Open-access Ocorrência de resistência a acaricidas do Rhipicephalus microplus em municípios brasileiros: uma revisão integrativa

Resumo

O objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão integrativa sobre a resistência do carrapato Rhipicephalus microplus a acaricidas sintéticos, com levantamento dos Municípios brasileiros onde foram realizadas as coletas para os testes de resistência. A busca foi conduzida nas bases de dados Biblioteca Virtual em Medicina Veterinária e Zootecnia (BVS-Vet), Google Scholar, Portal de Periódicos da CAPES, Web of Science, Scopus e PubMed, considerando publicações entre 2004 e 2025. Foram selecionados 46 estudos que atenderam aos critérios de inclusão. A análise revelou que a maioria das pesquisas foi conduzida nos Estados do Rio Grande do Sul (69 Municípios), Minas Gerais (66) e Mato Grosso do Sul (40). Nos demais Estados, foram observados poucos ou nenhum registro. O número de Estados, Municípios e publicações encontradas para os piretróides foram 11, 249, 35; organofosforados 11, 145, 28; carbamatos 1, 37, 3; formamidina 12, 178, 27; fenilpirazol 8, 65, 12; lactonas macrocíclicas 8, 27, 16 e benzilureia 6, 15, 10, respectivamente. Considerando que a pecuária está presente em 4.939 Municípios brasileiros, verifica-se que os dados disponíveis sobre resistência ainda são limitados. Esses resultados reforçam a necessidade de implantação de políticas públicas voltadas à elaboração e execução de um plano nacional de combate ao carrapato bovino.

Palavras-chave:
biocarrapaticidograma; ectoparasitos; geolocalização; epidemiologia.

Abstract

The objective of this study was to conduct an integrative review on the resistance of the tick Rhipicephalus microplus to synthetic acaricides, surveying the Municipalities where collections for resistance testing were carried out. The search was conducted in the Virtual Library of Veterinary Medicine and Animal Science (BVS-Vet), Google Scholar, CAPES Journal Portal, Web of Science, Scopus, and PubMed databases, considering publications between 2004 and 2025. Forty-six studies that met the inclusion criteria were selected. The analysis revealed that most of the research was conducted in the states of Rio Grande do Sul (69 Municipalities), Minas Gerais (66), and Mato Grosso do Sul (40). In the other states, few or no records were observed. The number of states, Municipalities, and publications found for pyrethroids were 11, 249, and 35; organophosphates 11, 145, and 28; carbamates 1, 37, 3; formamidine 12, 178, 27; phenylpyrazole 8, 65, 12; macrocyclic lactones 8, 27, 16; and benzylurea 6, 15, 10, respectively. Considering that livestock farming is present in 4,939 Brazilian Municipalities, available data on resistance are still limited. These results reinforce the need to implement public policies aimed at developing and implementing a national plan to combat cattle ticks.

Keywords:
laboratory tests of acaricides; ectoparasites; geolocation; epidemiology.

1. Introdução

O carrapato-do-boi, além do sofrimento que infringe aos animais, também é responsável por prejuízos econômicos de grande monta. Miloca et al.(1), ao realizar pesquisa regional no Estado do Paraná e extrapolando os dados para o rebanho brasileiro, previu que somente os custos de aquisição dos produtos podem ser de US$1,733 bilhão. Em estudos conduzidos por Grisi et al. (2) investigando os prejuízos nacionais na produção de leite e carne encontrou o valor de U$ 3,24 bilhões anuais no Brasil.

Por sua vez, o estudo com simulações econométricas realizado por Calvano et al. (3), com animais mestiços em três sistemas produção identificou as seguintes diferenças entre rebanho infestado e tratados com carrapaticidas: sistema extensivo diferiu em 6,13 % na produção de carne por hectare; sistema semi-intensivo em 1,22 %; e no sistema intensivo em 3,25 %. Já em estudo realizado na Índia, Singh et al. (4) constatou que os prejuízos em animais mestiços podem chegar a 65.63 % e nos animais autóctones a 9,73 %. Esses dados justificam-se pela resistência natural que os animais zebuínos desenvolveram em um processo de coevolução com esse ectoparasita (5).

