Open-access Saúde Bucal no Transplante de Órgãos Sólidos: Uma Revisão Integrativa

RESUMO

Após a realização do transplante, os pacientes passam a fazer uso de imunossupressores, visando à prevenção da rejeição do órgão transplantado. Essa terapia medicamentosa altera o sistema imunológico do paciente, deixando-o mais suscetível às infecções e doenças da cavidade oral, sendo, assim, necessário o acompanhamento e tratamento odontológico tanto antes quanto após o transplante. Nesse sentido, tem-se como objetivo descrever as principais manifestações orais e os cuidados necessários com a saúde bucal após o transplante de órgãos sólidos. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura. Para a pesquisa, foram utilizadas as bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline) por meio do PubMed, Academic Search Premier por meio da Ebsco e Web of Science (Coleção Principal Clarivate Analytics/Thomson Reuters), adotando como descritores os termos “Organ Transplantation” and (“Oral Health” or “dental care” or “Dental health”). Foram identificados 278 trabalhos nas bases de dados; destes, 39 estavam duplicados, restando 239 para análise de títulos e resumos, dos quais 18 foram selecionados para leitura de texto completo, sendo sete incluídos na presente revisão. Os estudos foram realizados predominantemente na Ásia e na Europa, sendo publicados entre 2007 e 2021. Os estudos envolviam transplantes de rim, fígado, pulmão e coração, e os principais tipos de medicamentos imunossupressores foram tacrolimus, ciclosporina, micofenolato, sirolimus e glicocorticoides. O número de pacientes observados variou entre 19 e 418. A saúde bucal dos pacientes transplantados apresenta piores condições quando comparada à população em geral. Doenças periodontais, cárie e diversos tipos de infecções foram comumente observadas devido à baixa imunidade; por conta disso, a progressão das doenças tende a ser mais rápida. É importante tratar todas as condições relacionadas à saúde bucal antes do transplante. No entanto, essa abordagem nem sempre é viável, e logo se mostra necessário o acompanhamento desses pacientes no consultório odontológico após o procedimento. Todavia, esse cenário não é a realidade encontrada nos achados: diversos tratamentos não foram realizados, e após o transplante esses pacientes não têm acompanhamento periódico no consultório odontológico, o que representa uma negligência quanto à saúde bucal deles. Os transplantados estão mais suscetíveis a problemas odontológicos, como doença periodontal, cárie e infecções diversas. Sendo assim, é essencial a sensibilização dos pacientes e das equipes assistenciais para o acompanhamento odontológico.

Descritores
Transplante de Órgãos; Saúde Bucal; Imunossupressores

ABSTRACT

After transplantation, patients start taking immunosuppressants to prevent rejection of the transplanted organ. This alters the immune system, making patients more susceptible to infections and diseases of the oral cavity. This necessitates dental care and monitoring both before and after transplantation. This study aimed to describe the main oral manifestations, and the care required for oral health after solid organ transplantation. Materials and methods: This article is an integrative literature review. The following databases were used for the search: Medline through Pubmed; Academic Search Premier through Ebsco and Web of Science (Main Collection Clarivate Analytics/Thomson Reuters), using the terms ‘Organ Transplantation’ and (‘Oral Health’ or ‘dental care’ or ‘Dental health’) as descriptors. A total of 278 papers were identified in the databases, of which 39 were duplicates, leaving 239 for analysis of titles and abstracts. Of these, 220 were excluded and 18 were selected for full-text reading. Of the remaining 16, seven were included in this review. The location of the studies was mainly in Asia and Europe, and they were published between 2007 and 2021. The studies involved kidney, liver, lung and heart transplants and the main types of immunosuppressive drugs were tacrolimus, cyclosporine, mycophenolate, sirolimus and glucocorticoids. The number of patients observed ranged from 19 to 418. The oral health of transplant patients is worse than that of the general population. Periodontal disease, tooth decay and various types of infection were commonly observed due to low immunity, which is why the progression of diseases tends to be faster. Ideally, all oral health conditions should be treated before transplantation. However, this approach is not always feasible, so it is necessary to follow up these patients in the dental clinic. However, this scenario is not the reality found in the findings, several treatments were not carried out and after the transplant these patients do not have periodic follow-up in the dental office, thus observing how the oral health of these patients is often neglected. Transplant patients are more susceptible to dental problems such as periodontal disease, caries and various infections. However, this is not always feasible, so these patients need to be followed up in a dental practice. However, several treatments were not carried out.

