Open-access Inatividade física no lazer e transtornos mentais comuns entre docentes na primeira onda de covid-19 na Bahia, Brasil, 2020

Leisure-time physical inactivity and common mental disorders among faculty in the first wave of COVID-19 in Bahia, Brazil, 2020

Resumo

Introdução:  Atividades físicas no lazer podem favorecer a saúde mental, produzindo relaxamento. Durante a pandemia de covid-19, os processos de trabalho docente foram modificados com impactos nos hábitos de vida, especialmente na prática de atividade física no lazer.

Objetivo:  Investigar a associação entre Inatividade Física no Lazer (IFL) e Transtornos Mentais Comuns (TMC) em docentes da rede particular de ensino, no início da pandemia da covid-19.

Método:  Estudo de corte transversal do tipo websurvey, incluindo docentes de todos os níveis de ensino da rede privada da Bahia. O Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) mensurou os TMC. A prática da atividade física foi autorreferida. Associação entre IFL e TMC foi analisada por regressão de Poisson.

Resultados:  Participaram do estudo 1.444 docentes. A prevalência global de TMC foi elevada: 66,7%. A IFL (RP=1,30; IC95% 1,16–1,45) e a insuficiência de atividade física no lazer (praticou até 2 dias/semana) (RP=1,20; IC95% 1,04–1,37) associaram-se à prevalência de TMC quando comparado a quem realizou atividades físicas 3 vezes por semana ou mais, considerando ajuste por faixa etária, situação conjugal, lecionar no ensino superior, manter outra atividade de lazer, sobrecarga doméstica e insegurança em ficar desempregado.

Conclusão:  Esses resultados fortalecem a hipótese de associação entre atividade física no lazer e TMC. Favorecer essas atividades é benéfico à saúde mental docente.

Palavras-chave:
comportamento sedentário; transtornos mentais; COVID-19; docentes; teletrabalho

Abstract

Introduction:  Leisure-time physical activities can promote mental health, producing relaxation. During the COVID-19 pandemic, teaching work processes were modified, with impacts on lifestyle habits, especially the practice of physical activity during leisure time.

Objective:  To investigate the association between leisure-time physical inactivity and common mental disorders (CMD) in private school teachers at the beginning of the COVID-19 pandemic.

Method:  A cross-sectional websurvey study including teachers from all levels of education in the private school system in Bahia. The Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) measured the CMD. The practice of physical activity was self-reported. The association between leisure-time physical inactivity and CMD was analyzed by Poisson regression.

Results:  The study included 1,444 professors. The overall prevalence of CMD was high — 66.7%. Leisure-time physical inactivity (prevalence ratio — PR=1.30; 95% confidence interval — 95%CI 1.16–1.45) and insufficient physical activity (practiced up to two days a week) (PR=1.20; 95%CI 1.04–1.37) were positively associated with the prevalence of CMD when compared to those who performed leisure-time physical activities 3x/week or more, after adjusting for age group, marital status, teaching in higher education, leisure activities, domestic overload and insecurity about being unemployed.

Conclusion:  These results strengthen the hypothesis of an association between leisure-time physical activity and CMD. Encouraging these activities is beneficial to teachers’ mental health.

Keywords:
sedentary behavior; mental disorders; COVID-19; faculty; teleworking

INTRODUÇÃO

As medidas sanitárias impostas no início da pandemia da covid-19 objetivaram reduzir a disseminação do vírus e prevenir o colapso do sistema de saúde6, impactando os processos do trabalho docente em todo o mundo2. O trabalho passou a ser desenvolvido na modalidade de ensino remoto (não presencial), mudando temporariamente o ambiente de trabalho habitual, a sala de aula, para o ambiente doméstico3.

