RESUMO
Objetivo: Analisar tendências temporais e padrões espaciais da sífilis gestacional e congênita na Região Norte do Brasil entre 2014 e 2023.
Método: Estudo ecológico temporal com dados secundários provenientes do Sistema Nacional de Nascidos Vivos e do painel nacional de indicadores de sífilis. As taxas de sífilis gestacional e congênita foram analisadas por regressão log-linear e modelos joinpoint para estimativa do Annual Percent Change. As associações foram estimadas por modelos de contagem com efeitos fixos e offset populacional e a dependência espacial por regressões autorregressivas espaciais.
Resultados: A sífilis gestacional apresentou crescimento contínuo na série histórica. A sífilis congênita mostrou heterogeneidade entre os estados, com aumento anual de 80,5% no Amazonas até 2017, seguido de reversão após 2018, enquanto o Pará manteve crescimento em todo o período.
Conclusão: Desigualdades sociais e territoriais permanecem como determinantes centrais da persistência da transmissão vertical da sífilis na Amazônia brasileira.
DESCRITORES:
Sífilis; Sífilis Congênita; Ecossistema Amazônico; Transmissão Vertical de Doenças Infecciosas; Fatores Socioeconômicos
HIGHLIGHTS
1. Observou-se crescimento contínuo dos casos de sífilis gestacional na Região Norte.
2. Identificaram-se padrões distintos da sífilis congênita entre os estados.
3. A baixa escolaridade materna esteve associada à maior incidência dos agravos.
ABSTRACT
Objective: To analyze time trends and spatial patterns corresponding to gestational and congenital syphilis in the Brazilian North region between 2014 and 2023.
Method: A time-based ecological study conducted with secondary data from the National Live Births System and from the national panel of syphilis indicators. The gestational and congenital syphilis rates were analyzed by means of log-linear regression and “joinpoint” models to estimate the Annual Percent Change. The associations were estimated via fixed-effects count and population-based offset methods, in turn, spatial dependence was estimated through spatial autoregressive regressions.
Results: Gestational Syphilis presented continuous growth in the historical series. Congenital Syphilis showed heterogeneity across the states, with an 80.5% annual increase in Amazonas until 2017, followed by a reverse trend after 2018; in turn, the increasing trend remained in Pará during the entire period.
Conclusion: Social and territorial inequalities remain as core determinants of persistent mother-to-child syphilis transmission in the Brazilian Amazon.
DESCRIPTORS:
Syphilis; Syphilis, Congenital; Amazon Ecosystem; Infectious Disease Transmission; Vertical; Socioeconomic Factors.
HIGHLIGHTS
1. A continuous increase in the number of Gestational Syphilis cases was noticed in the North region.
2. Different Congenital Syphilis patterns were identified across the states.
3. Low maternal schooling was associated with higher incidence of both diseases.
RESUMEN
Objetivo: Analizar tendencias temporales y patrones espaciales correspondientes a la sífilis materno-infantil en la región Norte de Brasil entre 2014 y 2023.
Método: Estudio ecológico y temporal realizado con datos secundarios provenientes del Sistema Nacional de Nacidos Vivos y del panel nacional de indicadores de sífilis. Las tasas de sífilis gestacional y congénita se analizaron por medio de regresión log-lineal y modelos joinpoint para estimar el Annual Percent Change. Las asociaciones se estimaron a través de modelos de conteo con efectos fijos y offset poblacional, mientras que la dependencia espacial se estimó por medio de regresiones espaciales autorregresivas.
Resultados: La sífilis gestacional presentó un crecimiento continuo en la serie histórica. La sífilis congénita demostró heterogeneidad entre los estados, con un aumento anual del 80,5% en Amazonas hasta el año 2017, seguido de una inversión en la tendencia después de 2018, mientras que Pará mantuvo el ascenso durante todo el período.
Conclusión: Diversas desigualdades sociales y territoriales siguen siendo determinantes centrales en cuanto a la persistencia de la transmisión vertical de la sífilis en la Amazonia brasileña.
DESCRIPTORES:
Sífilis; Sífilis Congénita; Ecosistema Amazónico; Transmisión Vertical de Enfermedad Infecciosa; Factores Socioeconómicos.
