Open-access Sofrimento psíquico e fatores associados em estudantes universitários

Psychic suffering and associated factors among university students

Resumo

Introdução:  Nas universidades, o sofrimento psíquico tornou-se objeto de preocupação no âmbito da assistência estudantil, exigindo a estimativa da sua dimensão e identificação de fatores potencialmente relacionados, para a construção de intervenções adequadas.

Objetivo:  Identificar a prevalência do sofrimento psíquico e suas correlações entre estudantes de graduação da área de ciências exatas de uma universidade pública brasileira.

Métodos:  Aplicou-se questionário composto por um inventário sociodemográfico e pelo Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), que rastreia a presença de Transtorno Mental Comum (TMC).

Resultados:  Os resultados apontaram o rastreio positivo para TMC de 72,9% e correlação positiva com renda familiar per capita, variação da renda do período anterior à pandemia da covid-19 e o momento da pesquisa, ser mulher cisgênero, orientação sexual LGBTQIA+, relatar dificuldade de permanência na Universidade, estar em acompanhamento com profissional de saúde mental e uso de medicação psiquiátrica. Na análise ajustada houve correlação positiva entre TMC e ser mulher cisgênero, relatar dificuldade de permanência na Universidade e estar em acompanhamento com profissional de saúde mental.

Conclusão:  A prevalência de TMC foi superior a de outros estudos com populações semelhantes, apontando para a necessidade de construção de políticas de atenção à saúde mental dos estudantes, bem como políticas que atuem sobre as determinações que se articulam ao sofrimento psíquico.

Palavras-chave:
saúde mental; transtornos mentais; universidades; estudantes; fatores socioeconômicos

Abstract

Introduction:  In universities, psychological distress has become a significant concern for Student Assistance services, necessitating an estimation of its prevalence and the identification of related factors to inform the development of appropriate interventions.

Objective:  To identify the prevalence of psychic suffering and its correlations among undergraduate students of exact mathematical sciences of a Brazilian public university.

Methods:  Data collection was carried out through a socio-demographic inventory and the Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), which signals the presence of psychic suffering by screening for common mental disorders (CMDs).

Results:  The results showed a general prevalence of CMDs of 72.9%. There was a positive correlation with family per capita income, income variation, being a cisgender woman, LGBTQIA+ sexual orientation, reporting difficulty in staying at the university, being followed up by a mental health professional and using psychiatric medications. In the adjusted analysis, there was a positive correlation for CMDs and being a cisgender woman, reporting difficulties in staying at the university and being monitored by a mental health professional.

Conclusion:  The prevalence of CMD was higher than that of other studies with similar populations, pointing to the need to build policies for students’ mental health, as well as policies that act on the determinations that are linked to psychic suffering.

Keywords:
mental health; mental disorders; universities; students; socioeconomic factors

INTRODUÇÃO

No ambiente universitário o sofrimento psíquico tornou-se objeto de preocupação no âmbito da Assistência Estudantil, exigindo a estimativa da sua dimensão e identificação de fatores potencialmente relacionados para que seja possível uma intervenção adequada1. Em suas causas há questões individuais e singulares, mas é necessário também pensar em outras dimensões relacionadas a esse fenômeno no ambiente universitário, que envolvem as dimensões socioestruturais, coletivas e institucionais, que se relacionam e se determinam mutuamente. Não obstante, é comum a subvalorização do segundo componente ao ponto de privilegiarem-se abordagens farmacológicas em relação a intervenções socioambientais2.

Na literatura, é frequente nos estudos que pretendem identificar a prevalência de sofrimento psíquico o uso de escalas de investigação que identificam Transtornos Mentais Comuns (TMC), que consistem em estados mistos de depressão e ansiedade caracterizados pela presença de sintomas como insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas — e que podem ser investigados por diferentes instrumentos de rastreamento3.

