Open-access Análise dos conteúdos sobre câncer de colo do útero no Instagram

RESUMO

Objetivo:  Analisar a confiabilidade dos conteúdos sobre câncer de colo de útero veiculados no Instagram.

Método:  Estudo descritivo, do tipo pesquisa documental, que analisou postagens no Instagram sobre câncer de colo do útero, selecionadas por meio das hashtags #câncerdecolodeútero, #hpv, #vacinahpv e #vacinacontraohpv, em maio de 2025. Foram analisadas as 50 primeiras postagens da aba relevantes para cada hashtag. A confiabilidade das informações foi avaliada através de metodologias validadas internacionalmente para aferição da qualidade da informação em saúde.

Resultados:  55% das postagens foram consideradas confiáveis, 33% de média confiabilidade, 10% não confiáveis e 2% inconsistentes. Verificou-se que 47,27% das postagens estavam vinculadas ao eixo temático de prevenção e 14,54% ao eixo de diagnóstico. Identificou-se ampla circulação de informações de baixa confiabilidade sobre prevenção do câncer de colo de útero.

Conclusão:  A identificação de conteúdos com baixa qualidade informacional aponta uma preocupação no contexto da comunicação em saúde nas mídias sociais.

DESCRITORES:
Saúde Pública Digital; Internet; Desinformação; Neoplasias do Colo do Útero; Papilomavírus Humanos

HIGHLIGHTS

1. Verificam-se lacunas na confiabilidade das informações sobre HPV e CCU.

2. Observam-se desigualdades regionais na comunicação digital em saúde.

3. A desinformação é uma forma de violência simbólica.

4. A literacia digital é uma estratégia de equidade em saúde.

ABSTRACT

Objective:  To analyze the reliability of cervical cancer content published on Instagram.

Method:  A descriptive, documentary research study that analyzed Instagram posts about cervical cancer, selected through the hashtags #câncerdecolodeútero, #hpv, #vacinahpv, and #vacinacontraohpv, in May 2025. The first 50 posts from the “relevant” tab were analyzed for each hashtag. Information reliability was assessed using internationally validated methodologies for measuring health information quality.

Results:  55% of posts were considered reliable, 33% of moderate reliability, 10% unreliable, and 2% inconsistent. Of all posts, 47.27% were related to the thematic axis of prevention and 14.54% to diagnosis. Widespread circulation of low-reliability information about cervical cancer prevention was identified.

Conclusion:  The identification of content with low informational quality highlights a concern in the context of health communication on social media.

DESCRIPTORS:
Digital Public Health; Internet; Disinformation; Uterine Cervical Neoplasms; Human Papillomavirus Viruses.

HIGHLIGHTS

1. Gaps in the reliability of information about HPV and cervical cancer ar e identified.

2. Regional inequalities in digital health communication are observed.

3. Health misinformation is a form of symbolic violence.

4. Digital literacy is a health equity strategy.

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la confiabilidad del contenido sobre cáncer de cuello uterino publicado en Instagram.

Método:  Estudio descriptivo, de tipo investigación documental, que analizó publicaciones de Instagram sobre cáncer de cuello uterino, seleccionadas mediante los hashtags #câncerdecolodeútero, #hpv, #vacinahpv y #vacinacontraohpv, en mayo de 2025. Se analizaron las 50 primeras publicaciones de la pestaña “relevantes” para cada hashtag. La confiabilidad de la información fue evaluada mediante metodologías validadas internacionalmente para la medición de la calidad de la información en salud.

Resultados:  El 55% de las publicaciones fueron consideradas confiables, el 33% de confiabilidad media, el 10% no confiables y el 2% inconsistentes. El 47,27% de las publicaciones estaban vinculadas al eje temático de prevención y el 14,54% al de diagnóstico. Se identificó una amplia circulación de información de baja confiabilidad sobre la prevención del cáncer de cuello uterino.

Conclusión:  La identificación de contenidos con baja calidad informacional evidencia una preocupación en el contexto de la comunicación en salud en las redes sociales.

DESCRIPTORES:
Salud Pública Digital; Internet; Desinformación; Neoplasias del Cuello Uterino; Virus del Papiloma Humano.

