Resumo
O presente artigo reverbera as inquietações que desaguam em uma tese em andamento, que se debruça sobre os processos de subjetivação que organizam a educação. Tais inquietações são expressas por meio de uma política de escrita pós-estruturalista, a fabulação criadora, um conceito agenciado no filósofo Gilles Deleuze. Essa escrita é um exercício para uma micropolítica ativa, que busca tensionar as relações de poder e saber que subjetivam os corpos dos povos minoritários, tornando-os corpos úteis. Nesse processo, uma professora de física se constitui na personagem conceitual. O racismo a persegue de fio a pavio. Encontros ocorrem num curso de licenciatura em Física: “O problema é que vocês têm defasagens”, assim são engendrados debates (de)coloniais na pós-graduação, encontros(afinados) com o debate de(colonial). E na docência: “é você que coloca canetas de lousa na sala?” Diante disso, uma escavação às entranhas do racismo é realizada por acadêmicos que refutam a história hegemônica, negando a visão ocidental que estabeleceu uma régua para medir e segregar esse corpo chamado humanidade. Longe de fornecer respostas prontas para o fim do racismo na educação, desfiam-se as linhas de força da maquinaria do poder, abrindo caminho para linhas de acontecimentos.
Palavras-chave:
Fabulação criadora; Ensino de física; Racismo; Decolonialidade; Processos de subjetivação
Abstract
This article echoes concerns that culminate in an ongoing thesis that focuses on the processes of subjectivation that organize education. These concerns are expressed through post-structuralist writing policy, the creative fabulation, a concept assembled by the philosopher Gilles Deleuze. This writing is an exercise in active micropolitics that seeks to challenge the power and knowledge relations that subjectify the bodies of minority groups, rendering them useful bodies. In this process, a physics teacher becomes the conceptual character. Racism haunts her relentlessly. Encounters occur in a physics teaching degree course: ‘The problem is that you have gaps in your knowledge’, thus generating (de)colonial debates in postgraduate studies, encounters (aligned) with the (de)colonial debate. And in teaching: ‘Are you the one who puts whiteboard markers in the classroom?’ In light of this, an excavation into the entrails of racism is undertaken by academics who refute hegemonic history, denying the Western view that established a yardstick to measure and segregate this body called humanity. Far from providing ready-made answers for ending racism in education, they unravel the lines of force of the machinery of power, paving the way for lines of events.
Keywords:
Creative fabulation; Physics teaching; Racism; Decoloniality; Processes of subjectivation
1 Introdução
Essa escrita busca evidenciar as linhas de força do racismo, que contribuem para a manutenção de um sistema hegemônico, que normatiza o homem branco ocidental como padrão e naturaliza que os não brancos, em especial, os negros, sejam vistos como degenerados. Nesse sentido, a identidade do negro surge à medida que o branco não o reconhece como um reflexo de si mesmo e o classifica como o outro , uma outra coisa, apartada desse corpo chamado humanidade. Metaforicamente, pode-se considerar que linhas de força do racismo se estendem continuamente pelo espaço-tempo, (de)formando as relações humanas, gravitando pelas instituições de saber, sendo que até mesmo a escola, que ilumina as habilidades e competências dos estudantes, compõe esse diagrama. Considerando isso, buscamos discutir os processos de subjetivação que engendram as relações que envolvem uma mulher-negra–professora-de-Física. Assim, num exercício de promover uma política de escrita, inspirada na fabulação, pretende-se percorrer caminhos outros que possibilitam rotas de fuga, criação de territórios dentro de rizomas ( Deleuze; Guattari, 2011 ).
Buscando uma escrita que movimente linhas de força produzidas pela maquinaria educacional que tensiona um corpo-mulher-negra-e-Física, esse texto é movimentado a partir da fabulação criadora. Esse conceito é agenciado no pensamento do filósofo Gilles Deleuze, que se constitui numa micropolítica ativa que expõe, dobra, torce, problematiza relações de forças engendradas pelo racismo. Se na fábula, os animais ou objetos criados são convocados a representar o comportamento humano, para produzir um ensinamento moral, a fabul(ação) coloca a fábula em movimento, e questiona as verdades pré-estabelecidas ( Cammarota, 2015 ). Fabular é profanar o território hegemônico e inventar caminhos ziguezague-antes, no fio da navalha, reconhecendo que nenhuma passagem é linear. É espreitar o diagrama e se mover devagarinho, escutando os signos do ambiente, se recriando no processo, sem a ambição do que vai alcançar no por-vir, para não assustar o devir.
Fabular-em-ação é se inventar no processo. Por esse motivo, é um ato violento, já que requer que o seu corpo, a sua grande razão, seja esburacado, para desaguar as linhas de potência, que são dobras das linhas de força. O fabular é movimentado por uma personagem conceitual, uma professora negra de física que exprime a forma com que é afetada pelos processos de subjetivação, durante a sua escolarização. Ela é atravessada pelo racismo do fora ao fora. Ao invés de um devir, o racismo lhe imprimiu o dever: dever-ser-degenerada; dever-ser-moída-pelo-homem-branco; dever-representar-sua-raça, o dever-negro. E isso a levou a devires reativos. O racismo não poderia impedi-la de viver e realizar os seus sonhos.
E ela cumpriu o check-list . Estudou. Estudou. Estudou. Arrumou um subemprego. Entrou na universidade. Arrumou um emprego. Se formou. Arrumou um bom emprego. Professora de Física numa escola de elite. Supriu as necessidades financeiras do pai, da mãe e dos irmãos. E, assim, ela chegou lá, no topo que lhe fora permitido chegar. E de lá, do alto da base da pirâmide social, o dever-ser-negro a captura: “Vocês cotistas têm defasagens”. E-de-novo-dever-ser-degenerada. E, agora, na escola, no exercício da docência: “é você quem coloca as canetas de lousa na sala? ”. Dever-ser-moída-pelo-homem-branco. Ela se sente como um fio de ioiô nas malhas do poder e saber, ora tensionada até as profundezas do seu limite, ora recolhida nas mãos de um sistema educacional, que decidirá quando será o seu próximo movimento. Nesse sentido, essa escrita-fabulação intenciona uma experiência-limite, que visibiliza as linhas de força que assujeitam a personagem, tensionando os fios que a conduzem como uma marionete.