HIGHLIGHTS
1. Se observó un crecimiento continuo en la cantidad de casos de sífilis gestacional en la región Norte.
2. Se identificaron distintos patrones de sífilis congénita entre los estados.
3. Nivel de estudios bajo en las madres se asoció a mayor incidencia de ambas enfermedades.
INTRODUÇÃO
A sífilis continua sendo uma carga significativa para a saúde materno-infantil em escala global e também no Brasil, apesar de diretrizes clínicas e políticas de saúde estruturadas, a transmissão vertical de Treponema pallidum persiste como determinante de morbidade neonatal e perinatal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) definem a Eliminação da Transmissão Vertical (EMTCT) da sífilis como uma meta prioritária, o que requer não apenas testagem universal, mas diagnóstico precoce, tratamento oportuno da gestante e de sua(s) parceria(s) sexual(is), além de cobertura e qualidade efetivas em todos os níveis do cuidado1.
Em nível global, estima-se que centenas de milhares de casos de sífilis congênita ocorram anualmente, resultando em desfechos adversos como natimortalidade, prematuridade, baixo peso ao nascer e mortalidade neonatal2. Embora muitos países tenham avançado na ampliação da testagem e no acesso ao tratamento, desigualdades socioeconômicas, barreiras geográficas e fragilidades nos sistemas de saúde continuam limitando a efetividade das estratégias de prevenção da transmissão vertical3. Esses desafios são particularmente evidentes em regiões com grandes desigualdades territoriais e sociais, como a Amazônia brasileira, onde fatores estruturais influenciam diretamente o acesso ao diagnóstico e ao tratamento oportuno.
Alinhado às estratégias internacionais, especificamente à meta 3.3 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o Programa Brasil Saudável (PBS) foi criado no Brasil. A sífilis compõe uma das cinco infecções de transmissão vertical que integram o programa, no qual foram eleitas prioridades quanto aos municípios e ações e com uma metodologia de trabalho interinstitucional. A inclusão da sífilis nesse contexto é sustentada por seu caráter socialmente determinado e pela persistência de elevada incidência no país, refletida no aumento contínuo das notificações de sífilis gestacional (SG) e congênita (SC)4. Estudos ecológicos e temporais recentes revelam que o país, como um todo, sofreu crescimento marcante da incidência de SC entre 2008 e 2018, com variações regionais significativas, fortemente relacionadas a desigualdades socioeconômicas e baixo acesso ao pré-natal5,6.
O Brasil ainda não apresenta trajetória consistente de eliminação da sífilis congênita, cujos parâmetros incluem taxa inferior a 0,5 casos por 1.000 nascidos vivos (NV), cobertura ≥95% de testagem no pré-natal e ≥95% de tratamento adequado de gestantes e seus parceiros. A distância em relação a essas metas evidencia a persistência de determinantes sociais que estruturam a ocorrência do agravo, como baixa escolaridade, desigualdades territoriais e barreiras no acesso oportuno aos serviços de saúde e à informação7,8.
Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde desempenha papel central nas ações de prevenção e controle da sífilis. O enfermeiro possui autonomia para realizar a consulta de enfermagem, solicitar testes rápidos, interpretar resultados e prescrever penicilina benzatina, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno durante o pré-natal9.
Além disso, estudos espaciais e temporais têm contribuído para compreender a dinâmica territorial da sífilis, permitindo identificar clusters de risco e padrões heterogêneos de ocorrência da doença6. Essas abordagens são particularmente relevantes em regiões extensas e socialmente diversas, pois possibilitam reconhecer áreas prioritárias para intervenção e orientar estratégias de vigilância epidemiológica mais direcionadas10.
Apesar do crescimento geral das taxas de SG e SC no Brasil, ainda persistem lacunas importantes de conhecimento sobre a dinâmica espaço-temporal desses agravos na Região Norte, especialmente quanto ao momento de mudança nas tendências temporais, à heterogeneidade entre estados e à influência de fatores sociais, como a escolaridade materna. Nesse contexto, compreender os padrões espaciais e temporais da sífilis materno-infantil torna-se fundamental para subsidiar políticas públicas mais eficazes.
Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar tendências temporais e padrões espaciais da sífilis gestacional e congênita na Região Norte do Brasil entre 2014 e 2023.
MÉTODO
Este é um estudo ecológico-temporal em painel (Unidade Federativa (UF) ×ano) que cobre os sete estados da Região Norte do Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) no período de 2014 a 2023. O desfecho de interesse é a incidência de SG e SC por 1.000 nascidos vivos (NV), e a principal exposição ecológica é a proporção de baixa escolaridade materna.
