Resumo
Este artigo analisa as arquiteturas produzidas nos quilombos do território paraense, durante o século XIX. O principal objetivo é evidenciar como a cultura material dos quilombos da Amazônia paraense apresenta técnicas e saberes construtivos de origem e influência indígenas. Por meio de análise documental qualitativa que trata sobre invasões e combates aos quilombos, bem como publicações de viajantes estrangeiros, no século XIX, comprovou-se que as arquiteturas quilombolas apresentam estilos, sistemas construtivos e linguagens que são resultantes da relação intrincada entre negros e indígenas na Amazônia brasileira. A análise aponta que, de fato, os quilombolas intercambiaram conhecimentos construtivos especializados com algumas nações indígenas que, por vezes, coabitaram pacificamente seus territórios ou ainda estabeleceram relações mais íntimas, como matrimônio. Comprovou-se também que a presença indígena como parte importante da formação cultural dos quilombos paraenses é reafirmada nos discursos dos grupos atuais, que preservam inúmeras técnicas e linguagens construtivas de seus antepassados.
Palavras-chave
Arquitetura; Quilombos; Indígenas; Negros; Amazônia paraense
Abstract
This article analyzes the architecture produced in quilombos in Pará during the 19th century. The main objective is to demonstrate how the material culture of the quilombos in the Amazonian region of Pará incorporates construction techniques and knowledge of Indigenous origin and influence. Through qualitative documentary analysis of accounts of invasions and conflicts involving quilombos, as well as reports by foreign travelers in the 19th century, the study was shown that quilombola architecture present styles, construction systems, and languages that are the result of the intricate relationships between Black and Indigenous people in the Brazilian Amazon. The analysis shows that, quilombola communities exchanged specialized building knowledge with certain Indigenous groups that at times cohabited peacefully in their territories or even established more intimate relationships, such as marriage. It also demonstrates that the Indigenous presence, as a significant component of the cultural formation of quilombos in Pará, is reaffirmed in the discourses of contemporary communities, which preserve numerous construction techniques and languages from their ancestors.
Keywords
Architecture;
Quilombos
; Indigenous; Black; Amazonia paraense
INTRODUÇÃO
No Pará, o auge do número de importações de mão de obra negra traficada para a escravidão foi o século XVIII (Bezerra, 2012; Laurindo Junior, 2021). Na mesma proporção ocorreu um século após a maior incidência de quilombos, localizados nas margens e cabeceiras dos principais rios da região (Salles, 1971; Gomes, 1997).
Desde o mundo do trabalho escravo, nas propriedades rurais e nas cidades, negros e indígenas conviveram diretamente (Salles, 1971; Alonso, 2010). Nas terras quilombolas, diferentes relatos documentais dão conta de laços de solidariedade entre esses dois grupos, bem como guerras e conflitos sangrentos (Saunier, 2023).
O sistema social e material dos antigos ocupantes dos territórios quilombolas da Amazônia paraense está assentado sobre intrincados intercâmbios de conhecimento entre os grupos negros e indígenas. Mais de dois séculos de ocupação desses territórios produziram arquiteturas baseadas em modos de fazer e tipologias adaptadas dos grupos nativos indígenas da região.
Efetivamente, a formação dos quilombos na Amazônia paraense é pluricultural, com bases afro-indígenas. Assim como houve registros da execução de técnicas e tipologias construtivas de origem indígenas nos quilombos da região no século XIX, observamos a persistência dessas linguagens e dos modos de construir ainda na contemporaneidade.
Portanto, neste artigo, perscrutamos, a relação intrincada entre quilombolas e indígenas, ao longo do século XIX, no Pará, focados na produção de seus espaços construídos, sobretudo suas arquiteturas. A hipótese levantada é se o savoir-faire construtivo indígena, adaptado secularmente ao clima e ao meio, foi observado, aprendido e reelaborado pelos quilombolas no Pará, durante o século XIX. Para comprovar essa hipótese, analisou-se documentações que demonstram as características dos espaços construídos quilombolas oitocentistas.