Descriptors
Organ Transplantation; Oral Health; Immunossupressive Agents

INTRODUÇÃO

O Transplante de Órgãos Sólidos (TOS) foi um dos maiores avanços para a medicina no último século, possibilitando o acesso de milhares de pessoas a essa terapia substitutiva. Além do avanço nas técnicas cirúrgicas, o desenvolvimento de medicamentos imunossupressores possibilitou a redução dos riscos de rejeição ao órgão transplantado e, consequentemente, aumento na sobrevida das pessoas submetidas aos transplantes1.

No entanto, mesmo que seja necessário o uso dos medicamentos imunossupressores, essa situação não é isenta de riscos, pois, além de predispor o surgimento de reações adversas, também torna o paciente mais propício a contrair infecções. Por esse motivo, e para avaliar a evolução do quadro clínico, é necessário que estes pacientes sejam acompanhados por profissionais da equipe de saúde de forma periódica, incluindo o cirurgião dentista2-4.

A saúde bucal é fundamental para o sucesso do transplante, sendo necessário o parecer do profissional responsável para a realização do procedimento, pois há a possibilidade de que um problema de foco infeccioso bucal possa evoluir de forma dramática, por exemplo, uma sepse no paciente imunossuprimido3. Nesse sentido, previamente ao transplante, os receptores são orientados a procurar atendimento odontológico visando ao tratamento das demandas na cavidade oral com a finalidade de evitar que venham a se tornar uma infecção sistêmica. Todavia, dependendo do tipo de transplante e da gravidade do estado de saúde do paciente, esse atendimento antes do procedimento pode ser muito precário e insuficiente pela urgência do caso3.

Após o transplante, alguns pacientes devem retornar ao consultório odontológico para concluir alguns procedimentos, como extrações dentárias e tratamento periodontal5. Além disso, devem ter acompanhamento odontológico com uma periodicidade maior, além de uma boa higiene bucal, visto que a imunossupressão possibilita maior predisposição às manifestações patológicas orais, ou seja, estão mais propensos a desenvolver infecções (fúngicas, bacterianas e virais), problemas periodontais e lesões cariosas6 – ou mesmo lesões orais malignas7.

Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo descrever as principais manifestações orais e os cuidados necessários com a saúde bucal após o transplante de órgãos sólidos.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. Este trabalho teve como pergunta de pesquisa “Quais os principais problemas relacionados à saúde bucal após o transplante de órgãos sólidos?” Com base nos achados da revisão, foi possível sugerir os principais cuidados que as pessoas submetidas ao transplante devem adotar para manter a saúde bucal no estado de imunossupressão.

A pesquisa foi realizada nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline) por meio do PubMed, Academic Search Premier por meio da Ebsco e Web of Science (Coleção Principal Clarivate Analytics/Thomson Reuters), adotando as estratégias conforme apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Estratégias de busca adotadas na pesquisa realizada nas bases de dados.

A busca foi realizada no dia 9 de julho de 2024, não sendo adotada delimitação temporal. Foram incluídos artigos identificados na estratégia de busca; e excluídos artigos de revisão, ensaios clínicos (por não representar uma aplicação clínica usual da prática, e sim um experimento controlado) e outros artigos que não aqueles observacionais, além de artigos que tratavam de outros problemas de saúde, transplante de células-tronco hematopoiéticas ou pacientes pediátricos (população errada). Ainda, excluíram-se textos em outras línguas, como francês e alemão.

Para auxiliar no processo de revisão dos documentos foi realizada a importação dos arquivos resultantes das buscas no programa Rayyan®. Inicialmente, procedeu-se à análise dos documentos repetidos e, em seguida, analisaram-se os títulos e resumos de forma independente por dois pesquisadores. Após essa análise, foi realizada uma reunião de consenso para determinar os artigos que seguiram para a análise dos textos completos.

