Open-access OLHARES DA CRIANÇA PARA O TERRITÓRIO: PERSPECTIVAS PARA O DESENVOLVIMENTO INFANTIL

RESUMO:

Objetivo:  compreender a perspectiva da criança sobre o território em que ela vive.

Método:  estudo qualitativo realizado em uma universidade pública do nordeste do Brasil, em julho/2023. Entrevistas com 15 crianças de sete a 12 anos foram conduzidas após a autorização dos pais e o consentimento das crianças. Análise de Conteúdo tomou como referencial teórico o modelo das Dimensões de Impacto do Território: Física, Socioeconômica, Serviços, Rede Social e Governança.

Resultados:  as crianças reconhecem a pobreza (Dimensão Socioeconômica), a violência (Dimensão Rede Social) e a precariedade da estrutura física dos bairros (Dimensão Física). Conviver com vizinhos/amigos (Dimensão Rede Social), a escola (Dimensão Serviços) e os parquinhos (Dimensão Física) amenizam o enfrentamento dos problemas. Elas pedem maior esforço dos governantes para as melhorias no território.

Considerações finais:  considerar a perspectiva da criança demonstra respeito, e incentiva seu papel ativo no planejamento de ações estratégicas, favorecendo a efetividade das ações de promoção da saúde infantil.

DESCRITORES:
Saúde da criança; Desenvolvimento infantil; Características da vizinhança; Pesquisa qualitativa; Enfermagem.

HIGHLIGHTS

O território tem impacto direto sobre o desenvolvimento infantil.

Crianças reconhecem a pobreza e a violência como aspectos negativos.

O convívio com a vizinhança atenua os problemas do território.

Ouvir a criança é respeitá-la e promover seu protagonismo.

ABSTRACT

Objective:  to understand children’s perspective on the territory in which they live.

Method:  a qualitative study carried out at a public university in northeastern Brazil in July 2023. Interviews with 15 children aged between seven and 12 were conducted after parental authorization and the children’s consent. Content analysis used the Territorial Impact Dimensions model as a theoretical framework: Physical, Socioeconomic, Services, Social Network, and Governance.

Results:  the children recognize poverty (Socioeconomic Dimension), violence (Social Network Dimension), and the precariousness of the physical structure of the neighborhoods (Physical Dimension). Living with neighbors/friends (Social Network Dimension), the school (Services Dimension), and the playgrounds (Physical Dimension) make it easier to cope with the problems. They call for greater efforts from government officials to improve the area.

Final considerations:  considering the child’s perspective shows respect and encourages their active role in planning strategic actions, favoring the effectiveness of actions to promote child health.

DESCRIPTORS:
Child health; Child development; Neighborhood characteristics; Qualitative research; Nursing.

HIGHLIGHTS

Territory has a direct impact on child development.

Children recognize poverty and violence as negative aspects.

Living in the neighborhood mitigates the problems of the area.

Listening to children means respecting them and promoting their protagonism.

RESUMEN

Objetivo:  comprender la perspectiva del niño sobre el territorio en el que vive.

Método:  estudio cualitativo realizado en una universidad pública del noreste de Brasil, en julio/2023. Se realizaron entrevistas con 15 niños de siete a 12 años después del permiso de los padres y el consentimiento de los niños. El Análisis de Contenido tomó como referente teórico el modelo de Dimensiones de Impacto Territorial: Física, Socioeconómica, Servicios, Red Social y Gobernanza.

Resultados:  los niños reconocen la pobreza (Dimensión Socioeconómica), la violencia (Dimensión Red Social) y la precariedad de la estructura física de los barrios (Dimensión Física). Vivir con vecinos/amigos (Dimensión de Red Social), la escuela (Dimensión de Servicios) y los parques infantiles (Dimensión Fisica) facilita afrontar los problemas. Piden mayor esfuerzo a los gobiernos para mejorar el territorio.

Consideraciones finales:  considerar la perspectiva del niño demuestra respeto y fomenta su papel activo en la planificación de acciones estratégicas, favoreciendo la eficacia de las acciones de promoción de la salud infantil.

DESCRIPTORES:
Salud infantil; Desarrollo infantil; Características del barrio; Investigación cualitativa; Enfermería.

HIGHLIGHTS

El territorio tiene un impacto directo en el desarrollo infantil.

Los niños reconocen la pobreza y la violencia como aspectos negativos.

La convivencia con el barrio alivia los problemas del territorio.

Escuchar al niño significa respetarlo y promover su protagonismo.

