Open-access Enfrentamento educacional à desinformação e ao negacionismo científico: uma revisão de teses e dissertações brasileiras

A review of Brazilian theses and dissertations on educational approaches to combating disinformation and scientific denialism

Resumo

A esfera educativa é vista como uma força potencial para desarticular a desinformação e o negacionismo científico, assunto que motiva uma expressiva produção acadêmica. Neste contexto, nosso objetivo é identificar as principais contribuições da pós-graduação brasileira para o enfrentamento educacional da desinformação e do negacionismo científico. Para isso, apresentamos uma revisão de literatura sobre o tema, a partir de buscas no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, empregando a Análise Hermenêutica Objetiva. Notamos que os enfoques dos pesquisadores recaem sobre as figuras do estudante, do professor ou das estratégias de enfrentamento utilizadas. Entre os direcionamentos propostos, destacamos a possibilidade de combinação das alfabetizações científica, midiática e informacional, a necessidade de reorientar o ensino sobre a natureza da ciência, a importância do senso crítico e as potencialidades de estratégias diversas.

Palavras-chave
educação e ensino; produção científica; negacionismo científico; revisão de literatura; ensino de pós-graduação

Abstract

Education is increasingly recognized as a potential means of countering disinformation and scientific denialism — two issues that have attracted considerable academic interest. This study aims to identify the key contributions of Brazilian postgraduate research for the educational response to these phenomena. A literature review was conducted based on searches into the Capes Catalogue of Theses and Dissertations and the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations. Objective hermeneutics was employed as an analytical method. The findings reveal that researchers primarily focus on the roles of students and teachers, or the strategies employed to address those issues. Key approaches include combining scientific, media, and information literacy; reorienting science education to address the nature of science; fostering critical thinking; and exploring the potential of diverse pedagogical strategies.

Keywords
education and teaching; scientific production; scientific denialism; literature review; postgraduate teaching

Introdução

A sociedade está marcada por um dilema informacional, que impacta profundamente sua dinâmica em diversos âmbitos. A conquista do acesso ilimitado e irrestrito a uma ampla gama de informações, provocada pela popularização das fontes de produção e publicação de conteúdo em ambiente digital, poderia representar a condição ideal para que a população desenvolvesse um nível adequado de conhecimento sobre temas diversos, não fosse a constante ameaça da desinformação (Furnival; Santos, 2019). Paralelamente a esse fenômeno, ou de forma sobreposta a ele, vivemos também a ascensão do negacionismo científico, que se fortaleceu à medida que seus propagadores se apropriaram de estratégias de compartilhamento de informações por meio das Tecnologias Digitais de Comunicação (Pereira; Santos, 2020).

A proliferação de informações falsas para obtenção de vantagens econômicas, políticas ou para enganação deliberada do público não é uma invenção da nossa geração, mas presenciamos uma sofisticação desse artifício, que exerce grande importância na tomada de decisão da população pelo seu poder de moldar a opinião pública (Toffoli, 2019). A sensibilidade das pessoas à desinformação e ao negacionismo pode ser explicada por aspectos psicológicos e sociológicos intrínsecos à nossa espécie, como a tendência natural à incorporação de mensagens que reforçam crenças pessoais ou grupais, independentemente de sua veracidade ou fonte (Araújo, 2024). Como declarou Harari (2018, p. 208), somos “a espécie da pós-verdade”. A propósito, esse termo — no inglês, post-truth — representa bem o momento atual, pois denota, de acordo com o Dicionário Oxford (Post-truth, 2026), circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as mensagens apelativas a emoções e crenças pessoais.

Nesse contexto, diferentes estratégias de superação de tais problemáticas têm sido propostas e implementadas em diferentes partes do mundo. Alguns países, como Alemanha, França e Reino Unido convergem para a atribuição de responsabilidade legal às plataformas digitais pelo controle que devem exercer sobre a disseminação de notícias falsas e outros conteúdos fraudulentos. No Brasil, existe regulamentação que prevê a reparação de danos provocados pelo compartilhamento de informações falsas, com ênfase, entretanto, no cenário eleitoral (Toffoli, 2019).

Não obstante, a regulação das plataformas digitais é tratada com cautela no Congresso Nacional, onde já motivou discussões acaloradas, uma vez que a extrema direita interpreta as propostas legais de responsabilização das plataformas digitais como cerceamento à liberdade de expressão.

Na ausência de regulação, alguns estudiosos têm apontado a educação como um espaço propício à imunização coletiva contra os males provocados pela desinformação e pelo negacionismo (por exemplo, Furnival; Santos, 2019; Höttecke; Allchin, 2020; Pereira; Santos, 2020), embora não exista um consenso sobre o assunto. Buckingham (2019), por exemplo, alega que propor o ensino sobre mídia e ambiente digital em contexto de pós-verdade pode representar uma simplificação extrema do problema da desinformação ou uma percepção exagerada da influência da mídia sobre os jovens. Apesar dessa visão, é crescente a produção acadêmica que explora potenciais e limitações da educação sobre a mitigação dos efeitos provocados pelos fenômenos já mencionados, assunto sobre o qual a pós-graduação dá indicativos importantes. Considerando esse contexto, buscamos respostas ao seguinte questionamento: Como a educação pode contribuir para a mitigação dos efeitos deletérios associados à desinformação e ao negacionismo científico? Objetivamos, com isso, identificar as principais contribuições das teses e dissertações nacionais para o enfrentamento educacional da desinformação e do negacionismo científico, delineando tendências e enfoques dessas produções.