Considerando os estudos supracitados, que o rebanho brasileiro era de 238.626.442 cabeças em 2023 (6), que a maioria do rebanho brasileiro de corte é criado em sistema extensivo e o preço médio do bezerro em 2024 de R$ 2.172,60 (7) (escolhido o preço do bezerro para não superestimar os valores), é possível estimar um prejuízo de 31,8 bilhões de reais anuais. Entretanto, faz-se a ressalva da necessidade e aprimorar os estudos sobre os prejuízos que o carrapato-do-boi promove, pois, segundo Vanderstichel, (8), Jonsson (9) e Jongejan e Uilenberg (10), as equações econométricas utilizadas para esses estudos não são adequadas, bem como os dados são generalizações muito amplas que podem resultar em dados não confiáveis.

Além dos prejuízos diretos o carrapato também pode ser responsável pela transmissão dos parasitos responsáveis pela Tristeza Parasitária Bovina (11), que pode levar à morte animais que não tenham desenvolvido resposta imunológica contra essa enfermidade. Frente a tais prejuízos e da obrigatoriedade em criar os animais em condições de bem-estar, o controle do carrapato do boi é uma atividade constante nas propriedades brasileiras (12). Entre as opções apresentadas para esse tratamento, as moléculas químicas sintéticas e semissintéticas, são as mais utilizadas (13). Todavia, esse método enfrenta uma grande dificuldade que é a seleção de populações resistentes após o uso repetitivo na mesma localidade (14).

Os genes responsáveis por proporcionar a resistência aos ingredientes ativos podem ser, no início do processo, pouco frequentes na população. Entretanto, conforme avança o uso do ingrediente ativo, promove-se uma pressão de seleção, ou seja, os indivíduos com resistência serão selecionados e aumentarão paulatinamente, resultando na formação de uma população predominantemente resistente (15). A velocidade de formação da população resistente dependerá de como são aplicados os ingredientes ativos, dos fatores ligados aos genes que proporcionam a resistência e das características do meio ambiente. No caso dos genes, são determinantes a frequência inicial dos alelos da resistência e o modo de herança do alelo resistente (dominante, co-dominante ou recessivo). Quanto às formas de aplicação, dependerá se foram realizadas nas concentrações adequadas, da qualidade dos fármacos escolhidos, se houve ou não manejo racional das moléculas e a disponibilidade de locais que sirvam de refúgio para as futuras gerações e que não sejam atingidos pelos carrapaticidas (16). Fator também importante é o trânsito de animais que pode inserir esses indivíduos resistentes em novos ambientes, ampliando o problema e diminuindo as opções de controle (17).

Por isso, faz-se necessário conhecer detalhadamente o perfil de resistência das populações em relação aos carrapaticidas e promover o uso racional destes para retardar o aparecimento da resistência (18). O uso dos carrapaticidas, mesmo seguindo as recomendações técnicas das empresas que os produzem, tem o potencial de realizar pressão de seleção e promover a formação de populações resistente. Portanto, o mal-uso desses produtos poderá acelerar e intensificar esse processo constituindo populações multirresistentes. A consequência desse uso intensivo aumenta as possibilidades de contaminação de carne e leite, que, ao serem consumidos, podem promover a intoxicação de seres humanos ocasionando distúrbios neurotóxicos e do sistema endócrino, alergias, tosses e anormalidades da função pulmonar. Esse quadro reforça a demanda por pesquisas e tecnologias que promovam o uso de produtos naturais com menores impactos ambientais e na saúde humana (19).

Todavia, a seleção de substratos e/ou óleos essenciais com potencial acaricida e o desenvolvimento, a partir destes, de produtos autorizados para comercialização envolvem pesquisas complexas e longas, como também sua obtenção não é simples e faltam testes in vivo, o que tem dificultado o surgimento de produtos comerciais desta natureza (20, 21). Convém destacar que, diferentemente dos produtos puramente sintéticos, os de origem vegetal apresentam uma gama muito maior de variabilidade em sua composição e, por esse motivo, é menor a possibilidade de ocorrer a seleção de populações de carrapatos resistentes. Porém essa qualidade positiva dos compostos de origem vegetal exige mais tempo e investimentos para os testes de segurança e padronização de seu uso (22).

