gera saber (Ross e Copeland 2022). O conceito de serendipidade remete, justamente, para esta dualidade dialógica constituída pela razão e pela empiria, reconhecendo a interseção entre agência humana e contingências contextuais como condição fundacional de processos cognitivos criativos (Ross e Copeland 2022).

Não são as faculdades da razão nem os dados da divina providência que, por si só, produzem a serendipidade (Fine e Deegan 1996). Ela é “o resultado interativo de ‘misturas’ únicas e contingentes de insight e acaso”8 (Fine e Deegan 1996, 434; tradução do autor) ou, como destacam Makri e Blandford (2012, 691; tradução do autor), referindo-se aos principais elementos das experiências de serendipidade, “uma mescla de imprevisibilidade e insight e um resultado proveitoso não antecipado”.9 Além da descoberta inesperada e acidental de informação potencialmente relevante, a serendipidade pressupõe também um salto intelectual de compreensão dessa informação no sentido da efetiva constituição de um insight (André et al. 2009). Ela é sempre um produto de eventualidades empíricas e da capacidade analítica do investigador para (re)formular rumos de pesquisa e conceptualizações com base nessas eventualidades. Neste sentido, é muito mais do que estrita casualidade ou manifestação de sorte objetiva, pois é intrinsecamente suscitada, ainda que não de forma intencional e específica, pelas complexidades do empreendimento científico e pela própria subjetividade de investigação (v.g., preparação, agência e criatividade) do sujeito que faz ciência. A sorte tão sistematicamente

associada à serendipidade deve, por isso, ser entendida, segundo uma concepção subjetiva, como indissociável da ação epistemológica do investigador. Não se trata de um dado puramente objetivo, inscrito em atributos ontológicos da realidade, independente de processos de conhecimento e resultante da interseção de cadeias causais autônomas, tal qual a entendia, por exemplo, o matemático e filósofo francês A. Cournot (Melas 2017).

Enquanto experiência de descoberta e cognição vinculada a acontecimentos de aparência meramente casual e fortuita, a serendipidade está próxima da noção de “abdução”, proposta por C. S. Peirce (1931-1958) como forma de inferência complementar das inferências de tipo dedutivo e indutivo da lógica aristotélica. Nas reflexões de Peirce sobre a lógica da investigação científica, a abdução diz respeito ao processo de constituição de hipóteses explanatórias plausíveis como modo intuitivo de inferência para a melhor explicação de um facto observado surpreendente e imprevisto, considerando as evidências empíricas indiciárias disponíveis (Arfini, Bertolotti e Magnani 2020). Trata-se do exercício de “reunir ou descobrir, com base na interpretação de dados recolhidos, combinações de caraterísticas para as quais não há uma explicação ou regra adequada no acervo de conhecimento já existente”10 (Reichertz 2009, 6; tradução do autor). O espanto da descoberta, a dúvida que resulta da perturbação produzida pelo contacto com factos que questionam ou não se enquadram em pressupostos conceptuais prévios e a subsequente construção de hipóteses ilustrativas dotadas de grande plausibilidade configuram as principais propriedades cognitivas da lógica abdutiva (Schaffhauser 2017). Ainda que não sejam completamente sobreponíveis, as propriedades da abdução tendem a ser convergentes com os pressupostos epistemológicos centrais da serendipidade (Arfini, Bertolotti e Magnani 2020; Darbellay et al. 2014).