O recorte regional foi definido a priori para responder à pergunta de pesquisa sobre desigualdades intrarregionais, maximizando a comparabilidade entre UFs vizinhas e evitando diluição de efeitos por agregação nacional.
As taxas anuais de SG e SC por UF foram obtidas do Portal de Indicadores de Sífilis do Ministério da Saúde8 e a escolaridade materna e os denominadores de nascidos vivos (NV) foram obtidos do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC/DATASUS)11. Todas as extrações foram realizadas em 18 de setembro de 2025 e harmonizadas por sigla pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e ano civil. As variáveis de desfecho foram calculadas como taxas por 1.000 NV; a exposição ecológica foi definida como:
A escolaridade materna foi categorizada em baixa escolaridade (analfabetismo e ensino fundamental completo ou incompleto) e maior escolaridade (ensino médio ou superior). Essa classificação foi adotada por representar um marcador amplamente utilizado de vulnerabilidade socioeconômica em estudos epidemiológicos sobre sífilis materna e congênita no Brasil, nos quais níveis educacionais até o ensino fundamental estão associados a maior risco de transmissão vertical e piores indicadores de acesso ao pré-natal12,13.
Para a construção da série foram consolidados dois conjuntos: um painel UF×ano e uma série agregada regional, ambos com numeradores (casos) e denominadores (NV). Para viabilizar a modelagem em escala logarítmica e evitar problemas com log(0), empregou-se a correção de Haldane-Anscombe. A análise de tendência temporal anual de SG e SC foi estimada por regressão log-linear:
Onde: y é a taxa (>0), na UF=i e ano =t. O coeficiente ββ foi convertido no Annual Percent Change (APC):
Para robustez da autocorrelação e heterocedasticidade, os erros-padrão foram corrigidos por NeweyWest com largura de defasagem, produzindo intervalos de confiança e testes mais fidedignos sem impor uma estrutura paramétrica rígida do erro. A possibilidade de curvatura temporal foi investigada comparando-se BIC entre o modelo linear e um modelo quadrático em log(y); quando ∆BIC<-2, realizou-se sensibilidade com modelos GAMM(AR1) combinando suavização não paramétrica da tendência com erro autorregressivo de ordem 1, o que mitiga viés por dependência serial residual14. Para detecção de mudanças de tendência em pontos específicos do período, aplicou-se um modelo de ponto de mudança (joinpoint) com uma quebra na escala logarítmica15 apresentados na escala original da taxa com os APCs por segmento16.
A associação entre sífilis e escolaridade foi estimada com modelos de contagem apropriados para dados de incidência, especificados como:
em que μit é a média de casos de SG (ou SC), na UF=i, no ano=t, log(NVit ) é o offset que normaliza pelo denominador, γi são efeitos fixos de UF e δt são efeitos fixos de ano. O modelo de Poisson foi usado como ponto de partida, aplicando-se teste de superdispersão; quando esta foi detectada, adotou-se o modelo Binomial Negativo17. A inferência utilizou erros-padrão robustos clusterizados por UF, garantindo resiliência a heterogeneidades residuais. Nessa parametrização, eβ interpreta-se como razão de taxas (IRR), informando a variação relativa da incidência associada à maior proporção de baixa escolaridade ao longo do tempo.
Para avaliar a dependência espacial, construiu-se matriz de vizinhança por contiguidade Queen, com padronização por linha (padronização por linha utilizando a prop_low_ed. Como etapa confirmatória, ajustaram-se regressões espaciais na escala logarítmica das taxas (SAR-lag e SEM), adotando o tipo de modelo de acordo com testes LM robustos (RLMlag e RLMerr).
Para sintetizar a tendência média regional e quantificar a heterogeneidade entre as unidades federativas, realizou-se metanálise de efeitos aleatórios utilizando o estimador de máxima verossimilhança restrita (REML). Foram combinados os coeficientes β obtidos nas regressões log-lineares estimadas para cada estado, permitindo calcular um efeito médio regional e avaliar a heterogeneidade interestadual por meio da estatística I2. As análises foram realizadas no software R (versão 4.1.1) utilizando o pacote metafor.
Esta pesquisa foi isenta de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa segundo as diretrizes nacionais aplicáveis a estudos com dados secundários públicos e anonimizados. Ainda assim, adotamos boas práticas de proteção de dados previstas na LGPD (Lei nº 13.709/2018), evitando qualquer tentativa de vinculação que pudesse resultar na identificação de pessoas.