O controle químico é o mais utilizado no combate ao carrapato (23). Portanto, não se deve descartar a necessidade do uso do controle químico sintético, mas, ao contrário, verifica-se necessário manter os ingredientes ativos viáveis, evitando o processo de exaustão dos mesmos. Entretanto, para essa finalidade, é necessário conhecer a situação de resistência no País e essas informações servirem de base para a elaboração de uma política pública que possa implementar o uso racional dos acaricidas comerciais.

Neste sentido, esta pesquisa propôs realizar um levantamento dos estudos sobre a resistência do carrapato Rhipicephalus microplus frente aos acaricidas sintéticos, indicando os Municípios onde os carrapatos foram coletados para a realização dos testes de resistência, como o biocarrapaticidograma, e os seus respectivos Estados.

2. Material e métodos

A proposta metodológica foi realizar uma revisão bibliográfica do tipo integrativa, a qual consiste das seguintes etapas: definir as informações a serem extraídas, realizar a pesquisa bibliográfica, compilar e avaliar os dados, analisar os dados, interpretar e apresentar os resultados (24). Os parâmetros de pesquisa e seleção das informações foram: i. Selecionados somente trabalhos que realizaram os testes de resistência de R. microplus aos carrapaticidas: teste de imersão de adultas, teste de imersão de larvas e teste de pacote de larvas); ii. O surgimento de resistência adotado foi o da Organização Mundial da Saúde (World Health Organization), ou seja, quando a eficiência nos testes foi menor do que 95 % (25); e iii. Selecionados somente trabalhos que identificaram os Municípios onde foram registrados os fenômenos de resistência.

As bases de dados utilizadas foram Biblioteca Virtual em Saúde - Medicina Veterinária e Zootecnia (BVS - VET), Google Academic, o Portal de Periódicos da Capes, Web of Science, Scopus e PubMed. Os descritores utilizados e suas combinações para selecionar os artigos alvo foram: “evaluation” AND “resistance” AND “Pyrethroids” AND “Rhipicephalus microplus” AND “Brazil”. Sendo o terceiro descritor alterado em cada pesquisa segundo a lista: Cypermethrin, Deltametrin, Alphametrin, Organophosphorus, Dichlorvos, Vapona, Chlorfenvinphos, Supona, Carbamate, Carbaryl, Amitraz, Formamidine, Fipronil, Phenylpyrazoles, Macrocyclic Lactone, Ivermectin, Abamectin, Doramectin, Eprinomectin, Spinisyn, Fluralaner, Benzoylurea e Isoxazoline e suas versões em português.

Com a aplicação dos descritores selecionaram os artigos que, em seguida, foram submetidos aos critérios de exclusão. Em seguida foram extraídos dos artigos selecionados os dados sobre o fenômeno de resistência, construídas as Tabelas de cada grupo de ingredientes ativos, indicando os Estados, Municípios e respectivos autores. A partir dos dados organizados nas Tabelas, foram gerados nos ambientes Google Earth e Inkscape mapas com cada Estado e os Municípios indicando os fenômenos de resistência segundo os ingredientes ativos (Figuras S1, S2 e S3). Por fim, foi realizada uma análise quantitativa e qualitativa das informações obtidas para determinar se há uma padronização dos estudos realizados no Brasil ou por Estado que permita estabelecer informações epidemiológicas sobre o parasito e métodos de controle mais eficientes.

3. Resultados

Com os descritores foram encontrados 146 artigos e depois da seleção, 46 preencheram os requisitos estabelecidos nos critérios de exclusão. Os resultados foram consolidados e apresentados na forma de Tabelas 1 a 9. As Tabelas 1 a 7 apresentam as classes de acaricidas, os Municípios brasileiros em que foram identificados a resistência, seus respectivos Estados e as referências dos estudos realizados.