Além da análise pormenorizada dos quilombos paraenses, no que se refere à sua cultura material, no século XIX, levantou-se a discussão dos desdobramentos desses saberes e fazeres nos territórios atuais. Por meio de pesquisas e publicações recentes repletas de relatos orais dos grupos quilombolas atuais da região, analisamos se as arquiteturas recentes guardam referências culturais dos territórios quilombolas oitocentistas.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este artigo foi desenvolvido a partir do diálogo com vários tipos de documentos, os quais foram tratados com o olhar qualitativo, isto é, analisando as experiências culturais e espaciais dos indivíduos citados e também entrevistados nessas fontes. Em se tratando do estudo minucioso da cultura material presente nos territórios quilombolas durante o século XIX, foi necessário o levantamento de diferentes documentos do período, como notícias das expedições militares de destruição desses territórios, preservadas em forma digital no sítio eletrônico da Hemeroteca Nacional, e que foram fundamentais, pois, nas entrelinhas dos discursos, constavam informações preciosas sobre a vida nesses lugares.
Em complemento a esses relatórios, analisou-se também publicações nos jornais locais que tratavam sobre notícias de combate aos quilombos da região, ou fuga de escravizados, datadas de 1850 a 1889, igualmente disponíveis em meio digital na Hemeroteca Nacional. Desses documentos, conseguiu-se dados sobre os espaços construídos dos quilombos no Pará, bem como sobre as relações sociais desses grupos com diferentes etnias indígenas da região que resultaram em alianças que tiveram como testemunho as arquiteturas desses lugares.
Contudo, o principal corpo documental que robusteceu a discussão deste artigo foram as publicações dos viajantes estrangeiros que estiveram no Pará durante o século XIX. Os relatos publicados em livros, diários de viagem, fotografias e desenhos mostram a riqueza do quadro sociológico pluricultural dos territórios quilombolas da região.
Viajantes, como os cientistas germânicos Spix e Martius, em 1819, e os britânicos Alfred Russel Wallace e Henry Bates, em 1849, descrevem o quadro político-social da região, com a marcante presença negra e indígena. Além deles, merece destaque o jornalista norte-americano Herbert Smith, em 1879, que transitou por diferentes pontos do território paraense e contactou diretamente um quilombola da região do baixo Amazonas, no Pará, como seu guia de navegação.
Todavia, o destaque documental fica para a expedicionária francesa Otille Coudreau, contratada pelo Governo Regional para a produção de cartografia dos principais rios da região e, por consequência, descreveu os espaços e os modos de vida dos quilombolas na região. Coudreau, em diferentes ocasiões, conviveu com os quilombolas e registrou em texto e fotografias a vida dos quilombos no Pará, em pleno século XIX e aurora do século XX, produzindo um retrato sociológico de suma relevância para a temática (O. Coudreau, 1901, 1903).
Para as discussões dos desdobramentos recentes da cultura material dos quilombos na Amazônia paraense, no século XXI, analisou-se trabalhos de sociologia, teses na área de antropologia e relatórios de pesquisa documental, como os do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), produzidos por Rosa Acevedo Marin, que demonstram como são e quais aspectos as arquiteturas quilombolas atuais guardam como herança dos antigos assentamentos oitocentistas.
CULTURA MATERIAL: OS QUILOMBOS NO PARÁ E A CONTRIBUIÇÃO INDÍGENA NO SÉCULO XIX
Já é questão superada pela historiografia, antropologia e sociologia que indígenas e negros conviveram de forma intrincada durante os séculos da escravidão no Brasil, sobretudo no Norte. E essa relação complexa no Brasil-Norte é indicada como responsável pelo aprendizado, por parte dos negros, da navegação nos rios da região e da vida nas matas recônditas dos quilombos (Salles, 1971; Funes, 1995; Gomes, 1997; Harris, 2017; Saunier, 2023).
Durante o século XIX, os quilombos no Pará foram majoritariamente mistos, com homens e mulheres negros que fugiram das propriedades escravocratas, soldados desertores, colonos pobres e alguns indígenas que viviam em matrimônio ou em comunhão de terras com os quilombolas. Nos relatórios provinciais, governadores e figuras políticas declaravam que esses territórios não eram formados exclusivamente por negros (Salles, 1971; Saunier, 2023).