RESULTADOS
Em todos os estados da Região Norte, os casos de SG concentraram-se principalmente entre mulheres de 20 a 29 anos (≈45%-56%), com participação relevante de adolescentes de 15 a 19 anos (≈24%-30%). Quanto à escolaridade, observou-se predomínio das categorias ensino fundamental e ensino médio. A raça/cor parda foi predominante em toda a região (≈66%-82%), refletindo a composição demográfica regional, enquanto a maior proporção de raça/cor branca foi observada em Rondônia (≈18%) (Tabela 1).
Distribuição absoluta e percentual das características sociodemográficas dos casos de sífilis gestacional por estado da Região Norte. Belém, Pará, Brasil, 2025
Em relação à SC, a grande maioria dos casos foi registrada em menores de sete dias de vida (≈93%-97%), com pequenas proporções entre sete e 27 dias e entre 28 e 364 dias, além de registros raros em crianças com um ano ou mais. A distribuição da idade materna foi semelhante à observada para SG (Tabela 2).
Distribuição absoluta e percentual das características sociodemográficas dos casos de sífilis congênita por estado da Região Norte. Belém, Pará, Brasil, 2025
As análises de tendência indicaram crescimento exponencial das taxas de SG ao longo da série histórica, enquanto as taxas de SC apresentaram maior heterogeneidade entre os estados. No Amazonas e em Rondônia, identificaram-se pontos de inflexão com mudanças significativas na direção da tendência (Figuras 1 A e B). Até 2017, as taxas de SC cresceram intensamente no Amazonas (APC ≈ 80,5%), mas, a partir de 2018, observou-se reversão. Em Rondônia, observou-se padrão semelhante, com crescimento inicial (APC ≈ 12,3%) seguido de queda expressiva após 2018. Em contrapartida, o Pará manteve crescimento contínuo da SC, ainda que com desaceleração no ritmo: a taxa apresentou dois segmentos crescentes, com APC de aproximadamente 5,8% até 2019 e de 11,1% posteriormente. Na Região Norte como um todo, observou-se elevação inicial acentuada (21,6% ao ano), seguida de aumento mais lento após 2018 (3,8% ao ano) (Figuras 1 C e D).
Tendência temporal da SC nos estados do AM (A), RO (B), PA (C) e Região Norte agregada (D). Belém, Pará, Brasil, 2025 Fonte: Os autores (2025).
As análises de regressão evidenciaram associação positiva entre a proporção de baixa escolaridade materna e as taxas de sífilis. Para SC, o efeito combinado foi de β = 0,10 (IC95%: 0,01-0,19), o que corresponde a um incremento de cerca de 10% na taxa para cada aumento de 10 pontos percentuais na proporção de mães com baixa escolaridade. Para SG, a associação foi ainda mais intensa, com β = 0,18 (IC95%: 0,15-0,21), equivalente a um aumento aproximado de 20% nas taxas para cada acréscimo de 10 p.p. de baixa escolaridade (Figura 2 A e B).
Associação entre baixa escolaridade materna e incidência de sífilis SC (A) e SG (B) na Região Norte do Brasil. Belém, Pará, Brasil, 2025 Legenda: IC= Intervalo de Confiança. Fonte: Os autores (2025).
Foram ajustados modelos lineares em escala log, com efeitos fixos por UF e erros-padrão agrupados por UF (70 observações; 7 UFs × 10 anos), considerando a covariável “baixa escolaridade materna” padronizada em incrementos de 10 pontos percentuais. A cada incremento de 10 p.p., observou-se aumento relativo de 1,8% na taxa de sífilis em gestantes (SG) (β = 0,018; EP = 0,040; IRR ≈ 1,02; IC95% 0,94-1,10; p = 0,65; R2within = 0,158) e de 5,0% na taxa de sífilis congênita (SC) (β = 0,049; EP = 0,102; IRR ≈ 1,05; IC95% 0,86-1,28; p = 0,63; R2within = 0,095).
Os mapas temáticos das taxas médias de SC e SG por UF, evidenciam os contrastes entre TO (alta taxa de SC) e AC (alta taxa de SG) (Figura 3 A e B) e a relação da incidência com a baixa escolaridade materna destaca-se em maior concentração nos estados do AC, AM e RO os quais também figuram entre os estados com as maiores taxas de sífilis (Figura 3 C).