Tabela 1
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Piretróides (permetrina, deltametrina e cipermetrina).
Tabela 2
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Organofosforados (diazinon, dioxation, coumafós, carbofenotion, etion, fosmet, crotoxifós, clorfenvinfós, bromofosetil e clorpirifós).
Tabela 3
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Carbamatos (carbaril e promacil).
Tabela 4
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Formamidina (amitraz e cimiazol).
Tabela 5
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Fenilpirazol (Fipronil).
Tabela 6
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Lactonas Macrocíclicas (abamectina, doramectina, eprinomectina, ivermectina, milbemectina e moxidectina).
Tabela 7
Municípios e Estados brasileiros com registros da presença de Rhipicephalus microplus resistentes à Benzilureia (fluazuron).
Tabela 8
Estados, quantidade de Municípios e de estudos da resistência do Rhipicephalus microplusrealizados com cada acaricida.

Na Tabela 8 encontra-se discriminados o número de Municípios brasileiros, bem como o número de estudos realizados em cada classe de acaricidas em que foram detectadas resistência.

Tabela 9
Número de Municípios brasileiros e referências por Estado em que foram relatadas populações de Rhipicephalus microplus resistente aos acaricidas sintéticos, número de cabeças por Estado e percentual em relação ao rebanho nacional.

A Tabela 9 sintetiza o total de estudos (46) em que foi detectado a resistência em 268 Municípios brasileiros.

4. Discussão

Ao consolidar os dados (Tabelas 8 e 9), constatou-se que as pesquisas de resistência foram realizadas com material de 18 Unidades Federativas, em um total de 27 Unidades Federativas (Figs. S1; S2 e S3). Quanto aos Municípios, o IBGE (70) apontou que 4939 realizam pecuária bovina, mas os artigos analisados apontam 292 Municípios, ou seja, 5,92 % realizaram algum levantamento sobre o status de resistência do carrapato bovino. Importante destacar que os dados não indicam maior incidência do parasito nos Estados, mas sim que nestes foram realizados estudos sobre a resistência. Como também o valor de 292 não engloba outros levantamentos de resistência que possam ter sido realizados, mas não foram publicados em artigos.

No Estado do Rio Grande do Sul (RS) foram encontrados 10 estudos e identificados 69 Municípios com resistência (Tab. 9 e Fig. S2). Este resultado representa 13,88 % do total de 497 Municípios que compõe o Estado. Esse número de estudos de resistência detectada no Estado do Rio Grande do Sul deve-se à implantação de Políticas Públicas com apoio de instituições de ensino e pesquisa que desenvolvem trabalhos com testes de resistência aos carrapaticidas (71). Ademais, o Rio Grande do Sul conta com o curso de pós-graduação (nível mestrado e doutorado) na Universidade Federal de Santa Maria, com área de concentração em Patologia e Patologia Clínica Veterinária e Sanidade e Reprodução Animal (72) e também com o Instituto de Pesquisa Veterinárias Desiderio Finamor com programa de mestrado em saúde animal (73).

Em Minas Gerais foram realizados 13 estudos e identificados 64 Municípios com resistência (Tab. 9 e Fig. S.1). Este número de Municípios representa 7,50 % dos Municípios que compõe o Estado. Esses estudos de resistência do carrapato-bovino em Minas Gerais, provavelmente, são devido à presença da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Gado de Leite).

No Estado do Mato Grosso do Sul (MS) foram realizados 6 estudos, que identificaram resistência em 40 Municípios, que representa 49,37 % dos 79 do Estado (Tab. 9 e Fig. S1). No caso do Mato Grosso do Sul o número de estudos deve-se, provavelmente, à presença da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Gado de Corte) e, como é um Estado com número menor de Municípios, resulta em um elevado percentual das localidades estudadas. Destaca-se que no caso da Embrapa, há testes de resistência realizados em suas unidades no território brasileiro, como Embrapa Pecuária Sul (74), Embrapa Rondônia (75) e outras já citadas no trabalho que poderiam fornecer muitos dados para estudos similares a esse. Todavia, os dados desses testes de resistência não são disponibilizados.

