RESUMO
O artigo analisa o perfil de jovens entregadores por plataformas, com base em pesquisas qualitativas em São Paulo, apontando elementos transversais que caracterizam essa realidade também em outros países. Aproxima trajetórias educacionais e laborais e examina perspectivas futuras, destacando o predomínio de jovens negros, periféricos e com escolaridade correspondente ao ensino médio. Por fim, argumenta que a adesão às plataformas associa-se a esse perfil e combina a busca por renda com o que esses jovens compreendem como “autonomia”, diante de experiências precárias no trabalho formal no Brasil.
Palavras-chave
Trabalho; Juventude; Plataformas; Entregas; Trajetórias
ABSTRACT
This article analyzes the profile of young platform delivery workers based on qualitative research conducted in São Paulo, identifying cross-cutting elements that also characterize this reality in other countries. It examines educational and labor trajectories as well as future prospects, highlighting the predominance of Black and peripheral youth with educational attainment corresponding to secondary education. The article argues that engagement in platform work is associated with this profile and combines the search for income with what these young workers understand as “autonomy,” in contrast to precarious experiences in Brazil’s formal labor market.
Keywords
Labor; Youth; Platforms; Delivery; Trajectories
RESUMEN
El artículo analiza el perfil de jóvenes repartidores en plataformas, a partir de investigaciones cualitativas realizadas en São Paulo, señalando elementos transversales que también caracterizan esta realidad en otros países. Aproxima las trayectorias educativas y laborales y examina las perspectivas futuras, destacando el predominio de jóvenes negros, periféricos y con escolaridad correspondiente a la educación secundaria. Finalmente, sostiene que la adhesión a las plataformas se asocia a este perfil y combina la búsqueda de ingresos con lo que estos jóvenes comprenden como “autonomía”, frente a experiencias precarias en el trabajo formal en Brasil.
Palabras clave
Trabajo; Juventud; Plataformas; Reparto; Trayectorias
Introdução
As entregas por meio de plataformas digitais vêm sendo objeto de publicações no país (Abílio, 2020, 2021; Filgueiras; Antunes, 2020; Fioravanti; Martins; Rizek, 2024; Manzano; Krein, 2022; Oliveira; Corrochano, 2023; Oliveira; Festi, 2023; Pires; Perin, 2024) e no mundo (Abdelnour; Méda, 2019; Graham; Woodcock, 2018; Griesbach et al., 2019; van Doorn, 2017). Nelas, destacam-se o gerenciamento algorítmico, o agendamento flexível, o pagamento por entrega, a ausência de direitos trabalhistas, a precariedade, os riscos à saúde, a individualização do trabalho. As pesquisas revelam o crescimento da atividade, catalisado pela pandemia de covid-19, e o dinamismo dessa forma de trabalho, sujeita a constantes experimentações e reconfigurações das plataformas.
Contudo, as tentativas de compreender esse universo esbarram na carência de dados oficiais, em razão da falta de regulamentação e da opacidade das plataformas digitais. Embora a maioria dos estudos não apresente dados estatísticos e demográficos, o perfil dos entregadores guarda características comuns em contextos diversos: são jovens, do sexo masculino e, em muitos países, migrantes que compõem, essencialmente, essa força de trabalho (Kusk; Nowens, 2022).
Embora a juventude seja um atributo recorrente desse trabalhador, poucas publicações abordam a questão juvenil para além do perfil sociodemográfico. A despeito dos marcadores etários, a atividade exige que os trabalhadores de todas as idades incorporem certos atributos físicos e simbólicos usualmente associados à juventude. Assim, “juventude pouco tem a ver com idade, mas se relaciona com modos de ser que melhor condizem às exigências de flexibilidade, disposição ao risco e a necessidade de ‘se virar’, em um contexto de ausência de garantias” (Pires; Perin, 2024, p. 131).
Se a juventude assume diferentes significados em contextos distintos, não são exatamente os mesmos jovens que realizam o trabalho de entregas plataformizadas em todos os países. No Brasil, esses trabalhadores são jovens das camadas populares, em geral moradores das periferias urbanas. Para eles, as plataformas surgem como oportunidade de renda e de menor dependência econômica da família, considerando-se que iniciaram a busca por emprego em um período marcado por recessões econômicas e crise política e sanitária.