Taxas médias de incidência (1.000 NV) de SC (A) e SG (B) e a distribuição da baixa escolaridade materna (%) (C) na Região Norte do Brasil. Belém, Pará, Brasil, 2025 Fonte: Os autores (2025).
No painel comparativo entre SC e SG é possível observar a discrepância entre o crescimento acelerado das notificações de SG e a persistência de SC em níveis elevados.
As análises de sensibilidade confirmaram a robustez dos resultados: (i) modelos quadráticos e GAMM com estrutura AR1 indicaram curvatura pronunciada nas tendências de SG, mas não alteraram a direção dos efeitos; (ii) modelos espaciais SAR/SEM apresentaram ajustes marginais superiores (AIC menor), porém não modificaram a magnitude nem o sentido das associações.
DISCUSSÃO
A concentração de SG e SC em mulheres de 20-29 anos, com participação relevante de adolescentes (15-19 anos), acompanha o padrão reprodutivo regional, mas reforça vulnerabilidades persistentes no cuidado pré-natal dessa população. Embora o predomínio em adolescentes seja proporcionalmente menor que em jovens adultas, sua relevância epidemiológica indica falhas na captação precoce, aconselhamento sexual e acesso qualificado ao pré-natal nessa faixa etária, conforme descrito em análises nacionais recentes18.
A predominância de mulheres autodeclaradas pardas acompanha a composição demográfica regional; contudo, a presença proporcionalmente relevante de populações indígenas em alguns estados evidencia a necessidade de estratégias culturalmente adaptadas, com ampliação de testagem e tratamento em áreas remotas e superação de barreiras linguísticas e geográficas19. Esse aspecto territorial diferencia a Região Norte de outras macrorregiões brasileiras e constitui contribuição relevante deste estudo ao evidenciar heterogeneidades intrarregionais pouco exploradas em análises nacionais agregadas.
O elevado percentual de SC diagnosticada na primeira semana de vida sugere fluxo de detecção concentrado na maternidade, o que favorece a vigilância, mas não substitui a prevenção primária e secundária durante a gestação20. Esse padrão indica que o sistema consegue identificar o desfecho, porém falha na prevenção oportuna da transmissão vertical - um ponto crítico para as metas de eliminação. Do ponto de vista temporal, a trajetória ascendente e não linear da SG, associada à heterogeneidade interestadual da SC, é consistente com o panorama nacional descrito nos Boletins Epidemiológicos20,21. Entretanto, este estudo acrescenta ao demonstrar que, mesmo com desaceleração recente em estados como Amazonas e Rondônia, o Pará mantém crescimento sustentado, contribuindo para a manutenção da tendência regional ascendente. Essa persistência evidencia que respostas estaduais não têm sido homogêneas nem suficientes para alterar o curso regional.
Em 2024, reforçou-se a necessidade de manter altas coberturas de rastreio e tratamento oportuno para interromper a cadeia de transmissão vertical22. No entanto, quando se consideram as particularidades intrarregionais da Região Norte do Brasil, marcadas por diferenças socioculturais, demográficas e logísticas relevantes, observa-se que estratégias territorialmente direcionadas tendem a ser mais efetivas do que metas médias estaduais.
Evidências provenientes do Amazonas indicam que muitos casos de SC ocorrem entre gestantes com baixa escolaridade, residentes fora da capital, com diagnóstico tardio e tratamento ausente ou inadequado do parceiro, o que contribui para a persistência de risco elevado no interior, apesar da redução observada em parte da série23. No Pará, o crescimento contínuo da SC também evidencia importantes disparidades entre municípios costeiros e ribeirinhos, onde o acesso aquaviário ou rodoviário é difícil e a infraestrutura de saúde tende a ser mais precária, com menor capacidade laboratorial e menor oferta de profissionais qualificados5.
Apesar dos avanços globais e da consolidação de programas voltados à eliminação da transmissão vertical da sífilis como problema de saúde pública, os resultados deste estudo indicam que os esforços atuais ainda são insuficientes para alterar esse cenário. O crescimento persistente da SG e os padrões heterogêneos da SC reforçam o distanciamento em relação à trajetória de eliminação e evidenciam a necessidade de políticas estaduais específicas, articuladas a ações nacionais.
Dois fatores contextuais ajudam a interpretar a curvatura observada. A escassez de penicilina benzatina entre 2014 e 2016 comprometeu o tratamento oportuno e pode ter repercutido nos anos subsequentes24,25,26. Posteriormente, a pandemia de COVID-19 desestruturou fluxos assistenciais e atividades preventivas, impactando o diagnóstico e o manejo da sífilis materna26-28.
