RESUMO
Objetivo: Analisar a influência de fatores sociodemográficos e maternos na ocorrência de abortos espontâneos e retidos.
Método: Estudo epidemiológico descritivo que analisou variáveis sociodemográficas, obstétricas e assistenciais referentes ao período de 2019-2024, coletadas em prontuários eletrônicos de um hospital no noroeste do Paraná, e analisadas utilizando o teste qui-quadrado de Pearson.
Resultados: Dos 436 prontuários, identificou-se predominância até a 12ª semana gestacional (82,2% dos abortos retidos e 67,7% dos espontâneos). Abortos espontâneos foram significativamente mais prevalentes em mulheres com até oito anos de estudo, e os retidos entre aquelas com maior nível educacional. Adolescentes e mulheres com 35 anos ou mais apresentaram maior vulnerabilidade à ocorrência de aborto retido, enquanto as com idade entre 16 e 34 anos ao espontâneo.
Conclusão: Idade materna e escolaridade influenciam os tipos de aborto, evidenciando desigualdades sociodemográficas que permeiam o processo reprodutivo. Necessário políticas públicas que ampliem o acesso e qualifiquem o cuidado reprodutivo no Sistema Único de Saúde.
DESCRITORES:
Mulheres; Idade Materna; Aborto Espontâneo; Aborto Retido; Fatores Socioeconômicos.
HIGHLIGHTS
1. Maior escolaridade esteve associada ao aborto retido.
2. Aborto espontâneo mostrou-se prevalente em baixa escolaridade.
3. Adolescentes e ≥ 35 anos: mais vulneráveis ao aborto retido.
4. Predomínio de abortos até a 12ª semana de gestação.
ABSTRACT
Objective: Analyze the influence of socio-demographic and maternal factors on the occurrence of spontaneous and missed miscarriage.
Method: A descriptive epidemiological study that analyzed socio-demographic, obstetric, and nursing variables for the period 2019-2024, collected in electronic records of a hospital in the northwest of Paraná, and analyzed using the Pearson chi-square test.
Results: Of the 436 cases, predominance was identified until the 12th week of pregnancy (82.2% of missed miscarriage and 67.7% of spontaneous abortions). Abortions were significantly more prevalent in women with up to eight years of study and those with higher educational levels. Adolescents and women aged 35 or older were more vulnerable to missed miscarriage, while those aged 16 to 34 were more vulnerable to spontaneous abortion.
Conclusion: Maternal age and schooling influence the types of abortion, evidencing sociodemographic inequalities that permeate the reproductive process. Public policies that broaden access and qualify reproductive care in the Single Health System are necessary.
DESCRIPTORS:
Women; Maternal Age, Abortion; Spontaneous; Abortion; Missed; Socioeconomic Factors.
HIGHLIGHTS
1. Higher education was associated with missed miscarriage.
2. Abortion was prevalent in low schooling.
3. Adolescents and ≥ 35 years old: most vulnerable to missed mi scarriage.
4. Prevalence of abortions until the 12th week of gestation.
RESUMEN
Objetivo: Analizar la influencia de factores sociodemográficos y maternos en la ocurrencia de abortos espontáneos y retenidos.
Método: Estudio epidemiológico descriptivo que analizó variables sociodemográficas, obstétricas y asistenciales referentes al período de 2019-2024, recolectadas en historias clínicas electrónicas de un hospital en el noroeste de Paraná, y analizadas utilizando la prueba chi-cuadrado de Pearson.
Resultados: De las 436 historias clínicas, se identificó predominancia hasta la 12ª semana gestacional (82,2% de los abortos retenidos y 67,7% de los espontáneos). Los abortos espontáneos fueron significativamente más prevalentes en mujeres con hasta ocho años de estudio, y los retenidos entre aquellas con mayor nivel educativo. Adolescentes y mujeres de 35 años o más presentaron mayor vulnerabilidad a la ocurrencia de aborto retenido, mientras que las de edad entre 16 y 34 años al espontáneo.
Conclusión: La edad materna y la escolaridad influyen en los tipos de aborto, evidenciando desigualdades sociodemográficas que permeabilizan el proceso reproductivo. Es necesario políticas públicas que amplíen el acceso y califiquen el cuidado reproductivo en el Sistema Único de Salud.
DESCRIPTORES:
Mujeres; Edad Materna; Aborto Espontáneo; Aborto Retenido; Factores Socioeconómicos.
