RESUMO
O isolamento social para conter os impactos provocados pelo vírus Sars-Cov, nos anos de 2020 e 2021 produziu um novo cenário no contexto da pesquisa. Este artigo se constitui na reescritura do último capítulo da tese de doutoramento, de autoria de Flávia Maria de Menezes, concluída e defendida em pleno isolamento social, utilizando o WhatsApp como ambiente para encontros com o grupo de pesquisa, a orientadora e demais acontecimentos da vida acadêmica no curso do Doutorado, que não eram possíveis de forma presencial. O referido capítulo da tese é uma carta escrita hipoteticamente a Mikhail Bakhtin, para pensar a experiência discursiva na rede social do WhatsApp como uma outra estética da criação verbal. A reescrita pretendeu produzir um texto propositivo e convidativo ao debate e à reflexão sobre conceitos bakhtinianos, que foram a base para pensarmos a dimensão estética na produção discursiva no Whatsapp como um cronotopo.
PALAVRAS-CHAVE:
WhatsApp; Cronotopo; Encontros; Discursividade
ABSTRACT
The social isolation to detain the impacts caused by the Sars-Cov virus in 2020 and 2021 produced a new scenario in the context of research. This article constitutes a rewriting of the last chapter of the doctoral thesis, written by Flávia Maria de Menezes, completed and defended in full social isolation, using WhatsApp as an environment for meetings with the research group, the supervisor and other events in academic life during the Doctorate course, which were not possible in person. The mentioned chapter of the thesis is a letter written hypothetically to Mikhail Bakhtin, to think about the discursive experience on the WhatsApp social network as another aesthetic of verbal creation. The rewriting intended to produce a purposeful and inviting text for debate and reflection on Bakhtinian concepts, which were the basis for thinking about the aesthetic dimension in discursive production on WhatsApp as a chronotope.
KEYWORDS:
WhatsApp; Chronotope; Meetings; Discursiveness
[...](deixar de ser vindouro para mim, ser já tudo aqui significa morrer espiritualmente).
Bakhtin (2015, p. 113; itálico e parênteses do autor)
Introdução
Este artigo é parte da tese de doutoramento Formas de pensar pesquisa-militância-infância com o Grupo de Pesquisa Infância e Saber Docente: ensaios bakhtinianos, de autoria de Flávia Maria de Menezes (2021), que colocou no centro da discussão os grupos de pesquisa enquanto espaços de produção científica militante com as infâncias, as crianças e a educação infantil, em especial as instituições criadas e mantidas pelo poder público.
Os grupos de pesquisa, na nossa compreensão, são releituras dos círculos bakhtinianos, espaço-tempos para conversar, produzir pensamentos e registros que permitam que circulem nos mais diversos campos da sociedade, principalmente aqueles para os quais e com os quais as ideias são produzidas.
A tese de doutorado em questão teve sua ancoragem em diversas leituras e apontamentos de Mikhail Bakhtin e seus companheiros, sobre as valiosas palavras registradas em suas obras, com especial relevância para as antologias Questões de literatura e de estética: A teoria do romance, edição de 2014 da Hucitec Editora, e Estética da criação verbal, edição de 2015 da WMF Martins Fontes.
Cabe fazer uma ressalva para o contexto de produção da pesquisa aqui referendada, que atravessou de forma resiliente momentos de muita tensão, em função dos acontecimentos vivenciados pela sociedade brasileira a partir do ano de 2016. Compreendemos, nesse tempo, que aquilo que pensamos e registramos, seja de forma oral ou escrita, ou até em outra forma de linguagem, torna-se o registro da nossa passagem no mundo. Isso para nós é emblemático: saber que a humanidade perdurou e enfrentou os grandes dilemas, conflitos, problemas, catástrofes, pandemias, enfim, permaneceu como humanidade porque enunciou, produziu discursos e pode comunicá-los, perpetuando a sua existência. Assim, encontrar Bakhtin e seus leitores em tempos de turbulência política e pandemia foi (e tem sido) uma experiência transformadora, não somente no sentido profissional ou nos estudos, mas na vida em geral, significando uma outra forma de olhar a vida e buscar possibilidades, de nutrir-se com esperança.
Referimo-nos, portanto, a tempos turbulentos, de insatisfação, medo, insegurança e isolamento. Nessas condições, foram tecidas as palavras enunciadas neste texto, que vai expor a possibilidade de tecer pensamentos com as crianças e as infâncias, pela pesquisa em espaços não corpóreos de relacionamento acadêmico. Trata-se de um artigo que tem sua origem na provocação. Na medida em que o apartheid político foi se fortalecendo no cenário social brasileiro1, sendo extrema direita de um lado e progressistas de outro, as relações foram ficando esgarçadas e as redes sociais se tornaram o lugar para descontentar, se expor e expor, mas também fortalecer alianças. Com o acontecimento da pandemia do Covid-19, que estabeleceu o isolamento social ao longo do ano de 2020, a partir do mês de março, a escrita da tese (Menezes, 2021) se deu nos tecidos que foram produzidos nas malhas das redes sociais, em especial o WhatsApp, colocando a experiência no centro organizador das ideias, com Bakhtin e seus leitores.
