Resumo
Introdução: A promoção do estilo de vida mais ativo tem sido utilizada como estratégia para implementar o envelhecimento saudável, sendo o estímulo pelos profissionais da Atenção Primária à prática de atividade física um dos caminhos para atingir essa estratégia.
Objetivo: Avaliar a prevalência e os fatores associados ao recebimento de aconselhamento à prática de atividade física por profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS).
Método: Estudo transversal, de base populacional, com 490 idosos residentes em área rural entre os anos de 2018 e 2019. Foram realizadas entrevistas domiciliares por meio de questionários eletrônicos. O desfecho foi avaliado com a pergunta: "Na última consulta na UBSF/Posto de Saúde o(a) Sr(a). foi orientado(a) sobre a prática de atividade física (não/sim)?". As associações foram verificadas por regressão de Poisson.
Resultados: A prevalência do desfecho foi de 22,5% (IC95% 19,0–26,4). Os fatores associados foram sexo feminino (RP=1,47; IC95% 1,02–2,12), diagnóstico médico de reumatismo/artrite/artrose (RP=1,59; IC95% 1,12–2,27), aconselhamento realizado por médico(a) (RP=2,47; IC95% 1,06–5,74) e maior idade (RP=0,43; IC95% 0,23–0,81).
Conclusão: O recebimento de aconselhamento à prática de atividade física por profissionais de saúde da APS entre idosos não é universal, evidenciando a necessidade de maiores esforços para ampliar sua oferta.
Palavras-chave:
atenção primária à saúde; atividade física; avaliação em saúde; idosos; promoção da saúde
Abstract
Background: The promotion of an active lifestyle has been used as a strategy to implement healthy aging, and the encouragement of physical activity by Primary Health Care professionals is one of the ways to achieve this strategy.
Objective: To analyze the prevalence of and factors associated with receiving physical activity counseling by Primary Health Care professionals.
Method: Cross-sectional population-based study with 490 older adults living in rural areas between the years 2018/19. Household interviews were carried out using electronic questionnaires. The outcome was evaluated with the question "In the last visit to the primary care health unit, were you advised about physical activity (no/yes)?". Associations were verified by Poisson regression.
Results: The prevalence of the outcome was 22.5% (95% confidence interval — 95%CI 19.0–26.4). Associated factors were female sex (prevalence ratio — PR=1.47; 95%CI 1.02–2.12), medical diagnosis of rheumatism/arthritis/arthrosis (PR=1.59; 95%CI 1.12–2.27), physician assistance/guidance (PR=2.47; 95%CI 1.06–5.74) and older age (PR=0.43; 95%CI 0.23–0.81).
Conclusion: The reception of advice on physical activity by health professionals in Primary Health Care among rural older adults is not universal, evidencing the need for greater efforts to expand its offer.
Keywords:
primary health care; physical activity; health assessment; older adults; health promotion
INTRODUÇÃO
A redução dos níveis de atividade física e o aumento do tempo em comportamento sedentário são considerados um problema de saúde pública por serem fatores de risco para a ocorrência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) e para a mortalidade por todas as causas1-4. Associados ou não, a inatividade física e o comportamento sedentário impactam negativamente a saúde dos indivíduos, pois promovem ganho de peso e alterações no sistema cardiovascular, diminuem as capacidades fisiológicas e reduzem a expectativa e a qualidade de vida5,6 .
Dados do Vigitel (2019) apontam que a frequência de inatividade física aumenta a partir dos 54 anos, sendo referida por 31,8% dos indivíduos com 65 anos ou mais. Já a frequência de indivíduos com 65 anos ou mais que passam mais de 3 horas por dia assistindo à televisão ou usando o computador, tablet ou celular é de 45,7%7. Estudo desenvolvido por Leão et al., encontrou menor tempo de comportamento sedentário quando comparado ao tempo médio encontrado na literatura para idosos residentes em zona urbana. No referido estudo, idosos casados, com maior escolaridade, maior renda e que não possuem atividade laboral ativa apresentaram maior comportamento sedentário, com maior gasto de tempo assistindo à televisão8.