HIGHLIGHTS
1. Mayor escolaridad estuvo asociada al aborto retenido.
2. El aborto espontáneo se mostró prevalente en baja escolaridad.
3. Adolescentes y ≥ 35 años: más vulnerables al aborto retenido.
4. Predominio de abortos hasta la 12ª semana de gestación.
INTRODUÇÃO
Os abortos espontâneos e retidos são complicações gestacionais com características distintas, cuja diferenciação é essencial para o manejo clínico adequado1-2. O aborto espontâneo ocorre sem intervenção intencional para interromper a gestação e, geralmente, é precedido por sinais como sangramento e cólicas3-4. O retido, por sua vez, caracteriza-se pela morte fetal sem a expulsão do material gestacional, sendo frequentemente diagnosticado por ultrassonografia e, em geral, sem sinais clínicos evidentes4.
Ambos os tipos representam condições potencialmente ameaçadoras à vida no ciclo gravídico-puerperal, além de possuir impacto significativo na saúde física e emocional da mulher5. Sua etiologia é multifatorial, abrangendo causas genéticas, idade materna, infecções, anomalias uterinas e/ou distúrbios hormonais, além de fatores sociodemográficos, como idade6, escolaridade2,7e cor/raça8, que interagem com determinantes sociais mais amplos7.Esses elementos reforçam a importância do reconhecimento oportuno dos fatores de risco para subsidiar o diagnóstico precoce e a adoção de intervenções clínicas adequadas.
O aborto constitui a quarta causa de morte materna no Brasil, ao contrário do observado em países desenvolvidos, onde as taxas de morte por aborto são reduzidas4. Estima-se que 10 a 15% das gestações no Brasil resultem em aborto espontâneo4, mas não existem dados sobre os retidos. Porém, em outros contextos como o Iraque, eles representam entre 10 e 20% das gravidezes1.
A frequência desses eventos, associada às complicações maternas graves e às desigualdades de acesso aos serviços de saúde e, ainda, aos impactos psicossociais como o sofrimento mental9 e processos de luto10 ampliam a complexidade do cuidado. Estes aspectos evidenciam a relevância dos abortos como problema de saúde pública, e a necessidade de estratégias preventivas e de qualificação de assistência como a atuação multidisciplinar e o fortalecimento dos cuidados obstétricos11.
Nesse cenário, a diferenciação entre os dois principais tipos de abortos e a identificação de características específicas relacionadas a cada um deles são fundamentais para aprimorar a vigilância, orientar o manejo clínico e qualificar políticas e práticas de saúde. Diante disso, o presente estudo teve como objetivo analisar a influência de fatores sociodemográficos e maternos na ocorrência de abortos espontâneos e retidos.
MÉTODO
Estudo epidemiológico descritivo realizado em um hospital-escola localizado na região noroeste do estado do Paraná, Brasil. A instituição realiza atendimento exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conta com 123 leitos e registra, em média, 12 mil internações por ano e, na área obstétrica, no ano de 2024, realizou 1200 partos. As recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) foram utilizadas na elaboração do relatório dessa pesquisa.
Embora a literatura descreva diversas classificações clínicas do aborto, como inevitável, incompleto, completo, infectado, habitual ou recorrente4, no presente estudo foram incluídos apenas os casos registrados como aborto espontâneo ou retido. Essa delimitação decorre tanto de sua relevância epidemiológica quanto da maior consistência e comparabilidade dos dados disponíveis no cenário analisado, o que possibilita uma abordagem quantitativa mais robusta.
Os dados foram coletados no período entre março e novembro de 2024, utilizando como fonte de dados os prontuários eletrônicos de mulheres atendidas nos anos de 2019 a 2024. Os critérios de inclusão foram: diagnóstico de aborto identificado pelos códigos O03 e O021 - aborto espontâneo e retido, respectivamente, da Classificação Internacional de Doenças- CID 10. Não foram incluídos casos de sangramento vaginal isolado e excluídos os prontuários cuja ausência de registros não permitia a identificação de características das mulheres ou do aborto. Do total de 234 registros de abortos espontâneos e 240 retidos, foram excluídos, respectivamente, 88 e 97 casos por incompletude prejudicial à análise e caracterização das informações.
As variáveis de interesse foram: faixa etária, em anos (≤15; 16-34; ≥35); escolaridade (≤8 anos e >8 anos); estado civil (com e sem companheiro); raça/cor da pele autodeclarada (branca; não branca); número de partos (primípara; multípara); histórico de aborto anterior (sim; não); idade gestacional (≤12 semanas e 6 dias; ≥13 semanas); município de residência (até 100 mil habitantes; mais de 100 mil habitantes); ano de internação (2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024); dor referida (sim; não); e encaminhamento de outro serviço (sim; não).