A etnografia como expressão e condição de serendipidade

A serendipidade (assim como a abdução) pressupõe uma “dupla capacidade” cognitiva, envolvendo uma “postura de abertura” de manifesta disponibilidade para acolher eventos imprevistos no processo de investigação e, simultaneamente, uma “postura heurística” de descoberta, compreensão e tradução teórica daqueles eventos (Wyart e Fait 2013). Esta dupla capacidade e as demais caraterísticas da serendipidade e da abdução remetem, de modo geral, para as disposições cognitivas de teor interpretativo inerentes à abordagem etnográfica e tendem mesmo a ser consideradas elementos essenciais na configuração desta abordagem e na construção do saber antropológico (Donzelli 2019; Fabietti 2016; Gallenga e Wathelet 2022; Hazan e Hertzog 2016; Pieke 2000; Rivoal e Salazar 2013; Schritt 2022; Tilche e Simpson 2017). Neste sentido, a etnografia pode considerar-se, em certa medida, uma expressão de serendipidade, a qual se manifesta na generalidade da investigação qualitativa quase como uma inevitabilidade e/ou propriedade (Florczak 2015; Gallenga e Wathelet 2022; Howell 2017; Jacobsson, Göransson e Wästerfors 2013).

Além de expressão, a etnografia é simultaneamente condição de serendipidade. A pesquisa etnográfica, pela sua epistemologia e processos operacionais, cria condições favoráveis a imprevistos e insights, deixando evidente que as manifestações de serendipidade não ocorrem ex nihilo (Simard e Laberge 2015), nem são absolutamente acidentais. Embora, por definição, imprevisível e insubmissa a planeamento, a serendipidade não deixa de ser instigada por circunstâncias de investigação resultantes de posicionamentos epistemológicos e procedimentos metodológicos deliberados. No caso da etnografia, ela é instigada pelos pressupostos da própria abordagem, tais como: pesquisa in situ e demorada; profunda imersão do investigador no contexto social em estudo (observação participante); abordagem naturalista e de pendor holista; escasso controle

sobre as situações e abertura para o inesperado; grande flexibilidade teórica e metodológica; recolha de dados orgânica e não padronizada; indagação profunda dos entendimentos dos atores sociais; implicação relevante da subjetividade e identidade do etnógrafo; raciocínio indutivo-abdutivo; constante reflexividade (Coffey 2018; Daynes e Williams 2018; Donzelli 2019; Harrison 2018; Jones e Watt 2010; Madden 2022; Martins e Mendes 2016; Rivoal e Salazar 2013; Schaffhauser 2017; Silva, Sacramento e Portela 2011; Silva, Sacramento e Mendonça 2015; Wyart e Fait 2013).

Nos procedimentos de investigação etnográficos é impossível seguir-se uma planificação detalhada, prévia e rígida de trabalho, pois as dimensões da realidade empírica que mais interessa desvelar são insubmissas às intenções e planificações mais estritas (Sacramento 2014; 2016; Silva, Sacramento e Portela 2011). Como nota Martínez (2018, 2; tradução do autor), “o que frequentemente acontece é que as pistas que nos permitem avançar no conhecimento de um assunto não são para ser buscadas, mas sim encontradas pelo caminho, lançadas pelo próprio terreno, percebidas em desvios semideliberados, sem seguir linhas retas”.11 Não há manual de pesquisa que possa ser seguido à risca de forma mecânica, como se de uma fórmula se tratasse (Atkinson 2013). À semelhança de um bom cozinheiro, o etnógrafo não adota automaticamente uma receita; inspira-se nela e vai adaptando-a em função das circunstâncias e dos fatos com que se vai deparando (Cornu 1984). É um trabalho artístico de cariz artesanal que avança a golpes de intuição, de improviso e bricolagem, e se resume, em larga medida, a uma questão de tour de main (Olivier de Sardan 1995). Enfim, um trabalho que comporta o seu lado artístico (Wolcott 2005).

A ausência de um pormenorizado planeamento prévio não significa, porém, que vale tudo e que a etnografia equivale a diletantismo e se concretiza num vazio de princípios. Há uma “política de terreno” – decorrente dos pressupostos da etnografia atrás identificados – que tem de ser seguida, de forma a salvaguardar o “rigor do qualitativo” e a vigiar os múltiplos enviesamentos a que a investigação pode estar sujeita (Olivier de Sardan 1995). Esta política terá, inevitavelmente, de comportar suficiente plasticidade face aos muitos desafios e ajustamentos impostos pelo terreno, possibilitando que o investigador aproveite de forma criativa as eventualidades com que se depara para ir desenvolvendo (novas) intuições, entendimentos e conceptualizações. Criam-se, assim, deliberadamente as condições fundamentais da serendipidade etnográfica, a qual resulta da “tensão orquestrada entre estruturação e eventualidade, representando um equilíbrio entre controlo e criatividade que é muito menos fortuito do que parece”12 (Gallenga e Wathelet 2022, 368; tradução do autor).