Nossos pensamentos em torno dos sentidos de experiência encontram-se com as ideias bakhtinianas sobre eventicidade e acontecimento. Bakhtin traz o “ser-evento em eventicidade”, quando fala do “acontecimento” tomando-os no sentido da participação dos humanos no mundo, e é com esse sentido que compreendemos a experiência relacionada à infância, às crianças e à educação de crianças no Brasil, temas centrais na pesquisa que deu origem a este artigo (Bakhtin, 2015, pp. 337-357). Os escritos de Bakhtin produziram uma grande e singular diversidade de pensamentos, principalmente entre os leitores brasileiros. Seus trabalhos sobre os gêneros do cotidiano, das multidões, a fala mundana, e como tudo isso se desdobra nos romances é, sem dúvida, o que nos aproxima das crianças enquanto pessoas de pouca idade, mas que estão no mundo.
Ainda que o ser-evento em eventicidade seja um conceito criado por Bakhtin, presente, entre outros, no texto “Reformulação do livro sobre Dostoiévski” (2015, pp. 337-357), que posicionou o ser humano em um mundo físico, em concretude, tomamos esse conceito como uma possibilidade para pensarmos as relações humanas em diversas dimensões, inclusive aquelas não corpóreas, as quais incluímos as redes sociais na Internet. As ideias da amorosidade e da alteridade entre as pessoas em eventicidade, propostas por Bakhtin, nos permitem pensar a interação em universos virtuais, com ou sem a relação face a face, de modo que não nos percamos em nossa presença no mundo, ou melhor dizendo, ainda que não estejamos em corpo presente, o mundo virtual tem espaço para a enunciação do ser-evento, em eventicidade.
A Internet, neste texto, está sendo compreendida como um acontecimento, um fenômeno comunicacional. O objetivo proposto não é tratar deste fenômeno com todas as suas dimensões, mas pensar com Bakhtin e seus leitores, as redes sociais, em especial o WhatsApp, como um espaço-tempo de produção de conhecimento para grupos de pesquisa cujo centro organizador das ideias é atravessado com as crianças e infâncias brasileiras. Pensamos essa rede social e a debatemos neste texto como um cronotopo muito peculiar, mas absolutamente potente; uma outra grande estrada, que não desmerece a grande estrada da vida, trabalhada por Bakhtin em consonância com o encontro (2014, pp. 222-223). Para o autor, as pessoas são essencialmente expressivas, sendo a sua expressividade aquilo que as coloca em presença no mundo, que as perpetua. Um outro pensador do Círculo, Volóchinov (Bakhtin/Volochínov, 1999) coloca que a expressividade não tem sua base no psiquismo humano, no indivíduo, mas “(n)a situação social mais imediata e no meio social mais amplo”, ou seja, o princípio do ato é externo à pessoa e só é possível em interação verbal, ainda que não implique que esta interação seja corpo a corpo, face a face (1999, p. 113; itálicos do autor). A interatividade na internet, assim, nos tem provocado a compreendê-la como um acontecimento da contemporaneidade que vem possibilitando uma outra estética da criação verbal.
1 Apontamentos metodológicos
O isolamento social imposto pela pandemia do COVID-19 como medida sanitária de urgência, produziu consequências mundiais e bem severas no Brasil. Os estudos e pesquisas acadêmicos se deslocaram para os campos virtuais, seminários e encontros, conversas e debates, assim como a rede social WhatsApp, que se tornou uma sala de encontros para muitos grupos de pesquisa, para que a academia pudesse continuar produzindo a sua ciência e fortalecendo a soberania do país. Parte dos estudos e pesquisas no doutoramento, na produção da tese que originou este artigo, se deu no isolamento social, utilizando o WhatsApp como ponto de encontro e de apoio, assim como a leitura contemplativa com a tradução responsiva como metodologias que, ressaltamos, foram utilizadas na pesquisa e na produção da dissertação de mestrado, que antecedeu a tese de doutorado.
Amorim afirma que “a compreensão não é o lugar de transparência e saturação do sentido, mas lugar de mediação” (2004, p. 48). Isso implica remexer uma lógica há muito instaurada, principalmente nos discursos científicos em que o lugar da leitura é o lugar da compreensão e apreensão dos sentidos expressos nesses discursos. Na experiência com a leitura e com a escrita “há sempre algo que pensamos e que vivemos que nos escapa ou, ainda, devemos considerar que não há como garantir que, mesmo expresso de certa forma, os sentidos não escapem no ato de compreensão” (Menezes, 2015, p. 167).