Estudos apontam que a prevalência de TMC varia segundo a população estudada e que, em geral, esses quadros são mais prevalentes em populações de jovens universitários do que em adultos jovens não universitários e público geral3,4. É possível identificar associações entre sofrimento psíquico e variáveis para avaliações epidemiológicas nesse campo, como gênero, cor/raça/etnia, classe social, entre outras, sendo as pessoas de sexo feminino, com maior idade e baixa renda mais associadas a sofrimento psíquico entre universitários3. Parte significativa dessas investigações foi realizada com estudantes da área da saúde, sendo necessárias mais pesquisas que abranjam universitários em outras áreas do conhecimento, como nas ciências exatas.

Considerando, então, que o sofrimento psíquico é tema sensível para a comunidade acadêmica, demandando mais pesquisas com estudantes de outras áreas do conhecimento bem como a importância de se conhecer e discutir a que ele se associa, de maneira crítica, este estudo teve por objetivo identificar a prevalência do sofrimento psíquico e suas associações entre estudantes de graduação de cursos da área de ciências exatas de uma universidade pública brasileira em 2020.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal, realizado em uma universidade pública brasileira em 2020. Dos 1.482 estudantes, 310 compuseram a amostra não probabilística deste estudo transversal. Foram adotados intervalo de confiança de 95% (IC95%), prevalência de 50% do evento e margem de erro de 5%.

O link com o formulário para participação na pesquisa foi disponibilizado entre 14 de setembro e 15 de novembro de 2020. A divulgação da pesquisa foi feita em datas distintas, via listas de e-mails dos estudantes e por divulgação em redes sociais as quais os estudantes fazem parte. Foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ao qual os sujeitos participantes registraram anuência para somente depois terem acesso ao questionário.

Os participantes do estudo responderam um questionário autoaplicável, composto por um inventário sociodemográfico e com questões de saúde elaborado pelas pesquisadoras e pelo instrumental Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). O SRQ-20 foi desenvolvido na década de 1980 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), concebido, prioritariamente, para uso em atenção primária de saúde, podendo ser utilizado em vários ambientes e por profissionais de todas as especialidades; posteriormente, foi validado no Brasil5. O instrumento não tem o objetivo de produzir diagnóstico, e sim indicar a suspeita de transtornos do humor, de ansiedade e de somatização. Ele é composto por 20 questões com respostas sim/não, referentes aos últimos 30 dias do momento do preenchimento, sobre sintomas psíquicos e somáticos. Estudo mais recente no contexto brasileiro avaliou o instrumento e concluiu que o ponto de corte de melhor desempenho foi de 6/7 para a população investigada, apresentando índice de sensibilidade de 68% e de especificidade de 70,7%, e revelando desempenho razoável com área sob a curva de 0,7896. Adotou-se esse ponto de corte nesta pesquisa, considerando sete respostas positivas ou mais para indicação de suspeição de TMC, conforme tendência também de outros estudos brasileiros7-10.

Variáveis sociodemográficas e informações sobre tratamento de saúde mental foram correlacionadas com a suspeita de presença ou de ausência de TMC.

Todos os dados foram tabulados em planilha eletrônica utilizando o programa Excel®, versão 2011, e exportados para os programas RStudio (R CORE TEAM, 2020) e Stata, versão 14 (College Station, Texas, USA), para realização das análises.

Os achados foram descritos mediante tabulações simples e cruzadas, às quais foram aplicadas estatísticas descritivas e testes de correlação simples de acordo com a natureza da variável e com seu padrão de distribuição identificado por meio de testes paramétricos. Uma vez identificado que nenhuma variável teve distribuição Gaussiana, as correlações simples foram feitas pelos testes de Mann-Whitney e Spearman. Nos casos em que poderia haver influência de uma variável sobre o efeito de outras, aplicaram-se análises multivariadas regressivas. Adotou-se como nível de significância estatística os valores p menores que 5% (intervalos de confiança acima ou abaixo de 1, contemplando mais de 95% da amostra analisada).

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) (CAAE 25906719.0.0000.5504).

