Resumo
A crise ecológica é uma das questões ambientais que mais afetam o planeta, e é causada pela ecodessacralização, um conceito definido pela relegação das identidades divinas da natureza ao esquecimento a partir do ceticismo ambiental. Dúvidas sobre a realidade da degradação ambiental ou das mudanças climáticas e desertificação carregam em si uma forte visão antropocêntrica da natureza. O ceticismo pode ter aprofundado a compreensão humana sobre o mundo natural, mas também destruiu o meio ambiente. Neste estudo, argumenta-se que a ecodessacralização é uma forma de avareza ambiental, e medidas devem ser tomadas para mudar a forte percepção antropocêntrica atual sobre o mundo natural. Para superar tal percepção, buscamos desvelar a ética conservacional africana, profundamente enraizada na ecologia nativo-cêntrica. Esse conceito desfaz atitudes negativas e as reconstrói, com vistas ao bem comum da humanidade. Este estudo conclui que a ressacralização do meio ambiente pelo ensino-aprendizagem da ecologia nativo-cêntrica nas escolas pode mitigar os impactos da crise ecológica.
Humanos; Ecologia; Ambiente; Poluição ambiental
Abstract
The ecological crisis is one of the environmental issues affecting the planet, and it is caused by eco-desacralization, a concept defined by environmental skepticism that relegates the divine identities of the environment. Doubts about the authenticity of environmental degradation or climate change and desert encroachment bear a strong anthropocentric view of nature. Skepticism may have deepened the human understanding of the natural world, but it has also destroyed the environment. In this study it is argued that eco-desacralization is environmental avarice, and steps must be taken to shift the strong anthropocentric perception of the natural world. To overcome this, we unearth African conservation ethics, deeply rooted in native-centric ecology. This concept reconstructs negative attitudes for the benefit of humanity. This study concludes that the resacralization of the environment by the teaching and learning of native-centric ecology in schools can mitigate the impacts of the ecological crisis.
Humans; Ecology; Environment; Environmental pollution
Resumen
La crisis ecológica es una de las cuestiones ambientales que más afectan al planeta y está provocada por la ecodesacralización, un concepto definido por la relegación al olvido de las identidades divinas de la naturaleza basándose en el escepticismo ambiental. Las dudas sobre la realidad de la degradación ambiental o del cambio climático y la desertificación conllevan una fuerte visión antropocéntrica de la naturaleza. El escepticismo puede haber profundizado la comprensión humana del mundo natural, pero también ha destruido el medio ambiente. En este estudio, se argumenta que la ecodesacralización es una forma de codicia ambiental, y que se deben tomar medidas para cambiar la fuerte percepción antropocéntrica actual del mundo natural. Para superar esta percepción, buscamos desvelar la ética de la conservación africana, profundamente arraigada en la ecología nativocéntrica. Este concepto deshace actitudes negativas y las reconstruye, con miras al bien común de la humanidad. Este estudio concluye que la resacralización del medio ambiente por medio de la enseñanza-aprendizaje de la ecología nativocéntrica en las escuelas puede mitigar los impactos de la crisis ecológica.
Humanos; Ecología; Ambiente; Contaminación ambiental
Esclarecimentos conceituais
O ceticismo ambiental é a negação de problemas ambientais, considerando-os irreais ou sem importância. Defendida por Descartes, funciona como uma espécie de antropocentrismo moderno, com consequências ecológicas diretas e evidentes 1. Novas identidades ambientais é um termo usado para abranger ideias como mudança climática, deterioração ambiental, descarte descuidado de lixo e muitas outras questões causadas pela dessacralização da natureza 2. Os tabus ambientais representam a consciência ambiental e os gêneros de conservação em que a vida humana depende dos ambientes animal, vegetativo e físico, que devem ser identificados, nomeados, explorados de forma significativa e econômica e protegidos da poluição, extração excessiva e esgotamento para o bem-estar da humanidade 3.