A tradução responsiva se constitui como um procedimento, uma metodologia para os diálogos, as interrogações que nos atravessaram na experiência de investigação e na escrita do texto. Portanto, entendemos que não somos aquilo que escrevemos, mas também não estamos apartados daquilo que enunciamos em nossas escrituras. Daí a necessidade do ato responsivo do/a pesquisador/a para com suas traduções, para que estas não se tornem a representação pura de si, apagando o que há do outro na sua tradução, e nem a sobreposição dos outros em relação ao eu-pesquisador, pois desta forma não há como garantir a autoria do ato (Bakhtin, 2017). Neste sentido, na experiência com a pesquisa compreendemos que “não há como separar a leitura contemplativa da tradução responsiva, pois ambas são atos criadores do pensamento, ou seja, sem a leitura contemplativa da palavra-ato do outro, a tradução torna-se vazia no que tange à responsividade” (Menezes, 2015, p. 87).
A produção de apontamentos foi, também, uma estratégia metodológica, pois a participação nos encontros virtuais do grupo, nas conversas pelo WhatsApp, além de outros eventos acadêmicos que aconteciam na Internet, como lives e webinários, permitiu produzir páginas de apontamentos que foram utilizados em diálogo com a revisão de literatura nas obras de Bakhtin e Bakhtin/Volochínov (2017, 2014, 2015, 1999), para pensar a discursividade no WhatsApp como uma “nova estética da criação verbal”.
O conceito de cronotopo também atravessou a pesquisa e, consequentemente, a escrita deste artigo mobilizado como uma estratégia metodológica. A definição de cronotopo de Bakhtin (2014) possibilita, entre muitos outros aspectos, compreendê-lo como ferramenta de leitura, permitindo pensar os gêneros discursivos, em especial os gêneros romancescos, e tomá-los como fresta para olhar a vida com todas as suas questões, desvios e distorções, plena em sua pluralidade de acontecimentos: plural em vozes, plural em sentidos. Assim, o cronotopo como uma ferramenta metodológica atua na leitura contemplativa e na tradução responsiva como um centro organizador das ideias, além de contribuir na produção de contextos espaço-temporais (Menezes, 2015; 2021).
A pesquisa de doutorado trouxe uma investigação em dois perfis de WhatsApp, sendo um criado em agosto do ano de 2016, para reunir professores/as e pesquisadores/as interessados/as nas unidades universitárias de educação infantil, instituições de educação de crianças pequenas vinculadas às universidades, que na ocasião em que a escritura da pesquisa foi produzida, este grupo reunia 92 pessoas. O outro grupo, criado em abril de 2018, era destinado às conversas e trocas de mensagens entre os membros do grupo de pesquisa ao qual a tese de doutorado, aqui referendada, vincula-se. Este segundo grupo, naquele momento, reunia 22 participantes, entre estudantes dos cursos de mestrado e doutorado, graduandos em Pedagogia, professores e professoras da rede pública.
Foram coletadas conversas sobre muitas questões, considerando as crianças, as infâncias e a educação infantil, temas que, de certa forma, constituíram a identidade e os interesses em comum entre os/as participantes de ambos os grupos. Essas pessoas, em grande parte mulheres, encontraram no WhatsApp uma arena dialógica de militância e pesquisa com as crianças e as infâncias, para além das adversidades vividas pelas professoras da educação infantil em instituições públicas, ou melhor dizendo, pela docência na educação infantil, assim como pesquisas com crianças, ocupando o lugar do infantil, daquilo que necessita controle e vigilância; do lugar comum, menor, menos importante e, por isso, com menor remuneração, com menor fomento, somando-se muitas outras formas de desigualdades que, relacionadas ao gênero, à idade, à raça, entre outros marcadores, motivariam um grande debate que não caberia no espaço deste artigo.
Dia a dia, a captura das telas com os acontecimentos discursivos dos dois grupos, aqui investigados, gerava imagens que nos ajudavam a pensar a constância, as estabilidades, os temas e enredos das conversas, as motivações que geravam as trocas de mensagens, considerando os diferentes graus de intimidade entre os/as participantes, já que eram grupos distintos em sua composição, mas com similaridades. O grupo com maior número de participantes reunia majoritariamente mulheres servidoras de escolas de educação infantil universitárias, em diferentes regiões do Brasil, além de pesquisadoras, com ou sem vínculo empregatício com essas instituições. Ou seja, algumas pesquisadoras eram professoras das escolas e outras das universidades às quais estavam vinculadas naquele momento. Portanto, muitas pessoas se falavam pelo WhatsApp sem nunca terem trocado olhares presencialmente. O outro grupo tinha um grau de proximidade muito maior, assim como intimidade e vínculo, já que era um grupo de pesquisa que, por conta do isolamento social, encontrou no WhatsApp a sua sala de encontros. Portanto, “um grupo deslocado no espaço e no tempo”.
