Resumo
Este ensaio teórico explora a gestão como um saber e uma prática bifurcados, fundamentados na dupla fratura que marca profundamente a cosmovisão ocidental. Ao situar a gestão no contexto epocal do Antropoceno, destacamos como a ação humana organizada se torna central na produção e reprodução desse fenômeno. Propomos o devir-com como uma lente teórico-epistemológica para construir novas agendas de pesquisa e ação engajada, buscando repensar as fronteiras entre natureza e cultura, matéria e espírito, humano e não humano, bem como suas implicações no e para o campo da gestão. Operacionalizamos conceitualmente nossa proposta em torno de quatro práticas para responder às urgências e aos desafios da contemporaneidade: hesitar, civilizar, localizar e reativar. Brevemente, compartilhamos como essas práticas têm sido mobilizadas nos desafios cosmopolíticos que atravessam nossa atual pesquisa de campo, ainda em curso, com a ecologia das práticas de gestão em uma Unidade de Conservação Brasileira. Propomos essas práticas como possibilidades para que as ciências da Administração, ao habitar as crises do Antropoceno, possam se afastar das lógicas de controle e subordinação. Em seu lugar, sugerimos um devir-com que reconheça as interdependências multiespécies e cultive modos de cuidado, responsabilidade e colaboração que respondam à intrincada teia de relações ecológicas, sociais e culturais.
Palavras-chave:
Antropoceno; Ciências da administração; Gestão e crise socioambiental; Cosmopolítica; Devir-com
Abstract
This theoretical essay explores management as a bifurcated body of knowledge and practice, grounded in the double fracture that deeply shapes the Western worldview. By situating management within the epochal context of the Anthropocene, we highlight how organized human action is central to the production and reproduction of this phenomenon. We propose becoming-with as a theoretical-epistemological lens for building new research agendas and engaged action, seeking to rethink the boundaries between nature and culture, matter and spirit, human and non-human, and their implications within and for the field of management. We conceptually operationalize our proposal around four practices to address the urgencies and challenges of contemporary times: hesitating, civilizing, localizing, and reactivating. We briefly share how these practices have been mobilized within the cosmopolitical challenges of our ongoing field research on the ecology of management practices in a Brazilian Conservation Unit. We propose these practices as possibilities for the management sciences to move away from the logics of control and subordination while inhabiting the crises of the Anthropocene. In their place, we suggest a becoming-with that acknowledges multispecies interdependencies and cultivates modes of care, responsibility, and collaboration that respond to the intricate web of ecological, social, and cultural relations.
Keywords:
Anthropocene; Management sciences; Management and socio-environmental crisis; Cosmopolitics; Becoming-with
Resumen
Este ensayo teórico explora la gestión como un saber y una práctica bifurcada, fundamentada en la doble fractura que configura profundamente la cosmovisión occidental. Al situar la gestión en el contexto epocal del Antropoceno, destacamos cómo la acción humana organizada se torna central en la producción y reproducción de este fenómeno. Proponemos el devenir-con como una lente teórico-epistemológica para construir nuevas agendas de investigación y acción comprometida, buscando repensar las fronteras entre naturaleza y cultura, materia y espíritu, humano y no humano, así como sus implicaciones en y para el campo de la gestión. Operacionalizamos conceptualmente nuestra propuesta en torno a cuatro prácticas para responder a las urgencias y desafíos de la contemporaneidad: dudar, civilizar, localizar y reactivar. Compartimos brevemente cómo estas prácticas han sido movilizadas en los desafíos cosmopolíticos que atraviesan nuestra actual investigación de campo, aún en curso, con la ecología de las prácticas de gestión en una unidad de conservación brasileña. Proponemos estas prácticas como posibilidades para que las ciencias de la administración, al habitar las crisis del Antropoceno, puedan alejarse de las lógicas de control y subordinación. En su lugar, sugerimos un devenir-con que reconozca las interdependencias multiespecies y cultive modos de cuidado, responsabilidad y colaboración que respondan a la intrincada trama de relaciones ecológicas, sociales y culturales. .
Palabras clave:
Antropoceno; Ciencias de la administración; Gestión y crisis socioambiental; Cosmopolítica; Devenir-con
INTRODUÇÃO
Eu preciso antes de mais nada enfatizar o desafio formidável que constitui em si mesmo a ecologia política, a ideia, para falar rapidamente, de uma produção pública, coletiva, de saberes em torno de situações que nenhuma expertise particular pode ser suficiente para definir, e que requerem a presença legítima ativa, objetora e propositiva, de todos que estão “implicados”. Como diz Bruno Latour, trata-se de fazer com que a situação escape das razões autorizadas pelos matters of fact, como também dos valores dedutíveis de um “interesse geral” que permite a arbitragem. A situação deve ser produzida como matter of concern, o que significa que ela deve agrupar em tornar de si aqueles que estão “implicados”. Ora, sabemos, há tantos meios de fabricar uma situação aparentemente aberta, na qual todos os poderes de objetar e de propor são acolhidos, mas o são em condições tais em que, de fato, os dados estão viciados, as forças são desiguais (Stengers, 2018, p. 451, grifo nosso).
Nascido nas Ciências do Sistema-Terra, o termo “Antropoceno” foi criado como proposta de nomear uma nova época geológica em que o impacto da espécie humana no planeta tornar-se-ia equivalente às forças telúricas (Crutzen & Stoermer, 2000; Steffen et al., 2007). Desde sua proposição, falar academicamente em “Antropoceno” como um fenômeno socioecológico, e não apenas biofísico (Angus, 2023), tem implicado lidar com um ecossistema de autorias e suas produções teóricas urgentes, preocupadas e angustiadas com o futuro, que extrapolam o campo científico em que o conceito surgiu. Entendemos essa polissemia e/ou disputa conceitual como uma controvérsia do Antropoceno, tomando emprestado o termo de Latour (2016). Uma controvérsia pode ser caracterizada como um processo de formação e negociação de fatos científicos em que a heterogeneidade de posições, argumentos e evidências emerge sob diferentes vozes, atores e interesses. Desse caminho, em que o chamado Antropoceno não se habilita como uma questão de fato (matter of fact), mas como uma questão de interesse (matter of concern), diversas histórias são continuamente narradas sobre os tempos em que vivemos, sob outros títulos, que enfatizam por sua vez diferentes aspectos.
Dito isso, é possível considerar que o campo da Administração aderiu tardiamente à controvérsia do Antropoceno (Figueiredo et al., 2020). Contudo, um dos pontos que levantamos neste ensaio é que, ainda que tenhamos entrado tarde nessas discussões, é fundamental considerar o papel central que a ação humana organizada ocupou e ocupa na produção da possível nova era geológica (Crutzen & Stoermer, 2000; Steffen et al., 2015). As práticas de gestão contemporâneas produzem cenários cada vez mais intensificados de desigualdade social, discriminações, crimes corporativos, desastres-crimes ambientais (Banerjee & Arjaliès, 2021; Chanlat, 2022; Ergene et al., 2021; Gherardi & Laasch, 2022; Leite & Fantinel, 2024), entre outras situações extremas que colocam em risco vidas humanas e não humanas em todo o planeta (Irigaray et al., 2023). Defendemos que essas situações são reproduzidas, pelo menos em parte, por imaginários e práticas do fazer administrativo, que funciona como uma doutrina ideológica que suprime o sentido coletivo de existência (Aktouf, 2005; Gaulejac, 2007; Ramos, 1989), cujos desdobramentos na sociedade neoliberal são cada vez mais intensificados (Dardot & Laval, 2016; Fougère & Solitander, 2023).