HIGHLIGHTS

1. Se identifican brechas en la confiabilidad de la información sobre VPH y cáncer de cuello uterino.

2. Se observan desigualdades regionales en la comunicación digital en salud.

3. La desinformación en salud es una forma de violencia simbólica.

4. La alfabetización digital es una estrategia de equidad en salud.

INTRODUÇÃO

Nas últimas duas décadas, o advento das mídias sociais como fonte de informações em saúde reformulou a forma como se dá a circulação do conhecimento. Plataformas de redes sociais tornaram-se espaços dinâmicos de construção e disputa de sentidos sobre práticas de autocuidado, prevenção de doenças e adesão a tratamentos1-2.

No contexto latino-americano, e particularmente no Brasil, esse fenômeno adquire contornos ainda mais complexos, dada a alta inserção dessas mídias em diferentes estratos populacionais e a histórica desigualdade no acesso a fontes qualificadas de informação em saúde3-4. A desinformação em saúde e a disseminação de afirmações falsas ou distorcidas, sem respaldo científico, intensificam as vulnerabilidades sociais e sanitárias, impactando decisões individuais e coletivas5-6.

Nesse contexto, o câncer de colo do útero (CCU) configura-se como um tema de alta sensibilidade para análise. No Brasil, o CCU permanece entre as principais causas de morbimortalidade feminina, com maior incidência nas regiões Norte e Nordeste, refletindo desigualdades históricas de acesso à prevenção e ao tratamento7. Sua prevenção está diretamente vinculada à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV)8, cujo êxito depende, entre outros fatores, da circulação de informações corretas e da superação das barreiras comunicacionais que alimentam a hesitação vacinal8-9.

A hesitação vacinal tem sido significativamente influenciada pela disseminação de informações falsas nas redes sociais, comprometendo as estratégias de saúde pública10,11. Plataformas como Instagram, Facebook, Twitter e WhatsApp são meios predominantes para a propagação de desinformação em saúde, contribuindo para a resistência de alguns grupos sociais à vacinação3,10. Essas plataformas conquistaram uma ampla adesão entre os consumidores de informações de saúde, abrangendo diversos grupos sociais, sem distinção de gênero ou idade2.

Nesse cenário, considerando a relevância epidemiológica do CCU7 e os riscos associados à disseminação da desinformação sobre saúde nas mídias sociais3,10, torna-se imprescindível avaliar a confiabilidade das informações relacionadas a essa temática em plataformas de grande alcance, como o Instagram. Apesar da crescente literatura sobre desinformação vacinal, ainda são escassos os estudos que analisam sistematicamente a qualidade da informação sobre CCU e HPV no Instagram. A escolha do Instagram como campo de análise justifica-se pelo seu crescente protagonismo na difusão de conteúdos de saúde, especialmente entre públicos jovens e de média a alta conectividade digital3. A estrutura visual da plataforma, aliada aos algoritmos de personalização de conteúdo, pode potencializar a disseminação tanto de informações qualificadas quanto de conteúdos desinformativos, o que amplia a necessidade de monitoramento crítico dessas redes3.

A literatura científica aponta metodologias validadas internacionalmente para aferição da qualidade da informação em saúde, entre as quais se destacam três instrumentos amplamente utilizados: o Journal of the American Medical Association (JAMA), que avalia autoria, transparência e clareza das publicações; o código HONcode, e o DISCERN, que avalia a precisão, imparcialidade e utilidade prática das informações disponibilizadas aos usuários11-13. A análise sistemática baseada nesses critérios visa não apenas caracterizar a qualidade do conteúdo encontrado, mas também apontar caminhos para ações educativas e políticas públicas voltadas à promoção de informações de saúde baseadas em evidências no ambiente digital, fortalecendo a capacidade de resposta dos sistemas de saúde diante da desinformação. Dessa forma, o objetivo do estudo é analisar a confiabilidade dos conteúdos sobre câncer de colo de útero veiculados no Instagram.

MÉTODO

Estudo descritivo, do tipo pesquisa documental, que utilizou hashtags para buscas de publicações sobre CCU a partir da rede social Instagram.