A etnografia é o exemplo paradigmático da ideia mertoniana de que não é possível planear descobertas, mas é possível orientar a nível epistemológico e metodológico o trabalho científico num sentido que, provavelmente, conduzirá a descobertas (Campa 2008). Por aquilo que pressupõe em termos de organização do trabalho de pesquisa, competências e atuação do investigador,

[...] a etnografia é particularmente adequada para o estudo da multiplicidade, complexidade, contingência, ambiguidade e indeterminação nos modos de vida. Permite ao investigador escolher, para análise, instâncias específicas da experiência humana que demonstram potencial para iluminar questões conceptuais e encontrar particularidades da vida social que alteram os nossos entendimentos teóricos13

(Bajc 2012, 73; tradução do autor).

Uma das mais destacadas competências que é esperada de um etnógrafo é a capacidade para observar ocorrências relevantes que não esperava ver no decurso da sua imersão no contexto de estudo e, a partir daí, (re)organizar as suas interpretações (Martínez 2018; Olivier de Sardan 1995).

Esta capacidade tornar-se-á de facto em serendipidade quando a observação gerar intuição (insight), independentemente de raciocínios teóricos mais ou menos preestabelecidos, e conduzir a uma postura heurística de construção progressiva de interpretações possíveis e maleáveis (“hipóteses moles”), tendo em vista uma “melhor adequação significativa” aos fatos que o terreno vai deixando ver (Wyart e Fait 2013). Como ressalva Schritt (2022), a serendipidade vai-se concretizando nesta aproximação teórica condicional que permite dar visibilidade a fenômenos até então invisíveis, sendo que a teoria aqui não configura uma proposta de definição precisa e acabada da realidade; mas tão somente uma construção conceptual em progresso que informa as direções do olhar etnográfico e assegura maior pertinência na abordagem empírica, alimentando-se (e transformando-se) ela própria, num registo de simultaneidade dialética, das observações que vai suscitando. Aquilo que vamos observando no decurso do trabalho de campo não se enquadra necessariamente em quadros teóricos familiares, pelo que é nesta disjunção entre a faculdade de observação e os dispositivos conceptuais apriorísticos que emerge a serendipidade (Campa 2008), criando disrupções e variações nas expectativas epistémicas rumo a caminhos e perspectivas até então impensáveis (Copeland 2019).

É muito difícil estabelecer uma delimitação espaciotemporal precisa da serendipidade. A sua gênese pode suceder (e prolongar-se) em diferentes momentos da investigação e não apenas no contexto mais imediato da pesquisa empírica (Copeland 2019; Dalsgaard 2013). No entanto, o trabalho de campo tende a assumir uma relevância central na geração de situações de serendipidade, sobretudo quando é adotada a abordagem etnográfica e o investigador constrói uma demorada e profunda inserção no terreno, da qual resultam experiências de grande imprevisibilidade e densidade cognitiva. Na etnografia, as ocorrências de serendipidade podem assumir três grandes formatos, segundo a categorização de Fine e Deegan (1996, 438-443): (i) serendipidade temporal – a sincronicidade de “estar no lugar certo à hora certa” torna possível o testemunho de acontecimentos fortuitos, mas muito significativos, que acabam por condicionar, substancialmente, o rumo da pesquisa; (ii) serendipidade relacional – constituição não planeada e arborescente da rede de relações sociais de investigação, chegando-se a um conjunto mais ou menos extenso e diversificado de informantes, com cada qual a proporcionar elementos de instigação e sustentação do olhar etnográfico, muito em particular os informantes-chave; (iii) serendipidade analítica – conexões dialógicas entre a empiria e a teoria num quadro heurístico em que dados inesperados e aparentemente excêntricos induzem novos pressupostos, interpretações e conceptualizações.14