Os dados foram coletados mediante consulta ao sistema informatizado do hospital em estudo, registrados em planilha desenvolvida pelos pesquisadores e disponibilizada eletronicamente. Antes de iniciar a coleta, foi realizado um teste-piloto com 13 prontuários do ano anterior, os quais não foram incluídos na pesquisa, uma vez que o formulário precisou ser reformulado.
Dois pesquisadores devidamente treinados foram responsáveis pela coleta das informações: um estudante de enfermagem e uma enfermeira, mestranda, a qual também foi responsável pela conferência do preenchimento da planilha. Para garantir a precisão e integridade dos dados, adotou-se um processo de sorteio de 10% dos prontuários para revisão e checagem, o que foi realizado por dois pesquisadores, o que possibilitou a identificação e correção de eventuais erros ou inconsistências, reforçando a confiabilidade das informações.
Na análise, para avaliar a relação entre os tipos de aborto (variável dependente) e as variáveis sociodemográficas e reprodutivas (variáveis independentes), foi aplicado o teste qui-quadrado de Pearson ou, nos casos em que a frequência esperada em pelo menos 20% das células foi inferior a 5, o teste exato de Fisher. Complementarmente, foi realizada a interpretação dos resíduos padronizados ajustados nas tabelas de contingência, a fim de identificar se as frequências observadas nas categorias foram significativamente maiores ou menores do que o esperado.
Resíduos padronizados ajustados com valores absolutos superiores a 1,96 foram considerados indicativos de contribuições significativas para a associação global, permitindo compreender quais categorias específicas colaboraram de forma positiva ou negativa para os resultados encontrados. Os casos ignorados, como valores ausentes ou informações incompletas, foram desconsiderados para análise bivariada. Todas as análises foram realizadas utilizando um nível de significância de 5% (p < 0,05). O software utilizado foi o IBM SPSS Statistics 30®.
O estudo matricial foi autorizado pela comissão de regulamentação das atividades acadêmicas do hospital em estudo e aprovado pelo comitê de ética em pesquisa com seres humanos (CEP) da instituição signatária (parecer nº 6.656.413) em 19 de fevereiro de 2024.
RESULTADOS
Considerando os 436 prontuários analisados, constatou-se que os dois tipos de aborto em estudo foram mais frequentes em mulheres brancas, multíparas e ocorreram até 12 semanas e seis dias de gestação. O aborto espontâneo predominou entre aquelas com menor nível de escolaridade e na faixa etária de 16 a 34 anos. Já o aborto retido foi mais frequente entre mulheres com nível educacional superior a oito anos de estudo, com ocorrência relativamente elevada entre adolescentes e mulheres de faixas etárias mais avançadas (Tabela 1).
Associação entre variáveis sociodemográficas e clínico-epidemiológicas e tipo de aborto. Maringá, PR, Brasil, 2019 a 2024
Observa-se que a escolaridade e a faixa etária apresentaram associação estatisticamente significativa com o tipo de aborto, sendo o espontâneo mais frequente entre mulheres com até oito anos de estudo e na faixa etária de 16 a 34 anos, enquanto o aborto retido predominou entre aquelas com mais de oito anos de escolaridade e entre adolescentes ou mulheres com 35 anos ou mais. As demais variáveis independentes analisadas não apresentaram associação estatisticamente significativa com o desfecho (Tabela 1).
No ano de 2023, o número de casos de aborto retido foi mais do que o dobro do ano anterior. Os abortos espontâneos também apresentaram crescimento, embora mais discreto, passando de 36 (16,1%) em 2022 para 47 (21,1%) em 2023 (Figura 1).
Comparação do número de abortos espontâneos e retidos ocorridos ao longo do período em estudo. Maringá, PR, Brasil, 2019 a 2024 Fonte: Os autores (2025).
Em relação ao acesso ao serviço de saúde, observou-se que a maioria das mulheres com aborto espontâneo, 157 (70,4%), e retido, 139 (65,3%), procurou o hospital em estudo por demanda espontânea. As demais foram encaminhadas por unidades de saúde pertencentes ao mesmo município ou a municípios da região.