A leitura contemplativa das mensagens no perfil, além da captura de algumas telas para destacar questões fundamentais na análise e escrita do texto, foram essenciais como metodologias. Elas possibilitaram a produção de uma narrativa escrita na e pela palavra-ato do outro, sem a qual a tradução tornar-se-ia vazia no que tange à responsividade, ou como bem traduziu Bakhtin ao pensar o lugar do eu/autor em relação ao outro/personagem:
Aquele que sofre não vivencia a plenitude de sua expressividade externa, ele só a vivencia parcialmente e ainda por cima na linguagem de suas autossensações internas: ele não vê a tensão sofrida dos seus músculos, toda a pose plasticamente acabada do seu corpo, a expressão de sofrimento do seu rosto, não vê o céu azul contra o qual se destaca para mim sua sofrida imagem externa. E mesmo que ele pudesse ver todos esses elementos, por exemplo, diante de um espelho, não disporia de um enfoque volitivo-emocional apropriado a esses elementos, estes não lhe ocupariam na consciência o lugar que ocupam na consciência do contemplador (2015, p. 24).
2 Tecendo uma outra estética da criação verbal
As redes sociais vêm produzindo novos cronotopos para pensarmos os humanos e as humanidades na contemporaneidade, e por isso nos inspiramos nesse acontecimento para investigar a presença das crianças nesses cronotopos contemporâneos, a produção das culturas infantis e como os adultos vêm pensando e lidando com as crianças nas redes socais
Pensamos com Bakhtin (2015), que o objeto das ciências humanas são seres expressivos e falantes, o que implica localizá-los em todos os campos da vida humana e não somente nos campos da ciência. Portanto, as rodas de conversa, os acontecimentos da vida cotidiana, da cultura, as produções artísticas, enfim o mundo em que os humanos habitam é prenhe de seres humanos, e assim sendo, um campo fértil para nossas capturas nas experiências da pesquisa. Nesse sentido, entendemos o campo virtual, que se constitui fora da materialidade, fora da concretude, como expressiva realidade. Há potência de realidade e de concretude neste campo e, por isso, estamos tomando sua dimensão para pensá-lo como um campo da vida humana em diálogo com o pensamento bakhtiniano.
Sobre o WhatsApp, ressaltamos que é um programa de conversas desenvolvido por Jan Koum, um ucraniano que nasceu em Kiev, em 1976, mas migrou muito cedo para os Estados Unidos, e foram suas experiências no território americano que o levaram a criar este aplicativo, em 24 de fevereiro de 2009.
Inicialmente, o Whatsapp era uma ferramenta de comunicação instantânea apenas para dispositivos móveis, mas as versões mais recentes podem ser utilizadas tanto em dispositivos móveis (smartphones e tablets) como em computadores pessoais através dos navegadores de internet Google Chrome, Mozilla Firefox e Opera. O aplicativo disponibiliza diversos recursos interessantes de comunicação como o envio de texto, fotos, áudios, vídeos e recentemente passou a disponibilizar a opção de efetuar ligações (Kaieski, Grings e Fetter, 2015, p. 4)
Então, o WhatsApp pode ser entendido como um aplicativo de mensagens instantâneas e simultâneas. São bate-papos, conversas cotidianas, ou seja, formas de interação que foram pensadas e discutidas por Bakhtin e o Círculo nos estudos sobre gêneros cotidianos (2014, 1999). É possível conversar com muitas pessoas ao mesmo tempo, e são os números do telefone celular que nos inserem nesta rede. Assim, simultaneamente é possível encontrar pessoas e participar das conversas que acontecem nos grupos e contatos pessoais que são formados no WhatsApp, o que faz desse aplicativo um espaço pluridialógico muito peculiar; um lugar de encontros que não são fortuitos, pois de alguma forma convocamos o outro(a)/outros(as) para a conversa, ou somos por esse outro(a)/outros(as) convocados(as) (Bakhtin, 2014).
O WhatsApp, em nossa concepção, se junta à arte, à ciência e à cultura como um quarto campo da vida humana: o campo virtual, onde a vida humana se dá em potência e não em presença física. Como campo da atividade humana, o WhatsApp está ligado ao uso da linguagem, ou seja, neste campo há humanos e humanas enunciando o tempo todo. Para Bakhtin, os campos da vida humana misturam-se, porém não se diluem. Desta forma percebemos o WhatsApp: arte, vida, cultura e virtualidade, tudo em presença na constituição deste cronotopo (2015, pp. XXXIII e XXXIV). O que é enunciado nesse aplicativo, apresenta um conteúdo temático, estilos de linguagem e construção composicional que nos permite pensá-lo como um gênero discursivo cotidiano. Em essência, são as conversas cotidianas e outras “comunicações discursivas imediatas” que constituem esse aplicativo em relação à linguagem (Bakhtin, 2015, p. 262), porém há outros gêneros que podem ser compartilhados, como textos acadêmicos, músicas, imagens, entre outros, alargando as dimensões comunicacionais do que é enunciado nas mensagens instantâneas pelos/pelas participantes dessa rede.