As buscas ocorreram no período de 12 a 19 de maio de 2025. O Instagram foi selecionado devido à sua ampla popularidade, ao elevado alcance na disseminação de informações não confiáveis, ao impacto que exerce sobre a saúde das pessoas e ao seu potencial para promover mudanças positivas na forma de compartilhamento de informações1-2.

Este estudo concentrou-se exclusivamente em postagens de natureza informativa e vinculadas à hashtag selecionada para análise. Foram incluídas publicações que utilizaram as seguintes hashtags: #câncerdecolodeútero, #hpv, #vacinahpv, #vacinacontraohpv. Foram excluídas as publicações incoerentes, desvinculadas da hashtag ou compostas unicamente por relatos pessoais. Dessa forma, sempre que uma postagem não atendia aos critérios previamente definidos, era automaticamente desconsiderada, dando-se continuidade à análise com a publicação subsequente. Essa metodologia viabilizou a identificação das principais postagens em circulação, considerando que a frequência e o destaque de determinadas publicações estão diretamente associados ao seu alcance junto ao público.

Para a caracterização da amostra, foram selecionadas as 50 primeiras publicações da aba relevantes para cada hashtag, totalizando 200 postagens analisadas. Esse número foi definido com base em estudos nacionais e internacionais que utilizam recortes entre 30 e 100 publicações por hashtag como estratégia metodológica válida para análise de mídias sociais3,14.

Considerou-se também a dinâmica da plataforma, em que conteúdos com maior alcance tendem a permanecer nas primeiras posições da aba ‘Relevantes’, além do critério de saturação temática identificado na análise preliminar, na qual, após 50 postagens, os temas passaram a se repetir, com baixa incorporação de novos elementos qualitativos. Durante a seleção, adotou-se ainda o critério de consistência, incluindo apenas publicações condizentes com a hashtag atribuída.

A análise das postagens foi realizada por duas avaliadoras independentes, previamente treinadas na aplicação dos instrumentos JAMA, HONcode e DISCERN. As características e aspectos avaliados encontram-se expostos no Quadro 1.

Quadro 1
Instrumentos utilizados para avaliação da confiabilidade das publicações sobre CCU no Instagram. Macapá, Amapá, Brasil, 2025

Utilizou-se um instrumento adaptado14 para análise de confiabilidade de publicações no Instagram, por meio de cinco questões (Quadro 2). As informações foram categorizadas em alta, média ou baixa confiabilidade de acordo com a escala: alta confiabilidade - acima de seis pontos (+ 60% confiável); média confiabilidade - quatro a seis pontos (entre 30% e 60% confiável); baixa confiabilidade - zero a três pontos (entre 0% e 30% confiável); publicações inconsistentes - não têm correlação com o conteúdo veiculado. Os dados também foram analisados de acordo com a estatística descritiva (frequência relativa, frequência absoluta, média).

Quadro 2
Instrumento adaptado para análise de confiabilidade das publicações sobre CCU no Instagram. Macapá, Amapá, Brasil, 2025

Foi conduzido um teste-piloto com 20 postagens, cinco de cada hashtag, para treinamento e alinhamento dos critérios interpretativos. As divergências foram resolvidas por consenso entre os avaliadores e, em casos específicos, com a mediação de um terceiro avaliador. As postagens do teste piloto foram mantidas no estudo.

Por se tratar de dados públicos disponíveis na internet, e considerando que nenhuma informação pessoal identificável foi utilizada, o estudo dispensou submissão ao Comitê de Ética, conforme a Resolução n.º 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Foram respeitados os princípios éticos na condução e divulgação dos resultados.

RESULTADOS

Foram identificadas mais de 927.700 publicações que utilizaram as hashtags selecionadas para o estudo, sendo: #câncerdecolodeútero - 5.000+ publicações, #hpv - 900 mil, #vacinahpv - 23,2 mil, #vacinacontraohpv - 500+.