Considerando o impacto negativo que a inatividade física e o comportamento sedentário podem causar na saúde física e mental da população idosa, busca-se favorecer a ampliação de ações pautadas na prevenção de riscos e promoção de saúde por meio da Atenção Primária à Saúde (APS)9. Entre essas ações, fundamentais para garantir melhor qualidade de vida aos idosos, destaca-se o aconselhamento para a prática de atividade física10,11.
O aconselhamento em saúde é uma ferramenta de educação e promoção à saúde12 que envolve a escuta ativa, individualizada e centrada no usuário11,13 ,14. Com o objetivo de educar e estimular os indivíduos a adotarem um estilo de vida ativo e comportamentos saudáveis10,12,13, o aconselhamento deve ser ofertado tanto para indivíduos saudáveis como para indivíduos com multimorbidades, independentemente da faixa etária15-17. Além disso, por ter um custo relativamente baixo, essa estratégia emerge como atribuição fundamental dos serviços e dos profissionais de saúde15 e deve ser ofertada durante os atendimentos de rotina na APS12. Destaca-se que é o vínculo e a relação de confiança que são estabelecidos entre os profissionais de saúde e os idosos que costumam utilizar regularmente a Unidade Básica de Saúde (UBS) como referência para os cuidados com a saúde que favorecem a mudança de comportamento e, consequentemente, o aumento no nível de atividade física16,17 .
É importante considerar que o aconselhamento para a prática da atividade física difere da prescrição de atividades, programas de exercícios, exercícios terapêuticos, entre outras atividades que são prerrogativa dos profissionais de educação física e/ou fisioterapia18,19. Portanto, não há empecilho a outros profissionais da saúde realizarem.
Recentemente, Benedetti et al.20 remodelaram o conceito de atividade física, voltados para a realidade brasileira, e o definiram como um comportamento que envolve movimento corporal voluntário e que resulta em gasto energético acima dos níveis de repouso, propiciando interações entre os indivíduos e o ambiente, podendo ocorrer em diferentes momentos, como durante o lazer, no deslocamento e em atividades domésticas. Assim, caminhar, dançar, pedalar, brincar, limpar a casa, cultivar a terra, praticar esportes e praticar exercícios físicos são alguns dos exemplos de atividade física9,20. Importante destacar que o exercício físico é conceituado como uma atividade planejada, estruturada e repetitiva, com adequação de peso e que objetiva a melhoria e a manutenção das capacidades físicas9,20,21 .
Apesar das recomendações de órgãos nacionais e internacionais9,11,13,22 e de estudos demonstrando a eficácia do aconselhamento sobre atividade física na APS, no que se refere à mudança de comportamento da população adulta e idosa23-25, a prevalência de aconselhamento sobre a prática de atividade física na APS ainda é baixa.
Revisão sistemática desenvolvida por Moraes et al. verificou que a prevalência de aconselhamento referido por usuários adultos e idosos variou de 4,5 a 61,6% (36,6±14,2%), sendo mais frequente para indivíduos com fatores de risco para doenças crônicas11. Já Souza Neto et al., em revisão integrativa incluindo 22 estudos, encontrou que a prevalência de aconselhamento sobre a importância da prática de atividade física para adultos e idosos variou de 20 a 59,4%, sendo mais frequente para mulheres, idosos e indivíduos portadores de doenças crônicas14. Entre os estudos selecionados para compor ambas as revisões11,14, apenas 4 haviam incluído somente indivíduos com 60 anos ou mais10,12,16,26 e nenhum estudo havia sido desenvolvido com residentes de zona rural.
Embora o Brasil seja altamente urbanizado, com aproximadamente 16% dos idosos residindo em áreas rurais27, há uma lacuna sobre o aconselhamento da prática de atividade física nessa população. A carência de estudos de base populacional sobre a saúde da população rural, especialmente idosos, ocorre, em parte, devido às dificuldades logísticas e financeiras de se conduzir uma coleta de dados em um ambiente com características peculiares, como estradas não pavimentadas, dificuldades de acesso e longas distâncias dos serviços de saúde28. Porém, frente às recomendações do plano para uma Década do Envelhecimento Saudável 2020–2030, que refere que abordagens mais inclusivas para pessoas idosas, em sua diversidade, entre elas as residentes em área urbana ou rural, devem ser consideradas para o fortalecimento de dados29, estudos sobre idosos residentes em área rural tornam-se oportunos e relevantes.