RESULTADOS

A idade dos estudantes participantes variou entre 17 e 46 anos, com média de 21,8 anos e moda de 19 anos. Em síntese, pôde-se observar que a maior parte dos sujeitos era composta por homens cisgênero (69%), com orientação sexual heterossexual (64,2%), que se autodeclararam de raça/etnia branca (68,7%), nasceram em alguma cidade do estado de São Paulo (74,2%) e residiam em cidades até 300 km da Universidade (70,7%).

Em relação ao sofrimento psíquico, o rastreio positivo foi de 72,9% para TMC (pontuação≥7), e 20,3% dos participantes responderam sim na questão tem tido ideia de acabar com a vida nos últimos 30 dias. Foi encontrada maior prevalência de TMC nos grupos etários mais jovens (17–18 e 19–23 anos), nos quais, respectivamente, 80,5 e 81,6% de pessoas tiveram rastreio para TMC, nas mulheres cisgênero (86,1%), nas pessoas de orientação sexual LGBTQIA+ (81,9%), nas que não tiveram pai como uma pessoa de referência (90%), entre pessoas naturais de outros países (100%), com renda familiar de até 1 salário mínimo (81,5%), que relataram dificuldade de permanência na Universidade (83,9%), em acompanhamento com profissional de saúde mental (83,9%) e fazendo uso de medicação psiquiátrica (88,5%).

A Tabela 1 apresenta a proporção encontrada para o desfecho de acordo com as características estudadas. Nela, ainda é possível observar a OR bruta com o respectivo intervalo de confiança.

Tabela 1
Distribuição das características associadas com presença ou não de TMC, segundo o SRQ-20, de estudantes de graduação (n=310) de uma universidade pública, Brasil, 2020.

Na análise bruta, 5 das 15 variáveis incluídas no modelo apresentaram correlação positiva com o desfecho: ser mulher cisgênero, de orientação sexual LGBTQIA+, ter dificuldade de permanência na Universidade, estar em acompanhamento com profissional de saúde mental no momento da pesquisa e no passado e fazendo uso de medicação psiquiátrica foram variáveis que se mostraram associadas ao rastreio positivo de TCM.

O modelo final de regressão, apresentado na Tabela 2, utilizou as variáveis categóricas que apresentaram significância estatística na primeira análise, além das variáveis raça/etnia e renda, por serem marcadores sociais importantes da estrutura social brasileira e por se mostrarem significativas em outros estudos11-14. Encontrou-se correlação positiva entre TMC e ser mulher cisgênero, relatar dificuldade de permanência na Universidade e estar em acompanhamento com profissional de saúde mental.

Tabela 2
Análise de regressão logística no modelo ajustado para verificar correlação entre as covariáveis e a classificação no Self-Reporting Questionnaire de estudantes de graduação (n=310) uma universidade pública, Brasil, 2020.

Com relação à renda familiar per capita nos últimos 30 dias (anteriores à participação do estudante na pesquisa), foi encontrada, pela correlação de postos de Spearman (p=0,02025, rho=-0,1318222), correlação negativa estatisticamente significativa entre a pontuação total do SRQ-20 dos estudantes e a renda familiar per capita nos últimos 30 dias. Isso significa que quanto menor a renda, maiores os valores encontrados na pontuação da SRQ-20 (Figura 1).

Figura 1
Correlação entre a pontuação do SRQ-20 e a renda familiar per capita nos últimos 30 dias.

Também se verificou se havia correlação positiva entre a variação da renda no período prépandemia e no momento da pesquisa com os valores encontrados do SRQ-20 dos estudantes. A Figura 2 apresenta os resultados da correlação de postos de Spearman (p=0,001098, rho=-0,1845386), que indicam uma correlação negativa, estatisticamente significativa, entre essas duas variáveis. Isso significa que, quanto mais variou negativamente a renda familiar (ou seja, quanto mais as pessoas desceram nas faixas salariais), maiores foram os valores da SRQ-20, sendo o inverso verdadeiro (quanto mais as pessoas subiram de faixa salarial, menores eram os valores da SRQ-20).

Figura 2
Correlação entre a pontuação do SRQ-20 e a variação da renda familiar entre o período pré-pandemia e o momento da pesquisa.

