Open-access Aplicação do Protocolo de Morte Encefálica em Paciente Adulto Vítima de Traumatismo Cranioencefálico

RESUMO

Neste relato, descreve-se um caso de aplicação do Protocolo de Morte Encefálica em doador adulto que culmina na captação de órgãos sólidos (fígado e rins) para transplante. Trata-se de um paciente do sexo masculino, de 63 anos de idade, vítima de traumatismo cranioencefálico grave após queda de escada. O objetivo deste relato é apresentar a condução do importante protocolo que permite uma das formas de elegibilidade para doação de órgãos no Brasil, demonstrando e discutindo entraves relacionados ao processo.

Descritores
Coma Pós-Traumatismo da Cabeça; Morte Encefálica; Obtenção de Tecidos e Órgãos

ABSTRACT

This report describes a case of implementation of the Brain Death Protocol in an adult donor, culminating in the procurement of solid organs (liver and kidneys) for transplantation. The patient was a 63-year-old male, a victim of severe traumatic brain injury after falling down stairs. The objective of this report is to describe the conduct of this important protocol, which is one of the eligibility criteria for organ donation in Brazil, and to highlight and discuss barriers to the process.

Descriptors
Post-Traumatic Brain Injury Coma; Brain Death; Tissue and Organ Procurement

INTRODUÇÃO

A captação de órgãos para transplante teve início no Brasil no ano de 1964, quando foi realizado o primeiro transplante de rim do país, na cidade do Rio de Janeiro1. As primeiras tentativas de transplante de fígado, por sua vez, tiveram início no final da década de 1960, mas apenas em 1985 foi realizado o primeiro transplante hepático com êxito a longo prazo, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo2. Nesse período, os transplantes ainda representavam uma estratégia terapêutica relativamente nova, e seus resultados demonstravam altos índices de mortalidade associada2.

Nas décadas seguintes, a estratégia de substituição cirúrgica de órgãos sólidos foi se consolidando como potente ferramenta terapêutica em diversas enfermidades diante do aprimoramento técnico das cirurgias de captação e transplante, bem como do manejo pós-operatório. Observou-se, então, aumento progressivo do número de transplantes realizados no Brasil. Em 2025, o Sistema Nacional de Transplantes registrou 9.940 transplantes de órgãos sólidos, sendo aproximadamente 6.700 de rim e 2.573 de fígado3.

Com o paciente diagnosticado com morte encefálica (ME) representando a maior fração dos doadores de órgãos no país (90,9% das doações de janeiro a setembro de 2025 vieram de doador falecido), o Protocolo de Morte Encefálica (PME) foi determinado por lei federal e instituído pelo Conselho Federal de Medicina em 1997, sendo atualizado em 2017, com a finalidade de orientar a equipe médica e proteger o paciente4,5. Tal protocolo sistematiza o estabelecimento do diagnóstico de ME em etapas com intervalo temporal a ser respeitado durante a execução.

Diante da desproporção entre o número de doações de órgãos efetivadas e o número de pessoas em filas de transplante (3.215 doadores efetivos de janeiro a setembro de 2025, contra 72.626 pacientes ativos em lista de espera no mesmo período), bem como da gravidade do quadro clínico dos pacientes com indicação de transplante, impera a necessidade de executar de forma eficaz e ágil as etapas do protocolo nos pacientes candidatos à doação4.

No entanto, entraves técnicos relacionados à disponibilidade de profissionais habilitados ou de equipamentos necessários podem prolongar a condução do protocolo, situação que não é incomum nos serviços de saúde do Brasil.

Nesse sentido, o presente trabalho objetiva apresentar um caso clínico de aplicação do PME em paciente adulto, desde a identificação do paciente como potencial candidato à doação de órgãos até o estabelecimento do diagnóstico e a realização da cirurgia de captação, trazendo à luz discussões sobre os entraves técnicos enfrentados durante esse processo.

Relato do caso

Paciente do sexo masculino, de 63 anos de idade, foi admitido no setor de pronto atendimento do nosso serviço em 11 de março de 2025 após queda de um lance de escadas em domicílio cerca de 20 horas antes. O acompanhante relatou perda de consciência e episódio emético com conteúdo sanguinolento associados.