Ecologia nativo-cêntrica
O estudo indígena do meio ambiente usando perspectivas centradas (locais) é conhecido como ecologia nativo-cêntrica 4, abrangendo leis, costumes, filosofias e valores indígenas. Essa filosofia ecológica e social é desafiada pela dessacralização ecológica. A ecologia nativo-cêntrica sustenta os ideais ou valores ambientais indígenas, estabelecendo diretrizes ou princípios claros sobre como as pessoas devem se comportar no mundo natural 4.
O paradigma cêntrico envolve repensar as redes biológicas nativas e transitórias de geração em geração através da tradição oral, da mitologia e da prática. As tentativas de investigar a raiz da crise ecológica começaram com a publicação, em 1967, de um artigo de Lynn White intitulado “As raízes históricas de nossa crise ecológica”; no entanto, o projeto permaneceu e permanece incompleto e em desenvolvimento, sendo a dessacralização uma de suas novas identidades ecológicas no século XXI 2.
O que é dessacralização ecológica? O mundo atualmente testemunha um homem moderno que nega o sagrado em nome do domínio sobre as criaturas 5. O filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr foi responsável por conceituar a filosofia da dessacralização em 1981 6. A dessacralização ecológica é um desdobramento do ceticismo filosófico ocidental. O antropocentrismo moderno começa, portanto, com Descartes, com consequências ecológicas diretas e evidentes 1. A união na hierarquia dos seres se perdeu com o ceticismo, e a ausência da ecoespiritualidade nas relações ambientais tem agravado a crise ecológica 7.
A valorização do ceticismo resultou na falta de verdades sobre a natureza dos seres no ambiente; uma perda da dimensão transcendental do ambiente que repudia a busca intelectual do absoluto na proteção ambiental.
A ecodessacralização nega o divino, o valor intrínseco (sacralidade) e a relação simbiótica na exploração da natureza. É o oposto da ecossacralização, que afirma que as estruturas religiosas do meio ambiente são violadas pelos seres humanos e seu profundo isolamento em relação à ecoespiritualidade, sendo assim a anomalia da ecologia dessacralizada é uma perspectiva reducionista e uma ruptura entre os seres sencientes. O meio ambiente e o Espírito foram reconhecidos em todos os outros momentos e lugares, e em todas as comunidades e tradições. Nossa necessidade de reabilitação da ecologia sagrada é a solução para a crise ecológica 6.
A superexploração da natureza abre a possibilidade para uma forma de ser humano que é profundamente não espiritual 8. A exteriorização da natureza é um processo significativo na promoção do ceticismo, sem fazer promessas às identidades divinas 9. Dessacralização do meio ambiente é o processo de separar o conhecimento ecológico de sua fonte divina percebida (Deus ou a realidade, em última instância) 10. Essa consciência rejeita os fundamentos divinos e metafísicos do ambiente e confina o conhecimento ao domínio empírico 11.
As atividades humanas na biosfera terrestre são um dos maiores fatores na ecodessacralização, alterando a estrutura do ambiente em todo o globo 12. Mudanças climáticas, deterioração ambiental, descarte descuidado de lixo e muitas outras questões são novas identidades ambientais. A busca humana por alimentos e produção constante, incluindo para fins agrícolas, como atividades de pesca e consumo não humano, é a maior contribuinte para a degradação dos habitats naturais 9,12.
A dessacralização da natureza é a raiz de nossa crise ecológica, e muito pouco se sabe sobre o que ocorreu ou quais foram os resultados, uma vez que nossa compreensão da história da mudança ecológica ainda é tão incipiente 2. Como exemplificou Lynn Whyte, a extinção dos auroques europeus, que ocorreu razoavelmente recentemente, em 1627, parece ter sido um simples caso de caça excessivamente entusiasmada 13. Além disso, o ceticismo é citado como a raiz de novas identidades ambientais, pois motiva os seres humanos em direção à degradação ambiental 14. A crise ecológica também pode ser atribuída a fatores naturais, mas as ações humanas são geralmente locais e, na maioria das vezes, consequência da dessacralização 5.