Quanto ao município de residência, dentre os 223 casos de aborto espontâneo, 125 (56,1%) eram residentes no município de localização do hospital em estudo e 98 (43,9%) foram encaminhadas. Dos 213 casos de aborto retido, 108 (50,7%) mulheres eram residentes em Maringá e 105 (49,3%) foram encaminhadas. A dor no momento da admissão no serviço foi referida por 50 (23,5%) mulheres nos casos de aborto retido e por 111 (49,8%) daquelas com aborto espontâneo.
DISCUSSÃO
Este estudo identificou que a maioria das mulheres que tiveram aborto espontâneo ou retido era branca, o que difere da literatura em relação a outros estados e países. Essa divergência tem relação com o fato de que 64,6% da população residente no município de localização do hospital em estudo e no estado do Paraná é da raça/cor declarada branca12. Estudo realizado com dados nacionais referentes às internações no sistema público de saúde no Brasil demonstrou que abortos são mais frequentes entre mulheres pardas13, resultado também encontrado em estudo que considerou somente o estado da Bahia8. Em contraste, no Reino Unido, a maioria das mulheres que tiveram aborto era preta14.
Tais variações reforçam a importância de considerar os contextos territoriais, raciais e socioeconômicos na análise dos desfechos reprodutivos. Os indicadores de desenvolvimento humano entre o estado do Paraná e o da Bahia evidenciam diferenças estruturais significativas. No estado do Paraná, onde esta pesquisa foi realizada e de onde provém a maior parte das participantes do estudo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,769, sendo classificado como alto15. Destarte, os municípios com baixo ou médio IDH tendem a apresentar desigualdades estruturais que influenciam o perfil sociodemográfico das mulheres14 e impactam diretamente o acesso aos serviços de saúde, a qualidade do cuidado ofertado e os desfechos relacionados ao abortamento.
Além desses marcadores, o número de gestações também se mostrou um elemento relevante na análise do perfil das mulheres em situação de abortamento. Neste estudo, nos dois tipos de aborto, a maioria dos casos ocorreu entre mulheres multíparas. Esse achado contraria resultados de uma pesquisa realizada no México, segundo a qual as chances de abortamento diminuem a partir da segunda gestação16. Por outro lado, diverge dos dados de um estudo conduzido em um hospital no Iraque, focado especificamente nos casos de aborto retido, no qual constatou-se que mais de 50% das mulheres eram primíparas2. De forma semelhante, na China foi identificado como fator de risco para a ocorrência de aborto o fato de ter tido apenas uma gestação17.
Outro aspecto a ser considerado refere-se ao histórico de abortos. A literatura aponta que aquelas com um aborto prévio no primeiro trimestre apresentam risco de recorrência entre 12% e 14%. Esse risco se eleva para aproximadamente 26% após duas perdas gestacionais e pode chegar a 45% após três abortos consecutivos18. No entanto, os dados do presente estudo mostram que a maioria das participantes, independentemente do tipo de aborto, não possuía antecedentes de perdas gestacionais, o que se distancia dos perfis tradicionalmente descritos. Esses contrastes sugerem que a associação entre paridade e abortamento pode assumir diferentes configurações, reforçando a necessidade de investigações mais aprofundadas e sensíveis a essas especificidades.
A associação observada entre aborto espontâneo e níveis mais baixos de escolaridade pode estar relacionada às barreiras enfrentadas por mulheres com menor acesso à informação, à educação sexual e reprodutiva e aos serviços de saúde19. Essa condição pode resultar em atrasos na detecção de anomalias fetais ou de alterações hormonais20. No entanto, esse padrão não se manifesta de forma homogênea em diferentes contextos. Por exemplo, estudo realizado na região da Puglia, na Itália, constatou que a maioria das mulheres que vivenciaram episódios de aborto possuía ensino médio completo21. Tal disparidade evidencia que a relação entre escolaridade e aborto é mediada por determinantes contextuais.
Adicionalmente, os dados desta pesquisa indicam uma correlação entre o aborto retido e níveis mais elevados de escolaridade, com predomínio de mulheres com ensino superior. Resultado semelhante foi identificado em estudo transversal realizado no Iraque, com 77 mulheres que passaram por esse tipo de aborto2. Esses achados sugerem que fatores educacionais e sociais podem influenciar tanto o acesso quanto a demanda por cuidados médicos, além da maior capacidade de reconhecimento de sinais e sintomas associados a condições de risco gestacional, variando de acordo com o tipo de aborto.
