Open-access A Temática da Água nos Livros Didáticos de Matemática do Ensino Médio no Brasil: uma Análise Crítica da Governamentalidade e da Sustentabilidade

The Theme of Water in Brazilian High School Mathematics Textbooks: a Critical Analysis of Governmentality and Sustainability

Resumo

O artigo aborda a temática da água nos livros didáticos de matemática do ensino médio do Brasil, aprovados pelo PNLD 2021. Fundamentado no conceito de governamentalidade de Michel Foucault e em critérios de escolha curricular, o estudo analisa como essas obras integram questões ambientais na formação cidadã. Foram examinadas dez coleções, totalizando sessenta volumes e 16.329 páginas, destacando subtemas como pegada hídrica, mudanças de hábitos e responsabilidade individual. Os resultados mostram que, embora o tema seja amplamente discutido, há uma ênfase nas ações individuais, como economia no consumo doméstico, negligenciando reflexões estruturais e sociopolíticas sobre a crise hídrica. A análise evidencia uma tendência dos livros em moldar comportamentos alinhados a ideais neoliberais, atribuindo responsabilidades aos estudantes enquanto minimizam a influência de setores industriais e agrícolas no consumo de água. Por fim, são propostas neste estudo atividades que aprofundem essas discussões, com o objetivo de fomentar uma educação matemática crítica, conectada às dimensões sociais e ambientais, ampliando a compreensão dos estudantes sobre sustentabilidade e o impacto do consumo global.

Palavras-chave
Educação Matemática; Livros Didáticos; Governamentalidade; Água; Sustentabilidade

Abstract

The article discusses the theme of water in Brazilian high school mathematics textbooks approved by the PNLD 2021. Based on Michel Foucault's concept of governmentality and curriculum choice criteria, the study analyzes how these books integrate environmental issues into citizen education. Ten collections were examined, totaling sixty volumes and 16,329 pages, highlighting sub-themes such as water footprint, changing habits and individual responsibility. The results show that, although the topic is widely discussed, there is an emphasis on individual actions, such as saving on domestic consumption, neglecting structural and socio-political reflections on the water crisis. The analysis shows a tendency for textbooks to shape behaviour in line with neoliberal ideals, attributing responsibility to students while minimizing the influence of industrial and agricultural sectors on water consumption. Finally, activities are proposed to deepen these discussions, with the aim of fostering critical mathematics education, connected to social and environmental dimensions, broadening students' understanding of sustainability and the impact of global consumption.

Keywords
Mathematics Education; Textbooks; Governmentality; Water; Sustainability

1 Introdução

As pesquisas envolvendo livros didáticos de matemática estão longe de ser novidades na educação matemática. Já no final da década de 1980, Maggie McBride (1989) apresentou uma interessante investigação utilizando a perspectiva foucaultiana de análise do discurso. Na década de 1990, temos o exemplo de Paul Dowling (1996) e sua análise sociológica de textos escolares de matemática.

Desde 2014, são realizados eventos regulares que envolvem pesquisas sobre livros didáticos de matemática. No contexto internacional, há a Conferência Internacional sobre Pesquisa e Desenvolvimento de Livros Didáticos de Matemática, que terá a sua quinta edição realizada ainda este ano, na Noruega (Fifth International Conference on Mathematics Textbook Research and Development – ICMT5). No âmbito nacional, destacam-se duas edições do Colóquio de Livros Didáticos de Matemática (CLDM). A primeira ocorreu em 2022, de forma presencial, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), câmpus de Rio Claro. A segunda edição foi realizada em 2024, em Campo Grande, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Também já houve a publicação de número temático em uma das maiores e mais bem conceituadas revistas de educação matemática do mundo, a ZDM, em 2013 (Fan; Zhu; Miao, 2013).

As pesquisas sobre o livro didático de matemática versam sobre uma variedade de metodologias e teorias, como a didática da matemática (Bittar, 2017; 2022), a história da educação matemática (Valente, 2008) e estudos comparativos entre diferentes países (Alajmi, 2012; Conklin, 2004; Fan; Zhu, 2007; Li; Chen; An, 2009). Também contemplam a perspectiva dos próprios autores de livros didáticos (Imenes; Lellis, 2018; Lopes, 2018) e, mais recentemente, têm sido publicados livros dedicados exclusivamente ao tema (Amaral et al., 2022).