Evidenciou-se que, das 50 publicações recuperadas por meio da hashtag #câncerdecolodeútero, 47 (94,0%) apresentaram consistência; destes, 27 (57,4%) continham informações consideradas altamente confiáveis. Dentre elas, 14 (29,7%) tratavam especificamente sobre prevenção, abordando medidas como a vacinação contra o HPV, o uso de preservativos e a orientação para uma sexualidade segura, estratégias fundamentais na redução da incidência do CCU.

As demais postagens de alta confiabilidade distribuíram-se entre os seguintes eixos temáticos: 4 (8,5%) abordavam o diagnóstico, com ênfase em exames como o Papanicolau e os testes de HPV; 2 (4,2%) tratavam das modalidades de tratamento, incluindo cirurgia, radioterapia e quimioterapia; 2 (4,2%) enfocaram os sintomas e sinais de alerta; 2 (4,2%) desmistificavam informações falsas; 1 (2,1%) trazia informações sobre as formas de contágio do HPV; 1 (2,1%) apresentava dados epidemiológicos e estatísticos; e 1 (2,1%) foi classificada em ‘outros’ por tratar de informações sobre lesões pré-cancerosas. Além disso, 20 (42,5%) publicações foram consideradas de média confiabilidade. Não foram identificadas publicações que apresentassem baixos níveis de confiabilidade.

É relevante destacar que 22 (46,8%) publicações continham informações atribuídas a profissionais médicos. No entanto, apenas uma (2,1%) alcançou a pontuação máxima por atender integralmente aos critérios estabelecidos. Além disso, 15 (31,9%) publicações não obtiveram pontuação máxima por não evidenciarem a fonte utilizada.

Já as publicações recuperadas com a hashtag #hpv foram as que apresentaram os melhores resultados em termos de confiabilidade das informações. Das 50 postagens avaliadas, 49 (98,0%) foram consideradas consistentes, e, destas, 33 (67,3%) foram categorizadas como de alta confiabilidade, sendo a maioria do eixo de prevenção (n=14; 28,5%). Outro eixo temático que se destacou foi o combate a mitos e à desinformação, com 10 (20,4%) postagens confiáveis. Ainda sobre as postagens consistentes, 12 (24,4%) apresentaram nível médio de confiabilidade e 4 (8,1%) foram de baixo nível de confiabilidade (todas sobre prevenção). Ademais, apenas uma (2,0%) publicação recebeu pontuação máxima, abordando informações sobre o contágio do HPV, e 20 (40,8%) publicações não alcançaram nota 10 por não disponibilizarem a fonte da informação.

Notou-se que 35 (71,4%) publicações tiveram o autor informado, sendo a grande maioria, 31 (63,2%), composta por profissionais médicos. As demais publicações 4 (8,1%) foram assinadas por um enfermeiro, um nutricionista, um farmacêutico e um jornalista. Observou-se ainda que 17 (34,6%) postagens promoviam serviços oferecidos em clínicas privadas, indicando um possível viés comercial na divulgação das informações. Além disso, com o uso dessa hashtag, foi encontrada uma publicação de alta confiabilidade voltada ao público de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, (LGBTQIA+) e outras. Trata-se de uma publicação voltada à orientação sobre formas de prevenção contra o HPV para mulheres que se relacionam com outras mulheres.

Quanto aos resultados obtidos da análise de 50 postagens com a hashtag #vacinahpv, 30 (60,0%) foram classificadas como de alta confiabilidade, demonstrando aderência aos critérios de qualidade informacional, como presença de dados embasados em evidências científicas, clareza na linguagem e identificação de autoria ou fontes confiáveis.

Dentro desse grupo, a maioria das publicações abordava o eixo temático da prevenção, com 13 (26,0%) postagens tratando de tópicos como a vacinação contra o HPV, utilização de preservativos, orientação para práticas sexuais seguras e fatores de risco associados à infecção pelo vírus. Foram identificadas cinco (10,0%) postagens com informações confiáveis sobre diagnóstico, mencionando exames como o Papanicolau e os testes específicos para detecção do HPV; três (6,0%) postagens trataram de opções terapêuticas, incluindo cirurgia, radioterapia e quimioterapia; outras duas (4,0%) postagens abordaram sintomas e sinais de alerta; e mais duas (4,0%) forneceram informações sobre as formas de contágio do HPV.