A comunicação nas aulas se tornou um desafio devido à falta de contato físico e visual entre professores e alunos, fazendo-se necessário o emprego de novas estratégias metodológicas para interação e construção do conhecimento, mesmo contando com insuficiência de recursos como computadores e internet — que, em geral, era custeada pelos próprios docentes4,5. Com isso, houve sobrecarga, envolvendo jornadas de trabalho mais longas e extenuantes, intensificação das cobranças dos gestores por produtividade, precarização de vínculos trabalhistas, aumento do desemprego e redução do tempo livre para o lazer6,7. Essas alterações, em conjunto, modificaram completamente a forma de ensinar e as condições nas quais se executava o trabalho. O aumento do tempo dedicado às atividades laborais ou domésticas comprometeu outras dimensões da vida, como as atividades físicas e de lazer — o que, por sua vez, pode impactar na saúde docente. Embora o trabalho no domicílio seja uma realidade no cotidiano laboral docente, a pandemia intensificou essa demanda a uma escala sem precedentes — o que pode ter gerado condições desfavoráveis para a saúde física e mental desses trabalhadores.

Com relação à saúde mental, previamente à pandemia da covid-19, estudos já destacavam os Transtornos Mentais Comuns (TMC) — compreendidos como sintomas de depressão, ansiedade, insônia, nervosismo, cefaleia, fadiga, irritabilidade, esquecimento e perda de concentração8 — entre os principais agravos que acometiam os docentes, em todos os níveis de ensino9-12. A sua prevalência nessa população variou de 23,6 a 55,4% no ensino básico (educação infantil, fundamental e médio) e de 18,7 a 29,9% no ensino superior12-15. Essa elevada prevalência de transtornos mentais em docentes suscita a necessidade de identificar tanto os fatores que produzem esses transtornos quanto os fatores capazes de reduzir a frequência desses eventos.

Uma das medidas para a redução da magnitude de TMC entre docentes é a prática de atividade física12. Professores que realizavam regularmente atividades físicas no lazer apresentaram condições gerais de saúde física e mental, bem como melhor qualidade de vida em relação àqueles inativos fisicamente16. Em síntese, a ausência de atividades físicas regulares associou-se a maior frequência de adoecimento. Por inatividade física entende-se a ausência da prática de atividade física semanal, e quando essa prática é insatisfatória para a melhoria da saúde física e mental do praticante, ela é considerada insuficiente17.

A literatura registra evidências, por um lado, de benefícios da Atividade Física (AF) regular à saúde e, por outro, aumento das doenças associadas à inatividade física18. A AF é uma estratégia de cuidado, não medicamentosa, que vem ganhando notoriedade em função das evidências de que atua na melhoria da autoestima, da imagem corporal, das funções cognitivas, da socialização e redução do estresse, ansiedade e depressão19. Evidências psicofisiológicas de benefícios da prática da AF à saúde mental mostraram aumento do fluxo cerebral, aporte de nutrientes e alterações das concentrações dos hormônios neurotransmissores associados à sensação de bem-estar e ao controle de humor, entre eles: endorfina, serotonina, dopamina, glutamato e o GABA (neurotransmissor que bloqueia/inibe determinados sinais cerebrais e diminui a atividade do sistema nervoso)20. O exercício físico promove a síntese desses neurotransmissores e hormônios que ajudam na metabolização de substâncias associadas ao estresse, que podem levar à depressão e a outros transtornos mentais21. A melhoria da aptidão física e do nível de bem-estar físico gera sensação de prazer e realização, interação social e momentos de distração que podem elevar a autoconfiança e autoestima22.

Assim, a literatura destaca a relevância de atenção e maior conhecimento dos mecanismos que conectam a AF aos processos de saúde-doença. Como os processos de trabalho impactam os usos do tempo, que por sua vez podem limitar ou possibilitar espaços à AF, cabe investigar a AF e sua associação com a saúde mental no contexto de mudanças nos processos de trabalho docente durante a pandemia. Neste estudo focalizamos a atividade física realizada no tempo de lazer. Como os impactos do trabalho remoto na prática de atividade física no lazer e na saúde mental dos professores ainda não foram adequadamente mensurados, objetivou-se avaliar a associação entre a Inatividade Física no Lazer (IFL) e os TMC em docentes da rede particular de ensino da Bahia, na primeira onda da pandemia da covid-19.

MÉTODO

Estudo de corte transversal, recorte do projeto “Trabalho Docente e Saúde em Tempos de Pandemia (COVID-19)”, desenvolvido por meio de parceria entre o Núcleo de Saúde, Trabalho e Educação (NSET) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, o Núcleo de Epidemiologia (Nepi) da Universidade Estadual de Feira de Santana e o Sindicato de Professores da Rede Particular de Ensino da Bahia (Sinpro-BA).

