RESUMO
Objetivos: Identificar informações disponíveis para apoiar a construção de tecnologias educacionais no contexto da entrevista familiar na doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes.
Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, conduzida em seis etapas, conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: 1) elaboração da questão de pesquisa; 2) busca de estudos primários na literatura; 3) extração de dados dos estudos selecionados; 4) avaliação dos estudos incluídos; 5) análise e síntese dos resultados; 6) apresentação da revisão. A busca de estudos primários foi realizada nas bases de dados LILACS, PubMed, CINAHL, Embase, Scopus, SciELO e Web of Science. A qualidade metodológica foi avaliada conforme a ferramenta proposta pelo Johns Hopkins Evidence-Based Practice Model for Nursing and Healthcare Professionals.
Resultados: Foram incluídos 21 estudos, com diferentes delineamentos, como estudos qualitativos, transversais, prospectivos, quase-experimentais e métodos mistos. Dentre as estratégias identificadas para subsidiar o desenvolvimento de tecnologias educacionais, destacaram-se a capacitação para comunicação da morte encefálica, apoio emocional às famílias, manejo de crenças religiosas e culturais, fortalecimento do vínculo com os pais e inclusão do tema na formação acadêmica e na educação permanente.
Conclusão: As evidências reunidas reforçam a importância do embasamento científico no desenvolvimento de tecnologias educacionais eficazes para qualificar a atuação dos profissionais na entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos de crianças e adolescentes. As estratégias identificadas mostram-se promissoras para orientar futuras iniciativas de capacitação e desenvolvimento de tecnologias educacionais. Contudo, a escassez de estudos com delineamentos metodológicos robustos evidencia a necessidade urgente de pesquisas adicionais que aprofundem a compreensão do tema e validem a aplicação dessas tecnologias na prática assistencial.
Descritores
Tecnologia Educacional; Doação de Órgãos e Tecidos; Educação em Saúde; Saúde Pediátrica; Entrevista
ABSTRACT
Objectives: To identify available information to support the development of educational technologies in the context of family interviews for organ and tissue donation with parents of children and adolescents.
Methods: This is an integrative literature review conducted in six stages, according to the recommendations of the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: 1) elaboration of the research question; 2) search for primary studies in the literature; 3) extraction of data from the selected studies; 4) evaluation of the included studies; 5) analysis and synthesis of the results; 6) presentation of the review. The search for primary studies was conducted in the following databases: LILACS, PubMed, CINAHL, Embase, Scopus, SciELO, and Web of Science. The methodological quality was assessed according to the tool proposed by the Johns Hopkins Evidence-Based Practice Model for Nursing and Healthcare Professionals.
Results: Twenty-one studies were included, with different designs, such as qualitative, cross-sectional, prospective, quasi-experimental, and mixed-methods studies. Among the strategies identified to support the development of educational technologies, the following stood out: training for communicating brain death, emotional support for families, management of religious and cultural beliefs, strengthening the bond with parents, and inclusion of the topic in academic training and continuing education.
Conclusion: The evidence gathered reinforces the importance of a scientific basis in the development of effective educational technologies to qualify the performance of professionals in family interviews for organ and tissue donation of children and adolescents. The strategies identified show promise to guide future initiatives for training and development of educational technologies. However, the scarcity of studies with robust methodological designs highlights the urgent need for additional research to deepen the understanding of the topic and validate the application of these technologies in clinical practice.
Descriptors
Educational Technology; Organ and Tissue Donation; Health Education; Pediatric Health; Interview
INTRODUÇÃO
A entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos no contexto de crianças e adolescentes consiste em uma das etapas mais sensíveis desse processo, exigindo preparo técnico, emocional e comunicativo por parte dos profissionais de saúde que atuam junto às famílias. A morte de uma criança ou adolescente representa uma perda abrupta, profundamente impactante para os familiares, que demanda uma abordagem empática, acessível e humanizada da equipe de saúde1-2.