Este artigo pretende analisar quem são os jovens que realizam o trabalho de entregas por meio de plataformas no país, buscando refletir sobre as trajetórias educacionais e laborais que os caracterizam. Buscaremos, ainda, situar esses trabalhadores em relação a entregadores em outros países da Europa Ocidental, destacando certas semelhanças e diferenças entre seus perfis1.
As informações tomadas como eixo de análise baseiam-se em duas pesquisas: a que integra o convênio internacional “Zonas cinzentas e território: a transformação do trabalho e a figura emergente do trabalhador de plataforma. Uma comparação França-Brasil – REGREYZ&CO” (Agence Nationale de la Recherche – ANR/ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp), recentemente concluída; e a pesquisa que corresponde à tese de doutorado de Oliveira (2024) – “‘Qual o valor da entrega?’: experiências de jovens trabalhadores e trabalhadoras em plataformas digitais de delivery”. Ambas se pautaram em entrevistas semiestruturadas, observação de situações de trabalho e conversas informais com entregadores na cidade de São Paulo. O diálogo entre seus resultados e a literatura especializada conduzirá nossos argumentos.
Na próxima seção, caracterizamos os jovens entregadores das plataformas, recuperando seus percursos educacionais e trajetórias de trabalho, evidenciando um patamar de formação que favorece a adesão aos aplicativos. Em seguida, analisamos os discursos desses trabalhadores sobre a “escolha” da atividade diante de outros trabalhos disponíveis, bem como suas projeções em relação ao trabalho e aos estudos. A última seção será dedicada a uma breve aproximação em relação à situação de trabalhadores plataformizados em entregas em países europeus, apreendendo similaridades, diferenças, transversalidades entre entregadores em diferentes contextos e suas possíveis significações.
Quem são os entregadores plataformizados? Trajetórias laborais e educacionais
Estimava-se que, no final de 2022, cerca de 2,1 milhões de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais em serviços ou comércio eletrônico no Brasil, com destaque para a região Sudeste. Desse total, 81,3% eram homens e 18,7%, mulheres, refletindo a predominância masculina nas plataformas de transporte de passageiros e entregas. Aproximadamente 39,5% utilizavam aplicativos de entrega de alimentos e outros produtos. Em termos etários, pessoas de 25 a 39 anos representavam 48,4% daqueles que trabalhavam por meio das plataformas digitais, ante 39,5% entre os não plataformizados (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2023).
Os dados indicam maior participação de trabalhadores jovens nas plataformas. Pesquisas sobre entregadores revelam uma faixa etária ainda mais baixa que a de outros trabalhadores de plataformas, especialmente motoristas de aplicativo. A juventude é ainda mais acentuada entre os cicloentregadores, que utilizam bicicletas como meio de trabalho.
Entre nossos interlocutores, a faixa etária se concentra entre os 18 e 28 anos, indicando expressiva presença de jovens adultos. Embora adolescentes menores de idade não possam atuar formalmente nas plataformas, sua presença não é incomum2. Nossos achados convergem com o levantamento da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) (2019), que aponta uma idade média de 24 anos entre os cicloentregadores (75% com até 27 anos), e com estudos internacionais que indicam concentração entre 18 e 30 anos (Kusk; Nowens, 2022). A elevada exigência física, a ausência de requisitos formais de experiência ou seleção e a relativa facilidade de acesso aos meios de trabalho (essencialmente a bicicleta – que pode ser alugada – e um celular) favorecem o ingresso de jovens, sobretudo das camadas populares (Abílio, 2020; Pires; Perin, 2024).
Os entregadores encontrados em campo reiteram o perfil majoritariamente masculino na atividade, com predominância de jovens negros, sobretudo moradores de bairros periféricos de São Paulo (Fioravanti, 2023). A despeito da pouca idade, muitos mantêm relações conjugais e/ou possuem filhos, contribuindo financeiramente com familiares.