Dos artigos selecionados, foram extraídas informações por um dos pesquisadores e revisadas por um segundo pesquisador. Os resultados foram organizados em duas tabelas, sendo uma delas com a caracterização dos estudos e contendo dados sobre o local do estudo, seu objetivo, tipo de estudo, tipo de transplante de órgãos sólidos dos participantes do estudo, número de pessoas observadas e a imunossupressão adotada pelas pessoas com transplante.

Em um segundo momento, foram caracterizados os problemas odontológicos descritos (quais e frequências observadas), se havia descrição sobre o acompanhamento regular com o dentista, a descrição da avaliação de higiene oral e o registro de hiperplasia gengival induzida pelos imunossupressores.

A qualidade dos artigos foi analisada adotando-se a Escala de Newcastle-Ottawa (NOS), indicada para estudos observacionais, tendo como critérios (máximo de 8 pontos): amostragem aleatória: 1 = sim, 0 = não; amostragem imparcial: 1 = sim, 0 = não; amostra com participantes bem descritos: 1 = sim, 0 = não; tamanho da amostra: 1 = maior ou igual a 300 sujeitos, 0 = menor que 300 sujeitos; utilização do diagnóstico dos problemas odontológicos por meio da análise clínica por profissional da área: 1 = sim, 0 = não; avaliadores imparciais: 1 = sim, 0 = não; taxa de resposta: 1 = maior ou igual a 70%, 0 = menor que 70%; tipo de teste estatístico: 1 = teste adequado, 0 = sem descrição ou teste estatístico.

Por ser um estudo de revisão da literatura, não foi necessária a avaliação por um Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos.

RESULTADOS

Foram identificados 278 trabalhos nas bases de dados; destes, 39 estavam duplicados, restando 239 para análise de títulos e resumos, dos quais 220 foram excluídos por não se adequarem ao tema proposto, sendo selecionados 18 para a leitura de texto completo. No entanto, três não foram localizados na íntegra, sendo solicitados aos autores sem a obtenção de resposta em duas semanas. Dos 16 restantes, 7 foram incluídos na presente revisão (Fig. 1).

Figura 1
Fluxograma do processo de inclusão dos artigos no trabalho de revisão sobre os cuidados e a saúde bucal em pessoas submetidas ao transplante de órgãos sólidos.

A avaliação da qualidade dos estudos incluídos pode ser observada na Tabela 2.

Tabela 2
Avaliação da qualidade dos estudos incluídos na revisão sobre a saúde bucal no transplante de órgãos sólidos segundo a Escala de Newcastle-Ottawa.

A Tabela 3 apresenta a descrição dos trabalhos incluídos, observando-se que foram realizados especialmente na Ásia e Europa e publicados entre 2007 e 2021. Os estudos envolviam transplantes de rim, fígado, pulmão e coração e os principais tipos de medicamentos imunossupressores. O número de pacientes observados variou entre 19 e 418.

Tabela 3
Caracterização dos estudos incluídos na revisão sistemática sobre os cuidados e a saúde bucal em pessoas submetidas ao transplante de órgãos sólidos.

A Tabela 4 apresenta as principais manifestações orais e os tratamentos odontológicos descritos. Os pacientes apresentam elevada necessidade de tratamento periodontal e tratamento dentário, como restaurações, endodontia e extrações, além de infecções, sejam elas bacterianas, virais ou fúngicas – sendo exemplo desta última a Candida albicans. Em pacientes que utilizam próteses, foi encontrada uma grande porcentagem de estomatite. A frequência de pacientes transplantados ao consultório odontológico não foi regular, e a avaliação de qualidade de higiene bucal foi relatada como precária na maioria dos casos – o que é perceptível, visto que a demanda de tratamentos necessários a serem realizados mesmo antes do transplante não foi atendida em parte importante das vezes. A Tabela 4 apresenta, ainda, dados sobre a hiperplasia gengival induzida por drogas, o que é importante em termos de farmacovigilância dos imunossupressores.

Tabela 4
Necessidades odontológicas e seus tratamentos descritos nos estudos incluídos na revisão sistemática sobre os cuidados e a saúde bucal em pessoas submetidas ao transplante de órgãos sólidos.