Os familiares de crianças e adolescentes, frente à possibilidade da morte de um filho, perpassam por um momento único, ímpar, com forte repercussão emocional. Essa notícia causa desorganização no núcleo familiar3. Em decorrência do abalo emocional, o processo de luto pode ser prolongado e imerso em diferentes sentimentos, devido à natureza inesperada da perda4. Essa realidade pode ser potencializada frente à decisão da doação de órgãos e tecidos de uma criança ou adolescente. A dor pode ser imensurável, haja vista que a tomada de decisão envolve a aceitação da irreversibilidade5.
A condução da entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos exige que a equipe de saúde esteja capacitada para oferecer cuidados no processo de morte e morrer, comunicar a morte com sensibilidade, prestar apoio emocional e fornecer informações claras, atuando em conjunto com a rede de apoio6,7.
Estudos evidenciam que a comunicação empática e acessível, aliada à escuta ativa, compaixão e sensibilidade, é uma estratégia eficaz para que a equipe de saúde reconheça as emoções e fases do luto dos pais de crianças e adolescentes em situação de doação3,6,8. Os mesmos estudos mostram que, quando as famílias de crianças e adolescentes são entrevistadas para doação de órgãos e tecidos e recebem suporte de equipes treinadas e capacitadas, sem críticas ou julgamentos, para enfrentar a perda e tomar essa decisão, o processo de luto tende a ser vivenciado de forma mais estruturada e menos traumática3,8.
Apesar de grandes avanços no cenário da doação de órgãos e tecidos, a entrevista representa, ainda, um desafio para os profissionais de saúde, especialmente quando se trata de menores de idade. Isso se deve, em parte, à presença constante de um acompanhante em todo o momento de internação na unidade de terapia intensiva, o que torna o vínculo mais intenso e a abordagem mais delicada. Estudos indicam que muitos profissionais não se sentem à vontade para acolher a família durante a internação e, posteriormente, questionar sobre a doação de órgãos e tecidos9,10.
No Brasil, essa realidade pode estar atrelada às baixas taxas de consentimento para doação, como indicam os dados recentes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, que apontaram uma taxa de recusa familiar no momento da entrevista de 46% em 202411. Assim, compreende-se a importância de a equipe de saúde ser apoiada, além de ter competência para estar com os pais frente à entrevista familiar. Vale destacar que a entrevista é formada por diferentes etapas, as quais envolvem comunicação da morte, apoio emocional e informação para doação de órgãos e tecidos12.
Frente a esses desafios, torna-se fundamental o investimento em estratégias educacionais que capacitem os profissionais de saúde a atuarem de maneira mais segura e sensível. Nesse sentido, as tecnologias educacionais vêm se consolidando como ferramentas inovadoras e eficazes nesse processo de formação, ao possibilitarem o acesso dinâmico a conteúdos técnicos e ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Recursos como simulações, dramatizações e cursos online têm se mostrado promissores para apoiar o aprendizado e promover uma comunicação mais humanizada com os familiares13,14.
Estudos apontam que as tecnologias educacionais baseadas em simulações, role play, histórias em quadrinhos, jogos, entre outros, são capazes de melhorar habilidades de comunicação, trabalho em equipe, consciência situacional, resolução de problemas e tomada de decisão15,16. No cenário do processo de doação de órgãos e tecidos, as tecnologias educacionais configuram-se como ferramentas significativas de acesso rápido e baixo custo, capazes de auxiliar a equipe de saúde a aprimorar competências e, em especial, habilidades de comunicação no processo de morte e morrer, processo de luto, comunicação da morte e apoio emocional17-19.
Diante desse contexto, o presente estudo tem como questão norteadora: quais informações estão disponíveis para apoiar a construção de tecnologias educacionais no contexto da entrevista familiar na doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes? Como objetivo: identificar informações capazes de apoiar a construção de tecnologias educacionais no contexto da entrevista familiar na doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes.