DISCUSSÃO

A prevalência identificada de 72,9% na suspeição de TMC entre estudantes de graduação é expressiva e maior do que a identificada em outros estudos com populações universitárias que utilizaram o mesmo instrumento de pesquisa, cuja variação em estudos internacionais ficou entre 22,3 e 40,9%15,16, e entre 37,1 e 50,9% em pesquisas com universitários brasileiros11,14,17-21. Apenas uma pesquisa realizada com estudantes de engenharia de uma universidade da região Nordeste do Brasil no final de 2019 e início de 2020 encontrou uma prevalência maior na suspeição de TMC, com valor de 73,922. A maioria dessas pesquisas possui como população estudantes de cursos da saúde, em especial Medicina, sendo menos frequentes os estudos em cursos de diferentes áreas7,15,21,22.

Sabe-se que a pandemia da covid-19 atravessa a conjuntura temporal desta investigação, com consequências econômicas, psicossociais e impactos importantes à saúde mental das pessoas, o que vem sendo amplamente debatido e investigado8. Pesquisas cuja coleta de dados foi também realizada neste período encontraram rastreio positivo para TMC entre 62,8 e 83%9,10. Os impactos nos processos de ensino-aprendizagem, bem como a diminuição do contato social e a incerteza sobre diversos aspectos de suas vidas podem ter contribuído para os resultados expressivos desses estudos.

É significativa e preocupante, também, a prevalência de respostas positivas na questão "tem tido ideia de acabar com a vida nos últimos 30 dias" (20,3% no presente estudo). Utilizando outros instrumentos de rastreio, encontra-se em populações jovens a prevalência de ideação suicida de 6,3%23. Acrescenta-se a isso o fato de que a ideação ao suicídio é uma das possíveis manifestações de sofrimento psíquico3.

Pode-se observar que existe uma maior proporção de mulheres cisgênero com TMC. Além disso, há uma proporção maior de rastreio positivo de TMC entre as pessoas autoidentificadas como não binarias ou agênero e aquelas que não informaram sua identidade de gênero quando comparadas aos homens e mulheres cisgênero.

Ainda que os estudos avaliem a variável sexo (feminino e masculino), e não identidade de gênero em toda a sua diversidade, é relevante que, entre populações universitárias, o sexo feminino também está associado ao rastreio positivo de TMC7,13,15-17,21,24-26. Em uma revisão sistemática, ser do sexo feminino foi a associação ao rastreio positivo de TMC mais frequentemente encontrada3.

Nesse ponto é importante discutir as particularidades desses dados no campo das ciências exatas. As mulheres cisgênero representaram 25,5% dos participantes, quantidade pouco superior ao número identificado como mulheres nesta população, que era de 17,9%, no segundo semestre de 2020. Esta é uma realidade atual comum aos cursos de ciências exatas. Contudo, é importante salientar que entre as décadas de 1970 e 1980 houve uma grande inversão na distribuição de gêneros da área de tecnologia no mundo, e entre as possíveis explicações para essa alteração estão propagandas midiáticas; a educação escolar que reproduz uma visão de que homens são melhores na área de exatas; e a redução, ao longo dos anos, da representatividade de mulheres nesta área25. Dessa forma, compreender a atual diferença na distribuição de gênero implica na compreensão de que as escolhas educacionais são mediadas também pelas crenças de diferenças sexuais que permeiam a sociedade. Mulheres e homens costumam escolher, sistematicamente, cursos de ensino superior diferentes, e esses cursos levam a carreiras com resultados muito distintos no mercado de trabalho, sendo que os cursos majoritariamente femininos, em média, levam a carreiras com menor retorno salarial e de status26. Todos esses aspectos podem ser determinantes ao ingresso, mas, também, durante o percurso acadêmico.