Um dos estudos, Kwak et al.13, avaliou a mortalidade pós-transplante: dos 418 pacientes observados, 15 receptores de rim e 1 de fígado morreram. Destes, sete foram a óbito por sepse, sendo que três deles tiveram infecções orais identificadas antes do transplante. No entanto, não foi possível associar as manifestações orais ao desfecho desses pacientes.

DISCUSSÃO

Os estudos incluídos apresentaram uma qualidade moderada, com limitações especialmente no processo de amostragem e na análise estatística. Segundo esses trabalhos8-14, os pacientes com TOS são submetidos à terapia imunossupressora a fim de prevenir a rejeição do enxerto e garantir a sobrevida do órgão transplantado. Embora benéficos, esses medicamentos promovem alterações importantes na resposta imune sistêmica e local, aumentando a suscetibilidade a infecções oportunistas. Além da modulação da resposta imunológica, alguns imunossupressores podem alterar o fluxo e a composição da saliva, reduzir fatores antimicrobianos salivares e favorecer alterações na morfologia gengival – fatores que contribuem para o acúmulo de biofilme na superfície dental. Essas comunidades microbianas aderidas às superfícies são responsáveis por muitas doenças bucais, como cárie dentária e periodontite15; além disso, a própria imunossupressão aumenta a predisposição ao desenvolvimento de tumores16.

Os biofilmes, que são comunidades organizadas de micro-organismos, podem também favorecer a carcinogênese ao estimular respostas inflamatórias crônicas, promover a liberação de citocinas pró-inflamatórias e espécies reativas de oxigênio, além de contribuir para a resistência a medicamentos17,18. Além disso, a presença de biofilmes no microambiente tumoral pode reduzir ainda mais a eficácia do sistema imunológico e limitar os efeitos terapêuticos de antibióticos e anti-inflamatórios. Ainda, a resistência bacteriana associada aos biofilmes pode dificultar o tratamento de doenças orais18.

Quando associados a uma má higiene oral, esses mecanismos podem aumentar significativamente o risco de desenvolver tais doenças, inclusive as infecciosas, nessa população8,10.

Prevalência de doenças periodontais

A alta prevalência da doença periodontal foi encontrada em quase todos os estudos6,8,9,11-14. Exemplificando isso, destaca-se que, no estudo de Ziebolz et al.9, nenhum dos pacientes avaliados apresentou condição periodontal saudável. Essa precária saúde periodontal evidencia a grande frequência de alterações inflamatórias nos tecidos periodontais entre pacientes com TOS. Esses achados são corroborados por vários outros estudos incluídos nesta revisão6,8,11-14 que demonstram altos índices de inflamação gengival e acúmulo de biofilme dental. O biofilme é uma comunidade microbiana aderida à superfície, como comentado anteriormente, que afeta significativamente a saúde bucal. Periodontite, cárie e peri-implantite são doenças infecciosas da cavidade oral nas quais os biofilmes orais desempenham um papel causal19 e afetam mais que a saúde oral, tendo impactos sociais e psicológicos19,20. Essas alterações podem estar relacionadas às alterações bucais visíveis, como cárie dentária avançada e edentulismo, que influenciam negativamente a percepção de si mesmo e as interações sociais19, 20.

A doença periodontal apresenta um risco ao paciente com TOS, uma vez que pode promover a perda óssea alveolar e atuar como foco crônico de infecção13. A presença de biofilmes bacterianos orais desencadeia respostas inflamatórias crônicas no hospedeiro, que podem resultar em eventos destrutivos do tecido, além de favorecer a proliferação de micro-organismos como Porphyromonas gingivalis (P. gingivalis) e Streptococcus mutans (S. mutans)13,19-21.

A perda dentária é uma das consequências mais graves da doença periodontal, que ocorre à medida que a doença progride sem um devido tratamento. Nos estágios avançados da periodontite, o dente pode atingir um grau de mobilidade irreversível, resultando na perda do suporte periodontal20. Ademais, a proliferação microbiana no biofilme dental contribui para o desenvolvimento da cárie. Quando essa lesão progride sem diagnóstico e tratamento oportunos, pode atingir a polpa dentária, tornando o tratamento endodôntico necessário para a manutenção do elemento dentário. Esse cenário pôde ser observado no estudo de Guggenheimer et al.3, no qual 32% dos pacientes observados apresentavam graves doenças dentárias, bem como em outros estudos22,23.