No Estado da Paraíba, foram encontrados 4 estudos sobre 29 Municípios, representando 13,00 % do total. Nos Estados de São Paulo e Bahia foram 22 e 21 respectivamente (Tab.9 e Fig. S1). Quanto aos demais Estados, os números de Municípios não foram representativos em relação ao total (Tab. 9 e Figs. S2 e S3). Demonstrando a necessidade de um aprimoramento em nível nacional para realização e registro de mais estudos sobre o fenômeno da resistência do carrapato bovino.

Ressalta-se o fato de 9 Unidades Federativas não apresentarem levantamentos da situação de resistência em seus territórios por meio de publicações cientificas, fato que reforça a constatação que falta no país um estudo sistemático do ectoparasito e da sua resistência às moléculas químicas aqui estudadas.

Os dados levantados indicam que as pesquisas mais amplas foram realizadas pelas unidades da Embrapa: Gado de Corte (MS), Gado de Leite (MG), e Embrapa Pecuária Sudeste (SP) (Fig. S1), pois essa instituição possui estrutura e pesquisadores para tais estudos e recebem material de produtores que desejam conhecer o perfil de resistência das populações de parasitos em seus rebanhos. Essa informação indica que a Embrapa pode ser a instituição para estabelecer um projeto nacional para o estudo sistemático do perfil de resistência às moléculas dos carrapaticidas e elaborar as estratégias de manejo racional para diminuir os efeitos do fenômeno da resistência. Estudos sistêmicos também poderiam ser realizados por instituições estaduais e em parceria com as universidades que realizam pesquisas sobre esse parasito.

O Rio Grande do Sul, Estado que abrangeu o maior número de Municípios estudados, teve os estudos concentrados nas regiões central e oeste do Estado (Fig. S1). Provavelmente devido às pesquisas realizadas pelas instituições públicas do Estado. Na região Centro-Oeste, o Estado do Mato Grosso do Sul apresentou estudos de resistência na maior parte dos Municípios e com uma distribuição por todo o território estadual. Sendo que a hipótese para a maior amplitude de estudos é a presença da Embrapa Gado de Corte.

Dentre os seis Estados com os maiores valores de produção leiteira (MG, PR, RS, SC, GO e SP) (76), somente o Estado do Rio Grande do Sul, nas regiões Central e Oeste, realizou levantamento de resistência em número de Municípios (69 em um total de 497) que representa quase a totalidade de Municípios da região centro-oeste. Convém lembrar que, na maioria das vezes, o gado leiteiro é de origem europeia (Holandês, Jersey e Pardo Suíço) e os animais dessa origem são os mais suscetíveis ao ectoparasito. Portanto, faz-se necessário que nesses Estados o número de estudos e a sua sistematização fossem o suficiente para uma compreensão epidemiológica do fenômeno de resistência (77, 78).

Os dados apresentados nesse estudo demonstram que o Estado do Rio Grande do Sul é uma região com grande incidência de resistência do carrapato-do-boi aos carrapaticidas. Entretanto, é importante observar que os Estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e parte da região sul (SC e PR) apresentam um clima que é mais favorável ao desenvolvimento do parasito (79), todavia, não são registrados casos de resistência, provavelmente, devido à falta de estudos sobre o fenômeno da resistência.

A região Nordeste, que apesar de ter temperaturas favoráveis ao carrapato, apresenta baixa umidade, que diminui a capacidade reprodutiva quando em fase de vida livre (80, 81). Na região Norte o clima é bastante favorável ao desenvolvimento do carrapato-do-boi (82), entretanto, é possível que pelo fato desses Estados atuarem em criação de gado zebuíno (Nelore, Tabapuã e Brahman), o parasito não tenha sido um problema tão grande (83, 84).

Frente aos estudos aqui sistematizados, conclui-se que o carrapato bovino é um parasito complexo a ser combatido. Sua capacidade reprodutiva e ampla resistência ao controle químico exige dos produtores rurais e assistentes técnicos que desenvolvam estratégias de controle especificas para cada rebanho ou situação. Todavia, o desenvolvimento dessas estratégias exige um conhecimento pormenorizado do status de resistência da população de parasito que se busca controlar, ou seja, o controle efetivo exige que sejam realizados testes de resistência de forma sistemática no rebanho. Todavia, não há no Brasil ou Estados alguma determinação estatal que condicione a realização desses testes de resistência e essa falta de estudos fragiliza a capacidade de decisão de produtores e técnicos, o que leva a maior constância de aplicações de carrapaticidas.