Outra correlação positiva foi entre orientação sexual e a suspeição de TMC. Pessoas LGBTQIA+ representam 30,3% do total de estudantes neste estudo, e a prevalência de TMC foi de 81,9%. Chama atenção também a distribuição da suspeita de TMC entre os que não autoidentificaram a orientação sexual (94,1%). A saúde mental da população LGBTQIA+ é um assunto com múltiplas especificidades, devido a diversidade desse grupo e suas relações com as também possíveis identidades de gênero.

Evidências mostram que a população LGBT apresenta maior risco para transtornos mentais14,27, entre eles a ansiedade, quando comparada aos heterossexuais, destacando-se que a maioria dos jovens de orientação sexual não heteronormativa refere sentimento de insegurança, tristeza e desesperança, além de maiores chances de ideação suicida — que são ainda maiores quando se trata de jovens transexuais. As condições mais associadas com impacto sobre a saúde mental foram aceitação familiar, estigma social e bullying, além de dificuldades geradas com a intimidação e o preconceito aos jovens cujo comportamento não se encaixa nos padrões sociais de conformidade de gênero, que valorizam a dicotomia das figuras paralelas feminina e masculina, no contexto da heterossexualidade. Assim, compreende-se que uma estrutura social discriminatória pode atuar como um importante agravo em relação ao processo saúde/doença28.

A associação entre renda e TMC é frequentemente estudada na literatura nacional e internacional, e há achados consistentes que a colocam como um importante determinante para o sofrimento psíquico13,14. Em pesquisa com estudantes da Universidade de Portugal, constatou-se que quanto maior o nível socioeconômico maiores eram os níveis de saúde mental27.

Nas pesquisas feitas com estudantes universitários brasileiros a variável renda não tem aparecido com forte correlação, e a hipótese explicativa é a de que, nesse conjunto de estudos, feitos com estudantes de Medicina ou da área da saúde, as amostras são mais homogêneas, com poucas diferenças em relação às condições socioeconômicas entre indivíduos do grupo estudado, e com renda maior do que em outras populações15,18,20. Difere disso o estudo de Costa et al.17, com estudantes de Medicina da Universidade Federal da Bahia, no qual encontrou-se correlação positiva entre TMC e estudantes cuja renda familiar era de um a cinco salários mínimos.

Com relação à dificuldade de permanência na universidade, apesar do número expressivo de participantes que não responderam a essa questão (54,4%), identifica-se o rastreio positivo para TCM em 83,9% entre aqueles que responderam "sim". Para os que responderam "não", o rastreio de TMC foi de 56,3%, reforçando que há uma diferença importante entre os dois grupos.

As dificuldades de permanência podem ser muitas e envolver questões objetivas, materiais e simbólicas. Um estudo na Universidade de Brasília identificou que os programas assistenciais existentes na universidade não conseguiam cobrir toda a complexa demanda de apoio material, e isso possuía impacto sobre a saúde mental dos estudantes. Estudantes dependentes de recursos institucionais, em fases iniciais de curso, a maioria vinda de outros estados, apresentaram pródromos que indicaram ansiedade, depressão e dificuldades em relação à ajuda29.

Ter boas e adequadas condições de permanência estudantil é fundamental para que estudantes tenham as condições necessárias para desenvolver suas atividades acadêmicas e concluírem seus cursos. Não as ter, por sua vez, pode acarretar uma série de preocupações, além de impedimentos objetivos para que estudantes permaneçam na universidade. Por isso, as políticas de permanência estudantil devem ser garantidas como um direito fundamental no ensino superior.

Com relação ao uso de medicação psiquiátrica após o ingresso na universidade, um número expressivo de estudantes fazia uso de alguma medicação no momento da participação do estudo (16,8%). Nota-se uma proporção maior de pessoas com TMC entre aquelas que estavam fazendo uso de medicação (88,2%) ou que já tinham feito no passado (88,5%), podendo indicar que, mesmo fazendo uso de medicação, os sintomas de TMC estavam presentes. Entre estudantes de Medicina da Universidade Regional de Blumenau (SC), 19,2% faziam uso de alguma medicação psicoativa e 12,4% faziam uso de algum antidepressivo19. Isso pode sinalizar que as pessoas têm buscado esse recurso assistencial, ou que ele tem sido o mais ofertado nesses casos. O frequente uso de medicações como uma resposta ou um tratamento é algo discutido e problematizado dentro de uma perspectiva crítica. A discussão feita por Robert Whitaker30 ilustra a importância de problematizar o uso predominante da medicação psiquiátrica como resposta nesses casos, indicando que há um lugar para a medicação na caixa de ferramentas da psiquiatria, mas reforçando a importância de questionar quando e como eles devem ser usados.