2 Gatilho: privilegiado-ao-quadrado
Organizo os papéis sobre a mesa para iniciar o planejamento da aula. Conteúdo: Oscilações. Temática: Pêndulo simples. Inicio a resolução de um exercício de aplicação, que possui o seguinte enunciado: Se o período de oscilação do pêndulo duplicar, em quantas vezes o comprimento do fio será aumentado? Tento resolver de cabeça. A equação diz que o período de oscilação é dado por: T = 2π(L/g)0,5 considerando que π e o g são constantes, logo, se mantém, se o período (T) for duplicado, o comprimento do fio (L) será multiplicado por 4, já que está dentro de uma raiz quadrada. Consulto o gabarito. Não há entre alternativas, a resposta 4,0. Errei!!??? Sou professora de física numa escola de elite, os professores são altamente qualificados e não consigo acertar um exercício de física!? Me sinto uma farsa, uma impostora. Como se eu não fosse inteligente o bastante para ser uma professora de física. Alguns vultos povoam a minha cabeça. A maioria dos colegas de graduação eram homens brancos, pouquíssimas mulheres e eu era a única pessoa com a pele negra. Será que as vozes racistas que me dizem que os negros sofreram uma degeneração intelectual irreparável, estão certas? Como esse grito racista se sobrepõe ao meu pensamento, depois de anos e anos me dedicando à luta antirracista? Primeiro gatilho.
Durante a graduação do curso de Física, fui a um professor, numa vista à prova de eletromagnetismo, e lhe perguntei se era possível considerar alguns pontos na questão em que zerei. Chorar nota era uma manobra comum, quase todos faziam, mas quando chegou a minha vez, o tiro saiu pela culatra: você é cotista? Sim, respondi muito timidamente. Entrei na universidade pelo sistema de cotas raciais. Então, o problema é que vocês ( no plural ) têm muitas defasagens, é melhor você cursar a disciplina de novo . Sou arrancada de dentro de mim. É como se o chão me escapasse e a humilhação me engolisse. Emudeço. Não sei o que faço com a minha prova. Se a engulo, numa tentativa de esconder a vergonha que me acometeu ou se a abandono como se não existisse, já que não conseguirei carregá-la comigo. Quero vomitar, não o que comi, mas a vida que tive. É como se eu tivesse sido acertada por um martelo e estivesse olhando o mundo das profundezas. Todos estão grandes e eu minúscula, ainda zonza pela martelada. Vertigem . Qualquer discussão acerca do meu desempenho na prova estava vetada, afinal, pessoas desfavorecidas como eu, possuem defasagens. E de que defasagens estamos falando? Imagino que não sejam questões cognitivas, uma vez que o meu desempenho não foi aquém do da maioria. Ao contrário, a minha nota estava acima da média da turma, eu obtive 4,0, apenas um ponto e meio aquém da nota mais alta, a média da turma foi estabelecida em 2,0. Ainda assim, ninguém conseguiu tirar o mínimo requerido para a aprovação na disciplina, que era 6,0. Será que a defasagem mencionada se refere ao desvio de um padrão original, considerando que o homem branco das classes do privilégio é a régua pela qual todos os seres humanos são medidos?
O meu coração dispara. Os meus lábios ressecam. Minhas mãos e meus pés suam. Suor frio. Enraiveço-me. Após anos e anos me dedicando ao cartesianismo, me atrevendo a ser uma mulher preta que é reconhecida como boa em física , eis que alguém me desnuda e revela a minha negrura. Segundo-Gatilho . Pobreza + anos na escola pública + preta + pai sobrevivente de guerra + mãe empregada doméstica + favela + negrura + trabalhos e estudos = defasagem. Me retiro da sala emudecida, deixo a minha prova sobre a mesa, não consigo rebater a tese que foi anunciada sobre mim. E como poderia? As forças históricas ocidentocêntricas instituíram que ele é o padrão de todas as medidas, ao menos no Brasil, enquanto pessoas como eu, são casos desviantes. Ele, o meu professor, é físico, fez doutorado na USP, dois pós-Docs, um no Havaí e outro no MIT - ciência-régia- ao-cubo - e atua como pesquisador num dos mais importantes aceleradores de partículas, o LHC ( Large Hadron Collider ), localizado em Genebra. Sua equação de vida era: branquíssimo + pai médico + mãe musicista + melhor aluno do ensino médio + professor de uma universidade federal antes dos 30 anos + zero fome – nascido no Sul global, já que nem tudo é perfeito = privilegiado-ao-quadrado.
2.1 Gatilho-ao-quadrado: a régua que mede a humanidade.
Oyěwùmí (2021, p. 29), nos instiga a perceber que, a cultura ocidental estabeleceu que a visão é o sentido que se sobressai aos demais, sendo utilizado como parâmetro para diferenciar os privilegiados dos condenados desta Terra . “A diferenciação dos corpos humanos em termos de sexo, cor da pele e tamanho do crânio é um testemunho dos poderes atribuídos ao ver” . Nesse restrito cosmos, o olhar escaneia as histórias que são contadas pelos corpos, buscando hierarquizá-los, segundo as regras estabelecidas pelos que estão em posições de poder. O olhar subalternizado do professor de eletromagnetismo me condenou ao lugar de cognitivamente inferior, como se o procedimento padrão, nas vistas de prova, não contemplasse uma degenerada. Assim, o homem-branco-cis-ocidental-neurotípico-nãodeficientefísico-hetero-burguês, representa o produto mais bem-acabado da evolução, o homem-branco, enquanto as pessoas não brancas, mulheres, pessoas com alguma deficiência física ou intelectual, desafortunados socialmente, dissidentes de gênero e de sexualidade, são vistos como diferentes e na pior das hipóteses como degenerados.
