Open-access Prevalência de sintomas de burnout em profissionais de enfermagem*

RESUMO

Objetivo:  Estimar a prevalência de sintomas de burnout em uma amostra de trabalhadores de enfermagem.

Método:  Estudo observacional, transversal, com amostragem não probabilística. Participaram do estudo 3594 enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem brasileiros. A coleta de dados ocorreu em ambiente virtual, entre abril e julho de 2022, sendo utilizado o Burnout Assessment Tool - Versão Geral. Na análise dos dados, foram calculadas as médias e realizada a classificação dos escores de burnout em quatro níveis.

Resultados:  Observou-se o predomínio de níveis moderados de exaustão (42,29%); distanciamento mental (38,59%); prejuízo cognitivo (54,73%); prejuízo emocional (52,56%); distresse psicológico e queixas psicossomáticas (49,55%).

Conclusão:  O predomínio de níveis moderados de sintomas de burnout reforça a necessidade da implementação de estratégias eficazes para a prevenção do adoecimento mental dos profissionais de enfermagem, o que inclui a redução de riscos psicossociais no contexto laboral, visando a promoção de ambientes de trabalho saudáveis.

DESCRITORES:
Promoção da Saúde; Saúde Ocupacional; Saúde Mental; Esgotamento Psicológico; Esgotamento Profissional

HIGHLIGHTS

1. Identificação de problemas emocionais em 69% dos trabalhadores.

2. Constatação de níveis elevados de exaustão em 33% dos participantes.

3. Predomínio de níveis moderados de sintomas de burnout.

4. Relevância da mitigação dos riscos psicossociais para a promoção da saúde.

ABSTRACT

Objective:  To estimate the prevalence of burnout symptoms in a sample comprised by nursing workers.

Method:  An observational and cross-sectional study with a non-probability sample. The study participants were 3,594 Brazilian nurses, nursing technicians and nursing assistants. The data were collected in an online environment between April and July 2022, using the burnout Assessment Tool - General version. In the data analysis phase, mean values were calculated and the burnout scores were classified into four levels.

Results:  Predominance of exhaustion (42.29%), mental distance (38.59%), cognitive impairment (54.73%), emotional impairment (52.56%), and psychological distress and psychosomatic complaints (49.55%) at moderate levels was observed.

Conclusion:  The predominance of burnout symptoms at moderate levels reinforces the need to implement effective strategies to prevent mental illness in nursing professionals, which includes reducing psychosocial risks in the labor context, aiming to promote healthy work environments.

DESCRIPTORS:
Health Promotion; Occupational Health; Mental Health, Burnout; Psychological; Burnout; Professional.

HIGHLIGHTS

1. Emotional problems were identified in 69% of the workers.

2. High exhaustion levels were detected in 33% of the participants.

3. Predominance of burnout symptoms at moderate levels.

4. Relevance of mitigating psychosocial risks to enable health promotion.

RESUMEN

Objetivo:  Estimar la prevalencia de síntomas de burnout en una muestra conformada por trabajadores de enfermería.

Método:  Estudio observacional y transversal, con muestreo no probabilístico. Los participantes del estudio fueron 3594 enfermeros, técnicos y auxiliares de enfermería brasileños. Los datos se recolectaron en un entorno virtual entre abril y julio de 2022, utilizando la Burnout Assessment Tool - Versión general. En la fase del análisis de los datos se calcularon los valores medios y se clasificaron las puntuaciones de burnout en cuatro niveles.

Resultados:  Se observó predominio de niveles moderados de agotamiento (42,29%), distanciamiento mental (38,59%), deterioro cognitivo (54,73%), deterioro emocional (52,56%), distrés psicológico y quejas psicosomáticas (49,55%).

Conclusión:  El predominio de niveles moderados de síntomas de burnout refuerza la necesidad de implementar estrategias eficaces para prevenir enfermedades mentales en los profesionales de enfermería; eso incluye reducir la cantidad de riesgos psicosociales en el contexto laboral, con el fin de promover ambientes de trabajo saludables.

DESCRIPTORES:
Promoción de la Salud; Salud Laboral; Salud Mental; Agotamiento Psicológico; Agotamiento Profesional.