A fala de João Maria de Moraes, vice-presidente da Província do Pará, na abertura de uma das sessões na assembleia provincial, em 15 de agosto de 1846, entrega a composição populacional dos quilombos em Bragança, Turiaçú (região do Pará limítrofe ao estado do Maranhão), Santarém e Óbidos, áreas repletas de quilombos. Segundo o vice-presidente, esses assentamentos eram formados por negros que fugiram das propriedades dessas regiões, mas igualmente de “desertores e outros criminozos” (J. Moraes, 1846).
As trocas culturais entre negros e indígenas foram apontadas em diferentes estudos historiográficos e indigenistas no tema, como os de Salles (1971), Funes (1995), Gomes (1997, 2015), Harris (2017), Acevedo Marin e Castro (1998), Chambouleyron e Arenz (2016), Saunier (2023), entre outros. Desde o século XIX, as notícias da presença de indígenas em contato direto, pacífico ou conflitivo com os quilombolas figuravam nos documentos e notícias oficiais. Henrique (2018) destacou como os Munduruku foram “aliados” das autoridades na luta contra os cabanos, durante a Cabanagem, como na perseguição aos quilombolas. O autor também destaca momentos de trocas comerciais entre indígenas, quilombolas e outros sujeitos no século XIX: “O comércio era feito, então, com base em redes de relações sociais tecidas com quilombolas, pequenos produtores, comerciantes locais e indígenas” (Henrique, 2018, p. 183).
De forma mais intrincada, encontramos as relações de coabitação nas mesmas terras entre os indígenas Warekena com moradores do quilombo Mocajuba em meados do século XIX (Saunier, 2023). Na invasão militar que causou a destruição desse território, publicada no jornal Treze de Maio, em 1855, foi descrito um território formado por muitas casas, roças de mandioca e uma maloca Warekena a poucos quilômetros do centro do quilombo:
Em distancia de 2 a 3 léguas do quilombo existe uma maloca de gentios da nação Uariquena [Warekena] que protegem os negros das agressões de outras ordas que povoao esses centros, assim como o alto Nhamundá, e forao eles sem duvida que avizarão os negros, porque o Capitão João Maximiano em differentes lugares achou recentes vestígios de seu transito; e sem esse auxilio, os negros não poderiao por ali existir, conforme afirma o que foi capturado e existe na cadeira desta Cidade (Couto, 1855).
Segundo o capitão João Maximiano, responsável pela expedição, os Warekena exerciam importante papel de colaboração com os quilombolas do Mocajuba, sem a qual a sobrevivência desse grupo ficaria comprometida. Segundo o relatório, esses indígenas estabeleciam laços de solidariedade com os quilombolas, protegendo-os de agressões de outros grupos (Saunier, 2023).
A relação social intrincada entre os quilombolas do Mocajuba e os Warekena, apontada no relatório, mostra que, no exercício cultural cotidiano, os quilombolas, catequizavam e batizavam os filhos dos indígenas na capela presente no quilombo: “A necessidade de cathequizar esses gentios, cujos filhos são baptizados pelos negros é tao manifesta” (Couto, 1855). A troca cultural, sem dúvida, foi profunda entre indígenas e quilombolas, possivelmente, refletida não apenas no campo simbólico dos ritos e das festas, mas também nas produções materiais.
Durante a invasão militar do Mocajuba, as residências do local foram qualificadas pelos oficiais como “bem construídas” (Couto, 1855), com destaque para a capela que serviu de quartel para o acampamento militar, durante os cinco dias da expedição, pela dimensão e ‘inteireza’ da construção. Essas ‘inteireza’ e dimensão relevantes da capela do quilombo Mocajuba podem ter sido concebidas com a contribuição reconhecida do conhecimento construtivo dos Warekena para concepções de malocas em madeira e palha com considerável altura (Meira, 1991). O antropólogo Stephen Hugh-Jones (1985) explica esse savoir-faire construtivo dos Warekena em arquiteturas de grandes dimensões, como representado no desenho de uma maloca em estrutura de madeira e cobertura de palha (Figura 1).