Por isso tudo, compreendemos a Administração como uma ciência tipicamente moderna e, por isso, bifurcada (Fantinel, 2025). Desde sua gênese, há uma sustentação na clássica cisão natureza-cultura, justificada epistemicamente pelos preceitos do progresso capitalista (Banerjee & Arjaliès, 2021), que se consolidam num mundo construído sobre promessas que embasam crenças no progresso a partir do crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico, entre outros. Esse movimento voltado a uma lógica de controle e otimização a serviço da expansão econômica, longe de ser neutro, converte o conhecimento em um instrumento a serviço do capital, naturalizando práticas que reforçam uma ordem econômica e social excludente. Capturadas por essa lógica, portanto, as próprias ciências veem-se como parceiras ativas que legitimam a produção de um cenário de catástrofes socioambientais, o que demanda um repensar das práticas científicas para que possam escapar à armadilha de sua própria instrumentalização (Stengers, 2015, 2023).
Entendemos a ideia de bifurcação a partir do pensamento do filósofo e matemático Alfred Whitehead, com o que ele chamou de “bifurcação da natureza”. Segundo o autor, a operação moderna produziu, de um lado, a imagem de uma natureza inerte, pronta a ser explicada e domesticada pela onipotência dos discursos científicos modernos; e, de outro, relegou às esferas subjetivas e “secundárias” os modos de experiência atravessados por qualidades, valores, espiritualidade, cultura e política (Whitehead, 1994). Essa bifurcação ressoa naquilo que Ferdinand (2022) identifica como dupla fratura ocidental - entre natureza e cultura (fratura ambiental), e entre razão e irracionalidade (fratura colonial). Ambas expressam a urgência em repensar a ciência como uma arriscada composição entre ecologia, política e cultura, e não como uma prática de afastamento (Stengers, 2023).
Queremos, portanto, discutir as formas pelas quais as ciências administrativas reproduzem essa cisão, como parte de uma resposta crítica às complexidades que emergem das múltiplas expressões da contemporaneidade. Nosso campo científico se apresenta, nestes tempos, como uma arena na qual essas rupturas se manifestam (Banerjee & Arjaliès, 2021). Por isso, nosso ensaio aborda a gestão como um saber e uma prática bifurcados, profundamente impactados por essa dupla fratura ocidental. Situamos, assim, a gestão no centro do fenômeno socioecológico do Antropoceno, não apenas como produto e produtora de tais mudanças, mas como um espaço de potencial transformação, no qual se desenham novas possibilidades de relação entre vidas mais que humanas. As ciências administrativas, enquanto campo de saberes, não são apenas um reflexo das dinâmicas econômicas e políticas do Antropoceno, mas também um ponto de convergência em que as fraturas entre natureza e cultura, entre sujeito e objeto, se intensificam e se reconfiguram.
Nesse caminho, entendemos que, para localizar-se (e ser capaz de responder) às crises e aos colapsos do Antropoceno, as ciências administrativas podem aprender com a proposição cosmopolítica (Stengers, 2018), ao reconhecer a pluralidade de agentes e saberes envolvidos nos processos de gestão, sem hierarquizar ou ter pretensões de controle sobre as diferentes perspectivas que coabitam o mundo; e, mais especificamente, com a perspectiva do devir-com (Haraway, 2023), na medida em que ela nos convida a repensar a gestão como um campo de interações e relações que não são lineares, nem controláveis, mas dinâmicas e transformadoras, onde o futuro não está dado, mas se coconstrói a partir das práticas cotidianas. Tais aprendizados podem propor alternativas para abordar a crise dessas fronteiras, convidando as ciências administrativas a estar nos interstícios. Não se trata, portanto, de uma simples integração ou adição de outras formas de existência à teoria administrativa, mas de pensá-la a partir de práticas de convivência, de “fazer junto”, o que se distingue da lógica do domínio e da subordinação.
A seleção dos autores que utilizamos para compor o referencial central deste ensaio decorre de um alinhamento epistemológico que nos parece particularmente fértil para tensionar os pressupostos da ciência administrativa. Whitehead (1994, 2006), ao criticar a bifurcação da natureza, nos oferece uma chave para compreender como a modernidade instaurou divisões artificiais que se refletem de forma direta na lógica de eficiência e controle que estrutura a Administração. Stengers (2005, 2015, 2018, 2023), por sua vez, ao problematizar a ciência como voz autoritária e propor o risco da “composição” em lugar do afastamento, nos inspira a repensar os modos pelos quais a Administração pode habitar as crises do Antropoceno de forma menos centrada no controle. Haraway (1995, 2021, 2022, 2023), ao introduzir o devir-com como prática epistemológica e política, pode nos ajudar a deslocar a gestão para um registro multiespécie e relacional, fundamental para imaginar alternativas cosmopolíticas.
Optamos por esses autores, pouco mobilizados na área de Administração, justamente porque suas críticas oferecem uma possibilidade de deslocamento epistemológico. Ao invés de reforçar categorias consolidadas, eles nos permitem explorar a concretude das práticas e o caráter situado dos saberes, ponto que consideramos essencial para a produção de uma ciência social aplicada. Essa escolha, portanto, não busca oferecer um “panteão” de autores alternativos, mas sim abrir espaço para um diálogo transdisciplinar capaz de desacelerar as ciências administrativas em seu automatismo gerencialista, permitindo que ela se torne mais responsiva às interdependências e urgências do Antropoceno.
O que discutimos neste ensaio pode ser uma resposta interessante e alternativa a elementos fundamentais que marcam a sociedade neoliberal, a ideologia gerencialista e seus desdobramentos no fazer ciência em Administração. Com Haraway (2021, 2022, 2023), entendemos que ser é sempre estar com (vidas mais que humanas) em contínua transformação, e que nossas vidas são moldadas por essas múltiplas relações em constante devir-com elas. Trata-se, portanto, de uma alteridade em torno de uma ética do cuidado (Haraway, 2021), em que a responsabilidade de agir encontra-se sempre entrelaçada por múltiplas formas de vida situadas (Haraway, 1995). Trata-se de desenvolver a capacidade de responder a problemas/incômodos localizados de maneira conjunta, na construção de parcerias improváveis frente àquilo que a realidade nos impõe. É diante dessa perspectiva que propomos aprender com o devir-com como possibilidade de construção de futuros possíveis de serem vividos, em constante estado de permanecer com problemas/incômodos que reclamam a urgência de serem pensados juntos em termos de suas múltiplas consequências (Haraway, 2023).