Conforme os resultados apresentados pelo modelo de regressão, foi possível verificar que se mantém a correlação positiva entre suspeição de TMC e ser mulher cisgênero, relatar dificuldade de permanência na universidade e estar atualmente em acompanhamento com profissional de saúde mental. Ser mulher cisgênero apresenta mais que o dobro da chance de apresentar TCM do que homens cisgênero, e este dado reforça a forte associação entre saúde mental e gênero, indo ao encontro da literatura que afirma que as mulheres apresentam maior prevalência de transtornos mentais comuns e que os TMC estão entre os problemas de saúde mais frequentes entre as mulheres nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos17.

Uma cultura sexista, desigual e reforçada por alguns estereótipos de gênero pode levar a um condicionamento de gênero nas preferências educacionais e se materializar em dificuldades durante o percurso acadêmico. A superação do sexismo nos processos educacionais é algo que precisa estar em pauta nesse contexto, sendo importante investigar, em estudos futuros, em que medida essa assimetria impacta na vida das estudantes e suas possíveis determinações sobre os processos de sofrimento psíquico.

Quem relata dificuldade de permanência na universidade apresenta 2,45 vezes mais chance de TMC do que quem não relata, mostrando uma forte associação dessa condição ao sofrimento psíquico. Assim, reforça-se que as discussões sobre desigualdade de gênero e condições de permanência estudantil não podem estar alheias ao universo acadêmico. Estes números revelam em medidas de grandeza as contradições que operam sobre as condições de vida dos sujeitos e seus efeitos sobre a saúde mental. As pessoas atualmente em acompanhamento com profissionais de saúde mental possuem razão de chance de 4,12 vezes mais do que pessoas que não estão, o que deve ser efeito das pessoas estarem com sofrimento psíquico e procurarem por algum tipo de auxílio profissional.

CONCLUSÃO

Os resultados encontrados demonstram que, nessa população, o rastreio positivo para TMC foi altamente prevalente entre estudantes de graduação, sendo superior ao de outros estudos. As associações identificadas são importantes, pois as políticas de ensino superior alteraram substancialmente a configuração da comunidade universitária nos últimos anos, mas isso não implica na produção de espaços mais inclusivos de fato. A presença da discriminação, seja por cor/raça/etnia, classe social ou por outras razões é também realidade entre universitários, refletindo a realidade do contexto sociocultural brasileiro, em que aspectos relativos às desigualdades sociais e estruturais e iniquidades em saúde encontram-se tão marcados.

Em 2020, a crise sanitária em decorrência da pandemia da covid-19 impactou diretamente nas condições de vida da população. Além disso, com a suspensão das atividades presenciais, houve significativas alterações na dinâmica universitária, sendo possível afirmar que a pandemia e os aspectos relacionados a ela repercutiram negativamente na saúde mental dos estudantes31.

Não estando a universidade isolada da estrutura social e sendo, inclusive, parte importante dela, nela se constituirão, também, relações que dizem muito sobre o modo de vida no sistema social, econômico e político vigente. Assim, compreende-se como importante o olhar para todas essas determinações que permeiam a vida dos estudantes e se associam ao sofrimento psíquico, motivando, por um lado, a construção de políticas que atuem no cuidado com a saúde mental dos estudantes e, por outro, em políticas que atuem sobre as determinações que se articulam ao sofrimento.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o presente estudo não estão publicamente disponíveis devido a restrições éticas, mas estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Jan 2022
  • Aceito
    19 Nov 2022
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