HIGHLIGHTS

1. Se identificaron problemas emocionales en el 69% de los trabajadores.

2. Se constataron niveles elevados de agotamiento en el 33% de los participantes.

3. Se registró predominio de niveles moderados de síntomas de burnout.

4. Se verificó la relevancia de mitigar los riesgos psicosociales para promover la salud.

INTRODUÇÃO

A Enfermagem é uma profissão essencial nos serviços de saúde. Entretanto, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem estão imersos constantemente em contextos laborais que os expõem a altas cargas físicas e emocionais, especialmente por lidarem diretamente com o sofrimento humano e enfrentarem não apenas a escassez de recursos materiais e a infraestrutura inadequada de seus locais de trabalho, mas também a pressão diária de atuar em situações de alta complexidade, muitas vezes sem o suporte necessário1-2.

Esse cenário de precarização, caracterizado por condições de trabalho inadequadas, vínculos instáveis e desvalorização profissional, contribui para um processo de degradação que afeta a saúde física e mental dos trabalhadores e compromete a qualidade do cuidado3.

No que se refere aos riscos de adoecimento físico, os profissionais de enfermagem estão sujeitos a uma série de condições laborais que exigem esforço físico e adoção de posturas que afetam o sistema musculoesquelético4. Em relação ao adoecimento mental, a sobrecarga emocional inerente ao cuidado, sobretudo de pacientes em estado crítico, somada à falta de reconhecimento e valorização da profissão, torna-se fonte constante de sofrimento, evidenciando a relação entre a precarização do trabalho na enfermagem e o adoecimento desses profissionais2.

Embora o adoecimento físico continue a ser uma preocupação importante para os profissionais de enfermagem, o aumento significativo dos transtornos mentais tem se mostrado como um fator de risco ainda mais grave e ganhado maior atenção nos últimos anos, especialmente após a pandemia da COVID-195, período em que houve um crescimento exponencial de casos de distúrbios psicológicos entre profissionais de saúde, incluindo ansiedade, depressão6 e, particularmente, burnout7. Estudos apontam que a prevalência de burnout aumentou drasticamente entre os profissionais de saúde durante a pandemia5.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS)8, estima-se que 15% dos adultos em idade produtiva sofrem de transtornos mentais, com destaque para a depressão e a ansiedade, os quais, globalmente, geram custos à economia global na ordem de US$ 1 trilhão a cada ano, impulsionados predominantemente pela perda de produtividade. Esses números evidenciam a urgência de criar condições de trabalho mais saudáveis no intuito de mitigar o agravamento de sintomas relacionados à saúde mental e melhorar o bem-estar dos trabalhadores.

Recentemente, o burnout foi reconhecido pela OMS como uma doença ocupacional, incorporada à Classificação Internacional de Doenças, CID-119, sendo diretamente relacionada à exposição prolongada a fatores estressores no ambiente laboral. O conceito mais atual compreende o burnout como uma síndrome caracterizada por cansaço extremo, diminuição da capacidade de regular processos cognitivos e emocionais e distanciamento mental, sintomas que podem ainda ser acompanhados por humor deprimido, distresse psicológico e queixas psicossomáticas10.

A partir desta nova definição, destaca-se o desenvolvimento do Burnout Assessment Tool (BAT)10, instrumento originalmente elaborado em duas versões: BAT - Relacionado ao trabalho (33 itens) e BAT - Versão geral (32 itens)10, validado recentemente entre trabalhadores de enfermagem brasileiros7. O referencial do instrumento considera o burnout como uma síndrome composta por quatro fatores que representam os sintomas primários (exaustão, distanciamento mental, prejuízo cognitivo e prejuízo emocional) e por dois fatores que incluem os sintomas secundários de burnout (distresse psicológico e queixas psicossomáticas)10.

Diante desse contexto, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência de sintomas de burnout em uma amostra de trabalhadores de enfermagem.

MÉTODO

Trata-se de um estudo observacional, transversal, com amostragem não probabilística, elaborado de acordo com as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)11.

A pesquisa foi conduzida entre abril e julho de 2022, tendo como população profissionais de enfermagem cadastrados junto ao Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). A coleta de dados ocorreu em ambiente virtual, por meio do envio de mensagens eletrônicas pelo Cofen a todos os profissionais de enfermagem cadastrados, totalizando 779.337 convites enviados. As mensagens continham o link para acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e ao instrumento de coleta de dados, elaborado na plataforma Research Electronic Data Capture (REDCap).

A amostra final incluiu 3594 profissionais de enfermagem que aceitaram participar. Definiu-se como critérios de inclusão ser enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem; atuar na profissão há pelo menos um ano; e estar trabalhando na enfermagem no período da coleta de dados. Foram excluídos os profissionais que não responderam a todos os itens do instrumento psicométrico utilizado na coleta de dados.