Uma iconografia importante que demonstra como as moradas quilombolas paraenses foram influenciadas pelos conhecimentos indígenas foi produzida pelo jornalista norte-americano Herbet Smith, na segunda metade do século XIX. Smith visitou o baixo Amazonas e chegou até a propriedade clandestina do quilombola Manuel, o qual foi solicitado pelo norte-americano como guia de navegação:
Às quatro horas da tarde, desembarcamos no lado leste, onde havia um caminho que levava ao Igarapé Capaú; ali vivia o negro Manuel, de grande fama por essas bandas. Manuel tinha sido chefe de uma colônia de escravos fugitivos, que ficou localizada por muito tempo no Alto Curuá; como esses negros eram as únicas pessoas que sabiam alguma coisa sobre as cataratas, eu estava naturalmente ansioso para conseguir um deles como guia. Enquanto estava no Curuá, ouvi falar muito de Manuel, que vivia, segundo se dizia, nas profundezas da floresta, temendo ver um homem branco, para não ser levado de volta à escravidão; para ganhar sua boa vontade, enviei-lhe alguns presentes insignificantes, com a promessa de que o visitaria quando subisse o rio
(Smith, 1879, p. 324).
Na iconografia produzida por Smith (1879), é representada, parcialmente, a residência do sr. Manuel (Figura 2). Essa construção é formada por estruturas portantes em madeira, cruzadas no ponto mais alto, que formam a cumeeira. Essa estrutura se prolonga formando, ao mesmo tempo, cobertura e fechamento lateral de parede, revestida por palha.
A tipologia dessa construção é claramente inspirada no ‘tapiri’, um modelo de construção desenvolvido pelos indígenas amazônicos, a partir de materiais locais e técnicas de encaixe de madeira e palha (Sá & Corrêa, 1979).
Essa edificação tem como linguagem construtiva e estilística o corpo único, formado por duas águas que se prolongam ao solo, formando um abrigo de madeira coberto por palha (Hessel, 1974).
No início do século XIX, em 1819, os cientistas germânicos Spix e Martius (1981) descreveram, em vários pontos do território paraense, a presença de inúmeras habitações indígenas, no estilo do tapiri, descritos como ‘palhoças’, fabricadas em madeira e palha de palmeiras locais. Alguns anos depois, em 1849, o britânico expedicionário Alfred Russel Wallace, visitando diferentes regiões do Pará, também apontou a presença indígena e os tapiris. Em passagem pelo baixo Tocantins, nas proximidades da cidade de Baião, Wallace (2004) expõe como as famílias indígenas da região habitavam: “A casa era uma simples choupana aberta, com uma cobertura de folhas de palmeiras, suportada por esteios, entre os quais estavam armadas as suas redes, servindo de camas e cadeiras” (Wallace, 2004, p. 102).
Salles (1971), Chambouleyron e Arenz (2016) e Saunier (2023) apontam que a troca de experiências entre negros e indígenas remonta o estabelecimento nos quilombos; isto é, já no mundo do trabalho escravo, esses dois grupos pluriétnicos eram forçados a coabitar, trocando experiências e saberes que permitiram o estabelecimento dos negros na Amazônia.
A documentação levantada, traz, portanto, a constatação desse intercâmbio de conhecimento entre os dois grupos na cultura material dos quilombos no Pará. Sobre isso, um dos relatos mais completos foi revelado na publicação de 1903 da expedicionária francesa Otille Coudreau. A exploradora foi contratada, juntamente com seu esposo Henri Coudreau, em 1895, pelo governo brasileiro para mapear os cursos hídricos de parte do território paraense e, durante seu trabalho, conviveu com quilombolas e visitou diferentes assentamentos quilombolas pela região do baixo Amazonas, no Pará.
Durante as várias expedições de Coudreau pelo Pará, no final do século XIX e aurora do XX, a presença dos quilombolas, chamados de mocambeiros, no baixo Amazonas, foi constante, por seus conhecimentos profundos de navegação na região. Após conflitos e o estabelecimento de relações sensíveis, o casal Coudreau conseguiu alguns quilombolas da região como guias e colaboradores, o que possibilitou a visita aos principais rios do alto Trombetas, como os rios Faro, Cachorro e Cuminá que, segundo H. Coudreau (1899), ainda eram completamente desconhecidos pelo governo.