A ecodessacralização é o inverso da ecossacralização (ecologia nativo-cêntrica); é um abuso espiritual do meio ambiente que tem consequências gerais e duradouras nos níveis individual, local e global. A destruição de insígnias religiosas anteriormente dedicadas a objetos sagrados, plantas ou animais torna o objeto dessacralizado 15.
Método
Este estudo adotou a análise filosófica, por se tratar de uma abordagem crítica em relação às palavras e conceitos utilizados na pesquisa 16. Essa abordagem garante a maior precisão possível no significado, esclarecendo a denotação e o significado das palavras usadas. Sem uma análise clara, as ideias ou pensamentos filosóficos são confusos e desordenados, seu significado desnecessariamente vago e ambíguo, dificultando a comparação de ideias e sistemas de pensamento porque não se tem certeza do que está sendo comparado. A função do filósofo é garantir que a casa das ideias esteja arrumada 17.
A análise filosófica é um método de pesquisa baseado em evidências, não uma especulação filosófica, que ajuda um pesquisador a adquirir uma compreensão profunda do assunto, objetos, literatura e tópicos sob investigação, para então comunicar uma ideia 17. Este estudo tem como foco uma análise aprofundada do conceito de ecoressacralização, uma nova identidade ambiental, considerando que a compreensão de uma ecologia centrada no nativo seria uma abordagem valiosa e um recurso essencial para o renascimento e proteção da ecologia, atualmente subvalorizada.
Nossa análise filosófica se limitará a conceituar novas identidades ambientais e a forma de abordá-las. Esta pode não ser uma abordagem perfeita para resolução dos problemas da crise ambiental, mas a análise filosófica de tais conceitos e termos é uma empreitada valiosa.
A tradição de “EzeOsisi”: uma ecologia nativa
Na tradição oral do povo Ika do Estado do Delta, na Nigéria, EzeOsisi (anunuebe) é uma árvore misteriosa que mantém suas folhas durante todo o ano 18. Essa árvore sagrada é temida e respeitada, lidando decisivamente com o mal sendo incapaz de ser influenciada pela corrupção no curso da dispensação da justiça. Curandeiros e adivinhos veneram esta que é a mais poderosa árvore sagrada, pois é um vigoroso local de ação, com uma presença sobrenatural 19.
EzeOsisi é uma proteção verdejante, usada para preparar todos os tipos de amuletos e em cujos galhos nem mesmo os pássaros pousam. É uma árvore perene, lenhosa e espinhosa, com cerca de 10 metros de altura, conhecida como “tâmara do deserto”, é uma fabulosa fonte terapêutica para a cura de doenças. A espécie é parte da família Balanitaceea, que é amplamente difundida em áreas desérticas da África e da parte sul da Ásia. Consiste em saponinas, flavonoides, alcaloides, lipídios, proteínas, carboidratos e ácidos orgânicos 20.
EzeOsisi é uma espécie ameaçada e sujeita a queimadas em muitas terras Ika, o que remove a cobertura vegetal natural que protege a superfície do solo, expondo a terra à erosão hídrica e à radiação ultravioleta, levando a uma crise ecológica 21. Na Austrália, as agências governamentais estimam que cerca de 50 espécies de animais e plantas ameaçadas nacionalmente tiveram pelo menos 80% de suas áreas de vida afetadas por incêndios florestais 22, o que significa perdas de biodiversidade.
A dessacralização de EzeOsisi é um abuso espiritual com consequências amplas e duradouras nos níveis individual, local e global 15. A reavaliação de EzeOsisi a partir de uma visão ideologicamente arraigada da natureza significa recapturar sua medicina sagrada e identidades ambientais divinas, em oposição à supressão prolongada da ideologia africana de preservação do meio ambiente. A tradição de EzeOsisi é uma parte da ontologia africana que deve ser entendida em termos da cosmologia dos povos africanos 9.
A realidade de EzeOsisi é um composto da unidade e harmonia das forças naturais e do meio ambiente, uma abordagem comunitária holística de valores que se reforçam mutuamente para a proteção de locais sagrados, pedras, areia, montanhas, rios, plantas e animais 23. A sacralidade de EzeOsisi é a afirmação de que toda realidade carrega uma força ou energia vital, de modo que interações harmoniosas são para o bem comum da humanidade 23.