Portanto, apresentamos um panorama geral das pesquisas desenvolvidas no Brasil, em nível de mestrado e doutorado, que propõem mecanismos de mitigação dos impactos da desinformação e do negacionismo por meio da educação. Nossa pesquisa compõe a primeira etapa de uma tese de doutorado que também se vincula a este escopo, e, portanto, nossos achados devem apoiar ou inspirar outros estudos, ajudando a delinear os rumos que já foram experimentados em contextos diversos e que poderão ser evitados ou incorporados às experiências futuras. É importante estabelecermos que diferentes fontes de investigação sobre essa temática podem resultar em direcionamentos distintos, convergentes ou não. Nossa intenção de analisar especificamente a produção da pós-graduação brasileira se deu pela esperança de encontrarmos respostas mais adequadas ao contexto nacional, minimizando eventuais necessidades de transposição pelos educadores que se inspirem em nossos resultados. Embora tenhamos optado por esse olhar especial à realidade brasileira, os achados da pesquisa podem representar um importante marco de comparação entre diferentes nações no que concerne à abordagem educacional aos problemas investigados.

Percurso metodológico

Realizamos um estudo essencialmente qualitativo, buscando aproximação ao método de Revisão Sistemática da Literatura, conforme as orientações de Galvão e Ricarte (2020) e Okoli (2019). Optamos por esse método dada a viabilidade de identificar, avaliar e sintetizar as discussões existentes sobre o tema, bem como pela valorização de aspectos como o rigor sistemático da revisão e a possibilidade de abranger todo o material relevante (Okoli, 2019). Assim, partimos da questão de pesquisa para a seleção das bases de dados para consulta, definição da estratégia de busca e, posteriormente, a seleção dos documentos com base nos critérios de inclusão pré-estabelecidos e, em seguida, a sistematização dos resultados (Galvão; Ricarte, 2020).

Desse modo, investigamos como as produções das áreas de Ensino e Educação têm abordado a desinformação e o negacionismo científico, a partir dos registros do Catálogo de Teses e Dissertações da Capes e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). As buscas foram realizadas em agosto de 2024, com a abrangência temporal dos últimos 24 anos, pois delimitamos a pesquisa aos trabalhos defendidos a partir dos anos 2000. No Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, pesquisamos separadamente os termos desinformação e negacionismo científico e, em ambas as situações, aplicamos o filtro de Área do Conhecimento, para selecionarmos apenas os trabalhos vinculados à Educação ou ao Ensino, o que configurou nosso principal critério de inclusão de trabalhos para análise. Já na busca realizada na BDTD, como a aplicação dos filtros resultaria na exclusão de quase a totalidade dos trabalhos resgatados, optamos por pesquisar, no modo de busca avançada, as seguintes combinações de termos: desinformação e educação; desinformação e ensino; negacionismo científico e educação; negacionismo científico e ensino.

Após as buscas iniciais em ambas as bases de dados, sistematizamos em planilha eletrônica as seguintes informações de cada um dos trabalhos: autor, ano, título, resumo e palavras-chave, assim como os respectivos links de acesso aos demais dados e trabalhos completos. Ao listarmos os autores em ordem alfabética, foi possível identificar repetições, uma vez que a planilha reuniu informações provenientes de buscas realizadas com diferentes termos, ou combinações de termos, além de bases de dados distintas. Então, excluímos os trabalhos duplicados e partimos para uma leitura flutuante de títulos e resumos, iniciando a triagem do conteúdo.

Baseamos nossa seleção de trabalhos em critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, buscando estudos que relatassem iniciativas de desarticulação dos fenômenos de desinformação e negacionismo científico, a partir do âmbito educacional. Não restringimos essa seleção às teses e dissertações vinculadas à subárea de Ensino de Ciências, por acreditarmos no potencial e versatilidade de estratégias experimentadas em outras áreas do conhecimento, mas prezamos pela inclusão de estudos que apresentaram contribuição compatível com a mitigação concomitante de negacionismo científico e desinformação. Excluímos trabalhos que trataram sobre negacionismos a episódios ou fenômenos específicos, como o negacionismo histórico à Ditadura Militar, apesar de percebermos suas contribuições para a compreensão do movimento negacionista em análise mais ampla e suas influências sobre o negacionismo científico.

Realizamos uma leitura minuciosa das informações, a fim de contrastar os achados com os critérios previamente estabelecidos e definir o corpus de análise. A partir dos resumos, identificamos os objetivos de pesquisa de cada um dos autores incluídos, assim como as principais contribuições de suas investigações. Categorizamos os achados de acordo com os enfoques que cada um dos pós-graduandos atribuiu às suas abordagens, o que variou entre: (a) foco nos estudantes; (b) foco nos professores; e, (c) foco nas estratégias educacionais de enfrentamento à desinformação e ao negacionismo. Analisamos tais informações segundo o método da Hermenêutica Objetiva, que orienta a compreensão interpretativa do texto a partir da busca pelo sentido que pretendeu imprimir seu autor, considerando, nesse contexto, a influência das vivências do leitor sobre sua atribuição de significados ao conteúdo analisado (Vieira, 2019).

As ações descritas resultaram em um relatório no qual estabelecemos as conexões que emergiram durante as leituras cruzadas dos estudos analisados. O trabalho de compreensão e interpretação foi permeado por uma atenção especial aos sentidos de cada um dos achados, sempre a partir de um ponto de vista dotado de não neutralidade. Então, o que apresentamos na próxima seção nos aproxima à intenção inicial de destacar dos trabalhos analisados seus respectivos objetivos de pesquisa e, principalmente, seus resultados mais potentes. Portanto, consideramos valioso o material descritivo-interpretativo resultante desse processo de busca, seleção, organização e análise das teses e dissertações nacionais comprometidas com a mitigação da desinformação e do negacionismo na sociedade contemporânea e futura.