Além de ser objeto de debates promovidos em congressos, pesquisas acadêmicas e publicações especializadas, o livro didático de Matemática também sido analisado e amplamente discutido no âmbito do Grupo de Pesquisa Currículo e Educação Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (GPCEM/UFMS), criado em 2012. O Grupo tem uma trajetória consolidada de estudos críticos sobre livros didáticos, problematizando seu papel como veículos de transmissão de discursos políticos e culturais (Silva, 2016; Silva; Santos, 2024). Em nossas investigações, constatamos que o currículo de matemática se constitui como um campo de disputas discursivas, no qual os livros didáticos moldam os sujeitos de acordo com interesses políticos e econômicos. O trabalho do GPCEM, ao longo dos anos, tem denunciado como esses livros são utilizados para promover ideais de cidadania vinculados a uma lógica neoliberal, privilegiando a responsabilidade individual e o empreendedorismo pessoal, em detrimento de uma análise crítica das estruturas sociais subjacentes​​ (Oliveira; Silva, 2019a, 2019b; Santos; Silva, 2019; Silva et al., 2018; Silva, 2018; 2019; 2022).As dissertações orientadas pelo GPCEM refletem essa abordagem crítica. Camila Coradetti Manoel (Coradetti Manoel, 2017, 2023; Coradetti Manoel; Silva, 2019, 2017; Coradetti Manoel; Silva; Valero, 2019) destacou como a matemática financeira nos livros didáticos promove uma formação voltada para o consumo e a acumulação de capital. Renata Souza (Souza, 2020; Souza; Silva, 2024) explorou a formação cidadã e evidenciou a tendência desses materiais em responsabilizar os indivíduos pelos problemas ambientais, sem abordar suas causas estruturais. João Ocampos (2016) mostrou o viés eurocêntrico nas narrativas históricas dos livros de matemática, enquanto Danusa Menezes (2022) discutiu como o discurso sobre o campo é associado à produtividade, à propriedade privada e à figura masculina. Ludiane Berto (2017), por sua vez, criticou a superficialidade da interdisciplinaridade proposta nos livros didáticos de matemática do Ensino Médio, que enfraquece a possibilidade de uma educação inter e transdisciplinar​​​​​. Além disso, a autora aponta que esses materiais tendem a transferir aos professores a responsabilidade pelo êxito ou fracasso dos projetos propostos.

Ainda no âmbito das pesquisas realizadas pelo GPCEM, evidenciamos como os livros didáticos reproduzem práticas e pensamentos machistas (Neto; Silva, 2021; Silva; Neto; Souza, 2020; Silva; Souza, 2018; Souza; Silva, 2017a, 2017b; 2018; Valero; Silva; Souza, 2019), racistas e eurocêntricos (Pacheco; Silva; Freitas, 2024; Silva, 2023) e como o processo de elaboração desses materiais é carregado de complexas relações de poder que, muitas vezes, visa a elaboração de um produto que seja sucesso de vendas e passe pelo crivo rigoroso dos avaliadores do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) (Santos, 2019, 2021; Santos; Silva, 2019, 2021, 2025).

Neste artigo, analisamos especificamente como o tema da água é tratado nos livros didáticos de matemática do Ensino Médio aprovados no Objeto 2 do PNLD 2021 — “Obras Didáticas por Áreas do Conhecimento e Obras Didáticas Específicas destinadas aos estudantes e professores do Ensino Médio”. A análise foca em imagens, atividades, exemplos e orientações aos professores, buscando entender como essas representações moldam valores e significados culturais nos estudantes. O problema de pesquisa, portanto, é formulado da seguinte maneira: Como a questão do consumo e da economia de água é abordada nos livros didáticos de matemática do Ensino Médio?

Nosso objetivo central é investigar se as abordagens presentes nesses materiais promovem uma formação crítica e reflexiva, ou se, ao contrário, reforçam discursos de responsabilização individual, alinhando-se às diretrizes neoliberais e deixando de lado discussões coletivas e estruturais sobre a crise hídrica.

Nessa investigação, tomamos o livro didático não apenas como uma ferramenta que produz conhecimento objetivo, mas também como um meio de formar e moldar cidadãos ideais. Assim, ao analisarmos os livros de matemática, ultrapassamos os limites dos conteúdos conceituais, observando também os direcionamentos impostos por governos e sociedades que buscam produzir cidadãos desejáveis com valores específicos.

A partir desses pressupostos, este artigo apresentará como os livros didáticos do Ensino Médio do Brasil, aprovados pelo PNLD de 2021, abordam o tema água, de modo a moldar valores e significados culturais nos estudantes e cidadãos, contribuindo para a compreensão dessa dimensão ambiental.