A população de estudo foi definida pelo número de professores cadastrados no SinproBA (N=5.000), de todos os níveis de ensino (infantil, fundamental I e II, médio e superior), que atuavam na rede particular de ensino da Bahia durante a primeira onda da pandemia de covid-19. A amostragem se deu por autosseleção, na qual todos foram convidados, por meios eletrônicos, a participar do estudo.

Para a coleta de dados, optou-se pelo método websurvey18. Utilizou-se formulário online, autoaplicável, elaborado no Google Forms, contendo cinco blocos de questões: características sociodemográficas e do trabalho; características da atividade docente durante a pandemia; itens sobre trabalho-família e distanciamento social; situação de saúde docente; hábitos de vida e de sono no distanciamento social.

A coleta de dados ocorreu entre 12 de junho e 31 de julho de 2020, com envio do link do formulário aos e-mails dos cadastrados nas bases de dados do Sinpro, redes sociais (Instagram e Facebook) e aplicativos de mensagens (WhatsApp e Telegram).

A variável desfecho do estudo, TMC, foi avaliada pelo Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). A versão validada no Brasil é composta por 20 questões, com respostas dicotômicas (sim/não) que mensuram grupos de sintomas como presença de humor depressivo-ansioso, sintomas somáticos, decréscimo de energia vital e pensamentos depressivos23. Neste estudo, para a suspeição de TMC, foi adotado como ponto de corte o escore ≥7 respostas positivas para as mulheres e ≥5 para os homens24, categorizadas em sim e não.

A exposição principal, prática de Atividade Física no Lazer (AFL), foi obtida por meio da questão: “Com que frequência você conseguiu realizar atividades físicas semanais (corrida, caminhada ou exercícios em casa) por 30 minutos ou mais no dia?”. As respostas compreendiam as opções: não conseguiu realizar atividades físicas, até 2 dias, 3 a 5 dias e acima de 5 dias. Para fins de análise, recategorizou-se a variável em inativos fisicamente no lazer (sem AFL); realizou AFL até 2 dias na semana (mínimo de 60 minutos semanais); e realizou AFL 3 dias ou mais na semana (mínimo de 90 minutos). Portanto, a AFL foi avaliada considerando-se o produto da frequência (dias na semana) e o tempo despendido na AFL (60 ou 90 minutos). A mensuração de AFL com esse indicador, apesar de não fornecer dados mais detalhados sobre a AFL, é uma forma fácil de mensurar e interpretar, sendo utilizada em estudos epidemiológicos de rastreamento de AFL em grupos populacionais25. Cabe registrar que o estudo ocorreu num contexto de isolamento social, com o trabalho sendo realizado nos domicílios, logo, sem deslocamento e com acesso limitado dos participantes do estudo aos espaços para prática de atividade física no lazer. Assim, não foram mensuradas as dimensões de atividade física no trabalho e no deslocamento ativo.

s covariáveis incluíram características sociodemográficas: sexo (feminino, masculino); faixa etária (≤39 anos e >39 anos); cor da pele branca e não branca (pardos, negros e indígenas); situação conjugal com companheiro (casado/união estável) ou sem companheiro (solteiro, viúvo ou divorciado); e hábitos de vida (prática de atividade de lazer — sim/não). Sobrecarga Doméstica (SD) foi estimada com base nas atividades de lavar, passar, cozinhar e limpar, ponderada pelo número de moradores da casa, segundo a Equação 126:

(1) SD = ( lavar + passar + cozinhar + limpar ) x ( número de pessoas na casa - 1 )

Inicialmente, a SD foi categorizada com base em tercis: alta (corte no primeiro tercil), média (segundo tercil) e baixa (terceiro tercil). Para fins de análise ajustada, foi dicotomizada em alta e média/baixa.

As características do trabalho incluíram: nível de ensino que lecionava (infantil, fundamental I e II, médio e superior); carga horária semanal (até 20h; 21–40h; 40–60h); tempo de docência (até 10 anos; acima de 10 anos); alteração de salário (não; sim); insegurança em ficar desempregado (não; sim); alteração de contrato (sem alteração; se ocorreu, sustentou-se na Medida Provisória n.º 936/202027 ou foi de forma aleatória); mudança do tempo semanal dedicado ao trabalho durante a pandemia (não; sim).