Esta tipologia subentende um entendimento lato da serendipidade como algo que se estende para lá da estrita esfera cognitiva, deixando evidente que as “conexões estabelecidas com as pessoas, ou o simples fato de se estar no momento certo e no lugar certo, podem igualmente conduzir a descobertas valiosas”15 (Copeland 2019, 2388; tradução do autor). No trabalho de campo etnográfico, as manifestações de serendipidade podem ocorrer, de forma isolada, simultânea e cumulativa, na constituição do terreno, contextos, relações sociais, rumos e temporalidades da investigação, na definição dos procedimentos metodológicos, na gênese de perspectivas originais que vão conduzir a novas teorizações e/ou na produção de calibragens teórico-conceptuais significativas (Bajc 2012; Gallenga e Wathelet 2022; Giabiconi 2013; Le Courant 2013; Pink, 2021; Wyart e Fait 2013). No entender de Pieke (2000), a serendipidade pode mesmo ser considerada a “essência” da pesquisa de terreno.

São muitos os exemplos de etnografias, mais recentes ou mais antigas, em que a serendipidade se manifestou de modo decisivo no decurso do trabalho de campo. Dois dos exemplos mais ilustrativos e mais citados referem-se às etnografias de W. F. Whyte na área urbana pobre e degradada de Cornerville, de que resultaria a obra Street corner society (Whyte [1943] 2005), e de C. Geertz sobre as lutas de galos em Bali, que viria a constituir um capítulo central do seu livro The interpretation of cultures (Geertz 1973). No primeiro caso, Whyte foi confrontado durante as suas experiências de terreno com cenários sociais inesperados, o que acabaria por conduzi-lo a entender Cornerville como um contexto baseado em determinadas estruturas e formas de organização social, distanciando-se, assim, dos discursos hegemônicos da época, que apresentavam este tipo de áreas urbanas degradadas simplesmente como caótico e problemático. No segundo caso, Geertz foi sujeito a um efeito de serendipidade ainda mais estrutural, pois não se tratou de construir nova perspectiva em função dos imprevistos empíricos, como aconteceu com Whyte, mas sim da descoberta fortuita de um interesse de investigação marcante na sua carreira. Quando se estabeleceu em Bali, na companhia da esposa, Geertz pretendia focar-se somente no estudo do sistema de parentesco local. No entanto, um simples acaso cerca de 10 dias após a chegada – a assistência a uma luta ilegal de galos na praça da aldeia onde estavam, seguida de uma turbulenta fuga à polícia – permitiu-lhe não só ganhar a confiança e a aceitação da população, mas também descobrir a luta de galos como uma instituição que condensa e permite compreender valores centrais da cultura balinesa (Geertz 1973). Nestes dois casos clássicos da etnografia, como em tantos outros, o feliz encontro entre situações imprevistas e perspicácia conceptual fez toda a diferença. Todavia, importa não esquecer a existência de uma certa relutância dos etnógrafos, sobretudo no passado, em discutir a importância dos acasos e contingências de terreno nos seus trabalhos, talvez receando, como notam Fine e Deegan (1996), que isso possa ser usado para reforçar alguns estereótipos que apresentam a etnografia como diletantismo.