O objeto de pesquisa deste artigo compreende as 10 coleções de livros didáticos de Matemática aprovadas pelo PNLD 2021, totalizando 60 volumes. Cada coleção é composta por 6 volumes, organizados predominantemente em temas específicos, como Grandezas, Álgebra e Algoritmos; Geometria; Trigonometria; Funções; Matrizes e Geometria Analítica, além de Estatística, Probabilidade e Matemática Financeira. Esses materiais integram a área de conhecimento Matemática e suas Tecnologias e foram analisados com foco nos volumes destinados aos docentes, que fornecem instruções detalhadas e contextualizações para a realização das atividades propostas.

Para esta pesquisa, foram analisados integralmente os 60 volumes, totalizando 16.329 páginas. Cada volume continha, em média, 272 páginas. O objetivo principal desta análise foi identificar o uso e as problemáticas relacionadas ao termo água em todo o material. O estudo oferece uma série de recursos, como imagens, atividades, exemplos, tarefas e orientações, para auxiliar os professores na condução de aulas sobre esse tema. Além disso, são sugeridas atividades adicionais que promovam reflexões mais profundas sobre o assunto, contribuindo para enriquecer a prática pedagógica no ensino de matemática.

2 Referencial teórico-metodológico

Esta pesquisa mobiliza duas ferramentas teórico-metodológicas. A primeira é o conceito de Governamentalidade, de Michel Foucault, que nos permitirá analisar como os cidadãos são conduzidos e influenciados pelos livros didáticos. A segunda relaciona-se a um aspecto central das teorias curriculares: os temas considerados valiosos a ponto de serem escolhidos como obrigatórios em determinada etapa da escolaridade. Para isso, nos inspiramos nos critérios para a escolha e organização de conteúdos matemáticos no Ensino Médio, proposto por Marcio Antonio da Silva (2009) em sua tese. A partir dessa inspiração teórica, proporemos atividades que visam apoiar e enriquecer a prática pedagógica dos professores de matemática.

2.1 Governamentalidade

Ao longo de suas aulas no Collège de France, especialmente em Segurança, Território, População e Nascimento da biopolítica, Michel Foucault delineia o que chamou de governamentalidade: um conjunto de instituições, procedimentos, análises, cálculos e táticas que visam conduzir a conduta dos indivíduos e das populações (Foucault, 2008a; 2008b). Trata-se, em suas palavras, de um “conjunto de instituições e de saberes, de análises e de reflexões, de cálculos e de táticas que permitem exercer essa forma muito específica, embora complexa, de poder que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia política e por instrumento técnico os dispositivos de segurança” (Foucault, 2008a, p. 111).

Ou seja, governar, para Foucault, não é apenas impor leis ou aplicar punições. Governar é dirigir condutas, e isso pode ser feito por meio de múltiplas estratégias, nem sempre visíveis, nem sempre repressoras. Há uma arte de governar que se exerce muito mais por meio de orientações, sugestões e modelos de comportamento do que por proibições diretas.

Aplicando esse olhar para o campo educacional, vemos que os livros didáticos, longe de serem neutros ou meros instrumentos de apoio pedagógico, são tecnologias de governo. Eles organizam saberes, selecionam conteúdos, constroem subjetividades. Governar também é educar; ou melhor, é fazer com que os indivíduos eduquem a si mesmos segundo determinados princípios e valores. Portanto, a ferramenta analítica da governamentalidade permite compreender como os currículos e os materiais escolares fazem circular normas, orientam condutas e produzem sujeitos desejáveis para certo projeto de sociedade.

Mas Foucault vai além. Ele não propõe a governamentalidade apenas como um conceito teórico, mas também como uma lente analítica, uma metodologia. Ele mesmo afirma: “não estou procurando uma teoria geral do poder, mas formas de análise que possam ser utilizadas em diferentes domínios” (Foucault, 2008b, p. 3). A governamentalidade, assim, torna-se um modo de olhar, de cartografar os dispositivos que organizam práticas, de desnaturalizar discursos que se apresentam como verdades.

No contexto deste artigo, a governamentalidade foi mobilizada para examinar os livros didáticos de matemática do Ensino Médio no Brasil, investigando quais formas de conduta são incentivadas, quais valores são promovidos, quais silenciamentos são operados. Ao analisar como o tema da água é apresentado, buscamos perceber quais modos de ser cidadão estão sendo sugeridos aos estudantes e que tipo de sujeito sustentável é convocado pelas atividades propostas.