INTRODUÇÃO

A primeira infância é um período crítico para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, psicossociais e afetivas que terão impactos duradouros por toda a vida1. As características do bairro relacionadas às condições de moradia, saneamento básico, acesso ao transporte público, áreas verdes, lazer e segurança têm influência direta na construção da visão do mundo e na organização da estrutura cerebral da criança, mostrando que há uma forte correlação entre a qualidade do espaço geossocial e o desenvolvimento infantil2.

O Relatório da Organização Mundial da Saúde que aborda os desafios globais em saúde infantil a partir dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, revela que as crianças de famílias mais pobres enfrentam maiores obstáculos para o cuidado da saúde3, o que impõe custos humanos e econômicos a longo prazo para toda a sociedade. No Brasil, aproximadamente 50% das crianças com menos de cinco anos de idade residem em famílias cuja renda per capita é inferior a ¼ do salário mínimo4. Condições mais adversas são observadas na Região Nordeste, onde além da pobreza, o acesso aos serviços essenciais de saneamento básico, saúde e educação é drasticamente limitado4.

Todas as crianças podem enfrentar desafios nos primeiros anos de vida, especialmente relativos ao ambiente em que estão inseridas, mas, aquelas provenientes de contextos menos favorecidos têm menor capacidade de mitigar esses impactos adversos5.

Um estudo realizado em um município de pequeno porte do interior do estado de São Paulo com crianças menores de cinco anos de idade descobriu que a exclusão social familiar está associada a um desenvolvimento motor e socioemocional deficiente6. Além disso, há evidências de forte associação do desenvolvimento infantil com aspectos do território, como exposição aos espaços verdes7, coesão social e violência8.

Apesar do crescente interesse na temática e de já estar bem estabelecido em políticas públicas direcionadas à primeira infância que a convivência comunitária, o espaço e o meio ambiente em que a criança vive devem ser priorizados, pois determinam o desenvolvimento infantil9. Ainda são escassos os estudos que investigam a influência do território sobre o desenvolvimento infantil na perspectiva da criança. Ao considerar o olhar das crianças em temas complexos como este, que interfere substancialmente em sua vida, é possível estabelecer um processo contínuo de escuta sensível, que permite respeitar e fazer com que a criança alcance seu protagonismo, seu lugar de fala e as peculiaridades de expressão e de existência10.

Ao se ter em vista essas considerações, o objetivo deste estudo foi compreender a perspectiva da criança sobre o território em que ela vive. O pressuposto é que as vivências, as experiências e o modo de viver das crianças no lugar onde elas moram, possam sinalizar as potencialidades e as fragilidades do território para o desenvolvimento infantil saudável.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, exploratório, orientado pelo guia Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ), versão traduzida para o português11, que direciona a escrita de pesquisas qualitativas.

O estudo foi conduzido no município de Salvador (BA), cidade litorânea da Região Nordeste do Brasil com a quinta maior população entre os municípios brasileiros, registrando mais de 200 mil crianças menores de seis anos de idade4. Centro da cultura afro-brasileira, mais da metade da população do município é negra. A área urbana, o turismo e o comércio são bem desenvolvidos. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é de 0,759, que o coloca na categoria de alto desenvolvimento humano, mas há grandes desigualdades sociais, marcadas pela pobreza e pela violência12.

A coleta dos dados ocorreu em julho de 2023, durante um evento infantil realizado por uma universidade pública do município. Trata-se de um evento periódico, permanente, que reúne os estudantes e os professores de diversos cursos que realizam atividades lúdicas, interativas e de informação, com uma linguagem acessível às crianças e suas famílias. No dia em que a pesquisa foi realizada, o evento contou com aproximadamente 200 crianças acompanhadas por seus familiares ou responsáveis.

As entrevistas com as crianças foram conduzidas por dois estudantes de graduação em Enfermagem, supervisionados pela coordenadora do projeto. Foram incluídas na pesquisa crianças de sete a 12 anos de idade, por se compreender que essas já teriam melhor entendimento das perguntas e das respostas que poderiam dar, a abordagem foi realizada individualmente, com uma criança por vez, no próprio local do evento.

Para que as crianças ficassem à vontade para falar e expressar suas opiniões, a abordagem foi realizada de forma bem lúdica e descontraída. Os pesquisadores imitavam repórteres de um telejornal, com roupas e adereços coloridos. As entrevistas foram realizadas no próprio local do evento, que era um espaço aberto, mas procurou-se garantir a privacidade da criança. As entrevistas duraram cerca de 15 minutos.