Considerações finais

Como qualquer outra instituição, a ciência segue normas e tem por base múltiplos formalismos. No entanto, como não é um “mundo” isolado, asséptico, previsível e imutável, está sempre sujeita a contingências várias que, amiúde, se constituem como fatores determinantes do seu próprio desenvolvimento. Sempre que estas contingências desencadeiam processos de descoberta e criatividade, estamos perante manifestações de serendipidade. A ocorrência de imprevistos, por si só, não constitui serendipidade. Tal só acontece quando daí se conseguem extrair inferências analíticas que acabam por ter repercussões teóricas e metodológicas relevantes. A sorte e a sagacidade são as duas propriedades básicas e inseparáveis da serendipidade, que é gerada no espaço híbrido (empírico-conceptual) de interseção criativa entre a casualidade (anomalia) inerente aos contextos de investigação e a capacidade cognitiva do investigador. Desta interseção resultam intuições e conjeturas, baseadas em elementos indiciários, que dão forma ao raciocínio de cariz abdutivo associado à serendipidade, o qual pressupõe uma heurística de formulação de hipóteses explanatórias plausíveis como tentativa de conferir algum sentido e traduzir cognitivamente ocorrências inesperadas e ininteligíveis à luz dos quadros teóricos existentes.

As manifestações de serendipidade são transversais a todos os domínios científicos, ainda que, por vezes, sejam remetidas aos bastidores da ciência por não lhes ser dado o devido valor e/ou por receio de que possam ser entendidas como desvios face à normatividade dos procedimentos de investigação (Merton e Barber 2004). Nas ciências sociais, muito em especial nas abordagens qualitativas, a serendipidade tende a inscrever-se nos pressupostos epistemológicos e procedimentos metodológicos – tornando-se uma inevitabilidade da própria pesquisa –, mas, mesmo assim, ainda não é muito discutida (Jacobsson, Göransson e Wästerfors 2013). Esta sua inscrição e relevância na ontologia da investigação é particularmente evidente no caso da etnografia. Aliás, como antes argumentei, a metodologia/perspectiva etnográfica é, intrinsecamente, condição e expressão de serendipidade. Pela sua não padronização metodológica, denso envolvimento social do investigador no terreno, relativização, reflexividade e vocação compreensiva, a etnografia fomenta diversos acasos, imprevistos e descobertas, ao mesmo tempo que conduz a raciocínios de pendor indutivo-abdutivo, nos quais os indícios empíricos funcionam como geradores de insights – “palpites etnográficos” (Pink 2021) – conducentes a conjeturas interpretativas plausíveis até então não equacionadas. No contexto das experiências de trabalho etnográfico, a serendipidade vai além de situações meramente cognitivas, ou seja, de casualidades que incrementam a criatividade teórica. Como ficou evidente, ela também se manifesta noutros âmbitos que condicionam os processos de análise e conceptualização, tais como: a configuração do terreno (v.g., espacialidade, contextos e temporalidade), os arranjos metodológicos e o desenvolvimento da rede de relações sociais de investigação.

Nas reflexões aqui desenvolvidas cingi-me às expressões de serendipidade mais diretamente vinculadas à pesquisa empírica. Todavia, importa ter em conta que a serendipidade não se esgota no decurso dos encontros, contingências e descobertas do trabalho de campo. A sua amplitude é bem maior e as suas manifestações mais diversas, complexas e difusas: estende-se das primeiras ideias sobre (possíveis) terrenos e objetos de estudo até à produção de um discurso científico muito impulsionado pela constante leitura das notas do terreno e pelas subsequentes descobertas, reflexões e inferências teóricas; é indissociável do trajeto e ambiente acadêmico do investigador e, no limite, pode remeter para situações e condições da sua própria vida quotidiana (Hazan e Hertzog 2016; Herzfeld 2014; Iribarne 2013; Kohn 2010; Lahelma et al. 2014; Wolcott 2016). A serendipidade e a criatividade que pressupõe têm uma natureza dual, dependendo não só da capacidade do investigador, mas também de modos de agência sociomaterial presentes no seu espaço físico e relacional que não estão sob o seu controle (Ross e Copeland 2022). E se há condições que fomentam a serendipidade, também há muitas outras que a inibem e, consequentemente, degradam o exercício etnográfico. Será fundamental aprofundar o conhecimento destas condições favoráveis e desfavoráveis, sobretudo no contexto académico e tendo em conta os efeitos da crescente hegemonia dos protocolos de pesquisa da “cultura de auditoria” que aí tem vindo a instalar-se (Donzelli 2019; Shore 2008).