Essas aplicações com intervalos e concentração não recomendadas são responsáveis por intensificar a pressão de seleção sobre as populações do parasito, aumentando o número de indivíduos resistentes e, quando essa má-prática é realizada com diversos produtos, têm-se o fenômeno da múltipla resistência (33, 36, 41, 44, 50). Por fim, as aplicações multiplicar-se-ão e essa prática acaba por expor os trabalhadores, consumidores e meio ambiente a maiores possibilidades de contaminações. Portanto, é importante programar um estudo sistêmico no país para racionalizar o uso de carrapaticidas enquanto são desenvolvidos métodos que evitem o uso de moléculas químicas.

Segundo Abbas et al. (4), a aplicação prolongada de um único acaricida resultará na fixação de alelo que proporciona a resistência, todavia, a rotação de ingredientes ativos foi capaz de evitar o surgimento de resistência. Entretanto, essa técnica necessita ser aplicada de forma sistêmica em todo o território nacional para evitar que parasitos com alelos de resistência em grande proporção espalhemse por meio do comércio entre propriedades ou contatos de vizinhança. O que reforça a importância de uma sistemática de geolocalização das fontes de resistência e que também sirva para orientar as rotações de ingredientes ativos nas propriedades.

Os dados sistematizados de geolocalização da ocorrência de cepas resistentes podem ser utilizados para tratamentos preventivos ao deslocar gado aos locais que não tenham o fenômeno da resistência. Na África, a observação de fazendas comerciais que atuavam de forma mais rígida quanto à circulação de animais infestados, permitiu constatar uma diminuição no fenômeno da resistência (85).

Os estudos sistematizados geolocalizados propiciarão maior fonte de dados para comparar os resultados a campo e in vitro, que servirá para aprimorar os algoritmos que relacionam os testes em laboratório com os resultados em campo e para definir as melhoras formas de aplicação dos produtos (86, 61).

Nos estudos não há uma sistemática de distribuição dos Municípios que permita estabelecer uma padronização do parasitismo e do fenômeno de resistência. Segundo o Dicionário de Epidemiologia de Oxford (86), é essencial que o estudo de controle da doença elucide suas determinantes e distribuição. Para Sobral e Souza-Santos (79), o estudo de distribuição espacial é ferramenta essencial para traçar estratégias de combate às enfermidades e, com certeza, esta técnica pode ser aplicada aos casos da medicina veterinária. A este problema, soma-se a falta de informações entre os produtores sobre o controle de ixodídeos e ausência de métodos alternativos de controle (80).

O trabalho de sistematização dos estudos sobre resistência deve ser constante, pois o perfil de resistência pode apresentar variações no espaço e no tempo. Além disso, as características genéticas do parasito, do gado, o sistema de manejo, a composição do produto comercial utilizado, o intercâmbio de gado entre diferentes regiões irá promover essa dinâmica nas características da resistência. Sugere-se que seja elaborado um projeto em rede com uma plataforma na internet onde possam ser inseridos os dados de levantamentos de resistência, juntamente com os dados que influenciam no comportamento das populações do parasito, como por exemplo, regime de chuvas, temperaturas, insolação, entre outras. Essa plataforma, onde serão inseridos os dados, deve ter a capacidade de processamento de dados geolocalizados, apresentando como produto mapas do perfil do parasitismo por região e no país como um tudo.

Segundo o estudo de Higa et al. (29), no Estado do Mato Grosso do Sul, Município de Campo Grande, foram recolhidas amostras que apresentaram resistência aos organofosforados e outros sem resistência. Fato que reforça uma das propostas desse artigo, que é a necessidade de geolocalizar por propriedade o fenômeno de resistência encontrada, incluindo os dados ambientais e do hospedeiro para melhor entender o desenvolvimento do parasitismo e como combatê-lo.