Conforme dados do IBGE (2023), trabalhadores plataformizados concentram-se em níveis intermediários de escolaridade – ensino médio completo ou superior incompleto (61,3%, em comparação aos 43,1% entre não plataformizados). Nossos resultados, sem pretensão de representatividade estatística, apontam que a expressiva maioria dos interlocutores possui diploma do ensino médio. A articulação entre idade, escolarização e condições familiares nos territórios de origem é central para compreender as entregas como horizonte de trabalho para esses jovens.
No contexto brasileiro, marcado por desigualdades sociais, regionais e raciais, as trajetórias não são lineares: trabalho e educação se articulam na construção da experiência juvenil (Brenner; Carrano, 2023). A informalidade, o ingresso precoce de adolescentes e jovens no mercado de trabalho e a combinação entre trabalho e estudos marcam essas trajetórias, sobretudo nas classes populares (Corrochano; Abramo, 2016). A pesquisa de Perin (2024) desvela como as trajetórias e o cotidiano dos jovens entregadores são caracterizados por combinações e passagens diversas entre atividades formais, informais e ilegais/ilícitas, trânsitos característicos da “viração” que marca historicamente os percursos laborais das classes populares no Brasil (Telles, 2011; Rizek, 2006).
Trabalhadores jovens, questionados sobre suas experiências anteriores de trabalho, relatam atividades no setor de serviços – trabalho em supermercados, redes de fast-food, como garçons e ajudantes de cozinha, telemarketing, segurança, construção civil, office-boys – que não exigem elevada escolarização.
Mesmo muito jovens, esses trabalhadores já acumulam diversas experiências laborais. A maior parte das atividades são aquelas acessíveis a sua faixa etária e seu nível de escolarização. Seus relatos evidenciam experiências marcadas por baixas remunerações; benefícios nominais; rotinização; descumprimento de acordos e humilhações; subordinação extrema por parte dos patrões, encarregados ou gerentes; horários rígidos e escassas perspectivas de satisfação e crescimento. Esse quadro emoldura as percepções sobre o trabalho nas entregas.
Motivações e perspectivas: Percepções com base na experiência escolar e de trabalho
Os cicloentregadores plataformizados em São Paulo/SP relatam trabalhar, em geral, seis dias por semana, reservando um dia de “folga”, escolhido em razão de menor demanda de pedidos e/ou por ser o dia preferido para descansar, estar com a família, resolver questões pessoais. À época das entrevistas, estabeleciam metas diárias de R$ 100 a R$ 150, com jornadas de 10 a 12 horas3, concentradas nos horários das principais refeições. O iFood4 predominava como principal plataforma, seguido pela Rappi5. A presença na atividade variava de menos de um ano (muitos dos entrevistados) até quatro anos.
Essas informações convergem com os achados do IBGE (2023). Sem distinguir motoristas, entregadores e outros trabalhadores nas plataformas, o levantamento indica que, entre os menos escolarizados, o rendimento médio mensal real dos que trabalhavam por aplicativos superava em mais de 30% o dos que não faziam uso de ferramentas digitais. Destaca, ainda, que os plataformizados trabalhavam, em média, 6,5 horas a mais por semana do que os demais ocupados; apresentavam baixa cobertura previdenciária – mais de 60% sem proteção –; e 77,1% atuavam por conta própria.
A literatura destaca que o trabalho em plataformas é marcado por ausência de garantias e direitos, jornadas prolongadas, riscos e custos transferidos ao trabalhador, além do controle algorítmico, frequentemente pouco legível ou compreensível. A despeito desses fatores, a “autonomia” emerge como argumento recorrente entre plataformizados em diferentes contextos. Os relatos dos trabalhadores revelam a percepção de rendimentos semelhantes ou superiores aos de outras ocupações – embora não trabalhem menos –, associada a uma maior liberdade e um menor controle direto ou ostensivo:
Comecei no começo do ano. Saí no final do ano passado de uma empresa. Um amigo comentou que estava fazendo entrega, eu falei: “Acho que eu vou também”. Tem benefícios, tem malefícios. Acho que o maior benefício é trabalhar para si próprio. O valor de você trabalhar sem ter um patrão ou sem algo estabelecido como regra completa; você trabalha o tempo que der, se você não está bem, você não precisa trabalhar [...] faz a renda que você precisar, dependendo do seu esforço. É um trabalho difícil, mais que a média, mas é um trabalho mais gratificante que a média. [...] tentar ganhar a minha vida na bike, porque é um trabalho que você só precisa exercer a função que você foi supostamente contratado para ter. Você não é contratado, mas tem a sua própria responsabilidade lá [...]. O fato de você trabalhar por si só, você só fazer o que você está sendo pago para fazer e a liberdade de horário são os pontos-chaves desse trabalho
(Mateus, 23 anos).