Em novembro de 1900 – após a morte de Henri Coudreau em decorrência da malária, em 1899 –, Otille Coudreau chega ao rio Curuá, onde encontra e pernoita por algum tempo no quilombo do Pacoval. A francesa chama o Pacoval de “a cidade dos mocambeiros do Curuá” (O. Coudreau, 1903, p. 19). Esse território já era estabelecido por décadas na região, formado por descendentes dos mocambeiros do alto das cachoeiras do rio Trombetas (Funes, 1995; Acevedo Marin & Castro, 1998).
O Pacoval foi descrito por O. Coudreau (1903) como um povoado de “aproximadamente quinze casas, todas cobertas em palha, uma igreja e, ao lado da igreja, uma ‘ramada’1” (O. Coudreau, 1903, p. 19), localizado ao longo da margem do rio Curuá. Saunier (2023) explica que os quilombos no Pará, desde o século XIX, são formados por dois núcleos, um residencial principal, chamado de ‘beira’, onde se concentram as construções habitacionais, e outro localizado em áreas de mata fechada, onde estabelecem suas roças, casas de farinha, locais de caça, pesca e extrativismo de produtos naturais que são divididos e mapeados em áreas de uso sazonal.
Foi durante uma visita a um desses núcleos sazonais, pertencentes ao Pacoval, chamado de assentamento Arapary, que Coudreau revelou uma das mais relevantes evidências da troca de conhecimentos entre indígenas e quilombolas, que se expressa na arquitetura desses assentamentos na região amazônica paraense (Saunier, 2023). No local, ocupado durante a colheita da mandioca e o fabrico da farinha, o quilombola Chico Cardozo explica a Coudreau como a principal construção do local, registrada em fotografia pela francesa (Figura 3), foi realizada por uma família indígena que chegou em fuga, em ocasião de conflitos territoriais com outros grupos nativos:
Enfin, quand ils [família indígena] sont entres dans ma maisons, ils voulaient tout prendre, dans le magasin tout leur faisait envie; mais je ne voulais rien leur donner avant que le gouverneur du Pará m’ait envouyé Quelques marchandises pour eux, et j’ai bien fait, caro n ne m’a rien enpédié du Pará. J’avais pourtant écrit aussitôt. Et pendant que j’attendais la réponse du Pará, je leur ai fait faire ce grand abatis que vous voyes là, et je leur ai fait planter du manioc
(O. Coudreau, 1903, p. 56).
O relato do quilombola demonstra que a vida na região amazônica é constantemente desafiada por eventos que implicam negociações com diferentes grupos étnicos, que culminam em trocas de saberes e, até mesmo, no estabelecimento de relações complexas de convivência. Os indígenas que, segundo Chico Cardozo, construíram as edificações do assentamento em questão permanecem mantendo uma relação de servidão com os quilombolas do Pacoval.
No que se refere à cultura material, isto é, à construção arquitetônica, vemos, na fotografia de Coudreau (Figura 3), dois edifícios de planta retangular, com estruturas em madeira e cobertura de palha, em quatro águas. Percebemos o trabalho minuciosos da madeira e da palha em todo o conjunto construtivo. No detalhe da imagem à esquerda, as aberturas possuem fechamentos móveis; à direita, contígua à construção, está a casa de farinha.
A casa de farinha, por abrigar o forno e todos os equipamentos de beneficiamento da mandioca, não apresenta fechamentos de paredes, possuindo o mesmo tipo de cobertura em palha e estrutura em madeira. Percebemos que o posicionamento das aberturas principais de acesso da edificação residencial do assentamento Arapary, bem como o forno e os mobiliários da casa de farinha são voltados para o rio.
A cobertura desse conjunto de edificações possui uma linguagem direta com as técnicas e as tipologias construtivas de algumas nações que habitaram a região do baixo Amazonas, no Pará, como os Tiryió e Kaxúyana (Frikel, 1970; Saunier, 2023). Alexandre Rodrigues retrata isso em iconografia presente em sua coleção intitulada “Malocas das índias de Monte Alegre onde fazem as cuyas”, de 1785. Nessa coleção, é possível observar a tipologia construtiva da edificação, com cobertura em palha e estrutura em madeira, com fechamentos móveis também em palha.