Apenas uma (2,0%) postagem apresentou dados epidemiológicos ou estatísticos; três (6,0%) abordaram apoio emocional ou social para pacientes e familiares; e uma (2,0%) discutiu políticas públicas ou campanhas de saúde relacionadas ao tema.

No grupo de postagens com média de confiabilidade de 13 (26,0%), observou-se uma leve predominância de conteúdos voltados à prevenção, oito (16,0%), e ao diagnóstico, cinco (10,0%). Essas publicações, embora apresentassem informações potencialmente úteis, mostraram-se limitadas por fatores como ausência de referências claras, simplificação excessiva dos conteúdos técnicos ou linguagem ambígua, o que pode comprometer a compreensão plena ou a confiabilidade das mensagens.

Além disso, sete (14,0%) postagens com a hashtag #vacinahpv foram classificadas como de baixa confiabilidade, e todas elas abordavam exclusivamente o eixo da prevenção. Esse achado revela uma preocupação importante, uma vez que informações imprecisas ou incorretas sobre estratégias preventivas podem gerar desinformação, hesitação vacinal ou adoção de condutas inadequadas por parte do público leigo. As falhas mais comuns nessas publicações incluíram ausência de fonte, uso de linguagem sensacionalista, abordagem superficial e, em alguns casos, veiculação de mitos ou dados desatualizados sobre a vacinação contra o HPV.

Em relação à hashtag #vacinacontraohpv, das 50 postagens analisadas, 20 (40,0%) foram classificadas como de alta confiabilidade. Estas se distribuíram principalmente no eixo temático da prevenção, totalizando 11 (22,0%) postagens. Os demais temas abordados com alta confiabilidade incluíram: diagnóstico três (6,0%); sintomas e sinais de alerta dois (4,0%); tratamento um (2,0%); informações sobre o contágio do HPV uma (2,0%); dados epidemiológicos ou estatísticos uma (2,0%) e apoio emocional ou social a pacientes e familiares, uma (2,0%). Esses dados sugerem que, embora a prevenção seja o foco principal, há um esforço, ainda que limitado, em abordar outras dimensões relevantes da temática. As postagens classificadas como de média confiabilidade totalizaram, 21 (42,0%), representando a maior proporção entre os três níveis.

Assim como nas postagens de alta confiabilidade, a maioria das publicações com confiabilidade média também se concentrou no eixo da prevenção, 16 (32,0%), seguido dos temas de diagnóstico, quatro (8,0%), e sintomas e sinais de alerta, uma (2,0%). Essa concentração reforça a centralidade do discurso preventivo nas campanhas digitais sobre o HPV, embora a consistência e fundamentação das informações ainda apresentem variações.

Ademais, nove, (18,0%) postagens foram classificadas como de baixa confiabilidade. Todas elas estavam relacionadas ao eixo temático da prevenção, evidenciando que, mesmo em um campo considerado prioritário para a saúde pública, ainda há disseminação de informações imprecisas, incompletas ou não fundamentadas em evidências científicas. Essa presença de conteúdos com baixa qualidade informacional pode comprometer a eficácia das campanhas de conscientização e reforça a necessidade de maior regulação e curadoria de conteúdo em ambientes digitais.

Ao analisar o todo, percebeu-se que, das 200 publicações: 110 (55,0%) podem ser consideradas confiáveis; 66 (33,0%) podem ser consideradas de média confiabilidade; 20 (10,0%) não podem ser consideradas confiáveis e 4 (2,0%) são inconsistentes.

Esses resultados destacam a importância de monitorar ativamente o conteúdo sobre saúde disseminado em redes sociais, especialmente em tópicos sensíveis como a vacinação, que impactam diretamente a saúde pública. A predominância de postagens com alta confiabilidade é positiva, mas a presença de conteúdos de baixa confiabilidade evidencia a necessidade de estratégias mais eficazes para a regulação da qualidade da informação digital e o incentivo à produção de conteúdo confiável por profissionais de saúde e instituições reconhecidas.