A análise descritiva dos dados foi realizada pelas medidas de frequência absoluta e relativa das variáveis de acordo com AFL e TMC. Na análise bivariada, estimaram-se as Razões de Prevalência (RP) e seus respectivos intervalos a 95% de confiança (IC95%). Empregou-se, também, o χ2 de Pearson ou teste exato de Fisher ao α=0,05. Para análise multivariada, empregou-se a regressão de Poisson com variância robusta. As covariáveis incluídas no modelo foram selecionadas levando em consideração a relevância teórica e associadas ao desfecho no teste de razão de verossimilhança ao nível de significância de 25%. Permaneceram, no modelo final, as variáveis estatisticamente associadas ao desfecho ao α=0,05. As análises estatísticas foram realizadas com auxílio do software Statistical Program for the Social Sciences 24.0 (SPSS).

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (Parecer n.º 4.187.816 e CAAE 32004620.8.1001.0056). Previamente ao preenchimento do formulário, os participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Foram recebidos 1.473 formulários; 29 foram excluídos (21 respondidos por docentes não atuantes na rede de ensino privado da Bahia e oito respondidos duplicadamente). A análise incluiu dados de 1.444 professores. A frequência de IFL foi elevada (59,2%); apenas 23,1% realizavam AFL 3 vezes por semana ou mais (Tabela 1) na 1ª onda da pandemia de covid-19. A IFL foi mais frequente entre as mulheres (62% contra 50,6% em homens); a situação se inverteu quando se comparou a frequência de atividade física no lazer 3 vezes por semana ou mais (homens: 30,8%; mulheres: 20,5%). Maior percentual de AFL três vezes por semana ou mais foi observado entre docentes sem companheiro(a) e que ensinavam no nível superior (28,2%), comparado a ensino fundamental I (14,5%) e educação infantil (19,3%). A IFL foi maior entre quem não realizava outras atividades regulares de lazer (74,2% contra 36,4% entre quem mantinha tais atividades) e tinha alta sobrecarga doméstica (63,2% contra 54,8% em baixa SD).

Tabela 1
Frequência (%) da prática de atividade física no lazer semanal segundo características sociodemográficas, de lazer e do trabalho entre docentes da rede particular de ensino da Bahia na primeira onda da pandemia de covid-19, 2020

Os percentuais de atividade foram similares segundo raça/cor da pele, idade, carga horária, tempo de trabalho e tempo na docência.

A prevalência global de TMC foi elevada, atingindo 66,7% dos docentes (Tabela 2). Na análise bruta, a prevalência de TMC estava associada à frequência da prática de AFL, a níveis estatisticamente significantes, tanto na situação de inatividade física no lazer (RP=1,48; IC95% 1,32–1,66) quanto de frequência até 2 vezes por semana (RP=1,21; IC95% 10,5–1,40), quando comparada à prática de AFL 3 vezes ou mais por semana (Tabela 3).

Tabela 2
P e RP de TMC segundo covariáveis analisadas (características sociodemográficas, de lazer e do trabalho). Docentes da rede particular de ensino da Bahia na primeira onda da pandemia de covid-19, 2020
Tabela 3
Associação entre prática de atividade física no lazer e TMC, análise bruta e ajustada por covariáveis obtidas no modelo final de regressão. Docentes da rede particular de ensino da Bahia na primeira onda da pandemia de covid-19, 2020

A análise exploratória de fatores estatisticamente associados aos TMC foi conduzida com a finalidade de identificar potenciais fatores de ajuste na análise multivariada (Tabela 2). Observaram-se diferenças estatisticamente significantes nas prevalências de TMC para sexo feminino (RP=1,16; IC95% 1,05–1,28), faixa etária até 39 anos (RP=1,35; IC95% 1,24–1,47), docentes sem companheiro(a) (RP=1,08; IC95% 1,01–1,16) e que não mantinham regularmente atividades de lazer (RP=1,41; IC95% 1,29–1,53). Com relação às características do trabalho docente e doméstico, os TMC estiveram estatisticamente associados a lecionar nas séries iniciais — na educação infantil (RP=1,39; IC95% 1,30–1,55) e no fundamental I (RP=1,38; IC95% 1,28–1,41) —, entre aqueles com temor em ficar desempregado(a) (RP=1,60; IC95% 1,42–1,81), que tiveram alteração salarial (RP=1,25; IC95% 1,16–1,34) e relataram alta sobrecarga doméstica (RP=1,30; IC95% 1,10–1,41) (Tabela 2). Essas covariáveis foram incluídas na análise multivariada realizada.

