Resumo
O suicídio é um problema de saúde pública que está entre as vinte principais causas de óbito no mundo. Este estudo busca descrever o perfil epidemiológico dos casos de suicídio no Brasil no período de 2007 a 2017, visando reconhecer as particularidades locais e subsidiar ações de proteção e prevenção. Os dados foram obtidos no Sistema de Informação sobre Mortalidade do DataSUS, que registrou um total de 113.483 casos de suicídio no período, com aumento da taxa de mortalidade sobretudo entre idosos acima de 80 anos, homens e solteiros. Os métodos mais comuns foram enforcamento, arma de fogo e pesticidas. A região Sul apresentou as maiores taxas de mortalidade no período analisado, seguida pela região Centro-Oeste. Norte e Nordeste tiveram o maior crescimento percentual. Considerando essas informações, é necessário intensificar políticas públicas que adotem medidas preventivas para reduzir as taxas de suicídio no Brasil.
Suicídio; Epidemiologia; Mortalidade
Abstract
Suicide is a public health problem that ranks among the twenty leading causes of death worldwide. This study aims to describe the epidemiological profile of suicide cases in Brazil from 2007 to 2017, to recognize local particularities and support protection and prevention actions. Data were obtained from the DataSUS Mortality Information System, which recorded a total of 113,483 cases of suicide in the period, with an increase in the mortality rate, especially among the older adults aged over 80 years, men and single. The most common methods were hanging, firearms and pesticides. The highest mortality rates in the period analyzed were found in the Southern region, followed by the Midwest. The highest percentage growth was observed in the North and Northeast regions. Considering this information, public policies that adopt preventive measures must be intensified to reduce suicide rates in Brazil.
Suicide; Epidemiology; Mortality
Resumen
El suicidio es un problema de salud pública y está entre las veinte principales causas de muerte en el mundo. Este estudio propone describir el perfil epidemiológico de los casos de suicidio en Brasil entre 2007 y 2017, con el fin de reconocer las particularidades locales y promover acciones de protección y prevención de esta práctica. Los datos se obtuvieron del Sistema de Información de Mortalidad del DataSUS, que registró un total de 113.483 casos de suicidio en el período, con un aumento de la tasa de mortalidad especialmente entre los ancianos mayores de 80 años, hombres y solteros. Los métodos más comunes fueron ahorcamiento, armas de fuego y pesticidas. El Sur del país concentró las tasas más elevadas en el período, seguido del Centro-Oeste. El Norte y el Nordeste tuvieron el mayor crecimiento porcentual. Es necesario intensificar las políticas públicas con medidas preventivas para reducir estas tasas en Brasil.
Suicidio; Epidemiología; Mortalidad
O suicídio é um importante problema de saúde pública 1 e estima-se que mais de 800 mil pessoas cometem suicídio no mundo por ano, e cerca de 75% dos casos ocorrem em países subdesenvolvidos 2. As taxas globais indicam que tal agravo está entre as 20 principais causas de óbito, estando à frente da malária, do câncer de mama, da guerra e do homicídio, além de ser a segunda principal causa de morte entre pessoas jovens no mundo 2,3.
Há implicações importantes relacionadas a sexo, idade, cultura e etnia, além de diferenças significativas nas motivações, métodos e fatores de risco em cada grupo 4. Evidências epidemiológicas demonstram que o comportamento suicida é o desfecho de uma interação complexa desses elementos, cujo estudo exige modelos teóricos difíceis para estratégias de prevenção eficazes 5.
Em 2012, o Brasil foi o oitavo país com o maior número absoluto de casos, atrás apenas de Índia, China, Estados Unidos, Rússia, Japão, Coreia do Sul e Paquistão. De acordo com o mapa da violência, o número de casos de lesões autoprovocadas intencionalmente (LAI) aumentou de 2,7%, em 1980, para 33,3% no ano de 2012, superando até mesmo a taxa de crescimento populacional do país (11,1%) 6.