A partir dessa perspectiva, os livros deixam de ser meras coleções de exercícios para se revelar como ferramentas de gestão da vida. A matemática, nesse cenário, é posta a serviço da formação de sujeitos que devem calcular seu consumo, monitorar seus gastos, controlar seus hábitos — tudo em nome de uma sustentabilidade que, muitas vezes, encobre as verdadeiras estruturas de poder que causam a crise ambiental. A governamentalidade nos permite perceber esse movimento, essa sutileza com que o poder se infiltra até mesmo nas equações.

2.2 Critérios para escolha e organização de conteúdos matemáticos do Ensino Médio

Ao refletir sobre o currículo de matemática para o Ensino Médio, é importante adotar uma abordagem que vá além da escolha convencional de conteúdos baseados em temas clássicos e prescrições curriculares organizadas de modo linear. Com base nas ideias de William Doll Jr. e Ole Skovsmose, trazemos uma proposta teórica construída por Silva (2009) que articula critérios para a escolha e organização de conteúdos combinando perspectiva crítica e pós-crítica do currículo. Embora tenham aspectos distintos, essas duas perspectivas podem ser combinadas (Stinson; Bullock, 2012; Silva, 2013). Esses critérios oferecerão uma estrutura consistente para guiar não apenas a seleção de temas, mas também sua organização curricular. Desde a publicação da tese de Silva, em 2009, desdobramentos teóricos e aplicações desses critérios foram publicados, aperfeiçoando e dando visibilidade a essas propostas curriculares (Dias; Olgin, 2018; Dias; Barbosa, 2021; Olgin, 2015; Olgin; Groenwald, 2015, 2016, 2020; Pires; Silva, 2011; Silva, 2014; Silva; Pires, 2012, 2013a, 2013b).

Os primeiros critérios, predominantemente seletivos, são influenciados pela abordagem de William Doll Jr. (1997), que propôs currículos organizados a partir de conceitos como riqueza, recursão, relações e rigor. Inspirado por essas ideias e ampliando-as com a perspectiva da Educação Matemática Crítica de Ole Skovsmose (Penteado; Skovsmose, 2022; Skovsmose, 2001, 2007, 2023), este trabalho introduz, de forma complementar, os critérios de reflexão, realidade, responsabilidade e ressignificação. O critério riqueza se refere à seleção de conteúdos que permitam explorar a complexidade e a profundidade dos temas, possibilitando múltiplas interpretações e conexões. Ao tratar o tema água, por exemplo, a abordagem deve ir além da simples apresentação de dados, explorando modelos matemáticos complexos, como análise de pegada hídrica; avaliação do impacto ambiental; análise de dados sobre consumo e disponibilidade e modelagem de problemas relacionados à gestão dos recursos hídricos.

O critério reflexão está ligado às ideias de Skovsmose, que enfatizam a importância de um ensino que promova o pensamento crítico sobre o papel da matemática na sociedade e na vida dos alunos, questionando suas aplicações e implicações. Os conteúdos escolhidos devem provocar questionamentos sobre o uso da matemática em diferentes contextos. A água, como recurso essencial para a vida e objeto de disputas políticas e sociais, é um tema que oferece uma oportunidade para reflexões críticas sobre o papel da matemática na modelagem de problemas e na tomada de decisões. Ao mesmo tempo, o critério realidade propõe que os temas abordados estejam conectados a situações do cotidiano e a contextos significativos para os alunos. O tema água se encaixa perfeitamente neste critério, pois permite explorar problemas reais e relevantes sobre consumo, crises hídricas, poluição, distribuição e gestão dos recursos hídricos, tanto em nível local quanto global.

O critério responsabilidade destaca a necessidade de que o conteúdo leve os alunos a assumirem uma postura responsável em relação ao uso da matemática, considerando as implicações éticas e sociais de suas aplicações. A água, como recurso finito e essencial para a vida, oferece um contexto rico para promover discussões sobre o impacto do consumo desenfreado e a importância da preservação dos recursos naturais.