Entretanto, não estamos considerando o WhatsApp uma obra literária, um gênero discursivo complexo; ele não é um portador de textos, embora seja possível acessar muitos manuscritos e até livros nesse aplicativo, mas não é essa a questão crucial, ou seja, não é portar textos a finalidade desta rede social, mas possibilitar o encontro, a conversa. O WhatsApp é, portanto, um cronotopo, um grande lugar de encontros pluridialógicos. A velocidade e a simultaneidade que marcam a comunicação nesta rede social, assim como a sua dimensão espaço-temporal, sem demarcações, sem fronteiras e com amplitude continental, nos permitem pensá-la como multicronotópica.
Ao analisar os romances, Bakhtin considerou que há cronotopos que são mais condensados com relação aos acontecimentos da vida dos personagens, como a sala de jantar, a sala de visitas, o castelo; e há outros com menor intensidade de condensação, como o cronotopo da soleira. Mas, é na “grande estrada”, um cronotopo onde boa parte dos encontros se dão ao acaso, que encontramos uma questão com a qual tivemos muita empatia: não há distanciamento social entre as pessoas que se encontram ou, pelo menos, essas hierarquias não se evidenciam no encontro, até porque o acaso que entrelaça os destinos daqueles que se encontram disfarça, de certa forma, as distâncias sociais, mas não priva a potência dialógica deste cronotopo: as pessoas se esbarram, se encontram e de alguma forma se afetam em seus destinos, embora os conflitos não sejam a tônica nesses acontecimentos, por isso são encontros fugazes (2014, p. 352).
Para Bakhtin, quanto menor a condensação mais efêmero é o acontecimento, e quanto mais condensado o cronotopo, maior a intimidade e a aproximação, o que implica uma dialogia mais complexa, mais conflituosa, mais contrastante. Entretanto, o “principal nisso tudo é o entrelaçamento do que é histórico, social e público, com o que é particular e até mesmo puramente privado [...]” (2014, p. 352). Estamos compreendendo que o entrelaçamento ao qual Bakhtin se refere é o princípio ativo dos encontros, funcionando como balizadores éticos, que podem ter maior aproximação com a vida pública, social ou com a vida privada, revelando até mesmo acontecimentos “de alcova” (2014, p. 352), conforme os graus de intimidade entre as pessoas que se encontram, o que é perceptível no perfil do WhatsApp do grupo de pesquisa.
Portanto, pensamos o Whatsapp como um cronotopo que nos coloca no mundo em potência: o mundo está em potência, os humanos e humanas estão em potência, as experiências, os acontecimentos também estão, e são válidos e aplicáveis na realidade presencial, isso porque o WhatsApp, como toda a forma de comunicação digital, cria uma realidade virtual que não é paralela, mas uma realidade em uma dimensão simultânea à vida corpórea.
Na interação nos perfis de WhatsApp analisados na pesquisa, foi possível observar outros elementos que integram este cronotopo peculiar, incluindo os não verbais, como fotografias, por exemplo. São outros gêneros enunciando algo como um convite, um debate, uma notícia, mas é a conversa a espinha dorsal nas experiências discursivas que são vividas nesse espaço, e neste sentido pensamos o WhatsApp como um cronotopo, no qual o gênero que predomina e pelo qual se dão as práticas discursivas é o gênero cotidiano, com especial destaque para as conversas orais e escritas (mensagens de áudio e texto, além de figurinhas e emojis).
Pensamos que o WhatsApp tem proximidade com o salão-sala de visitas, na forma como Bakhtin pensou este cronotopo. Compreendemos que neste espaço-tempo os encontros se dão com maior intensidade, pois “já não têm o [...] caráter especificamente fortuito do encontro da ‘estrada’ ou no mundo estrangeiro” (Bakhtin, 2014, p. 352). Portanto, essa ausência ou quase ausência de casualidade contribui para um estreitamento das relações entre as participantes e, como nos romances, em que o surgimento desse cronotopo da sala/salão de visitas trouxe os diálogos para o interior da narrativa, trazendo com isso as paixões, motivações, desejos e outros traços marcantes da personalidade dos heróis, No WhatsApp os diálogos/conversas são a tônica, pois nele estamos mais próximos/as e por isso mais íntimos/as, nossa presença é muito mais visível, ou melhor dizendo, os diálogos são definidores do espaço e do tempo no encontro. Um misto de emoções se entrelaça com as pautas que compartilhamos e pelas quais existimos nesse cronotopo, pois somos escutadoras/leitoras/falantes e, também, sabemos algo mais sobre a pessoa com quem nos comunicamos, ressaltando que esse “algo mais” tem muito a ver com o contexto da fala, do falante, o contexto extra verbal da realidade (a situação, o ambiente, a pré-história) e o contexto que a rodeia. Enfim, toda essa inter-relação de circunstâncias que envolvem os encontros no mundo presencial e constituem o enunciado e a enunciação em seu conjunto estão também presentes no cronotopo do WhatsApp.