DISCUSSÃO

Verificou-se a disseminação de informações de média e baixa confiabilidade, particularmente no eixo temático da prevenção. Esses achados estão em consonância com estudos recentes que investigam a qualidade e o impacto das informações sobre HPV e CCU nas redes sociais. Uma análise de conteúdo no Instagram identificou que, embora haja um foco significativo na prevenção secundária do câncer cervical, como o exame de Papanicolau, há uma carência de informações sobre prevenção primária, como a vacinação contra o HPV15.

A escassez de conteúdos informacionais confiáveis que enfatizem a vacinação contra o HPV como estratégia de prevenção primária tem repercussões diretas no atual cenário epidemiológico, especialmente entre mulheres jovens. O Brasil atualmente apresenta sinais de inversão na tendência de mortalidade por CCU16. Estudo que analisou a evolução da mortalidade por CCU no país de 1980 a 2020 verificou que a taxa de mortalidade parou de cair em 2014 e, dali em diante, passou a crescer a partir daquele ano ao ritmo de 1,2% ao ano. Entre as mulheres mais jovens, com idade variando de 25 a 39 anos, a taxa de mortalidade deixou de cair e passou a aumentar a partir de 2007, à velocidade de 2,5% ao ano16.

A alta conectividade das mulheres jovens, embora ofereça oportunidades para disseminação de informações de saúde, também as expõe a conteúdos de baixa confiabilidade. A presença de informações imprecisas ou enganosas sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do CCU nas redes sociais pode contribuir para a hesitação vacinal e a não adesão ao rastreamento, fatores que impactam negativamente na prevenção e controle da doença.

Nesse sentido, a comunicação em saúde não pode ser entendida de forma instrumental, como simples transmissão de informações corretas ou incorretas, mas sim como um processo social e político, que organiza sentidos, regula comportamentos, influencia decisões coletivas e individuais, e estrutura, em última instância, modos de viver, adoecer e morrer17. A circulação de desinformação em saúde nas redes sociais, nesse sentido, não é um fenômeno marginal; ao contrário, reflete e materializa as contradições estruturais de sociedades profundamente marcadas por desigualdades no acesso à informação qualificada, à educação, aos serviços de saúde e ao conhecimento científico. É necessário compreender que os processos informacionais, e, portanto, a desinformação, atuam como mediações fundamentais na reprodução das iniquidades em saúde18.

Neste estudo, identificou-se, ainda, uma postagem sensacionalista de uma clínica privada, promovendo a vacina contra HPV por cobrir mais sorotipos. O conteúdo omitiu que a vacina do Sistema Único de Saúde (SUS), embora com cobertura menor, protege contra os tipos mais associados ao câncer. Essa omissão pode induzir à percepção de que a vacina pública é inferior. Isso estimula a busca por vacinas privadas sem necessidade clínica. Tal prática desinforma e reforça desigualdades em saúde.

A desinformação em saúde também não se explica apenas pela ausência de conhecimento, mas emerge como fenômeno estruturante das disputas sociopolíticas contemporâneas, operando na reprodução das desigualdades e nas fragilidades dos vínculos sociais e institucionais19. Aqui, faz-se pertinente mobilizar o conceito de violência simbólica20, entendido como a capacidade de impor representações, de mundo, de forma que sejam naturalizadas como legítimas, mesmo quando produzem exclusão. A desinformação, nesse contexto, configura-se como uma expressão contemporânea dessa violência simbólica, ao reforçar estigmas, alimentar a hesitação vacinal e obscurecer direitos em saúde. Trata-se de uma imposição de significados e hierarquias que se dá por meio da linguagem, da educação, da mídia, das normas e dos símbolos culturais, sem recorrer à coerção física ou explícita.

No Brasil, essa violência se expressa de forma particularmente aguda, onde as desigualdades regionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, apresentam as maiores taxas de incidência de CCU no país, com 20,48 e 17,59 casos por 100 mil mulheres, respectivamente, para o triênio 2023-20257. Essas regiões também enfrentam desafios significativos relacionados à cobertura vacinal contra o HPV, contribuindo para a persistência das altas taxas de incidência e mortalidade por CCU21.