Esse entregador destaca o benefício de “trabalhar para si”, valorizando a ausência de um “patrão” ou normas rígidas no trabalho. Como vários interlocutores, aponta certa flexibilidade em relação aos dias e horários; e se nem sempre a remuneração é percebida como justa, é vista como proporcional ao esforço realizado. Ele, ainda, classifica a atividade como “mais gratificante”, diante dos baixos salários, desvios de função e de outras formas de exploração vivenciadas nas alternativas de trabalho disponíveis para ele.
Esses elementos também aparecem no relato a seguir:
[O trabalho nas entregas] é bem melhor, porque não tem patrão abusivo. Na maioria dos empregos em que passei, sempre teve acúmulo de função, salário menor do que aquilo que você faz. Vamos supor: você trabalha 12 por 36. Na maioria das vezes, os patrões querem
que você seja obrigado a cumprir folga ou falta de alguém, sendo que você está no seu direito de não ir trabalhar. Mas aí é aquele porém: se você não quer, outro vai querer. [...] Principalmente quem trabalha de vigilante, em porta de hospital ou supermercado, vai entender isso que estou falando. Tem os seus riscos [trabalhar de entrega], mas vale a pena. Ainda é melhor. É justo. Vamos supor, você trabalha 8 horas por dia, no final da semana você recebe R$ 500. Você vai receber justamente o quanto você trabalhar
(Bruno, 23 anos).
A menção a “patrões abusivos” em trabalhos anteriores indica um diferencial positivo das entregas e revela ressentimentos em relação aos excessos, arbitrariedades e humilhações vivenciados nas trajetórias laborais. Os relatos são fartos em considerações como “não tem patrão para ficar te enchendo o saco” ou “você faz seu corre, seu trampo, ninguém fica pressionando você, controlando”. Nos depoimentos, a ausência de supervisão direta – sintetizada em expressões como “quando você sente a liberdade, você não volta, você está livre de encheção de saco” – aparece como contraponto às ocupações formais, associadas a ordens rígidas, controle de horários e pouca compreensão diante de adoecimentos. Um entrevistado reconhece que a renda pode variar, mas conclui dizendo: “pelo menos, tenho paz”.
Assim, “autonomia” não significa um horizonte de “emancipação” dos controles e da exploração do trabalho no quadro da subordinação capitalista, afastando-se dos sentidos conferidos a essa noção pelas ciências humanas. Frequentemente, os interlocutores mobilizam imagens associadas à “escravidão digital”, mas, ainda assim, afirmam maior autonomia. Diante dessa afirmação persistente, é preciso caracterizar essa autonomia como categoria êmica e, desse modo, pensar o lugar em que a relação entre os fenômenos empíricos e suas nomeações pode ser problematizada e politizada (Rancière, 1996; Benjamin, 1986). Buscamos, assim, levar em conta as categorias utilizadas pelos entregadores, que pressupõem um regime de verdade, um horizonte de significações para além das categorias e dos conceitos clássicos de autonomia no mundo do trabalho, historicamente associada às perspectivas pautadas na contraposição ao controle patronal sobre o trabalho.
Também não se trata da negação da existência de controles – mesmo porque os desdobramentos e o alcance do controle algorítmico ainda não puderam ser avaliados em todas as suas consequências. Contudo, quando o trabalhador afirma que “pelo menos, tem paz”, isso soa menos como liberdade plena e mais como um desabafo revelador das condições que enfrenta cotidianamente nas atividades de trabalho assalariado, com suas limitações de renda e práticas normalizadas de controle, sobretudo para jovens, com ensino médio, de classes populares e territórios periféricos.