Com isso, tem-se um apartheid nesse corpo chamado humanidade, sendo que o homem-branco representa a norma, enquanto os outros representam a diferença. Assim, o primeiro e restrito grupo que transita pelos espaços de poder de maneira privilegiada, se intitulou enquanto o ser da razão, enquanto os diferentes assumem o lugar de corpo, morada dos desejos e dos sentidos, avesso à razão (Oyěwùmí, 2021). E eu que nesta visão represento o corpo-elevado-à-terceira dimensão , e esbofeteei esse sistema ao estudar Física, uma área de conhecimento criada por homens-brancos, para o deleite intelectual de outros homens brancos. Senti a vertigem causada por isso.
Se na graduação eu era desprovida do letramento racial para realizar as devidas ponderações acerca da fala do professor de eletromagnetismo, no mestrado decidi entender como o racismo se manifesta e impacta o ensino de ciências. Sendo assim, me matriculei numa disciplina de histórias das ciências no Brasil e uma das leituras sugeridas, por um colega que era sociólogo, era a de Grosfoguel (2016) , um pensador cujo diálogo será profícuo em nossa argumentação.
Grosfoguel (2016) , confesso que experimentei um mal-estar com a leitura de seu artigo. Não é justo responsabilizá-lo por tal, tampouco denunciar Nietzsche (2017) , que defendeu que a ruminação, ou seja, a consideração e a reconsideração de ideias se constituem num importante trabalho intelectual. Seguindo a sugestão nietzschiana, li o seu artigo, inúmeras vezes, perscrutando os séculos XV a XIX, para entender o que se passou na cabeça do homem-branco para travar uma guerra contra esse corpo precioso chamado humanidade. É um transtorno antissocial que jamais fora observado.
As línguas colonizadoras dizem que a nossa porção das Américas foi descoberta no final do século XV, na ocasião em que Cristóvão Colombo e a sua gangue invadiram a nossa terra, considerando que atingiram as Índias. Ao serem confrontados com os nativos americanos, os nomearam como índios , ou seja, os habitantes das Índias. ( Grosfoguel, 2016 ). Em sua (cosmo)visão, Colombo considerou que a humanidade dos povos nativos não havia sido perfeitamente encarnada, classificando-os como sem religião . Não ter religião naquele contexto implica ausência de um Deus pessoal, portanto, ausência de alma, o que naquela época era utilizado enquanto critério para diferenciar os seres humanos dos demais animais ( Grosfoguel, 2016 ). Não ter alma implica que o corpo é uma instituição pública que pode ser violada, inclusive escravizada. E com isso, tem-se um pressuposto para a escravidão dos povos indígenas, algo que se seguiu nas décadas seguintes, sob a justificativa de que não eram gente.
Índios não eram gente. Os judeus foram submetidos a um genocídio cultural, uma vez que os cristãos espanhóis disseram que eles adoravam ao deus falso, o que é estranho, já que o cristianismo, a religião desse povo da matança, tem profundas raízes no judaísmo. Além disso, os homenzinhos de dEUs incendiaram bibliotecas na Espanha, para erradicar a memória dos mouros, que eram tão africanos quanto muçulmanos e, talvez mais africanos do que orientais. E para se redimir, instituíram o tribunal de Valladolid que ao final decretou que os povos indígenas tinham alma, apesar de bárbaros, logo se constituía um pecado diante de dEUs, que aparentemente tudo vê, escravizá-los. Continuaram escravizando os povos indígenas, mas chamaram isso de encomienda. Todavia, os mouros que foram convertidos compulsoriamente ao cristianismo, foram classificados como des(almados) e submetidos à escravidão em Granada, isso no século XVI. Substituíram a escravidão indígena pela escravidão negra, por meio do saque, do sequestro e do estupro ao ventre do mundo, a África, sob o pressuposto de que povos africanos não tinham alma, logo, sem possibilidade de salvação. Colonizaram e esvaziaram as almas dos nossos antepassados e usaram o Jesus-branco-loiros-dos-olhos-azuis, para inferiorizar a nossa negrura e ressaltar a própria brancura.
2.2 Gatilho: os descendentes de Cam
Quando eu tinha cinco aninhos, uma menina me disse: preto não vai pro céu . Eu tinha cinco anos apenas. 5! Eu nem sabia o que era ser preto ou branco, mas ela apontou para a minha pele e me disse preta, a cor da condenação do pecado, e isso aconteceu numa igreja. Quase cinco séculos depois do des(almamento) dos povos minoritários, eis que uma garotinha mantém vivo esse discurso, exigindo de mim uma performance. Fui ao tanque da igreja e esfreguei os meus braços com sabão, na expectativa de me exorcizar do fardo da raça e após aquela lavação desenfreada, a minha negrura permaneceu comigo, para o meu sofrimento. Ao retornar à igreja, a congregação cantava fervorosamente: Se nesse sangue lavado, mais alvo que a neve serei . Como eu poderia obter esse tal sangue de Jesus para me tornar limpa da minha negrura? Orei. Orei por anos! Nada faz sentido. Desde os dois aninhos eu cantava na igreja, dediquei a minha alma a Cristo, Aquele que nós amamos, pois nos amou primeiro, e eis que descubro que os pretos serão barrados dos portões celestiais. E com isso, já temos o terceiro gatilho e ainda nem cheguei ao final de seu artigo, Grosfoguel (2016) .
Dada a efervescência que a sua leitura me causou, Grosfoguel (2016) , me senti impelida a compartilhar os meus incômodos na disciplina de histórias das ciências, afinal, a palavra decolonial foi citada em diversos encontros, pensei que faria sentido. Eu estava inconformada com as aberrações afetivas do homem-branco. Inventar a identidade de um povo, destituir a sua humanidade sob o pressuposto de que não tinham religião e condená-los à humilhação eterna. A docente da disciplina, uma historiadora, me disse: a gente precisa ter um pouco de alteridade, os europeus eram apenas homens do seu tempo, tudo bem que eles cometeram alguns excessos na descrição de pessoas diferentes, mas quantos de nós não cometemos esses equívocos quando olhamos para o outro que não é um reflexo de nós mesmos? Talvez eles não tivessem ideia do que essa visão preconceituosa poderia causar . Será que uma visão preconceituosa, pode se comparar com o en(cobrimento) da humanidade de um povo, para escravizá-lo e impelir essa caçada predatória chamada de capitalismo?