MÉTODOS
Trata-se de revisão integrativa da literatura, na qual, por meio de análise crítica e extensa de estudos disponíveis em bases de dados, foi possível obter informações significativas, importantes e abrangentes articuladas com o objeto investigado. Ressalta-se que os processos de busca, seleção, avaliação e síntese dos estudos relevantes auxiliam a alcançar o objetivo proposto20.
Primeira etapa
Elaborou-se a questão de pesquisa de acordo com o acrônimo PICo (patient, problem, interest, context), no qual P correspondeu a familiares; I, às evidências obtidas por meio das informações; e Co, à entrevista familiar de crianças e adolescentes. Dessa forma, emergiu a pergunta norteadora: “Quais informações estão disponíveis para apoiar a construção de tecnologias educacionais no contexto da entrevista familiar na doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes?”
Segunda etapa
Realizou-se a busca de estudos primários na literatura, optando-se por bases de dados relevantes para a área da saúde. Assim, as seguintes bases de dados foram pesquisadas: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), National Library of Medicine and the National Institutes of Health (PubMed), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Embase, Scopus, SciELO e Web of Science. Com o auxílio de uma bibliotecária com expertise na área, foram elaboradas estratégias de busca de acordo com os temas do acrônimo PICo e na busca de descritores indexados no Medical Subject Headings (MeSH) e os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Após a seleção dos conceitos, a estratégia foi ajustada conforme cada base de dados, mantendo terminologia semelhante e com a utilização de operadores booleanos (AND e OR). A busca foi realizada em 27 de setembro de 2024. A Tabela 1 fornece um exemplo das estratégias de busca aplicadas em uma das bases de dados.
Ainda nessa etapa, estabeleceram-se os critérios de inclusão e exclusão para a seleção dos artigos. Dentre os critérios de seleção, foram incluídos estudos primários que abordaram informações para apoiar a construção de tecnologias educacionais no contexto da entrevista familiar na doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes, disponíveis em inglês, português e espanhol, publicados nos últimos 6 anos. Foram excluídos artigos de revisão de literatura, material de literatura cinzenta, estudos não disponíveis na íntegra e não relacionados ao tema.
As buscas de cada base de dados foram exportadas para o software Rayyan Systems Inc®, no qual foram organizadas, e os materiais duplicados foram removidos de acordo com o método proposto na literatura. Em seguida, dois revisores independentes realizaram a seleção às cegas. Foram executadas duas etapas de seleção por quatro revisores independentes. A primeira etapa foi composta por leitura de título e resumo, e a segunda consistiu na leitura na íntegra. Em ambas as etapas, foi realizada uma reunião de consenso, com a presença de um terceiro revisor, experiente na área, para resolução dos conflitos.
Terceira etapa
Após a seleção dos estudos, de acordo com os critérios pré-estabelecidos, extraíram-se os dados dos estudos selecionados: informações de caracterização do estudo (título, autores, base de dados, ano de publicação e país), elementos sobre o desenvolvimento do estudo (objetivo, delineamento, principais resultados, desfechos, evidências e recomendações) e classificação do nível de evidência. Em seguida, foi construído um quadro-síntese, permitindo a extração integral dos dados relevantes para responder à pergunta de pesquisa.
Quarta etapa
Nesta etapa foi feita a avaliação dos estudos incluídos. Dessa forma, foi seguida a proposta de considerar a robustez das evidências e a qualidade dos estudos selecionados, haja vista que o parecer acerca dos resultados de cada estudo, quanto à existência de elementos que enfraquecem ou fortalecem a confiança nas evidências apresentadas, tem impacto significativo na estimativa do efeito21. A etapa iniciou-se com a descrição do percurso metodológico, delineamento e tipo de estudo, conforme indicado pelos próprios autores. Posteriormente, foi atribuído o nível de evidência segundo a classificação proposta pelo Johns Hopkins Evidence-Based Practice Model for Nursing and Healthcare Professionals. Esse modelo contempla estudos qualitativos e quantitativos, distribuídos em três níveis de evidência, conforme ilustrado na Tabela 222.