O gradiente social observado, com maior ocorrência entre mulheres de baixa escolaridade, reafirma a sífilis como marcador de desigualdade estrutural. A literatura brasileira contemporânea demonstra que escolaridade, raça/cor e vulnerabilidade territorial se sobrepõem, ampliando o risco de SG e SC29.
Estudos municipais e estaduais reforçam essa interpretação. No Amazonas, a persistência de casos associa-se a diagnóstico tardio, tratamento inadequado de parceiros e interiorização do agravo23. Na Bahia e em São Paulo, análises espaciais evidenciaram aglomerações municipais relacionadas à baixa escolaridade materna e inadequação do pré-natal29,30. Os achados alinham-se a essas evidências e expandem a compreensão ao demonstrar que, na Região Norte, as disparidades territoriais, sobretudo em municípios ribeirinhos e de difícil acesso, desempenham papel central na manutenção da SC.
Comparando com a literatura pós-pandemia, a trajetória encontrada na Região Norte converge com achados recentes de capitais e regiões metropolitanas do Brasil, onde a retomada do pré-natal reorganizou fluxos de testagem e tratamento, mas não resolveu a assimetria social, porém a qualidade do cuidado e a logística em áreas remotas seguem definindo se a SC reduz ou insiste em patamares altos28.
As forças deste trabalho incluem (a) séries completas (2014-2023) para os sete estados; (b) painel UF×ano com offset, efeitos fixos e erros robustos; (c) abordagem de tendência combinando APC log-linear, joinpoint e GAMM(AR1); (d) sensibilidades espaciais (Moran/LISA, SAR/SEM) e meta-análise dos efeitos da escolaridade. O desenho e a triangulação analítica estão alinhados às melhores práticas para séries curtas de vigilância (suscetíveis a autocorrelação e heteroscedasticidade) e aos guias de validação de EMTCT que cobram consistência metodológica antes de inferências de política.
Esses resultados indicam que o controle da sífilis materno-infantil na Região Norte não depende exclusivamente da ampliação da cobertura do pré-natal, mas também da redução das desigualdades sociais e territoriais que estruturam o risco epidemiológico. A persistência de taxas elevadas em determinados estados sugere que estratégias uniformes podem ser insuficientes para alterar o curso da transmissão vertical. Em contextos caracterizados por grandes distâncias geográficas, dispersão populacional e barreiras de acesso aos serviços de saúde, como na Amazônia brasileira, intervenções territorialmente direcionadas e sensíveis às especificidades locais tornam-se essenciais para a efetividade das políticas de prevenção e controle da sífilis6,24.
No entanto, este estudo possui algumas limitações: (i): é um estudo ecológico em nível UF, sujeito a falácia ecológica; (ii): depende de sistemas de informação (SINAN, SINASC) que podem sofrer variações na completude; (iii): as séries anuais são relativamente curtas; a incerteza de joinpoints e de curvas suaves deve ser interpretada com parcimônia.
CONCLUSÃO
A sífilis gestacional manteve trajetória ascendente na Região Norte do Brasil, enquanto a sífilis congênita apresentou marcada heterogeneidade entre os estados ao longo do período analisado. A associação observada entre maior proporção de baixa escolaridade materna e aumento das taxas de sífilis evidencia o papel central dos determinantes sociais na persistência da transmissão vertical. Esses achados ampliam a copreensão sobre a dinâmica espaço-temporal da sífilis materno-infantil na Amazônia brasileira e indicam que estratégias de controle devem considerar desigualdades territoriais e sociais na organização das ações de vigilância e prevenção.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
Torres MKS, Neves LGS, Parente AT, Aben-Athar CYUP, Botelho EP, Ferreira GRON. Tendências temporais e padrões espaciais da sífilis materno-infantil na Região Norte do Brasil: um estudo ecológico. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e101416pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.101416pt
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FINANCIAMENTO
O presente estudo foi realizado com apoio do Programa Redução de Assimetrias da Pós-Graduação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Brasília, Distrito Federal, Brasil. Edital n. 14/2023. Processo 88887.909538/2023-00.
Disponibilidade de dados:
Os autores declaram que os dados estão disponíveis de forma completa no corpo do artigo.
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Editor associado:
Dra. Mariana Torreglosa Ruiz