Esses dois grupos étnicos indígenas, por sua vez, são apontados como de convívio direto com os grupos quilombolas do baixo Amazonas, desde o século XVIII (Frikel, 1961; Saunier, 2023). O antropólogo alemão Frikel (1973) produziu desenhos e fotografias das mais variadas construções dos Tiriyó, assim como registro de um dos assentamentos Kaxúyana na década de 1970, compilados por Saunier (2023), demonstrando as tipologias e técnicas construtivas comuns desses grupos (Figura 4).
A) Aldeia e casa Tiriyó; B) casa kúna ou kúntaka (a), aspecto externo (c); C) registro da festividade de “Mori: a festa do rapé”; ao fundo da cena, a maloca das mulheres; D) tapiri Tiriyó.
Dessa forma, indígenas e quilombolas dividiam conhecimentos da vida prática, incluindo a arquitetura na região. Observando os documentos e as fontes oitocentistas, vemos que, por décadas e até mesmo por séculos, as diferentes formas de interação entre esses dois grupos, pacíficas e conflituosas, em vários pontos do território paraense, influenciaram diretamente a arquitetura dos territórios quilombolas.
REVERBERAÇÃO DA CULTURA MATERIAL INDÍGENA NOS QUILOMBOS ATUAIS
As narrações identitárias da formação dos territórios quilombolas pelos grupos contemporâneos são marcadas pela presença dos indígenas, ora como colaboradores comerciais, ora como antepassados importantes. No nordeste do Pará, diversos quilombos centenários persistem ao longo do rio Capim, e sua formação populacional é marcada pela presença dos indígenas e negros (Acevedo Marin et al., 2014).
As narrativas orais de moradores quilombolas dos 67 povoados do rio Capim, presentes no trabalho de Acevedo Marin et al. (2014), destacam como os negros fugidos da escravidão formaram laços familiares com os indígenas da região. Segundo o senhor Estadislau Lobo da Luz, quilombola do rio Capim, um dos principais ancestrais dos quilombolas da região foi um homem indígena que ocupou cargo militar, chamado de Damásio.
Na região do baixo Amazonas, no Pará, há o reconhecimento nas narrativas dos quilombolas atuais acerca da relevância de grupos indígenas para a sobrevivência econômica, cultural e familiar que remonta histórias de seus antepassados. Farias (2016), em pesquisa sobre o território quilombola de Cachoeira Porteira, localizado no município de Oriximiná, afirma que a memória coletiva guarda histórias que envolvem matrimônios entre homens negros dos quilombos da região e mulheres indígenas:
O pai do João (o Pedro) matou o irmão dele (Lui... O nome era Carlos), que tinha duas mulheres, tinha uma que era bonita. O Pedro chegou lá, disse que ia dormir com aquela companheira dele, o Carlos disse que não, que era dele. Anoiteceu e o João pronto na índia, dormiu com ela. Quando foi de manhã, o Pedro foi caçar. Ele saiu, foi embora, encostou mais adiante. O Carlos saiu, pegou canoa dele, pegou picada... O Pedro estava lá em cima, em uma fruteira esperando, desceu cortou a palha, e foi fazer um apito pra imitar uma anta.
Quando o Carlos ouviu, fiaaaa... Escutou uma anta. Ele pegou a espingarda e saiu remando, ainda respondia, quando já estava perto, a anta calou-se, ele por ali reparando. Ele já tava no ponto. Pedro tacou-lhe a flecha no joelho dele e pulou em cima, ele gritava pra ele não matar, mas que nada. Nessas alturas o Juventino estava lá em casa comigo, vinha subindo aí do rio um pessoal do outro lado, gritaram pro Juventino, que estavam com quatro dias que procuravam o Carlos e ainda não tinham achado, lá onde ele estava, acharam espingarda, terçado e a roupa dele, mas ele não acharam. Assim, o Pedro ficou com a índia do irmão (Farias, 2016 citado por Saunier, 2023, p. 79)2.