Ao exame físico inicial, o paciente apresentava estado geral ruim, estando eupneico, com vias aéreas pérvias, normocorado, acianótico e desorientado. A frequência cardíaca (FC) era de 86 batimentos por minuto (bpm), e a pressão arterial (PA) era de 135/90 mmHg. As auscultas pulmonar e cardíaca, bem como o exame físico abdominal, apresentavam-se normais.

O paciente somava 8 pontos na Escala de Coma de Glasgow (ECG): 2 pontos para abertura ocular, 2 pontos para resposta verbal e 4 pontos para resposta motora. Foi então estabelecido o diagnóstico de traumatismo cranioencefálico grave. Nesse contexto, o paciente foi submetido à intubação orotraqueal, permanecendo sob sedação, em profundidade estimada na escala Richmond Agitation-Sedation Scale 5 (RASS) de -5.

Foi solicitada tomografia computadorizada (TC) de crânio sem contraste, que evidenciou hematoma intraparenquimatoso frontal direito de grande volume (Fig. 1). Além disso, também foi realizada TC de coluna cervical, que não mostrou alterações. O paciente evoluiu inicialmente estável, sob sedação (RASS -5), sem intercorrências.

Figura 1
Tomografia de crânio realizada em 11 de março de 2025. É possível visualizar a área hiperdensa equivalente ao hematoma intraparenquimatoso em região frontal direita.

Diante desse quadro, optou-se por realizar abordagem cirúrgica para drenagem do hematoma intracraniano no dia 12 de março de 2025. Foi realizada craniotomia frontal à direita com sucesso, sem intercorrências. No pós-operatório imediato, o paciente evoluiu em estado grave, intubado, sedado, hemodinamicamente estável, sem uso de drogas vasoativas. O exame físico permaneceu sem alterações significativas em relação ao padrão admissional.

O paciente evoluiu com curva pressórica ascendente, chegando a PA de 220/140 mmHg, quando foi assistido com terapia anti-hipertensiva endovenosa. Em resposta, apresentou instabilidade hemodinâmica, sendo necessária a administração de drogas vasoativas.

Quando a sedação foi suspensa pela primeira vez após a cirurgia, observou-se ausência de resposta motora e verbal, com midríase bilateral, constatando-se coma não perceptivo (ECG 3). A deterioração neurológica constatada no momento pós-operatório, em relação à admissão no serviço (queda de 5 pontos na ECG), apesar da realização com sucesso do procedimento cirúrgico proposto, pode ser justificada pela progressão da lesão cerebral na vigência do sangramento intracerebral durante o período pré- e intraoperatório, cuja repercussão clínica não foi acompanhada de estimativas seriadas de pontuação na ECG devido à sedação realizada.

Neste momento, o paciente ficou em vigilância hemodinâmica para ser transferido à unidade de terapia intensiva, com acompanhamento da neurocirurgia e da Comissão Intra-Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes.

A fisioterapia respiratória identificou incapacidade ventilatória autônoma por comprometimento dos mecanismos de proteção de vias aéreas, com redução da capacidade funcional. Foram mantidos parâmetros ventilatórios controlados e instituídas terapias de higiene brônquica, expansão pulmonar e ajustes de posicionamento em leito.

Durante a noite, ainda em 12 de março de 2025, o paciente manteve-se em estado geral grave, intubado, sem sedação, estável hemodinamicamente, em uso de droga vasoativa (noradrenalina 4 mL/h), com ECG 3. Não havia alterações no exame físico. Sinais vitais, no momento: FC 71 bpm, PA 166/102 mmHg, frequência respiratória de 17 incursões por minuto, saturação de oxigênio (SatO2) 98%.

Diante do quadro clínico e neurológico, foi aberto o PME, com primeira avaliação às 20h40 de 12 de março de 2025. O paciente apresentava pupilas fixas e arreativas, ausência dos reflexos córneo-palpebral, óculo-cefálico, vestíbulo-calórico e da tosse. PA: 166/102 mmHg; temperatura axilar: 36,4 °C.