Por outro lado, os critérios predominantemente organizacionais focam na estruturação dos conteúdos de maneira dinâmica e interconectada. O critério de recursão, inspirado pela proposta de Doll Jr., sugere que os conteúdos devem ser apresentados de forma cíclica, sendo revisitados e aprofundados ao longo do tempo. Ao abordar a temática da água, diferentes conceitos matemáticos, como funções e estatísticas, podem ser introduzidos e retomados em contextos variados, em diferentes níveis de complexidade, desde o Ensino Fundamental até o Ensino Médio, fortalecendo a compreensão dos estudantes. Além disso, o critério relações enfatiza a importância de estabelecer conexões, tanto entre diferentes blocos matemáticos, quanto com outras disciplinas — como física, química, geografia, sociologia e biologia —, ao discutir questões hídricas, proporcionando uma visão interdisciplinar e transversal do conhecimento.

O rigor matemático é outro critério importante, assegurando que os conteúdos sejam ensinados com a precisão da linguagem e a clareza dos conceitos, mesmo quando aplicados em temas complexos, como o cálculo de pegada hídrica ou a modelagem de consumo. Por fim, o critério ressignificação propõe que os conceitos matemáticos sejam reinterpretados e aplicados em novos contextos, desafiando a visão tradicional e tecnicista do ensino. O assunto água oferece uma oportunidade para ressignificar conceitos matemáticos e construir novos significados, por exemplo, para o uso de funções e estatísticas, aplicando-os em análises de problemas reais sobre desperdício e políticas de conservação.

Esses oito critérios fornecem uma base teórica consistente para a criação de atividades didáticas inovadoras que, pela primeira vez, são propostas pelo GPCEM com o intuito de serem adaptadas e utilizadas por professores de matemática do Ensino Médio. Esta iniciativa não se limita a criticar as abordagens existentes, mas também busca oferecer alternativas práticas que possam ampliar as possibilidades pedagógicas e promover uma educação matemática mais crítica e conectada à realidade dos estudantes.

3 Resultados e Discussões

Na análise das 10 coleções de livros didáticos de matemática do Ensino Médio brasileiro sobre o tema água, realizamos uma categorização das informações, apresentada no Quadro 1. Essa investigação evidencia que o tema é bastante discutido nesse nível de ensino, refletindo sua relevância na formação dos alunos e na conscientização sobre a importância da água, o que justifica a proposta deste artigo.

Quadro 1
– Quantidade dos subtemas relacionados à água

Ao analisarmos os dados apresentados no Quadro 1, podemos observar que os temas relacionados à pegada hídrica, às mudanças de hábitos e à conta de água estão sendo frequentemente abordados nos livros elencados. Dos 66 excertos analisados, 12 estão relacionados à pegada hídrica, 34 tratam de mudanças de hábitos, 13 discutem a conta de água, 3 mencionam tratamento de água e 4 abordam cisterna ou reservatório de água.

Para aprofundar a análise, também observamos como os livros didáticos distribuem a responsabilidade pelo uso da água. O Quadro 2 mostra o quanto as atividades propostas enfatizam uma responsabilidade individual ou coletiva, além de indicar os conteúdos matemáticos associados a cada abordagem.

Quadro 2
– Quantidade das responsabilizações relacionados à água e os conteúdos

No Quadro 2, estamos admitindo as responsabilidades individuais como sendo aquelas que focam nas mudanças de atitude e na conscientização de cada pessoa em busca de uma solução e de uma postura responsável. Por outro lado, na responsabilidade coletiva, destacamos a responsabilidade compartilhada entre grupos, comunidades, escolas e outros coletivos, incentivando a conscientização e o uso sustentável para que, juntos, possamos preservar o recurso natural fundamental água, porém sempre recaindo no individual para conscientizar o todo.

A seguir, analisamos seis atividades presentes em diferentes coleções aprovadas no PNLD 2021 para o Ensino Médio. Os trechos selecionados tratam do tema água, conectando-o à matemática por meio de algoritmos, funções, porcentagens, unidades de medida e estatísticas. No entanto, sob a ótica da governamentalidade (Foucault, 2008a), essas propostas vão muito além de exercícios escolares. Elas compõem um verdadeiro roteiro de condutas reguladas, orientando como o estudante deve se portar diante da crise hídrica, quase sempre por meio de responsabilização individual, gestão do consumo e adaptação comportamental. Em cada atividade, observamos sutis e potentes dispositivos de poder que convidam o estudante a se governar a si mesmo, num processo pedagógico que molda subjetividades sustentáveis, porém despolitizadas.

Vejamos três excertos do livro “Matemática – Prisma”, de Bonjorno, Giovanni Jr. e Sousa (2020), que demonstram essas situações. O cidadão que cuida do meio ambiente é aquele que pensa no “consumo consciente de água” (Bonjorno; Giovanni Jr.; Souza, 2020, p. 20, grifo nosso), como vemos na Figura 1.