Ao propor o conceito de devir-com, buscamos oferecer uma chave teórica que não só articula essas complexas interações entre humano e não humano, mas também sugere a construção de agendas cosmopolíticas de pesquisa e ação organizacional. Contribuímos, assim, para a disseminação de reflexões críticas ao explorar como o devir-com pode reconfigurar as práticas e teorias organizacionais nesse cenário marcado por fraturas e emergências tecnológicas. Por fim, realizamos um convite para desaceleração e reativação da ciência administrativa no Antropoceno, ao demonstramos, brevemente, como estamos mobilizando práticas (hesitar, civilizar, localizar e reativar) diante dos desafios cosmopolíticos que atravessam nossa pesquisa de campo sobre a gestão de uma Unidade de Conservação. Nesse ínterim, a gestão pode ser compreendida não apenas como um exercício de controle e otimização, mas como uma prática situada, que reconhece as complexidades das redes de relacionamentos que constituem o social, o econômico e o ecológico.
O ANTROPOCENO E A CRISE DA CIÊNCIA BIFURCADA: A CIÊNCIA ADMINISTRATIVA ENFEITIÇADA
A modernidade, um período complexo que teve seu apogeu nos séculos 18 e 19 (Latour, 2020; Weber, 2009), marcou uma profunda transformação nas estruturas sociais, econômicas e ambientais em todo o mundo (Mignolo, 2017). A ascensão da razão iluminista, a ênfase na individualidade e a confiança no progresso científico delinearam a mentalidade moderna à luz de uma perspectiva epistêmica que justificou a apropriação de territórios e modos de vida (Ferdinand, 2022; Mignolo et al., 2008; Stengers, 2023). O navio colonial, que partiu da África em direção ao Novo Mundo, trazendo em seu porão corpos escravizados para trabalhar nos regimes de plantation, inaugura a modernidade ao imprimir nas colônias padrões de civilização e a racionalidade europeia como caminho universal para a prosperidade humana (Mignolo, 2017); a produção da dupla fratura ocidental (Ferdinand, 2022).
O ego cogito cartesiano, representado pela conhecida expressão de René Descartes, “penso, logo existo”, inaugura na história da ciência moderna o pensamento racional como base para o estabelecimento das verdades, gerando expressivas consequências ontológicas, epistemológicas e socioambientais (Haraway, 1995; Latour, 2020). Paulatinamente, um prisma racionalista que cada vez mais enxerga o mundo apenas pela razão (eurocentrada), que subestima quaisquer experiências de vida para além da abstração de indivíduo consagrada no ego cogito. Trata-se de uma perspectiva encarnada em um sujeito/corpo/lugar específico (Haraway, 1995); uma racionalidade que se pauta na ideia de dominação das vidas para atingir seus propósitos de dominação (Stengers, 2023).
O nascimento da gestão como um saber científico está intimamente relacionado ao processo de modernização e à consolidação da racionalidade burocrática nas sociedades industriais (Weber, 2009, 2013). Com a massiva transição das pessoas do campo para as cidades, a formação das primeiras indústrias e das sociedades de consumo, instaura-se um solo fértil para o surgimento de uma ciência administrativa (Shenhav, 2003; Tsoukas & Chia, 2002). Em linhas gerais, a gestão nasce e se solidifica nesse contexto histórico como uma prática moderna e bifurcada; e as ciências da Administração, como saber científico, cujo objetivo se constitui em instrumentalizar recursos (humanos, naturais, financeiros, tecnológicos) para a perpetuação dos progressos do capital (Ramos, 1989).
Como podemos ver, há aqui um importante paralelo entre dimensões científicas e econômicas (Stengers, 2023). Ao traçar paralelos entre a expansão do capitalismo e a emergência de um ethos protestante, Weber (2013) demonstra como a racionalização moderna foi marcada por um processo de desencantamento do mundo. No lugar do carisma, da tradição, dos costumes, na modernidade passava a imperar a autoridade racional-legal-burocrática; um tipo de dominação institucionalizada que acontece mediante a progressiva intelectualização da vida (Weber, 2009, 2013) e a dominação dos corpos (Foucault, 2014). É nesse contexto, de racionalização, dominação e desencantamento modernos, que a ciência administrativa hegemônica emerge e se consolida.
A realização do projeto moderno de racionalização progressiva é caracterizada por Weber (2013) como o desencantamento do mundo, uma espécie de substituição de modos tradicionais de compreensão da realidade por sociedades pré-modernas por um entendimento secularizado e centrado na razão, na eficiência e na maximização de resultados. Por um lado, o desencantamento retratado por Weber reverberou na construção de um tipo de sociedade em que o saber científico moderno é central para a determinação das relações sociais. Por outro, o mesmo desencantamento se articula com uma necessidade civilizatória de domínio do mundo, da vida, da natureza, em nome do progresso e da perpetuação/dominação da razão europeia (Latour, 2020; Mignolo, 2017; Stengers, 2023).
Stengers, ao dialogar com o processo de desencantamento retratado por Weber (2013), argumenta que compreender o empreendimento racional como uma forma de substituição do mágico e do religioso representa uma simplificação excessiva, podendo prestar-se a produzir narrativas que justifiquem a dominação técnica e instrumental. A razão moderna e o capitalismo neoliberal poderiam então ser vistos não pela destituição de encantamentos, mas sim como novas formas de encantamento que enfeitiçam o mundo com a fé na ciência, na tecnologia e no progresso econômico (Pignarre & Stengers, 2013). No lugar dos encantamentos religiosos ou mágicos tradicionais, a modernidade teria produzido e se constituído por meio da crença na capacidade humana de compreender, controlar e transformar o mundo através do conhecimento científico e das inovações tecnológicas (Latour, 2020).
Nessa interpretação, poderíamos caracterizar não apenas o capitalismo neoliberal como uma espécie de feitiço moderno, mas também a própria ideologia gerencial, embasada na crença de que os indivíduos são empreendedores de suas vidas (Dardot & Laval, 2016; Gaulejac, 2007) e na sacralização do mercado como princípio orientador da vida organizada (Chanlat, 2022). A ideologia gerencial, agora constituinte do tecido social na vida contemporânea, esvazia o sentido político e coletivo da experiência humana (Dardot & Laval, 2016) ao imergir os sujeitos na lógica da autoexploração de uma sociedade do desempenho (Han, 2015) em que os interesses do capital prevalecem, justificando qualquer meio para atingir os fins econômicos (Gaulejac, 2007).
Tal ciência administrativa, hegemonicamente centrada no funcionalismo (Korica et al., 2017), na racionalidade instrumental (Ramos, 1989), no homo economicus (Fougère & Solitander, 2023) e na matriz de colonização (Teixeira et al., 2021), possui um papel importante nesse processo ao legitimar a orientação neoliberal para o progresso do mercado, ainda que muitas vezes sejam atualizados seus mecanismos de controle em torno de discursos mais palatáveis. Trata-se de mudanças discursivas que ainda perpetuam o gerir como uma prática que deve instrumentalizar recursos para o progresso do capital (Aktouf, 2005; Santos, 2023). As ciências administrativas falham, portanto, em promover uma gestão que realmente considere as dimensões éticas, culturais, políticas, sociais e ambientais de forma integrada em suas práticas (Gaulejac, 2007; Gherardi & Laasch, 2022; Paula, 2016), contribuindo também para a exacerbada exploração dos chamados recursos naturais e para a negligência das questões socioambientais (Banerjee & Arjaliès, 2021; Chanlat, 2022).