Ao longo dos dias seguintes, o paciente foi monitorado e assistido com manutenção hemodinâmica e evoluções constantes. No dia 15 de março de 2025, às 12h12, foi realizada a segunda avaliação clínica do PME, mantendo os achados anteriores. O teste de apneia, realizado no mesmo dia, confirmou ausência de movimentos respiratórios com PaCO₂ > 55 mmHg. Doppler transcraniano evidenciou colapso circulatório cerebral. O protocolo foi encerrado às 18h30 do mesmo dia, com autorização familiar para doação de órgãos. O suporte hemodinâmico foi mantido até o momento da cirurgia.

Na madrugada do dia 16 de março de 2025, foi realizada a captação cirúrgica de fígado e rins para transplante. Procedeu-se à laparotomia e toracotomia por incisão mediana esternopúbica, conforme se observa na Fig. 2. O fígado foi retirado em bloco, juntamente com o ligamento gastro-hepático, cabeça e corpo do pâncreas, segmento de veia cava, segmento de aorta e tecidos adjacentes. As Figs. 3a, 3b, 4 e 5 demonstram etapas do processo cirúrgico descrito.

Figura 2
Toracotomia e laparotomia durante cirurgia de captação.
Figura 3
a) Identificação e isolamento do leito vascular hepático para captação. b) Leito vascular identificado.
Figura 4
Variação anatômica: artérias renais originando-se da aorta em posição mais proximal que o habitual.
Figura 5
Rins direito (D) e esquerdo (E) após serem captados.

A nefrectomia bilateral foi realizada com inclusão das artérias renais, veias renais e uréteres. Durante o procedimento, observou-se variação anatômica das artérias renais, cuja origem na aorta apresentava posição mais alta (proximal) em relação ao padrão habitual. Diferentemente da localização comum inferior, próxima às artérias ilíacas, as artérias renais originavam-se em posição superior, próxima ao tronco celíaco.

A cirurgia foi finalizada com síntese das paredes torácica e abdominal. O fígado foi submetido à perfusão ex situ por vias aórtica e portal, utilizando solução de preservação, conforme mostrado na Fig. 6.

Figura 6
Preparo do fígado após captação, com perfusão ex situ.

O fígado apresentava características senis, porém sem evidências de esteatose ou fibrose, sendo classificado como de tamanho médio. Os rins se encontravam em bom estado, considerados adequados para transplante.

DISCUSSÃO

O PME institui que os procedimentos para diagnóstico de ME devem ser iniciados em todos os pacientes em coma não perceptivo que também apresentem arreatividade supraespinhal e apneia persistente5. No caso descrito, percebe-se que, tão logo o paciente teve a constatação do coma, com a retirada da sedação no pós-operatório, já foi identificado como potencial candidato ao protocolo e, por conseguinte, à doação de órgãos. Dessa forma, em poucas horas, o serviço de fisioterapia já havia sido acionado para auxiliar no teste de apneia, e um profissional médico habilitado compareceu para um exame clínico ainda no mesmo dia para constatar ausência de reatividade.

A agilidade na condução do protocolo é fundamental para o seu sucesso, já que é aplicado a pacientes graves, suscetíveis a intercorrências, que podem vir a apresentar parada cardiorrespiratória antes que sejam concluídas as etapas, caso haja demora no processo. Entre janeiro e setembro de 2025, 6,63% (780/11.753) das causas de não concretização da doação de órgãos entre os potenciais doadores notificados no Brasil foram parada cardíaca4.

Nosso serviço, felizmente, era detentor de estrutura capaz de permitir as etapas diagnósticas do protocolo, a saber: realização de dois exames clínicos neurológicos, cada um realizado por um profissional médico habilitado diferente, bem como a realização de teste de apneia e de um exame complementar atestando a ausência de atividade ou perfusão cerebral.