Considerando o papel da APS na implementação de ações que visem à educação em saúde e à mudança de comportamentos da população e a lacuna existente em estudos brasileiros e de base populacional que investiguem a frequência de aconselhamento para atividade física entre os idosos da zona rural, o objetivo do presente estudo é avaliar a prevalência e os fatores associados ao recebimento de aconselhamento à prática de atividade física por profissionais de saúde da APS nos 12 meses anteriores à entrevista com idosos moradores da zona rural do Rio Grande (RS).
MÉTODO
O presente estudo tem delineamento transversal e é um recorte do primeiro acompanhamento do estudo de coorte, prospectivo, intitulado "EpiRural (Estudo longitudinal da saúde dos idosos da zona rural do município do Rio Grande, RS)". Esse é um estudo de base populacional, realizado com idosos com 60 anos ou mais de idade, residentes na zona rural do município do Rio Grande, RS30.
O primeiro acompanhamento da coorte foi realizado no período de setembro de 2018 a março de 2019, e a amostra foi composta por 862 idosos que haviam participado do estudo de linha de base em 2017. A coleta de dados ocorreu nos domicílios dos idosos, por meio da aplicação de dois questionários eletrônicos, via software RedCap®. O primeiro questionário investigou características específicas do domicílio dos idosos e, preferencialmente, era respondido pelo(a) chefe de família, e o segundo investigou características específicas dos idosos e continha questões sociodemográficas, de saúde, utilização de serviços de saúde e comportamentais. Ao final, foram coletadas medidas de peso, altura do joelho e circunferência da panturrilha. As entrevistas foram realizadas por entrevistadoras treinadas e supervisionadas, sempre acompanhadas de um manual de instruções para eventuais consultas.
Para este estudo foram considerados os idosos que responderam afirmativamente à seguinte pergunta: "Desde <MÊS> do ano passado para cá o(a) Sr(a). buscou atendimento no Posto de Saúde/UBSF mais próximo/a da sua residência (não/sim)?". O desfecho, por sua vez, foi avaliado por meio da pergunta: "Na última consulta na UBSF/Posto de Saúde o(a) Sr(a). foi orientado(a) sobre a prática de atividade física (não/sim)?".
As variáveis de exposição foram: sexo (masculino/feminino); idade (60–69/70–79/80 ou mais); cor da pele (branca/preta, parda e amarela); situação conjugal (com companheiro/sem companheiro); escolaridade (sem escolaridade/1 a 4 anos/5 a 9 anos/9 anos ou mais); renda familiar (<2 salários-mínimos/≥2 salários-mínimos), autopercepção de saúde (muito boa-boa/regular/ruim-muito ruim); tabagismo (não fumante/fumante); consumo de bebida alcoólica (não/sim); uso de medicamentos de forma contínua (não/sim); hipertensão arterial sistêmica (não/sim); diabetes mellitus (não/sim); angina (não/sim); ataque cardíaco ou infarto (não/sim); insuficiência cardíaca (não/sim); enfisema ou bronquite (não/sim); asma (não/sim); acidente vascular cerebral (não/sim); reumatismo, artrite ou artrose (não/sim); osteoporose (não/sim); depressão (não/sim); aconselhamento transmitido por médicos (não/sim); aconselhamento transmitido por enfermeiros (não/sim).