Na modelagem, tomando-se como referência o grupo de AFL três vezes por semana ou mais, a prevalência de TMC foi positivamente associada à situação de inatividade física no lazer (RP=1,30; IC95% 1,16–1,45) e à frequência de AFL até 2 dias na semana (RP=1,20; IC95% 1,04–1,37), após ajuste por lecionar no ensino superior, realizar atividades regulares de lazer, sobrecarga doméstica alta, faixa etária entre 21 e 39 anos, situação conjugal sem companheiro e insegurança em ficar desempregado — variáveis retidas no modelo final de análise (Tabela 3).

DISCUSSÃO

O foco deste estudo foi investigar a associação entre a inatividade física no lazer e a ocorrência de transtornos mentais comuns em uma amostra de docentes da rede privada de ensino, que estava realizando atividades de trabalho remoto na primeira onda da pandemia da covid-19. Os dados evidenciaram redução da prevalência de TMC à medida que se aumentou a frequência de atividade física no lazer dos docentes.

Com relação à frequência de AFL, o perfil predominante entre os docentes neste estudo foi o fisicamente inativo no lazer — mais da metade não realizava atividade física no lazer ou realizava de forma insuficiente no período pandêmico. Dados similares foram encontrados em estudo com docentes durante o distanciamento social28 e em estudo antes da pandemia29. A inatividade física no lazer predominou no grupo que não realizava outras atividades de lazer. O hábito de não realizar atividades de lazer entre os docentes, durante a pandemia da covid-19, foi também observado na população geral, como demonstrado em estudo no período pandêmico30. A combinação de ausência de atividade física e de lazer pode estruturar condições ainda mais desfavoráveis à saúde mental31. O estudo de Araújo et al.32, por exemplo, evidenciou que as atividades físicas no lazer atuaram como fator protetor à saúde mental: os indivíduos que não mantinham atividades de lazer apresentavam prevalência de TMC quase duas vezes maior do que aqueles que mantinham essas atividades.

Nossos resultados fortalecem a hipótese de que a inatividade física no lazer ou AF insuficiente no lazer associa-se aos efeitos negativos na saúde mental e na qualidade de vida — relação que já configurava preocupação antes da pandemia, especialmente em função de estudos prévios apontarem tendência de elevação na prevalência global de AF insuficiente33. Como descrito anteriormente, corpo crescente da literatura especializada corrobora as evidências psicofisiológicas de que a AF estimula a secreção de catecolaminas que geram efeito tranquilizante, contribuindo para o relaxamento20. Em outras palavras, a realização de atividade física no lazer promove alterações fisiológicas, bioquímicas e psicológicas que se associam à percepção positiva sobre a própria saúde16, exercendo papel protetor contra os transtornos mentais comuns, sem o uso de medicação. A AF pode inibir a produção de cortisol, hormônio presente em situações de incertezas e desconforto que geram ou elevam os níveis de estresse; assim, a AF pode atuar reduzindo o estresse, além de na melhora do sistema imunológico — aspecto relevante num contexto de elevado risco de infecção, como no caso da pandemia pelo coronavírus21,22.

A prevalência de TMC encontrada neste estudo é superior à observada em estudos anteriores à pandemia da covid-1914,15,34. Ao menos em parte, esse aumento pode ser explicado pelo trabalho remoto implementado, uma vez que os docentes precisaram se adaptar à nova rotina e conviver com aumento de tensão no trabalho, pressão das instituições de ensino por produtividade, obrigatoriedade de manejo de equipamentos e modalidades pedagógicas remotas desconhecidas, pouco ou nenhum preparo para o uso de tecnologias digitais, somados às crescentes demandas relativas ao gerenciamento da vida conjugal e do cuidado com os filhos e pessoas que precisam de ajuda4,35.