Figura 1
– Consumo consciente de água

Na proposta da Figura 1, seção Conexões, vemos uma tentativa de análise global: um gráfico de setores mostra que 70% da água no mundo é usada pela agricultura, 22% pela indústria e 8% pelo consumo doméstico. Além disso, outro gráfico ao lado aponta que apenas 2,5% da água do planeta é doce. Parece, finalmente, um olhar mais estrutural. Mas não é o que se confirma.

Apesar de apresentar a informação sobre o uso intensivo da agricultura, o texto volta-se constantemente ao comportamento individual: “O uso irresponsável desse recurso tanto na agricultura como nas residências e nas indústrias causam problemas que ameaçam o fornecimento de água para a população” (Bonjorno; Giovanni Jr; Souza, 2020, p. 20, grifo nosso). A incoerência é gritante, ao colocar, no mesmo patamar de responsabilidade, setores cujos impactos sobre os recursos hídricos são substancialmente distintos. O dado denuncia a agricultura, mas o culpado, no final, continua sendo você, que deixa a torneira aberta. A governamentalidade aqui funciona com sutileza: apresenta o dado que inocenta o indivíduo, mas logo restabelece a moral individualizante. O poder opera, assim, pela via da ambiguidade, da dispersão de focos, da pedagogia travestida de cidadania.

Na Figura 2, a seguir, reproduzimos uma página de um dos livros didáticos, que combina dados estatísticos (154 litros de água por dia por brasileiro) com imagens de escovação e lavagem do rosto, além de uma lista de recomendações sobre como economizar. A lógica é simples: mostre o dado, ilustre a conduta correta, recomende a mudança.

Figura 2
– Atitudes que economizam

É uma cartilha da governamentalidade. Fechar a torneira enquanto escova os dentes é uma norma curricular, endossada por gráficos, tabelas e fotografias. A matemática entra como linguagem de autoridade. A mensagem implícita é: os números não mentem; logo, você deve mudar seu comportamento. A subjetividade que se constrói é a do sujeito calculador, econômico, responsável por si e pelo planeta.

Ao longo do texto, a matemática é utilizada para demonstrar que pequenas mudanças nas práticas diárias, como reduzir o tempo de banho, fechar a torneira durante atividades específicas e utilizar menos água para tarefas como escovar os dentes, podem resultar em economia significativa de água. A atividade sugere que indivíduos conscientes devem adotar condutas, como tomar banhos rápidos, ajustar o fluxo da torneira, molhar a escova de dentes com água antes de usá-la e utilizar copos para enxaguar a boca, e evitar desperdício prolongado de água. Essas condutas promovem uma consciência ambiental sobre o consumo de água. A Figura 3, a seguir, apresenta as atividades propostas e as orientações do livro do professor para conscientizar os alunos em formação.

Figura 3
– Atividades e instrução ao docente

Essa atividade propõe que os estudantes, em grupo, investiguem os valores cobrados pelo consumo de água em seu município, pesquisem tarifas, elaborem uma função f(x) para representar o valor pago em função do consumo e criem um panfleto de conscientização. Tudo isso acompanhado de orientações para o professor sobre como estimular reflexões e infográficos com dicas práticas.

Aparentemente uma proposta interdisciplinar, a atividade é, na verdade, uma aula de governamentalidade aplicada. A geladeira, a máquina de lavar e o chuveiro viram objetos de cálculo. Tudo vira dado. Tudo vira porcentagem. Tudo vira controle. O estudante aprende, desde cedo, que sustentabilidade é igual a gestão eficiente. É o sujeito neoliberal em formação. Mais que entender a estrutura tarifária da água, o estudante é chamado a defender a economia doméstica como princípio moral. A matemática, nesse contexto, não emancipa: ela ensina a ser cliente consciente da concessionária.

No livro “Matemática – Grandezas”, dos autores Chavante e Prestes (2020), há uma situação sobre o consumo de água. Essa situação, reproduzida na Figura 4, mostra a importância de escovar os dentes e passar fio dental para que se tenha um sorriso saudável.

Figura 4
– Escovando os dentes de maneira correta

A proposta é clara: criar um algoritmo a partir da rotina diária da escovação dos dentes. Em meio às imagens que retratam o passo a passo da higiene bucal, aparece uma instrução central: “fechar a torneira durante o procedimento” (Chavantes; Prestes, 2020, p. 110, grifo nosso). A atividade é aparentemente ingênua, mas nos oferece um exemplo poderoso de como o livro didático usa a linguagem matemática para regular condutas.