Resultados e discussão

As buscas revelaram alta produtividade acadêmica sobre os fenômenos da desinformação e do negacionismo científico, resultando no encontro de 677 trabalhos, distribuídos entre teses e dissertações (figura 1). Desconsiderando os 229 estudos repetidos, analisamos títulos, palavras-chave e resumos de 448 trabalhos. A aplicação dos critérios de inclusão, no entanto, restringiu esse número a 44 estudos, dentre os quais 13 são teses e 31 correspondem a dissertações. Do total dos trabalhos selecionados, 45,5% foram defendidos no ano de 2023, demonstrando a emergência do tema e, ao mesmo tempo, indicando uma certa urgência em se estabelecer mecanismos de atenuação dos males provocados pela desinformação e pelo negacionismo. É importante destacarmos que esse esforço não está concentrado em um nível de ensino, mas sim abrangendo desde a segunda etapa do ensino fundamental até o nível de graduação no ensino superior, passando por diferentes modalidades, de modo a contemplar, inclusive, a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Figura 1
Etapas da pesquisa bibliográfica realizada

Acerca dos enfoques dados pelos pesquisadores, percebemos três tendências principais. A primeira delas, representada por sete estudos, considera a percepção dos professores e professoras sobre desinformação e negacionismo, assim como seu impacto sobre as práticas desenvolvidas em sala de aula. Para uma adequada compreensão dessa categoria de análise, é importante esclarecermos o conceito de percepção, frequentemente utilizado nos estudos educacionais como sinônimo de concepção, crença ou representação. A percepção está enraizada no campo teórico da Cognição Social, o qual integra ideias da Psicologia Social e da Psicologia Cognitiva (Garrido; Azevedo; Palma, 2011).

Podemos considerar a percepção como o processo humano de organização e interpretação sensoriais, que resultam na consciência de si e do ambiente (Matos; Jardilino, 2016). Uma vez que envolve a interpretação de eventos, é importante destacar que a percepção não resulta de uma simples recepção de informações mas, sim, de uma construção ativa que depende de experiências e contextos individuais, de modo que diferentes fatores influenciam essa análise da realidade (Matos; Jardilino, 2016). Sendo assim, o percipiente social não estabelece compromisso com a verdade absoluta, mas, sim com a verdade suficiente para a gestão de suas interações. Desse modo, compreender a percepção do outro sobre um tema específico pode ajudar a explicar ou a prever o seu comportamento social em relação a esse tema (Garrido; Azevedo; Palma, 2011).

A segunda tendência, representada por dez pesquisas, foca no comportamento informacional de jovens em idade escolar, seja em nível básico ou superior. Esse comportamento refere-se à conduta humana de busca, uso e manejo de informações, e se baseia no pressuposto de que a informação é essencial à interação dos indivíduos, ao funcionamento de grupos sociais e organizações, e à melhoria da qualidade de vida (Fialho; Andrade, 2007; Martínez-Silveira; Oddone, 2007). Dentre os estudos sobre comportamento informacional de crianças e adolescentes, um dos campos de investigação trata justamente dos padrões de busca em meios eletrônicos característicos desse público (Fialho; Andrade, 2007), o que coincide com o que encontramos em nosso levantamento, que reúne quase 23% dos estudos nessa categoria.

Um último grupo de trabalhos é composto por 27 estudos que dão conta das maneiras como podemos desmobilizar os fenômenos de desinformação e negacionismo científico. É necessário considerar que essas 27 teses e dissertações fazem parte de um conjunto de 44 trabalhos de naturezas e abordagens diversificadas. Registramos uma predominância de abordagens sobre as Alfabetizações Midiática e Informacional (n = 25), seguidas por trabalhos relativos às Ciências da Natureza (n = 12). Em menor expressividade, encontramos estudos voltados à formação docente (n = 3), às Ciências da Saúde (n = 2), às Linguagens (n = 1) e à Matemática (n = 1). Essa diversidade se revelou influente sobre as estratégias educacionais apresentadas na terceira e última categoria de análise. Apesar de termos considerado as grandes áreas da educação e do ensino, inevitavelmente emergiram enfoques acerca do ambiente midiático e informacional, além do papel da educação científica para a condução dos jovens nesse meio, o que converge para o que está sendo delineado pela literatura atual. Osborne e Pimentel (2023), por exemplo, atribuem ao ensino de ciências nos níveis fundamental e médio, o potencial de mobilizar noções básicas de mídia digital e de alfabetização informacional, aliadas ao aprofundamento sobre as práticas sociais da ciência. Nessa esteira, Allchin (2023) sugere que a educação científica pode ajudar os estudantes a desenvolver competências que os habilitem a driblar a desinformação enquanto exploram o conhecimento. Para que essas intenções se concretizem, no entanto, são necessárias algumas reorientações da educação científica, inclusive dos enfoques, que devem recair muito mais sobre a natureza da ciência do que sobre o estudo de conceitos (Höttecke; Allchin, 2020).

Desse modo, nossos resultados se encaminham à alfabetização e à educação científica, sobretudo no âmbito formal de ensino com raízes nas Ciências da Natureza, dado o alinhamento do estudo com a literatura científica mais recente. De fato, a pós-graduação nacional retrata as discussões vigentes no contexto acadêmico global e contribui com a sua evolução. Assim, seria impossível omitir o compromisso do ensino de ciências com a temática abordada e, portanto, almejamos contribuir, com nossos esforços, para o reconhecimento dos avanços promovidos pelos pesquisadores da área.