Classificação do nível de evidência, de acordo com Johns Hopkins Evidence-Based Practice Model for Nursing and Healthcare Professionals.
Quinta etapa
A análise e a síntese dos resultados foram realizadas de maneira descritiva, apresentando uma visão geral de cada estudo incluído por meio de quadros-síntese. Após a seleção dos estudos relevantes à pesquisa, foi conduzida a análise e síntese dos dados para identificar padrões, tendências e informações relacionadas às informações pertinentes para apoiar a criação de tecnologias educacionais aplicadas ao contexto da entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos com os pais de crianças e adolescentes. Posteriormente, os dados foram classificados de acordo com os objetivos da revisão e as principais evidências. Em seguida, procedeu-se com uma análise minuciosa dos achados, evidenciando tendências, principais resultados e possíveis divergências entre os estudos.
Sexta etapa
Esta etapa consistiu na discussão e apresentação da revisão integrativa; para isso, planejou-se, principalmente, fornecer subsídios para o desenvolvimento de futuras tecnologias educativas, além de identificar lacunas de conhecimento e direcionar novos estudos. A análise do nível de evidência, juntamente com a qualidade metodológica dos estudos, pode contribuir para a implementação de mudanças na prática clínica, especialmente sobre a comunicação com a família na entrevista familiar para doação de órgãos. Ademais, a classificação do nível de evidência permite potencializar o rigor científico dos dados extraídos dos estudos selecionados na presente revisão. Os resultados dessa etapa serão apresentados por meio de quadros e de categorias com as principais evidências capazes de apoiar o desenvolvimento de tecnologias educacionais. As categorias foram formadas considerando as etapas do modelo de Alicante: comunicação da morte; apoio emocional e informação sobre doação12.
Para assegurar o rigor metodológico, o protocolo desta revisão foi registrado no repositório científico Open Science Framework, e seguiram-se partes das recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)23.
RESULTADOS
Entre os resultados obtidos nesta revisão, foram encontrados 10.739 artigos. Após a remoção dos registros duplicados (n = 4.063), restaram 6.676 estudos para avaliação dos títulos e resumos. Desses, 6.582 foram excluídos, resultando na seleção de 94 estudos para leitura completa. Desses 94, 73 foram excluídos devido a desfechos fora do escopo desta pesquisa (n = 69) e por tipo de publicação, como nos resumos de conferência (n = 4). Assim, a amostra final foi composta por 21 estudos, conforme o fluxograma PRISMA. As bases de dados Embase e PubMed apresentaram o maior volume de publicações (28,57%). Os países com maior número de publicações sobre a temática foram Holanda e Brasil, totalizando cinco estudos (23,8%). Os anos com o maior número de publicações foram 2021 e 2022 (23,8%). A Fig. 1 apresenta os detalhes das informações coletadas dos estudos incluídos na revisão.
Os dados extraídos foram organizados em planilhas contendo dados de caracterização do estudo (título, autores, fonte de busca, país de origem e objetivos), conforme a Tabela 3. Acerca da estruturação do estudo, a Tabela 4 apresenta o delineamento do estudo, nível de evidência, principais achados e as estratégias capazes de apoiar o desenvolvimento de tecnologias educacionais.
DISCUSSÃO
Dentre os principais achados, destacam-se os desafios no cuidado à família que tangenciam a comunicação, compreensão das etapas e do diagnóstico de morte encefálica (ME), apoio às reações emocionais, respeito ao tempo do luto imediato e acolhimento no contexto da possibilidade de doação de órgãos9,10, 25-28,32-34,36-38,42.