Inicialmente, pais/responsáveis e crianças eram abordados e esclarecidos sobre os objetivos, métodos, potenciais benefícios e riscos da pesquisa, bem como a possibilidade de interrupção e desistência da entrevista em qualquer tempo, sem acarretar nenhum prejuízo aos participantes. Caso houvesse consentimento dos pais/responsáveis e assentimento da criança, iniciava-se a entrevista com a seguinte pergunta norteadora e seus desdobramentos: “Conte um pouquinho: como é o lugar que você mora? O que você acha que é bom ou ruim lá no lugar que você mora? Se você pudesse mandar um recado para o prefeito, governador ou Presidente da República, o que você pediria para mudar ou melhorar no lugar que você mora?”

As entrevistas foram gravadas por um aplicativo de voz do celular, e, posteriormente, foram transcritas, organizadas e submetidas à Análise de Conteúdo, para que, após a leitura exaustiva do material em busca dos núcleos de sentido, fossem identificadas as categorias empíricas do material obtido13. Para preservar o anonimato das crianças participantes utilizou-se a letra “e”, de entrevista, seguida pelos números de um a 15, de acordo com a ordem da entrevista realizada.

Os dados obtidos foram analisados com base no modelo teórico das Dimensões de Impacto do Território14, que postula sobre a influência de cinco dimensões do território no desenvolvimento infantil: 1) Dimensão Socioeconômica: refere-se ao nível socioeconômico da população residente no bairro, ou o nível de pobreza dos territórios, as condições de viver e trabalhar da comunidade; 2) Dimensão Rede Social: que trata das dinâmicas sociais do bairro, incluindo a existência de vínculos e redes de apoio, a coesão social entre os moradores ou a conexão entre eles e sua disponibilidade de ajuda mútua, o tempo de permanência no bairro e quão amigável à criança ele é. Também estão incluídos aqui a percepção de segurança dos moradores e elementos relacionados à violência no bairro; 3) Dimensão Física: inclui as características físicas e de posse das moradias que compõem o bairro, bem como das áreas verdes ali presentes. A proximidade e a acessibilidade do transporte público, também integram esta dimensão; 4) Dimensão Serviços: conta com a existência, a qualidade e o fácil acesso aos serviços e equipamentos públicos que atendem à criança pequena, como escolas e postos de saúde; e, 5) Dimensão Governança: considera a participação dos cidadãos nas decisões públicas e as características da governança das iniciativas que ocorrem no bairro.

Os temas identificados empiricamente foram organizados em subcategorias referentes à cada uma das cinco dimensões do território.

Este estudo está alinhado a um projeto maior, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (CAAE: 64750722.0.0000.5531, Parecer nº 5.800.539). Todos os aspectos éticos em pesquisa foram respeitados. O registro do consentimento dos pais e do assentimento das crianças foi realizado de forma sonora, gravada em áudio, conforme garante a Resolução CNS/CONEP 510/2016.

RESULTADOS

Participaram do estudo 15 crianças de sete a 12 anos de idade, sendo sete meninas e oito meninos. Todos eram moradores de Salvador (BA), de bairros próximos da universidade, onde ocorreu o evento.

A partir da Análise de Conteúdo, foi possível organizar três categorias temáticas: 1) potencialidades do território para o desenvolvimento infantil, na perspectiva da criança; 2) aspectos negativos do território que afetam o desenvolvimento infantil, na perspectiva da criança; 3) o desejo das crianças de melhorias no território para promover o desenvolvimento infantil.

As subcategorias foram definidas a partir do modelo teórico das Dimensões de Impacto do Território14, que são: Dimensão Socioeconômica, Dimensão Rede Social, Dimensão Física, Dimensão Serviços e Dimensão Governança.

Na categoria 1 - potencialidades do território para o desenvolvimento infantil, na perspectiva da criança -, pode-se observar que houve maior referência das crianças aos temas da Dimensão Física e da Dimensão Rede Social, conforme mostra o quadro 1.