A identidade distintiva de EzeOsisi abrange as proibições e tabus estritos sob os quais uma espécie ou área era proibida pelos ancestrais devido a normas sociais que diziam respeito a um comportamento aceitável ao colher ou se envolver com tais espécies 24. A valorização de certos tabus ambientais ilumina uma consciência arcana e baseada no meio ambiente que se destina a promover o uso sustentável dos recursos da natureza 25. A justificativa para tabus rígidos é que eles oferecem proteção a espécies ameaçadas – como EzeOsisi – e a não adesão a tabus comunitários resulta em sanções 25.
A ecossacralização promove o uso sustentável do meio ambiente e informa o conhecimento impenetrável e baseado no meio ambiente. O povo shona, como qualquer outra sociedade africana, sentiu o impacto da ecodessacralização, mas certos valores desafiaram tais mudanças e continuam a traçar o comportamento humano no que se refere ao meio ambiente; os tabus ressaltam sua moralidade e são críticos na conservação do meio ambiente e na proteção de fontes de água, vegetação natural, vida selvagem e não-humanos. A proibição ecológica promove o uso sustentável do meio ambiente 25.
A continuação e a integração de identidades divinas, como tabus, desafiariam as percepções negativas do meio ambiente e moldariam a conduta humana. Assim, sustentamos que a ecologia nativo-cêntrica é crucial para preservar o meio ambiente 25.
A tradição oral de estudar sistematicamente EzeOsisi foi removida da vida doméstica há mais de meio século 26. A árvore é uma espécie ameaçada de extinção, e isso levanta questões éticas significativas sobre a dessacralização dos habitats 26. As preocupações éticas mais imediatas envolvem a abordagem conservacional não documentada dos EzeOsisi pelos povos africanos, uma abordagem que pode ser transferida de geração em geração através de mitos, canções e muitos outros meios 26.
Considerações éticas importantes também estão envolvidas na autenticidade da pesquisa sobre a grande EzeOsisi e em como pesquisadores não indígenas poderiam interagir com os locais e extrair pensamentos significativos 26,27, o que se transformou em um grande problema na pesquisa da tradição de EzeOsisi.
O conceito de ecologia nativo-cêntrica
A ressacralização do ambiente (ecologia nativo-cêntrica) significa simplesmente a transformação da consciência humana para redescobrir as qualidades sagradas do ambiente, pois os próprios humanos perderam o senso de sacralidade. A ecologia nativo-cêntrica é a redescoberta de uma natureza sagrada que só pode ser alcançada através da prática, ensino e aprendizagem de modos de vida indígenas 4,5.
Ela é adotada como uma panaceia para a crise ecológica devido a suas capacidades não antropocêntricas em relação ao meio ambiente 28. A ética conservacional africana estende a moral sagrada para além do antropocentrismo e inclui seres não sencientes 29.
Tal ética conservacional indígena mostra como as sociedades africanas empregam diferentes valores e costumes para tornar seu ambiente física e espiritualmente sustentável, incluindo tabus e normas que estabelecem comportamentos corretos ou incorretos em relação à natureza 29. No entanto, a ecodessacralização forçou muitas sociedades africanas a substituir alguns desses valores conservacionistas e práticas sustentáveis por uma abordagem antropocêntrica, em que os seres humanos têm responsabilidade moral apenas para com os seres humanos, e o desenvolvimento significa o completo desrespeito pelos valores e costumes holísticos tradicionais africanos 29.
A ecologia nativo-cêntrica se preocupa com a forma como as práticas culturais reconstroem percepções humanas negativas e recriam uma identidade ambiental divina 4,25. A ecologia africana da conservação está preocupada com a forma como o ambiente influencia as práticas culturais africanas 30,23, e a ontologia africana é apoiada por valores morais conservacionistas, embora as atitudes conservacionistas tenham sido atualmente destruídas pelo ethos explorador do ceticismo 23.