Entretanto, percebemos, também, no WhatsApp, traços da “grande estrada”, só que a “grande estrada” dos encontros combinados, desejados, queridos, pois sempre haverá a grande estrada onde haja vida pulsando, pessoas se encontrando, deslocamentos, transformações.
Pensar como se dão as alteridades entre os falantes no WhatsApp é também uma questão na escrita deste artigo. Falar dos heróis/personagens, suas relações e da autoria. Para pensar esta relação autor/personagem-herói neste cronotopo tão peculiar, tomamos algumas premissas bakhtinianas. Não estamos com isso considerando a existência de um autor(es) e de uma ou mais personagens como seres distintos (o criador e a criatura) nos enredos criados no WhatsApp, embora reconheçamos a existência de uma consciência que abrange e conclui outra consciência, como acontece com o autor e a personagem na atividade estética:
[...] o autor não só enxerga e conhece tudo o que cada personagem em particular e todas as personagens juntas enxergam e conhecem, como enxerga e conhece mais que elas, ademais enxerga e conhece algo que por princípio está inacessível a elas (Bakhtin, 2015, p. 11).
Portanto, a consciência do autor é abrangente, transgrediente e responsável pelo acabamento não só da personagem e sua vida no enredo, como da obra em seu conjunto, o que nos leva a considerar que a autoria nos processos enunciativos no WhatsApp não acontece como nos romances, em atos criadores de personagens e tramas, mas na forma de um autor-pessoa, que realiza uma espécie de deslocamento da pessoa no mundo presencial para o perfil-status no universo virtual: esse autor-pessoa se apresenta em duas dimensões: uma corpórea real e outra corpórea virtual. Consideramos, também, uma interpelação do autor-pessoa real no autor-pessoa virtual, no sentido da abrangência e da transgrediência que a consciência do primeiro tem sobre a consciência do segundo, ou melhor dizendo, é possível para o autor-pessoa controlar sua participação nos acontecimentos discursivos que se dão no WhatsApp, no qual participa como perfil-status, assim como existir, porque enuncia sua posição nas pautas e debates que são dados como possibilidade para a participação de todos e todas.
Bakhtin nos diz em sua teoria sobre os romances, que a personagem “vive de modo cognitivo e ético”, cujo ato no enredo da obra é guiado pelo autor (2015, p. 11), porém esta forma de criação, ou seja, autor-criador de personagens e enredos, não acontece no cronotopo do WhatsApp: as pessoas estão deslocadas simultaneamente em dois mundos distintos e se tornam duas pessoas ao mesmo tempo, sendo uma delas o perfil/status, uma personificação de usuário da rede, que não se traduz em uma personagem, portanto não é uma fantasia, não é ficção, pois cada participante está em vivenciamento ativo na vida virtual, ou seja, há materialidade no perfil/status, só não há presença corpórea real, pois este corpo é virtual. Por isso, entendemos que no cronotopo do WhatsApp somos, ao mesmo tempo, a consciência e a consciência da consciência; incorporamos as duas consciências ativamente: a consciência do autor/pessoa e a consciência do perfil-status. Assim, é possível dizer de uma autopersonificação da pessoa e, também, sobre o autocontrole dos atos desta pessoa personificada (perfil/status) neste cronotopo. É nesse movimento que perpassam as alteridades: a pessoa consigo, com a sua personificação (sua outra de si) e com os seus outros, considerando qual ou quais formas os acontecimentos são tratados e como os vivenciamos na totalidade de nossas vidas e de ambos os mundos, real e virtual.
Conclusão
Com o intuito de um contorno para um acabamento possível, Bakhtin, com sua filosofia da linguagem, nos ajuda a compreender o WhatsApp como um lugar de encontros verbalmente interativos e extremamente dialógicos. O WhatsApp é um cronotopo que permite pensar a pesquisa militante, já que neste espaçotempo é possível que as alteridades se coloquem sobre as identidades, permitindo que as pessoas se relacionem lado a lado, dispensando todas as formas de hierarquias.