Quadro 1
Subcategorias e temas relativos à categoria: “Potencialidades do território para o desenvolvimento infantil, na perspectiva da criança”. Salvador, BA, Brasil, 2023

Quando questionadas sobre o que havia de bom no bairro, as crianças falaram principalmente sobre os parques, brincar na rua, quadra de esportes e brincadeiras, que se refere à Dimensão Física do território. Conforme os excertos abaixo:

[...] tem parquinho, tem quadra, dá para a gente brincar na rua [...]. (e4)

[...]lá (na rua) a gente brinca de pega-pega e várias coisas, baleou...e tem quadra para jogar futebol, basquete, vôlei [...]. (e6)

Além disso, muitas crianças ressaltaram a presença da família, dos amigos e dos vizinhos (Dimensão Rede Social) como um aspecto positivo do lugar onde moram. Os serviços essenciais, como o posto de saúde e a escola, também foram lembrados como algo benéfico do território (Dimensão Serviços).

[...] o que acho de mais legal na escola é o amor das professoras, das pessoas que cuidam da gente. A amizade e a relação que temos na escola com os colegas de todas as turmas [...]. (e1)

[...] na escola eu gosto dos professores, atividades, passeio [...] eu já fui ao Pelourinho duas vezes com a escola, é muito bom conhecer artistas históricos [...]. (e9)

Na categoria 2, em relação aos aspectos negativos do lugar onde moram, o quadro 2 apresenta uma síntese das subcategorias e dos temas extraídos das falas.

Quadro 2
Subcategorias e temas relativos à categoria: “Aspectos negativos do território que afetam o desenvolvimento infantil, na perspectiva da criança”. Salvador, BA, Brasil, 2023

Observa-se que a Dimensão Física também é destacada com aspectos negativos. As crianças ainda se mostraram bastante incomodadas com as questões ambientais, referindo-se ao lixo nas ruas, à poluição do mar e ao desmatamento:

[...] o que eu acho de ruim onde eu moro é que está muito cheio de lixo nas ruas, na praia também [...]. (e11)

[...] tem muito desmatamento, precisa parar de cortar as árvores [...]. (e9)

As condições precárias das ruas também são problemas apontados pelas crianças, conforme os exemplos das falas abaixo:

[...] outro dia eu tava andando de bicicleta e caí num buraco, quebrou a roda da minha bicicleta e eu não pude mais brincar com ela. As ruas têm muitos buracos lá onde eu moro [...]. (e4)

[...] onde eu moro tem muita ladeira, e é muito ruim, eu fico muito cansado, não dá para brincar de bola na rua [...]. (e3)

Na Dimensão Serviço, o que mais chama a atenção das crianças é a falta de vagas nas escolas de Ensino Fundamental e o tempo de espera nas unidades de saúde:

[...] queria que construísse mais escolas do 6º ano para cima, são muito poucas, e é difícil conseguir, daí a gente tem que ir estudar longe de casa [...]. (e13)

[...] é muito ruim o postinho, porque tem que ficar lá esperando muito para ser atendido [...]. (e7)

Elas também reclamaram do preço dos alimentos (Dimensão Socioeconômica):

[...] o que mais é ruim, é o preço dos alimentos, minha mãe queria ganhar uma cesta básica, mas tá difícil dela conseguir [...]. (e8)

Na Dimensão Rede Social, a violência é o aspecto negativo mais apontado pelas crianças. Assalto e tiroteios fazem parte da rotina das crianças, conforme os excertos abaixo:

[...] a cidade é violenta. [...] pediria para as ruas serem mais seguras [...]. (e12)

[...] tem muito roubo, várias coisas [...]. (e8)

[...] se não existisse pessoas que roubam e são más [...], eu não posso sair muito porque tem essas pessoas que são más e roubam, até um brinquedo, às vezes não posso levar porque roubam [...]. (e2)

[...] assalto tem muito, lá tem um corredor bem grande que fica bem deserto e sempre acontece assalto, inclusive aconteceu com a minha vizinha [...]. (e6)

[...] nosso bairro tem muito tiroteio, mas eu já me acostumei. (e3)

O quadro 3 sintetiza as subcategorias e os temas relativos à categoria: “O desejo das crianças para melhorias no território”. Destacam-se os pedidos para as melhorias na Dimensão Física do território, como reformar ruas e parques, construir mais praças e combater a poluição das praias.