Outro relato de morador do mesmo quilombo, do Sr. Waldemar dos Santos, aponta a presença de um grupo de indígenas habitando no rio Cachorro, que manteve relações próximas com os quilombolas de Cachoeira Porteira. Na memória do Sr. Waldemar havia, há anos, a constituição de famílias formadas por mulheres indígenas do rio Cachorro e quilombolas, bem como o inverso:
Pra cá só existia uma aldeia de índio, só essa aldeia do Cachorro, só essa aldeia que viviam aqui no nosso município, aqui do Trombetas, essa aldeia existia, eles vinham brincar aqui, fazer essa coisa assim, inclusive teve uma mistura de moreno com eles, bom dizer casava moreno com índio, vários morenos viviam com índias nesse meio
(Farias, 2016 citado por Saunier, 2023, p. 79).
A presença feminina indígena é consolidada na memória de vários membros que compõem as famílias e no mito de origem desses territórios (Acevedo Marin, 2006; Farias, 2016; Saunier, 2023). No Marajó, as famílias contam suas origens familiares, compostas por negros fugidos do regime escravocrata das propriedades locais com mulheres indígenas, como a narrativa do Sr. Lair, morador do quilombo Bairro Alto:
Meu tataravô teve essas famílias. Foi esse nosso parente que encontrou a índia no mato. O meu pai contava que seu pai e seu avô vieram desse lado da África, mas ele não lembrava quem o trouxe. Eles vieram trabalhar na fazenda de Marajó e fugiram. Encontraram essa terra e localizaram. O meu bisavô teve muitos filhos. Ele teve filhos com uma índia que ele encontrou no mato
(Acevedo Marin, 2006 citado por Saunier, 2023, p. 80).
Gomes (2011), ao estudar in loco os quilombos do baixo Tocantins, sobretudo aqueles ligados historicamente aos municípios de Cametá, Baião e Mocajuba, descreveu sua impressão sobre as famílias pluriétnicas no atual povoado. Segundo o historiador, esses povoados são resultado de descendentes de escravizados fugidos das propriedades das cidades próximas que se instalaram nas terras mais distantes dos núcleos habitados pelos ‘brancos’, durante os séculos XVIII e XIX. No entorno, desses terrenos, estabeleceram contatos comerciais e sociais com os indígenas da região, como em São José do Icatu:
Em Icatu, verificam-se as características de população de “caboclos”, uma mistura com indígenas. Segundo a tradição oral, o povoado tece como origem um pequeno grupo de negros fugidos por volta de meados do século XIX, havendo contatos com grupos indígenas circunvizinhos
(Gomes, 2011, p. 385).
Arquitetonicamente a madeira e a palha estão presentes na confecção de edificações residenciais e de diferentes usos nos quilombos paraenses. O mosaico iconográfico demonstra as arquiteturas de diferentes grupos quilombolas e indígenas no território paraense, registrados nos séculos XX e início do XXI.
Contudo, ainda que haja uma aproximação evidente nas arquiteturas quilombolas com influência direta da cultura indígena local, entendemos que a forma de construir quilombola não está baseada unicamente em uma releitura de conhecimentos aprendidos com indígenas, uma vez que os quilombolas também possuíam seus repertórios materiais e culturais.
Falamos, pois, em releitura, já que a lógica produtiva da arquitetura indígena e a quilombola é diametralmente oposta. Enquanto a primeira guarda uma cosmologia única, baseada em um pensamento mágico por trás da concepção estrutural de uma construção, a segunda está em fazeres reproduzidos inicialmente por uma racionalidade, pautada predominantemente na solução de problemas urgentes, como a proteção e a segurança (Saunier, 2023).
Todavia, é valido ressaltar a relevância de um aporte da pesquisa arqueológica para a análise da cultura material dos quilombos amazônicos. Ainda que o presente artigo trate sobre os espaços construídos, focando sobretudo nas tecnologias e nos materiais de construção, as análises das culturas materiais pretéritas seriam relevantes fontes para o entendimento dessa questão.
Costa (2016) expõe que a arqueologia da escravidão e da diáspora no Brasil, no contexto amazônico, ainda apresenta poucas pesquisas. O autor ainda destaca os trabalhos exemplares realizados nos quilombos de Ambrósio, em Minas Gerais, e de Palmares, em Alagoas, sendo este último uma referência, pois a comunidade preservou a memória e o interesse na pesquisa pelo tema.