Evidencia-se a complexidade do processo e a necessidade contínua de capacitação e suporte aos profissionais da saúde, visto que, após ações de treinamento, os profissionais se sentem aptos para comunicação de más notícias e orientação sobre o diagnóstico de ME, com a atuação profissional ancorada em abordagens que consideram a dimensão emocional e cultural das famílias27-31,35,39. Dessa forma, a educação continuada e a definição de estratégias para o desenvolvimento de tecnologias educacionais desempenham um papel fundamental na qualificação das práticas relacionadas à doação de órgãos e tecidos.
Os dados evidenciam tanto as necessidades e experiências emocionais vivenciadas pelos familiares quanto as competências e fragilidades da equipe de saúde para lidar com essa temática. Trata-se de um contexto sensível, influenciado por múltiplos fatores que afetam a decisão sobre a doação, entre esses: crenças religiosas, preservação da integridade do corpo, dificuldades na comunicação por parte da equipe médica, tempo insuficiente para dialogar com os familiares, medo e dificuldade de aceitação da morte24,31,40,41. Em contrapartida, os fatores que favorecem a aceitação da doação estão associados ao desejo de ajudar outras famílias, ao conhecimento prévio sobre o processo de doação, à disponibilidade da equipe para acompanhar os familiares, à presença do enfermeiro à beira do leito e ao vínculo estabelecido entre a equipe de saúde, o paciente e a rede de apoio24,31,40,41.
A deficiência no conhecimento e na comunicação da equipe de saúde em relação à ME e ao processo de doação está frequentemente associada à falta de preparo e de treinamento adequado, configurando uma lacuna que compromete a compreensão e aceitação familiar29,35. As tecnologias educacionais podem funcionar como ferramentas eficazes para minimizar essas fragilidades, por meio de simulações e discussões aprofundadas sobre o diagnóstico de ME, alterações clínicas e a comunicação familiar25,27,30,39.
A importância de uma comunicação humanizada e pautada na confiança é destacada na literatura, especialmente no que se refere à capacidade de informar a gravidade da situação clínica, estabelecer vínculo com os pais e gerenciar conflitos familiares, considerando que são aspectos cruciais para o sucesso da entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos25,26,28. Assim, compreende-se que a dificuldade que os profissionais encontram em dialogar com as famílias nesse momento de forte impacto emocional também se traduz nas barreiras que os pesquisadores encontram ao abordar esse tópico na pesquisa científica. Nesse sentido, as tecnologias educacionais podem simular cenários complexos, permitindo que os profissionais pratiquem a comunicação de más notícias, o gerenciamento do tempo e a exploração dos sentimentos familiares, minimizando o risco de comentários imprudentes e aprimorando o tato no apoio às famílias enlutadas30,32-34,42.
Os profissionais de saúde enfrentam diversas dificuldades ao comunicar o diagnóstico da ME, especialmente diante de crenças religiosas e culturais das famílias, da falta de conhecimento da população sobre o tema e do próprio processo de luto vivenciado pelos familiares25,28,33,42. O despreparo da equipe de saúde para se comunicar com as famílias pode tornar o processo ainda mais desafiador, uma vez que os familiares necessitam de uma comunicação clara, acessível, empática e pautada na escuta ativa. A fragilidade da equipe nesse aspecto configura uma barreira significativa, com potencial para comprometer diretamente a decisão da família sobre a doação25,26,28,30,32,34,42.
Além das habilidades comunicacionais, a sensibilidade às crenças religiosas e culturais das famílias é um fator determinante no processo decisório relacionado à doação de órgãos. Em muitos casos, a recusa familiar está associada a concepções sobre a integridade do corpo após a morte, sendo a retirada de órgãos percebida como mutilação, percepção que reflete valores culturais e religiosos profundamente enraizados. Diante desse cenário, torna-se fundamental a capacitação dos profissionais de saúde para que sejam capazes de acolher e compreender essas perspectivas em um momento de extrema vulnerabilidade familiar. O uso de tecnologias educacionais desponta como estratégia promissora para preparar as equipes, ao promover competências culturais e oferecer subsídios para uma abordagem mais respeitosa, sensível e informada sobre o processo de doação e transplante de órgãos24,34.