Com a transferência do posto de trabalho para as residências, ocorreu aumento da sobrecarga doméstica23, principalmente entre as mulheres, em função da distribuição desigual de atividades domésticas na família36. Embora homens e mulheres tenham referido que a pandemia modificou suas rotinas de vida e trabalho, historicamente, é atribuído às mulheres o papel de provedora de cuidados dos companheiros, filhos e da casa. Outro agravante é que, no início da pandemia, houve redução drástica ou total do auxílio na realização de tarefas domésticas, em geral oferecido por parentes ou trabalhadoras domésticas. Barros37 evidenciou que, no período da pandemia da covid-19, as mulheres referiram tristeza, depressão, ansiedade e nervosismo duas vezes mais que os homens. Possivelmente, as demandas mais urgentes e necessárias à reprodução, manutenção e segurança da família foram priorizadas em detrimento do autocuidado, das atividades de lazer e, principalmente, das atividades físicas38. O perfil de maior percentual de inatividade física no lazer nas mulheres corrobora a restrição do uso do tempo das mulheres às atividades físicas durante a pandemia.

Este estudo foi conduzido nos primeiros meses da pandemia, quando as medidas de distanciamento social foram seguidas com mais rigor — as academias e os espaços públicos para a prática de atividades físicas e de lazer estavam fechados ou com funcionamento restrito, contribuindo para o elevado percentual de inatividade física observado. As dimensões de atividade física no deslocamento e no trabalho remunerado não foram consideradas na mensuração de AF feita neste estudo, uma vez que o contexto era de isolamento social e, com as escolas fechadas, os docentes mantiveram-se em seus domicílios. Embora não se possa descartar a possibilidade de que a atividade relacionada às tarefas domésticas envolva também um tipo de atividade física, como se trata de rotinas domésticas e a questão utilizada tinha a especificidade de questionar a frequência na semana e duração da atividade realizada no tempo livre como lazer, é provável que este tipo de atividade não tenha sido considerado na resposta dada à questão de atividade física. Caso isso tenha ocorrido, uma superestimação potencial da inatividade física não pode ser descartada. De qualquer forma, o elevado percentual de IFL constatado neste estudo é concordante com resultados obtidos em outros subgrupos da população brasileira durante a pandemia da covid-1939-42.

Chama a atenção o resultado de maior percentual de AFL 3 vezes por semana ou mais entre docentes sem companheiro(a). Um potencial intercruzamento entre demandas do trabalho profissional e doméstico (cuidado da família) ajuda a explicar esse resultado: a presença de companheiros(as) e de crianças, especialmente aquelas nos primeiros anos escolares, amplia a demanda de tempo para o cuidado e a reprodução, reduzindo as possibilidades de alocação de tempo para outras atividades. Assim, pessoas sem companheiros(as) podem ter maior oportunidade de atribuição de cuidado a si mesmas, favorecendo a AFL mais frequentemente. Análises futuras poderão averiguar em profundidade esse achado inicial.

Importante assinalar o contexto geral de pressão e de precarização dos vínculos de trabalho docente e os cenários de incertezas durante a pandemia. A crise sanitária exacerbou a crise econômica na educação privada no país, ocasionando aumento da inadimplência e evasão discente nas instituições privadas. Antes da pandemia, a Reforma Trabalhista precarizou os vínculos de trabalho e reduziu direitos dos trabalhadores, com reflexos observados no aumento da contratação precária de professores e terceirização massiva43. A pandemia acelerou a precariedade do trabalho e emprego na educação, intensificando a competitividade pelos postos de trabalho ainda existentes e a exploração: manter o emprego tornou-se a condição para ampliar a jornada de trabalho e ocupar o tempo todo no atendimento das demandas laborais44. Esses elementos, em conjunto, constituíram barreiras importantes para outras atividades, como a AF e de lazer nesse período.