Professores em foco: percepção, prática e formação

Sobre como professores e professoras têm se relacionado com os fenômenos de desinformação e negacionismo científico na contemporaneidade, nota-se que há um reconhecimento generalizado da gravidade do problema para a sociedade brasileira e a percepção de que essa temática atravessa os objetos de conhecimento tratados em sala de aula, assim como suas práticas pedagógicas (Damascena, 2023; Lima, 2023). Professores e professoras de Ciências do ensino fundamental e da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, do ensino médio, participantes do estudo de Damascena (2023), destacaram a influência do negacionismo científico sobre a comunicação estabelecida com os estudantes na abordagem de determinados temas que, por vezes, demandam a realização de atividades de debate. No entanto, nem sempre é fácil definir ou operacionalizar estratégias alinhadas aos objetivos emergentes nesse campo, sobretudo quando a formação dos docentes que atuarão diretamente com a problemática pode apresentar fragilidades. Damasceno (2023) demonstrou, a partir de uma investigação com graduandos e egressos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Santa Cruz, que esse público não reconhece, por exemplo, a falseabilidade como um critério próprio das Ciências, ainda que o currículo do curso contemple o método científico. Esse achado representa uma amostra importante do perfil do educador científico no que se refere à apropriação da natureza da ciência e, consequentemente, indica uma possível lacuna na educação científica que será praticada.

Com efeito, um dos determinantes para a forma e a profundidade com que a desinformação é abordada em sala de aula, é a relação pessoal do educador com a informação no cotidiano (Alencar, 2021), o que é bastante variável no Brasil. Segundo Pinheiro (2022), um apoio ao desenvolvimento de estratégias que facilitem a aprendizagem sobre temáticas informacionais pode ser reportado ao metaletramento docente, que pode contribuir, também, para o aprimoramento da capacidade de avaliar o valor de uma informação pelo professor e, consequentemente, estimular o desenvolvimento dessa habilidade no estudante. Ainda, de acordo com a autora, é importante que o docente reconheça o aprendiz também como consumidor, produtor e disseminador de informação em espaços colaborativos, como as redes sociais, por exemplo, e que, portanto, ele precisará de competências amplas. Outro mecanismo de preparação docente é a incorporação de conhecimentos e materiais desenvolvidos na academia, que poderiam orientar práticas educacionais rumo ao fortalecimento dos estudantes contra a desinformação e o negacionismo (Lima, 2023).

Nesse contexto, é emergente que os processos formativos sejam permanentes, uma vez que o diálogo entre professores acerca de novos saberes e dúvidas sobre sua práxis, pode conduzi-los a uma abordagem mais precisa da problemática discutida (Silva, 2021). Ademais, essa formação contínua deve favorecer o desenvolvimento de competências críticas de informação (Alencar, 2021). Uma possibilidade de formação continuada explorada por Costa (2024) em sua dissertação, foi o programa de capacitação de professores em processos de educação midiática de jovens, o EducaMídia. Para a autora, as formações experimentadas nesse espaço podem “[...] contribuir para o ensino e aprendizagem sobre a educação midiática e o mundo digital, trabalhando questões importantes em nosso mundo atual formando cidadãos éticos e responsáveis tanto no mundo físico quanto no digital” (Costa, 2024, p. 6). Para Tiroli e Jesus (2022), a formação docente inicial e continuada precisa prepará-los para o pensamento crítico acerca de possibilidades de superação de desafios globais, como currículo, políticas públicas e concepções teórico-filosóficas, entre outros. A Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) (Brasil, 2024) não parece estar alinhada a essas necessidades.

Apesar de concordarmos com o valor da formação continuada, da reflexão sobre a práxis docente e da demanda urgente por educação midiática e informacional, conhecemos as condições sob as quais a maioria de nossos educadores e educadoras, principalmente os da educação básica, estão submetidos. Então, é importante considerarmos fatores que podem comprometer a disponibilidade dos docentes à formação continuada, como a sobrecarga de atribuições normalmente relatada por eles, a variável qualidade da estrutura física das escolas, a indisponibilidade de materiais e pouco tempo para planejamento e reflexão.

Estudantes em foco: interação dos jovens com as mídias

Considerando os efeitos deletérios atribuídos à desinformação e ao negacionismo na sociedade atual e o fato de que esses fenômenos normalmente se beneficiam da maneira como interagimos com informações de naturezas diversas em mídias e redes sociais, algumas teses e dissertações analisadas enfocaram a figura do estudante em suas abordagens. Quase consensualmente, esses pesquisadores defendem a importância do desenvolvimento de habilidades pelos jovens que possam colaborar para a identificação de informações falsas e redução de seu compartilhamento (Bernardi, 2021; Ledur, 2022). Ademais, notamos uma atenção pontual, mas relevante, ao papel da mídia na interação de jovens estudantes com o conteúdo científico (Kelles, 2023) e à percepção dos jovens sobre a ciência, considerando a influência das fake news sobre suas representações sociais (Daczkowski, 2023).

Reitera-se que a percepção diz respeito à forma como as sensações e os dados sensoriais são organizados e, principalmente, interpretados pelo indivíduo, resultando na consciência que ele tem de si mesmo e do meio (Matos; Jardilino, 2016). A referida teoria está inserida em um campo da Psicologia Social distinto do das Representações Sociais. No entanto, no trecho em que o termo é mencionado, a expressão se relaciona à representação social como uma de suas dimensões conceituais. As representações sociais, por sua vez, segundo Moscovici (1978), referem-se a uma forma de conhecimento criada por grupos sociais, que lhes é útil para a compreensão do mundo. O caráter social das representações lhes confere variabilidade, ou seja, as representações sociais sobre um dado conhecimento podem variar ao longo do tempo, em decorrência das transformações pelas quais as sociedades passam. Desse modo, as representações sociais são uma forma de construção social do conhecimento, na qual o senso comum pode ser concebido como algo posterior ao saber científico formal. Sendo assim, a falta de conhecimento pode reforçar preconceitos e fortalecer a adesão às fake news, o que demanda a necessidade de combinar aprendizagem e sensibilização, por meio de experiências diversas que mobilizem a imaginação e confiram repertório aos estudantes (Daczkowski, 2023).