Além das repercussões clínicas diretas, a condição bucal também impacta em aspectos funcionais como fala, mastigação e bem-estar, reduzindo as taxas de qualidade de vida dessa população6.

Hiperplasia gengival

Os imunossupressores utilizados após o TOS são associados a diversas alterações na cavidade oral, como foi demonstrado nos achados8,9,11. Entre as mais relatadas está a hiperplasia gengival induzida por medicamento6,8,9,11,14, especialmente associada ao uso de ciclosporina. A prevalência dessa condição pode variar entre 20% e 76% dos pacientes24. A incidência e gravidade da doença dependem de disposição genética, fatores locais e hábitos como tabagismo e alcoolismo6. Além disso, as condições de higiene oral precárias observadas na maioria dos indivíduos levam a uma piora do quadro de inflamação gengival. Em alguns casos, até mesmo depois de procedimentos cirúrgicos, como a gengivoplastia, pode ocorrer recidiva da hiperplasia caso não haja melhora na qualidade da higienização8.

Os achados também trazem dados que relatam outros imunossupressores que também podem estar relacionados a manifestações semelhantes. Há relatos de hiperplasia gengival associada ao uso de sirolimus9, todavia, a literatura ainda apresenta poucos estudos que fazem associação entre este medicamento e a hiperplasia gengival de forma consistente.

Consequências clínicas e infecções oportunistas

Um estudo aponta a alta necessidade de intervenções cirúrgicas nesses pacientes, como a remoção de restos radiculares, tratamento de peri-implantite e extrações dentárias14. Essas condições podem representar pontos de infecção na cavidade oral que, se não forem tratadas, possivelmente progridem para complicações à saúde do paciente, pois estes estão mais suscetíveis a desenvolver infecções oportunistas em virtude da imunossupressão relacionada ao TOS9,25.

Entre as infecções oportunistas, a candidíase foi a lesão oral mais comumente citada nos pacientes imunossuprimidos10. Devido à baixa do sistema imunológico, o fungo C. albicans encontra a oportunidade de se estabelecer e proliferar, causando a candidíase orofaríngea. O paciente também pode vir a desenvolver infecções fúngicas profundas, como a mucormicose, que se apresenta como uma lesão necrótica e fundante. Esse quadro apresenta mortalidade de 65% a 70% em pacientes com TOS24.

Infecções virais também são frequentemente observadas e normalmente estão relacionadas aos vírus herpes humano e varicela-zoster, cuja incidência no grupo de pacientes com TOS varia entre 7,6 e 10,8%, portanto superior à população em geral26. Já as infecções odontogênicas são em quase todos os casos polimicrobianas, sendo que essas últimas podem ter origem periodontal ou endodôntica24,27.

Além das infecções, lesões inflamatórias da mucosa oral também são comuns. A mucosite afeta entre 60% e 80% dos pacientes com TOS24; nesse sentido, quadros como a mucosite e a estomatite protética podem prejudicar a fala e a ingestão de alimentos, ou mesmo o uso de medicamentos. Isso ocorre devido aos sintomas como dor na mucosa oral, ardência, sensação de queimação e secura na cavidade oral8. Golecka et al.8 demonstraram que pacientes que faziam uso de próteses na cavidade oral, principalmente as acrílicas, junto à terapia imunossupressora criaram condições para o desenvolvimento de estomatite protética. Ainda, descreveram que o baixo fluxo de saliva e o crescimento gengival podem ser fatores que agravam o quadro inflamatório8 – devendo, nesse caso, a equipe assistencial estar atenta para orientar os pacientes sobre hábitos de higiene oral, cuidados necessários com a prótese e o tratamento ideal para amenizar os sintomas orais.

Risco de lesões potencialmente malignas

Os pacientes imunossuprimidos estão mais predispostos a desenvolver neoplasias, incluindo lesões malignas na região labial28,29 e na cavidade oral29. Estudos epidemiológicos indicam que pacientes transplantados apresentam uma incidência significativamente elevada em comparação à população geral28-30. Segundo a revisão realizada por Huo et al.30, envolvendo 72 coortes e mais de

2 milhões de pacientes com TOS, o risco de desenvolver câncer oral foi de 3,60 (2,79–4,69), enquanto para o câncer de lábios foi de 34,69 (26,82–44,86), quando comparados a pessoas sem TOS.