O instrumento de coleta de dados possuía duas partes. A primeira foi composta por questões relacionadas aos dados individuais e ocupacionais dos participantes (idade, gênero, local de atuação profissional, categoria profissional e tempo de atuação na Enfermagem) e com três questões relacionadas à autopercepção de saúde do indivíduo, sendo elas: a) nos últimos 30 dias, você trabalhou com algum problema físico de saúde?; b) nos últimos 30 dias, você trabalhou com algum problema emocional/psicológico?, ambas com escala de resposta dicotômica (sim ou não); e c) De um modo geral, como você considera o seu estado de saúde?, com escala de resposta tipo Likert de cinco pontos (muito bom; bom; regular; ruim; muito ruim).

A segunda parte foi composta pelo Burnout Asessment Tool - BAT Versão geral10, instrumento psicométrico utilizado para avaliar os sintomas de burnout entre os participantes, adaptado culturalmente para o contexto brasileiro pelos próprios autores do instrumento12.

O BAT - Versão geral possui 32 itens divididos em quatro fatores primários: exaustão (itens 1 a 8), distanciamento mental (itens 9 a 12), prejuízo cognitivo (itens 13 a 17) e prejuízo emocional (itens 18 a 22), os quais representam o núcleo central do burnout10. Além destes, sintomas secundários podem ser percebidos, representados pelos fatores: distresse psicológico (itens 23 a 27) e queixas psicossomáticas (itens 28 a 32). A escala de resposta dos itens do BAT é do tipo Likert de cinco pontos, variando entre 1 (nunca), 2 (raramente), 3 (algumas vezes), 4 (com frequência) e 5 (sempre)10. Ressalta-se que o objetivo do BAT é rastrear e avaliar sintomas de burnout, não possuindo qualquer finalidade diagnóstica. Ressalta-se que a versão adaptada para o contexto brasileiro do BAT - Versão Geral foi validada, apresentando excelentes propriedades psicométricas7.

As análises estatísticas foram realizadas no programa IBM SPSS Statistics 22 (IBM Corp., Armonk, N.Y., USA). Os dados relacionados à caracterização da amostra foram analisados por meio de estatística descritiva; as respostas ausentes foram preservadas, uma vez que sua exclusão não modificaria a interpretação dos resultados.

Para estimar a prevalência de sintomas de burnout entre os profissionais de enfermagem, foram seguidas as orientações dos autores originais do instrumento, que recomendam a classificação dos escores em quatro níveis de burnout, a partir da média de respostas dos participantes para cada item do instrumento: baixo (percentil < 25), moderado (percentil 25 a 75), alto (percentil 75 a 95) e muito alto (percentil > 95)10, adotando-se um intervalo de confiança de 95%. Os autores do BAT recomendam ainda que o cômputo do escore global do instrumento seja feito considerando-se os quatro sintomas primários de burnout separadamente (exaustão, distanciamento mental, prejuízo cognitivo e prejuízo emocional) e a união dos dois sintomas secundários (distresse psicológico e queixas psicossomáticas)10.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP sob parecer nº 4.912.327. Foram seguidas todas as diretrizes da Carta Circular nº 1/2021, de 03 de março de 2021, do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, referente às orientações para procedimentos em pesquisas em ambiente virtual, e da Resolução nº 738/2024, de 01 de fevereiro de 2024, do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre o uso de bancos de dados com finalidade de pesquisa científica envolvendo seres humanos.

RESULTADOS

Foi observado que os participantes tinham entre 19 e 69 anos, com média de 35,75 anos (dp=10,09). A maior concentração de respostas ocorreu nas regiões Sudeste e Sul, especialmente nos Estados de São Paulo n=1429 (39,8%); Minas Gerais n=770 (21,4%); Rio de Janeiro n=482 (13,4%); Santa Catarina n=181 (5%); e Paraná n=217 (6%). Nas demais regiões, destacaram-se o Amazonas n=52 (1,4%); Ceará n=80 (2,2%); e Mato Grosso do Sul n=49 (1,4%). Ressalta-se que houve participação de profissionais de todos os Estados brasileiros. As características individuais e ocupacionais dos participantes estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização individual e ocupacional dos participantes. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022

No que tange à avaliação da percepção individual dos participantes quanto ao seu estado de saúde, 327 (9,10%) consideraram seu estado como muito bom; 1395 (38,81%) como bom; 1444 (40,18%) regular; 351 (9,77%) ruim; 71 (1,98%) muito ruim; seis participantes (0,16%) não responderam a esta questão. Quanto à presença ou ausência de problemas físicos de saúde nos últimos 30 dias, 2112 (58,76%) relataram possuir algum distúrbio; 1452 (40,40%) negaram qualquer problema físico; 30 (0,84%) não responderam este questionamento. Em relação aos problemas emocionais/psicológicos, 2500 (69,56%) participantes relataram ter trabalhado com problemas desta natureza nos últimos 30 dias e 1071 (29,80%) negaram qualquer distúrbio; 23 (0,64%) não responderam.