Os estudos exploraram a interação de jovens estudantes dos níveis médio ou superior com diferentes tipos de conteúdo. Ao analisar, por exemplo, os critérios utilizados por estudantes de graduação para selecionar vídeos no YouTube como fontes de estudo complementar, Nagumo (2021) identificou que esses estudantes se apoiam em aspectos subjetivos, como a forma, ou algorítmicos, como a quantidade de visualizações, que não necessariamente atestam a veracidade da informação disponível. No que se refere à avaliação da veracidade de conteúdos em formatos textuais, Gomes (2023) identificou uma tendência dos jovens a acreditarem em informações que são veiculadas na tipologia textual notícia. Esses achados ilustram a importância de desenvolver hábitos de analisar aspectos que denotem a veracidade do conteúdo exibido nas diferentes plataformas digitais, já que os atributos mencionados, como a quantidade de acessos ou o formato da informação, não atendem objetivamente a essa demanda (Nagumo, 2021).

Sobre a checagem de informações disponíveis na internet, Portas (2023) evidenciou a preocupação de jovens estudantes do ensino médio, que demonstraram anseio de aprender sobre mídia na escola e, ao mesmo tempo, reconheceram a falta de suporte escolar para esse fim. Já em nível de graduação, especialmente em cursos que formam profissionais que atuarão em carreiras que demandam competência em informação, espera-se que o percurso formativo contribua para a diminuição da disseminação de desinformação e fake news pelos discentes. Foi o que Dias (2021) investigou na Universidade Federal de São Carlos, com estudantes dos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação. O autor constatou que, realmente, os alunos do início do curso são mais propensos a compartilhar informações falsas e a não verificar tais conteúdos, em comparação com discentes do último ano. Há evidências, portanto, de que o ensino de estratégias de interação com a informação pode conduzir a uma realidade em que a checagem prévia ao compartilhamento de informações impacte negativamente a desinformação.

Para que os jovens sejam, então, capazes de identificar conteúdos falsos, desinformativos, pseudocientíficos ou anticientíficos, alguns autores reportam a importância da educação crítica (Bernardi, 2021), do estímulo ao pensamento crítico (Santos, 2021) e do aprimoramento de competências midiáticas no contexto das culturas juvenis (Ongaro, 2023). Para Ongaro (2023), a escola pode trabalhar a perspectiva da mídia-educação para proporcionar aos estudantes uma melhor compreensão de si, do outro e do mundo, o que pode resultar em maior responsabilidade ao compartilhar mensagens e informações no ambiente virtual. Tais recomendações são suportadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê competências e habilidades focadas na interação dos estudantes com informações diversas, em distintos meios e formatos, considerando os contextos de produção e os mecanismos de circulação (Brasil, 2018). No entanto, não basta a prescrição em documentos. Para enfrentar males como a desinformação, é importante que a comunidade escolar promova a educação midiática e digital, incentivando o pensamento crítico e a análise de fontes confiáveis (Araújo; Sousa, 2025).

Além disso, os estudos sinalizam a necessidade de se promover a criticidade a partir de uma aprendizagem ativa (Santos, 2021), que estimule o protagonismo estudantil, preferencialmente por meio da confluência de diferentes letramentos (Kelles, 2023). É possível que a abordagem de narrativas conspiratórias à luz da BNCC ajude os estudantes no processo de desenvolvimento do pensamento crítico, da análise reflexiva e da comunicação ética (Araújo; Sousa, 2025). A discussão é ampliada a partir de estudos que enfocaram o campo das estratégias de enfrentamento à desinformação e ao negacionismo, conforme será apresentado a seguir.

Estratégias em foco: sobreposição de alfabetizações e outras possibilidades

Além das teses e dissertações com enfoque nos professores ou nos estudantes, identificamos um terceiro grupo de trabalhos, mais expressivo em quantidade, que destacou a importância da maneira como se propõe o desenvolvimento de competências e habilidades para a interação saudável com a informação por meio da educação. Dentre esses trabalhos, encontramos alguns que experimentaram estratégias ou recursos metodológicos específicos e, com isso, apresentaram os resultados de sua utilização. Mas também registramos alguns outros que trataram o tema de maneira mais ampla, principalmente por meio de recomendações que podem ser aproveitadas para a operacionalização de metodologias diversas. Considerando essas recomendações mais generalistas, percebemos uma tendência dos estudos indicarem a articulação entre competências características de distintas alfabetizações, literacias ou letramentos, visando capacitar os jovens para avaliar o conteúdo acessado.

Nesse sentido, notamos que as propostas costumam orientar uma combinação de alfabetizações científica, midiática e informacional, na tentativa de preparar os jovens para lidar de maneira saudável com a informação em suas diversas formas de veiculação atuais (Brisola, 2021; Gaspar Júnior, 2022; Graffunder, 2021; Marquetto, 2021). Pinheiro (2023), assume que a educação científica é uma área propícia para essa articulação, sobretudo a partir do estabelecimento de uma interface com a educação midiática. Segundo Graffunder (2021, p. 126),

[...] associar saberes e habilidades da alfabetização científica com a alfabetização midiática e informacional no ensino de Ciências significa proporcionar ao estudante condições de entender o processo pelo qual os conhecimentos de Ciência e Tecnologia são formulados e validados.