A literatura sugere que esse aumento está relacionado à combinação de múltiplos fatores, incluindo a imunossupressão prolongada; o uso de determinados medicamentos, como ciclosporina e azatioprina; e fatores ambientais, especialmente a exposição crônica à radiação ultravioleta (exposição solar)28. Além disso, outros fatores de risco, como tabagismo e consumo de álcool, podem contribuir para o desenvolvimento de neoplasias na região oral29.

Nesse contexto, é importante destacar que a imunossupressão pode reduzir a capacidade de vigilância imunológica contra células neoplásicas, favorecendo o desenvolvimento e a progressão de tumores30. Dessa forma, a realização de exames clínicos periódicos da cavidade oral torna-se fundamental para o diagnóstico precoce de lesões potencialmente malignas nesses pacientes.

Medidas preventivas e a importância do acompanhamento odontológico

Os achados desta revisão evidenciam a elevada necessidade de tratamento odontológico, tanto antes quanto após o transplante8,9,11-13. Entretanto, dois estudos demonstraram que muitos pacientes não recebem atendimento odontológico adequado durante o processo do transplante9,31.

No pré-transplante, o ideal seria realizar uma avaliação odontológica e efetuar os tratamentos necessários dos pacientes visando à saúde da cavidade oral, e não apenas a emissão de um parecer liberando o procedimento do transplante. Todavia, esses tratamentos não ocorrem da forma como deveriam, pois em muitos casos as condições de saúde e a emergência pela realização do transplante tornam o tempo disponível insuficiente para a realização de todos os procedimentos odontológicos necessários antes do transplante9. Além disso, os cirurgiões do transplante estão preocupados com a deterioração das condições do paciente após procedimentos dentários invasivos – como cirurgia periodontal e extrações dentárias –, optando, assim, por realizar esses procedimentos após o transplante13. Isso explica, em parte, as deficientes condições bucais dos pacientes com TOS observadas nos estudos incluídos na presente revisão. Ademais, a falta de orientação adequada e a baixa adesão às práticas preventivas também contribuem para esse cenário.

A gravidade das condições bucais apresentadas por esses indivíduos é um sinal de como a saúde bucal é negligenciada no grupo de pacientes com TOS. A necessidade de tratamento odontológico é nítida em pacientes tanto antes quanto após o transplante, todavia, a maioria dos tratamentos não é realizada9,31.

A saúde bucal dos pacientes com TOS pode ser reflexo da negligência de tratamento no período de espera pelo órgão associada à falta de informações e instruções sobre higiene oral. Foi observada nos estudos a precária qualidade de higiene oral dos indivíduos, fato que poderia ser revertido se fossem investidos mais tempo e recursos em educação sobre higiene bucal e motivação dos pacientes. Ensinar a forma correta de escovação, instruir sobre os cuidados com aparelhos protéticos e informar sobre os riscos na cavidade oral devido à terapia imunossupressora é papel do cirurgião dentista e deve ser realizado visando ao bem-estar dos pacientes. Além disso, é essencial motivar os pacientes a preservar e cuidar da saúde bucal, seguindo os tratamentos e fazendo acompanhamento regular no dentista8.

Já foi observado que as manifestações orais, caso não sejam tratadas corretamente, podem evoluir para a piora do estado de saúde do paciente8. Visto isso, é necessária uma mudança no sistema de organização dos pacientes antes do transplante, visando a um tratamento específico com foco em promover saúde em todos os aspectos da cavidade oral. Além disso, após o transplante, é ideal o acompanhamento regular desses pacientes no consultório odontológico para que as condições de saúde bucal sejam mantidas, bem como o estímulo por uma higiene adequada também seja instituído.

Nesse contexto, a necessidade de imunossupressão desses indivíduos torna-os mais predispostos ao acúmulo de biofilme dental e, consequentemente, a doenças dentais e periodontais. Sendo assim, torna-se essencial reforçar hábitos de higiene e acompanhamento periódico. Além disso, uma revisão publicada recentemente por Olsson et al.25 sugere a possibilidade de que a saúde bucal, em especial as infecções, pode estar associada a complicações no pós-transplante de receptores de órgãos sólidos.