Quanto às perspectivas de futuro, a maioria dos entregadores não vislumbra na escolarização uma via de mobilidade social ascendente, e poucos projetam o ensino superior ou trajetórias profissionais de médio e longo prazo. Tendem a permanecer nas entregas enquanto a remuneração for considerada satisfatória ou até surgir “algo melhor”, sendo comum a expectativa de migrar para a moto ou o automóvel nas plataformas. As perspectivas são enunciadas, sobretudo, na chave do empreendedorismo – negócios virtuais em alimentação, vestuário ou comércio digital em geral. Outras estratégias para “ganhar a vida” passam por investimentos em bolsa, em bitcoins – aderindo aos discursos de coaches ou influencers financeiros – e, mais recentemente, em apostas online.
Elementos comuns e traços distintivos: Os entregadores nos contextos Norte e Sul
Se a atividade de entregas por meio de plataformas é usualmente realizada por indivíduos jovens e do gênero masculino, em outros contextos, a condição de imigrante também se destaca. Imigrantes, sobretudo indocumentados – em situação irregular no país de destino – e em condição de vulnerabilidade, são atraídos pela possibilidade de renda em uma ocupação com baixos requisitos linguísticos e menores barreiras de entrada.
Uma pesquisa com 666 entregadores6 em Paris e Courbevoie mostrou predominância masculina (99%), idade média de 28 anos e apenas 9% com nacionalidade francesa – proporção possivelmente superestimada considerando uma taxa de recusa de 31,7% nas respostas, associada a situação irregular no país, barreiras linguísticas e presença de menores. A maioria dos entregadores (81%) era originária da África, sendo 44,9% do Magrebe e 35,8% da África Subsaariana (Dablanc et al., 2022)7.
Na França, o cadastro nas plataformas exige maioridade, autorização para trabalhar no território francês e registro como autônomo/microempresário. Como forma de contornar essas condições, alguns recorrem ao empréstimo ou à locação irregular de contas, viabilizando o acesso de indocumentados e menores8. Entre os entrevistados, 27,5% possuíam ensino superior; 19,5%, o baccalauréat (diploma do ensino médio); e 33,2%, nenhum diploma9 – escolaridade inferior à média parisiense. Ainda, 17,6% eram estudantes, condição em que predomina a nacionalidade francesa (Dablanc et al., 2022). Outros estudos (Akl-Ruelle et al., 2021; Avis de L’anses, 2025) vêm constatando uma mudança no perfil dos entregadores: de estudantes em busca de um trabalho temporário e em tempo parcial para trabalhadores em tempo integral e por períodos mais prolongados – tendência também observada na Itália (Chesta; Zamponi; Caciagli, 2019). Em suma, “quanto mais a precarização da profissão aumenta [...], mais o trabalho de entregador é ocupado por ‘profissionais’ que não têm outras alternativas” (Akl-Ruelle et al., 2021, p. 24, tradução nossa).
Akl-Ruelle et al. (2021) desenvolveram uma tipologia dos entregadores, na qual o grupo considerado mais precário foi chamado de forçats – “degredados” ou “miseráveis”. Em grande número, trabalham de forma integral (mais de 40 horas semanais), frequentemente 7 dias por semana nas plataformas. A maior parte dos trabalhadores menos escolarizados pertence a este grupo, quase todos são de nacionalidade estrangeira e muitos estão em situação irregular no país.
Para Mendonça, Woodcock e Grohmann (2022), a imigração constitui um eixo estruturante das entregas plataformizadas no Reino Unido e no Norte Global, sustentando um modelo de negócio das empresas de plataforma que tem, como um de seus pilares, essa força de trabalho mais disponível à aceitação de condições laborais e contratos precários (em geral, o status de trabalhador autônomo). Como na França, os imigrantes são a maioria dos trabalhadores de entrega de alimentos na região de Londres. Embora faltem dados oficiais, os pesquisadores observam que os brasileiros constituem o maior grupo no Reino Unido, onde o suporte das plataformas inclui inglês e português. Muitos desses trabalhadores deixam empregos em serviços – limpeza, hotelaria ou restaurantes – atraídos por rendimentos potencialmente maiores e pela facilidade e agilidade de inserção, mesmo sem documentação. A atividade se mostrou conveniente para migrantes que percebem vantagens na flexibilidade, conciliando o trabalho com os percalços da vida de recém-chegados. A despeito dessas “vantagens”, relatam preconceito e tratamento discriminatório, especialmente por parte de restaurantes.