Para Pinheiro (2023), é importante promover uma reorientação da abordagem sobre a natureza da ciência, a fim de que a concepção dos estudantes sobre os mecanismos de produção científica passe a envolver também saberes como a revisão por pares e a divulgação do conhecimento por meio de veículos especializados e convencionais. Nessa perspectiva, a formação cidadã que a educação deve promover é permeada pela reflexão sobre a não neutralidade das ciências e sua possível relação com os interesses de propagadores de desinformação e negacionismo na sociedade atual (Silva, R. N., 2022).

Portanto, discutir elementos que compõem o fazer científico pode contribuir para a compreensão da construção do conhecimento, e, por sua vez, aprimorar a habilidade dos estudantes em pesquisar sobre diferentes assuntos na internet (Pinheiro, 2023). Ou seja, entender os mecanismos de produção do conhecimento científico, assim como os meios de comunicação da ciência e a sua apropriação pela sociedade, pode servir de referência para a compreensão da produção e da divulgação de informações de outras naturezas e, consequentemente, contribuir para a formação de bons hábitos informacionais. Com efeito, evidenciamos que tanto discentes quanto docentes, inclusive do ensino superior, apresentam pouca competência informacional digital, como revelado por falhas desse público em práticas de pesquisa de informações em ambientes digitais (Kirnew, 2022).

Corroborando a ideia da necessidade de aprimoramento do ensino sobre a natureza da ciência, R. M. A. Silva (2022) propõe que estratégias baseadas em investigação sejam basilares nesse trabalho, já que comprovadamente contribuem para o desenvolvimento do senso crítico dos estudantes, além de beneficiá-los com o aprendizado de conteúdos. Além dos aspectos relativos à criticidade e à aprendizagem, Durães (2023) relaciona a esse tipo de abordagem o potencial de contribuir para o uso reflexivo e ético das tecnologias digitais de informação e comunicação. Em seu estudo, o pesquisador adotou uma abordagem teórica fundamentada nos pressupostos de uma educação libertadora, conforme os postulados de Paulo Freire. De fato, o ensino por investigação pode atuar como um mecanismo de estímulo ao interesse pelo debate sobre problemas cotidianos, o que é considerado por Graffunder (2021) essencial aos processos educativos que visem o combate à desinformação. Adicionalmente, esses processos educacionais deverão contemplar informações sobre como a ciência responde a esses problemas. Ademais, uma abordagem que contemple as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) pode ser promissora para minimizar elementos motivadores da adesão ao negacionismo científico, pois se constitui em uma prática pedagógica comprometida com o desenvolvimento sociocrítico do estudante (Santos, 2023).

A propósito, estimular a criticidade dos jovens parece ser um dos pontos de concordância entre os estudiosos que pensaram o papel das estratégias didáticas no enfrentamento da desinformação e do negacionismo, embora os meios para atingir esse objetivo sejam variados. Enquanto Gonçalves (2023) buscou estimular a criticidade dos estudantes pela leitura de textos filosóficos, C. A. Silva (2023) apostou em práticas de leitura e escuta aliadas à produção textual, assumindo uma concepção interativa da linguagem, na qual a curadoria exercida pelo professor tem um papel de destaque. Em contrapartida, Brisola (2021) postula que o ensino da Competência Crítica em Informação (CCI) é um caminho possível para a resistência à desinformação na sociedade contemporânea. Na prática, essa criticidade deve ser especialmente acionada durante a leitura de conteúdos midiáticos de circulação digital (Santana, 2021), possibilitando aos leitores a capacidade de “identificar conteúdos falsos e de (re)agir responsivamente diante deles” (Silva, F. G., 2023). Desse modo, estratégias que estimulem o pensamento crítico, como a exploração de práticas jornalísticas em sala de aula, podem colaborar para o desenvolvimento da autonomia do indivíduo em seu relacionamento com as notícias (Marquetto, 2021).

Nessa esteira, englobando habilidades de leitura e práticas jornalísticas, Nicacio (2019) realizou oficinas com estudantes do segundo ciclo do Ensino Fundamental nas quais foi possível ler e refletir sobre o gênero notícia e sua relação com os espaços de circulação, conhecer o processo de produção de notícias à luz do fenômeno das fake news e da checagem de informações e exercitar a produção de notícias a partir de acontecimentos da própria escola. Adotando uma abordagem semelhante, Diogo (2019) também desenvolveu oficinas nas quais foram discutidos temas como informação na internet, características de notícias falsas e diferenças entre fake news e jornalismo confiável, culminando na produção textual para as redes sociais pelos estudantes. Considerando a popularidade desse meio de circulação, Santos (2022, p. 5) propôs, por sua vez, a análise e a criação de memes, enfatizando a importância das escolas.

[...] se apropriarem de linguagens como a dos memes que se reportam [sic], para além das mensagens, a formas de pensar e de se posicionar, explorando os potenciais ângulos que favoreçam a participação cívica na web, sob uma abordagem de autoria reflexiva e crítica [...].

Morano (2023) apostou na concepção, produção e gravação de videocasts utilizando recursos inerentes à atividade jornalística, como pauta, roteiro e entrevista, como caminho para a alfabetização midiática de jovens estudantes. Utilizando uma estratégia semelhante, o podcast, Soares (2023) constatou que os estudantes se motivaram com a realização da atividade, concebendo apresentações de seminários criativas para a turma e demonstrando domínio sobre os conteúdos abordados nos episódios.