Compreendemos as relações que se dão neste cronotopo peculiar como constituídas na e pelas atividades ética e estética, embora não o consideremos uma obra literária, mas o tecido discursivo se constitui nessa relação que, conforme Bakhtin explicita “[...] toda relação de princípio é de natureza produtiva e criadora” (2015, p. 4). Nos cronotopos dos romances, segundo Bakhtin postulou, o autor trava uma luta consigo mesmo para criar uma personagem cuja imagem não seja a sua semelhança. Já no cronotopo do WhatsApp a luta é travada em defesa da consciência da pessoa fora deste mundo, embora, também, pelo direito a uma personificação estética, o direito a ambas as consciências estarem ativas e dialógicas, entre si e com os demais, pois se coincidirem, lado a lado, estaremos diante de um acontecimento puramente ético: o eu-para-si, que jamais poderá ser contemplado pelo outro. Bakhtin (2015) nos afirma que na medida em que temos consciência de nossa presença no mundo existencial já estamos, com isso, sugerindo a existência de um outro interessado em nós e talvez seja essa a grande potência do cronotopo do WhatsApp: um espaço-tempo privilegiado para a produção de alteridades entre as pessoas, porque é um lugar de encontros e aproximações pluridialógicas e mais horizontais. E é nesse sentido que o aproximamos da “grande estrada”, ou seja, o grande lugar de passagem na vida em que estão todos lado a lado e, por isso, podem praticar o amor desinteressado, com pitadas de eloquência e de casualidade. Mas, também, consideramos que há enredos, há tramas, há condensação espaço-temporal, há pontos de interseção nos acontecimentos, o que faz deste cronotopo um grande salão de visitas também, onde as pessoas ali entram por motivações comuns, por elas se atraem, se repelem, se conflitam, se contrastam.
Portanto, uma riqueza que ganhou destaque na pesquisa e motivou a escrita deste artigo ou, com outras palavras, pensar com Bakhtin o WhatsApp como um cronotopo, pensar como se dá a criação verbal neste cronotopo e, a partir daí, tomar o WhatsApp como potente na produção de uma prática de pesquisa militante com as crianças e as infâncias.
Na experiência com a pesquisa compreendemos, com Bakhtin, que em nossas investigações, algumas palavras podem assumir sentidos e contornos muito potentes no tecido discursivo que é produzido na escrita dos textos. A palavra pesquisa, então, assume essa característica, pois com ela vamos compreendendo a experiência da pesquisa como um ato responsivo com a ciência, com a vida e com a cultura.
Concordamos com Bakhtin quando diz que qualquer objeto do saber pode ser objetificado, transformado em coisa, entretanto isso não é possível com o humano, que não pode ser percebido e estudado “como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo”, e acrescenta ainda que “consequentemente o conhecimento que se tem dele (do humano) só pode ser dialógico” (2015, p. 400). Portanto, a pesquisa como atividade humana é uma experiência ativa, envolve um “ativismo cognoscente” entre os saberes e os sujeitos: o objeto do conhecimento e o sujeito, o conhecedor e o que é dado a conhecer, tudo entrelaçado com a vida, com a cultura e com a ciência, porque não há como separar o humano dos seus campos de existência. As Ciências Humanas são necessariamente ciências dialógicas e precisam promover um ativismo dialógico entre as consciências: tanto as vozes que criam quanto aquelas que contemplam são consciências vivas e ativas. Portanto, em diálogo com Bakhtin, compreendemos a pesquisa como um ato volitivo de um sujeito em resposta ao outro.
A militância, que é outra ideia que lançamos para germinar pensamentos, se constitui na materialização da responsividade, e todo ato responsivo é um ato de alteridade. O mundo da alteridade é um mundo militante: vamos ao outro munidos/as pelo amor desinteressado que temos por ele/ela; vamos ao outro para produzir, com ele/ela, uma posição; vamos ao outro para dali produzir um olhar em que possamos ter empatia e amorosidade pelas posições diversas, e este precisa ser o lugar do/da cientista que se debruça com as crianças e as infâncias para não correr o risco de perdê-las pelo caminho. Uma pesquisa militante, assim, é capaz de submeter-se a uma ordem, mas não a uma ordem imposta; compreende o lugar da significação, mas reconhece que são os sentidos que produzem arenas dialógicas e eles são abertos, disponíveis, pois caso contrário a pesquisa se torna árida. Se a pesquisa é uma experiência responsiva e a militância uma experiência com a alteridade, as duas juntas são a melhor leitura possível com a infância, pois na nossa compreensão, somente uma pesquisa militante tem potência para aproximar-se da infância e compreendê-la como uma arena infantil de produção de sentidos, que em qualquer tempo desestabilizam e ressignificam as culturas adultas.
Assim, essas duas palavras encharcadas de potência dialógica estiveram como balizadoras éticas e estéticas na produção da tese e, agora, neste artigo. Palavras que se constituíram em um campo materializado na e com a experiência dos/das pesquisadoras, mas que, com a tragédia da pandemia do COVID-19, nos anos de 2020 e 2021, encontraram no WhatsApp condições de continuar existindo e enunciando.
-
1
Aqui estamos nos referindo ao Golpe de Estado que o país sofreu com o impeachment da Presidenta eleita Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016, que mergulhou a democracia brasileira em tempos sombrios.
-
Pareceres
Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
Declaração de disponibilidade de conteúdo
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
REFERÊNCIAS
- AMORIM, Marília. O pesquisador e seu outro Bakhtin nas Ciências Humanas São Paulo: Musa, 2004.
- BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos/SP: Pedro & João Editores, 2017.