A situação apresentada instrui que, para se ter um “sorriso saudável” (Chavantes; Prestes, 2020, p. 110, grifo nosso), são necessárias algumas ações que resumem a lógica biopolítica que orienta essas coleções: produzir-se como sujeito vigilante, moldar hábitos cotidianos sob a lógica da eficiência e do controle. Trata-se de uma forma de poder que atua sobre a vida, promovendo a autogestão dos sujeitos por meio da normatização de comportamentos e da responsabilização individual. A escovação, o banho, a rotina matinal, tudo se torna passível de algoritmização, de programação. É como se o estudante fosse um pequeno engenheiro de si mesmo, aprendendo a racionalizar seus hábitos. O fechar a torneira é menos uma dica de economia e mais uma convocação ao autogovernamento. E a matemática serve de base para essa racionalização do cotidiano, um tipo de treinamento disciplinar disfarçado de consciência ambiental.

Outro tema é o abordado no livro “Matemática Interligada – Estatística, análise combinatória e probabilidade”, de Andrade: a pegada hídrica. Embora de maneira informativa, discute-se bastante, nos textos e exercícios propostos, sobre a quantidade de água utilizada na produção de alimentos, roupas, carnes, entre outros produtos. No entanto, essa discussão permanece superficial, sem aprofundar a reflexão sobre o consumo excessivo que ocorre além dos maus hábitos cotidianos, que está relacionado, por exemplo, ao consumo de produtos muitas vezes desnecessários. É o que mostra a Figura 5.

Figura 5
– Água

A Figura 5 apresenta o infográfico clássico da água virtual, termo que se refere à quantidade de água utilizada na produção de bens e serviços, especialmente aqueles comercializados globalmente, e indica quantos litros de água são necessários para produzir 1 kg de determinados alimentos. A matemática atua na quantificação, comparação e hierarquização desses dados, enquanto as perguntas convidam o estudante a refletir sobre os gastos exagerados.

Aparentemente neutra, essa proposta carrega uma potente mensagem de governamento: você, estudante, é convocado a responder pela crise hídrica. A matemática, nesse caso, não é apenas ferramenta para medir, mas também instrumento para moralizar. Ensina-se que consumir carne é uma escolha insustentável, que vestir jeans exige sacrifício ambiental, que devemos todos mudar nossos hábitos. O discurso é sedutor e perigoso, porque silencia sobre o agronegócio, a lógica de exportação de commodities, as monoculturas e a indústria têxtil globalizada. Em vez de questionar estruturas, questiona-se o prato do estudante. Eis a governamentalidade em plena operação.

A Figura 6, a seguir, apresenta uma orientação ao docente sobre esse conceito de água virtual, articulando-o ao tema da agricultura.

Figura 6
– Orientação ao docente referindo a água virtual

Como ilustra o trecho, um dos exemplos utilizados no livro é o da China, que importa grandes quantidades de soja e, consequentemente, também importa a água utilizada na produção desse alimento. O texto reforça a importância de compreender a água como recurso finito, não disponível em sua totalidade para uso humano, e sugere atividades interdisciplinares com Química, Biologia e Geografia. O objetivo declarado é que os alunos percebam que o consumo de água vai além do banho ou da torneira aberta: ele está escondido nas roupas, na comida, nos serviços.

O que está em jogo aqui é a produção de uma consciência individualizada da escassez. Ao ensinar sobre a água virtual, o livro convida o estudante a uma vigilância de si, a um gerenciamento de suas escolhas cotidianas, como se a salvação do planeta estivesse no cardápio escolar. O conceito de governamentalidade é ilustrado com precisão nesse tipo de orientação: há uma condução das condutas pela via do saber técnico, uma pedagogia que recorre à ciência para afirmar que o problema não é sistêmico, mas comportamental. Sustentabilidade, aqui, é sinônimo de esforço individual. A matemática escolar legitima esse discurso ao quantificar tudo, inclusive a culpa.