A prevalência de sintomas de burnout na amostra está apresentada na Tabela 2. Os resultados mostraram o predomínio de níveis moderados de exaustão n=1520 (42,29%), prejuízo cognitivo n=1967 (54,73%), prejuízo emocional n=1889 (52,56%), distresse psicológico e queixas psicossomáticas n=1781 (49,55%) e de níveis baixos de distanciamento mental n=1491 (41,49%). Entretanto, ressaltam-se os níveis altos de exaustão n=1191 (33,14%) e de sintomas secundários n=1038 (28,88%) na amostra.

Tabela 2
Prevalência de sintomas de burnout entre os participantes. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022

RESULTADOS

O presente estudo identificou, em seu conjunto de achados, o predomínio de níveis moderados de sintomas de exaustão, prejuízo cognitivo e prejuízo emocional em uma população majoritariamente feminina e jovem. Entretanto, cerca de um terço dos participantes apresentaram níveis elevados de exaustão, distresse psicológico e queixas psicossomáticas.

Esses resultados são coerentes com a realidade do trabalho em enfermagem, desenvolvido predominantemente por mulheres7,13 inseridas em um contexto marcado por sobrecarga, condições laborais inadequadas e elevada demanda emocional2,13. Tais fatores expõem essa categoria profissional a riscos significativos de desenvolver sintomas associados ao burnout14.

A necessidade de adaptação a mudanças repentinas na rotina13, a sobrecarga gerada pela dupla jornada de trabalho (doméstica e profissional)15 e a falta de preparo adequado para lidar com a pandemia16 foram fatores que contribuíram para o aumento do estresse, da exaustão física e do desgaste emocional dos profissionais da linha de frente do cuidado.

Além disso, a Enfermagem desempenha diversas funções em sua rotina profissional, lidando constantemente com demandas de natureza organizacional e pessoal13. Essas exigências envolvem um contato direto e contínuo com pacientes e seus familiares, o que requer habilidades interpessoais, empatia e compaixão17.

Nesse contexto, o predomínio de níveis moderados e elevados de sintomas de burnout entre os participantes corrobora os achados de uma pesquisa realizada na Alemanha com 595 enfermeiros atuantes em unidades hospitalares durante a pandemia da COVID-19, a qual, utilizando o BAT - Relacionado ao Trabalho, identificou que 47,6% desses profissionais apresentavam níveis moderados ou altos de burnout18.

Investigações internacionais reforçam a amplitude dos impactos do burnout entre profissionais de enfermagem. Na Polônia, um estudo com profissionais de saúde, incluindo 1157 enfermeiros, realizado durante a pandemia da COVID-19, utilizando o BAT-12 (versão reduzida), identificou que 18,4% estavam em risco significativo para o desenvolvimento de burnout. Em relação aos sintomas, a exaustão apresentou os escores mais elevados, seguida do distanciamento mental. Além disso, verificou-se que o assédio moral no ambiente de trabalho aumentou o risco de burnout em 3,5 vezes, enquanto o estresse elevou esse risco em 4,8 vezes19.

De maneira semelhante, evidências produzidas na Ásia também demonstram elevada vulnerabilidade dos profissionais de enfermagem ao adoecimento. Na Coreia, 165 enfermeiros de um hospital universitário nacional dedicado ao atendimento da COVID-19 participaram de um estudo que buscou identificar fatores de risco para burnout, revelando prevalências expressivas de exaustão (74,5%), prejuízo emocional (37%) e sintomas secundários (35,2%)20.

Considerando esses achados internacionais, torna-se relevante compreender os componentes específicos associados ao burnout, sobretudo porque, no presente estudo, foi identificada uma prevalência de 54,73% de prejuízo cognitivo e 52,56% de prejuízo emocional. Nesse sentido, o prejuízo cognitivo é definido como problemas de memória, déficits de atenção, dificuldades de concentração e baixo desempenho cognitivo. Por sua vez, o prejuízo emocional caracteriza-se por reações emocionais exacerbadas, sensação de sobrecarga afetiva, frustração e irritação no ambiente de trabalho, sentimento de tristeza ou desconforto sem causa aparente e dificuldade para regular as próprias emoções10.