No Brasil, a quantidade e a qualidade dos registros de óbitos já foram objeto de estudos, os quais sugerem elevada taxa de subnotificação do suicídio em comparação a outras causas externas 7,8. Apesar disso, é possível afirmar que idosos apresentam a maior taxa de suicídio e que indivíduos entre 15 e 24 anos sofreram o maior aumento 9,10. Enforcamento e uso de armas de fogo foram os métodos de suicídio mais comuns em homens, enquanto o envenenamento foi o mais comum em mulheres 11,12. A maioria dos estudos epidemiológicos sobre a temática abordam regiões específicas no país, não sendo possível extrapolar conclusões para todo o território nacional, principalmente porque o Brasil tem dimensões continentais com importantes diferenças regionais.
A bioética da vida, orientada pelo princípio da justiça, enfatiza a importância de assegurar a equidade no tratamento e na distribuição dos recursos de saúde, especialmente para grupos vulneráveis. No contexto do suicídio, a justiça bioética exige que todas as pessoas, independentemente de suas condições socioeconômicas ou regionais, tenham acesso a cuidados preventivos e terapêuticos adequados. Assim, o desenvolvimento de programas eficazes com o objetivo de prevenir o comportamento suicida exige que o conhecimento sobre especificidades regionais e epidemiologia em relação a esse problema de saúde pública seja ampliado 13,14.
O objetivo deste estudo é descrever o perfil epidemiológico do suicídio no Brasil no período de 2007 a 2017, visando reconhecer particularidades locais e subsidiar ações de proteção e prevenção.
Método
Trata-se de estudo de abordagem quantitativa e retrospectiva, que utiliza dados secundários relacionados a suicídios referentes ao período de 2007 a 2017. Os dados foram obtidos por meio do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS), banco de informações de domínio público e irrestrito, de forma que o trabalho dispensa aprovação de comitê de ética em pesquisa.
Foram analisados óbitos registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) 15, compre- endendo as causas referentes aos códigos de X60 a X84 conforme a 10ª edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) 3, no Brasil. Esses códigos compreendem: autointoxicação intencional por medicamentos e substâncias biológicas (X60-X64); autointoxicação intencional por álcool (X65); autointoxicação intencional por pesticidas e produtos químicos (X68-X69); LAI por arma de fogo (X72-X74); LAI por arma branca e objetos contundentes (X78-X79); LAI por enforcamento e estrangulamento (X70); LAI por precipitação de lugar elevado (X80); LAI de meio não especificado (X84); e demais categorias (X66, X67, X71, X75-X77, X81-X83).
Optou-se pela estratificação dos dados de acordo com sexo, cor/raça, faixa etária, estado civil, escolaridade e região, conforme local de ocorrência. Para fins do cálculo dos coeficientes de mortalidade nos estratos, as informações populacionais foram obtidas no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Resultados
Um total de 113.483 casos de suicídio foram registrados no período de 2007 a 2017. A taxa de mortalidade (TM) aumentou de 4,82 para 6,01 óbitos por 100 mil habitantes, correspondendo a um incremento percentual de 24,9%, e a TM específica para o período foi de 5,24 por 100 mil (Tabela 1).
A distribuição por sexo indica que a TM entre mulheres permaneceu estável durante o período, com média de 2,16 por 100 mil; entre homens, ocorreu aumento da taxa a partir de 2010, com média de 8,25 por 100 mil, 3,82 vezes superior ao índice das mulheres. Houve predominância de indivíduos com 80 anos ou mais, seguidos da faixa de 70 a 79 anos, com média de 8,21 e 7,98 por 100 mil habitantes, respectivamente. Em relação à idade, o maior incremento percentual ocorreu entre indivíduos de 10 a 14 anos, seguidos dos de 15 a 19 anos de idade: 58,2% e 47,1%, respectivamente.
A ocorrência de suicídio no período analisado prevaleceu entre indivíduos do sexo masculino (78,83%), de cor branca (50,64%), solteiros (50,33%) e com pouca educação formal (de 4 a 7 anos em 24,24% dos casos). Quanto às características clínico-epidemiológicas, o domicílio foi o local mais frequente, com 59,21% (Tabela 2).
A Tabela 3 apresenta a distribuição dos casos segundo as categorias CID-10.
Com uma média de 8,28 mortes por 100 mil habitantes, a região Sul apresentou as maiores taxas de mortalidade no período analisado, seguida pela região Centro-Oeste (6,14 mortes por 100 mil). As regiões com menor mortalidade foram a Norte e a Nordeste, com taxas de 4,24 e 4,33, respectivamente, e o maior aumento percentual foi observado na região Norte, com 41,64%, seguida da Sudeste, com 32,25%. De modo geral, todas as regiões apresentaram aumento percentual nas taxas de mortalidade, entre o início e o fim do período.