A ciência moderna e a gestão, que alcançaram um suposto domínio da natureza durante e a partir da Revolução Industrial (Mignolo, 2017), hoje revelam ao mundo a possibilidade do Antropoceno. As marcas predatórias da ação humana já podem ser consideradas o principal vetor de mudança planetária (Crutzen & Stoermer, 2000; Steffen et al., 2007). Defendemos que, apesar da falta de consenso nas Ciências do Sistema-Terra sobre o início do Antropoceno e se ele realmente pode, na objetividade das medições estratigráficas, ser considerado uma nova época geológica (Steffen et al., 2015), as organizações modernas têm desempenhado um papel fundamental na sustentação da crise socioambiental dele derivada (Figueiredo et al., 2020). Além disso, os efeitos das mudanças climáticas já são manifestados em diferentes eventos que concretizam, independentemente da nomenclatura para o evento em si, que os problemas chegaram para ficar (Haraway, 2023).
O conceito de natureza bifurcada, formulado criticamente por Whitehead (1994), revela um dos pilares da racionalização moderna. Ao instaurar a separação entre uma natureza concebida como entidade objetiva, passível de cálculo e dominação, e os modos de experiência associados a qualidades, valores e práticas culturais, a modernidade legou às ciências um entendimento empobrecido e fragmentado do mundo (Whitehead, 2006). Stengers (2011, 2023) observa que essa divisão, ao mesmo tempo que excluiu a experiência e os afetos do conhecimento legítimo, permitiu que a Ciência se consolidasse como voz autorizada e autoritária sobre a realidade. Essa pretensão de autoridade, sustentada pelo ideal de objetividade pura, contribuiu para naturalizar modos de exploração que desconsideram a interdependência entre humanos e não humanos, reforçando as condições da atual crise ecológica e climática.
A ciência administrativa hegemônica, ao operar a partir de uma lógica de maximização de eficiência e controle, não só perpetua as separações descritas no parágrafo anterior, mas as reinventa e reforça. Ao tratar os chamados recursos naturais como objetos inertes e isolados a serem geridos para a perpetuação do capital, desconsidera as interconexões entre mundos mais que humanos. A partir dessa bifurcação, podemos compreender que a modernidade não apenas instaurou uma gramática de racionalização do mundo, mas também um processo de desencantamento que sustenta a separação em esferas distintas. No entanto, diante da emergência do Antropoceno, tais esferas são desafiadas a se confrontar e a buscar novas formas de composição e reconciliação (Chakrabarty, 2019).
Por tudo isso, argumentamos que a ciência administrativa hegemônica se solidificou como um saber orientado à eficiência e ao controle em prol do mercado, do desenvolvimento e do progresso. Nesse processo, não apenas reproduziu, mas reinventou o isolamento entre o chamado “mundo natural” e o “social”, como se fossem esferas discretas e autônomas que apenas se impactam mutuamente. É aqui que a crítica de Whitehead (1994, 2006) à bifurcação da natureza se torna relevante: ao trazer para o centro do debate a cisão moderna entre o que seria “objetivo” e “natural” e o que seria “subjetivo” e “cultural”, ele mostra como a Ciência - e, com ela, a ciência administrativa hegemônica - adotou uma visão que não apenas simplifica, mas, na prática, aniquila as complexas inter-relações entre essas esferas. Essa operação foi central para sustentar o projeto moderno de dominação, no qual a separação entre esferas (não apenas entre natureza e cultura, mas também entre economia e ecologia, razão e emoção, humano e não humano, masculino e feminino, branco e não branco, saber científico e saberes tradicionais) legitima práticas de exploração e controle. Tais cisões, longe de descrever a realidade, produzem hierarquias que autorizam a Administração a gerir a vida pela lógica da subordinação e da exclusão, silenciando modos outros de conhecer e viver o mundo.
Assim, a produção de uma natureza sob a ótica do “recurso natural” foi transformada em algo que poderia ser dominado e controlado tecnicamente, enquanto a cultura e as subjetividades foram relegadas a outros campos epistemicamente mais distantes (Ferdinand, 2022). Nesse sentido, a gramática moderna, confiante na separação e no controle, criou um modelo de saber que não só ignorou as interdependências entre mundos, mas também tornou possível, e até desejável, que a Ciência se convertesse em um instrumento de dominação - no caso da ciência administrativa, de diferentes corpos, fossem ou não humanos. A ciência administrativa, imersa nesse projeto de racionalização, reforça essa fragmentação, tratando as questões sociais e ecológicas como algo que pode ser separado, isolado e “gerido” de forma técnica, afastando-se da política. Ao invés de se perguntar como repensar as interações entre esses domínios, essa ideologia da gestão moderna - focada na maximização de recursos e resultados - opera como um “feitiço moderno”, que tenta convencer-nos de que o conhecimento técnico é suficiente para lidar com a complexidade de nossas relações organizadas com o planeta, importando-se apenas residualmente com os danos que causa.
Nesse sentido, a interseção entre práticas científicas, práticas de gestão e crise socioambiental ressalta a responsabilidade das organizações e das ciências administrativas em (re)imaginar seus fundamentos teóricos, epistemológicos, ontológicos, éticos e políticos (De Cook et al., 2019; Leite & Fantinel, 2024). As paisagens planetárias foram/estão sendo radicalmente modificadas com esses movimentos organizativos de domínio humano, realizando um desequilíbrio ecológico no planeta (Haraway, 2023; Stengers, 2015; Tsing, 2021). Diante disso, reforçamos a necessidade cada vez mais evidente de se (re)pensar o produzir conhecimento em Administração (Ergene et al., 2021; Júlio & Fantinel, 2021; Wright et al., 2018) e seus impactos nos diferentes modos de vida que habitam o planeta Terra. É aqui que propomos o desenvolvimento de saberes que, em vez de reforçarem as bifurcações modernas, aprendam a existir e compor nos interstícios.
DEVIR-COM E O REPENSAR DAS FRONTEIRAS NO ANTROPOCENO
O devir-com é nossa inspiração para discutirmos a possibilidade desse repensar de fronteiras, desse compor nos interstícios. Trata-se de uma proposição elaborada pela bióloga e filósofa Donna Haraway, reconhecida por sua crítica incisiva à dicotomia entre natureza e cultura, e que discute as formas pelas quais o pensamento moderno e antropocêntrico produz e demarca os “tempos de urgências”. Para a autora, o devir-com é um modo de compreensão que privilegia o entrelaçamento complexo e contínuo de seres que se tornam uns com os outros. É uma abordagem epistêmica que implica a compreensão do mundo por uma relacionalidade radical (Haraway, 2023). Isso não significa que os seres simplesmente coexistem ou se impactam mutuamente: não é simplesmente um “ser com”; significa que somos todos, humanos ou não, constituídos por práticas ativas de nos tornarmos com, em coevolução com outras formas de existência. Nessa perspectiva, as fronteiras entre o “humano” e o “não humano” - aquelas categorias fixas que construímos - começam a se dissolver, revelando um cosmos vivo, interconectado e multiespécies (Haraway, 2021, 2022).