Estudo longitudinal realizado na Suécia reforça essa perspectiva, ao demonstrar que, mesmo após três anos de acompanhamento profissional, pacientes com burnout ainda apresentavam suas funções cognitivas relacionadas à velocidade, atenção e memória abaixo do esperado21. Isso evidencia que o comprometimento cognitivo é um sintoma persistente mesmo após a redução de outros sintomas de burnout.

No que se refere aos sintomas secundários, o distresse psicológico manifesta-se por meio de problemas de sono, tensão, preocupação e ansiedade; as queixas psicossomáticas são representadas por sintomas físicos agravados por fatores psicológicos, como taquicardia, dores no peito, distúrbios gastrointestinais e cefaleia10. Além disso, entre os sintomas psicossomáticos, evidências têm demonstrado associação importante entre o burnout e o desenvolvimento ou agravamento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 222, distúrbios musculoesqueléticos23, e dores de cabeça e problemas gastrointestinais24, transtornos de humor, sintomas depressivos e insônia25.

Cabe ressaltar que, embora o estudo tenha sido conduzido após o período mais crítico da COVID-19, seus achados refletem o adoecimento mental dos trabalhadores da enfermagem desencadeado ou agravado durante a pandemia e relacionado ao contexto de trabalho vivenciado, como maiores exigências laborais (tarefas de alta complexidade podem desencadear o distanciamento mental como mecanismo de autoproteção)26, mudanças desfavoráveis na jornada de trabalho (turnos noturnos, excesso de horas extras e rotatividade, são fatores associados ao burnout)27, conflitos interpessoais (a falta de apoio social no ambiente de trabalho, seja de colegas ou supervisores, contribuem para o esgotamento)13 e a falta de autonomia no emprego (a ausência de liberdade para tomar decisões ou executar tarefas está associada a níveis mais altos de burnout)26.

Estes aspectos reforçam a compreensão atual do burnout como uma síndrome resultante de um processo de exposição permanente e prolongada a agentes estressores, os quais, ao longo do tempo, provocam exaustão física e mental10. Deste modo, a adoção de estratégias de prevenção e gerenciamento de riscos psicossociais torna-se cada vez mais indispensável para minimizar impactos e promover melhores condições laborais na enfermagem.

Quanto à autopercepção do estado de saúde, a maioria dos participantes classificou sua condição entre “boa” e “muito boa”. Contudo, ao serem questionados sobre problemas de saúde física e emocional/psicológica nos últimos 30 dias, observou-se que mais da metade relatou apresentar distúrbios físicos e exercer suas atividades laborais mesmo enfrentando dificuldades emocionais. Esses resultados evidenciam o adoecimento de uma parcela significativa de trabalhadores que continuavam desempenhando suas funções, caracterizando uma situação de presenteísmo frequentemente observada no atual contexto do mundo do trabalho. Tal condição, associada aos sintomas de burnout, pode impactar negativamente tanto a produtividade quanto o bem-estar geral dos indivíduos, reforçando a necessidade de intervenções voltadas à promoção da saúde física e mental no ambiente laboral1.

Diante do exposto, reconhece-se que o BAT representou uma importante ferramenta para a avaliação de sintomas de burnout entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem brasileiros. Estudos de adaptação cultural e validação do BAT em diferentes contextos, especialmente entre trabalhadores de saúde e enfermagem7,28-29 reforçam a importância deste novo instrumento para o rastreamento de sintomas relacionados ao adoecimento mental pelo trabalho e para a implementação de estratégias voltadas à promoção da saúde dos trabalhadores.

Ressalta-se que a escolha pela utilização da versão geral do BAT nesta pesquisa se justifica pela necessidade de uma análise abrangente dos sintomas de burnout entre os profissionais de enfermagem, considerando o contexto social agravado pela crise sanitária global durante a pandemia e os possíveis impactos na saúde mental e no bem-estar desses profissionais, sem limitar-se às demandas relacionadas ao trabalho em saúde.