Após analisarmos essas questões, identificamos a necessidade de propor currículos com atividades que ultrapassem o caráter meramente informativo e as sugestões superficiais como as de mudança de hábitos. A ausência de discussões mais profundas e sociopolíticas limita o potencial do currículo, que atualmente ignora aspectos sociais, culturais e políticos, que são relevantes para a formação crítica dos estudantes. Essa omissão não diz respeito à expectativa de que o currículo aborde todos os aspectos possíveis, o que seria inviável, mas sim à exclusão sistemática de perspectivas que poderiam promover reflexões mais críticas e autônomas. As propostas apresentadas nos livros didáticos analisados mostram que as atividades matemáticas formam cidadãos conforme se deseja, porém não tocam em discussões mais complexas ou subsidiam questões que possam levar a reflexões críticas que envolvem o meio neoliberal.

As atividades que proporemos a seguir foram inspiradas em alguns critérios e organização de conteúdos propostos por Silva (2009). Inspiram-se, ainda, nas discussões presentes nos livros didáticos, porém de forma mais aprofundada e voltada à formação de cidadãos críticos, subsidiando questões nas quais os professores de matemática possam se basear, possibilitando reflexões de natureza social, política e cultural.

Uma proposta de abordagem da pegada hídrica, elaborada a partir de uma discussão mais aprofundada acerca do consumo de água na agricultura e na indústria, pode ser visualizada no Quadro 3 a seguir.

Quadro 3
– Proposta de abordagem da pegada hídrica na agricultura e na indústria

Nessa proposta, apresentamos situações que o professor de matemática pode utilizar para promover discussões mais aprofundadas sobre a pegada hídrica, articulando-a a aspectos sociais e políticos. A partir dessas abordagens, o professor poderá incentivar os alunos a refletirem sobre:

  • a distribuição global dos recursos hídricos está diretamente relacionada ao comércio internacional, que movimenta produtos como carne, soja e café, cujas cadeias produtivas demandam grandes volumes de água em sua fabricação, especialmente em países como o Brasil. Além disso, pode ser falado sobre a questão de que quanto mais se exporta produtos que gastam água, deixamos de priorizar o consumo interno e passamos a limitar esse recurso para os habitantes do nosso país;

  • a ética do consumo, a segurança alimentar, a sustentabilidade global e o desperdício de recursos, que devem ser discutidas em sala de aula, pois levam os alunos a refletirem sobre o consumo de bens desnecessários e sobre o impacto ambiental, possibilitando a redução do consumo recursos hídricos, promovendo práticas sustentáveis de produção e de consumo.

As atividades propostas que envolvem o cálculo matemático fazem com que haja um aprofundamento sobre a economia de água, não apenas no aspecto individual de cada um, focando não somente nos hábitos corretos que se deve ter, mas também pensando em como a agricultura, os bens e o consumo podem contribuir para acabar com o esse recurso fundamental para a vida.

4 Conclusões

Esta pesquisa partiu da seguinte pergunta: como o tema da água é abordado nos livros didáticos de matemática do Ensino Médio brasileiro e quais formas de subjetivação são produzidas por essas abordagens? A resposta é contundente: os livros didáticos, ainda que tematizem reiteradamente a água, o fazem a partir de uma lógica de governamento da vida cotidiana, em que a matemática é usada como ferramenta de normalização de condutas e de adesão a valores neoliberais.

A análise mostrou que há um apagamento sistemático das causas estruturais da crise hídrica e uma hipertrofia da responsabilidade individual. As atividades dos livros didáticos analisadas convocam os estudantes a monitorarem seus hábitos, controlarem seus gastos e ajustarem suas escolhas — sempre no âmbito do consumo individual, raramente no plano da reflexão coletiva ou da crítica social.

Em termos metodológicos, o conceito de governamentalidade revelou-se potente para desnudar os dispositivos de poder que operam silenciosamente nos livros didáticos. Essa ferramenta permitiu perceber que os conteúdos não são neutros e que mesmo as atividades mais aparentemente técnicas carregam discursos normativos sobre o que é ser um bom cidadão, um sujeito consciente, um consumidor responsável.

Concluímos que, para além de uma análise de conteúdo, é urgente uma análise dos efeitos dos discursos curriculares. O ensino da matemática pode ir além da eficiência e da responsabilização individual. Pode tornar-se campo de problematização, de resistência e de criação de outras formas de viver, conviver e intervir no mundo. Eis o desafio e a potência de uma educação matemática crítica e comprometida com a transformação social.

Agradecimentos

O presente artigo apresenta resultados de uma das pesquisas realizadas no âmbito de projetos fomentados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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  • Editor-chefe responsável:
    Prof. Dr. Marcus Vinicius Maltempi
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    Prof. Dra. Amanda Queiroz Moura

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Abr 2025
  • Aceito
    25 Set 2025
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