Reportagens desde 2019 indicavam predominância de brasileiros nas entregas em Portugal10, espaço progressivamente compartilhado com outros migrantes, sobretudo paquistaneses, indianos e venezuelanos (Costa; Soeiro; Miranda Filho, 2022). A inexistência de autorização de residência é contornada, como em outros países, com o aluguel de contas. Os entregadores – ou estafetas – brasileiros entrevistados por Dambrós (2024) também afirmavam preferir o trabalho nas entregas a outros empregos disponíveis para os imigrantes, como na construção civil ou nos restaurantes, sobretudo em razão da remuneração e das condições de trabalho percebidas por eles.
Se os atributos relativos ao gênero (masculino) e à faixa etária (jovens) são transversais aos perfis dos entregadores em diferentes países, no Brasil, são os jovens nacionais, de famílias pobres e periféricas, que realizam a atividade. Em Paris, por exemplo, trabalhadores de nacionalidade francesa, além de serem minoritários em relação aos estrangeiros (9%), estão mais presentes no grupo dos “estudantes”: 17,1% de um total de 17,6% dos entregadores estudantes possuem nacionalidade francesa, em comparação a apenas 7,3% entre os demais trabalhadores, sugerindo tratar-se de uma inserção temporária para financiamento dos estudos. A nacionalidade francesa também predomina em arranjos menos precários, como cooperativas ou contratados por empresas (Akl-Ruelle et al., 2021).
Os entregadores brasileiros no contexto de cidades como São Paulo, notadamente os cicloentregadores, são jovens que concluíram o ensino médio, em grande parte negros e moradores de periferias. É este o grupo que se equipara aos jovens imigrantes indocumentados nos países europeus: ambos estão em situação de vulnerabilidade, com limitadas perspectivas de alcançar uma condição de trabalho mais estável e segura.
O ensino médio constitui uma encruzilhada estrutural da educação básica no Brasil. Embora a juventude nascida entre o fim dos anos 1990 e a primeira década dos anos 2000 seja a mais escolarizada da história do país, beneficiada pela ampliação do acesso ao ensino médio e superior (Lima; Campos, 2020), a conclusão dessa etapa permanece desigual. Persistem clivagens de gênero e raça, relevantes para compreender a relação entre educação e trabalho entre os jovens cicloentregadores.
A maior parte dos jovens pesquisados concluiu o ensino médio, mas não seguiu os estudos em nível superior. Apesar da expansão recente, o acesso à universidade permanece limitado entre jovens dos setores populares, que, em muitos casos, precisam frequentar cursos noturnos e arcar com seus custos (Franzoi et al., 2019). Observa-se um contingente de jovens que não ingressa nem vislumbra a continuidade dos estudos em nível superior, tampouco identificam oportunidades de formação em outras instituições, encontrando-se, portanto, fortemente pressionado pela urgência em atender às necessidades materiais mais imediatas (Corrochano, 2013) – o que identificamos nos relatos dos entregadores. Ademais, outros caminhos laborais, na chave do empreendedorismo, sobretudo, têm sido socialmente percebidos e estimulados como alternativas mais promissoras de “ganhar a vida”.
Atributos de idade, gênero e raça influenciam permanências e provisoriedades na atividade. Jovens brancos, sobretudo mulheres, tendem a atuar nas plataformas de forma transitória, como meio para estudar ou migrar para outras ocupações, enquanto rapazes negros, especialmente com menor escolaridade, recorrem aos aplicativos de modo mais estável para gerar renda (Oliveira, 2024). As plataformas também exploram, de forma precária, a moratória vital11 da juventude negra masculina e atributos simbólicos como porte e força física. Embora elas apresentem menor seletividade racial na admissão, em comparação ao mercado formal de serviços – ampliando, supostamente, o acesso de jovens negros que enfrentam barreiras educacionais e laborais –, persistem desigualdades e novas formas de discriminação, desde vieses algorítmicos (Silva, 2022) até episódios de racismo por parte de clientes e restaurantes, recorrentes nos relatos de campo e em casos amplamente noticiados12.