A relevância do BAT na avaliação do burnout, ademais, tem sido associada à superação teórica do modelo subjacente do Maslach Burnout Inventory (MBI)30, instrumento mais utilizado no mundo para mensurar o burnout nas últimas décadas. Reconhece-se que o MBI teve um papel fundamental ao contribuir para a compreensão do burnout como um estado psicológico que merece atenção e estudo aprofundado. No entanto, a literatura científica tem apontado críticas ao uso desse instrumento, tais como a possibilidade de distorção nos padrões de resposta, o que pode comprometer sua validade10; a inclusão de itens positivos para avaliar um estado negativo29, a ausência de valores de corte clinicamente validados10 e a geração de três escores distintos para cada subescala ao invés de um único escore que represente o burnout10.

Em relação ao novo conceito de burnout proposto pelo modelo teórico do BAT, destacam-se as atuais definições de exaustão e de distanciamento mental. A exaustão se refere à perda de energia física e mental10, de modo semelhante aos pressupostos do MBI; entretanto, o MBI limita-se a avaliar aspectos afetivos, deixando de considerar os componentes físicos e cognitivos do esgotamento pelo trabalho30. O distanciamento mental é postulado como uma perda de interesse, aumento da resistência, não envolvimento e/ou aversão ao trabalho10, superando a definição de cinismo ou despersonalização do MBI, referente a sentimentos de indiferença ou atitudes negativas em relação ao trabalho e aos outros30.

Além disso, o BAT inclui duas dimensões relacionadas à redução da capacidade de regular processos emocionais e ao declínio no controle cognitivo, envolvendo sintomas amplamente relacionados ao burnout e não contemplados pelo MBI, tais como: frustração, irritabilidade, reações exageradas, déficit de atenção e memória, dificuldade de concentração e baixo desempenho cognitivo10.

O presente estudo oferece contribuições importantes ao fornecer evidências atualizadas sobre a ocorrência de sintomas de burnout entre profissionais da enfermagem. Ao identificar níveis moderados de exaustão, prejuízo cognitivo e prejuízo emocional entre estes trabalhadores, a pesquisa aprofunda a compreensão dos múltiplos domínios afetados pelo burnout e oferece subsídios para o desenvolvimento de intervenções, além de orientar futuras investigações sobre saúde mental e condições de trabalho na enfermagem.

Como limitações do estudo, consideram-se a impossibilidade de generalização dos resultados e a falta de representatividade nacional dos dados, já que, embora a amostra tenha sido composta por trabalhadores de enfermagem de todas as regiões do Brasil, a maioria dos respondentes foi oriunda da região Sudeste. Esse aspecto reforça a necessidade de novas pesquisas sobre sintomas de burnout em profissionais de enfermagem, utilizando instrumentos com referenciais teóricos consolidados, especialmente nas demais regiões brasileiras. Além disso, reconhece-se a limitação inerente ao delineamento transversal, que não permite estabelecer relações de causalidade entre as variáveis, o que evidencia a importância de estudos longitudinais voltados a compreender o impacto das variáveis individuais e ocupacionais nos sintomas de burnout.

CONCLUSÃO

Neste estudo, os resultados evidenciaram prevalência de níveis moderados de exaustão, distanciamento mental, prejuízo cognitivo e emocional, distresse psicológico e queixas psicossomáticas entre os profissionais de enfermagem. Esses resultados reforçam a necessidade de desenvolver estratégias eficazes para a prevenção do adoecimento mental destes profissionais, que enfrentam desafios diários inerentes ao processo de trabalho em saúde. Nesse contexto, a implementação de medidas que priorizem a saúde mental, como apoio psicológico adequado e ações educativas voltadas à valorização do bem-estar emocional, pode contribuir de forma significativa para reduzir o risco de burnout e promover um cuidado mais seguro e qualificado, beneficiando tanto os profissionais quanto os pacientes.

  • FINANCIAMENTO
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio da bolsa de produtividade em pesquisa (Processo nº 310705/2022-3) viabilizou o desenvolvimento deste estudo.
  • *
    Artigo extraído da dissertação do mestrado: “Validade psicométrica do Burnout Assessment Tool entre trabalhadores de enfermagem brasileiros”, Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2023.
  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Santin Júnior LJ, Ribeiro IKS, de Oliveira SA, Barreto MFC, de Oliveira ACGM, Rocha FLR. Prevalência de sintomas de burnout em profissionais de enfermagem. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e99103pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.99103pt

Disponibilidade de dados:

Os autores declaram que os dados não estão disponíveis devido a restrição por razão de sigilo, direitos de propriedade intelectual ou outros impedimentos legais.

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Editado por

  • Editor associado:
    Dra. Susanne Elero Betiolli

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    05 Maio 2025
  • Aceito
    22 Mar 2026
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