Haraway (2023) compõe, para isso, um pensamento tentacular, cujos braços se estendem por vários caminhos, criando conexões entre mundos, contextos e experiências diversas. Em vez de um pensamento linear, que busca separar e categorizar, o pensamento tentacular convida a nos imergirmos na complexidade das interações que nos formam, nos sustentam e nos desafiam. É esse pensamento que rompe com as divisões tradicionais entre natureza e cultura, entre ciência e ética, entre o social e o ecológico. O devir-com está imerso em redes de afetos, trocas e cuidados mútuos, e é assim que entendemos nossa relação com o mundo: não como dominadores distantes, mas como coparticipantes da trama viva que constitui a Terra. Ao fazer isso na ciência administrativa, podemos começar a imaginar novos modos de convivência, onde as soluções para as crises globais, como a do Antropoceno, não se baseiam em modelos generalistas e escaláveis de controle, mas em aprender a viver de maneira situada, através das complexas interações que nos envolvem.
O devir-com é marcado por uma recusa de um triste fim planetário centrado no humano e uma abertura ao reconhecimento de alegres possibilidades de novos arranjos situados de produção de vidas compostas (Maizza & Oliveira, 2022). Trata-se de reconhecer que tudo está conectado a alguma coisa em algum espaço-tempo; de pensar com alegria e disposição a construção de alianças improváveis diante da apatia antropocêntrica (Haraway, 2023). Significa reconhecer que nossas vidas estão entrelaçadas com as vidas de outros seres e que precisamos ser capazes de responder (response-ability) por essas relações. Nessa perspectiva, o jogo de palavras desenvolvido pela autora reivindica éticas de cuidado e alteridades significativas (Haraway, 2021). Afinal, por quem somos responsáveis? A quem e o que estamos respondendo em conjunto? Para Donna Haraway, os cenários de crise planetária implicam a necessidade de construção de novos pensamentos para o fazer ciência - novas maneiras de pensar e agir compostas por compaixão, alegria e alianças gerativas.
Pensar com o devir-com de Haraway (2023) significa adotar uma lente que reconheça as relacionalidades que moldam as vidas mais que humanas nos diferentes modos de habitar a Terra. Um exemplo que demonstra essa imbricação nas redes de coexistência é o impacto do vírus SARS-CoV-2 na vida humana durante a pandemia de covid-19, que exigiu novas responsabilidades e éticas das práticas organizacionais (Júlio & Fantinel, 2021). Devir-com envolve, portanto, a ideia de assumir uma postura de colaboração entre mundos (Haraway, 2023), buscando formas de coexistência mais éticas e responsivas (Dolphijn et al., 2023). Trata-se de cultivar relações de cuidados (Maizza & Oliveira, 2022), sustentadas no respeito e na solidariedade multiespécies (Haraway, 2023). Para a autora, o devir-com pode ser uma resposta às narrativas centradas no humano, que marcam os feitiços da sociedade neoliberal e da ideologia gerencialista (Dardot & Laval, 2016; Gaulejac, 2007).
Ao nos convidar a transcender as fronteiras do excepcionalismo humano que permeia a modernidade (Maizza & Oliveira, 2022), o devir-com reivindica que todas as práticas sejam pensadas em termos de suas múltiplas consequências na materialidade da vida (ecologias de práticas mais que humanas). Implica rejeitar essas soluções teleológicas e centradas no humano, tais quais as promessas de um “capitalismo verde” ou da resolução dos problemas por meio de investimentos de um ou outro bilionário. Mais que a elaboração apressada e irresponsável de soluções rápidas, escapistas e tecnocentradas, implica aprender a ficar com o problema, como um compromisso cosmopolítico de enfrentar as crises contemporâneas assumindo a complexidade e a ambiguidade dos desafios. Precisamos ficar com as questões difíceis, convivendo com elas e buscando modos de ação coletivos e responsáveis que reconheçam as interconexões entre as formas de vida implicadas nas práticas situadas/localizadas. Representa um desafio diante da necessidade, mais do que urgente, de elaborarmos respostas para os eventos devastadores; respostas conjuntas e compostas que respondem às tristes narrativas do Antropoceno (Haraway, 2023).
Se as ciências administrativas foram inicialmente construídas sobre a ideia de que a natureza pode ser tratada como um recurso a ser gerido e explorado, ignorando suas interconexões complexas com o social e o cultural, a proposta do devir-com nos oferece uma nova maneira de repensar as fronteiras entre esses domínios. Ao invés de dividir o mundo em esferas autônomas e separadas, o devir-com nos convida a imaginar formas de existência compartilhada, onde seres humanos, não humanos e ecossistemas estão em constante interação e transformação mútua. No contexto do Antropoceno, em que somos forçados a olhar para as ações humanas e seus impactos irreversíveis sobre o planeta e suas diversas formas de vida, a proposta do devir-com se revela como uma chave para repensar questões socioambientais e suas conexões com a ciência administrativa. A crise ecológica não é mais um problema externo a ser resolvido com tecnologias e técnicas de controle, mas um desafio coletivo que exige uma mudança fundamental na forma como pensamos a interdependência e a responsabilidade, tanto nas práticas científicas quanto nas práticas administrativas.
Sugerimos a incorporação do devir-com como uma alternativa à lógica racionalista e separadora da modernidade, ao propor uma forma mais integradora e interconectada de pensar o papel da ciência e da gestão no contexto do Antropoceno. É uma forma de reimaginar a relacionalidade das formas de existência no planeta, que implica, para as ciências administrativas, reconhecer o papel e a responsabilidade de seus saberes e suas práticas na produção cotidiana do Antropoceno, em vez de agir como se as questões ecológicas fossem “problemas externos” a serem resolvidos pela Administração. Isso poderia significar uma abordagem que não separa mais, por exemplo, os campos da gestão ambiental, ética, ecologia e das questões sociais. Ao mesmo tempo, abre-se a possibilidade para o questionamento do quanto as respostas administrativas consideradas “sustentáveis” são insuficientes para os tempos de urgências, na medida em que perpetuam as fraturas ocidentais (Ehrnström-Fuentes & Böhm, 2023; Nadegger, 2023). O devir-com pode nos oferecer uma saída para a bifurcação que marcou a ciência administrativa hegemônica, sugerindo uma perspectiva que reconhece a complexidade das interações entre seres humanos, natureza e as culturas que sustentam nossas vidas. Nesse sentido, o próximo tópico foi elaborado na busca por operacionalizar conceitualmente nossa proposta, o que fizemos em torno de quatro práticas para responder às urgências e aos desafios cosmopolíticos da contemporaneidade: hesitar, civilizar, localizar e reativar.