Para a análise descritiva, foram calculadas as prevalências e seus respectivos Intervalos de Confiança (IC) de 95%. Para avaliar os fatores associados ao desfecho, Razões de Prevalência (RP) brutas e ajustadas e o IC95% foram calculados por meio da regressão de Poisson com ajuste robusto de variância. Empregou-se um modelo hierárquico de cinco níveis de determinação. O primeiro foi composto pelas variáveis sociodemográficas, o segundo pelas variáveis comportamentais, o terceiro nível contemplou o uso de medicamentos de forma contínua, o quarto incluiu as morbidades e o quinto nível incluiu o aconselhamento por médicos ou enfermeiros. As variáveis foram controladas para aquelas do mesmo nível ou dos níveis superiores, sendo estabelecido o valor de p≤0,20 para permanecer no modelo de análise. Os dados foram analisados no programa estatístico Stata, versão 12.0.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande (parecer no 154/2018, processo 23116.005135/2017-16).
RESULTADOS
Do total de idosos entrevistados, 490 (57,2%) referiram ter buscado atendimento na UBS no último ano. Dentre eles, a maioria era do sexo masculino (50,4%), com idade média de 72,3 anos (±8,5 DP), com um a quatro anos de estudo (52,0%) e de cor de pele branca (93,7%). Quanto à renda, 58,7% recebiam mais de 2 salários-mínimos. A autopercepção de saúde muito boa/boa foi relatada por 48,8% do idosos, e 86,6% faziam uso de medicação de forma contínua. As morbidades mais referidas foram: hipertensão arterial sistêmica (64,4%), reumatismo/artrite/artrose (45,4%) e depressão (22,6%). A prevalência de orientação para atividade física na última consulta, entre os que usaram UBS no último ano, foi de 25,5% (IC95% 19,0–26,4), conforme Tabela 1.
Características da amostra de idosos que buscaram atendimento na Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência. EpiRural Rio Grande (RS), Brasil, 2018/2019 (n=490).
A prevalência de aconselhamento para a prática de atividade física foi maior nas mulheres (29,3%), nos idosos na faixa etária de 60-69 anos (27,8%), com diagnóstico médico de insuficiência cardíaca (30,6%), asma (30,8%), osteoporose (32,3%) e depressão (30,0%). Quando as variáveis independentes foram ajustadas seguindo o modelo hierárquico, as mulheres tiveram uma probabilidade de aconselhamento 47% superior à dos homens (RP=1,47; IC95% 1,02–2,012). A idade manteve a tendência linear de associação com o desfecho, tendo os idosos com 80 anos ou mais uma probabilidade 57% menor de serem aconselhados em comparação àqueles entre 60 e 69 anos de idade (RP=0,43; IC95% 0,23–0,81). Idosos com diagnóstico médico de reumatismo/artrite/artrose tiveram probabilidade 59% maior de serem aconselhados (RP=1,59; IC95% 1,12–2,27) quando comparados aos idosos sem essa morbidade, e a probabilidade de aconselhamento mostrou-se 2,47 vezes maior nos idosos atendidos por médico (RP=2,47; IC95% 1,06–5,74), conforme Tabela 2.
Aconselhamento para prática de atividade física entre idosos da zona rural segundo variáveis independentes. Rio Grande, Rio Grande do Sul (RS), Brasil, 2018/2019 (n=490).
DISCUSSÃO
O presente estudo encontrou uma baixa prevalência de recebimento de aconselhamento à prática de atividade física por profissionais de saúde nos 12 meses anteriores à entrevista com idosos moradores da zona rural do Rio Grande (RS). Foram associadas ao desfecho as variáveis sexo, idade, presença de reumatismo/artrite/artrose e recebimento de aconselhamento pelo profissional médico.
Apenas um em cada quatro idosos referiram ter recebido aconselhamento sobre a prática de atividade física na última consulta que realizou na UBS mais próxima da sua residência. Em nível internacional, estudos desenvolvidos com idosos nos Estados Unidos26, na Europa31 e na Alemanha16 encontraram prevalências de aconselhamento sobre a prática de atividade física de 61,6%, 38,8% e 32,8%, respectivamente. No Brasil, Siqueira et al. verificaram que a prevalência de aconselhamento educativo à saúde para a prática de atividade física era maior na região Nordeste (41,8%), se comparada com a região Sul (35,5%)12. Estudo desenvolvido por Flores et al., com indivíduos de 60 anos ou mais, moradores da zona urbana do município de Pelotas (RS), encontrou uma prevalência de 58,2%10. Também em Pelotas, estudo desenvolvido com adultos acompanhados pela Estratégia Saúde da Família (eSF) encontrou uma prevalência de 35,4% de aconselhamento à prática de atividade física32.