A recuperação das preocupações ambientais indígenas ajudaria a sustentar o meio ambiente 31. A ecologia conservacional africana está comprometida com a relação divina entre o ser humano e o planeta Terra. Ela é essencial para o bem-estar ontológico do ser humano e do meio ambiente 30.
A questão é: como podemos ressacralizar as identidades ambientais divinas, conhecendo os impactos do ceticismo? O negacionismo ideológico renega a ecoespiritualidade e fez mais mal do que bem, incluindo a negação de seres transcendentais ecológicos.
O ceticismo pode ser entendido como “negação ideológica”, que esconde contradições subjacentes e perpetua a ordem social atual. A negação da mudança climática envolve reconhecê-la como um problema, mas deixar de diagnosticar as causas profundas e prescrever soluções que mantenham o sistema atual 32, funcionando como um ato de duvidar de identidades divinas, orientação cultural, confiança social e interação filosófica para a proteção e conservação do meio ambiente 14.
Zhou argumentou que o ceticismo decorre de educação insuficiente e conhecimento ambiental autoavaliado, valores religiosos e conservadores, falta de confiança na sociedade em geral e na ciência e outras preocupações que competem com as preocupações ambientais 14,33. Na mesma linha, a descrença ambiental sustenta que as crises ecológicas, como o aquecimento global, a desertificação, a poluição, as mudanças climáticas e muitas outras, são produtos da química natural destinados a dissuadir o homem de explorar o meio ambiente 33.
A destruição maciça das EzeOsisi, a pilhagem de elefantes por marfim, a poluição ambiental, o perigo para várias espécies vegetais e animais, a matança imprudente de animais selvagens e a colheita de suas partes para vários fins e a destruição de vários habitats devido ao desmatamento podem ser canalizados para o ceticismo ambiental e a negação dos problemas ambientais acima mencionados 23,34. Estas são tentativas de separar a sociedade humana da natureza não humana e rejeitar a ecologia como um fundamento legítimo de preocupação moral 34-36.
Uma nova identidade ambiental é real, e os seres humanos devem ser orientados para a sustentabilidade a longo prazo 37. As concentrações muito exageradas de gases de efeito estufa induzidas pelo homem desempenham um papel substancial na mudança da identidade divina ambiental, já que o aquecimento global afeta humanos, plantas e animais selvagens. As mudanças climáticas são, portanto, um produto da destruição ecológica e são perigosas tanto para os seres humanos quanto para o meio ambiente. É provável que as políticas ambientais radicais sejam ineficazes, inoportunas e prejudiciais à humanidade 37. Sustentamos que o ceticismo ambiental é uma supergeneralização da confiança ambiental e fazemos a pergunta: a ecoressacralização é uma panaceia para a crise ecológica?
A ecologia nativo-cêntrica é um campo emergente e foi cunhada por Osebor em um artigo intitulado “Ecologia centrada nos nativos como uma panaceia para a crise aquática?” 4,24. Essa filosofia gira em torno da restauração das identidades ecológicas divinas 4. Essa construção social está desgrenhada de morais, posturas ideológicas, prioridades e crenças de aspiração que moldam a transição e os caminhos para restabelecer, reiniciar ou acelerar a recuperação da natureza divina de um ecossistema que foi perturbado pela crise de identidade 12. A filosofia da ecologia nativo-cêntrica é um ato de despertar crenças religiosas para contrariar o novo modelo de identidades ambientais 38.
Na cosmologia africana, o meio ambiente é considerado sagrado 39 e fundamental para várias atividades humanas, como sustentar o fornecimento ecológico de alimentos e água doce, beber, cozinhar, limpar, saneamento e pesca, e a geração de energia, navegação, recreação e turismo. Água segura, suficiente e saudável é essencial para alcançar a segurança alimentar e acabar com a pobreza 39,40. A implicação moral da identidade ambiental sagrada mostra que os tabus comunitários promovem, conservam e protegem a biodiversidade ou, por padrão, punem os predadores ambientais 41.