- BAKHTIN, Mikhail. Arte e responsabilidade. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2015. pp. xxxiii-xxxiv.
- BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem na atividade estética. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2015. pp. 3-192.
- BAKHTIN, Mikhail. Reformulação do livro sobre Dostoiévski. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2015. pp. 337-357.
- BAKHTIN, Mikhail. O romance de educação e a sua importância na história do Realismo. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2015. pp. 205-258.
- BAKHTIN, Mikhail. Metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2015. pp. 261-306. [Adendo]
- BAKHTIN, Mikhail. Formas de tempo e de cronotopo no romance (Ensaios de poética histórica) I. O romance grego. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética A teoria do romance. Tradução Aurora F. Bernardini et al São Paulo: Editora Hucitec, 2014. pp. 213-233.
- BAKHTIN, Mikhail. Formas de tempo e de cronotopo no romance (Ensaios de poética histórica) - Observações finais. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética A teoria do romance. Tradução Aurora F. Bernardini et al São Paulo: Editora Hucitec, 2014. pp. 349-362.
- BAKHTIN, Mikhail (VOLOCHÍNOV, V. N). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira, com colaboração de Lúcia Teixeira Wisnik e Carlos Henrique D. Chagas Cruz. São Paulo: Editora Hucitec, 1999.
-
KAIESKI, Naira; GRINGS, Jacques Andre; FETTER, Shirlei Alexandra. Um estudo sobre as possibilidades pedagógicas de utilização do Whatsapp. CINTED-UFRGS Novas Tecnologias na Educação Porto Alegre/RS. v. 13 nº 2, pp. 1-10, dezembro. DOI: https://doi.org/10.22456/1679-1916.61411
» https://doi.org/10.22456/1679-1916.61411 -
MENEZES, Flávia Maria de. Formas de pensar pesquisa-militância-infância com o Grupo de Pesquisa Infância e Saber Docente: Ensaios bakhtinianos, 2021, 156 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/17165 Acesso em 15 mai. 2026.
» https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/17165 -
MENEZES, Flávia Maria de. Onde estão as crianças da Carochinha? Uma investigação na relação pesquisador/criança na produção de conhecimento de uma creche universitária, 2015, 204 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/10717 Acesso em 15 mai. 2026.
» https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/10717
-
Editora responsável
Maria Helena Cruz Pistori
Parecer II
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer II
O presente texto traz uma temática relevante e atual, com potencial interpretativo. O título atende à expectativa do seu objeto de pesquisa sobre a pesquisa científica e o WhatsApp no contexto de pesquisa. Contudo, apresenta fragilidades teórico-conceituais, metodológicas e redacionais. Em destaque, uma distorção epistemológica no estudo, pois a pesquisa propõe pensar a experiência discursiva do WhatsApp como uma outra estética da criação verbal, o que teria um foco estético-linguístico, mas o enfoque que ganha evidência é o filosófico-sociológico de ênfase política e metodológica. Sugiro reforçar o escopo teórico-conceitual do estudo, direcionado para articular mais teóricos da linguagem. Quanto às fragilidades teórico-conceituais, ele não fundamenta os conceitos de eventicidade e de ser-evento, os quais aparecem como significados pressupostos para o leitor, isso dificulta a compreensão teórica do texto. Ainda sobre fundamentação conceitual, faltou apresentar uma explicação teórica explicativa para o conceito de responsividade e de expressividade. Sobre o aspecto metodológico, destaco: a) a ausência de explicação da categoria analítico-metodológica: leitura contemplativa; b) ausência da sistematização mais criteriosa na coleta de dados (produção de informações, os critérios de seleção dos participantes, suas características e os tipos de unidades universitárias e instituição de educação; c) critérios de seleção de telas e de conversas no WhatsApp; d) ausência de cuidados sobre questões éticas, quanto ao: 1) anonimato e confidencialidade dos participantes; e 2) consentimento de participantes; e) não caracterização do tipo de pesquisa, exemplo: pesquisa militante, acerca da qual faltou fundamentação teórica, que poderia ser sustentada em Paulo Freire, Antonio Gramsci ou em outro teórico que tenha uma discussão que articule teóricos de perspectiva do materialismo histórico-dialético. Sobre os aspectos redacionais, destacamos: a) a ausência de variação lexical, com o uso reiterado de termos como: “assim” e “portanto”; b) expressões carregadas de subjetividade em um estudo científico que deve apresentar um padrão objetivo, embora com uma perspectiva que possa ser reflexivo-interpretativa; exemplo dessas expressões: “nos inspiramos” e “para nós é emblemático”. Equívocos no emprego da ABNT/NBR 6023:2025, referências, e de citações: está (Kaieski, Grings e Fetter, 2015, pp. 4) e deve ser (Kaieski; Grings; Fetter, 2015, p. 4) e o uso equivocado de pp., para indicar páginas. APROVADO COM RESTRIÇÕES [Revisado].
- recomendação: aceitar