Essas iniciativas ilustram as diversas possibilidades de alfabetização midiática e informacional com jovens estudantes, demonstram o valor dessa prática e sua articulação na educação escolar em diferentes etapas. Versuti (2021), por exemplo, desenvolveu workshops voltados à alfabetização midiática em turmas com faixa etária média de 12 a 13 anos, em escolas públicas brasileiras e portuguesas, demonstrando que desde as primeiras etapas de ensino esse objetivo educacional pode ser perseguido. No tocante à articulação de saberes midiáticos e informacionais aos conhecimentos escolares, a interdisciplinaridade concebida a partir do trabalho colaborativo entre docentes de diferentes componentes pode surtir efeitos positivos. Esse foi o caso observado por Siqueira (2022) ao promover uma disciplina eletiva na educação básica com um grupo multidisciplinar de professores. Na ocasião, os docentes abordaram temáticas que perpassam as áreas de Educação, Comunicação, Sociologia e Linguagens, com embasamento, sobretudo, nas publicações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Outra articulação possível e promissora seria entre os multiformatos de informação e os diversos canais de circulação, os quais foram abordados separadamente por diferentes pesquisadores, como notícias em jornais escolares, memes em redes sociais, videocasts e podcasts, entre outros. Tal articulação poderia configurar uma abordagem comunicacional transmídia, que consiste, basicamente, na produção e divulgação de uma narrativa em diversos canais, linguagens e formatos de maneira integrada, o que já demonstrou seu alto poder de mobilização e engajamento dos estudantes em contexto de sala de aula, agregando valor à aprendizagem escolar (Mutsuque, 2022).

Entretanto, é importante observar que ações desse teor demandam, além de saberes de âmbitos diversos, a utilização de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs). Santos (2019) identificou, em um grupo de professores da educação básica, que esses profissionais concebem a possibilidade de uso de smartphones em sala de aula para fins de alfabetização informacional dos estudantes, mas nunca implementaram uma metodologia que envolvesse o uso desse recurso. Para o autor, é importante explorar o potencial da alfabetização informacional para reduzir as práticas de disseminação de informações falsas, o que demanda o compromisso docente com o planejamento de ações diversas. Uma alternativa experimentada por Bourscheid (2023) foi o uso do purposeful game com jovens e adultos estudantes da educação básica. O jogo em questão, com sua atratividade e seus recursos audiovisuais, despertou o interesse e gerou o engajamento dos participantes do estudo, que vivenciaram momentos de entretenimento, instrução e provocação ao debate e à reflexão sobre desinformação envolvendo a vacinação humana em diferentes faixas etárias.

Parte das experiências relatadas se deu na educação básica, sobretudo na modalidade regular (Diogo, 2019; Nicacio, 2019; Siqueira, 2022), mas também na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Bourscheid, 2023; Santana, 2021). Adicionalmente, registramos algumas iniciativas em cursos de graduação, como a desenvolvida em uma formação inicial na área da saúde, que objetivou conferir aos futuros profissionais, mecanismos de ação contra o negacionismo em saúde, por intermédio de ações de educação popular desenvolvidas no formato de oficinas pautadas na afetividade e no diálogo (Rocha, 2023). Consideramos pertinente a aposta em distintas vias de educação, inclusive não escolar, que poderá ser efetivada por profissionais da saúde, orientados a despertar uma consciência crítica sobre o problema do negacionismo junto às comunidades onde atuarão. Destacamos aqui o trabalho de Pauletti (2023), que também desenvolveu seu estudo a partir de uma temática do campo da saúde, mas direcionando-o a licenciandos em Ciências Biológicas, que deverão atuar efetivamente no âmbito educacional. Na ocasião, o pesquisador fomentou discussões acerca de Alfabetização Científica frente ao negacionismo com o uso da arte do cinema. Além de filmes, foram experimentados diversos instrumentos pedagógicos pelos graduandos em uma disciplina, como textos, nuvens de palavras, charges e diário de formação, que contribuíram para a compreensão de conceitos e para o entendimento dos determinantes sociais que influem na saúde individual e coletiva (Pauletti, 2023).

A partir das experiências destacadas, notamos quão diversificadas podem ser as abordagens educacionais motivadas por objetivos equivalentes. Diversos professores pesquisadores, a partir de seus respectivos referenciais teóricos, adotaram decisões metodológicas também variadas e demonstraram resultados animadores no que concerne ao papel de enfrentamento que a educação assume na atualidade. Embora reconheçamos a relevância dessa diversidade de ações, acreditamos falte uma recomendação geral que sirva de ponto de partida, com orientações claras sobre as possibilidades estratégicas mais potentes no âmbito da abordagem dos fenômenos estudados por meio do ensino. Assim, a análise das estratégias adotadas pelos pesquisadores representa um marco conceitual que orientará futuras intervenções educacionais com intenções semelhantes.

Considerações finais

Ao analisarmos as trilhas de pesquisa experimentadas nos campos do ensino e da educação cujo pano de fundo contempla a desinformação e o negacionismo científico, registramos algumas tendências definidas por diferentes enfoques. Os trabalhos que trazem os professores em primeiro plano, destacam o potencial desses atores para a operacionalização de práticas conducentes ao desenvolvimento de competências necessárias aos jovens para uma interação saudável com a informação. Por sua vez, os estudos que lançam luz sobre o comportamento informacional dos estudantes no ecossistema digital defendem a necessidade de apoio ao desenvolvimento de suas capacidades pelas vias educacionais.

A abordagem educacional dos problemas em destaque encontra fundamento na BNCC, que elenca uma série de competências e habilidades essenciais à formação integral do jovem. Uma das habilidades propostas pelo documento prevê que os estudantes devem se apropriar “[...] criticamente de processos de pesquisa e busca de informação, por meio de ferramentas e dos novos formatos de produção e distribuição do conhecimento na cultura de rede” (Brasil, 2018, p. 489). O documento também defende que “[...] no Ensino Médio, os jovens precisam aprofundar a análise [...] da relação entre informação e opinião, com destaque para o fenômeno da pós-verdade”, dentre outras necessidades (Brasil, 2018, p. 495). Apesar de importantes, recomendações como essas estão concentradas na área de Linguagens e suas tecnologias, enquanto a abordagem da desinformação e do negacionismo parece demandar esforços mais abrangentes. Para Araújo e Sousa (2025), é importante pensarmos em ajustes na BNCC que contemplem as especificidades dos textos enganosos e articulem habilidades de diversas áreas do conhecimento para discutir a relação entre os discursos e a prática social.