Os estados com maiores taxas médias foram Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, e aqueles com as menores médias foram Rio de Janeiro, Pará e Bahia. O maior aumento percentual foi observado em Rondônia, com 137,29%, seguido do Maranhão, com aumento de 81,18%, e Paraíba, com 73,56%. No outro extremo, Alagoas e Roraima sofreram decréscimo de 11% e 4,46%, respectivamente.
Em todos os estados, a taxa de mortalidade foi maior entre homens, com destaque para a região Sul, com 13,28 mortes por 100 mil habitantes, região que também apresentou a maior taxa entre mulheres, de 3,37. O maior aumento percentual ocorreu entre as mulheres da região Norte, com 67,10%; as taxas de mortalidade entre homens nessa região também aumentaram mais no período analisado, com incremento de 35,91%.
Discussão
LAI sinalizam sofrimento e mal-estar em indivíduos dominados pelo sentimento de impotência para solução de conflitos íntimos 4. Trata-se de importante problema de saúde pública, pois estima-se que um caso de suicídio afete diretamente seis pessoas, pelo menos, podendo atingir centenas se ocorrer em uma escola ou local de trabalho, gerando impactos nos serviços de saúde 2,3.
Um dos aspectos mais importantes a se considerar no estudo do suicídio é a subnotificação, causada por fatores como preenchimento errôneo de registros e pedidos familiares para mudar a causa da morte. Há consenso de que, sobretudo em países subdesenvolvidos, a extensão dessa problemática é subestimada 16. Apesar das imperfeições devidas à subnotificação de dados, os resultados obtidos confirmam que o suicídio é um importante problema de saúde pública no Brasil, com taxas de mortalidade crescentes no período analisado. Não obstante, a média nacional é considerada baixa em comparação com a mundial, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 4,16, foi de 10,6 mortes por 100 mil habitantes em 2016. Estudo comparativo das taxas de suicídio em países em desenvolvimento identificou menores taxas em países com altos níveis de desigualdade social, sugerindo que a desigualdade geralmente se associa a sociedades tradicionais, com fortes influências religiosas, o que é fator de proteção contra o suicídio 17.
Este estudo demonstra haver uma variabilidade considerável na distribuição das taxas de mortalidade nas diferentes regiões brasileiras. A região Sul apresentou a maior mortalidade, e o Rio Grande do Sul o maior índice (10,27), superior à média mundial, o que pode ser explicado pela maior proporção de pessoas idosas na região, grupo em que o risco para o suicídio é considerado maior 18.
Em estudo que analisou as taxas de suicídio entre 1980 e 2006, o estado também obteve os maiores índices, sobretudo entre pescadores e agricultores, o que sugere que transtornos depressivos podem ser desencadeados por alta exposição a pesticidas 19. De fato, inúmeros estudos apontam relação entre a intoxicação por agrotóxicos, sobretudo com organofosforados e manganês, e o desenvolvimento de distúrbios neuropsiquiátricos nessas populações 20-22.
Chama atenção o aumento percentual da região Norte, que foi o maior entre as regiões analisadas, e em particular o caso do estado de Rondônia, que apresentou aumento de 137,29%. O achado pode guardar relação com o incremento no registro de suicídios em sociedades indígenas, o qual tem sido associado a processos de inadaptação a exigências externas de desenvolvimento, abuso de álcool e integração na sociedade nacional, com a qual entram em contato. A subnotificação é particularmente problemática nesse grupo, de modo que os dados podem ser substancialmente maiores. Estratégias de prevenção são igualmente complexas, levando em consideração as peculiaridades culturais de cada comunidade, a marginalização pelas políticas públicas e a escassez de estudos acerca de sua saúde mental 23,24.
Os estados com menores médias de mortalidade foram Rio de Janeiro, Pará e Bahia, e o de menor aumento percentual foi Pernambuco. Pesquisas discutem a possibilidade de haver uma relação de proporcionalidade inversa entre taxas de suicídio e de homicídio, considerando que as de todos os estados mencionados estão entre as mais altas do país: 38,38 no Rio de Janeiro, 54,68 no Pará, 48,79 na Bahia e 33,31 em Pernambuco. Essas pesquisas inferem que problemas sociais como desigualdade e desemprego resultariam em maiores índices de violência interpessoal, em lugar da violência autoinfligida 25.