Lançaram sobre os nossos ombros o fardo da raça. Inventaram o conceito de negro e o associaram a toda degenerescência quanto possível. Condenaram os nossos antepassados a uma morte em vida. E sobrou para nós, os esfarrapados nesta Terra , a responsabilidade por emergirmos eretos da cólera causada pela colonização, afinal, somos corresponsáveis neste sistema de opressão, sendo bem foucaultiana, e ainda nos pedem misericórdia. Será que se estivéssemos falando das milhões que foram assassinadas sob a acusação absurda de bruxaria, a alteridade seria mencionada? Você menciona esse trágico evento histórico em seu artigo Grosfoguel (2016) , e me conscientizou que esse quarto epistemicídio (assassinato + aniquilação da produção de conhecimento), foi realizado para que o homem-branco pudesse ostentar o seu lugar de poder e de privilégio epistêmico. Veja que cargas os seus colegas acadêmicos e de humanidades que, se excitam com o conceito (de)colonial, colocam sobre os nossos ombros, ( Grosfoguel, 2016 ). Tempos difíceis e trabalhosos.
Discordo que os homens-brancos que instituíram os sistemas que ocasionaram humilhações eternas, o fizeram de maneira inconsciente. Esse racismo primitivo, que encontrou na religião a justificativa para a hierarquização de seres humanos, não se enquistou com o passar dos anos. Ao contrário, se sofisticou e atualmente ataca determinadas formas de existência ( Fanon, 2021 ). Se outrora, o negro fora amaldiçoado por ser descendente de Cam, o filho de Noé que supostamente zombou da nudez do pai, quando este estava embriagado, no século XIX somos concebidos como um trampolim evolutivo entre os primatas e o homem-branco. A escala evolutiva humana era, portanto, linear, iniciando com os primatas, passando pelos grandes hominídeos, clareando a tonalidade de pele a cada geração. Das trevas, para a sua preciosa luz. Essa foi a história que os assujeitados pelo racismo contaram para si mesmos nas ciências, nas artes e até para a sua descendência, nos séculos XVIII, XIX e XX, os supostos séculos das luzes, em que cabe ao homem-branco, o fardo de iluminar o mundo com a sua brancura, para dissipar a negrura do mundo. E quando a metafísica, se tornou incompatível com as dinâmicas que estavam postas para o mundo moderno, eis que a ciência entra em cena. Nas próximas linhas os tais homens das ciências serão rebaixados ao posto de homenzinhos-das-ciências, destacando, no diminutivo, o tamanho das suas atitudes, na régua da humanidade.
2.3 O que pode o corpo?
Dissecação. Medição da epiderme, costelas, crânio. A moral e a inteligência poderiam ser rastreadas por meio da leitura dos textos escritos nos corpos. Crânio maior, inteligência maior. Até a longitude do joelho; distância entre as vértebras; espessura da epiderme, se tornaram padrões para a diferenciação da intelectualidade ( Gould, 2014 ; Fanon, 2021 ). O que diria René Descartes se pudesse presenciar tamanha blasfêmia de seus sucessores? O filósofo contagiou o mundo ocidental e ocidentalizado, com a cisão entre o corpo e a mente, classificou o nosso corpo como um amontoado de órgãos cuja morte não deveria ser lastimada, já que libertaria a alma do mundo sensível. Assim como Sócrates, Descartes considerava que o mundo transcendental tinha mais valor do que a própria vida, já que a alma estaria emancipada para penetrar o mundo inteligível, sem as amarras sensoriais de um corpo irracional, isso no século XVII ( Borges, 2008 ). Nesse sentido, a vida era inútil, uma busca pela razão da morte. E quem diria que, ao final do século XIX, os homenzinhos-das-ciências estariam escavando o sepulcro da alma em busca de hierarquizações na humanidade. E qual era a concepção de corpo que estava em vigor nos séculos das ciências-das-trevas, XIX e XX, ao ponto de os homenzinhos da razão o considerarem enquanto um caminho para medir a alma?
Se outrora, a alma estava ligada ao mundo inteligível, o que tornava o ser humano um ser metafísico, no século XIX, ela é atrelada ao funcionamento do cérebro, tornando o ser humano um ser puramente físico ( Perrin; Anderson, 2013 ). Ao tornar a inteligência palpável, o ser humano se destaca perante os demais animais. E, ao racializar a inteligência, mediante a craniometria, o homem-branco se torna a norma, o padrão, enquanto os demais são concebidos como casos desviantes, degenerados. Nesse sentido, convém questionar: o que pode o corpo? Se na cultura ocidental padrão, o corpo salta de uma carcaça inerte que aprisiona a alma e se torna um objeto para biologizar as diferenças e estabelecer uma hierarquia social, defendemos que o corpo é um território de passagem dos afetos, impulsos e dos instintos. Nós aprendemos pelo corpo. Sentimos pelo corpo. Tomamos decisões pelo corpo. Somos subjetivados pelo corpo. Sendo assim, o corpo é uma grande razão composta por conjuntos de órgãos, células, tecidos e que juntos, criam quem nós somos ( Borges, 2008 ).
Mais do que isso, Nietzsche aponta que o corpo se constitui numa multiplicidade de impulsos que guerreiam entre si e determinam se o corpo é saudável ou se é doente. Um corpo doente, portanto, fraco, é aquele que possui os impulsos no mesmo nível de potência. O filósofo considera que os desprezadores do corpo, que negam a corporeidade, humanidade e a vida, possuem um pensamento doente, uma vez que foram contaminados por uma doença impulsional ( Borges, 2008 ). Em contrapartida, um corpo saudável apresenta uma hierarquia entre os impulsos, de modo que os mais fortes dominam os mais fracos. Considera-se que um corpo saudável se abre para o devir-animal, aprendendo com a inteligência animal, ao invés de sobrepujá-la e defender que a inteligência humana é a única que expressa a razão.