Por se tratar de um estudo de corte transversal, esta pesquisa apresenta limites, especialmente no estabelecimento de relação de causa-efeito entre as variáveis investigadas. A forma de mensuração da variável AFL (exposição principal deste estudo) tem limitações importantes que precisam ser consideradas com cuidado. Não foram obtidas informações sobre intensidade e volume com que a AF foi realizada, não sendo possível confrontar os dados com o que é preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de não permitir uma análise mais detalhada e confiável, informações sobre a frequência semanal e o tempo despendido na AFL constituem uma forma aceitável de avaliar a AFL, podendo ser um indicador útil para rastreamento de sua ocorrência em grupos populacionais, especialmente em estudos iniciais de contextos novos e de crise como a vivenciada na pandemia de covid-19.

Outro ponto limitador a se destacar refere-se à seleção da amostra não ter sido aleatória, não podendo ser afastada a possibilidade de viés de seleção, uma vez que a amostragem se deu por autosseleção; logo, a amostra pode não ser representativa da população-alvo. No entanto, pelo estudo ter sido realizado durante a 1ª onda da pandemia de covid-19, com a preconização do distanciamento social, o modo definido para a coleta dos dados (inquérito online) foi o mais adequado para responder ao objetivo proposto.

Outrossim, mesmo não sendo recomendado o uso de técnicas de estatística inferencial para amostragens não probabilísticas, empregou-se no presente estudo com o intuito de identificar a associação estatística para essa amostra, e não para generalizar os achados à população de origem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Evidenciou-se elevada prevalência de TMC em docentes que desempenharam trabalho remoto no início da pandemia da covid-19. Observou-se que a prevalência de TMC elevou-se à medida que se reduziu a frequência e o tempo de AFL semanal. Os resultados endossam a hipótese de associação positiva entre a falta ou insuficiência de atividade física e TMC.

Destacam-se os preocupantes percentuais de inatividade e de atividade física insuficiente entre docentes. Isso indica a necessidade de ações de incentivo à prática de atividade física regular e redução do comportamento sedentário. Sobretudo, esses dados alertam sobre a necessidade de redução das jornadas de trabalho nessa categoria — a criação de condições que possibilitem a alocação de tempo para atividades físicas e de lazer deve, assim, ser incorporada como medida de proteção à saúde e de seguridade social no trabalho docente.

Os dados foram coletados no início da pandemia, no período de maior rigor das medidas de isolamento social e de muitas incertezas sobre a disseminação do vírus e o tratamento da doença. Desse modo, provavelmente, as atividades físicas no lazer foram reduzidas pela restrição dos espaços para sua prática. No entanto, para docentes, cabe considerar que o trabalho em casa não é característica específica do contexto de pandemia; ao contrário, isso é algo que atravessa o cotidiano docente rotineiramente. Embora agravada pela situação da pandemia, com adoção do trabalho remoto em larga escala, a alocação de tempo para atividades laborais extra local de trabalho (feito em casa) em detrimento de tempo para atividades físicas e de lazer tem sido consistentemente apontada entre docentes9,12,16. A ampliação do emprego do trabalho remoto também é uma realidade que provavelmente permanecerá em maior ou menor grau, a depender do contexto e nível de ensino. Portanto, embora a situação tenha sido analisada durante a pandemia, este estudo tratou de tema (relação entre AFL e saúde mental) que permanece pertinente à categoria investigada. Logo, os resultados gerados nesta investigação podem ser úteis para sustentar ações, seja de incentivo à atividade física no lazer, seja de relações de trabalho, que busquem proteger o tempo livre da invasão por demandas laborais.

Estudos em saúde coletiva/saúde do trabalhador têm o propósito de orientar políticas públicas para a promoção e prevenção de agravos. Os resultados deste estudo evidenciam a importância das formas de recomposição — no caso, atividades físicas no lazer. Cumprem, assim, o papel de fortalecer ações com potencial de promover a saúde e a qualidade de vida no trabalho docente.

AGRADECIMENTOS

Profª. Paloma de Sousa Pinho e Núcleo de Saúde Trabalho e Educação (NSET) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão publicamente disponíveis em https://repositorio.ufba.br/handle/ri/37179.

Como citar:

Reis LF, Soares JFS, Araújo TM. Inatividade física no lazer e transtornos mentais comuns entre docentes na primeira onda de covid-19 na Bahia, Brasil, 2020. Cad. Saúde Colet., 2026;34(2):e34020338. https://doi.org/10.1590/1414-462X202634020338

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Out 2022
  • Aceito
    21 Out 2023
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