Quadro 3
Subcategorias e temas relativos à categoria: “O desejo das crianças de melhorias no território para promover o desenvolvimento infantil”. Salvador, BA, Brasil, 2023

A Dimensão Socioeconômica foi representada pelos pedidos de redução dos preços dos alimentos, como:

[...] abaixe os preços das coisas que eu já tô cansado de ver as pessoas só reclamando dos preços [...]. (e9)

[...] precisa melhorar o preço das coisas [...]. (e2)

[...] eu pediria cestas básicas para ajudar a todos que precisam [...]. (e13)

Melhorias na estrutura das ruas também foram pedidos das crianças às autoridades:

[...] reforme minha rua que está tendo desabamento e faça uns parquinhos melhores [...]. (e9)

[...] a ladeira lá de casa que é perigosa, eu queria que isso melhorasse [...]. (e5)

[...] aumente a quantidade os ônibus nas ruas e abaixe os preços das tarifas [...]. (e9)

DISCUSSÃO

Este estudo buscou compreender, por meio do olhar das crianças, como as dimensões do território podem ter implicações para o desenvolvimento infantil. Os resultados mostraram que as crianças reconhecem a pobreza, que se refere à Dimensão Socioeconômica do território, a violência (Dimensão Rede Social) e a precariedade da estrutura física do lugar onde moram (Dimensão Física) como aspectos negativos, mas que a convivência com os vizinhos e amigos (Dimensão Rede Social), a escola (Dimensão Serviços) e a presença de parques e quadras de esporte (Dimensão Física) parecem amenizar o enfrentamento dos problemas. As crianças também pedem atenção dos governantes quanto aos problemas apresentados, especialmente quanto ao preço dos alimentos e as melhorias na estrutura física dos bairros.

Para as crianças, a Dimensão Socioeconômica se concretiza, principalmente, na falta de alimentos em casa e no preço alto da cesta básica. De fato, o acesso limitado à alimentação constitui uma realidade da estrutura econômica e social do Brasil15. O último censo do país revelou que quase a metade de todas as crianças menores de cinco anos de idade vivem em famílias que ganham menos de ¼ de salário-mínimo per capita4, o que as coloca em uma condição de alta vulnerabilidade social.

A insegurança alimentar, determinada principalmente pela renda da família, impede que as crianças tenham acesso a uma alimentação saudável, de forma regular e na quantidade adequada16, causando distúrbios nutricionais17-18. Essas condições de má alimentação afetam diretamente o desenvolvimento das crianças, reduzindo seu aprendizado, aumentando os riscos de doenças crônicas na vida adulta e perpetuando o ciclo intergeracional da pobreza19,5. Um estudo realizado com quase 30 mil crianças menores de cinco anos dos Estados Unidos mostrou que houve associação entre a insegurança alimentar e um maior risco de atraso no desenvolvimento infantil20.

A Dimensão Rede Social é uma das mais importantes para as crianças, pois ela está relacionada ao vínculo e redes de apoio entre os moradores, bem como a percepção de segurança e a disponibilidade de ajuda mútua, com foco no cuidado e na proteção das crianças do bairro2.

Outros estudos mostraram que os sentimentos de coesão social estão associados aos melhores resultados de saúde mental dos moradores quando comparados aos bairros de baixa eficácia coletiva21. Isso fica explícito quando as crianças apontaram os amigos, os familiares e os vizinhos como aspectos positivos do lugar em que moravam. É possível que a percepção de apoio e segurança entre a vizinhança, como referido pelas crianças, permita uma maior utilização do espaço comunitário e dos recursos da natureza para as atividades do brincar, promovendo seu desenvolvimento motor, cognitivo, sensorial e emocional.

Há estudos que mostraram uma relação negativa entre a desordem social do bairro e o desenvolvimento infantil integral, medido pela existência de comportamentos internalizantes (depressão, fobias, ansiedade, doenças, retraimento) e externalizantes (birras, violações de regras, agressões)22. Estes achados destacaram a necessidade de políticas e intervenções que promovam ambientes sociais e inclusivos para melhorar o bem-estar e o desenvolvimento integral das crianças.

Se por um lado, o sentimento de confiança e afeto compartilhado com a família, os amigos e os vizinhos foi destacado pelas crianças como um potencial, por outro, a insegurança, a violência e as diferentes percepções em relação à autoridade policial foram percebidas como fragilidades no território.

Observou-se neste estudo um receio em relação à violência a que estão expostas cotidianamente, com uma preocupante naturalização desse contexto por parte delas. Destaca-se que esta pesquisa foi realizada na capital de um estado da Região Nordeste do Brasil, e esta é a região que apresenta a maior taxa de incidência de homicídios por arma de fogo em crianças e adolescentes de zero a 19 anos (5.495 dos 11.700 casos do país)23.