AS URGÊNCIAS E OS DESAFIOS COSMOPOLÍTICOS PARA DESACELERAR AS CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS
Hesitar e civilizar: devir-com para colocar as ciências administrativas em suspenso
Sim, seria o novo tipo de objetividade. Mas seria muito mais desafiadora porque a objeção não viria de colegas “gente boa”, interessados no mesmo tipo de dinâmicas que você. Isso seria o que eu chamo de “desaceleração da ciência”: cientistas interessados não simplesmente em tirar um tempo para pensar, eles próprios, sobre as consequências, mas sobretudo cientistas interessados no mundo onde essas consequências irão ocorrer. (Isabelle Stengers, em entrevista a Dias et al., 2016, p. 163).
Inspirados no pensamento da filósofa Isabelle Stengers, alinhamos o devir-com a uma possibilidade de desaceleração das práticas científicas. Ao mesmo tempo que, por um lado, a autora belga propõe essa desaceleração, por outro, ela também articula em seu manifesto a tônica dos tempos de urgências. As urgências são expressas em termos da necessidade de se misturar à bagunça cosmopolítica que atravessa um estar no mundo de muitos diversos, cujas composições com esses devem ser levadas a sério caso queiramos sobreviver aos tempos de catástrofes (Stengers, 2015, 2023). Em outras palavras, essa possibilidade de uma “ciência lenta”, além de fissurar a bifurcação moderna, pretende situar as práticas científicas para que a ciência não caia numa mera sofisticação discursiva e autoritária. Isso significa reconhecer que as práticas científicas interagem com várias outras ecologias de práticas (mais que humanas) no cosmos (Stengers, 2005); em eventos em que as partes envolvidas devem estar dispostas a se transformar ao devir-com (Haraway, 2023) os diversos mundos com os quais são estabelecidos os regimes de produções de verdades (Stengers, 2018).
A ecologia das práticas, perspectiva à qual nos alinhamos neste artigo, trata de um repensar acerca das práticas científicas, de seus fundamentos ontológicos, epistemológicos, metodológicos e cosmopolíticos, bem como da arriscada exposição de suas responsabilidades diante da urgência planetária (Stengers, 2005). Segundo a autora, são maneiras que buscam civilizar as relações entre as práticas científicas e aquilo que elas por muito tempo excluíram; uma reinvenção do fazer científico composto por práticas de inclusão e responsabilidade ética-ecológica. Pensar nos termos de uma ecologia das práticas é reconhecer que a ecologia stengersiana tem um duplo sentido: natural e político (Silva, 2020). O que seria então hesitar e civilizar diante dos desafios cosmopolíticos para a ciência administrativa devir-com as ecologias das práticas mais que humanas que compõem o cosmos?
O primeiro ponto que merece destaque é que a cosmopolítica não se reivindica em torno de um conceito; a cosmopolítica é uma proposição (Stengers, 2018). Isso significa que ela não se pretende encerrar em torno de uma solução representativa, mas com uma composição de mundos diversos e contraditórios em torno daquilo que não se pretende resolver de forma arbitrária. Enquanto as ciências administrativas se debruçam em construir generalizações apressadas e escaláveis acerca da representação bifurcada de realidades mais que humanas - como acontece com as práticas majoritárias de responsabilidade social corporativa (Ehrnström-Fuentes & Böhm, 2023) - o que propomos aqui é um devir-com (Haraway, 2023) que hesite em torno da composição do possível.
Colocar a ciência administrativa em suspenso convoca um devir-com para reivindicar um compromisso cosmopolítico de civilizar as práticas científicas em torno de suas consequências diante da materialidade da vida situada (ecologias de práticas). Reconhecer, por exemplo, que as teorias e os discursos da responsabilidade corporativa e da sustentabilidade tem por consequência uma violência ontológica e material nas comunidades de vidas mais que humanas, em especial aquelas que se encontram em maior estado de vulnerabilidade (Banerjee & Arjaliès, 2021; Ehrnström-Fuentes & Böhm, 2023). A hesitação que propomos aqui seria no sentido de questionar a naturalidade de nossas proposições, teorias, nossos conceitos e métodos, para pensarmos as consequências situadas de nossas práticas científicas; evocar a cosmopolítica para colocar as ciências administrativas em suspenso.
A cosmopolítica é a intrusão de uma nova maneira de pensar - uma filosofia especulativa inspirada em Alfred Whitehead - o cosmopolitismo kantiano, aquela maneira que fundamenta o estado como a representação racionalista de um suposto bem comum (Stengers, 2023). A proposição cosmopolítica não assume pressa para chegar em uma solução - como acontece na ciência administrativa hegemônica -, tampouco tem na representação moderna o campo racional para a construção dessas soluções (Stengers, 2018). A cosmopolítica é a expressão daquilo que Davi Kopenawa e Ailton Krenak fazem em seus escritos e ativismos originários (Sztutman, 2019), ao colocar em cena os múltiplos interesses de rios, animais, plantas, espíritos, xamãs e todo um leque de habitações em ecologias de práticas em face da instrumentalização dessas vidas pela civilização e pela política moderna (Kopenawa & Albert, 2018; Krenak, 2022). A cosmopolítica é expressa no movimento de semear palavras de contracolonização, que marcam as confluências quilombolas de Nêgo Bispo (Santos, 2023). A cosmopolítica é a expressão de diferentes maneiras de estar no mundo em composição com vidas mais que humanas entre mulheres indígenas e plantas (Maizza & Oliveira, 2022), e entre caçadores, povos andinos, animais não humanos e interesses burgueses (Cadena & Blaser, 2018).
A cosmopolítica seria um parlamento (Latour, 2020) em que as partes interessadas se abrem para versar e demonstrar os múltiplos interesses em torno de um (ou vários) problemas em comum, fazendo com que as práticas majoritárias sejam obrigadas a questionarem os fundamentos daquilo que elas fazem, silenciam e excluem (Silva, 2020). A cosmopolítica, então, seria um evento cósmico composto por essas divergências e esses pensamentos antagônicos que não mais silenciaria essas ecologias de práticas, mas seria uma abertura para a transformação das práticas modernas diante do possível em seus encontros (Stengers, 2018). Ao pensarmos o devir-com nessas inspirações cosmopolíticas, ao hesitar e civilizar diante das ecologias das práticas que compõem o cosmos, convidamos o fazer ciência administrativa para se situar nos interstícios, questionar os fundamentos que a sustentam em termos filosóficos, teóricos e metodológicos, e no lugar de excluir, produzirmos uma ciência que compõe em devir-com essas diferentes ecologias de práticas mais que humanas (Haraway, 2023; Stengers, 2023).