Neste estudo, a associação estatisticamente significativa observada entre idade e tipo de aborto merece atenção. Os casos de aborto retido foram mais frequentes entre adolescentes com menos de 15 anos e mulheres com 35 anos ou mais, ambas classificadas como grupos de risco gestacional3. No caso das adolescentes, além dos riscos físicos, ressaltam-se aspectos psicossociais, como pouca preparação para assumir responsabilidades maternas, o impacto negativo na trajetória escolar, o desenvolvimento biológico ainda incompleto e a menor adesão ao acompanhamento pré-natal19.
Esses fatores estão intimamente relacionados à instabilidade hormonal característica dessa fase da vida, especialmente no que se refere aos níveis de gonadotrofina coriônica humana, estradiol e progesterona, hormônios fundamentais para a manutenção da gestação. Alterações ou níveis insuficientes dessas substâncias podem atuar como preditores para o aborto retido22. A ausência de acompanhamento pré-natal adequado contribui para que essas mulheres integrem estatísticas de maior risco reprodutivo, o que pode, em parte, explicar a associação observada nesta investigação.
Para as mulheres com 35 anos ou mais, os riscos relacionados ao aborto retido são influenciados, primeiramente, pela dificuldade de fecundação decorrente da diminuição da quantidade e qualidade dos óvulos com o avançar da idade, o que impacta a viabilidade de uma gestação saudável23. Além disso, estilos de vida pouco saudáveis, frequentemente associados a essa faixa etária, também podem contribuir para o aumento do risco de abortamento7. A relação com os hormônios preditores do aborto retido torna-se ainda mais relevante nesse grupo, uma vez que a proximidade da menopausa pode provocar maior instabilidade hormonal e menor produção de hormônios essenciais à gestação17.
Nos casos de aborto espontâneo, embora seja geralmente associado à gravidez tardia20, sua predominância em mulheres com idade entre 16 e 34 anos, observada neste estudo, apresenta consonância com o descrito em outras pesquisas. Destaca-se que apesar de a fertilidade ser mais elevada nesse período, os riscos permanecem significativos e eles não se restringem às barreiras econômicas, sociais e culturais, mas incluem também fatores como ausência de exames preventivos, falta de vacinação antitetânica, hospitalizações recentes24, idade paterna superior a 40 anos25, abortos anteriores26, e alterações anatômicos27.
No presente estudo, o estado civil não apresentou diferenças estatisticamente significativas, sendo que nos dois tipos de aborto a maioria das mulheres não possuía companheiro. Resultado semelhante foi registrado na Espanha24. Por outro lado, estudos conduzidos na região de Puglia, na Itália, e na região metropolitana de Santiago, no Chile, identificaram maior proporção de mulheres com companheiro21, 25. Essas variações sugerem que o estado civil pode exercer influência sobre o cuidado gestacional, especialmente no que se refere ao acesso aos serviços de saúde e ao suporte emocional e social durante a gestação. Mulheres sem parceiro podem enfrentar dificuldades adicionais para acessar cuidados médicos de forma oportuna e contínua, além de estarem mais expostas a fatores psicossociais que impactam negativamente a saúde materna28.
Hipotetiza-se que o estado civil, por si só, não constitui um fator determinante para a ocorrência de abortos espontâneos ou retidos. Tais desfechos resultam de um conjunto complexo de elementos, que incluem, entre outros, as condições socioeconômicas, a inserção social das mulheres e o acesso oportuno e qualificado aos serviços de saúde. Ainda assim, os achados da literatura reforçam a necessidade de estratégias de cuidado que considerem redes de apoio ampliadas, para além do núcleo conjugal, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social10,14,21.
Em relação ao município de residência, não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o porte populacional (pequeno ou médio) e os tipos de aborto, o que sugere que a simples categorização territorial não é suficiente para explicar os desfechos reprodutivos.
O aborto precoce, definido como aquele que ocorre até 12 semanas e 6 dias de gestação4, foi o mais frequente em ambos os tipos. Porém, é importante considerar que, nos casos de aborto espontâneo, a estimativa da idade gestacional pode ter sido realizada com base na data da última menstruação ou por meio de exame ultrassonográfico. Essa variação metodológica pode gerar discrepâncias nos registros29 e, consequentemente, impactar a acurácia dos dados coletados e, por conseguinte, ter interferido na análise dos resultados da presente pesquisa.