Acerca dos estudos sobre a medição dos crânios, já no século XX constatou-se que os caucasianos tinham o cérebro maior, seguidos dos nativos americanos e dos chineses, que foram caracterizados como mongóis. Os negros estão no fundo do poço. Em algumas ilustrações, o crânio dos chimpanzés é retratado com o tamanho maior que o dos negros ( Gould, 2014 , p. 40). Até do suposto lugar de trampolim evolutivo do homem-branco, o negro foi destituído. Alguma acochambrada foi realizada, para que esses resultados se tornassem possíveis. Samuel G. Morton, o cientista responsável por esse estudo, retirou da análise, o crânio de um chinês, de tamanho grande; assim como algumas unidades de crânios de indianos, que eram pequenos, já que comprometeria a média dos caucasianos ( Gould, 2014 ). Só usaram crânios de homens, para a medição da inteligência dos ingleses. Todavia, foram utilizadas algumas amostras de crânios femininos de hotentotes, a designação dada ao povo Khoi-Khoi que reside ao Sul da África ( Gould, 2014 ).
O paleontólogo Stephen Gould (2014) , que analisou os estudos realizados no auge do racismo científico, ou seja, da ciência-das-trevas, encontrou inconsistências consideráveis, mas defende que Morton não realizou uma fraude de maneira consciente. O cientista em questão não apagou dados, e tampouco ocultou os resultados finais, divulgando-os todos. Gould (2014) considera que os cientistas que defenderam o racismo científico em suas pesquisas, eram homens do seu tempo que, movidos pelo preconceito da época, interpretaram erroneamente os dados coletados em suas pesquisas. Um questionamento cabe: Afinal, o que eram esses senhores? Homens da razão ou crianças de peito de uma cultura hegemônica, que não atingiram a maioridade intelectual?
Segundo Kant, o iluminismo representa a passagem da menoridade, a era das trevas, em que, o homem-branco era submisso a um outro, que não era si mesmo, para a maioridade, a idade da razão, em que há responsabilização das suas ações, consoante a sua razão ( Pimentel, 2010 ). Movimentando com o conceito kantiano, podemos considerar que, qualificar o homem-branco como um senhor de seu tempo, que não tinha consciência dos seus atos, é rebaixá-lo a um estado de menoridade, a uma criança de peito que suga a cultura ocidental de maneira irrefletida. Apesar de ser um discurso sedutor condenar o homem-branco ao lugar em que os meus antepassados foram condenados, petit negrit , afinal, a África foi classificada como a infância do mundo, como afirma Fanon (2008) , não entrarei neste jogo. A história por si só, revelará o meu ponto.
No século XIX, algumas vozes no meio acadêmico defenderam que, o cérebro dos alemães era muito maior do que o dos franceses, consequentemente, os alemães seriam cognitivamente superiores. Paul Broca, um médico francês investigou essa questão e constatou que a média do cérebro dos alemães excedia 48 gramas, da média do cérebro dos franceses ( Gould, 2014 ). Diante disso, uma série de conjecturas foram realizadas para defender que os franceses não eram intelectualmente inferiores aos alemães. Considerou-se que o tamanho do cérebro está atrelado ao tamanho do corpo, e diminui com a idade, sendo que a maioria dos cérebros coletados dos franceses eram de pessoas mais velhas e de menor estatura, em comparação aos alemães ( Gould, 2014 ). Observa-se que, houve uma reinterpretação do significado das medições dos cérebros, para que os descendentes do iluminismo pudessem ocupar o lugar da razão, sem serem assombrados pela superioridade alemã. Todavia, na ocasião em que os cérebros das mulheres brancas foram medidos, observou-se que eram menores do que o dos homens-brancos, o que gerou um impasse ( Gould, 2014 ). Era de se esperar um desdobramento similar ao que foi realizado diante das medições dos cérebros dos alemães e dos franceses. No entanto, Broca defendeu que, além da inferioridade física, as mulheres possuem inferioridade intelectual, tal qual os estudos apontam ( Gould, 2014 ).
Concordo contigo Grosfoguel (2016) , para que o homem-branco pudesse dizer penso, logo existo , foi necessário alinhar o conquisto, logo existo ao extermino, logo existo . Em outras palavras, para que pudessem se afirmar enquanto detentores da razão, foi necessário inventar que o homem-branco é a régua pela qual todos os seres humanos serão medidos e classificados como semelhantes ou diferentes. E para que o meu professor de eletromagnetismo pudesse desfrutar de seu lugar privilegiado, era necessário que pessoas como eu, pretas e desfavorecidas socialmente, não ocupassem os bancos universitários. O devir do homem-branco está associado ao dever-ser-negro, esse sistema se retroalimenta. Para que o sistema dominante permaneça, é necessário que todos ocupem o seu lugar natural, de modo que, o lugar natural de um homem-branco é produzindo conhecimento, enquanto o de uma mulher negra é dever-servir-homem-branco, para a manutenção do ego dessa falsa elite. Talvez seja por esse motivo que a elite do atraso se indignou com a implementação das cotas raciais e sociais, nas universidades, escondendo o seu assombro sob o pressuposto de que, os pobres e/ou negros iriam rebaixar a qualidade acadêmica ( Souza, 2021 ). Mesmo com as estatísticas da Escola Politécnica de São Paulo, Unifesp, UnB e na UFMG revelarem que, os estudantes cotistas têm o desempenho superior ao dos não cotistas, ainda assim, a presença dos diferentes ainda não é legitimada na Universidade (Silva; Xavier; Costa, 2020).
Ainda assim, diante do exercício de pêndulo simples, que compõe o meu planejamento de aula, me pergunto: Será que o professor de eletromagnetismo estava certo a meu respeito? Sinto que ao invés de vergar as linhas de força do racismo, estou sendo vergada por elas, retirando de mim a professora de física, a acadêmica, a mulher que refutou o sistema para estudar Física. Esfarrapada. Como não fui capaz de acertar esse exercício? Esfarrapada-ao-quadrado . Ao pensar sobre isso, me lembro do meu esforço contínuo em mostrar para mim mesma e ao mundo que a Física me cabe. Foi preciso engolir o cansaço da rotina exaustiva de trabalho, iniciação científica, e estudos. Além disso, tive que dobrar as crises de pânico que me acometiam, dia após dia, afinal, eu precisava vencer a todo custo, para isso, violentei o meu corpo, substituí o devir pelo dever, dever-ser-boa-o-bastante para esse sistema perverso.