Respeitado o tempo mínimo entre os exames clínicos (de 1 hora para paciente adulto), é importante que não haja atrasos na condução do protocolo para que o doador se mantenha viável. No caso apresentado, percebe-se um intervalo de tempo de 63 horas e 32 minutos entre a primeira e a segunda avaliação, que se justifica pela dificuldade de disponibilidade de profissional habilitado para o exame, comum em vários serviços no país.

São necessários dois médicos distintos, nenhum integrante da equipe de transplantes; cada um deve ter treinamento ou especialização em neurologia, neurocirurgia, medicina intensiva ou medicina de emergência, ou possuir capacitação formal reconhecida pelo hospital ou pelo sistema de transplantes⁴. Essa exigência profissional, apesar de muito importante para a condução adequada do protocolo do ponto de vista técnico e ético, limita consideravelmente o arsenal de equipe disponível para o exame. Tal limitação, em um contexto de enorme demanda em relação ao trabalho médico nos serviços de saúde do Brasil, em particular no serviço público, pode atrasar a etapa de exame clínico, como foi o caso do paciente apresentado.

Além da limitação de arsenal profissional, há outro fator limitante, que é causa de inviabilização da realização do protocolo em muitos serviços de saúde do país: a escassez de exames complementares para atestar a ausência de atividade/perfusão cerebral. São empregadas técnicas de alto custo, como cintilografia cerebral e arteriografia cerebral, ou de custo baixo a moderado, mas que exigem profissionais treinados para realização e interpretação, como Doppler transcraniano e eletroencefalograma.

Todo esse panorama de limitações que ainda é uma realidade dos serviços de saúde do Brasil culmina em um dado alarmante: outros 6,80% (800/11.753) das causas de não concretização da doação de órgãos de potenciais doadores, de janeiro a setembro de 2025, deveram-se à incapacidade de confirmação do diagnóstico de ME suspeitado4.

Apesar do cenário de deficiência técnico-profissional, a recusa à doação na entrevista com familiares continua sendo a principal causa de não concretização das doações (45% dos casos)4. A superação desse obstáculo não depende de equipamentos diagnósticos de ponta ou de títulos de especialização específicos, mas da humanização da abordagem por parte dos profissionais envolvidos na comunicação com a família, já que, nesse momento sensível, muitas dúvidas e preconcepções podem gerar resistência à doação. No caso relatado, felizmente a capacidade da equipe responsável permitiu o sucesso da doação.

O resultado de todas as dificuldades expostas é uma desproporção enorme entre os possíveis doadores, as doações efetivadas e o número de pacientes aguardando transplantes no país. Em 2025, um registro publicado pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos mostrou que, nos primeiros 9 meses do ano, entre os 11.753 doadores em potencial notificados, apenas 3.215 se tornaram doadores efetivos, ao passo que 72.626 pacientes estavam ativos em lista de espera para transplante de órgão sólido no mesmo período4.

CONCLUSÃO

A captação de órgãos para transplante a partir de doadores vítimas de ME é um processo que requer atenção e rigor nos procedimentos por parte da equipe de profissionais de saúde envolvidos. O PME é de extrema importância no processo de captação de órgãos, pois fornece um conjunto de diretrizes e procedimentos para confirmar a morte do paciente e orientar a conduta médica. Nesse sentido, a equipe, assim como no caso relatado, deve estar atenta para que possíveis doadores sejam identificados precocemente e a captação de órgãos seja realizada de maneira ágil e ética.

É imprescindível que os profissionais de saúde estejam preparados desde antes do início do PME até o momento da captação, garantindo que o paciente receba a melhor assistência possível, ao passo que seus órgãos se mantêm viáveis. Desafios em relação à escassez técnico-profissional nos serviços de saúde do Brasil, sobretudo no cenário público, podem comprometer a viabilidade e a agilidade da execução do PME.

Ademais, os familiares do paciente devem receber informações claras e precisas para que possam tomar decisões informadas sobre a doação de órgãos. Trata-se de uma experiência desafiadora, mas que pode trazer esperança e novas oportunidades para aqueles que aguardam um transplante.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.
  • DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi utilizada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.

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REFERÊNCIAS

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Out 2025
  • Aceito
    20 Abr 2026
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