Vale ressaltar que os estudos incluídos neste trabalho foram conduzidos predominantemente na Ásia e na Europa, contextos que apresentam diferenças significativas no acesso ao tratamento odontológico quando comparados ao Brasil. Os achados demonstram que o acesso à assistência odontológica ainda representa um importante desafio em diferentes regiões do mundo. Em diversos países asiáticos e europeus, os benefícios odontológicos cobertos pelos sistemas públicos de saúde são restritos a tratamentos específicos ou a determinadas faixas etárias. Além disso, muitos serviços odontológicos exigem coparticipação financeira dos pacientes ou são custeados integralmente por eles. Em vários países, as consultas odontológicas regulares também são limitadas a apenas uma visita anual32-34.

Além das barreiras financeiras decorrentes dos pagamentos diretos, os pacientes podem enfrentar obstáculos físicos e geográficos para acessar os serviços. As desigualdades na utilização da assistência odontológica estão frequentemente associadas a fatores como renda, nível de escolaridade e condição migratória, resultando na ausência de acompanhamento odontológico adequado para muitos indivíduos durante os períodos pré e pós-transplante32-34.

Ademais, as estratégias de cuidado em saúde apresentam características distintas entre os países. No Brasil, observa-se maior ênfase em ações de promoção, prevenção e educação em saúde, priorizando intervenções antes do estabelecimento da doença35-36. Em contrapartida, em diversos países observa-se predominância de um modelo assistencial mais curativo, no qual as intervenções ocorrem principalmente após a instalação do agravo32-34.

No contexto brasileiro, a implementação da Política Nacional de Saúde Bucal, por meio do programa Brasil Sorridente, promoveu significativa ampliação da cobertura odontológica no Sistema Único de Saúde (SUS), favorecendo maior acesso da população aos serviços básicos e especializados. Entretanto, apesar dos avanços observados, a literatura evidencia que o acesso ao atendimento odontológico no Brasil ainda ocorre de forma desigual, especialmente em regiões de maior vulnerabilidade social e em localidades remotas36. Dessa forma, embora o cenário brasileiro apresente avanços importantes quando comparado a determinados países da Ásia e da Europa, persistem limitações relacionadas à continuidade do cuidado odontológico e ao acompanhamento integral desses pacientes. Esse contexto evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas à assistência odontológica de indivíduos submetidos ao transplante de órgãos sólidos.

Como limitações deste artigo, cita-se o número de bases pesquisadas (três), além do algoritmo utilizado para pesquisa, o que pode ter contribuído para a perda de trabalhos que poderiam ter enriquecido os achados. Todavia, a divulgação dos resultados desta pesquisa pretende aumentar a sensibilização das equipes de transplante para o cuidado com a saúde bucal dos pacientes com TOS, o que é relevante diante do cenário de destaque que o Brasil ocupa no mundo em número de transplantes e na participação de um sistema público de saúde nesse cuidado.

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que os pacientes com TOS necessitam de uma atenção priorizada na cavidade oral devido ao seu estado de imunossupressão, além da baixa higiene identificada nos trabalhos incluídos. Verifica-se que existe uma predisposição para diversas manifestações orais, como doença periodontal, cárie, hiperplasia gengival, estomatite protética, além de infecções bacterianas, fúngicas e virais. Visto isso, são necessárias educação sobre higiene bucal e acompanhamento periódico pela equipe de saúde, o que deve incluir o cuidado odontológico para garantir a qualidade da saúde bucal desses pacientes. No entanto, o fato de não terem sido incluídos estudos brasileiros na pesquisa reforça a necessidade do desenvolvimento de pesquisas nesta área.

AGRADECIMENTOS

À Universidade de Brasília e à Universidade Católica de Brasília pelo apoio na realização deste estudo.

  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.
  • DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    As autoras utilizaram o ChatGPT (OpenAI) exclusivamente para revisão linguística do manuscrito. As autoras revisaram todo o conteúdo e assumem total responsabilidade pela versão final.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Nov 2025
  • Aceito
    01 Jul 2026
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