No que se refere à idade gestacional, embora não tenha sido identificada associação estatística significativa, observou-se uma diferença sutil entre os grupos, com número ligeiramente maior de casos de aborto retido ocorridos aquém de 13 semanas de gestação. Esse resultado está em consonância com a literatura, que aponta redução progressiva do risco de perda gestacional à medida que a gestação avança14, além de maior incidência de abortos entre a sexta e a décima semana gestacional, com diminuição gradual nas semanas subsequentes26. Tais evidências reforçam que, assim como ocorre com as demais variáveis analisadas, os desfechos relacionados ao aborto não devem ser compreendidos isoladamente, mas sim à luz de um conjunto de fatores interdependentes, incluindo determinantes sociais, econômicos, culturais e assistenciais.
Até 2021 existia, em âmbito nacional, uma tendência de diminuição no número de casos de aborto e das internações hospitalares associadas a essa condição13,26,30. Esperava-se, portanto, a continuidade desse declínio nos anos subsequentes. No entanto, os dados do presente estudo indicam aumento nos casos de aborto espontâneo em geral e de abortamento retido nos anos de 2022 e 2023. Esse crescimento pode estar relacionado a múltiplos fatores, incluindo o aprimoramento dos métodos diagnósticos, maior conscientização das mulheres e profissionais acerca dos sinais e sintomas do abortamento retido, além de possíveis impactos de mudanças nas condições socioeconômicas e na organização da atenção à saúde. Nesse contexto, destaca-se o papel da pandemia de COVID-19, que pode ter comprometido a regularidade do acompanhamento pré-natal e contribuído para a piora de desfechos reprodutivos, sobretudo entre populações em situação de maior vulnerabilidade.
As possíveis limitações deste estudo estão relacionadas ao uso de dados secundários, provenientes de prontuários eletrônicos, sujeito a erros de registro, dados faltantes ou inconsistências que o pesquisador não consegue corrigir. Ademais, a estrutura padronizada dos registros em prontuário impossibilitou o acesso a informações relacionadas com variáveis clínicas, sociais ou comportamentais que poderiam favorecer o aprofundamento e a compreensão dos casos analisados.
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo apontam que fatores sociodemográficos, como escolaridade e idade materna, influenciam de forma significativa os tipos de aborto, revelando desigualdades que perpassam o processo reprodutivo. Verificou-se maior incidência de abortos espontâneos entre mulheres com menor nível de escolaridade, enquanto os retidos foram mais frequentes entre aquelas com maior nível de instrução. Adolescentes e mulheres com 35 anos ou mais apresentaram maior vulnerabilidade ao aborto retido, refletindo desafios de ordem biológica, social e assistencial que afetam essas faixas etárias de maneira diferenciada.
Ao evidenciarem desigualdades estruturais, os resultados do estudo oferecem contribuições relevantes para a saúde da mulher no âmbito do SUS e têm potencial para orientar ações de saúde pública. Os dados reforçam a necessidade de fortalecer programas de educação sexual e reprodutiva voltados às mulheres com menor escolaridade, ampliando o acesso à informação qualificada e ao planejamento reprodutivo. Da mesma forma, destacam a importância de aprimorar a atenção obstétrica, com estratégias de acompanhamento mais sensíveis às vulnerabilidades de adolescentes e de mulheres em faixas etárias avançadas, considerando tanto riscos hormonais quanto aspectos psicossociais característicos desses grupos.
Para além disso, os achados do estudo ressaltam a importância de incorporar os determinantes sociais da saúde na análise dos desfechos reprodutivos e apontam para a necessidade de políticas públicas voltadas à promoção da equidade. Entre as estratégias prioritárias, incluem-se a oferta de atenção integral à saúde das mulheres e a ampliação do acesso oportuno, contínuo e qualificado aos serviços de saúde. Recomenda-se, ainda, o desenvolvimento de investigações adicionais que explorem, de forma contextualizada, a interação entre fatores biológicos, sociais e assistenciais, de modo a subsidiar intervenções mais eficazes e sensíveis às realidades locais.
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Artigo extraído da dissertação do mestrado: “Assistência recebida no contexto hospitalar durante o processo de abortamento: perspectiva de mulheres que vivenciaram a experiência”, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil, 2025.
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FINANCIAMENTO
O presente estudo foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
Balestre ME, Pavinati G, da Silva AI, Logullo VV, Teston EF, de Almeida JCG, et al. Abortamentos espontâneos e retidos em um hospital público: perfil materno e sociodemográfico. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e100981pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.100981pt
Disponibilidade de dados:
Os autores declaram que os dados podem ser disponibilizados mediante solicitação ao autor correspondente.
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Editor associado:
Dra. Luciana de Alcantara Nogueira