Quantas noites em claro para ter bom desempenho numa área de conhecimento forjada pelos netos da besta imunda, que me classificaram como se eu fosse um objeto em meio a outros objetos. Quanto me espremi para caber nesta física ocidental. Morri algumas vezes. Esta que escreve é uma das versões de mim que foi forjada, há pouco tempo, no chão da resistência, para esbofetear esse sistema que me violenta em triplo. Três horas de sono diárias. Seis horas no ônibus/metrô. Humilhações corriqueiras numa escola de elite, cujo salário permite que eu sustente a minha mãe e apoie financeiramente os meus irmãos. Se um físico me disser que o meu exercício está errado, aí sim vou aceitar..., disse-me uma aluna, refutando a minha correção de sua prova. Para o seu governo, eu sou o físico! Pensando bem, será que sou? Ainda que eu professe um discurso de verdade por ser professora de física, o meu discurso não é validado, não é capaz sequer de convencer uma aluna mimada numa arguição de prova.
Dizem que as cotas são uma forma de reparação histórica, particularmente, preferiria uma reparação das trincheiras que os meus antepassados viveram e das que ainda vivo. Talvez essa tenha sido essa a reivindicação dos movimentos sociais negros, mas o governo federal optou por outro caminho. Mas: nunca tantos pretos entraram nas universidades, quanto nos governos canhotos! Foi o que me disseram. E o sussurro que escuto é que a reparação histórica veio por uma mão canhota e não destra. Tanto nos governos canhotos como nos destros, o genocídio de almas negras persiste. Será que uma vida preta na universidade vale mais do que as vidas pretas que são assassinadas nas trincheiras? A ascensão social que experimento, não me libertou do racismo. E tampouco me libertará. Náusea . Sinto que não existo. Será que pensar num mundo livre do racismo, está no plano da imanência ou se constitui num devir reativo?
Um, dois, três, quatro… A cada gatilho, somos arrastados para memórias que nos avassalam. Mais uma dúvida. Como um exercício de pêndulo simples tem o poder de cavoucar as minhas entranhas, ao ponto de me fazer sentir a mais pobre das criaturas? Venerei a racionalidade cartesiana anos a fio, para proclamar ao mundo físico e também ao mundo espiritual que me assistem os meus antepassados, que a física cabe aos pretos. E agora que não fui capaz de acertar um exercício, me sinto uma impostora. Sistema ingrato! Canalhas.
Espere! O enunciado do exercício questiona em quantas vezes o fio deve ser aumentado, considerando que o comprimento inicial é L e o comprimento final é 4L, diante dessa nova interpretação, a resposta é 3. É a alternativa correta. É como se por um instante, a minha dignidade fosse restaurada. A minha dignidade? Não! Talvez a do Sistema. Os homenzinhos-das-ciências são astutos! Mantém uma maquinaria de poder, que nos convence de que esse é o único acesso para a racionalidade. Comprei o bilhete para essa embarcação, me matriculei na Universidade, mas a minha entrada foi barrada, com o pressuposto da ainda tal defasagem, da manutenção da medição dos crânios.
Mas, arrombamos a entrada, acessamos o barco clandestinamente. E tudo isso para provar que a invenção do negro diz mais sobre o homem-branco, do que quem nós somos de fato. Ainda assim, as linhas de força do homem-branco vergam as minhas linhas de acontecimento. E eu vergo essa dobra. Talvez isso seja o devir ativo, um eterno-dobra-dobra. Dobrar as linhas de força, gerar linhas de vida que serão vergadas pelas malhas do poder, torcer, recriar, frustrar, num esforço contínuo por se mover com potência. Bom, já se faz tarde, amanhã é outro dia.
2.4 É você que coloca as canetas de lousa na sala?
Acordo às 5h da manhã. Vou ao banheiro. Sangue. As professoras deveriam menstruar apenas aos finais de semana. Será que os gatilhos que foram por mim revividos, no dia anterior, tem alguma relação com esse (des)equilíbrio hormonal? Na verdade, isso se constitui num falso problema, daqueles que não levam a lugar algum, o que realmente importa é que tenho um desafio triplo: dar aula com uma tensão-pré-durante-menstrual e os desconfortos dela decorrentes; não permitir que a minha irritação vaze; tampouco que a insegurança por não ter acertado o exercício do pêndulo simples, no dia anterior, seja capturada pelos alunos.
Chego na sala de aula pontualmente às 7h e enquanto os estudantes se organizam, eu acesso a plataforma PHET, que permite simulações interativas de alguns fenômenos de ciências naturais e selecionei uma que permite observar o movimento do pêndulo simples. Num dado momento, percebi que o material complementar, a lista dos exercícios está na sala dos professores, me retiro para buscá-la. No corredor, um professor de física, do 3º ano, me aborda: é você que coloca as canetas de lousa nas salas? E o indivíduo nem me falou bom dia e me deu um golpe desses com punhal e tudo. Emudeço. Após debater com a óptica racista, no dia anterior, eis que um colega de profissão considera que, o máximo que posso ser nesta escola é alguém que coloca canetas de lousa nas salas!
Eu estava exausta. (Des)armada do meu discurso empoderador. Só queria chegar à sala dos professores e sou interceptada com uma pergunta afirmativa dessas! Respiro fundo. O sangue que deveria escoar pelo meu ventre, muda de direção e torna rublo o meu rosto, ou ao menos tenta. Respondi que não, não sou a pessoa que coloca canetas na lousa, sou professora nesta escola, sugeri que procurasse pelos serviços da Anelice, que estava sentada perto de nós, ela é a inspetora. Ai, desculpa, eu acho que te confundi com outra pessoa, que não é a Anelice . Eu o fito nos olhos, o intimido. O homem branco tem sorte, fala o que quer, para quem quer e somos nós, o grupo que foi rebaixado ao status de minoritário, ainda que seja majoritário neste país, que devemos nos conter, para não sermos lidos como raivosos.