Hesitar e civilizar distante o desafio que assumimos na composição de nossa pesquisa de campo com a ecologia das práticas de gestão em uma Unidade de Conservação nos exigiu compreender que essa ecologia de práticas é constituída por diferentes maneiras de habitar o território (e.g., comunidades tradicionais, plantas, bichos, turistas, empreendedores, funcionários públicos, manifestações religiosas, associações, leis, forças econômicas, pressões institucionais etc.). Portanto, mesmo lidando com um conceito que, via de regra, é normatizado como antropocêntrico e universal, entendemos a responsabilidade da gestão como um resultado transitório e situado que emerge dos encontros de agências mais que humanas (Gherardi & Laasch, 2022). Nesse sentido, a chamada “gestão compartilhada” das Unidades de Conservação revela-se menos como uma estrutura sólida e representativa e mais como um campo de negociações precárias, coproduzido e coabitado, no qual se evidenciam tanto a fragilidade dos aparatos legais quanto os limites das práticas administrativas para lidar com as complexidades cosmopolíticas (Cabacine & Fantinel, 2025).
No lugar de silenciarmos essas diversas agências mais que humanas e suas zonas de conflitos e interações, como ainda acontece em grande parte das pesquisas em Administração que versam sobre as relações entre humanos e natureza (Ehrnström-Fuentes & Böhm, 2023; Nadegger & Wegerer, 2024), buscamos compor epistemológica e metodologicamente um movimento de pesquisar-com, devir-com (Haraway, 2023). Com isso, objetivamos questionar as responsabilidades práticas e situadas da gestão em face das ecologias das práticas de preservação/conservação ambiental. Isso implicou mobilizar categorias teóricas e fazeres metodológicos que nos permitissem questionar nossas posições como produtores de conhecimento; hesitar diante das incertezas e fragilidades de nossas próprias formulações; e civilizar os modos de fazer pesquisa, tornando-os mais sensíveis, inclusivos e responsáveis frente aos modelos extrativistas institucionalizados em nosso campo (Bothello & Bonfim, 2025). Entendemos, assim, a pesquisa como uma prática situada e a produção de conhecimento como uma composição coletiva (Stengers, 2023), um desafio cosmopolítico que nos colocou diante da necessidade de localizar e reativar nossos corpos e nossas mentes.
Localizar e reativar: devir-com para compor
O devir-com, a ciência lenta, a cosmopolítica, as ecologias das práticas são caminhos pelos quais buscamos oferecer possibilidades para um reativar no fazer ciência administrativa. Reativar implica a arriscada, porém potente e alegre, proposição por uma composição de mundos (mais que humanos), produções de relações (Stengers, 2023). Inspirada nos movimentos coletivos de resistências das bruxas neopagãs, Isabelle Stengers defende um contramovimento feiticeiro para reativar essas práticas e esses mundos coletivos diversos, em suas potências em reencantar zonas de experiências nas práticas de produção de conhecimento (Stengers, 2023). Reativar essas resistências (Sztutman, 2018), misturar-se nas magias que emergem das fumaças de histórias que foram esquecidas (Costa, 2017), é um movimento de inspiração coletiva que marca o pensamento da autora belga diante do legado de mortes provocado pela modernidade (Dias et al., 2016). Tanto Donna Haraway como Isabelle Stengers defendem a construção de uma ciência situada e localizada, atenta às materialidades das ecologias de práticas em contextos específicos, em contraste aos preceitos universais da modernidade (Haraway, 2023; Stengers, 2023).
No lugar da suposta objetividade moderna, que universaliza a razão em torno do sujeito masculino/branco/europeu e sua onipotência metodológica (quer seja no campo da Administração ou não) - as generalizações apressadas que categorizam a ciência bifurcada -, Donna Haraway propõe os saberes localizados como alternativa ontológica e epistêmica. Não se trata de recusar a objetividade em si mesma, tampouco de cair nas armadilhas do construcionismo social, mas atestar a potência de uma ciência alegre que reconhece os “objetos” como agências que estão sempre em movimento de composição (Stengers, 2023). Não se trata de cair em um relativismo absoluto, mas de reconhecer a potência objetiva dos “saberes parciais, localizáveis, críticos, apoiados na possibilidade de redes de conexão, chamadas de solidariedade em política” (Haraway, 1995, p. 34).
Para a autora, os saberes localizados são maneiras de produzir conhecimentos e práticas situadas em materialidades específicas, moldadas por experiências culturais, ecológicas, sociais e políticas compostas por diferentes coletivos mais que humanos (Haraway, 1995). Ela enfatiza a importância de reconhecer e valorizar esses saberes como fontes legítimas de conhecimento, em contraposição ao discurso dominante que tende a privilegiar certos tipos de conhecimento considerados neutros e universais. Ao destacar os saberes localizados, Haraway busca descentralizar o poder e a autoridade associados aos discursos hegemônicos modernos, promovendo o que ela chama de “conversas compartilhadas em epistemologia”.
Em nossa pesquisa de campo, ao buscarmos localizar e compor a produção de conhecimento, contrastamos as metodologias generalistas e o prisma racionalista da ciência administrativa (Banerjee & Arjaliès, 2021), bem como o antropocentrismo que orienta entendimentos comuns sobre as práticas de gestão (Gherardi & Laasch, 2022). Escolhemos compor com as ecologias de práticas das Unidades de Conservação porque nelas se tensionam, de forma constante, os limites da dicotomia natureza-cultura e seus imbricamentos com a gestão, cujas práticas estão intimamente relacionadas às diferentes maneiras de sobreviver e pertencer no território (Cabacine & Fantinel, 2025). Nos inspiramos nos estudos multiespécies (Kirksey & Helmreich, 2010; Van Dooren & Rose, 2016), em seu potencial de evidenciar as agências mais que humanas, para mostrar que as práticas de gestão são coproduzidas e, portanto, não podem ser reduzidas aos domínios agenciais exclusivos dos animais humanos (Fantinel, 2023).
Em termos mais pragmáticos, mobilizamos em campo conversas “compartilhadas em epistemologia”, envolvendo interlocuções com bichos, plantas, águas, geossítios, caçadores, pescadores, agricultores, biólogos, agrônomos, ecólogos, empreendedores, condutores ambientais, tecnologias, leis, entre outros. Essas conversas foram sempre mediadas por limites e potências, conexões parciais e, em alguns casos, até mesmo precárias. Ainda assim, reconhecendo esses limites, nossa abordagem hesita: localiza a produção de conhecimento como uma conexão natural-cultural (Haraway, 2023), sempre situada e não redutível a modelos generalizáveis. Hesitamos também diante da violência ontológica que denunciamos ao longo deste ensaio, ao reconhecer que os territórios de conservação/preservação são coabitados por múltiplas existências (Cabacine & Fantinel, 2025). As implicações cosmopolíticas para os entendimentos de gestão revelam-se, portanto, complexas demais para serem tratadas apenas em nossos próprios termos. A princípio, diante dessas complexidades, buscamos inclusive negar a própria ideia de gestão em nossa pesquisa. No entanto, após sucessivas reflexões, reconhecemos a potência de reativá-la: não como conceito normativo e universal, mas como prática situada, precária e coproduzida nas ecologias em que habitamos.