Além desta preocupação, os participantes apresentaram perspectivas divergentes quanto à força policial. Este órgão, criado para preservar a ordem, proteger as pessoas e o patrimônio, além de controlar a violência, foi considerado positivo e necessário por algumas, entretanto, outras falaram do medo que sentem diante das frequentes abordagens truculentas e injustas.

O número de crianças e adolescentes mortos pela polícia tem aumentado em todo o país. O Relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância que reuniu dados do período entre os anos 2016 e 2020, identificou que, das 34.918 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes no Brasil, 787 dessas mortes foram decorrentes da intervenção policial. Esse número representa 15% do total das mortes violentas intencionais nessa faixa etária, e indica uma média de mais de duas mortes por dia, em todo o território nacional24.

A violência é um grave e preocupante problema, e tem sido alvo de debates nacional e internacionalmente. Há uma demanda urgente no seu enfrentamento, que envolve, além do combate ao narcotráfico, políticas e estratégias de redução das desigualdades sociais.

Outro ponto do território muito destacado pelas crianças foram os parquinhos, praças e quadras de esportes. Esses equipamentos sociais se referem à Dimensão Física do território e são responsáveis pelo espaço do ‘brincar’, fator importante no processo de desenvolvimento da criança de forma integral25.

Um estudo que investigou os fatores sociodemográficos e contextuais em relação à frequência de brincadeiras ao ar livre na vizinhança na primeira infância, de uma amostra de 2.280 crianças de quatro a cinco anos de idade no Canadá, e, revelou que apenas 35% das crianças brincavam ao ar livre todos os dias, e quanto maior a confiança dos pais nos vizinhos e maior o status socioeconômico da família, maior probabilidade desse evento ocorrer26.

O brincar se baseia no desenvolvimento da imaginação e na interpretação da realidade, tornando-se autoras de seus papéis, escolhendo, elaborando e colocando em prática suas fantasias e conhecimentos, podendo pensar e solucionar problemas de forma livre25. Além disso, não é apenas uma questão de diversão, mas também de educação, construção, socialização e desenvolvimento de suas potencialidades. Afinal, brincar é, antes de tudo, um direito da criança27.

A escola, que se refere à Dimensão Serviço, também foi valorizada pelas crianças. É importante salientar o papel fundamental da escola para o desenvolvimento infantil, pois nesse ambiente de aprendizado, também se estimula a criatividade, o conhecimento, o brincar, a cultura e as interações socioafetivas28.

Os aspectos relativos à Dimensão Governança não foram citados pelas crianças, talvez pela imaturidade desse entendimento. Porém, se entende que quando há uma gestão inclusiva e sensível às especificidades e às necessidades da população, isso possibilita mais oportunidades para as crianças2.

Este estudo apresentou como possível limitação o fato de que as entrevistas foram realizadas durante um evento infantil, o que pode ter abreviado os depoimentos das crianças. No entanto, ao considerar a escassez de estudos que consideram a perspectiva da criança, especialmente, no que se refere ao território e o desenvolvimento infantil, este estudo contribui com os resultados que podem subsidiar a realização de outros estudos, bem como o planejamento de ações estratégicas para a promoção da saúde integral da criança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo mostrou que a percepção das crianças a respeito do território refere-se basicamente ao ‘comer’ (dimensão socioeconômica), ao ‘brincar’ (dimensão física) e ao se relacionar (dimensão serviços e rede social). Como principal ponto negativo, foi destaque a ‘violência’ (dimensão socioeconômica).

Criar, manter e garantir um ambiente propício para o desenvolvimento integral saudável durante toda a infância, significa, investir em ações para reduzir as desigualdades sociais, combater a violência, garantir acesso à saúde e à educação.

As contribuições deste estudo vão na direção de se compreender o território do ponto de vista das crianças. Demonstrar respeito e incentivar o papel ativo das crianças no planejamento de ações estratégicas de cuidado, bem como, na elaboração de políticas públicas que podem favorecer a efetividade das ações e promover de forma integral a saúde infantil.

AGRADECIMENTOS

Ao Programa de Bolsas de Iniciação Científica Milton Santos da Universidade Federal da Bahia e ao Conselho Nacional de Pesquisa e Tecnologia (CNPq).

  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Oliveira FA de, Palombo CNT, Silva MA, Oliveira CVR de. The child’s view of the territory: perspectives for child development. Cogitare Enferm. [Internet]. 2024 [cited “insert year, month and day”]; 29. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v29i0.96918.

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  • Editora associada:
    Dra. Luciana Kalinke

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2024
  • Aceito
    23 Ago 2024
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