As maiores taxas de mortalidade foram observadas em indivíduos do sexo masculino, o que é um achado consistente com a literatura. É consenso que existe a tendência de que, embora o suicídio tentado seja maior entre mulheres, os homens o consumam com maior frequência. Esse achado pode estar relacionado aos métodos utilizados: neste estudo, em consonância com a literatura, mulheres optaram por meios menos violentos e letais, como o uso de pesticidas e a ingestão de medicamentos, em oposição a enforcamento e armas de fogo, mais frequentes no sexo masculino 26.
O resultado também pode guardar relação com papéis de gênero: no sexo feminino, o uso de substâncias é mais socialmente aceitável do que por homens. Estes, ademais, apresentam maior prevalência de alcoolismo, crenças religiosas mais frágeis e menor tendência a procurar auxílio para tratamento de transtornos psiquiátricos, o que contribui para maiores taxas 27.
Chama especial atenção o fato de que o uso abusivo de medicamentos psicoativos se tornou um problema de saúde pública. No entanto, a OMS já atenta para a intoxicação por pesticidas e para um aumento do número de mortes a eles associados em países subdesenvolvidos da Ásia, América Central e Sul Global (incluindo o Brasil), com necessidade de maior regulação especialmente em áreas rurais. Em países como China, Malásia, Sri Lanka, Trinidad e Tobago, estima-se que essa intoxicação seja a causa de 60% a 90% dos suicídios 28.
Os dados em relação à faixa etária reforçam a prevalência entre idosos reiteradamente apontada pela literatura. Esse achado é tradicionalmente associado aos sentimentos de angústia, isolamento e dificuldades de relacionamento experimentados por esse grupo etário, desencadeados e agravados por perdas, limitações físicas e psicológicas e aposentadoria. A perda de identidade e de sentimento de utilidade frequentemente passam despercebidas e estão fortemente associadas à depressão e ao suicídio 29,30.
Alerta-se ao fato de que o maior aumento percentual foi encontrado na faixa etária de 15 a 19 anos de idade. Trata-se de uma tendência observada em vários países, normalmente associada ao bullying, influência das mídias digitais, falta de aceitação familiar e social quanto à sexualidade e identidade de gênero, insatisfação com a imagem corporal, impulsividade, má estrutura familiar e histórico de depressão. Há que se destacar, ainda, os indicadores socioeconômicos, sobretudo em relação ao desemprego, como determinantes para o risco de suicídio 31.
No que concerne ao grau de escolaridade, sua relação é inversamente proporcional à ideação suicida. Isso se deve, entre outros fatores, à instabilidade financeira, que muitas vezes acompanha indivíduos com baixo grau de escolaridade e está atrelada ao status ocupacional. Além disso, o sentimento de insegurança pessoal e familiar, normalmente gerado pela falta de acesso ao conhecimento e às medidas preventivas, é fator de risco para lesões autoinfligidas 31,32.
Considerações finais
O suicídio é um grave problema de saúde pública no Brasil e afeta mormente homens brancos, idosos e com poucos anos de educação formal, mais concentrados na região Sul. Houve predominância do uso de enforcamento em ambos os sexos, estando em segundo o disparo de arma de fogo, em homens, e o uso de pesticidas, em mulheres. Norte e Nordeste tiveram o maior crescimento percentual.
Nesse sentido, a bioética da vida, com base no princípio da justiça, exige a implementação de políticas públicas que reduzam essas desigualdades e assegurem a proteção dos direitos humanos, visando a prevenção do suicídio e a promoção da saúde mental. Podem ser implementadas medidas como: redução do acesso a substâncias tóxicas letais; diagnóstico mais eficiente de transtornos mentais e tratamento de pessoas acometidas; e promoção de treinamento para profissionais da saúde na identificação de pessoas sob risco de suicídio.
Como limitações deste estudo, destacam-se a subnotificação dos dados de vigilância e a escassez de estudos anteriores. Apesar das limitações, os dados podem servir de subsídio para a formulação de novas estratégias visando a redução do suicídio no país.
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