Defendemos que o reativar das ciências administrativas implica em compor epistemicamente com as ecologias de práticas localizadas, em reconhecer que não estamos sozinhos no mundo (Stengers, 2018). Isso significa um esforço para se debruçar na composição com saberes, práticas e territórios que fogem da lógica instrumental bifurcada da ciência administrativa (Banerjee & Arjaliès, 2021). Trata-se de reconhecer a riqueza em resistir/desenfeitiçar/contracolonizar ao contar histórias outras para além das tristes narrativas antropocêntricas, modernas e coloniais (Haraway, 2023; Santos, 2023; Stengers, 2023). Por isso, defendemos novas maneiras de produzir ciência administrativa lentamente para reativar de maneira situada; uma ciência que se permite compor ao devir-com (Haraway, 2023) ecologias de práticas (Stengers, 2005), nos agenciamentos que se produzem nos interstícios de coletivos ontológicos/epistemológicos diversos, na importância do que Isabelle Stengers denomina de produzir relações e vínculos (Stengers, 2023). Essa inspiração nos permitiu avançar na construção de uma pesquisa que compõe com as ecologias de práticas das Unidades de Conservação, em contraste aos silenciamentos e às violências que são normatizados nos estudos sobre gestão e organizações (Ehrnström-Fuentes & Böhm, 2023).
Reativar e localizar as ciências administrativas são possibilidades de conexões em torno do devir-com a produção uma ciência que hesita diante da bifurcação moderna; são pensamentos que compõem novos pensamentos; perguntas que geram novas perguntas; estórias que permitem contar novas estórias; uma maneira de permanecer com o problema (Haraway, 2023). São conversas compartilhadas em epistemologia (Haraway, 1995), situadas em ecologias de saberes e práticas que são responsáveis, em conjunto, pela urgência do aqui e agora, pela urgência de uma nova ciência cujas práticas não se pretendem reivindicar como autoritárias ou hegemônicas (Stengers, 2023). São possibilidades promissoras de construção de novos futuros (Krenak, 2019, 2022), frente aos quais seria oportuno contracolonizar toda a ideia de desenvolvimento ao ressignificá-la pela arte de se envolver (Santos, 2023), de devir-com (Haraway, 2023).
O devir-com contrasta profundamente com a visão fragmentada da ciência administrativa hegemônica, que, como mostramos, tende a tratar a natureza e a cultura como esferas separadas e manipuláveis de forma independente. As narrativas da gestão e do fazer administrativo, imersas no bojo dos discursos neoliberais (Fougère & Solitander, 2023), estão centradas em perspectivas que minam nossa capacidade de agir/responder (Haraway, 2023). Elas nos colocam na espera cínica e ao mesmo desesperadora de um milagre moderno e antropocêntrico que resolva os problemas que ele mesmo criou (Stengers, 2023). Em outra direção, o que estamos propondo neste ensaio é um pensar alegre, um ficar na confusão, o que reivindica um compromisso cosmopolítico (Stengers, 2018) de se misturar a esses muitos mundos localizados em suas possibilidades de construção de alianças (Haraway, 2023); o desafio de produzir uma ciência que hesita, uma ciência capaz de desacelerar frente às demandas de uma indústria do conhecimento, sem perder a capacidade de responder às questões urgentes de seu tempo (Stengers, 2023).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste ensaio nos propusemos a atender ao chamado por reconfigurar práticas e teorias organizacionais a partir do horizonte crítico do fenômeno da modernidade, o que fizemos tomando como contexto a controvérsia do Antropoceno. Pensamos que as ciências administrativas, embora tenham se integrado tardiamente a essa discussão, desempenham um papel crucial na crise ecológica do Antropoceno, pois as práticas de gestão contemporâneas intensificam desigualdades sociais, danos ambientais e a lógica de exploração. Optamos por mostrar esse engajamento a partir da lógica moderna da bifurcação que reflete essa cisão fundamental da modernidade, em que a ciência é vista como uma ferramenta para dominar e explorar o mundo, sem reconhecer as interconexões entre mundos mais que humanos. Para responder a essas crises, sugerimos que a ciência administrativa se aproprie da perspectiva do devir-com de Donna Haraway, que propõe uma maneira de pensar as relações não como controle ou subordinação, mas como práticas de convivência e coconstrução, que reconhecem a complexidade e a interdependência dos emaranhamentos ecológicos, sociais e econômicos.
Com isso, almejamos dar continuidade à disseminação de reflexões que questionam as bases do pensamento e da ação nas ciências da Administração, refletindo sobre como os fenômenos contemporâneos atravessam o campo da gestão, com suas implicações ambientais, sociais e econômicas. Nesse contexto, sugerimos que a ciência administrativa, ao lidar com as crises do Antropoceno, tome como ponto de partida a proposta de Donna Haraway, que ao refletir sobre as interações mais que humanas nos convida a repensar as práticas administrativas não mais como controle ou subordinação, mas como um exercício de devir-com. Isso implica uma abordagem das relações como dinâmicas e interdependentes, longe de uma visão mecanicista e fragmentada, em direção a uma convivência que reconhece a complexidade e a imbricação das redes ecológicas, sociais e culturais. A partir dessa perspectiva, as ciências administrativas podem se reconfigurar, saindo da lógica de separação moderna entre natureza e cultura e adotando uma postura de colaboração, cuidado e responsabilidade ética - essencial para responder aos desafios globais e às múltiplas crises que emergem no Antropoceno.
Por fim, em termos mais pragmáticos, convidamos a comunidade acadêmica em Administração para refletir sobre os desafios cosmopolíticos e as urgências das ciências administrativas no Antropoceno, propondo sua desaceleração por meio de um devir-com as ecologias das práticas. Defendemos a capacidade das ciências administrativas em hesitar diante das generalizações e representações modernas, valorizando e reativando saberes localizados e composições mais que humanas em contraste às soluções aceleradas e escaláveis que são comuns ao fazer ciência no campo. Um convite para compor novas relações, devir-com, hesitar, civilizar, localizar e reativar; o que envolve resistir à lógica neoliberal e antropocêntrica em seus interstícios, produzindo um conhecimento situado, plural e comprometido com futuros compartilhados.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de apoio financeiro para a realização desta pesquisa.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.
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PARECERISTAS
Mário Vasconcellos Sobrinho (Universidade Federal do Pará, Belém / PA - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6489-219X
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PARECERISTAS
Alexandre André Feil (Universidade do Vale do Taquari, Lajeado / RS - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2217-3351
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/97420/90602
Editado por
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EDITOR-CHEFE
Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
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EDITOR-ADJUNTO
Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
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EDITORES CONVIDADOS
Carla Marisa Rebelo de Magalhães (Universidade Lusófona, Lisboa - Portugal). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7956-0753
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EDITORES CONVIDADOS
Claúdio Roberto Marques Gurgel (Universidade Federal Fluminense, Niterói / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0009-0003-7254-8980
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EDITORES CONVIDADOS
Fernando Guilherme Tenório (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4082-4410
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EDITORES CONVIDADOS
Fernando López Parra (Universidad Andina Simón Bolívar, Quito - Ecuador). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3948-5127
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EDITORES CONVIDADOS
Javier Jasso (Universidad Nacional Autónoma de México, Coyoacán / CDMX - México). ORCID:https://orcid.org/0000-0001-5305-9936
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