Além dessa fragilidade no âmbito das políticas públicas educacionais, o enfrentamento de que tratamos nesse estudo apresenta uma disparidade de cobranças entre docentes e discentes, o que é perceptível quando comparamos os grupos de estudos com enfoques no professor e no estudante. Notamos que, enquanto os estudantes são inquiridos sobre suas competências informacionais e habilidades digitais, os professores lidam com a demanda de instruir os jovens na busca de informações capaz de driblar os artifícios utilizados por grupos empenhados na manutenção da desinformação e do negacionismo científico, mesmo que esses professores também sejam vítimas desses fenômenos. Nesse contexto, a formação continuada dos profissionais da educação é apresentada como uma alternativa um tanto salvacionista para atender a essa demanda.

Evocar a formação continuada como solução para um problema no campo da educação decorre, em parte, de lacunas na formação inicial de educadores e da recente vinculação de responsabilidade à educação sobre o tema. Essa nova demanda da educação se alinha a um momento em que prevalece uma BNC-Formação carente de espaço e estímulo para uma formação sólida em conhecimentos científicos, culturais, teóricos, metodológicos e didático-pedagógicos. A partir da BNC-Formação proposta em 2019 — que permanece na atualidade apesar de ter sido revogada em 2024 —, a formação docente tende ao caráter instrumental, focada em atender à demanda do mercado, com prioridade ao desenvolvimento de competências e habilidades centradas no pragmatismo, no imediatismo e no tecnicismo (Tiroli; Jesus, 2022).

Entretanto, em detrimento de uma eventual padronização do trabalho docente a partir de formações pontuais, acreditamos em aproveitar e otimizar a força de trabalho daqueles profissionais que, em seu cotidiano, demonstram sensibilidade aos danos provocados pela desinformação e pelo negacionismo, além de afeição à ideia de incrementar suas práticas na tentativa de atingir os objetivos de ensino das múltiplas alfabetizações atualmente necessárias à população. Ao propormos a adesão aos profissionais que já se sintam motivados e engajados com esta causa, minimizamos a demanda por sensibilização e partimos para a reflexão sobre os mecanismos capazes de minar os fenômenos globais com os quais pretendemos lidar. Para pensar estrategicamente nas possibilidades de ação, apoiamos nossa reflexão nas experiências relatadas por pesquisadores que empreenderam foco em abordagens educacionais para os problemas mencionados. Além dos estudos dirigidos a quem pratica e a quem recebe instruções de regulação comportamental voltada ao ecossistema informacional no qual estamos inseridos, identificamos, inclusive em maior predominância, pesquisas enfocadas nas formas como essas experiências têm sido propostas.

Baseados nesse terceiro grupo de trabalhos, extraímos três contribuições principais: a sugestão de que a combinação de elementos das alfabetizações científica, midiática e informacional pode contribuir para a superação de desafios prementes; a sugestão de uma possível reorientação do ensino de ciências, valorizando o ensino sobre a natureza da ciência, em contraposição à dinâmica de produção e veiculação de informações de outras naturezas, com a intenção de aprimorar o comportamento informacional da população; e a inspiração criada a partir da comparação entre a diversidade de estratégias práticas já implementadas por diferentes pesquisadores em distintos contextos, amparadas pelo propósito comum de conferir criticidade aos jovens estudantes. No segundo caso, associamos a ênfase no ensino de ciências, que surgiu em meio à nossa ampla análise acerca do campo educacional, à íntima relação dessa área com a problemática investigada. Apesar de muito importantes, essas contribuições buscam atender ao objetivo controverso de estimular a independência informacional da população.

Embora reconheçamos a importância de empoderar os jovens para buscar informações em ambientes digitais, assim como a necessidade de lhes fornecer as ferramentas necessárias para tal, devemos também considerar o poder de evolução das estratégias de desinformação e negacionismo. Esses fenômenos se fortaleceram ao longo do tempo, experimentando diferentes canais de circulação de informações e permeando diversos grupos sociais. Com isso, acumularam mutações que os tornam muito potentes para serem sempre reconhecidos e evitados pela população em geral. Portanto, baseados na literatura pertinente ao tema, defendemos o reconhecimento da possibilidade de incapacidade individual e, por isso, da dependência epistêmica como um mecanismo regulador de nossa interação com informações de diferentes esferas do conhecimento no cotidiano.

Segundo Harari (2018), a confiança no conhecimento de outros costumava ser uma característica funcional das sociedades humanas, até chegarmos a um momento em que frequentemente esbarramos na ignorância de muitos sobre a maioria dos temas que impactam tais sociedades. No campo científico, no entanto, desenvolvemos estratégias que apoiam nossa confiança epistêmica em estranhos, sistematizando, por exemplo, a revisão por pares e a avaliação da experiência do cientista, que conferem credibilidade ou não à informação acessada (Höttecke; Allchin, 2020). Defendemos que tais mecanismos sejam popularizados, de modo que o comportamento informacional generalizado considere aspectos como o autor da informação, seu veículo de divulgação, as condições de sua produção e as eventuais intenções de seus compartilhadores, dentre outros tantos elementos que assumiram uma importância inédita no nosso relacionamento com a informação, sobretudo no ambiente virtual. Desse modo, acreditamos que as práticas educacionais que incorporem essa recomendação podem contribuir para o consumo consciente de informações.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados da pesquisa estão incluídos no próprio texto do manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Set 2024
  • Aceito
    15 Set 2025
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