Quanto à dimensão do território, ao mapear os deslocamentos diários de entregadores que atuam em centralidades de alta demanda em São Paulo – como a região da Avenida Paulista, Pinheiros, Moema e Itaim Bibi –, Fioravanti (2023) constatou que eles residem, majoritariamente, nas periferias da Zona Leste (Guaianases, Cidade Tiradentes e Jardim Helena), Zona Sul (Capão Redondo, Grajaú, Jardim Ângela), além do distrito de Raposo Tavares (Zona Oeste) e em municípios da Região Metropolitana. O acesso às áreas de entrega ocorre majoritariamente por transporte público, em longos percursos diários até regiões com maior concentração de restaurantes, demanda por delivery e pontos de bicicletas compartilhadas13.
Num cenário de ampliação da educação, persistem barreiras à continuidade dos estudos e ao acesso a empregos com direitos e vínculos não abusivos ou humilhantes. Nesse quadro, as plataformas surgem como alternativa de renda e relativa autonomia. A precariedade da atividade, atravessada e constituída pelas especificidades da sociedade brasileira, produz um “teto”, uma barreira que se revela na apreensão e compreensão das trajetórias e de seus sentidos que conduzem uma parcela da juventude empobrecida, periférica e negra ao engajamento nas entregas por plataformas. Intersecções entre idade, gênero, raça e condições de vida plasmadas nas periferias conformam um perfil, um conjunto mais ou menos fechado de possibilidades, oferecendo um pressuposto indispensável – aqui e no Norte Global – para as formas de operação dessas plataformas, que permitem formular e experimentar sentidos e representações próprios do que esses trabalhadores identificam como liberdade e autonomia, no contraponto às formas clássicas de assalariamento, subordinação e despotismo que revestiram classicamente as relações de trabalho no Brasil.
Considerações finais
As informações de pesquisa, além das aproximações e dos elementos transversais entre contextos historicamente diversos – apenas tangenciados neste texto – revelam elementos relevantes de análise. O estatuto atribuído à juventude varia conforme os contextos nacionais, e a desnaturalização da condição sociodemográfica, bem como as perspectivas de carreira e de futuro, são fortemente ancoradas nos contextos sócio-históricos e suas diferenças no Norte e Sul globais. Os elementos que caracterizam os diferentes contextos de jovens entregadores indicam que condições precárias de vida somadas a expectativas truncadas de escolarização conformam pressupostos importantes para a operação das empresas-plataformas, no quadro que se constitui a partir de corporações mundiais como Uber e iFood.
Ademais, ao contrário do que parte dos estudos sugere, não há, no horizonte de representações desses trabalhadores, um universo passível de ser pensado apenas como inversão, falseamento ideológico ou alienação diante de suas próprias condições de vida e de trabalho. Os jovens conhecem suas condições, limitações e seus benefícios, sobretudo diante das práticas despóticas que caracterizaram as relações de assalariamento no Brasil. Nesse cenário, as fronteiras entre formalidade e informalidade, subordinação e autonomia, mostram-se borradas, sobretudo quando e se a subordinação formal se caracteriza como humilhação publicizada, o que parece estar presente nas falas sobre os postos de trabalho anteriores ao engajamento nas plataformas. A questão das políticas e do acesso à educação – raramente lembrada nas análises do trabalho plataformizado – deve compor o quadro de alternativas (ou de sua ausência) que sustenta representações e expectativas dessa parcela crescente da população brasileira.
Nesse aspecto, é importante ressaltar que não deixamos de reconhecer todas as dimensões da precariedade e dos riscos constitutivos do trabalho por meio de plataformas. Pelo contrário, considerando que esse tema já foi amplamente discutido pela literatura, buscamos analisar as razões pelas quais, a despeito de tantos aspectos negativos e das pertinentes críticas, essa forma de trabalho é atrativa e, até certo ponto, valorizada por determinados segmentos da juventude trabalhadora, que a veem como um ganho de “liberdade” e “autonomia”.
Por fim, as intersecções entre idade, gênero e raça são fundamentais na compreensão das trajetórias escolares e de trabalho. Ingressar em uma ocupação que permite algum controle sobre os próprios horários, sem estar exposto à subordinação direta de hierarquias institucionais e pessoais, surge como possibilidade relevante para esse segmento da juventude, que tende a ser confinada em situações de trabalho marcadas por opressão institucional ou não. O argumento da maior autonomia no trabalho por plataformas atravessa a percepção dos trabalhadores em pesquisas realizadas com entregadores em diferentes países.