Em silêncio, processo a raiva por esses atravessamentos. Que o meu corpo me perdoe por tamanha blasfêmia. Só o des(arranjo) hormonal já é desafio o bastante, o racismo não tem o direito de arrombar as janelas que reinvento a cada dia. Por um instante, penso que o colega, talvez tenha me confundido com a Jucélia, a outra inspetora da escola, uma mulher negra de estatura baixa, que usa óculos, enquanto eu, sou uma mulher negra alta, que usa dreadlocks coloridos, sem óculos. Dentro de mim eu dizia: me deixem em paz seus abutres! Além de tudo, criam aos negros mais um dever, dever-ter-a-mesma-cara. Não transbordei a minha indignação para além de mim, por respeito a mim mesma. Não estava com humor para ouvir uma retratação meia-boca, daquelas que culpam o racismo estrutural e tornam o racismo um problema de todos e de ninguém.
Na semana anterior, um colega de profissão estava desolado. Ele estava em sala de aula, sentado, distraído com a correção do caderno de um dos estudantes quando, de repente, sentiu alguém mexendo em seus cabelos, seus longos dreadlocks . Era uma aluna. Ela abria os dreadlocks desfazendo o penteado de seu professor, e dizia, sorrindo, que estava querendo matar os piolhos. Ele ficou transtornado pela invasão de sua privacidade. Imagine o que aconteceria se fosse o contrário, um homem negro desfazendo o penteado de uma aluna branca dizendo que estava procurando piolho. A indignação tomou conta dele, que se levantou e apontando o dedo para a aluna, disse firmemente: Não toque em mim. Fique longe de mim. Você não tem esse direito . Ela ficou assustada. Se desculpou, disse que não tinha ideia de que o seu gesto foi desrespeitoso. A classe se mobilizou, os meninos achavam que a reação do professor foi desproporcional: ele é (des)equilibrado! Nossa, foi só uma brincadeira .
Nas aulas seguintes, ele foi caracterizado como o estressadinho . É melhor nem perguntar nada pra esse aí, se não ele vai surtar que nem naquela vez . O professor levou a questão para a direção da escola que culpabilizou o racismo estrutural e disse que não era conveniente um combate explícito ao racismo, já que as pautas identitárias surgem pouco ou nenhum efeito. Em outras palavras, novamente, esconderam as linhas de força do racismo, na expectativa de que os estudantes se educassem de outras formas. O professor confessou que gostaria de ter controlado as suas emoções, mas não conseguiu. E como poderia? Se já havia permitido tantos silêncios com o seu corpo, diante das violências causadas pelo racismo. O corpo não aguentou. Transbordou e o rio-enchente que vazou de si inundou mundos. Na aula seguinte, ele se desculpou com a estudante. Ela também se desculpou com o professor. Mas um clima pesado foi mantido naquela turma por meses e meses.
Na semana seguinte que o meu colega de física me perguntou se eu sou responsável por colocar canetas de lousa nas salas, eis que recebo um áudio de si: primeiramente, te devo desculpas, eu tenho muitos amigos pretos, então faço ideia de como você deve estar se sentindo, eu deveria saber que você é professora na escola, apesar de ter sido contratado esse ano. Hoje encontrei a inspetora que eu te confundi, a Jucélia e só aí eu percebi o meu erro. Mil desculpas, eu sei que o racismo é estrutural, mas vou me policiar para não acontecer mais esse tipo de coisa com você, quer dizer, com mais ninguém! A voz dele estava trêmula, gaguejante em alguns momentos, talvez, ele estava com medo, eu poderia levar o caso à direção da escola, denunciá-lo por racismo, afinal, vivemos a era do cancelamento. Optei por um caminho outro, que envolve a dobra do que se espera, inclusive, de uma pessoa negra que combate o racismo. Em minha resposta disse que aceito o seu pedido de desculpas, de fato, fiquei muito incomodada com a confusão, além da cor da pele, eu e a Jucélia não compartilhamos outras características que justifiquem alguma semelhança, ainda assim, me sinto satisfeita que ele esteja se revendo quanto a isso.
A retratação poderia se encerrar por aí, mas normalmente, ela sempre continua: olha, no período da tarde, eu apliquei a sua prova, você também dá aula de física e em inglês para as turmas do 2º ano! Aí que eu me dei conta de que fui inadequado te fazendo aquela comparação absurda, me sinto envergonhado, por favor, me desculpe . E nesse momento, sinto que sou levada à trajetória mais baixa quanto possível para o ioiô e antes que o sistema me capture e me traga de volta para as malhas do poder, arrebento o fio e me despeço com um seco ok, boa noite.
No dia seguinte, eu entrei no meu LinkedIn e vi que o colega espiou o meu perfil, mas não me enviou um convite, como os outros professores da escola normalmente fazem. Talvez se sentiu apequenado pelos intercâmbios internacionais, o doutorado em andamento na USP, já que ele é mais velho do que eu e não possui doutorado, tampouco fala inglês. Foi curioso o fato de ele considerar que a comparação entre mim e a Jucélia só se tornou absurda quando viu a minha qualificação, mas não é disso que se trata. Ele se sentiu envergonhado, pois me atribuiu o dever-servir-homem-branco, enquanto eu me coloquei no lugar de ser cientista, o que possivelmente lhe causou gagueira.
