Objetivo: Investigar se o desmame por protocolo em pacientes neurocríticos reduz a taxa de falha de extubação (desfecho primário) e as complicações associadas (desfecho secundário) em comparação com o desmame convencional.
Métodos: Realizou-se um estudo quase experimental em uma unidade de terapia intensiva médico-cirúrgica de janeiro de 2016 a dezembro de 2018. Foram incluídos pacientes com 18 anos de idade ou mais, com doença neurológica aguda e em ventilação mecânica > 24 horas. Todos os pacientes incluídos no estudo estavam prontos para o desmame, com nenhuma ou mínima sedação, escala de coma de Glasgow ≥ 9, estímulo ventilatório espontâneo, noradrenalina ≤ 0,2μgr/kg/minuto, fração inspirada de oxigênio ≤ 0,5, pressão expiratória positiva final ≤ 5cmH2O, pressão inspiratória máxima < -20cmH2O e pressão de oclusão < 6cmH2O.
Resultados: Foram incluídos 94 dos 314 pacientes admitidos à unidade de terapia intensiva, sendo 50 no Grupo Intervenção e 44 no Grupo Controle. Não houve diferença significativa na falha do ensaio respiratório espontâneo (18% no Grupo Intervenção versus 34% no Grupo Controle, p = 0,12). Foram extubados mais pacientes no Grupo Intervenção do que no Controle (100% versus 79%; p = 0,01). A taxa de falha de extubação não foi significativamente diferente entre os grupos (18% no Grupo Intervenção versus 17% no Grupo Controle, risco relativo de 1,02; IC95% 0,64 - 1,61; p = 1,00). A taxa de reintubação foi menor no Grupo Controle (16% no Grupo Intervenção versus 11% no Grupo Controle; risco relativo de 1,15; IC95% 0,74 -1,82; p = 0,75). A necessidade de traqueotomia foi menor no Grupo Intervenção [4 (8%) versus 11 (25%) no Grupo Controle; risco relativo de 0,32; IC95% 0,11 - 0,93; p = 0,04]. Aos 28 dias, os pacientes do Grupo Intervenção tinham mais dias sem ventilador do que os do Grupo Controle [28 (26 - 28) dias versus 26 (19 - 28) dias; p = 0,01]. A duração total da ventilação mecânica foi menor no Grupo Intervenção do que no Controle [5 (2 - 13) dias versus 9 (3 - 22) dias; p = 0,01]. Não houve diferenças no tempo de internação na unidade de terapia intensiva, 28 dias sem ventilação mecânica, internação hospitalar ou mortalidade em 90 dias.
Conclusão: Considerando as limitações de nosso estudo, a aplicação de um protocolo de desmame em pacientes neurocríticos levou à maior proporção de extubação, à menor necessidade de traqueotomia e à menor duração da ventilação mecânica. Entretanto, não houve redução na falha de extubação ou 28 dias sem ventilação mecânica em comparação com o Grupo de Controle. Registro ClinicalTrials.gov: NCT03128086
Descritores:
Estado terminal; Extubação; Desmame; Desmame do respirador; Traqueotomia; Respiração artificial
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UTI - unidade de terapia intensiva; VM - ventilação mecânica; TRE - teste de respiração espontânea; ECG - escala de coma de Glasgow; FiO2 - fração inspirada de oxigênio; P0,1 - pressão de oclusão; PImax - pressão inspiratória máxima; PSV - ventilação com pressão de suporte; PEEP - pressão expiratória positiva final. * Realizado nos últimos pacientes incluídos (n = 16); † pontuação de capacidade das vias aéreas: número de aspirações/turno (nenhum: 0; 1 aspiração: 1; 2 aspirações: 2; ≥ 3 aspirações: 3); capacidade de tossir (forte: 0; moderada: 1; fraca: 2; ausente: 3); reflexo faríngeo (forte: 0; moderada: 1; fraca: 2; ausente: 3); aparência das secreções, incluindo viscosidade (líquida: 0; espumosa: 1; espessa: 2; seca: 3) e coloração (clara: 0; marrom: 1; amarela: 2; verde: 3).
UTI - unidade de terapia intensiva; VM - ventilação mecânica; TRE - teste de respiração espontânea; LSV - limitação do suporte de vida; ECG - escala de coma de Glasgow; PImax - pressão inspiratória máxima. * Doença neuromuscular (n = 2), autoextubação (n = 1), lesão traumática grave (n = 1).
Número de pacientes que estavam vivos e respirando sem ventilação mecânica invasiva durante os 28 dias. Teste de log rank (p = 0,387).
A tabela mostra o número de pacientes que sobreviveram durante o período de estudo. RR - razão de risco.