A disseminação de informações de baixa confiabilidade nas redes sociais pode exacerbar essas desigualdades, especialmente em regiões em que o acesso a informações de qualidade é limitado. Esse fenômeno se torna ainda mais problemático quando se considera que a interpretação de conteúdos inconsistentes ou pouco confiáveis demanda dos usuários um maior grau de letramento digital em saúde. Em áreas nas quais a precariedade do acesso à educação formal e aos serviços de saúde é uma realidade cotidiana, a circulação de conteúdos imprecisos tem potencial para reforçar mitos, aumentar a hesitação vacinal, gerar desinformação sobre métodos preventivos e, consequentemente, perpetuar as altas taxas de incidência e mortalidade por CCU22.

Além disso, verificou-se que há uma lacuna significativa na produção de conteúdos voltados para populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas e LGBTQIA+, cujas taxas de mortalidade por CCU superam as médias nacionais, conforme relatado por estudos epidemiológicos recentes23-24. Um estudo realizado no Brasil identificou que a proporção de mulheres LGBT+ que se submeteram a exames preventivos contra o CCU, como o Papanicolau, foi menor do que entre o público não LGBT+, respectivamente de 39,0% e 75,0%22-23. Quanto às mulheres indígenas, foi verificado que estas morrem 80,0% mais de CCU do que as brancas24.

A ausência de campanhas segmentadas contribui para a invisibilização dessas populações nas políticas públicas de prevenção ao CCU. Assim, a formulação de políticas de comunicação em saúde deve contemplar a pluralidade sociocultural do país, como condição para efetivar o direito à informação e à saúde. Mais do que uma questão de acesso, a qualidade da informação circulante se constitui como um determinante social da saúde.

Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A amostra restringiu-se às postagens associadas a hashtags previamente selecionadas, com base na aba “Relevantes” do Instagram, cujos critérios de ordenação são desconhecidos e influenciados por algoritmos. Isso representa uma limitação metodológica, mas também traduz o que efetivamente chega aos usuários. Ademais, os instrumentos de avaliação utilizados foram criados para ambientes voltados à divulgação científica, o que pode comprometer a adequação ao contexto de redes sociais, cujo público-alvo é majoritariamente leigo. A ausência de critérios adaptados à linguagem acessível é outro desafio. Por fim, trata-se de um recorte temporal, o que impede a generalização dos resultados para outros momentos, dado o dinamismo das redes sociais.

Os achados deste estudo reforçam a relevância da atuação profissional na promoção e disseminação de informações em saúde baseadas em evidências no ambiente digital. É necessária a maior participação de profissionais de saúde na produção, curadoria e divulgação de conteúdos qualificados sobre câncer do colo do útero nas redes sociais. Nesse contexto, a Enfermagem pode contribuir para o fortalecimento da educação em saúde, para o enfrentamento da desinformação e para a ampliação do acesso da população a informações seguras, favorecendo decisões informadas e a adesão às estratégias de prevenção e rastreamento da doença.

CONCLUSÃO

A confiabilidade das informações sobre CCU e HPV no Instagram ainda apresenta lacunas preocupantes, com muitas postagens sem autoria clara, fontes científicas ou atualização. Essa realidade ganha gravidade ao se considerar o papel central da plataforma na formação de opinião, especialmente entre os jovens. Torna-se urgente envolver profissionais de saúde na promoção da literacia em saúde e responsabilizar produtores de conteúdo digital. No campo da educação, o estudo destaca a necessidade de incorporar competências comunicacionais e digitais à formação de profissionais de saúde. Isso permitirá que atuem de forma ética e eficaz na produção, análise e difusão de conteúdo, respeitando diferentes contextos e linguagens.

  • FINANCIAMENTO
    O presente estudo foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Rodrigues LO, Pantoja LJD, Moraes BGA, Barbosa NG, Gozzo TO, Gomes-Sponholz FA, et al. Análise dos conteúdos sobre câncer de colo do útero no Instagram. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year,month and day”];31:e101891pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.101891pt

Disponibilidade de dados:

Os autores declaram que os dados estão disponíveis de forma completa no corpo do artigo.

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Editado por

  • Editor associado:
    Dra. Mariana Torreglosa Ruiz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    31 Out 2025
  • Aceito
    09 Abr 2026
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