Um duro fardo foi colocado sobre os nossos ombros, ainda assim, nos esprememos para forjar uma versão de nós mesmos que não fosse definida só pelas nossas dores. Um elo de amor conosco mesmos. Amar-elo:
Eu sonho mais alto que drones. Combustível do meu tipo? A fome Pra arregaçar como um ciclone. Pra que amanhã não seja só um ontem Com um novo nome. O abutre ronda, ansioso pela queda Findo mágoa, mano, eu sou mais que essa merda. Corpo, mente, alma, um, tipo Ayurveda. Estilo água eu corro no meio das pedra. Na trama, tudo os drama turvo, eu sou um dramaturgo. Conclama a se afastar da lama, enquanto inflama o mundo [...]. Então revide, diz. Permita que eu fale. Não as minhas cicatrizes. Elas são coadjuvantes. Não, melhor, figurantes. Que nem devia tá aqui. Tanta dor rouba nossa voz. Sabe o que resta de nós? Alvos passeando por aí. Se isso é sobre vivência. Me resumir a sobrevivência. É roubar o pouco de bom que vivi. Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes. É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir, aí (Emicida; Vassao; Duhé, 2019).
3 Discurso do extremo do meio da travessia
O que pode um corpo, que foi transformado em carcaça pelo sistema dominante, e que não mais se contenta com devires reativos, que se constituem num meio para chegar a um fim? A personagem conceitual cumpriu o check-list . Na expectativa de ser um exemplo para o seu povo e, se envolve com as tramas do devir reativo, que a mantém nas linhas estruturantes do racismo. Isso evidencia que o devir reativo torna o caminho duro, estriado, sem-espaço-para-criar-ser-e-viver, o que torna a vida uma luta desesperada por receber uma medalha na transcendência, negando a efemeridade da vida. Nesse sentido, o desejo ao invés de ser visto como a produção de universos psicossociais como indica Rolnik (1989) , é assimilado como uma dialética, punção de vida e morte, Eros e Tânatos, criação e destruição, organização e caos, em suma, a falta. Com isso, o mundo ideal, o que contém o plano dos sonhos que já nasceram mortos, mas que ainda são os seus últimos suspiros, excede o plano da imanência, uma vez que, a busca pela saciedade, se torna uma utopia e perde-se o devir ativo.
O devir ativo é um eterno vir-a-ser que diz sim para os bons encontros, assim como, para as experimentações criadoras, e não aos modelos de existência forjados pela maquinaria do poder e do saber. Para Fuganti (2007) , o devir ativo é se fazer durante o processo, amputar em nós, aquilo que anestesia a nossa potência, causando cólera, letargia. As linhas do racismo abocanham o devir ativo, uma vez que o dever-negro exige que a pessoa negra, ocupe o lugar natural que lhe foi designado pelo sistema dominante, nos espaços de poder ( Hasenbalg; Gonzalez, 1982 ). Experimentar o devir ativo é transgredir a filosofia cartesiana que afirma que o ser humano nada tem a aprender com a inteligência animal. É se abrir para experiências criadoras, como o devir-animal. É estar à espreita, se reinventar no processo, se mover devagarinho, tal qual as aranhas tecem a sua teia.
A teia é um arcabouço que permite que as aranhas estejam à espreita, numa situação em que devem se proteger e ao mesmo tempo se alimentarem, ou seja, garantir a sua sobrevivência. Há aranhas que constroem teias coletivamente, como o caso das cribeladas, sendo que a agitação de uma mosca capturada pela teia, emite vibrações em todas as direções, que são capturadas por elas que se nutrem da presa, lado a lado (Ades, 1986). Há grupos de aranhas, como as orbitelas, que constroem teias ditas geométricas, compostas por raios retos e convergentes, isso se nos apropriarmos das lentes da matemática do currículo ocidental. Tecidas a partir de fios de seda secos, que absorvem o impacto da presa e envolvem menor gasto de energia quanto possível.
Mais do que isso, as teias geométricas são construídas e destruídas rapidamente, o que confere maior capacidade de trânsito entre os habitats (Ades, 1986). Ao iniciar a construção de uma teia, a aranha não tem ideia de qual será o produto final, tampouco se haverá uma teia, depende do suprimento da seda e das condições ambientais. É a teia quem dará informações para a aranha acerca de sua construção, de modo que esses elementos modificam o comportamento das aranhas, durante a elaboração da teia. Percebe-se um eterno-teiar, em que os fios de seda se espiralam para garantir a sobrevivência da aranha, numa terra em que o devir é a travessia e não a finalização em si, já que a teia é efêmera, não durará muito. A teia é um mundo criado pelas aranhas, um mundo-outro, já que transforma as aranhas no processo e ao mesmo tempo, se recria, num movimento de diferenciação contínuo.
Em outras palavras, o devir-animal nos ensina que o mundo-outro não é uma reprodução de um mundo já existente, e sim, um mundo que cria o seu fazedor e também se recria. Ao ser confrontada com as linhas do racismo, imersas no ambiente, a personagem conceitual modificou o modus operandi de construir a sua teia. Não (des)humanizou o ambiente que a (des)humanizara, por respeito ao seu corpo. Se haverá conscientização dos agressores, não se sabe, assim como a aranha não tem, ao certo, se, ao final, haverá a conclusão de sua teia. O meio é quem dirá, parafraseando Guimarães Rosa (2019 , p. 52), “o real aparece pra gente é no meio da travessia”. A potência criativa está no entre e não no início e tampouco no final. Por esse motivo, este artigo não se compromete a fornecer uma saída do diagrama, e sim, potencializar mundos-outros que podem emergir aqui e agora, a partir do (des)enrolar do novelo que contém as linhas de força que nos marionetizam e fabricam os nossos desejos.
Se comprometer a fornecer uma saída é uma manobra da recognição platônica, que nos ensina a percorremos caminhos contrários à experimentação, na medida em que é preciso reproduzir um modelo, que se constitui num meio para obter um resultado, o devir reativo. Em outras palavras, o dever-negro que foi construído pelas contingências, retira da pessoa negra, o eterno-vir-a-ser e exige que ela ocupe o lugar natural que lhe fora designado. Processos de subjetivação que contribuem com a manutenção das relações de forças que fabricam corpos dóceis, úteis, disciplinados, reprodutores das estruturas que (re)organizam o racismo. Isso indica que, fabular-em-ação requer uma dupla transgressão: com o sistema de poder e saber que incutiu a dobra recognitiva em nós; e com o corpo subjetivado que ainda é fóbico ao fora, resistente aos processos de diferenciação em nós.
Referências
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