O suporte emocional e a continuidade do cuidado às famílias, tanto durante quanto após o processo de doação, foram identificados como necessidades latentes. As famílias revelam a necessidade de maior suporte em momentos críticos, especialmente quando o doador é encaminhado para a retirada dos órgãos, e um forte sentimento de “tornarem-se órfãos de apoio” pós-doação. Tecnologias educacionais que incluam lentes do trauma, teoria do luto, teoria dos sistemas e construção de significado e narrativa podem capacitar os profissionais a identificar e utilizar oportunidades para a redução de sintomas do luto antecipatório, participação ativa e construção de significado9,30,32,36,37,41.
Além da capacitação dos profissionais atuantes, o estudo reforça a necessidade da inclusão de teoria e prática educacional na graduação, em relação à ME, à doação de órgãos e ao luto que permeia esse tema27,31,32. Mais do que aprimorar as habilidades e o entendimento dos novos egressos em relação à temática, fomentar discussões e promover reflexão e estudo teórico aprofundado acerca do tema possibilita sua desconstrução como tabu no imaginário popular, bem como desperta interesse em pesquisas na área, contribuindo para a expansão e aprimoramento do conhecimento sobre esse processo tão delicado, não somente para os familiares, mas também para os profissionais9,35,41,42.
Em suma, as estratégias que sustentam o desenvolvimento de tecnologias educacionais para a entrevista para doação de órgãos e tecidos de crianças e adolescentes devem abranger o aprimoramento do conhecimento técnico-científico sobre a ME e o processo de doação, o desenvolvimento de habilidades comunicacionais pautadas na empatia e na humanização, a compreensão das dimensões culturais e religiosas envolvidas e o oferecimento de suporte emocional contínuo às famílias. A incorporação dessas dimensões às tecnologias educacionais tem o potencial de qualificar a formação dos profissionais de saúde, contribuindo para um processo de doação mais sensível, eficiente e centrado no cuidado digno e respeitoso às famílias em situação de vulnerabilidade.
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo evidenciam que a entrevista para doação de órgãos e tecidos no contexto pediátrico configura um processo complexo, atravessado por elementos emocionais, culturais, éticos e comunicacionais. Nesse cenário, as tecnologias educacionais configuram-se como ferramentas promissoras para qualificar a prática profissional, ao favorecer o fortalecimento do vínculo com as famílias, a transmissão empática e clara de informações e o manejo sensível e respeitoso do luto e da tomada de decisão. As estratégias identificadas apontam para a importância de abordagens que integrem o aprimoramento técnico-científico sobre a ME, a sensibilidade às crenças culturais e o suporte emocional às famílias no processo de luto. Elementos que devem estar incorporados de forma transversal na formação dos profissionais da saúde, desde a graduação até a educação permanente, sobretudo daqueles que atuam em unidades de terapia intensiva pediátrica.
Apesar das contribuições relevantes, observa-se uma escassez de estudos com delineamentos metodológicos robustos e contextualizados à realidade brasileira, o que ressalta a necessidade de pesquisas futuras que desenvolvam, validem e avaliem o impacto de tecnologias educacionais aplicadas ao processo de entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos de crianças e adolescentes. A qualificação da escuta e da presença profissional, mediadas pelo conhecimento técnico e humanização do cuidado, pode transformar a dor em uma oportunidade de solidariedade e continuidade da vida.
AGRADECIMENTOS
Não se aplica.
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FINANCIAMENTO
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e TecnológicoProcesso no: Bolsas PIBITI 2024/2025-Edital Propesq 04/202
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DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Todos os dados foram gerados ou analisados neste estudo.
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Editora de Seção:
Ilka de Fátima Santana F. Boin https://orcid.org/0000-0002-1165-2149


Fonte: Elaborada pelos autores.