A triste destruição do sagrado e a degradação ambiental são inimigas do florescimento dos habitats naturais. O meio ambiente é importante para a humanidade e uma parte importante de quem somos. A humanidade deve se relacionar positivamente e ter um senso de reconexão com o ambiente não humano, uma vez que o apego divino e a alteridade com ele são maneiras pelas quais vemos e agimos em relação ao mundo para proteger sua naturalidade. A profusão do ambiente sagrado nos oferece uma sensação de conexão, de fazer parte de algo maior do que nós mesmos e das semelhanças que compartilhamos com os outros 42. A identidade sagrada comunica ecoespiritualidade e conexão com a natureza, para preservar e proteger o meio ambiente para a posteridade 43.
A sacralidade da natureza é a conexão metafísica entre o ser humano e o meio ambiente 40. O divino ecológico é a essência da criação da natureza sem separatividade, e a separatividade ambiental é uma consciência do eu que não visa o desenvolvimento sustentável 38. A ressacralização reconfigurará as topologias sagradas, alcançará a iluminação espiritual e reiniciará a apropriação habitual do ambiente 4,44. Diante do aumento das evidências científicas que sustentam a necessidade de ações urgentes e transformadoras, respostas eficazes para abordar a dessacralização ecológica permanecem obstruídas 32.
Sustentamos que a ecoressacralização é um passo crítico na consideração de novas identidades ambientais e na re-manifestação do ambiente divino e da relação entre os seres humanos e seu entorno, permitindo que eles se sustentem simbioticamente. A re-manifestação de identidades ambientais divinas incorporaria uma consciência simbiótica e perspicaz de que toda a vida no planeta Terra está metafisicamente conectada e não pode ser explorada por meras razões antropocêntricas 38. A conexão metafísica é uma epistemologia religiosa de proteção da Terra contra predadores 45.
A ecologia nativo-cêntrica é um alerta para retornar à tradição divina ou aos caminhos religiosos da ecologia. A redescoberta da sacralidade e o renascimento da tradição moldarão o comportamento humano e desencadearão a vida social, a cultura e a identidade ambiental 4,14. Assim, a ecologia nativo-cêntrica visa recolocar o ecossistema em uma trajetória para alcançar a recuperação total e a restauração de um ecossistema contaminado 4,46. Por exemplo, a ressacralização florestal é o plantio de árvores, mas a recuperação total significa que o local deve ser uma floresta em pleno funcionamento, com árvores maduras nas classes etárias representativas de uma floresta nativa madura, o retorno da humanidade à compreensão da tradição sagrada 4,6.
A premissa central da ecoressacralização é o uso de uma fonte divina ambiental (Deus) para reviver a ecologia e restaurar a ecoespiritualidade. Embora a ecoespiritualização tenha sido criticada por sua natureza metafísica, a religião e os valores espirituais continuarão a desempenhar um papel importante na restauração ecológica. Nasr argumenta que todo ser humano pode conhecer o sagrado porque a própria consciência é prova da primazia do espírito ou consciência divina, da qual a consciência humana é reflexo e eco 6.
A questão é: por que o sagrado acaba destruindo o sagrado? A dessacralização da ecologia é a separação entre o sagrado e o profano, que influenciou a humanidade contemporânea e levou a uma crise ecológica, por isso, sustentamos que a ecodessacralização é uma estratégia ou conjunto de estratégias sitiadas para preservar a identidade distinta como povo ou grupo 47. A ecologia nativo-cêntrica não é fundamentalismo, mas uma recuperação seletiva de doutrinas, crenças e práticas de um passado sagrado. A recuperação do passado sagrado é refinada, modificada e sancionada em um espírito de pragmatismo astuto 47.
A ética conservacionista africana pode contribuir para melhorar ou, pelo menos, mitigar os efeitos devastadores da ecodessacralização na África e em escala global 4. Embora a África possa ter a menor responsabilidade pela ecodessacralização, o continente sofre o maior fardo dos efeitos adversos das novas identidades ambientais 29. Há uma necessidade urgente de adotar soluções indígenas para a crise ecológica na África, sem comprometer o desenvolvimento tão necessário no continente.