Destaca-se que já existem softwares capazes de realizar esse processamento de informações geolocalizadas (SPRING-INPE (88) e GEODA (89)) e ainda há a possibilidade do uso de ferramentas de inteligência artificial (Machine Learning (90)) para realizar cruzamento de informações e estabelecer padrões que sobre as características do ambiente, do hospedeiro e do parasito. Com essas informações ampliam-se a possibilidade de elaborar novos planos de manejo com melhor administração do uso de moléculas químicas.

Outro aspecto observado nesta revisão foi que não há uma padronização de metodologia para coleta dos parasitos e amparo legal para coletas obrigatórias nas propriedades. Portanto, os pesquisadores ficam restritos às produções de unidades de pesquisa ou de produtores que concordem em participar espontaneamente do estudo. Salvador et al. (61), verificaram que há inconsistências entre os testes laboratoriais e os testes de campo, especialmente para produtos à base de cipermetrina e clorpirifós e lactonas macrocíclicas. Anterior a esse estudo, Santos et al. (87), constataram que os testes pacote com larvas, imersão larval e imersão em seringa para o Amitraz, não chegaram a resultados com similaridade suficientes para afirmar serem, estatisticamente equivalentes ao fenômeno no campo.

Entretanto, com estudos sistematizados e geolocalizados do fenômeno de resistência, é possível estabelecer uma melhor relação preditiva entre a capacidade de controle de carrapaticidas testados em laboratório e que realmente será obtido a campo. Por fim, Jongejan et al. (52) destacam que é necessário desenvolverem testes mais rápidos para poder ser realizar um estudo mais amplo de rebanhos infestados, entretanto, esses novos testes também precisam ser padronizados por meio de estudos de comparação em maior escala.

5. Conclusão

Frente à situação atual, quatro conclusões são possíveis a partir dos dados encontrados: i. a múltipla resistência mostra-se inevitável e, provavelmente, vai ocorrer com novas moléculas; ii. faltam dados geolocalizados; iii. São necessários mais estudos para que os testes em laboratório reflitam com mais precisão a realidade da resistência a campo; v. não há apresentação de um plano nacional para controle do R. microplus. Essas constatações reforçam a necessidade de uma instituição federal assumir a coordenação e em conjunto com entidades estaduais, planejem e apliquem um plano para confrontar o parasito e suas consequências. Por fim, conclui-se que a sistematização e disponibilidade das informações sobre o fenômeno de resistência, por meio dos testes de resistência padronizados em comparação a dados de experimentos de campo, pode subsidiar os profissionais de medicina veterinária ao receitar os carrapaticidas e as empresas fabricantes em suas pesquisas sobre dosagem e combinação de produtos.

Material suplementar

(Disponível apenas na versão online: https://revistas.ufg.br/vet/article/view/81941)

Supplementary PDF

Resumo Gráfico.

Figura S1. Mapa de ocorrência da Resistência de Rhipicephalus microplus aos acaricidas sintéticos nos Estados do Rio Grande do Sul (1A), Minas Gerais (1B); Mato Grosso do Sul (1C); Paraíba (1D); São Paulo (1E); Bahia (1F), Brasil. Figura S2. Ocorrência da Resistência de Rhipicephalus microplus aos acaricidas sintéticos nos Estados Pernambuco (2A), Paraná (2B); Rondônia (2C); Espirito Santo (2D); Ceará (2E); Goiás (2F), Brasil.

Figura S3. Ocorrência da Resistência de Rhipicephalus microplus aos acaricidas sintéticos nos Estados Pará (3A), Rio de Janeiro (3B); Santa Catarina (3C); Distrito Federal (3D); Mao Grosso (3E); Rio Grande do Nortes (3F), Brasil.

Declaração de uso de IA generativa

Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de inteligência artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.

Declaração de disponibilidade de dados

O conjunto completo de dados que suporta os resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • Editor:
    Luiz Augusto B. Brito

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Mar 2025
  • Aceito
    06 Out 2025
  • Publicado
    25 Fev 2026
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