Agradecimentos

Ao Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento, financiado por fundos nacionais por meio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), I.P., no âmbito do projeto UID/04011/2025.

  • Como citar este artigo
    Sacramento, O. Serendipidade e etnografia: reflexão epistemológica. Civitas: Revista De Ciências Sociais. https://doi.org/10.15448/1984-7289.2026.1.46573
  • Os textos deste artigo foram revisados pela Texto Certo Assessoria Linguística e submetidos para validação dos autores antes da publicação.
  • 2
    Chance favors only the mind which is prepared”.
  • 3
    High-consensus, rapid-discovery science”.
  • 4
    Embora Merton e Walpole sejam, em diferentes circunstâncias, as principais figuras da história da serendipidade, há uma pré-história do conceito, muito anterior à sua própria composição linguística, que é importante não negligenciar. Nesta pré-história destaca-se o empirismo de Francis Bacon da transição do século 16 para o século 17, nomeadamente os seus contributos fundadores para o método científico baseado no raciocínio indutivo, um posicionamento epistemológico aparentado com conceções de ciência e conhecimento subjacentes ao que, mais tarde, viria a ser cunhado como serendipidade (Silver 2015).
  • 5
    The discovery, by chance or sagacity, of valid results which were not sought for”.
  • 6
    The fairly common experience of observing an unanticipated, anomalous, and strategic datum which becomes the occasion for developing a new or extending an existing theory”.
  • 7
    Dado imprevisto, no sentido de se tratar de um surpreendente subproduto fortuito do processo de verificação de uma hipótese teoreticamente derivada; dado anómalo, pois parece revelar-se divergente das teorias prevalecentes e/ou de outros factos já conhecidos; dado estratégico, porque terá repercussões significativas na reformulação de teorias já estabelecidas (Merton 1948, 506-507).
  • 8
    The interactive outcome of unique and contingent ‘mixes’ of insight coupled with chance”.
  • 9
    A mix of unexpectedness and insight and a valuable, unanticipated outcome”.
  • 10
    Assembling or discovering, on the basis of an interpretation of collected data, such combinations of features for which there is no appropriate explanation or rule in the store of knowledge that already exists”.
  • 11
    What often happens is that the hints enabling us to go forward in our knowledge about a theme are not to be found but rather encountered on the way, thrown by the field, faced in semideliberate detours, not by following straight lines”.
  • 12
    Tension orchestrée entre structuration et événement, d’un équilibre entre contrôle et créativité beaucoup moins fortuit qu’il n’en a l’air”.
  • 13
    Ethnography is best suited to the study of multiplicity, complexity, contingency, ambiguity, and indeterminacy in ways of living. It allows a researcher to choose for analytic attention specific instances of human activity and experience that show potential to illuminate conceptual issues and to stumble upon particularities of social life that alter our theoretical understandings”.
  • 14
    No entender de Merton (1948), a pesquisa empírica pode desempenhar pelo menos quatro funções no desenvolvimento da teoria: iniciar, reformular, redirecionar e clarificar. As duas primeiras funções são aquelas que se inscrevem mais nitidamente num padrão de serendipidade analítica. Nas ciências sociais, muito em particular nas pesquisas compreensivas de cunho etnográfico, a serendipidade analítica tende a ser de pequeno e médio alcance, proporcionando pequenos incrementos cumulativos. Raramente conduz a grandes descobertas, ruturas epistemológicas ou avanços teóricos, como acontece com maior frequência, por exemplo, no domínio das ciências naturais.
  • 15
    Connections made between people, or one’s being present at the right time and in the right place, can just as well lead to valuable discoveries”.

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Não se aplica

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Editado por

  • Editoras da revista
    Fernanda Bittencourt Ribeiro
    Teresa Cristina Schneider Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    18 Jul 2024
  • Aceito
    15 Maio 2025
  • Publicado
    09 Mar 2026
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