As mulheres e os homens contemporâneos perderam o senso de reverência, do assombro e do sagrado, dificilmente tendo consciência de quão milagroso é o mistério da inteligência e da subjetividade humana, bem como o poder e a possibilidade de conhecer objetivamente para preservar o meio ambiente 6. A ecologia nativo-cêntrica é baseada em valores e comunica valores e expectativas religiosas às partes interessadas ambientais, fornece diretrizes para a formulação de políticas, tomada de decisões e justificativa de valores ou padrões para o uso da natureza 26,48.
A harmonia e o equilíbrio do cosmos exigiram um movimento dentro do coração e da alma de vários homens contemporâneos para redescobrir o sagrado no exato momento em que o processo de secularização parecia estar chegando a sua conclusão lógica, ao remover a presença do sagrado completamente de todos os aspectos da vida e do pensamento humanos 49,50. A estrutura abrangente e de solução de problemas é significativa para a gestão ambiental sustentável, incluindo políticas ambientais para nos ajudar a conservar, proteger e distribuir a água da Terra para usos humanos e industriais.
A ecoressacralização é um equilíbrio reflexivo sobre o que deve ser aceito ou não no ambiente. Apresenta diferentes perspectivas ao invés de defender ou desenvolver uma determinada posição ética, funcionando como uma ética de valores que assume diferentes formas em diferentes grupos culturais. Nas sociedades ocidentais, as restrições éticas tendem a assumir a forma de regras comportamentais que, em última análise, são codificadas na lei 51. A ecologia nativo-cêntrica é uma ética integracionista que explora debates sobre a crise ambiental e o mundo 52. No entanto, uma análise crítica da ecodessacralização ofereceria justificativa para questões sobre o valor intrínseco e a sacralidade do meio ambiente.
Considerações finais
A partir de uma análise filosófica da metafísica da ecodessacralização, este estudo constatou que a principal causa de novas identidades ambientais é o ceticismo. Embora o ceticismo possa ter aprofundado a compreensão humana do mundo natural, também resultou na destruição do meio ambiente.
O estudo conclui que, embora uma grande variedade de estudiosos proponha métodos teóricos e eficientes de investigar a nova identidade ambiental para salvar o meio ambiente, tais filosofias podem não ser suficientemente poderosas para mitigar a comunidade humana em escala global para resolver o problema da crise ecológica, porque nenhuma delas incorpora a abordagem indígena à ideia nativo-cêntrica do sagrado, o que por si só pode nos permitir reafirmar a qualidade sagrada da natureza e, portanto, perceber seu valor final além do meramente utilitário 5.
A ecologia nativo-cêntrica certamente pode ajudar a mudar a paisagem mental desordenada por tantas formas de ceticismo filosófico, e a ecossacralização se destaca entre as várias alternativas para resolver a crise ecológica. A solução para a atual crise ambiental é a ecoressacralização do meio ambiente. A ecologia nativo-cêntrica não é do homem, que não tem poder para conferir a qualidade de sagrado a nada, mas através da lembrança do que a natureza é como um teatro da criatividade e presença divinas 5.
Para superar a ecodessacralização, há uma necessidade urgente de integrar a ecologia natural para resolver a crise ecológica. A ecologia centrada no nativo é uma ética conservacionista africana que reconstrói as percepções negativas humanas e recria uma identidade ambiental divina. O estudo conclui que recriar um ambiente divino é possível através do ensino e da aprendizagem da ecossacralização nas escolas para mitigar o impacto da crise ecológica.
Embora o ceticismo afete a educação e o conhecimento autoavaliado, a educação e a consciência autoavaliada são mais eficazes no enfrentamento do ceticismo. Os formuladores de políticas devem implementar o ensino e a aprendizagem da ecossacralização nas escolas. O envolvimento das partes interessadas também é fundamental para desenterrar e nutrir ideias ambientais, reconstruindo comportamentos e promovendo valores que ajudariam a evitar a crise ecológica que a humanidade enfrenta.
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