O resultado obtido com esse estudo demonstra a necessidade de aumentar o aconselhamento à prática da atividade física entre as equipes de saúde que atuam em UBS da zona rural, visto que, na área pesquisada, a cobertura da eSF era de 100%. Sabe-se que as barreiras existentes, como restrição no tempo das consultas, preferência dos usuários pelo tratamento medicamentoso, falta de capacitação dos profissionais de saúde e falta de protocolos específicos para aconselhamento11,16 influenciam diretamente o cotidiano dos atendimentos e impedem os profissionais de saúde de adotarem essa orientação10. Somam-se, ainda, a dificuldade de acesso e a escassez de serviços de saúde e de espaços de promoção de saúde nas áreas rurais brasileiras27.
Entretanto, considerando que o referido aconselhamento não exige estrutura física, materiais e medicamentos, pode-se afirmar que o aumento da prevalência pode ocorrer quase que exclusivamente com a conscientização e mudança de atitude dos profissionais de saúde33. Além disso, os profissionais de educação física atuantes na APS podem ser peças fundamentais para capacitação dos demais profissionais de saúde, oportunizando uma melhor compreensão e incentivo ao aconselhamento adequado à prática de atividade física aos usuários da APS. Desse modo, a equipe de saúde, ao identificar as características demográficas e socioeconômicas dos moradores da área de abrangência da UBS, poderá incentivar o autocuidado e a educação em saúde, com o objetivo de atingir cobertura máxima de aconselhamento para a prática de atividade física33,34.
Em relação aos fatores associados ao recebimento de aconselhamento à prática de atividade física, os resultados são consistentes com outros estudos similares10-12 ,14,16 ,33,35 e sugerem a falta de equidade no recebimento de aconselhamento para hábitos de vida saudáveis36.
De forma geral, as mulheres, desde a menarca até a menopausa, tendem a procurar mais os serviços de saúde37 e a reportar seus problemas para os profissionais da área e, com isso, acabam recebendo mais aconselhamento sobre a prática da atividade física15. Além disso, há maior utilização dos serviços de saúde e maior envolvimento com comportamentos preventivos entre as mulheres12. Ainda, elas podem repetir o aconselhamento entre seus familiares, auxiliando na adoção de um estilo de vida mais saudável no âmbito familiar.
O aconselhamento sobre atividade física tende a reduzir conforme o aumento da idade, sendo que a menor probabilidade de recebimento de orientação foi observada entre indivíduos com 80 anos ou mais. Esse resultado também foi percebido nos estudos de Siqueira et al.12 e Hinrichs et al.16 e pode ser explicado pela associação entre o aumento da longevidade e o maior acometimento por doenças crônicas e a menor capacidade funcional dos idosos, o que acaba gerando insegurança nos profissionais de saúde acerca dos reais benefícios da atividade física para essa faixa etária16. No entanto, é importante que os profissionais de saúde aconselhem todos os idosos sobre a importância de se manterem ativos e de reduzirem o comportamento sedentário, aumentando o nível de atividade física12.
A associação encontrada entre o diagnóstico de doenças reumatológicas e a maior probabilidade de receber aconselhamento para a prática de atividade física também foi identificada no estudo de Hinrichs et al.16 A explicação para esse resultado pode estar relacionada ao fato de o portador de reumatismo/artrite/artrose ter o sistema osteomuscular afetado e, com isso, ter a sensação crescente de incapacidade devido a dores, perda do condicionamento cardiovascular e respiratório e limitações da amplitude de movimento articular. Devido a essa condição de saúde, a prática de atividade física deve ser aconselhada para que esses indivíduos possam melhorar sua qualidade de vida, conservando sua capacidade funcional38.