Se a gestão algorítmica implica elevados níveis de controle – reconhecidos pelos trabalhadores –, eles valorizam positivamente suas próprias concepções de liberdade para estabelecer horários de trabalho e de vida, conciliando suas extensas jornadas com obrigações e compromissos pessoais. Variações do contexto internacional apontam que, no caso brasileiro, as reservas de trabalho disponíveis para o modus operandi dessas empresas concentram-se na população local, sobretudo pobre, negra, periférica, repetindo os padrões do que pôde ser reconhecido como subcidadania – como traz Lúcio Kowarick em entrevista a Trindade e Ferro (2011) –, elemento que segue sendo estruturante das relações sociais e de trabalho no Brasil.
Agradecimentos
Não se aplica.
Notas
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1
A proposta não é realizar uma comparação extensiva, mas apontar certas transversalidades em diferentes contextos, considerando os propósitos e as limitações do presente artigo.
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2
Utilizam contas emprestadas ou alugadas, prática irregular.
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3
Em 2023, o valor mínimo pago pela principal plataforma no Brasil era de R$ 6, com eventuais bonificações.
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4
iFood: empresa brasileira, líder na América Latina, atuante na entrega, sobretudo de refeições, por meio de aplicativo. Foi comprada pelo capital holandês, associando-se a uma rede de outras empresas – entre as quais, bancos, empresas terceirizadas e empresas de aluguel de bicicletas.
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5
Rappi: empresa atuante no segmento de delivery por meio de plataforma, com sede na Colômbia.
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6
Entregas de bicicleta (60%) ou veículo motorizado de duas rodas (37%) (Dablanc et al., 2022).
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7
Cabe notar, aqui, que esses trabalhadores indocumentados não integram propriamente o mercado de trabalho nos países europeus. Esse traço aponta para os limites borrados do que se entende por formalidade e informalidade em sociedades salariais em transformação e naquelas em que o assalariamento jamais se completou inteiramente, conformando os trânsitos permanentes que constituem o mercado de trabalho no Brasil (Cardoso, 2019).
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8
Essa prática também é usual entre os entregadores no Brasil, visando contornar punições como bloqueios ou exclusão das plataformas. Essa situação, infringindo as normas das empresas, pode ser apontada como elemento presente tanto nos países centrais como nos países periféricos.
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9
Nível de escolaridade inferior ao ensino médio completo.
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10
Exemplo disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/04/brasileiros-dominam-mercado-de-motoboys-em-portugal.shtml. Acesso em: 5 maio 2025.
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11
Entende-se como moratória vital a postergação das responsabilidades e obrigações adultas, permitindo que os jovens se dediquem a atividades voltadas à renda ou ao desenvolvimento pessoal.
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12
Exemplo disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/08/07/entregador-registra-boletim-de-ocorrencia-apos-sofrer-ofensas-racistas-em-condominio-de-valinhos-video.ghtml. Acesso em: 5 maio 2025.
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13
Mudanças no uso de bicicletas, baterias e locais de pouso foram sendo observadas ao longo de toda a pesquisa.
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Declaração de uso de ferramentas de inteligência artificial
Utilização de ferramentas de IA apenas para tradução de título, resumo e palavras-chave e para revisões pontuais de redação e correção linguística. A concepção do texto, a análise e a redação do conteúdo são integralmente de autoria dos autores.
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Financiamento
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São PauloProcesso n.º 2021/04086-3Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível SuperiorProcesso n.º 88887.821625/2023-00.
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Dossiê organizado por:
Maria Carla Corrochano https://orcid.org/0000-0001-8030-6461
Disponibilidade de dados de pesquisa
Não se aplica.
Referências
- ABDELNOUR, S.; MÉDA, D. Les Nouveaux travailleurs des applis Paris: PUF, 2019.
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Editoras associadas:
Débora Dainez https://orcid.org/0000-0002-8223-098X e Ana Luiza Bustamante Smolka https://orcid.org/0000-0002-2064-3391