Dessa forma, este estudo se baseou nas fontes históricas documentais, nos trabalhos antropológicos que coletaram nos discursos e nas vivências internas de determinados territórios quilombolas paraenses fontes importantes. Segundo O’Dwyer (2005, p. 263), a expedicionária francesa Otille Coudreau, no final do século XIX, expunha a existência de um sítio pertencente aos mocambeiros em fuga próximos à cachoeira do Cajual, no baixo Amazonas.
Mais recentemente, a dissertação de mestrado de I. Moraes (2012), bem como a tese de doutorado de Jacques (2015), as duas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGA/UFPA), nas áreas de concentração em arqueologia, demonstram como os grupos quilombolas da Amazônia paraense perpetuam modos de construir baseados nos conhecimentos ancestrais de seus antepassados.
Esses modos de fazer as arquiteturas estão aportados, sobretudo, na exploração de lógicas como medidas espaciais e técnicas construtivas que respeitam o terreno e os materiais naturais do entorno, ainda que materiais construtivos industriais, como telhas, tijolos e cimento, sejam introduzidos, gradativamente, em muitas construções.
CONCLUSÃO
Por séculos, vimos que os quilombolas foram receptivos à adaptação de diferentes fontes de conhecimento como meio de sobrevivência nas terras amazônicas do Pará. Com os indígenas, reconheceram que poderiam extrair e intercambiar conhecimentos diversos, os quais seriam necessários para garantir o desenvolvimento de seus lugares e a permanência neles; e, mais do que isso, puderam firmar parentesco e laços consanguíneos com diferentes nações. Os inúmeros registros documentais demonstram como esses grupos, em diferentes pontos do território paraense, guardam saberes que estão introjetados em sua memória coletiva, reconhecendo o importante papel das populações indígenas como formadoras da cultura quilombola da Amazônia paraense.
Nos relatos das publicações e dos trabalhos historiográficos e antropológicos, a interação entre indígenas e quilombolas já figura como consolidada e sólida. O desdobramento dessas relações, intrincadas e complexas, na cultura material também aparece dessa forma. Como demonstrado neste artigo, esses aspectos são apontados, por séculos, em diferentes fontes oficiais.
Comprovamos, portanto, sobre a hipótese inicial levantada que a existência documental do produto dos espaços construídos nos quilombos na Amazônia paraense foi influenciada pelos conhecimentos indígenas. De fato, em muitos territórios quilombolas da região, durante o século XIX, esses dois grupos conviveram, ora de forma conflituosa, ora de maneira pacífica, moldando os modos de vida dos territórios quilombolas.
Os quilombolas não ignoraram o rico repertório de conhecimento adaptativo secular dos grupos nativos, ao contrário, quando possível, o exploraram em relações de mutualidade. Não podemos pensar na elaboração dos espaços construídos dos territórios quilombolas na Amazônia paraense, durante o século XIX, sem a presença indígena.
No entendimento das origens dos assentamentos do povo quilombola na Amazônia brasileira, percebemos que a cultura material é um testemunho importante e fundamental desse processo. A interação pluriétnica entre indígenas e quilombolas fica clara na análise de seus espaços construídos, expressa seja nos sistemas construtivos, nas tecnologias ou nos partidos arquitetônicos, seja nos discursos dos atuais habitantes desses territórios. Indígenas e quilombolas demonstram, portanto, o intercâmbio de conhecimentos da vivência pluriétnica dos quilombos amazônicos.
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Saunier, C. N. M. (2026). Arquiteturas quilombolas afro-indígenas na Amazônia paraense. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 21(2), e20250067. http://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2025-0067
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PREPRINT
Não foi publicado em repositório.
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AVALIAÇÃO POR PARES
Avaliação duplo-cega, fechada.
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As ramadas foram construções feitas, geralmente, em estrutura de madeira e cobertura de palha, em planta retangular e sem fechamento de paredes. As ramadas eram localizadas, majoritariamente, contíguas às construções religiosas e recebiam as festividades e celebrações dos quilombos na Amazônia paraense (Funes, 1995; Saunier, 2023).
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Os nomes reais dos entrevistados foram substituídos para preservar as identidades.
DADOS DA PESQUISA
Os dados não foram depositados em repositório.
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Márcio Couto Henrique





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