Embora toda a equipe da APS deva estar capacitada para ofertar o aconselhamento educativo sobre a importância da prática de atividade física aos idosos que buscam atendimento na UBS, observou-se que o médico foi o profissional que mais utilizou essa estratégia. Os estudos de Hallal et al.39 e Duro et al.15, desenvolvidos com adultos, também verificaram esse resultado, que sugere a incorporação pelos profissionais médicos das práticas voltadas para a prevenção de riscos e promoção de saúde e o abandono das práticas tradicionais, centradas em oferta de serviços voltados para a cura das doenças14. Nesse sentido, ressalta-se a importância da existência de mais espaços de cuidado em saúde que motivem e que realizem práticas de atividades físicas, seja nas UBSs, em ambientes comunitários ou em outros espaços públicos, incentivando a oferta desses serviços para a população rural.
Em contrapartida, na maioria das vezes a busca por um profissional de saúde só é feita quando a doença já está instalada40. Falta, assim, espaço para a orientação de promoção à saúde adequada por parte dos outros profissionais que compõem a equipe de trabalho. Vale ressaltar que se soma a isso a falta de profissionais de saúde dentro das UBSs, a falta de Médicos de Família e Comunidade (MFC) e a alta demanda espontânea, que impedem o desenvolvimento de ações de prevenção e promoção à saúde no contexto da APS40,41.
O fato de haver uma maior busca por consultas médicas, acesso a medicamentos e a encaminhamentos médicos centraliza a visão do indivíduo sobre sua doença41. Portanto, pode-se supor que os profissionais de saúde não têm tempo para orientar práticas de atividade física devido à alta demanda.
Em recente revisão, Socoloski et al.42 destacam que as principais barreiras para a prática de atividade física entre idosos são: dor, doença ou lesão, falta de segurança, medo de cair, se machucar e sentir-se suficientemente ativo. Portanto, a correta orientação e o aconselhamento educativo sobre a prática de atividade física são importantes de serem discutidos na rotina de cuidado dessa população.
Os resultados encontrados evidenciam a importância de toda a equipe da APS estar capacitada para oferecer aconselhamento educativo sobre hábitos saudáveis e de reconhecer a sua importância para a mudança de comportamento dos indivíduos. A adesão dos idosos a esses hábitos e a prática de atividades físicas irão proporcionar benefícios para um envelhecimento mais saudável30,43 ,44. Especificamente nas áreas rurais, apesar das dificuldades de acesso30, é possível que os idosos tenham um ambiente mais favorável à execução dessas práticas ao ar livre ou na própria UBS, com a organização de grupos direcionados para esse objetivo.
Entre as limitações do presente estudo, deve-se mencionar o viés de mensuração, uma vez que as variáveis utilizadas foram autorreferidas e que o recordatório relativo à última consulta era de um ano. Além disso, não foi questionado se os idosos aderiram ou não às orientações sobre a prática de atividade física. Por outro lado, destaca-se o rigor metodológico com que foram conduzidas todas as etapas do estudo. Além disso, há que destacar o fato de tratar-se do primeiro estudo de base populacional com amostra representativa e com baixo percentual de perdas e recusas sobre a prevalência de aconselhamento sobre atividade física e os fatores associados entre idosos residentes em zona rural.
Como conclusão, os achados deste estudo revelaram que o recebimento de aconselhamento em relação à prática de atividade física em idosos que vivem em área rural não é universal. Tendo em vista os benefícios da atividade física para a funcionalidade e qualidade de vida, essa orientação deve ser entendida como uma prática comum entre os profissionais da APS, sendo extremamente importante o aconselhamento por todos os profissionais e a todos os idosos, assim como a necessidade de implementação de políticas públicas para o incentivo de atividade física. Ainda, sugere-se a realização de novos estudos para avaliar tanto a prevalência de aconselhamento como a adesão ou não à orientação ofertada pelo profissional de saúde e a construção de protocolos específicos de aconselhamento à população idosa pelos profissionais de saúde da APS.
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Editor:
Guilherme Werneck
